Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A lição do guerreiro bem-te-vi

"Todo dia, quando chegava da aula, o bicho estava me esperando perto do portão. Eu já andava com o bodoque na pasta. Era o tempo de colocar a pedra que ele sumia..."




Há um ninho de bem-te-vi na mangueira que dá para a janela do meu quarto. No início, a ave chegou a tirar-me o sono. Foram dois ou três dias sem conseguir dormir pela manhã, em função do seu famoso berro trissilábico. Noite virada no batente, cheguei a improvisar tampão nos ouvidos para ver se abafava a coisa. Nada. O canto do tiranídeo mais parece de trinca-ferro. Uma potência.

Aí, o Vantuir, companheiro de praça, hoje apaixonado pelo que pertence à natureza, chamou a minha atenção para a vida dos pássaros. Falou-me com conhecimento da construção dos ninhos, sobre adultos e filhotes. Revelou-me que, quando garoto, lá pelas bandas de Governador Valadares, costumava atirar pedras com bodoque em tudo o que era bicho: burro, vaca, porco, gato, cachorro, galinha e passarinho. Isso, dos 7 aos 9 anos de idade. Até que levou surra para nunca mais esquecer. Fiz questão de tomar nota do depoimento do Vantuir para contar em nossa Bandeira Dois:

“Josiel, quando a gente é criança tudo é muito maior do que realmente é, mas jamais vou esquecer aquele dia. Sem exagero. Tenho para mim que o bem-te-vi já estava de olho no que eu fazia. Só pode. Da cerca do quintal lá de casa, vivia ouvindo o sujeito. Tentei atirar nele com o meu bodoque de liga de soro um monte de vezes, e ele, muito arisco, sumia nas árvores. Todo dia, quando chegava da aula, o bicho estava me esperando perto do portão. Eu já andava com o bodoque na pasta. Era o tempo de colocar a pedra que ele sumia”.

Nisso, enquanto o Vantuir contava, o povo do Bar do Careca começou a fazer silêncio para ouvir a história. E ele continuou: “Aí, numa tarde, já cheguei armado, com uma bola de gude. Foi tudo muito rápido. Não deu tempo de fazer nada. O bem-te-vi parecia ter ganhado o tamanho de um urubu. Veio com um monte de rasante em cima de mim. Parecia um avião de guerra. E tome bicada, asada, peitada, penada e gritaria. O bicho gritava no meu ouvido, que pensei que fosse ficar surdo. Se a dona Claudete, nossa vizinha, não tivesse me socorrido, eu nem ia tá aqui pra contar. E ele ainda, pode acreditar, consumiu com o meu bodoque. Só sei que depois desse dia toda vez que pensava em atirar uma pedra, ele aparecia pra mim, bravo, feito assombração”, concluiu o companheiro.

Bastante impressionado com a história do Vantuir, na manhã seguinte, quando voltei para casa, levei um papo com o bem-te-vi. Fiz uma doação simbólica e disse que a árvore era dele. Selamos nossa amizade e, finalmente, consegui dormir em paz.


P.S. Trouxe-me muita alegria a presença dos amigos leitores no lançamento do livro Bandeira Dois – Do eu que há em mim, no BH Shopping, na última sexta-feira. Valeu!


(Bandeira Dois - Josiel Botelho - 30 de setembro de 2009)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Última semana para ver Vincent

"Um pássaro na gaiola, durante a primavera, sabe muito bem que há algo em que ele pode ser bom. Sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem, então, vagas lembranças e diz para si mesmo: 'Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada'. Então, bate com a cabeça nas grades da gaiola e a gaiola continua ali. E o pássaro fica louco de dor. 'Vejam que vagabundo', diz outro pássaro que passa. 'Este aí é um tipo de aposentado!' No entanto, o prisioneiro vive e não morre. Nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo. Ele está bem. Está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração, acesso de melancolia. 'Mas', dizem as crianças que o criam na gaiola. 'Afinal, ele tem tudo o que precisa'. E ele olha lá fora... o céu cheio, carregado de tempestade e sente em si a revolta contra a fatalidade: 'Estou preso. Estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo o que preciso!' Ah! Por bondade! Por bondade! Liberdade! Ser um pássaro como os outros". (Vincent Willem van Gogh)


Terça-feira, dia 29, às 20h, "Vincent" encerra temporada no Teatro da Maçonaria. Última oportunidade para quem ainda não leu, viu ou ouviu o arrebatador texto escrito pelo pintor Van Gogh. Datada de 1880, a principal carta em cena traz inquietações absurdamente atuais.
Há ainda, na adaptação, textos de Shakespeare e Artaud.


