Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Que venha 2011!

Tá bom. Reconheço a rabugice da semana passada. A coluna “É Natal. E daí?” pode até ter tido lá os seus excessos, mas continuo assinando em baixo tudo o que escrevi em relação às incoerências do período. Ficamos no meio a meio, ok!? 4x4, já que Paula, Lucio, Mauro e André escreveram dizendo que o Natal é legal; e Vanessa, Ediberto, Rubinho e Batata espinafraram a hipocrisia que ronda o mês de dezembro. Então, por hoje não falamos mais no assunto. Vamos olhar pra frente porque dezembro já é quase passado. Falta uma beiradinha só pra gente virar a folhinha e começar a contar os dias, cheios de gratidão e otimismo, de novo.

Acho um barato esse lance de calendário. Quem inventou isso foi genial. O ruim é só porque marca o quanto a gente envelhece. Bom, mas a gente ia envelhecer de qualquer maneira, não é!? Afinal, só não envelhece quem já morreu. O caso é que conto os meses com muito gosto. E não sou do tipo que fica olhando pra trás. Coisa boa é poder olhar pra frente, amigo leitor. Com ou sem a ajuda do calendário, gosto de rumar o futuro. Sei que pode parecer uma incoerência, já que, se pararmos pra pensar, o futuro nem existe. Mas a maneira que encontrei de pensar no futuro é viver muito intensamente o presente. Sei bem que cada passo que dou hoje reflete logo ali na frente. Então, comigo é assim: rumo o futuro com os pés bem firmes no presente.

Gratidão e otimismo. Só tenho a agradecer por 2010 e esperar muito, com fé e esperança, de 2011. Disse o Jabor: “A vida gosta de quem gosta da vida” – também não esqueço a frase, Neidinha. Coisa boa é viver bem. E viver bem é pra bem poucos. Porque tem gente que só sabe mesmo é reclamar. São os que chamo “vampiros de energia”, capazes de secar até plantação de pimenteira. Tem gente assim, aos montes, por aí. Mas desses escrevo outro dia, porque isso rende assunto pra mais de metro. O negócio é não dar confiança e olhar pra frente. Todo mundo tem problema. O lance é como cada um lida com os seus desacertos. Pra mim, digo sempre, tendo saúde, o resto é lucro e ponto de vista.

Aprendi cedo com o velho Botelho a não confundir mal-estar com doença, tampouco força das circunstâncias com azar. O mais, é lá com meu São Jorge guerreiro, que me protege de noite e de dia. Sabe, amigo leitor, há um Deus forte e generoso em cada um de nós, tenho certeza, capaz de combater tudo o que não presta. Basta crer sempre. Como? Com gratidão e otimismo. Sempre e cada vez mais. Obrigado, 2010! Que venha 2011, a beira-mar, como um rei de chinelas!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 29/12/10

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A solidão de quem fica

É no Natal que a solidão doída de Iolanda mais aperta. Desde que Maurício se foi, há sete anos, não houve um só dezembro de felicidade na vida da costureira de vestidos finos. Só o prazer pela costura a lhe manter o sentido da casa vazia. O filho? Foi tomar jeito com as forças armadas. Oficial dos bons do Exército brasileiro, vez por outra telefona ou passa e-mail: “Oi! To vivo! E aí? Na próxima folga vou ver se apareço. Câmbio desligo”. Não. Não aparecia. Cresceu largado, sem nunca dar bola para a família. Fabrício não era mau garoto, mas não tinha o menor talento para ser filho – algo bem comum nos dias de hoje. Não que Iolanda não tenha sido boa mãe. Até que foi. Só que depois da viuvez, caiu em depressão profunda e não deu conta de lidar com as manhas do adolescente rebelde.

O garoto pintou e bordou, fez e aconteceu. Tanto deu trabalho que, aos 18 incompletos, acabou saindo de casa para morar em república de desvairados. De lá, dois anos passados, influenciado por primo amigo resolveu prestar concurso para oficial. Só assim deixou as drogas e acertou rumo. Mas da mãe não parecia querer saber. No entanto, a costureira não sofria de morrer com a ausência de Fabrício: “Filho criamos para o mundo”, resignava-se. Era Maurício, o marido, quem mais fazia falta no casão de esquina, no Bairro Santa Tereza. Morto, Iolanda o amou ainda mais. Amava-o com tamanha verdade, que podia senti-lo presente a qualquer tempo ou instante. Algo jamais experimentado ao longo de quase meio século de vida. Iolanda chegava a preparar pratos prediletos do marido para jantarzinhos a luz de velas, sozinha.

Menina ainda, nem bem chegados os 50, mantinha-se vaidosa em homenagem ao piloto. Maurício, comandante de boeings, ao partir ou voltar de suas intermináveis viagens, jamais deixou de elogiar a beleza da mulher. Iolanda não se perdoava por não ter feitor sequer um voo com o marido. Até tentou, mas jamais conseguiu colocar os pés numa aeronave em que o comandante Maurício estivesse. É que Iolanda tinha certeza morrer de desastre de avião e não queria levar o marido. Em todos os grandes passeios juntos foram sempre em voos separados. E assim, em mais de duas décadas, rodaram o mundo. Viagens revividas por fotografias nas paredes da casa. Iolanda passava horas a navegar por todas aquelas lembranças.

A notícia da morte de Maurício foi dura numa manhã de 25 de dezembro: “Sinto muito”, disse o presidente da companhia aérea. Não por problemas com o avião. Infarto fulminante em quarto de hotel no estrangeiro. Minutos antes da fatalidade, Maurício ligou para desejar boa-noite: “Flor, falta você. O quarto é lindo e tem vista para o Pacífico. Boa noite!”. Isso ficou como música, que ainda hoje faz sonhar Iolanda na solidão de quem fica. Forte, a viúva só não da conta de conter lágrima no Natal. Fim de semana ela chorou. Não pelo filho ausente em missão de paz no Haiti. Mas pelo marido piloto no céu, que continua a riscar estrelas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 27/12/10

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

É Natal. E daí?

Entra ano, sai ano é sempre a mesma história. Não gosto do Natal. Pode até parecer rabugice, mas há algo que me encuca: não pode estar certo todo o espírito de bondade, de generosidade, de paz, de amor e de solidariedade estar concentrado numa só época. Melhor seria equilibrar todo esse bem ao longo do ano. É beijo, abraço e tapinha nas costas aqui, ali e mais acolá. Não dou conta. Tenho pra mim que o verdadeiro Cristo nasce todos os dias. No mais é esquema do comércio. Jogada sensacional pra aumentar as vendas. Conversa pra boi dormir.

Não sei onde está escrito que no fim do ano todo mundo tem que amar mais, comer mais, beber mais, e tudo mais. Besteira! Religião à parte, a celebração do nascimento de Cristo bem que merecia ser diária. Uma vez por ano é bem pouco. Talvez o mundo fosse melhor sem o consumo desenfreado e as festanças rasas de fim de ano. No Natal e Ano Novo todo mundo é amigo de todo mundo. Toda gente quer e sabe fazer um social. Haja fartura! Uma beleza! Sabemos não ser bem assim. Relações profundas não precisam de pretexto para se renovar. Renovam-se a todo instante, simplesmente.

Em família, então, para muitos, é uma encenação. O sujeito passa meses sem fazer uma visita, sem dar um telefonema pra saber como vão as coisas. Chega o Natal, é papai pra cá, vovó querida pra lá, uma farsa. Não dou conta. Aí, os meus amigos, companheiros de todos os dias, dizem: “É o espírito do Natal, Josiel”. Espírito do Natal é o da carambola! Espírito do Natal de verdade é outra coisa: é a presença da mente. Conheço sujeitos aos montes que não tem presença que vale um café.

Entendo os compromissos pela sobrevivência. Especialmente aqueles que, muitas vezes (ou quase sempre), nos fazem ficar distantes daqueles que amamos – eu mesmo, agora, por força das circunstâncias, estou bem distante de pessoas muito amadas. Mas quem disse que o amor de todo dia não sobrevive à distância de duas semanas? O que não vale é fazer de 25 de dezembro único pretexto para ser o bom, ser o tal. Sei de gente assim, incapaz de fazer um agrado ao irmão ao longo de 360 dias, e que, no Natal, distribui restos aos estranhos debaixo das pontes.

Contudo, não posso crer que o Natal seja apenas época em que as diferenças se acentuam ainda mais. Aos afortunados, tudo; aos que nada tem: qualquer migalha basta. Afinal, caríssimos, é Natal e é preciso saber agradecer, ora essa. Porque, é claro, há também, um mundaréu de mal-agradecidos. Estes, os piores: os que nada fazem nunca e esperam pela generosidade do outro sempre. Falar disso pra quê? Nasceu o menino Jesus! É tempo de paz – por estes dias apenas. Depois, deixemos o pau quebrar. Ano que vem tem mais Jesus. Francamente, pai! É Natal. E daí?

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 22/12/10

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O olho do capeta

Mateus foi o caçula de família bandida. No barracão de fundos, só ele não era chegado da bandidagem. De resto, o menos ruim era Piolho, dois anos mais velho, que, aos 16, covarde, já havia chutado a cabeça de cruzeirense abatido em noite de vale-tudo. Mateus jamais gostou da nuvem negra que rodeava os cinco irmãos mais velhos. O menor parecia fruto de outra barrigada, já que até a mãe cumpria pena: assassinato. Dasdor matou o terceiro marido, pai de dois de seus filhos, dormindo. Descarregou tresoitão no peito do infeliz. Mateus testemunhou o desabafo de fogo da mãe traída. Os irmãos estavam na rua, no exercício da falta de sorte, entre fogueteiros e soldados do tráfico.

Mais do que a cena de paixão e morte, revelação de Dasdor marcou profundamente Mateus. Enquanto ele chorava em silêncio, a assassina rosnava: “Chore não, minino! Esse traste nem era seu pai. Seu pai é o Padrim. O Padrim!”. Padrim era sobrinho de consideração de Dasdor. Um outro criminoso do círculo. Mais jovem residente de presídio de segurança máxima por tudo que é coisa ruim e formação de quadrilha. Mateus tinha verdadeiro pavor de Padrim: “Ele tem o olho do capeta”, guardava para si. Ainda mais porque Padrim abusou dele, certa vez em que esteve foragido, escondido no barraco. Aquilo deixou o pequeninho tristíssimo. Da tristeza, uma única convicção: “é preciso ser diferente”. Depois que Dasdor foi presa, não demorou para que Mateus abandonasse o barraco e os irmãos. Arranjou trabalho de servente numa obra em bairro de luxo. O chefe da construção gostou da sinceridade do moleque ao pedir oportunidade:

– Pois não, rapaz. Pode dizer.
– Quero a vaga porque na minha casa só tem bandido e eu quero ser diferente.

O bom mestre de obra não só o contratou servente como também deixou que ele morasse por uns tempos na construção e, com isso, ganhasse uns trocados a mais como vigia. Mateus trabalhou e estudou como gente grande. Da obra para o escritório da construtora foi um pulo. Comeu o pão que o diabo amassou para aprender, mas, muito esforçado, antes dos 20 já estava na faculdade de direito. Da mãe e dos irmãos nem saudade ou notícia.

Determinado a ser mais e mais, estudou, estudou e estudou até passar em importante concurso. Nomeado, cheio de orgulho, sem jamais olhar para trás, o Excelentíssimo Juiz Mateus Da Silva e Silva estava pronto para seu primeiro tribunal como magistrado. No banco dos réus, velho conhecido: Padrim, o olho do capeta.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 20/12/10

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Covardia ou ignorância?

De fato, o homem é mesmo de espantar, amigo leitor. Impossível compreender ou aceitar o assassinato do jovem cruzeirense Otávio Fernandes, de 19 anos, flagrado pelas câmeras de segurança do Chevrolet Hall. As cenas divulgadas pelas tevês, que caíram na internet, chocam pela monstruosidade e covardia do crime. Enquanto agonizava no asfalto, agressores pisoteavam e massacravam o garoto. Não há, entre os meus companheiros, um só bom torcedor atleticano ou cruzeirense que não esteja revoltado com a atrocidade do ocorrido.

O Adelson, apaixonado pelo Galo, está possesso: “Isso não é torcida organizada. É quadrilha organizada. Isso não tem nada a ver com as provocações sadias que, na minha opinião, até devem existir entre os rivais. É crime. Não é coisa de torcedor que sabe honrar a camisa do seu time. Torcedor que faz isso mancha a honra do clube. Não é possível que esse povo não tem consciência de que isso é péssimo pra imagem da torcida. Isso não é torcer nem aqui nem na China. Estou revoltado, Josiel. E justamente porque sou Galo desde que nasci. Na minha família todo mundo torce pro Galo e tá todo mundo revoltado também”.

Não tem se falado noutra coisa por esses dias. Oswaldo e Klebinho, torcedores do Cruzeiro, de carteirinha, homens de família e de bem, estão bastante atentos à onda de violência entre torcedores. Conscientes, falaram e chamaram a atenção em ponto de encontro da Avenida do Contorno. O Klebinho sabe das coisas: “É preciso primeiro separar o joio do trigo. Tem cruzeirense que não presta, tem atleticano que não presta. Mas a grande maioria gosta mesmo é da festa. A gente tem que tomar cuidado para não generalizar e não deixar isso contribuir ainda mais com a violência. Tem muito garoto perdido, influenciável por aí. Aí, surge um grupo que prega a pancadaria. Pronto”.

O Oswaldo não perdoa é o vale-tudo: “Vivo falando que essa pancadaria não pode fazer bem. Vocês viram só a pinta do povo que vai ver esse negócio de vale-tudo? Deu no que deu. Se a pessoa não tem juízo acaba contaminada por esse negócio de dar porrada. O povo tá precisando é de mais educação. Enquanto essa garotada não tiver mais educação e responsabilidade, crimes horríveis assim, como essa barbaridade lá na Avenida Nossa Senhora do Carmo, vão acontecer. Escreve isso aí, Josiel. O Aqui tem muita força pode até ajudar a dar mais consciência”. Está escrito, Oswaldo.

Fico com muita pena das famílias dos envolvidos na morte do Otávio Fernandes. Nenhum pai, nenhuma mãe, cria o filho para dar nisso. Família nenhuma merece passar por isso: ver o filho caçado pela polícia e indo parar no xilindró. Criamos os filhos para o mundo e o mundo anda por demais violento. Viver tem se tornado cada vez mais perigoso. Aos familiares da vítima, pobre garoto, nossos sentimentos (colegas da praça). Se não criamos nossos filhos para agredir, menos ainda para fim tão triste, espancados por bando do mal e sem nenhuma chance de defesa.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 15/12/10

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A última lição do mestre K

K estava para morrer. Professor do Zé Coió, aluno nervosinho, ignorante, desses montes que abarrotam as salas das escolas de Belo Horizonte. Mestre K, no entanto, só queria ensinar. E se fosse para morrer, assim sendo, queria morrer no exercício do ensino. Pela educação, morria sim o mestre K. Já Zé Coió não queria aprender. Pensava ter nascido sabendo, cheio de si e de invocação. Desde moleque desconhecia limite, fazia e acontecia. PhD em confusão e pancadaria. Mas Zé Coió, mesmo sem querer, precisava frequentar escola. Fazer o quê? Ao menos para agradar a família ou fingir que estava disposto a valer a pena. Exigência do mercado, coisa da vida. Deu que Zé Coió, homem feito (?) foi parar na sala de aula do Mestre K. Pós-Doutor no trato com alunos-problemas, que, em 16 anos de magistério, já havia resgatado dezenas de maus elementos. “São os que mais precisam da gente”, repetia K, nas reuniões de emergência com a diretoria. E como havia emergência!

Mestre K não se cansava. Vivia para as salas de recuperação. Ainda mais depois que o ensino se tornou negócio dos mais lucrativos, capaz de fazer brotar faculdades pelas paredes, aos borbotões. Com isso, todo mundo, até o sujeito mais despreparado, agora, podia ter curso superior (?). Vestibular pra quê? A moda agora é “processo seletivo diferenciado”. Mamata. Uma beleza! Tem dinheiro pra pagar? Pronto. Tá na facu. Por que não? E os gestores das facus, de Norte a Sul, só no comando: “50. Vamos bater meta. É 50 alunos por turma e não tem mais conversa”. Tá certo. Afinal, a demanda é grande. É tanta gente ignorante. Facu neles!? Educadores como Mestre K chamavam a atenção: “Pessoal, vamos trabalhar a seleção. O nível dos calouros está pela hora da morte”. Para os investidores, sabichões do en$ino, preocupação apenas com a tesouraria: “Primeiro, os negócios. A educação... a educação fica pra depois”.

Enquanto Mestre K tentava recuperar o irrecuperável, nos jornais, notas noticiavam em cor-de-sangue a onda de violência contra professores. No papel, há tempos, ameaça e agressão já são rotina em letras menores, pelos cantos das colunas policiais. Naquela semana, a manchete sensacional estava guardada para Mestre K. Gente boa, atleta, muito mais preocupado em resgatar do que punir gente sem juízo ou falta de noção. Assustado, porém. O professor andava espantado com abuso e desrespeito. K chegou a comentar com colega docente: “A coisa tá feia, Corrêa. Qualquer dia desses, levamos um tiro. Um tiro”. Não demorou o crime anunciado. Dia comum, noite de aula de recuperação. Zé Coió, irado, covarde, mandou ver faca sem dó nem piedade. Não gostou da nota ruim o ignorante. Mestre K, ensanguentado, mesmo sem vida, deixou última lição ao criminoso: ignorância mata.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 13/12/10

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Armário de Sofia

Nas sextas-feiras e sábados de dezembro, acontece a temporada de vendas d’O Armário de Sofia, Brechó-Moda Inteligente. O brechó é baseado na idéia de economia solidária e foi criado para mulheres que adoram moda, mas não se deixam levar por um consumismo exagerado.

O Armário recebe peças em ótimo estado, na sua maioria de marcas famosas, das mulheres que são cadastradas como fornecedoras do brechó. Num segundo momento, as organizadoras promovem a venda destas peças com preços bem abaixo do mercado. É uma lógica em que todo mundo ganha: quem desfaz das peças que estavam guardadas e quem as compra, com preços bacanas.

O Armário de Sofia foi criado pela filósofa Flávia Resende e pela psicóloga Leísa Amaral, apaixonadas por moda. A idéia foi baseada em experiências de trabalho em rede que elas desenvolveram em comunidades carentes, trazendo para a moda a lógica do trabalho em parceria. Juntaram a esta idéia a jornalista Valéria Amorim e a designer Gaby de Aragão. O evento, que já está na 3ª edição, acontece num charmoso espaço de arquitetura.


Serviço:

Local: Rua Santo Antônio do Monte, nº476, bairro Santo Antônio.

Horário: sextas a partir das 14h e sábados a partir das 10h.

Informações: www.oarmariodesofia.com.br ou nos telefones (31) 8668-2484, (31) 9133-8174 e (31) 9699-2984

(Excepcionalmente, na semana de natal – de 20 a 23/12 – O Armário vai funcionar todos os dias, a partir das 10 horas)

As riquezas de Araxá

Não me causa nenhuma surpresa que as superpotências mundiais estejam de olho nas riquezas de Araxá. Documentos ultrassecretos, que vazaram pela internet na última semana, mostram que o nióbio – minério raríssimo, capaz de levantar foguetes – é assunto para estrangeiro graúdo. Não me espanta. Conheço bem Araxá e sei bem das riquezas e dos poderes daquele lugar. Da beleza e da educação de sua gente. Tenho passageiros em alta conta na região. Já provei dos doces e das águas de lá. O que realmente não dá para entender é a quantidade de gente que ainda não conhece o lugar. Vamos ver se agora, na crista da onda, o turismo ganha ainda mais força em Araxá. De resto, é teoria da conspiração. Falamos muito nisso, ontem, na faculdade.

Quem puxou o assunto foi o professor Fabrício, doutor antenado em economia internacional. O homem conhece mais de duas dezenas de países e, acreditem, nunca esteve em Araxá. Dá para crer? Só não pude zoar o nobre camarada porque na turma de 47 alunos só três estiveram na bela cidade do Triângulo Mineiro. Incrível. "Mas vou lá, Josiel. Em janeiro, vou passar uma semana lá, de férias com a família", disse. O professor contou que a maior mina de nióbio do mundo está em Araxá. Falou sobre a importância da reserva e deu verdadeira aula sobre a mineração e os avanços tecnológicos neste século. Grande professor Fabrício! Ainda não esteve em Araxá, mas sabe muito o doutor. Capricha na nota aí, fessô! Brincadeira.

Falei em teoria da conspiração por causa do Xavier. Meu colega na disciplina de comércio exterior – muito bom aluno, por sinal – é bem chegado na questão. Tudo para ele é espionagem e sociedade secreta. E Xavier, claro, é um dos três universitários da turma que esteve em Araxá. Aliás, tem motivos na cidade e, sempre que pode, vai lá matar a saudade de amor mal resolvido. Xavier acredita que entre os cidadãos araxaenses estão espiões interessados no nióbio. "Josiel, não escreve isso não. Quer dizer, pode escrever sim. Esse povo faz de tudo para obter informações sobre pontos assim, de interesse nuclear e espacial. Espiões profissionais podem passar a vida inteira sob disfarce. Li que teve um espião russo que viveu 60 anos como cidadão americano. Aí, velhinho, decidiu chutar o pau da barraca e contar tudo. Só que já estava num asilo e ninguém colocou fé na sua história. Só a repórter da revista".

Xavier é o cara. Ficaria rico se fosse roteirista de cinema. Agora, está desconfiado de um parente da namorada (?) em Araxá. Disse que o senhor tem tudo para ser espião. Parece estrangeiro, é muito misterioso e muito curioso também. Especialmente em relação aos segredos dos doces feitos na cidade. Já o nióbio… bem, o nióbio, segundo o Xavier, é assunto de espionagem extraterrestre.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 8/12/10

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O preço da carne

O Dudu soube pela tia, dona Ilda, da violência sofrida pelo rapper Ice Band, no Bar Brasil 41, em Santa Efigênia. Pareceu-lhe inacreditável que aquele cidadão de bem, que cantava a paz, pudesse ser vítima de tamanha barbaridade, espancado por sete elementos. Para Dudu, moço pobre do morro, órfão de pai traficante – morto a tiros – e filho de mãe doente, Hudson Carlos de Oliveira – o Ice Band – figurava a esperança. Foi o rapper quem disse a ele, numa palestra na escolinha, sobre os efeitos das escolhas que o homem faz. Moleque na época, Dudu passou noites com seu travesseirinho encardido, pensando em tudo o que ouviu daquele negro de olho de vidro.

No dia da palestra, Dudu ganhou ainda do professor Arthur – negro como ele – caderninho com texto de Martin Luther King na capa em preto e branco: "Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos. Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos". O pirralho de pouco mais de metro e meio achou aquilo bonito demais e pensou que o escrito fosse um rap do tal Luther King. Gostou tanto que o decorou canção.

Com o Ice Band – o artista-educador deficiente –, o Dudu se encontrou semana depois da palestra, numa oportunidade para ver peça teatral. Na companhia de outros 15 garotos pobres da comunidade, Dudu foi ao teatro pela primeira vez. Sentou-se na frente, bem perto do palco. Sentiu-se feliz, com o calor de todas aquelas luzes sobre as personagens vestidas de cor. Num olho só, Ice Band enxergava em dobro a satisfação da sua gente. Dudu teve o rapper ainda em mais alta conta depois do programa na casa com nome de Futuro. “Oi Futuro. Engraçado”, refletia, na volta à favela.

Dali em diante, Ice Band – o Hudson Carlos de Oliveira – se tornou o ídolo do Dudu. Foi pensando no rapper que o rapaz decidiu superar o trauma de infância, peso de dia ruim, quando viu o pai ser fuzilado na porta de casa, com um prato de comida na mão. Pequeno, chegou a jurar vingança, mas, agora, Dudu, só pensava em dar exemplo e vencer na vida – como outros tantos apadrinhados por Ice Band. Arranjou vaga de frentista em posto de grande avenida e tocou adiante os passos. Segunda-feira passada, chegava em casa depois de plantão, quando foi recebido por dona Ilda, com a notícia: “O Hudson, meu filho, o Ice Band, foi espancado por causa de um pedaço de churrasco. Pode? Tá lá no João 23”.

Dudu desceu às pressas para tentar visitar o amigo no pronto-socorro. Na cabeça encostada na janela do busão, cantarolando baixinho o “rap” do tal Luther King, uma pergunta a lhe fritar os miolos: “Qual é o preço da carne, meu irmão?”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 6/12/10

Foto: Gustavo Baxter

O bom metateatro existencial

Feliz a readaptação da peça O lobo de ray-ban – dramaturgia bem-acabada do ator Renato Borghi – para A loba de ray-ban, levada ao Grande Teatro do Palácio das Artes no fim de semana. Em 1987, protagonizado por Raul Cortez, o texto de Borghi convenceu o público e a crítica com seu metateatro existencial. Mais de 20 anos depois, com Christiane Torloni, agora, no papel principal, a versão guardada – escrita para Dina Sfat –, se faz igualmente valiosa. Literatura de peso e profundidade, especialmente para iniciados, que, num só ato de quase duas horas, homenageia, entre outros, Thechov, Beckett, Genet, Eurípides, Vianinha, Weiis e Pirandello. Trata-se de teatro maior para quem gosta, conhece ou já sentiu na pele a crueza dos que fazem do palco a vida.

Em A loba de ray-ban, pela carpintaria de Borghi – ator com mais de meio século de carreira – prevalece a alma. No homem, na mulher e no terceiro sexo, vaidade, dores de amor, traição e abandono não se diferem. A parceria do autor com o diretor José Possi Neto, ainda melhor madura, fez com que o essencial da trama de 1987 permanecesse. Mérito acrescido, naturalmente, à presença de Christiane Torloni e Leonardo Franco no elenco das duas versões. O quarteto refaz encontro que não se repete. Ainda que prejudicado por miúdos descuidos, A loba de ray-ban é grandioso pelo conjunto.

Os pormenores ficam por conta do tom baixo, confidencial, da interpretação de Torloni em alguns trechos da peça. Ouve-se com dificuldade parte do que é dito. Nem se discute qualidade de intenções – Torloni as conhece muitíssimo bem. Mas os microfones instalados no teatro não dão conta dos sussurros da atriz. Outro pormenor é o desfile de Leonardo Franco no tablado. Chega a chatear ver ator de timing e transições tão primorosos andar balangando os braços de um lado para o outro das marcas.