Fica o convite.


sábado, 26 de setembro de 2009

Mais forte que a ficção

Noite inesquecível. Leitores, amigos e amigos leitores compareceram em massa para prestigiar o lançamento de “Bandeira Dois – Do eu que há em mim”, pela Editora B, na Livraria Leitura do BH Shopping. Para citar apenas os personagens mais famosos da coluna, além de muitos taxistas, artistas e jornalistas, estavam lá a Violeta, o velho Botelho, o Adelson, o Oswaldo, a Suely, a Norma, a Dulcinéia, o Gabriel e o Tiago. Turma do peito veio de Guarapari, no Espírito Santo, especialmente para o evento. Teve até pessoa muito querida, distante há mais de 20 anos, trazendo abraço sincero. Decepção também. Gente amada que não deu nem sinal de fumaça. Mas a vida é assim: mais forte que a ficção.

Abaixo, pequeno registro do olhar atento do irmão Ferdinando Ribeiro. A câmera fotográfica demorou a chegar e, infelizmente, muita gente ficou de fora. Guardo-os comigo para sempre na memória. Mais uma vez, à moçada de bom coração, o meu muito obrigado!

Josiel Botelho

























Por uns trocados

A moça do quadril surrado ainda não havia deixado o táxi quando o celular do Adelson tocou. Natasha, passageira de intimidades, percebeu o estado alterado do motorista depois da notícia recebida por telefone. Curiosa, quis saber:

– Tudo bem?
– Meu filho.
– O que aconteceu?
– Está muito mal.

Natasha quis que o taxista a deixasse em qualquer lugar. Não estava longe do combinado e ele fez questão de cumprir a corrida. Deixou-a na Savassi, em hotel luxuoso, e seguiu para o pronto-socorro. “Boa sorte!”, disse a puta. A cabeça voou longe, no passado, em tempos felizes ao lado do filho e da mulher Elvira, com quem dividiu a cama por 15 anos. A separação foi golpe sem misericórdia. Na mesma época, pouco depois que ele saiu de casa, a ex-mulher assumiu romance com pastor, orador da mesma igreja que o casal frequentava.

O instante e a realidade vieram num rompante, com as luzes cor de sangue das viaturas na porta do hospital de urgência a dissolverem a memória. Adelson deixou o carro de aluguel em frente à igreja dos turcos e andou rumo à portaria. Obregon, amigo segurança, de plantão, ao saber do drama do taxista, aliviou a burocracia. Ao ganhar o leito da UTI, Adelson viu a ex-mulher, mãe de olhos fundos e coração partido, velando o coma profundo do filho-homem-feito de 19 anos: Maurinho, presidiário em Ribeirão das Neves.

Por ruindade ou desafeto, gangue de infelicidade espancou o condenado no cair da tarde, em canto qualquer da penitenciária. O estrago no abdômem perfurado foi grande e deixou a vida do moço por um fio, mantida por aparelhos. Pai e mãe ali, mudos, não queriam acreditar que o rebento único estava partindo. Nos olhos de Adelson, o brilho triste da vergonha provocada pela condenação do filho por tráfico de drogas, no início do ano, deu lugar a vazio de infinita tristeza. Mais uma vez, na retina do homem de bem, o passado. Madrugada de batida policial no dia em que a casa caiu.