A surpresa é Maria Maya, longe dos papéis menores da telinha. Intensa, de presença vertical em A loba de ray-ban. Parece castigo que tão boa atriz seja filha de gente graúda da TV (Wolf Maia e Cininha de Paula). Para a intérprete, muito cobrada pelo público e pela mídia, desvencilhar-se da fama dos pais diretores não parece ser nada fácil. No entanto, Maria Maya é de estatura que vai muito além de suas raízes. Em A loba de ray-ban, a moça se agiganta ao lado de Torloni e assegura paixão e embate. Eleva verdade construída ao nível de poder e fogo da protagonista.

Encenador de estrelas do teatro nacional, não é de surpreender a excelência plástica de José Possi Neto em luz – assinada por ele –, figurino (Fábio Namatame) e cenário (Jean-Pierre Tortil). Em A loba de ray-ban, os bastidores de Medeia, de Eurípides, compõem pano de fundo perfeito para o drama vivido pela célebre Júlia Ferraz, dona de importante companhia teatral brasileira. Penumbras, pesos e contrapesos, refletores e rampas se deslocam em diálogo entre passado e presente. A eficiência da estrutura cenográfica garante agilidade às transposições na linha do tempo.

Há ainda outro fator preponderante no êxito técnico de A loba de ray-ban: ponto final em virada redentora. Diferentemente do que busca levar a crer toda toada dramatúrgica de Borghi, o desfecho converte o ápice da quase tragicômica figura central.

Estado de Minas - EM Cultura - 6/12/10

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Desarme a violência em você



O Centro de Referência Hip Hop Brasil, a Família de Rua e o Coletivo Nospegaefaz convidam militantes do hip hop, ativistas dos movimentos sociais e populares, artistas, representantes de organizações da sociedade civil e amigos a participarem do lançamento da campanha DESARME A VIOLÊNCIA EM VOCÊ, nesta sexta-feira, dia 3 de dezembro, a partir das 20h, no Duelo de MC’s, em frente à Serraria Souza Pinto.

Esta ação presta solidariedade irrestrita ao rapper e arte-educador Hudson Carlos de Oliveira, o Ice Band, que foi covardemente agredido domingo passado, em crime de motivação racista e de intolerância,em frente ao monumento de homenagem a Zumbi dos Palmares, no bairro Santa Efigênia.

A partir de agora, todas as sextas-feiras um muro da cidade receberá a intervenção de um artista plástico de periferia, até que o processo judicial se encerre com a condenação dos culpados por este ato de barbárie que fere a dignidade humana e os direitos civis de todos os brasileiros. Em defesa da vida, da liberdade e da justiça, participe.

Informações: crh2b@yahoo.com.br

http://parksdance.blogspot.com/

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O outro lado da guerra

Com a cabeça na guerra contra o tráfico, no Rio de Janeiro, impossível não deixar o lápis correr solto na caderneta de papel pautado. Já foram folhas e mais folhas de riscos e rabiscos com turbilhão de ideias e impressões. É assunto difícil. Dos mais difíceis, para falar a verdade. Contudo, devo confessar, que, com todas as imagens que tenho acompanhado, não consigo pensar em outra coisa. Fala-se muito, entre os meus amigos e companheiros de prosa, nos efeitos do filme Tropa de Elite. Mas, ontem, no aguardo do batente, tratamos o tema por outro lado.

Tudo começou quando o Oswaldo disse que a imagem que mais o impressionou nos últimos tempos foi aquela de dezenas de traficantes fugindo da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão. Para o Adelson também: “Só ali, naquela estradinha, eram mais de 200 bandidos, armados até os dentes. Nunca vi nada parecido. Imaginem, então, quantos mil não estão ali, entre os trabalhadores do lugar”, comentou. O Juarez também estava empolgado e não podia deixar de participar: “Velho, viu só a quantidade de moto roubada? Mais de 300. Li que encontraram armamento pesado, de guerra, e mais de 40 toneladas de droga. E o casão de luxo de um traficante casca grossa lá? Piscina e banheira de hidro. Um luxo que mais parecia coisa de bacana”.

A Sueli – sempre ela – estava mais preocupada com a situação do povo de bem que deve estar comendo o pão que o diabo amassou com a operação: “Não tô falando que essa força toda não é necessária. Tô dizendo é que tem que tomar muito cuidado porque 99,9% do povo que mora nas favelas é gente honesta, trabalhadora. Vi pela televisão muito morador reclamando de abuso por parte da polícia. Isso, na minha opinião, é um absurdo”. Ninguém tirou a razão da companheira. Sabemos todos que, de fato, a situação é muito complicada. Fiquei tomando nota de tudo porque queria pensar melhor a respeito. Em casa, no silêncio do eu sozinho, penso melhor sobre o que precisa ser pensado. Lição do velho Botelho: “Reúna os seus eus, meu filho. Juntos, garanto, vocês vão pensar melhor”. E como Bandeira dois é comprometimento sério, só mesmo com a presença reforçada para liberar o texto lá para a redação do Aqui.

Aí, com a galera toda reunida, pensei no outro lado da guerra. No antes de toda essa situação. Na falta de oportunidades. Fiquei com a imagem de todas aquelas criancinhas, sem culpa, expostas a todo tipo de azar. Ninguém vem ao mundo bandido. Violeta e eu conversamos muito sobre isso. A questão é bem maior que expulsar, prender ou eliminar traficantes pés-de-chinelo Rio adentro. E o marginal de gravata? E a bandidada que atua, cercada por seguranças, nos condomínios de luxo? E os bandos corruptos, aos montes, que vivem às custas do patrimônio público? É. Vai ser preciso muita vontade política para ir além do cerco às comunidades em crise Brasil afora.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 1º/12/10
Foto: Domingos Peixoto

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Honras ao soldado morto

Na salinha triste só a mãe para homenagear o soldado Menor. No caixão vagabundo de tamanho miúdo mal cabia um adulto. O filho da dona Luzia, depois de seis meses de bons serviços prestados ao batalhão de chinelas, agora, submerso em flores comuns, descansava em paz. Pai o Menor nem conheceu. Na família, referência, até havia um tal Washington, irmão mais velho, sumido no mundo. Mas desse nem a mãe para saber mais o rosto. As irmãs pequenas, duas, estavam em casa de parente distante, em comunidade vizinha.

Menor, agora, de algodão nas narinas, até parecia sorrir. Dona Luzia, forte, não deixou rolar lágrima. Olhos secos, já tanta água derramada. Fazer o quê? Sentada ao lado do caixote barato, carinhava os cabelos curtos do corpo revirado pelo IML. Repetia baixinho: “A mãe tá aqui. A mãe veio, meu filho”. Na cabeça de dona Luzia, como num filme sem cor, as lembranças do moleque esperto, que sonhou ser bombeiro. Menor, pequeninho, só falava em combater fogo e salvar afogados. Quem sabe pelo primeiro brinquedo que ganhou na vida: carro vermelho da corporação do bem, com escadinha branca e tudo. Presente de mulher da igreja que, uma vez por ano, aparecia no morro.

Dona Luzia relembrou Menor, correndo, puxando o carrinho de plástico, amarrado num barbante, pelos becos estreitos do lugar. Época de satisfação com o rebento, que aprendeu a ler e escrever antes dos amiguinhos da mesma idade, naquela região. O pirralho também era bom de matemática e sabia a tabuada de cor. “Esse menino ainda vai ser alguém na vida”, dizia orgulhosa, para quem quisesse ouvir e saber. A cozinheira no asfalto, de poucos amigos, já sentia falta dos passeios com o filho. Nos últimos tempos, Menor não parava em casa. Andava ocupado demais com seu exército de calças curtas.

O pequeno Menor não era bom apenas com a tabuada. Revelou-se também grande talento para as armas. Capaz de esfrangalhar alvos a quilômetro, destacou-se em seu batalhão como o melhor atirador do agrupamento. Soldado tão eficiente, não demorou para que assumisse a guarda de comandante e de gente graúda. Mas disso Dona Luzia não sabia. Apenas desconfiava, já que o dinheiro começou a aparecer em casa como por força de milagre. “É trampo bom, coisa de responsabilidade, mãe”, justificava o soldado.

Fim de velório. Dois homens velhos, desdentados, funcionários do cemitério municipal, chegam para fechar o caixão. É hora de adeus. Só a mãe a seguir o carrinho barulhento, enferrujado. Ao descer de Menor – corpo seco de 16 anos incompletos – túmulo abaixo, tiros cortam o céu. Para Dona Luzia, talvez, salva em honra ao soldado morto. Para as redes de notícias, apenas mais uma troca de tiros no Complexo do Alemão.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 29/11/10
Foto: Evandro Teixeira

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O óbvio necessário

Droga barata que já vem arrasando a vida de gente graúda, o crack é mote de espetáculo bastante oportuno, em cartaz em Belo Horizonte. Te quero como queres, me queres como podes faz duas apresentações, amanhã e depois, no Teatro Sesi Holcim. De estrutura simples, limpa, com apoio cenográfico de projeção de vídeo, a produção aposta força bruta em texto e interpretação. Estão na poesia e no elenco o que há de pior e melhor em Te quero..., sob a direção geral de Orlando Orube.

Com pretexto e elenco de qualidade acima da média nas mãos, Orube bem que podia ter evitado o uso de clichês. O foquinho no cachimbo, de cara, por exemplo, é informação esfregada ao espectador. Capricho de mise-em-scène, apenas. O vídeo (ainda que tecnicamente bem realizado), em parte, também não escapa de quadros em composições óbvias ao tema, como mendicância e violência sexual. Está no jogo com o plano da realidade, no congelamento da imagem cenográfica, o melhor uso multimídia. Estabelece-se ali diálogo essencial à proposta mais requintada do diretor.

Percebe-se logo no off de abertura, interpretado por Maria Alice Rodrigues, que Te quero... é trabalho de ator. A atriz sabe bem como tratar a poesia e a enriquece com absoluta sinceridade. Enverga respiros, pausas e pontuações. Aliás, há de constar para registro a entrega das duas atrizes à empreitada. Renata Duarte Dutra, do começo ao fim, joga de igual para igual com Maria Alice. Juntas, completam-se em ação e fazem de tudo para não afrouxar nem mesmo as marcações mais pobres da direção – aquelas em que as duas se movimentam repetidamente, colada uma à outra.

Aos ouvidos, fica a sensação de que o texto de Aristides Vargas, na tradução e adaptação de Orube, é muito melhor poesia que teatro. A trágica história das meninas Catarina e Miranda, alinhavada com idas e vindas ao passado, tem tão mais força em atmosfera poética que, por vezes, chega a soar descolada no palco. Parece inverossímil que duas garotas de rua naquela condição “terminal” façam uso do vocabulário sofisticado trazido à luz. Ainda mais com tamanho empenho para caracterização realista – Renata e Maria Alice chegam a desaparecer completamente em Catarina e Miranda.

Além da performance valente das intérpretes, são muitos os motivos para não deixar passar batido Te quero como queres, me queres como podes. O trabalho de Orube e companhia é de grande contribuição na luta contra o crack. Mensagem obrigatória aos pais, educadores e homens de bem de todas as idades e camadas sociais. Talvez até, quem sabe, a peça contenha o óbvio necessário às vítimas do vício. Só o plano final na parede, imagem-corpo-poema, acrescido de suspiro e intenção, vale o programa e a lição.

Te quero como queres, me queres como podes
Amanhã e sábado, às 21h, no Teatro Sesi Holcim, Rua Padre Marinho, 6, Santa Efigênia, (31) 3241-7332. Ingressos: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia-entrada).

Jefferson da Fonseca Coutinho - Estado de Minas
Foto: Marcílio Gazzinelli

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O peso das águas

Um caos a terça-feira de temporal em Belo Horizonte e Região Metropolitana. Cenas de destruição na TV e pela internet. Impossível pegar no sono depois de passar a madrugada na pilha por causa da chuva que resolveu pesar as águas. Cidadãos ilhados, carros tragados e passageiros de ônibus em estado de desespero. Verdadeiro cenário de horror na Avenida Cristiano Machado entre os Bairros São Gabriel e Dona Clara.

Os mais importantes sites de notícias de todo o Brasil estavam atentos à forte frente fria litorânea que atinge Minas Gerais. No Portal Uai teve até entrevista com meteorologista do Centro de Climatologia TempoClima/PUC Minas. Félix de Souza disse – vejam só que loucura – que durante a madrugada choveu mais de 60% do volume da chuva esperado para todo o mês de novembro em BH.

Fiquei preocupado porque tenho muitos conhecidos que moram em regiões que, nesta época do ano, são bastante castigadas pelas águas. A situação ainda pode se complicar nos próximos dias, já que a previsão é de muita chuva e tempo instável. O velho Botelho ligou cedo do Espírito Santo. Acompanhou tudo pelos telejornais da manhã. Conversamos um tempão a respeito das chuvas de fim de ano.

Lembramo-nos dos apertos passados com as enchentes do Rio Arrudas, na Praça da Estação, até o início dos anos 1980. O pai reviveu na lembrança, com a voz grave embargada, a vez em que a gente quase foi embora na enxurrada, perto do Parque Municipal. Eu ainda era moleque de colo. Devia ter uns 2 ou 3 anos. "Te segurei firme e pensei: ‘Se tiver que ser agora, vamo junto, filho", disse do outro lado da linha.