Maurinho, motoqueiro, tentou fugir da blitz na Avenida dos Andradas. Acelerou e acabou com as mãos na cabeça em cerco da polícia. Flagrante: três quilos de maconha malocados pelo corpo. Espancado, por tortura e força bruta, disse que começou por trocados e entregou o esconderijo na casa dos pais. Adelson e Elvira assistiram da varanda ao policial com cara de bandido desenterrar 12 quilos da droga no quintal. Não teve bom defensor que aliviasse o réu primário: nove anos de cadeia. Madrugada triste. Finado diante dos pais, o garoto não cumpriu um único mês da pena.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26 de setembro de 2009

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Bandeira Dois no BH Shopping

Amigos e leitores já estão convidados. Sexta-feira, dia 25, das 19h às 22h, tem lançamento de "Bandeira Dois - Do eu que há em mim", pela Editora B, na Leitura do BH Shopping. Trata-se de livro de crônicas assinadas pelo heterônimo Josiel Botelho, publicadas no jornal Aqui. Curioso e observador, de origem das mais humildes, o sujeito vive de comentar Belo Horizonte e sua gente. Através da janela de carro branco de aluguel, alerta, Josiel não vê o mundo girar em vão.



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sobre o muito que há em nós

Ontem, pela manhã, fui à Praça 7 comprar uma Bíblia para presentear um amigo. Gostei de ter sido chamado de irmão pelo vendedor e pela moça do caixa. “Irmão”. Bonito isso. Não tem nada a ver com credo ou religião. É sério. Digo irmão no sentido mais perfeito da palavra. Afinal, somos filhos da mesma mãe-terra com o pai-universo. Logo, irmãos pela própria natureza. O resto é invenção do homem, que abusa da fé do povo com histórias de pecado e redenção. Eita! Isso é assunto para mais de metro. No momento, não tenho ânimo para mergulhar no tema. Apenas guardo profundo respeito por toda a vida que há no planeta. Sou mais feliz assim: sem medo do inferno e tendo no amor pedaço do céu. Com isso, meu bom leitor, viver vale a pena. Sempre.

Foi bom o passeio a pé pelo Centro de Belo Horizonte. Nossa cidade tem lá os seus problemas, é verdade (basta citar o trânsito e a falta de planejamento), mas tem um povo que é só bem (em grande maioria). Basta observar o olhar generoso dos balconistas dos cafés e das lanchonetes. Há também o ir e vir dos passantes apressados, que dão vida ao que é sólido e se desmancha no ar. Os taxistas, os aposentados e os andarilhos. Uma multidão de personagens que, por hora, saltam-me à cabeça: o engraxate desdentado e feliz da Rua Carijós; a mulher linda e gentil, de colete amarelo, a panfletar pelo dentista na Rua Rio de Janeiro; a dona agigantada na Rua São Paulo, que anuncia retratos baratos; a loura, dona de farta banca de revista na Avenida Afonso Pena. Sem falar nos artistas populares que, aos montes, mambembam pelas bandas da rodoviária.

Peço um café e, por celular, sou chamado às pressas para buscar passageira em blitz da Polícia Rodoviária Federal: Dona Cacilda, aos sessenta e poucos anos, em apuros. Com a carteira de habilitação vencida, minha cliente resolveu ir até Nova Lima guiando seu carrão bacana. Não deu outra: “Documento”. O guarda não foi rude ou indelicado. No cumprimento do dever, apenas interrompeu a aventura da ilustre senhora. Pedi ao Adelson para me levar e, quando chegamos na barreira, lá estava a dona Cacilda toda prosa, cheia de amizade com os policiais. Já passava das 14h quando fui almoçar com a Violeta. Ela ouviu curiosa as anotações do dia e, com entusiasmo, falou sobre suas novas descobertas com a filosofia. Bíblia para presente na sacola, fui descansar para mais tarde pegar no batente. Antes de dormir, reflexões sobre o muito que há em nós.

P.S. Aos leitores, um convite: dia 25, na próxima sexta-feira, das 19h às 22h, na Livraria Leitura do BH Shopping, a Editora B lança Bandeira Dois - Do eu que há em mim. Livro de crônicas, contemplado pela Fundação Municipal de Cultura. Aqui, registro de eterna gratidão: meu mais sincero obrigado aos apoiadores Ricardo Botelho, Josemar Gimenez, Liliane Corrêa, Tetê Monteiro, Ademar Fulgêncio, Rafael Corrêa, Beatriz Amaral e João Rafael Picardi Neto (in memoriam).

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 23 de setembro de 2009

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Dois convites

Amanhã, terça-feira, penúltima apresentação de "Vincent", às 20h, no teatro da Maçonaria. Na sexta-feira, dia 25, na Leitura do BH Shopping, a partir das 19h, tem lançamento de "Bandeira Dois – Do eu que há em mim", livro de crônicas publicadas no jornal Aqui, pela Editora B. Contamos com a presença dos amigos.

sábado, 19 de setembro de 2009

Uma furtiva lágrima

“Entre nós é sexo, diversão! Amor a gente faz em casa. Eu com a minha mulher, você, lá, com o seu marido. Não pode ser diferente.” Foi assim que o Júnior deixou a aluna-amante emudecida, no Parque Municipal, diante do pipoqueiro com olhos de piedade. A mulher havia chutado o pau da barraca e abandonado o marido para se entregar inteira, de corpo e alma, ao instrutor da autoescola. Levou a filha Gabriela, de 6 anos, para a casa dos pais, e, às pressas, foi anunciar o desfecho. Ele, inflamado, respondeu: “Tá maluca?”

Findou-se ali o romance. Júnior, aborrecidíssimo, deu as costas e seguiu sem olhar para trás. Saiu do parque, entrou no carro e rumou Avenida dos Andradas sentido Bairro Nova Vista, Região Leste de Belo Horizonte. Em casa, guardou o veículo sob plástico de proteção prateado e foi ver a esposa, acamada. Dispensou a enfermeira sem muita cerimônia: “Pode ir. Hoje não vou mais precisar de você”. Sentou-se ao lado da mulher, que dormia. Ficou por mais de hora ali, segurando a mão de Izabel, revisitando o passado. O filho, Pedro, passava o fim de semana com os avós, no sítio em Santa Luzia.

Não se sabe de história de amor como a do Júnior e da Izabel. Conheceram-se em baile dos mais animados, no Forró do Manezinho. Ela, 15 anos mais velha, havia acabado de levar fora do namorado. Ele festejava a maioridade com os amigos da escola. Bastaram duas ou três músicas agarradinhos para que houvesse o diabo entre eles. Ficaram, namoraram, se coisaram e, casados, tiveram o Pedro. Depois do nascimento do garoto, Izabel passou a ter sério problema de saúde. Fumante inveterada desde adolescente, desenvolveu enfisema pulmonar e, há três anos, só respira com a ajuda de aparelho. Júnior, doído de amores, passou a viver para a família.

No último ano, com novas complicações respiratórias, Izabel fez o marido prometer dar novo rumo na vida: “Promete?”, suplicou em madrugada de insônia. “Prometo. Prometo. Agora, feche os olhos e tente dormir.” Demorou para que Júnior cumprisse a promessa e se envolvesse com outras donas fora do casamento. No início, foi grande o desconforto, mas, numa tarde, debaixo da vizinha assanhada, pensou sozinho: “É isso. Sexo, simplesmente”. Depois, vez por outra, volta e meia, passou a se enrabichar por indecência. Da última, aluna casada, Júnior não queria mais saber. Izabel acordou e quis entender o motivo:

– E ela?
– Largou o marido.
– Você precisa encontrar alguém.
– Shhh… Olha o que o médico disse...

Beijou-a na testa e enxugou lágrima furtiva em curva seca de sorriso triste.


(Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19 de setembro de 2009)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A reinvenção do sexo

Não é de hoje que o mundo virtual, carregado de fantasias e possibilidades, dá nó na minha cabeça. Para falar a verdade, chega a tirar-me o sono. Noite dessas, corrida longa, conversa com passageira das antigas rendeu caderneta cheia de anotações para nossa Bandeira Dois. Aliás, a vida da moça daria um livro recheado de histórias dramáticas, cômicas e picantes. Já me contou cada caso de impressionar. Vários deles, inclusive, já foram publicados no Aqui.

Muito descolada, conversada como sempre, tomou-me o táxi no Bairro Anchieta, na Zona Sul. De lá, pouco antes das 22h, seguimos para pousada na Serra do Cipó, ponto de encontro para fim de semana com cliente paulista. Durante todo o trajeto, falou cheia de empolgação da parceria com outras garotas, donas de um site de relacionamentos virtuais, desses aos montes espalhados pela internet. O negócio é incrível: são mulheres livres, leves e soltinhas, que se exibem na rede mundial de computadores.