Filosofamos também sobre o crescimento das grandes cidades. Para o velho Botelho é a eterna batalha do homem contra a natureza: "Estão transformando o mundo numa grande selva de pedra. É só asfalto, carro e poluição. Uma combinação que custa muito caro ao homem. Não dá para saber até quando a Terra vai suportar tanta pressão. E uma construção atrás da outra.
Carros aos milhares, todos os dias, tomando conta das ruas".

O velho Botelho tem andado indignado com os engarrafamentos. Por isso, decidiu deixar Belo Horizonte para viver em Marataízes. Depois que desligamos o telefone, por umas duas horas, fiquei a rabiscar a caderneta com as ideias voltadas para os desastres naturais. Uma loucura. Pensar que, com o avanço de nossas ambições, estamos fazendo muito mal à mãe Terra.

Mais tarde, depois do almoço, soube que a sobrinha do Osmar enfrentou o maior apuro na Avenida Cristiano Machado. Estava dentro do carro, sendo arrastada pela força da correnteza. Não fosse um sujeito de coragem e bom coração, não estava viva para contar a história. É. Como dormir com tanta goteira? Vou ter que trocar o telhado. No pé da página de papel pautado, depois de riscos e rabiscos, uma última frase: estamos cimentando o planeta e a natureza pede passagem.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 24/11/10

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dragoberto, o rei do espeto

Não havia churrasqueiro como o Dragão, marido da Tininha. Um especialista na arte, pecados e prazeres da carne. Depois que inventaram a pelada sem bola então, só dava o cinquentão Dragoberto no manejo da espada de aço. "Futebol é pretexto pro golo. Aqui, perna de pau que é perna de pau vai direto ao assunto", discursa o Beiçola, orgulhoso, fundador do Clube do Jacaré - espécie de confraria de funcionários dos grandes frigoríficos da capital. Mas nas peladas sem bola do Clube do Jacaré, nas noites de segunda-feira, Dragoberto corta e tempera apenas. Há muita gente para cuidar da brasa. O sujeito reina é nas festas em casas de família, nos fins de semana.

Tininha, fogosa, mulher e companheira, até gosta de exibir o almoxarife: "Sabe tudo de carne o Dragão. Nem me importo em emprestar o marido para o churrasco na casa dos outros. Ele é tão bom na coisa que seria muito egoísmo da minha parte Junim", comentou certa vez no salão, enquanto recebia um trato nas madeixas. Na agenda do rei do espeto, pelos próximos oito meses, mal havia tempo para comparecer em casa, no Bairro São Geraldo. Para complicar a situação, uma festa puxava outra, que puxava outra e mais outra. Com o Dragão, o boca a boca não falha. "O senhor bem que podia fazer uma carne dessas, qualquer dia desses, lá em casa", implora a mulherada, enlouquecida.

Para a turma do Clube do Jacaré, Dragoberto podia fazer fortuna com tanta demanda. Toda segunda-feira era a mesma história: "No seu lugar eu tava rico, Dragão. Bota preço. Bota preço, meu velho! O Juca, do Assacabrasa, começou assim e hoje tá bem na fita. O cara virou uma potência. Ouvi dizer que já tem Assacabrasa até no estrangeiro. Você é o cara, Dragão! Aqui você só corta e tempera porque já tem muita gente pra girar o espeto. Bota preço, Dragão. Bota preço!", engrossava o coro o presidente Beiçola. Só que o Dragoberto nem pensava cobrar. "É por prazer. Por prazer", suspira em particular, cheirando as mãos.

E não havia preço mesmo. O talento natural do churrasqueiro, almoxarife na carteira de trabalho, fazia ele se sentir útil, importante. No frigorífico, era crachá qualquer. Apenas mais um a carimbar notas e contar volumes por vencimento minguado. Já com as carnes, não. Ali, havia Deus e o diabo entre os dedos do Dragão. Baixinho e barrigudo, entendia charme e privilégio o dom e a virtude. Sentia-se querido, importante: amigo dos homens e desejado pelas mulheres. Não sabia muito bem o segredo. Verdade é que as moçoilas, dos 18 aos 80, se desmanchavam aguadas com os cortes temperados do Dragão.

Diferentemente do que pensa o leitor mais assanhado, sexo o Dragoberto só faz em casa. Debaixo, ao lado ou em cima da Tininha, aos gemidos de "espeta, espeta, Draaagaaão!!!"

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 22/11/10

sábado, 20 de novembro de 2010

A vida num sopro

Lilian Lemmertz – sem rede de proteção é a mais recente biografia lançada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Até o fim deste ano somam-se 300 os títulos da Coleção Aplauso, que, desde 2004, vem contribuindo com importante registro histórico de parte da cultura nacional. Escritores, críticos e jornalistas de várias regiões do Brasil, com experiência na cobertura das artes cênicas e audiovisuais, assinam as publicações. Para contar a história da atriz Lílian Lemmertz (1938-1986) o escolhido foi o pernambucano Cleodon Coelho, que, ao lado de Mauro Ferreira, já havia escrito Nossa Senhora das Oito, em homenagem à novelista Janete Clair.

Em edição especial, com 292 páginas e bom preço (R$ 30), Lilian Lemmertz – sem rede de proteção apresenta com riqueza de fatos e fotos a carreira construída de uma das atrizes mais completas que a cena brasileira conheceu. Das aulinhas de dança no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, ao sucesso estrondoso da novela Baila comigo, pela TV Globo, no início dos anos 1980, ao lado de Fernando Torres, no papel da mãe dos gêmeos interpretados por Tony Ramos. Embora a televisão e o cinema a tenham projetado para todo o Brasil e também para o exterior, foi o teatro a revelar a atriz. E não foi em pecinha qualquer, dessas que se veem aos montes. Lilian Lemmertz subiu aos palcos como intérprete pela primeira vez como Laura Wingfield, em À margem da vida, de Tennessee Williams, dirigida por Antonio Abujamra.

A biografia assinada por Cleodon Coelho mostra que o teatro, então, arrebatou a jovem modelo, musa do chapeleiro Rui Spohr – hoje, famoso costureiro do Rio Grande do Sul. Lilian trocou as passarelas pelos palcos e sets da TV Piratini – onde participou de novelas ao vivo – e não demorou para conquistar São Paulo, convidada pelo casal Walmor Chagas e Cacilda Becker. Quando se mudou para a capital paulista, Lilian já estava casada com o ator Linneu Dias, com quem teve a pequena Júlia Lemmertz. Sobre a estreia da atriz em Onde canta o sabiá, Cleodon registra:

“No dia 24 de outubro de 1963, exatamente um mês após sua chegada, Lilian e Linneu estreavam nos palcos da Paulicéia desvairada. O trabalho era pesado: as peças ficavam em cartaz de terça a domingo, com sessões seguidas aos sábados e, ainda, vesperais. Aquela região do Bexiga era uma espécie de Broadway de São Paulo, tamanha a quantidade de teatros espalhados por suas ruas. Apesar da pouca grana, os artistas vibravam por participar de um momento tão efervescente da cena local”.

O autor de Lilian Lemmertz – sem rede de proteção revela o ritmo alucinado de trabalho da atriz, que emendava um trabalho no outro. Conta ainda que, muito exigente com o que suas peças tinham a dizer, viveu momentos de grande insatisfação com realizações menores. Num depoimento registrado na biografia, Lilian questiona: “Toda vez que eu mudava de produção, o salário dobrava. Mas artisticamente o nível baixava. A cada novo trabalho, tinha menos a fazer. Só desfilava no palco. Teatro é isso?”.

A volta por cima veio com Quem tem medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee, com direção e produção de Maurice Vaneau, em 1965. Na peça, Lilian reencontrou o bom teatro ao lado de Cacilda, Walmor e Fulvio Stefanini. O espetáculo teve grande repercussão junto ao público e à crítica de São Paulo e do Rio de Janeiro. Cleodon em Lilian Lemmertz – sem rede de proteção reúne farto registro em recortes de matérias e resenhas que comentam o êxito da montagem.

Cinema e vida

A passagem de Lilian pelo cinema ganhou capítulo: “E era tão linda de se admirar” encabeça 20 páginas de textos e fotos do feliz encontro da atriz com o cineasta Walter Hugo Khouri. Tudo começou em O corpo ardente, de 1966, mas bem que poderia ter sido antes, em Noite vazia, quando Lilian recusou o convite do diretor para protagonizar a trama. “Li o script. Sei que muita gente não acredita, mas achei o papel grande demais pra mim. Para quem nunca fez cinema, era muita responsabilidade. Disse a ele: ‘Me desculpe. Preciso me acostumar com a ideia. Outra vez, quem sabe? Ele achou que eu era uma louca”, revelou a atriz à imprensa, anos depois. Lilian esteve em mais de duas dezenas de filmes. Seu último trabalho na telona foi em Patriamada, em 1984, de Tizuka Yamazaki.

Na biografia de Lilian Lemmertz, estão no fim os trechos mais emocionantes alinhavados por Cleodon Coelho. Menina ainda, aos 48 anos, ida num sopro, vítima de infarto, a atriz partiu em dia de Copa do Mundo. Foi em 5 de junho de 1986, entre dois jogos da seleção de Telê Santana. “Os bons serviços prestados no teatro, no cinema e na TV fizeram de Lilian um dos maiores nomes de sua geração. Como lembra Antonio Abujamra, o homem que a lançou no ofício de representar, ela se jogava sem rede de proteção. E como foram belos os saltos. De Tennessee Williams a William Shakespeare, de Edward Albee a Ivani Ribeiro, de Walter Hugo Khouri a Manoel Carlos”, escreve Cleodon.

Entre as mais tocantes homenagens impressas à atriz, o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu publicou em O Estado de S. Paulo: “Agora, no fim da noite de domingo, longe do colo morno do amor, a morte visita o apartamento e fico pensando em como recuperar minha imortalidade após este próximo ponto final, preciso dela, amanhã de manhã. Quando o mundo continuará igual. Só que sem Lilian. E, portanto, um pouco mais feio, um pouco mais sujo. Mais incompreensível, e menos nobre”.


Lilian Lemmertz – sem rede de proteção
De Cleodon Coelho. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 292 páginas. R$ 30


Pensar - Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"A vida gosta de quem gosta da vida"

Ainda não pude ir ao cinema ver A suprema felicidade, obra do cineasta e jornalista Arnaldo Jabor. O que sei é que críticos de todo o Brasil caíram de pau. Não podia ser diferente. O camarada, com seus comentários inflamados na TV e nos jornais, arranjou monte de desafetos. Criticá-lo é vitrine de dar gosto para muita gente. Em casos assim – o crítico do outro lado da pena –, é o que chamam telhado de vidro. Agora é aguentar, Jabor. Não tem remédio. Mas, sinceramente, não tenho nada contra o moço. Para falar a verdade, gosto bastante de sua escrita. Lá em casa, ele é bastante respeitado. Violeta e eu já até saímos de casa duas vezes para assistir A suprema felicidade, mas não teve jeito. Imprevistos. Coisas que acontecem. No próximo fim de semana, sem falta, vamos lá conferir o filme. O Chico e a Neidinha disseram que é uma beleza.

Aliás, vale deixar registrado neste quintal, o casal amigo, sábado à noite, só falou no filme do Jabor. Foi aniversário da Sueli, lá no Bairro Glória. Festão para barão nenhum botar defeito. A turma reunida, antes do bolo, só deu A suprema felicidade. O Chico até que estava empolgado, mas a Neidinha, amigo leitor… só repetia uma fala: "A vida gosta de quem gosta da vida". O Jabor, com essa frase, acertou o coração da minha amiga em cheio. O olho da moça estava que era puro brilho ao repetir e repetir. É claro que não podia deixar de sacar minha caderneta e tomar nota:

"Gente, olha que tudo: ‘A vida gosta de quem gosta da vida’. O personagem do Marco Nanini fala isso com a boca cheia. Na hora que eu ouvi isso, sei lá, deu um treco, uma coisa, cutuquei o Chico na hora. Eu sempre pensei assim… num é, Chico!? A gente sempre conversou sobre isso. Só que com outras palavras, porque a gente não sabe dizer o que a gente sente que nem o Arnaldo Jabor. ‘A vida gosta de quem gosta da vida, claro!’. Olha só, gente: a quantidade de gente que a gente conhece que não ta nem aí pra vida. Tudo gente infeliz, que só sabe é reclamar e reclamar… credo. Não dou conta. Nunca dei. Tenho a maior preguiça de gente assim. Na nossa casa, a coisa pode tá difícil do jeito que for, a gente gosta da vida. A gente gosta muito de viver. Dinheiro? Depois a gente dá jeito. A saúde em ordem é o que interessa. É preciso saber viver a vida. Tem gente que não sabe nem quer aprender".

Foi uma alegria sentir o entusiasmo da Neidinha com a vida. "Viver é uma festa", brindou o Chico, erguendo a caneca de cerveja. Foi uma farra das boas, como há muito não se via. A aniversariante era a Sueli, mas quem comandou a noite foi a Neidinha. Não passou dos 27 pontos no karaoquê, mas a moça era só alegria. E no fim de cada canção ela emendava: "A vida gosta é de quem gosta da vida". E tome palma. Sueli e Neidinha são unha e carne. Primas. Crescidas e criadas na mesma rua. São até parecidas, igualmente bonitas. Só no trabalho que cada uma tomou um rumo: Sueli é motorista e Neidinha, professora.