Já são milhares de homens e afins, associados, pagantes, do outro lado das pequenas câmeras, conectados uns com os outros. Uma loucura. Ela disse que o povo passa horas, madrugadas, trocando afeto e carícias pelo computador. Disse também que a única regra é que ninguém pode se conhecer. “São identidades inventadas, vidas secretas, Josiel. Lá, todo mundo pode ter uma outra história”. Fiquei com a cabeça a mil. Perguntei mais sobre a tal sociedade secreta e ela me deu detalhes impressionantes.

A conversa me fez lembrar o Gigante, colega de infância, que foi ficando tão grande, mas tão grande, que resolveu trancafiar-se dentro de si mesmo. Hoje, não tem (nem faz questão de ter) amigos. Só fica na frente do computador, imerso em mundinho virtual, fazendo-se passar por outros tantos que ele não é. Disse-me, certa vez, que estava de romance há mais de ano, pela web, com uma mulher maravilhosa, lá do Canadá. Perguntei se ele não sentia falta de pegar, apertar, dar uns bons balaços na dona, e ele foi categórico: “Eu não. Mulher de verdade dá muito trabalho”. Pobre Gigante.

Pensando em gente como o Gigante é que a minha passageira está se dando bem. Rumo à terra das cachoeiras, ela afirmou que em breve deixa a vida de acompanhante de luxo. Que vai fazer companhia só através das webcams. Falou que já está cheia de fãs no site. “Outro dia, quando assustei, tinha mais de 500 pessoas na sala só para me ver dançar sem roupa”, disse, feliz da vida. Também contou, vaidosa, que no último aniversário recebeu centenas de recados de parabéns. Aí, perguntei: “E abraço de verdade, quantos?” Ela parou para pensar por segundo e respondeu: “Um” e findou o assunto.

No caminho de volta, pensei comigo: “Que bom que tenho a Violeta”. Já cheguei em casa mandando o pé na porta, com uma flor na boca, e arrancando o PC da tomada.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16 de setembro de 2009

domingo, 13 de setembro de 2009

Fim de temporada

Hoje, às 20h30, no Espaço Cultural da PUC Minas, na Praça da Liberdade (Rua Sergipe, 790), tem fim de temporada. "Vila dos mortos", projeto experimental de dramaturgia compartilhada, alcançou resultados surpreendentes junto ao público e à crítica.

sábado, 12 de setembro de 2009

Jezebel

Quando a Laurinha ficou na pior, sem chão ou amparo, foi Jezebel quem lhe estendeu as mãos. Amigas desde a infância, dava gosto ver as duas. Cresceram e estudaram juntas até a graduação: advogadas. Fizeram direito porque queriam se dar bem na vida. Começaram a namorar na mesma festa, com dois amigos da faculdade: Romão e Danilo. Com os pensamentos adiante, no futuro, nunca foram de muita farra. Viviam para os estudos. Apaixonadas, objetivas, decidiram se casar logo depois de concluído o ensino superior.

Mas a roda do destino, que gira e cambaleia, acabou por redesenhar o rumo das duas. Laurinha foi morar em Brasília, por ocasião de emprego sensacional que o marido Romão conseguiu por indicação de amigo do pai senador. Já Jezebel, com a ajuda da família, montou escritório tributarista em Belo Horizonte, enquanto o marido sonhava ser juiz. Sonho apenas, já que, estudante medíocre, jamais conseguiria dobrar concurso algum. Apesar da distância, Laurinha e Jezebel continuaram próximas, favorecidas pelos avanços da era digital. Contudo, tocavam caminhos cada vez mais distintos.

O tempo, cruel como a preguiça, sapecou cinco anos no virar das folhinhas. Jezebel ainda quebrava o desjejum, quando, pelo interfone, “seu” Nelson avisou que a amiga, de malinha na mão, estava na portaria. “Laurinha!? Claro que ela pode subir”, respondeu, surpresa. Tragédia pouca é bobagem: Romão, o ex-marido, se apaixonou por segurança do congresso, chutou o pau da barraca e foi morar com o tal armário. “Gay, Bel. O Romão sempre foi viado! Dá para acreditar?”, disse em prantos, entre goles de água com açúcar. “Não tenho mais família, só tenho você, amiga”, desabou em frangalhos.