Fim de festa, já na madrugada de domingo, formou-se coro comandado pelo casal amigo: "Felicidades, Sueli! A vida gosta de quem gosta da vida"!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 17/11/10

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Minibiblioteca do ator


HISTÓRIA MUNDIAL DO TEATRO (Margot Berthold)

Com mais de 400 ilustrações, Berthold aborda o teatro primitivo, das civilizações islâmicas, indo-pacíficas, da China, do Japão, da Grécia, de Roma e Bizâncio; analisa a arte do palco da Idade Média, da Renascença e do Barroco; passa pela era da cidadania burguesa, e do naturalismo até o presente, na companhia de vasta bibliografia.


DICIONÁRIO DE TEATRO (Patrice Pavis)

Obra conhecida em várias partes do mundo, que enriquece enormemente a nossa bibliografia especializada. Trata-se de valioso instrumento para o ensino e o conhecimento do teatro. Em seus 560 verbetes, traduzidos por professores e pesquisadores do campo, são sintetizadas e discutidas as grandes questões da dramaturgia, da encenação, da estética, da semiologia e da antropologia da arte dramática.


A PREPARAÇÃO DO ATOR (Constantin Stanislavski)

O livro difunde idéias que transcendem interesses meramente profissionais ou de estudiosos dos problemas do teatro. É, na verdade, o romance da fascinante aventura do homem em busca de conhecimento maior de si mesmo e de seu semelhante.


A CONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM (Constantin Stanislavski)

Neste livro, a ênfase recai na atuação como arte e na arte como a expressão mais alta da natureza humana. Sua volta constante ao estudo da natureza humana é o que distingue aquilo que se tornou conhecido como o ‘Sistema Stanislavski’.


A CRIAÇÃO DE UM PAPEL (Constantin Stanislavski)

A criação de um papel é leitura obrigatória para todos os profissionais e estudantes de teatro. Stanislavski trata do trabalho do ator no desenvolvimento de um papel e de problemas que o intérprete poderá enfrentar no palco. Faz avaliações de cenas, estuda as atitudes dos personagens em relação ao texto e ao contexto das obras.


MANUAL MÍNIMO DO ATOR (Dario Fo)

O Manual de Dario Fo aponta, de forma didática e divertida, como construir personagens, cenários e o texto teatral. O autor escreve também sobre a importância da improvisação.


O ATOR INVISÍVEL (Yoshi Oida)

Neste surpreendente manual prático da arte de representar, o ator, diretor e professor japonês Yoshi Oida – integrante desde 68 da companhia teatral de Peter Brook, em Paris –, demonstra toda a amplitude e profundidade de sua experiência das técnicas de representação, do Oriente e do Ocidente, do tradicional e do experimental, do texto escrito e do improvisado, do cinema e do teatro, do corpo e da voz.


A ARTE DO ATOR (Jean-Jacques Roubine)

Ao caracterizar a arte do ator hoje, em toda a sua diversidade, este livro não dispensa referências históricas que chegam ao teatro grego, à commedia dellarte e à cena romântica.


O TEATRO E SEU DUPLO (Antonin Artaud)

Ensaio em que Artaud desenvolve a ideia da necessidade, para o teatro moderno, de reencontrar a dimensão metafísica presente em tudo o que é mistério.


IMPROVISAÇÃO PARA O TEATRO (Viola Spolin)

A bíblia dos educadores em jogos dramáticos. Manual útil para amadores e profissionais na arte do teatro. Dispensa comentários. É ler para aprender.



LEIA MAIS:


Barba, Eugenio. A Canoa de Papel. São Paulo, Ed. Hucitec, 1994.

Grotowski, Jerzy. Em Busca de um Teatro Pobre. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1987.

Kusnet, Eugênio. Ator e Método. Rio de Janeiro, Serviço Nacional de Teatro - Ministério da Educação e Cultura, 1975.

Lewis, Robert. Método ou loucura. Fortaleza, Edições UFC; Rio de Janeiro, Edições Tempo Brasileiro, 1982.

Meyerhold, Vsevolod. O Teatro de Meyerhold, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1969.

Barba, Eugenio. A Arte Secreta do Ator. São Paulo, Ed. Hucitec, 1995.

Barba, Eugenio. Além das Ilhas Flutuantes. São Paulo, Ed. Hucitec, 1991.

Boleslavski, Richard. A Arte do Ator. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1992.

Laban, Rudolf. Domínio do Movimento. São Paulo, Summus Editorial, 1978.

Roubine, Jean-Jacques. A Arte do Ator. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 1987.

Serrano, Raúl. Tesis sobre Stanislavski en la educación del actor. México, Ed. Escenología, 1996.

Stanislavski, Constantin. Minha Vida na Arte. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1989.

Strasberg, Lee. Um Sonho de Paixão. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1990.

Appia, Adolphe. A Obra de Arte Viva. Lisboa, Ed. Arcádia, s/ data.

Aristóteles. Poética. São Paulo, Ed. Abril Cultural, 1979.

Benjamin, Walter. Obras Escolhidas, vol. I - Magia e Técnica, Arte e Política,São Paulo, Ed. Brasiliense, 1993.

Bertherat, Thérèse. O Corpo tem suas Razões. São Paulo, Martins Fontes, 1977.

Bornheim, Gerd. Brecht, a Estética do Teatro. São Paulo, Ed. Graal, 1992.

Brook, Peter. A Porta Aberta. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1999.

Brook, Peter. O Ponto de Mudança. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1994.

Brook, Peter. O Teatro e seu Espaço. Petrópolis, Ed. Vozes, 1970.

Carvalho, Olavo de. A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Rio de Janeiro, IAL & Stella Caymmi, 1994.

Correa, Rubens & outros. Artaud, a nostalgia do mais. Rio de Janeiro, Numen Editora, 1989.

Craig, Edward Gordon. Del Arte del Teatro. Buenos Aires, Libreria Hachette S.A., 1957.

Diderot, Denis. Paradoxo sobre o Comediante - in Os Pensadores, São Paulo, Abril Cultura, 1979.

Eliade, Mircea. O Mito do Eterno Retorno. Lisboa, Edições 70, 1978.

Feldenkrais, Moshe. Consciência pelo Movimento. São Paulo, Summus, 1977.

Kantor, Tadeusz. Le Théâtre de la Mort. Lausanne, Ed. L’Age de l’Homme, 1977.

Meyerhold, Vsevolod. écrits sur le Théâtre (4 volumes). Lausanne, La Cité - L’Age d’Homme, 1980.

Oida, Yoshi. Um ator errante. São Paulo, Beca Produções Culturais, 1999.

Ostrower, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. Rio de Janeiro, Imago Editora Ltda., 1977.

Pronko, Leonard C. Teatro: Leste & Oeste. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1986.

Ripellino, A. M. Maiakóvski e o Teatro de Vanguarda. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1986.

Ripellino, A. M. O Truque e a Alma. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1996.

Roubine, Jean-Jacques. A Linguagem da Encenação Teatral - 1880-1980. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1982.

Teixeira Coelho Netto, José. Em Cena, o Sentido. São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1980.

Teixeira Coelho Netto, José. Uma Outra Cena. São Paulo, Ed. Polis, 1983.

Vakhtangov, Eugênio B. Lecciones de Regisseur. Buenos Aires, Editorial Quetzal, 1987.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Antes que o amanhã aconteça (final)

Menina Ariela sacou da bolsa o celular cor-de-rosa e pediu pizza marguerita. Na espera, pai e filha se olhavam, simplesmente. Havia muito entre eles. No silêncio que diz à beça, laço remoído de passado, infelicidade e ausência. “Diabos! Como está parecida com a mãe”, pensava Ananias ao ver a filha ajeitando os dois únicos pratos da quitinete sobre a mesa. O policial aposentado viu na filha a ex-mulher, grande amor e dor de cabeça. O entregador chegou logo com a massa de excelente qualidade. Ariela fez questão de pagar com dinheirinho ganho à tarde, suado nos quadris.

Comeram com gosto. Ananias se rendeu ao sabor em boa companhia. Há dias sem sair de casa, passava apenas a conhaque, café amargo e miojo. Ariela disparou a falar coisa com coisa sem tocar no tempo presente. Também não fez perguntas nem tocou assunto sério. O pai, tímido, até esboçou sorriso seco com comentário da menina: “O senhor ainda tem o mesmo cheiro. É bom”. Ariela, quando pequeninha, vivia a brincar com o desodorante do pai. Um papo puxou outro e, no avanço da madrugada, Ananias insistiu para que a filha ficasse. A menina adormeceu na cama do velho, que não pregou o olho. Trouxe à cena garrafa de conhaque escondida e viu passar a vida no gargalo. Olhou para o corpo feito da filha, de 20 anos incompletos, e ficou a remendar histórias.

Com o sol a lamber as vidraças do JK, Ariela acordou com o pai transtornado, irreconhecível. Ananias havia revirado a bolsa e o celular da filha enquanto ela dormia. Imaginou coisas e, tomado por ideias ruins, construiu teorias de traição. A menina se ofereceu para passar café e foi sabatinada pelo velho. Para a discussão foi um passo. Das perguntas e ofensas às agressões: Ananias retirou do armário taco velho de sinuca, quebrou-o violentamente na mesa e partiu para cima da menina, que conseguiu recuperar a bolsa, abrir a porta e ganhar o corredor. “Não sou mais seu pai, vagabunda! Some da minha vista! Some!”. Daí, o amparo da vizinha.

De volta ao presente, no apartamento da cantora Dorinha, galopam os ponteiros na velocidade do pensamento. As duas mulheres já se entendiam amigas e confidentes. Foi o cão Raul, o schnauzer, o primeiro a reagir ao estampido vindo da quitinete ao lado, emprestada por conhecido ao velho Ananias. Dorinha e Ariela correram para a porta fechada do ex-policial. “Pai”, foi só o que deu conta de soprar a filha com a garganta embargada. Do lado de dentro, ao som de “Perfídia” tocado na vitrola por um tal Trio Irakitan, Ananias sangrava despedida, caído, com um 38 na mão.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 15/11/10

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Enem e outras trapalhadas

Muito triste toda essa avacalhação em torno do 14º Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Tenho amigos e filhos de amigos que estão muito chateados, pois passaram horas do último fim de semana debruçados em cima de 180 questões para, agora, assistir a esse carnaval. Sem falar no tempo de dedicação, preparo e estudo para as provas. O Enem é assunto muito sério. Não pode ser tocado de maneira tão irresponsável. Não pode ser tão difícil assim, já que, por exemplo, o Brasil é referência no trato das urnas eletrônicas em tempos de eleição. Mesmo que uma coisa pareça não ter nada a ver com a outra, são assuntos de responsabilidade do poder público e que mexem com a vida de milhões. Ao que parece, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo Enem, devia tomar umas aulas com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Se o Inep levasse o Enem a sério como a Camila, moradora do Bairro Sagrada Família e moça muito querida, a história seria outra. Camila, que acaba de completar 18 anos, até adoeceu na semana que antecedeu às provas. Passou dias com febre, inflamação na garganta e preocupação. Há meses, desde o início do ano, deixa de lado o lazer para se dedicar aos estudos. Pretende cadeira nas salas de Engenharia química da UFMG. Centrada, orgulho dos pais, há tempos vem se preparando para a universidade. Só para o amigo leitor ter uma ideia, no ano passado, treinante, conseguiu passar no vestibular da Federal. Queria ganhar experiência, saber como é o vestibular. Enquanto outros jovens de sua idade estão na balada, Camila estuda. Não por pressão ou cobrança da família. Estuda porque aprendeu cedo que é esse o caminho dos homens de bem. Esse Inep parece ter esquecido isso. Talvez se o instituto consultasse a menina Camila reaprendesse algo sobre educação e dignidade.

De volta à universidade, estou muito ligado aos estudos. Vejo de tudo. Outro dia, Osmar e Sueli estavam discutindo sobre as diferenças entre o jovem que estuda e o que não quer saber da escola. Rendeu boa meia hora o assunto. Fiquei no canto, calado, só ouvindo e tomando nota (os amigos já até estão acostumados com a minha mania de anotar tudo). Depois, em casa, fui reler e refletir sobre o assunto. A Sueli tem toda razão quando entende que o gosto pelo estudo não está ligado diretamente com os recursos financeiros da família. Está assim de rico que não gosta de estudar e pobre que tem gosto pelos livros. Conheço gente assim aos montes.

O dinheiro ajuda, é verdade. Mas, sabemos todos, não compra postura. Buscar conhecimento, para mim, é questão de postura. Tem gente que leva boa parte da vida para entender isso. Não conheço uma só pessoa de pouco recurso que, querendo de verdade, não tenha conseguido estudar e avançar na vida. E não vale dizer que não pôde estudar porque teve que começar a trabalhar cedo. As salas de aulas de todo o Brasil estão abarrotadas de trabalhadores que se desdobram em três turnos. O segredo é a vontade. Quando não há vontade, postura, o sujeito se atrapalha na vida. Como o Enem hoje, grande avacalhação, vexame nacional.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 10/11/10

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Os primeiros passos de Barrault

Em tempos de estudo (sempre) – é assim o caminhar do ator –, muitos textos me ganharam a cabeceira. Jean Louis Barrault (1910-1994), mímico francês, homem de teatro, deixou escrita de grande valor. O texto que segue é um trecho do capítulo 2 das Réflexions sûr le Théâtre, onde Barrault fala de seu encontro com Étienne Decroux e da pesquisa que ambos desenvolveram sobre o mimo. (In “Réflexions sûr le Théâtre”, Jean-Louis Barrault, Jacques Vautrain Editeur, Paris, 1949, págs. 34-35. Tradução de Roberto Mallet). Na foto, Michel Simon e Barrault (D), em Drôle de drame ou L'étrange aventure de Docteur Molyneux.