Jezebel amparou Laurinha, desempregada, separada, sem pai nem mãe (mortos em acidente no ano passado), como se a infeliz fosse sangue do seu sangue. Preparou suíte luxuosa, de hóspede, com tudo do bom e do melhor, e orientou a empregada: “Quero que a senhora cuide dela como cuida de mim, dona Irene. A casa é sua, Laurinha, fique por todo o tempo que precisar. Quando quiser, você começa comigo lá no escritório”. Até emprego Jezebel arrumou para a sujeita. Danilo, o marido de Jezebel, também recebeu Laurinha muito bem. Longe de ser juiz, o cidadão, para não viver apenas nas costas da mulher, fazia bico como vendedor de azeite e trabalhava vez por outra apenas.

No chicotear dos dias, seis meses passados. Dona Irene sabia e não contou por fraqueza. Foi preciso que Jezebel chegasse mais cedo e visse, por canto besta do portal de alumínio, as indecências do marido canalha com a ingrata Laurinha. Não fez escarcéu nem aprontou gritaria. Apenas dispensou a empregada e, sem fome, preparou jantarzinho especial para os dois. Danilo e Laurinha, envenenados, não amanheceram com vida. Naquela manhã, Jezebel, enfim, acordou nos braços da paz.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 12 de setembro de 2009

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Última chamada

Última chamada para "Vila dos mortos". Levantada por meio de método diferenciado de interpretação e criação compartilhada, a peça vem arrebatando simpatizantes de várias linhagens. Imperdível!




Fim de temporada

Vila dos mortos encerra temporada no Espaço cultural PUC Minas, na Praça da Liberdade, no próximo domingo. No palco, o outro lado da vida. Seis histórias de pessoas simples, sobrepostas pelo tempo, se cruzam em rua de bairro qualquer de Belo Horizonte. Em comum, os dramas provocados pela fatalidade das circunstâncias.


Nada é exatamente o que parece ser

Elenco de vigor pelo conjunto leva para a cena grande desafio: fazer-se crer o incrível. É bastante comum o realismo fantástico, o suspense e o terror se transformarem piada quando levados aos palcos. Os realizadores de “Vila dos mortos”, artistas criadores, em grande maioria, sabem disso e foram cuidadosos no levantamento de cada quadro. O resultado parece ter saído das grandes telas, com cortes cinematográficos e edição valiosa. Experiência no mínimo curiosa ao espectador que, ao fim, percebe que nada era exatamente o que parecia ser.

Vila dos mortos é resultado de processo colaborativo de dramaturgia e método físico de interpretação, desenvolvidos por formandos do curso profissionalizante de teatro da universidade católica de Minas Gerais, sob a direção de Jefferson da Fonseca Coutinho. Em cena, 23 atores se desdobram em composições realistas que privilegiam a presença sensorial do intérprete. Cenário, figurino, iluminação e trilha sonora também foram levantados por meio de criação compartilhada.

A peça encerra temporada esta semana, com quatro últimas apresentações dias 10, 11, 12 e 13 de setembro, às 20h30, no espaço cultural que fica na Rua Sergipe, 790, Bairro Funcionários. Para a entrada, basta trocar 1 quilo de alimento não perecível por senha, 30 minutos antes da apresentação. Os ingressos são limitados.



VILA DOS MORTOS

Direção: Jefferson da Fonseca Coutinho
Espaço Cultural Puc Minas – Tel. 3269-3260
Rua Sergipe, 790 – Funcionários

Última semana
Dias 10, 11, 12 e 13 de setembro, às 20h30.
Ingresso: 1 quilo de alimento não perecível.
Fotografia: Maurício Pereira Vieira
Contato: 3269-3260; 9952-2901

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Dia do Veterinário

9 de setembro é dia do médico veterinário. Homenagem da família Leona aos amigos Carlos, Carolina e Marina.


Dos perigos da gripe A (H1N1)

O assunto é dos mais sérios. Nem cabe graça. No domingo, véspera de feriado, amanheci como se tivesse levado uma surra. Foi difícil sair da cama. Violeta constatou a febre, que beirava os 39oC. Fora a garganta um pouco doída, nenhum dos outros sintomas alarmantes, como falta de ar; dor no peito ou barriga; comprometimento neurológico (alteração da consciência, convulsões etc); náusea com vômitos frequentes; sinais de desidratação; insuficiência respiratória ou hipotensão. Além do estado de fraqueza, nada que pudesse me assombrar com a tal gripe A (H1N1).

No termômetro, 38,5oC. Remédio para baixar a febre goela abaixo, fiz-me forte para tranquilizar a Violeta. Ela, preocupadíssima como toda mulher-companheira, insistiu: “Melhor não facilitar. Vamos ao hospital”. Eu não queria ocupar plantão, sabendo que a cidade está assim de pacientes com quadro de maior risco que o meu. Foi então que concordamos que, se a febre não baixasse, buscaria pronto-atendimento. Combinamos também, por segurança, nos manter distantes por mais de metro. Dei a ela a máscara que ganhei do Adelson, amigo e parceiro de praça (se o caro leitor encontrar um taxista mascarado por aí, não tenha dúvida, é o Adelson).

Ficamos em casa na boa preguiça dos apaixonados. Apesar da distância da bela mascarada, nos divertimos até. Depois do almoço, fizemos sessão de cinema e emplacamos um filme atrás do outro. Mais tarde, tempo para os estudos: ela, para concurso público; eu, para encarar a UFMG. A febre subia e descia na medida do efeito da Novalgina 1g. Achei melhor dormir na sala. De manhã, febre. Minha tosse pareceu ter acordado o velho Botelho lá em Santa Mônica. Telefonou-me cedo para saber como andavam as coisas por estas bandas e sugerir que eu fosse ao médico imediatamente: “Não facilite, meu filho. Essa gripe é assunto sério”.

Violeta e eu seguimos para o hospital. Fui atendido sem demora. Minha acompanhante ficou em outro setor, devorando um livro de mais de 500 páginas. De cara, mascararam-me. Na triagem, a moça de olhar santo, depois de entrevista, deu-me adesivo. “O que significa?”, perguntei. E ela, pragmática: “Que o senhor não vai morrer nas próximas 24h”. Fiquei bastante feliz com a resposta. Sala de espera cheia, hora mais tarde, fui encaminhado à doutora Gisele. Um encanto de profissional. Examinou-me como quem cuida de criança. Generosa, orientou-me da melhor maneira possível. Diagnosticou quadro sem gravidade, mas, por precaução, sugeriu repouso e observação por três dias.

Mascarados, Violeta e eu fomos à farmácia aviar receita e passamos na locadora. As pessoas nos olhavam como extraterrestres. Pode até haver algum exagero em relação a essa pandemia. No entanto, gosto demais da vida para contaminar alguém ou ser abatido por um resfriado. Todo cuidado é pouco com essa H1N1.

(Josiel Botelho - Bandeira Dois - 9 de setembro de 2009)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Vincent no Teatro da Maçonaria

Nesta terça-feira, às 20h, tem apresentação de "Vincent", no Teatro da Maçonaria. Das ruas ao Copacabana Palace, desde 1995, a peça é apresentada em becos, guetos e vielas. Em cena, um sujeito rude que fala de Deus, amor e liberdade.






Van Gogh em BH


Vincent, espetáculo inspirado em cartas do pintor holandês Van Gogh, está de volta a Belo Horizonte. Depois de apresentações Brasil afora e pelo interior de Minas Gerais, o trabalho solo do ator e diretor Jefferson da Fonseca Coutinho cumpre temporada em setembro, no Teatro da Maçonaria (Av. Brasil, 478 – Santa Efigênia). São apenas quatro apresentações, às terças-feiras, a partir do dia 8.

Vincent é um espetáculo centrado na força da palavra e do ator. Com textos de Van Gogh, Antonin Artaud e William Shakespeare, a peça traz à cena um ser humano rude, apaixonado e solitário, que fala de Deus, amor e liberdade. Aos 27 anos, em período dos mais conturbados de toda a sua vida - abatido pela miséria, mergulhado na literatura e na filosofia e de relações cortadas com a família -, Vincent buscava a reconciliação com seu protetor e mais leal amigo: o irmão Theo.