Sobre o Caminhar, por Jean-Louis Barrault


"Não há nada mais difícil do que caminhar e pode-se descobrir o homem pela maneira como caminha. O estudo excessivo do caminhar me deformou tanto que levei bem uns dez anos para reencontrar um caminhar normal… (e ainda hoje recaio nisso!…). Há um tempo atrás, um dos maiores cozinheiros da França confiou-me que um dos pratos mais difíceis de se fazer é: um ovo ao prato. Trata-se de cozinhar a gema ao mesmo tempo que a clara. Isto só pode ser feito com uma chama tão fina quanto a de uma vela. De fato são as coisas mais simples as mais difíceis de realizar.


Saber ler, por exemplo. Saber ler exatamente aquilo que está escrito, sem deixar escapar nada do que está lá e, ao mesmo tempo, sem acrescentar nada. Saber captar exatamente aquilo que está contido nas palavras que se lê. Saber ler! Saber escrever também! Saber fixar sobre o papel o seu pensamento com precisão, com o auxílio de palavras que não o deformem em nada e que possuam o som justo, o mesmo som, exatamente, que se ouve no mesmo instante ressoar na cabeça. Saber escrever!



Saber caminhar!


Aquele homem caminha como se esperasse que seus pés o conduzam. Ele permanece vertical e espera. Seus pés, um após outro, cegamente, deslocam-se para a frente e apóiam-se sobre os calcanhares. E somente quando o homem se sente “assegurado” assim pelo calcanhar é que ele completa seu passo. Aquele homem não caminha. Ele se deixa conduzir pelos seus pés. Aquele outro tem pés estrábicos, o que nós [os franceses] denominamos de pés en dedans. Aquele outro, tem as pernas afetadas, os bailarinos por exemplo. As pernas dos bailarinos parecem experimentar uma tal alegria em se deslocar que parecem pasmar-se no ar. O homem, acima delas, as segue.


Ora, um homem que caminha é um TODO que se desloca. O caminhar não tem o seu centro nem na ponta do pé nem no calcanhar. Ele tem o seu centro à altura do peito.


É o peito, sustentado por essa flexível coluna vertebral, que deve exprimir uma vontade de deslocar-se. E sob essa vontade de deslocar-se, as pernas desdobram-se.


É digno de nota que todo ponto do corpo sobre o qual nos concentramos (sob a condição de haver uma concentração suficiente) atrai a atenção de quem nos observa. Como se esse ponto fosse luminoso.


O homem que caminha não deve atrair a atenção para os seus pés, nem para os joelhos, mas para a frente do peito; é, se assim posso me exprimir, o peito que dá o primeiro passo. O homem que caminha tomou a decisão de se deslocar; e o que ele desloca primeiro é o centro dele mesmo; essa caixa mágica e oca graças à qual ele respira e que o sustém, como um emblema de vida, pela haste mais flexível do mundo: sua coluna vertebral. Primeiro o homem todo se compromete; ele acredita em si mesmo; ele vai para a frente, confiante no reflexo de suas pernas. E suas pernas seguem-no, servem-no; elas ondulam sob ele. É um homem que se desloca e não um homem que segue seus pés. O ponto mais avançado de seu peito não deve jamais deixar-se ultrapassar pela ponta do pé que está à frente.


Eis ao menos o caminhar em estado puro.


Sabendo-se isso todos os caminhares são permitidos. Cada homem tem seu caminhar pessoal que o revela sem que ele o saiba. Cabe ao ator trabalhar o caminhar de seu personagem. Mas esse caminhar puro, como o saber ler, como o saber escrever, como o saber cozinhar um ovo ao prato, é a coisa mais difícil de executar".

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Antes que o amanhã aconteça (9)

No retrocedor do tempo, na carona dos ponteiros que contam passos, voltamos as horas: meia-noite. Ariela toca a campainha do apartamento do pai. Ananias assiste a programa qualquer de televisão. Irrita-se sem saber quem poderia ser tão tarde. Mal pôde crer ao identificar a filha do outro lado do olho mágico. Parou para pensar por instante, antes de abrir a porta. Por fração de segundo, pensou não atender. A saudade envergou a vergonha do velho, que girou a tetra-chave. Pai e filha frente a frente, dois tristes anos passados.

Primeiro foi o silêncio. Depois, abraço e choro sem lágrima. Ele deixou a passagem da porta livre, em convite, para que a menina entrasse. Abaixou o som da televisão, sentou-se no antigo sofá em couro de dois lugares, e, com os olhos e uma das mãos no estofado apenas, ofereceu espaço ao seu lado. Das duas partes, por ausência e acontecimentos, havia muito a ser dito. “Quer um café? Vou passar pra você”, foi só o que ele conseguiu dizer. Levantou-se desconcertado e deu meia dúzia de passos até a cafeteira sobre a pia, enquanto Ariela observava o ambiente.

A quitinete não oferecia nenhum conforto. Cortinas desbotadas e uma cama de solteiro ao fundo, ladeada por cadeira improvisada como criado-mudo. Um abajur barato, com fio branco dependurado, emendado por fita isolante. Algumas revistas Seleções amareladas e uma bíblia. Uma cômoda com seis gavetas servia de suporte para o pequeno aparelho de TV, com antena interna. Ao lado do sofá, mesinha de canto com vitrola e alguns discos de vinil, com músicas românticas, dessas que tocam em bailes para a terceira idade. Chumbada na parede, bem próxima à pia, tábua com dobradiças, armada sobre as duas banquetas de madeira escura. Era tudo o que havia no cômodo com um armário embutido. Foi o velho a trazer palavra e quebrar o gelo:

– Ainda tá meio improvisado, mas é por uns tempos. É só até o inquilo entregar a casa lá do Bairro Padre Eustáquio. Aqui é de um amigo da polícia. Estava fechado e ele me emprestou até as coisas se ajeitarem.

– Simpático. Fica perto de tudo. Bom que o senhor pode ir a pé pro mercado.
– Eu tenho ido. Às vezes passo o dia todo lá. Você ainda gosta de café água-rala?
– Tanto faz. Aprendi a tomar café de qualquer jeito.
– Você tá com fome?
– Um pouco.
– Tem miojo. Posso fazer pra você.
– Prefiro pizza. Vou pedir para nós dois. Posso?
– Você ainda gosta dessas porcarias?
– Gosto. Tenho o telefone de uma pizzaria que fica pertinho, na Avenida Amazonas. Eles entregam até tarde. Conheço o dono de lá. O senhor quer de quê?

(Continua na próxima segunda-feira)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 8/11/10

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Boa sorte, Brasil!

Agora é torcer por Dilma Rousseff, primeira mulher presidente do Brasil. Aqui, desço a caneta no fluxo do pensamento, assim, cidadão, desenhador de letrinha profissional. E, embora tenha pensamentos a rodo para colocar no papel, hoje, não posso deixar de deixar registrado o meu desejo de boa sorte ao país, terra em que vivo, estudo e trabalho para dar conta de oferecer a melhor educação possível aos meus filhos. Cuidar da família não é tarefa nada fácil, todos sabemos. Perdoe-me o amigo leitor – desde já deixo o pedido de desculpas – se faço nossa Bandeira dois desta quarta-feira parecer pretensiosa. Talvez até seja um pouco mesmo – é bem possível que não consiga fazer diferente com o tema em questão. Sem mais delongas, vou ao assunto:

Tem a ver com família. Imagino nosso país uma grande família. E vejo o Presidente da República como o chefe de casa. Aquele que precisa dar exemplo, que pensa em ajudar até quando se faz duro, definitivo. Que não dá nada de mão beijada, por assistir simplesmente. Que pretende abrir caminhos para que seus filhos andem com as próprias pernas. Afinal, são mais de 190 milhões de brasileiros à espera – no mínimo – de oportunidade e justiça. Sou pequeninho demais para imaginar, do terço, a reza – em boca miúda – que rola nos bastidores de uma eleição para presidente. Conchavos, alianças, concessões, negociatas mil. Parece-me que política é assim. No entanto, acredito no homem. “O homem é bom”, é o que sempre ouço do velho Botelho, avô, pai, grande liderança da minha pequena família.

É. O homem é bom. O que o estraga, muitas vezes, são as más companhias. É uma verdade – pode ser. Na praça, conversamos bastante sobre isso. Já o Irineu pensa diferente. Diz que o homem não presta. Os que se salvam são bem poucos, raríssimos. Para o amigo de batente basta que o sujeito, no poder, tenha uma oportunidade de obter favorecimento para não pensar duas vezes e sair da linha. “Umazinha só, Josiel. Tenho certeza. Este é o país da vantagem. É só gente querendo levar vantagem. Só para você ter uma idéia, até um conhecido meu, gente boa até, que eu acreditava ser diferente, pisa na bola. Fiquei muito decepcionado. Soube que ele é chegado numa falcatrua para não pagar imposto. E que até se gaba disso. Vê se pode? Anota isso aí, porque eu sei que você vai querer escrever mesmo”, ditou-me, no domingo, o Irineu.

Mas a intenção hoje não é falar de quem sai da linha. É, unicamente, a de desejar boa sorte ao Brasil nas mãos dessa ilustre dama, cheque em branco assinado pelo povo brasileiro. Verdade seja dita a presidente eleita derrotou um candidato insosso, fraquíssimo. Ganhou por falta de melhor opção. Ouvi muito sobre política nos últimos meses. Na grande maioria das vezes a conversa era sempre a mesma: “O negócio e votar na candidata do Lula. Não tem outra opção mesmo, né!?” Nem dá para contar a quantidade de vezes que tenho isso anotado nas cadernetas. Nada contra. Tudo a favor. Do povo brasileiro, é claro. Agora, é esperar para ver e torcer para que tudo dê certo. Avante, Brasil! O homem é bom. Será?
Bandeira Dois - Josiel Botelho - 03/11/10

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Antes que o amanhã aconteça (8)

Por tudo que Ariela contou sobre a mãe, Dorinha foi arrebatada ainda mais pelo passado da ninfa. Sentiu-se no dever e na obrigação de retribuir na mesma moeda da sinceridade:


– Estou de cara com você, menina. E eu achando que fui a única a ter problemas sérios com a família... Sua história é tão dura e, talvez, até pior que a minha. Nem sei.

– Sua mãe também é assim, da pá virada?

– Mais ou menos. O caso dela é outro. Foi com a bebida. Matou o meu pai de desgosto. Lembro-me, em diversas ocasiões, de vê-lo sair para buscá-la nos bares da minha cidade, no interior. Ela tomava todas, até cair. Todos os dias. Bebia, fumava feito chaminé e vivia entre gente que não prestava. Aquilo foi matando meu pai aos poucos. Um dia, ele simplesmente não amanheceu.

– Como assim?

– Morreu dormindo.

– Sinto muito.

– Eu tinha acabado de fazer 15 anos. Foi na semana do meu aniversário. No velório dele, na sala da minha casa, minha mãe, bêbada, aprontou o maior escândalo. Meu avô, pai do meu pai, a expulsou de casa e mandou que ela sumisse da cidade. Aí, ela sumiu. A gente nunca mais teve notícia. Uns dizem que ela morreu. Outros, que ela, envergonhada, saiu do país para trabalhar com uma prima nos Estados Unidos.

– E você e seus irmãos?

– A gente foi criado na fazenda desse meu avô.

– Eu não me lembro muito dos meus avós. Por partede mãe, que eu saiba, eu só tive vó. Os outros morreram quando eu ainda era criancinha.

– Minha avó morreu no ano passado e o meu avô tem andado sem saúde.

– Entendo. O meu pai também, pelo que me disseram na delegacia, não anda muito bem. Parou até de pescar com os amigos. Ontem à noite, tentei saber o que estava acontecendo, mas ele desconversou.

– Você dormiu aqui no JK, na casa dele?

– Dormi. Cheguei já era quase meia-noite. Ele me recebeu bem. A gente pediu pizza, conversamos até. Ele quis que eu ficasse e agora, pela manhã, estava irreconhecível. Eu estava fazendo café para ele quando começamos a discutir.

No retrocedor do tempo, na carona dos ponteiros que contam passos, voltamos as horas: meia noite. Ariela toca a campainha do apartamento do pai.

(Continua na próxima segunda-feira)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 01/11/10

domingo, 31 de outubro de 2010

Última chamada!

"Alice ao avesso" encerra hoje, às 19h, sua primeira temporada no Teatro Sesi Holcim (Rua Padre Marinho, 60 - Santa Efigênia). Dá gosto ver o trabalho da trupe Querida reunida. Abaixo, o olhar invisível de Adriana Porto na apresentação da última sexta-feira. Aos amigos que estão fazendo correr o boca-a-boca, obrigado! Aos que ainda não foram, apareçam!







sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Última semana

Última semana para ver "Alice ao avesso", da Querida Companhia de Arte. Hoje e amanhã, às 21h; domingo, às 19h. No Teatro Sesi Holcim (Rua Padre Marinho, 60 - Santa Efigênia). Na foto, os bons atores João Porto e Emílio Zanotelli, que, ao lado de Ana Cândida Cardoso, Lilian Campomizzi, Paula Sá e Wallison Reis, mandam bem demais na cena. Espero vocês!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Carta ao ator D, de Eugênio Barba

Lembro-me bem quando a atriz e professora Ângela Mourão trouxe à sala de aula a "Carta ao ator D", escrita por Eugênio Barba (foto). Foi no Centro de Formação Artística (Cefar) do Palácio das Artes, no início dos anos 1990. Na ocasião, aluno, pensei bastante a respeito do que o conceituado diretor italiano, fundador do Odin Teatret, quis dizer com seu desabafo. Quase 20 anos depois, professor e orientador de intérpretes das mais variadas estirpes, uma releitura para tentar salvar os que parecem não ter salvação:

"Freqüentemente me surpreende a ausência de seriedade em seu trabalho. Não é devido à falta de concentração ou de boa vontade. É a expressão de suas atitudes.

Antes de tudo, tem-se a impressão de que suas ações não são ditadas por uma convicção interior ou por uma necessidade que deixa sua marca no exercício, na improvisação, na cena que você executa. Você pode estar concentrado no seu trabalho, não estar se poupando, seus gestos podem, tecnicamente, ser precisos e, no entanto, suas ações continuam sendo vazias. Não acredito no que você está fazendo. O seu corpo só diz uma coisa: obedeço a uma ordem dada de fora. Seus nervos, seu cérebro, sua coluna não estão comprometidos, e, com uma atitude epidérmica, quer me fazer crer que cada ação é vital para você. Você mesmo não percebe a importância do que quer fazer partícipe os espectadores.

Então, como pode esperar que o espectador fique preso por suas ações? Como você poderia, assim, afirmar e fazer compreender que o teatro é o lugar onde as convenções e os obstáculos sociais devem desaparecer, para deixar lugar a uma comunicação sincera e absoluta? Você neste lugar representa a coletividade, com as humilhações que passou, com seu cinismo que é autodefesa, e seu otimismo, que é a própria irresponsabilidade, com seu sentimento de culpa e sua necessidade de amar, a saudade do paraíso perdido, escondido no passado, na infância, no calor de um ser que lhe fazia esquecer a angústia.

Todas as pessoas presentes nesta sala ficariam sacudidas se você efetuasse, durante a representação, um retorno a estas fontes, a este terreno comum da experiência individual, a esta pátria que se esconde. Este é o laço que o une aos outros, o tesouro sepultado no mais profundo do nosso ser, jamais descoberto, porque é nosso conforto, porque dói ao tocá-lo.

A segunda tendência que vejo em você é o temor de levar em consideração a seriedade deste trabalho: sente uma espécie de necessidade de rir, de distrair-se, de comentar humoristicamente o que você e seus companheiros fazem. É como se quisessem fugir da responsabilidade que sente, inerente à sua profissão, e que consiste em estabelecer uma relação e em assumir a responsabilidade do que revela. Você tem medo da seriedade deste trabalho, da consciência de estar no limite do que é permitido. Tem medo de que tudo aquilo que faz seja sinônimo de fanatismo, de aborrecimento, de isolamento profissional. Porém, num mundo em que os homens que nos rodeiam já não acreditam em mais nada ou pretendem acreditar para ficarem tranqüilos, aquele que se afunda em si mesmo para enfrentar a sua condição, a sua falta de certezas, a sua necessidade de vida espiritual, é tomado por um fanático e por um ingênuo. Num mundo, cuja norma é o enganar, aquele que procura "sua" verdade é tomado por hipócrita.

Deve aceitar que tudo no que você acredita, no que você dá liberdade e forma no seu trabalho, pertence à vida e merece respeito e proteção. Suas ações, na presença da coletividade dos espectadores, devem estar carregadas da mesma força que a chama oculta na tenaz incandescente, ou na voz da sarça ardente. Somente então, suas ações poderão fermentar conseqüências imprevisíveis.

Enquanto Dullin jazia em seu leito de morte, seu rosto se retorcia assumido as máscaras dos grandes papéis que viveu: Smerdiakov, Volpone, RicardoIII. Não era só o homem Dullin que morria, mas também o ator e todas as etapas de sua vida.

Se lhe pergunto por que escolheu ser ator, me responderá: para expressar-me e realizar-me. Mas que significa realizar-se? Quem se realiza? O gerente Hansen que vive uma existência respeitável, sem inquietudes, nunca atormentado por estas perguntas que ficam sem resposta? Ou o romântico Gauguim que, depois de romper com as normas sociais, terminou sua existência na miséria e nas privações de uma pobre aldeia polinésia, Noa-Noa, onde acreditava ter encontrado a liberdade perdida? Numa época em que a fé religiosa é considerada como neurose, nos falta a medida para julgar o êxito ou o fracasso de nossa vida.

Sejam quais foram as motivações pessoais que o trouxeram ao teatro, agora que você exerce esta profissão, você deve encontrar um sentido que vá além de sua pessoa, que o confronte socialmente com os outros.

Somente nas catacumbas pode-se preparar uma vida nova. Esse é o lugar de quem, em nossa época, procura um compromisso espiritual se arriscando com as eternas perguntas sem respostas. Isto pressupõe coragem: a maioria das pessoas não tem necessidade de nós. Seu trabalho é uma forma de meditação social sobre si mesmo, sobre sua condição humana numa sociedade e sobre os acontecimentos de nosso tempo que tocam o mais profundo de si mesmo. Cada representação neste teatro precário, que se choca contra o pragmatismo cotidiano, pode ser a última. E você deve considerá-la como tal, como sua possibilidade de reencontrar-se, dirigindo aos outros a prestação de contas de seus atos, seu testamento.

Se o fato de ser ator significa tudo isto para você, então surgirá um outro teatro; uma outra tradição, uma outra técnica. Uma nova relação se estabelecerá entre você e os espectadores que à noite vêm vê-lo, porque necessitam de você.

(Fim)"

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O voto ou as chinelas à beira-mar?

É preciso ser sincero para justificar o privilégio de poder descer a caneta neste quintal. Não dá para negar que um feriadão assim, pela reta, é por demais tentador para quem trabalha e estuda 16 ou 18 horas por dia. Ainda mais quando se tem filhos e casinha na praia. No entanto, o próximo domingo, dia de eleição, é data para se considerar. É compromisso que merece respeito. Apesar da tentação, o dever do voto me chama. Estou decidido a deixar de viajar para o Espírito Santo para fazer o meu papel. Alguns companheiros, especialmente os amigos de praia, estão dizendo que estou levando muito a sério essa história de fazer a minha parte.

O Biju, de Itapemirim, escreveu: "Com essa corja que está aí, Josiel, é nunca que eu ia deixar de ficar com a minha família pra votar. Vem bora, sô! Vamo ferver os goiamum". Figuraça o Biju. A decisão já está tomada. Violeta e eu vamos ficar e fazer a nossa parte. É a minha voz nas urnas. O velho Botelho, lá em Marataízes, compreende muito bem. Ontem, pela manhã, conversamos por telefone: "Tá certo, filho. Não vou nem insistir porque entendo perfeitamente a sua postura. Já pensou se todo mundo resolver emendar o feriado e deixar de votar? A gente tem que fazer a nossa parte. A gente tem mesmo é que ter atitude, filho. Tá certo. Assim você tá é dando exemplo para os seus filhos. Depois, assim que der, a gente aproveita em dobro". É assim o velho Botelho. Deu-me exemplo a vida toda. Agora, é a minha vez de contribuir com os meus garotos. Gabriel e Tiago já começam a entender o que isso significa, tenho certeza.

E como o assunto é política, que fitão esse Tropa de elite 2, hein!? Caramba! Como tem coragem esse tal Padilha, diretor do filme. Fui duas vezes só para entender o recado do cineasta. Nem precisava ver duas vezes. Está tudo lá, claro e transparente. Fica até mais fácil entender a revolta do amigo Biju. O cenário principal é o Rio de Janeiro, mas bem que poderia ser outro lugar qualquer neste Brasil de tanta corrupção. Claro que Brasília está lá, absoluta, na telona. Que beleza de filme. Os atores estão mandando muito bem. Não é possível que uma obra dessa grandeza não consiga fazer alguma diferença. Tem que fazer. Não é possível que o sujeito que mete a mão no dinheiro público, depois de um filme assim, continue roubando o povo brasileiro. O Adelson acha que não muda nada: "Gente que rouba o povo não tem vergonha na cara. É capaz de ir lá, ver o filme e ainda se divertir, Josiel".

Prefiro não dar razão para o companheiro. Mas até que ele não deve estar de todo errado. Do jeito que a corrupção anda, tão deslavada, é bem possível que seja assim mesmo. Dá até para imaginar o bandidão de gravata, sorrindo entre seus iguais e dizendo: "Que fitão!" Contudo, ainda assim, domingo vou à urna. Um dia, quem sabe, a história pode ser diferente.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 27/10/10

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O bom teatro também pode ser bom negócio


Fala-se demais nas diferenças entre "teatro de pesquisa" e "teatro comercial". O fato é que já há alguns anos – mesmo importantes, é verdade – as leis de incentivo à cultura acabam por alimentar preconceitos entre os pequenos do teatro-cabeça. A questão é simples: há venda de ingresso ou troca de qualquer moeda? É comércio. Na arte, nem todo trabalho tratado comercial é ruim, assim como nem todo trabalho vendido pesquisa é bom – vê-se coisas vergonhosas levantadas com dinheiro público. Mas isso é assunto para mais de metro. Não vale render neste post. Hoje, a intenção é compartilhar texto de estudo da professora Iná Camargo Costa, doutora em filosofia pela Universidade de São Paulo, sobre a influência de Stanislavski nos Estados Unidos:

"Nos Estados Unidos, teatro sempre foi negócio sério, com o qual o Estado nunca teve qualquer compromisso, salvo pelo curto período (1935 a 1939) do Governo Roosevelt, quando uma pequena verba foi destinada a socorrer artistas desempregados, no âmbito da política do new deal.

Para se ter idéia do significado da palavra negócio, neste caso, basta dizer que, até 1914, a maior empresa dedicada à sua exploração, a dos irmãos Shubert, controlava 350 salas de espetáculo em todo o país, e que nos anos de 1920 (quando se consolidou a Broadway como o maior centro de produção de mediocridades) havia centenas de pequenas empresas produtoras sob o guarda-chuva da Shubert Teatrical Corporation. Um desdobramento necessário desta idéia: quando o cinema surgiu como produto mais lucrativo que o espetáculo teatral sob qualquer ponto de vista, esses produtores não hesitaram em transformar seus teatros em salas de exibição de filmes ou de espetáculos por sessões, na melhor das hipóteses alternando espetáculos de variedades (que podiam incluir até números de strip-tease) e projeções de filmes.

Num ambiente deste tipo, surge quase que naturalmente o star system, em que num primeiro momento grandes estrelas (homens ou mulheres) caem no gosto do público e se tornam chamarizes de bilheteria. Por causa delas os elencos se hierarquizam, atores se especializam e as próprias peças são escritas, desde logo oferecendo ao público o conhecido "mais do mesmo". As estrelas são tratadas com a máxima distinção, inclusive monetária - já que "valem mais" que os meros figurantes -, e em torno delas se desenvolve toda uma rede de interesses e grandes negócios liderada pela imprensa (jornais e publicações especializadas, que incluem livros e revistas).

As condições de trabalho, quando não chegam às raias da escravidão, envolvem de péssimos salários para quem não é estrela ao aterrorizante lema "o espetáculo tem que continuar", que despreza condições físicas ou psicológicas dos empregados (atores, técnicos, funcionários), ignora condições mínimas de palco (permitindo que artistas corram riscos de vida) e mesmo de sala - que podem ser inacreditáveis pulgueiros, para não dizer coisa mais pesada, pois põem em risco a saúde pública e assim por diante. Arte é uma palavra que passa muito longe do negócio, em larga medida herdada por Hollywood, que o desenvolveu amplamente e assumiu a liderança no setor (o teatro passou a funcionar de modo subordinado, sem nunca perder a condição de "laboratório artístico"), situação que persiste até hoje, pois por enquanto estamos falando de business.

Não trataremos aqui das tentativas dos trabalhadores - dramaturgos e atores, principalmente - de enfrentar os patrões, pois isto nos levaria longe demais. Mas fique o registro da criação de inúmeras organizações sindicais que trataram de moderar o apetite dos investidores lutando por direitos autorais, no caso dos dramaturgos, e por mínimas condições de trabalho, no caso dos atores e técnicos. Nosso assunto aqui tem a ver com a insatisfação de dramaturgos, atores e diretores quanto aos resultados de seu trabalho e com as condições de produção. Os dramaturgos, como é o caso de um O'Neill no início dos anos de 1920, porque não admitiam a hipótese de ver seus textos interpretados por companhias como as então existentes, e os atores e/ou diretores, porque tinham conhecimento das possibilidades de atuar de modo diferente, e que já se desenvolviam na Europa, principalmente na Rússia. Desde 1905, quando o Teatro de Arte de Moscou (doravante referido como TAM) fez sua primeira excursão por Paris e Berlim, circulavam nos Estados Unidos notícias sobre "uma nova maneira de interpretar".

Para além de notícias regulares em jornais americanos e ingleses, em 1911 a publicação do livro de Gordon Craig (Da arte do teatro), com entusiásticos elogios a Stanislavski, estabelece um padrão de curiosidade sobre o trabalho do ator que só tende a se intensificar nos anos seguintes. Por sua vez, a Revolução de Outubro de 1917 amplia o raio da curiosidade para o teatro russo (e agora soviético) como um todo: em 1919 uma revista muito popular (Drama Magazine) publica um artigo que, sob o título O teatro dramático russo, já estabelece até mesmo as diferenças entre os métodos de Stanislavski e Meierhold.

Finalmente, em 1922 o New York Times traz a notícia que todos os interessados em teatro esperavam: nova excursão do TAM, que agora inclui os Estados Unidos no roteiro. Falando de negócios, esta notícia marca o início de uma campanha publicitária que, por seu alcance e duração, só pode ser comparada às campanhas de lançamento de filmes de Hollywood. Por exemplo: o correspondente do Times em Berlim relata o sucesso da apresentação do Tzar Fiodor e adianta que não é preciso saber russo para entender tudo o que acontece em cena. As outras providências práticas incluíam ampla divulgação por meio de anúncios em todo tipo de veículo e sobretudo: venda antecipada de ingressos.

Mas, como estamos falando de uma companhia teatral da União Soviética, os empresários americanos acabaram contando com uma inesperada colaboração da direita para o sucesso da empreitada. Em Washington, a seção da American Defense Society promove uma manifestação de protesto, levantando a suspeita de que o TAM poderia ser um bando de espiões soviéticos e que estavam angariando fundos para a causa do comunismo internacional. Com o New York Times e o New Republic à frente, a grande imprensa (cujos interesses em comum com o negócio do teatro já foram apontados) partiu para a defesa da iniciativa, inclusive em editoriais, em nome da liberdade artística. Um dos grandes jornais publicou a declaração de Stanislavski em Paris: "Não temos ligação com o governo soviético. Só estamos interessados em arte. Nós trouxemos a nossa arte, não política" - o que, de fato, era verdade.

O resultado da campanha ultrapassou as previsões mais otimistas. O TAM estreou em Nova York, em janeiro de 1923, com a casa lotada, e uma temporada prevista para dois meses foi esticada para três, com direito a novo contrato para novembro daquele mesmo ano e, desta vez, com o seguinte roteiro: nove semanas em Nova York, três em Chicago, uma nas cidades de Boston, Filadélfia, Washington, Pittsburgh, Brooklin, Detroit e Cleveland; três dias em Hartford e também em New Haven. Esta temporada se encerrou em maio de 1924.

A imprensa deu conta de registrar as mais importantes unanimidades americanas a respeito dos espetáculos do TAM: a barreira lingüística não prejudicou a fruição dos espetáculos porque se tratava de entender e sentir o que acontecia em cena; no palco assistia-se a uma fatia de vida e não a uma peça de teatro; os atores vivem seus papéis, não os interpretam; e, independentemente de haver hierarquização dos personagens, todos os atores têm igual importância na realização do espetáculo, o que resulta do trabalho conjunto (ensemble), coisa jamais vista nos Estados Unidos.

Como não podia deixar de ser, os maiores interessados em ver os espetáculos do TAM eram os próprios atores das inúmeras companhias. Por meio da Actors Equity (uma organização sindical) obtiveram para a classe a realização de sessões especiais que sempre tiveram lotação esgotada. John Barrymore (da dinastia dos Drew), um dos maiores atores do star system, declarou que aqueles espetáculos foram a melhor coisa que se viu na vida em matéria de teatro.

Uma das atrizes do elenco, Maria Uspenskaia, resolveu permanecer nos Estados Unidos e, junto com Richard Boleslavski, veterano do TAM que se encontrava no país, acabaram sendo contratados para dar aulas de interpretação num empreendimento (igualmente business) que se chamou "American Laboratory Theatre" iniciado já no ano de 1924. Na verdade, Boleslavski cuidava da teoria que expunha em palestras e Uspenskaia cuidava da prática em suas aulas.

Assim como esses dois, alguns outros veteranos do TAM vieram para os Estados Unidos ao longo dos anos de 1920 e início dos anos de 1930, onde se estabeleceram e assumiram a missão de transmitir o legado de Stanislavski, dos quais vale mencionar Maria e Ivan Lazariev, Leo e Barbara Bulgakov e, finalmente, Mikhail Tchékhov, sobrinho do dramaturgo, que passou primeiro pela Inglaterra, onde fundou um estúdio, e só chegou em Nova York no final dos anos de 1930. Ele foi professor do nosso conhecido Yul Brynner.

Por aquilo que já ficou dito, obviamente o "sistema" de Stanislavski não podia funcionar no star system americano e a questão do repertório (Ibsen, Gorki, Tchékhov) talvez nem seja a mais determinante. Mais que difícil, impossível para um empresário teatral seria aceitar que seus elencos se organizassem como ensembles para ensaiar e apresentar as peças, quaisquer que fossem. Primeiro, pelo tempo necessário aos ensaios (enquanto pelo padrão Broadway uma peça podia no máximo consumir quatro semanas em ensaios, pelo padrão Stanislavski podia requerer mais de quatro meses) e, em segundo lugar, pela democratização do trabalho conjunto que implicava necessariamente a supressão das estrelas (as "galinhas dos ovos de ouro" do sistema).

Essa é a razão, por assim dizer, endógena (ao ambiente teatral) por que, desde o início, Stanislavski foi um assunto e um interesse da esquerda americana, ainda que sua introdução no país tenha sido uma operação estritamente de mercado. A outra razão do interesse por este mestre do teatro está ligada a seu vínculo natural com os problemas sociais e políticos do país, que também se traduzem em textos teatrais e se traduziram em experimentos e iniciativas que se contrapunham ao star system.

O próprio American Laboratory Theatre é um exemplo disso e na mesma conjuntura apareceram duas iniciativas complementares ou mesmo vinculadas a ele. A primeira foi a criação do Civic Repertory Theatre em 1926 por Eva Le Gallienne, proveniente de família com tradição no show business, que incorporou a seu elenco a atriz do TAM, Alla Nazimova, e se dedicou a encenar Ibsen e Tchékhov segundo o padrão stanislavskiano. A segunda foi o Group Theatre, criado por profissionais do Guild Theatre (a mais avançada, moderna e respeitada companhia do star system) que foram alunos de Boleslavski e Uspenskaia no American Laboratory Theatre: Harold Clurman, Cheryl Crawford e Lee Strasberg. Foi também no American Laboratory Theatre que Harold Clurman conheceu Stella Adler, com quem mais tarde se casaria (na verdade reencontrou a atriz que na infância vira no teatro ídiche de Nova York).

O Group Theatre também merece uma história à parte (já existe razoável bibliografia a respeito), mas, para o que nos interessa agora, é preciso registrar que com ele pelo menos duas coisas ficaram demonstradas na cena americana. A primeira é obviamente a viabilidade, o interesse e a superioridade do trabalho teatral realizado por um ensemble. E a segunda foi a consolidação da dramaturgia séria americana, fenômeno que só aconteceu no século XX e teve como pioneiros na primeira década do século Elmer Rice e Eugene O'Neill.

O capítulo seguinte desta história tem como protagonista Lee Strasberg, o primeiro diretor do Group Theatre e que passou a ser conhecido como o responsável pelos desenvolvimentos propriamente americanos da teoria stanislavskiana, sobretudo nos anos de 1940, quando se tornou o maior mestre de atores no Actors' Studio e "senhor" do "Método". Sua fama já vinha de algumas das experiências no Group e, descontando ao menos em parte a mitologia criada em torno de sua figura, vale a pena reconstituir em linhas gerais o tema básico da "questão do método" que nos anos de 1950 envolveu a quase totalidade da classe teatral - e, a esta altura, a cinematográfica também.

Por certo houve disputas diversas para se definir quem seria o legítimo "herdeiro" de Stanislavski nos Estados Unidos já no século XXI; não pode mais ser esse o móvel da curiosidade de quem vive num país como o nosso, que só acompanhou tudo isso muito à distância e sobretudo em seus aspectos inteiramente transformados em folclore (pelas "publicações especializadas" do próprio star system).

De qualquer modo, o que poderíamos chamar de disputa entre Lee Strasberg e Stella Adler tem alguma coisa produtiva que ainda hoje pode ser de interesse para nós. Tendo entrado para o Group em 1930 (ele fora fundado em 1929), ela estreou com seu irmão Luther numa peça de John Howard Lawson, dirigida por Lee Strasberg, Success story. O resultado foi tão notável que a peça e sua atuação memorável, especialmente na cena final, se tornaram cult (para usar o nosso jargão recente). Sobretudo atores se empenhavam em vê-la e consta que John Barry-more ia ao teatro para estudar seu trabalho. Noel Coward teria visto a peça por sete vezes!

O problema apareceu em seguida, quando a atriz se sentiu tolhida pelo método de trabalho de Strasberg que, àquela altura, era centrado na exploração da memória afetiva do ator. A atriz afastou-se do grupo, viajou à Europa e em Paris conheceu ninguém menos que o próprio Stanislavski. Em uma longa conversa com ele, concluiu que o seu problema não era com o sistema do mestre russo, mas sim com a maneira como Strasberg o desenvolvera. Voltando ao Group, começou a dar aulas também, tratando de dar ênfase a aspectos com que Strasberg não trabalhava, sobretudo o papel da imaginação do ator em seu trabalho. E, liberta das amarras da "memória afetiva", voltou a encontrar prazer em atuar, criando em 1935 uma Bessie (personagem de Awake and sing, de Clifford Odets, dirigida por Harold Clurman) que também ficou na história.

O Actors' Studio foi fundado em 1947 por Cheryl Crawford, Elia Kazan e Robert Lewis. Estes dois começaram como estudantes do Group Theatre, mas Bobby Lewis já fizera parte do elenco do Civic Repertory Theatre (como, aliás, inúmeros outros membros da primeira turma do Group). Com a saída deste em 1948, Lee Strasberg foi convidado a participar do empreendimento e ali encontrou finalmente o lugar onde levaria suas idéias sobre formação do ator às últimas conseqüências. A partir de 1951 tornou-se o diretor artístico do Studio. Quanto a Stella Adler, com o encerramento em 1939 das atividades do Group, passou a lecionar na Erwin Piscator's Dramatic Workshop da New School for Social Research. Mais tarde, em 1949, cria o Stella Adler Acting Studio e, desde então, nunca mais parou de dar aulas. (Para quem gosta de histórias fechadas, Strasberg morreu em 1982 e Stella Adler em 1992.)

Com essas informações, estão identificados os principais representantes americanos da Escola de Stanislavski nos Estados Unidos. O detalhe importante é que ambos são provenientes da vida cultural judaica em Nova York.

Nos anos de 1930, a cultura relevante nos Estados Unidos era de esquerda e isso aparecia de modo mais claro no teatro. Foi esta situação que permitiu aos adeptos de Stanislavski implantarem no país uma cultura teatral infinitamente mais exigente em termos artísticos do que o establishment jamais fora capaz de produzir. As condições materiais foram criadas pelo crack da Bolsa em 1929, que fez o dinheiro das produções da Broadway virar pó e levou os "grandes produtores" a baterem em retirada. Mas com os ganhos da Segunda Guerra, eles se realinharam e rapidamente retomaram os seus lugares e, sobretudo, o controle ideológico do debate sobre o teatro.

Assim, ao mesmo tempo em que grandes acontecimentos teatrais, amplos sucessos de público e bilheteria, eram promovidos pela esquerda, como a revelação de Tennessee Williams em 1947 com Um bonde chamado desejo e a de Marlon Brando como um dos maiores atores de sua geração, ou a de Arthur Miller em 1949 com A morte de um caixeiro viajante, eles iam sendo neutralizados pelo establishment com o crescente processo de discussão e, finalmente, a desqualificação do "método". Esta é uma história que ainda não foi devidamente examinada nem pelos próprios estudiosos do teatro americano moderno, mas existem vários registros das tentativas, por parte de seus adeptos, de ao menos colocar a discussão nos seus devidos termos. Os livros de Lee Strasberg (Um sonho de paixão) e Robert Lewis (Método ou loucura), ambos publicados no Brasil, são importantes capítulos dessa verdadeira guerra travada na cena americana, sobretudo a partir dos anos de 1950. Mais recentemente, editoras brasileiras parecem ter descoberto também a contribuição de Stella Adler, mas estamos muito longe de dispor de um quadro mínimo do que se precisa saber em língua portuguesa.

Basicamente, Lewis e Strasberg nos ajudam a entender a preocupação central de Stanislavski com a formação exigente do ator. Stella Adler, além disso, tem a preocupação, que também era de Stanislavski, com o estudo dos principais dramaturgos do final do século XIX que, em suas palavras, ainda são tão mal lidos, mal compreendidos e mal encenados no teatro americano. Se ela estiver certa, a contra-revolução promovida pelo establishment foi vitoriosa em todas as frentes. E a principal indicação de que sim é o sucesso que faz em um teatro paulista a produção "nacional" de A bela e a fera: teatro infantil para adultos!

Não vemos, entretanto, paradoxo nenhum no fato de que ainda hoje, apesar da contra-revolução, os mais relevantes atores do cinema americano, a cujo trabalho temos acesso, tenham sido todos aprendizes dos discípulos americanos de Stanislavski. Para ficar em poucos exemplos: Anne Bancroft, Al Pacino, Geraldine Page, Harvey Keitel, Dustin Hoffman..."