Em 14 anos de carreira, Vincent foi destaque em festivais nacionais e já percorreu vários estados brasileiros. O espetáculo foi criado por Jefferson da Fonseca Coutinho, com supervisão geral do crítico, professor e diretor teatral Marcello Castilho Avellar.


VINCENT

De 8 a 29 de setembro de 2009
Terças-feiras, 20h.

Teatro da Maçonaria
Av. Brasil, 478– Bairro Santa Efigênia
(31) 3213-4959 e 9774-3214
Ingressos: R$ 24 (inteira).


FICHA TÉCNICA
Supervisão geral: Marcello Castilho Avellar
Adaptação, concepção e interpretação: Jefferson da Fonseca Coutinho
Direção de Produção: Ferdinando Ribeiro
Técnico: Gustavo Freitas

sábado, 5 de setembro de 2009

Uma rua chamada solidão (final)

"O trem BH-Vitória encostou às 7h na estação. João foi o primeiro a encontrar seu lugar no vagão. Fechou os olhos e respirou fundo para espantar a tristeza".




No JK, sob o olhar carinhoso do cão, João e Dorinha lancharam mudos. Não havia assunto ou clima para muita conversa. Por fim, os dois se renderam ao cansaço dos últimos dias. Bagagem arrumada para voltar para casa, no Espírito Santo, enquanto Dorinha tomava banho, João ficou a admirar o tardar da noite na Praça Raul Soares emoldurado pela janela. Procurou fazer cinzas o pensamento em Maria e entendeu hora de dar novo sentido ao significado das coisas. Pensou em Deus e fez breve oração.

Depois de mandar ver prato de bom gosto no Bolão, Carvalini e Maria não trocaram meia dúzia de palavras. O policial não conseguia esconder seu encantamento pela bela prostituta. Pensou dizer muito. Não disse. Apenas levou-a em casa, no São Gabriel. No portão do barracão, beijou-a na boca por instante. Maria sorriu tímida e deixou o carro com ar de quem há muito não era beijada. Entrou sem fazer barulho para não acordar Claudete e Julim. Deitou-se vestida. O beijo de Carvalini a fez voltar ao passado em tempo feliz com João. Sentiu saudade jamais sentida e passou a madrugada pensando dar jeito na vida.

João levantou com o sol e não quis incomodar Dorinha em sono profundo. Escreveu bilhete de gratidão e deixou presente: pequeno brilhante comprado na noite passada. Terninho amarrotado no corpo, fez carinho nas barbas do schnauzer e partiu. Seguiu a pé sentido Praça da Estação. No São Gabriel, Maria se despedia de Claudete e Julim. “Tem certeza?”, perguntou a puta carioca. “É o que quero”, respondeu Maria. Abraçou a amiga, meio mãe, meio filha, e tomou táxi levando mochila com tudo o que tinha. Pela Linha Verde despediu-se da cidade, tão cedo já engarrafada.

Enquanto isso, Carvalini já estava pronto para prender o assassino de fulana. Da delegacia, mandado na mão, rumou para apartamento na Lagoinha. Bigode não resistiu à ordem de prisão. Algemado, chorou única lágrima pela intenção não correspondida, sepultada no Cemitério da Saudade. “Foi por amor”, repetia baixinho no camburão. Inconformado com a rejeição da puta, apaixonada pelo bandido Tuca, o administrador bebeu demais e perdeu o juízo. Esfaqueou fulana e conseguiu deixar o quarto sem ser percebido. No dia seguinte, ao saber das joias e do dinheiro, pensou que seria fácil se safar e incriminar o rival assaltante.

O trem BH-Vitória encostou às 7h na estação. João foi o primeiro a encontrar seu lugar no vagão. Fechou os olhos e respirou fundo para espantar a tristeza. E por desses milagres que só a ficção concede, mal acreditou quando ouviu a voz macia dizer: “João!?”. Ao seu lado, a bela Maria, decidida a esquadrinhar o Espírito Santo em busca de amor perdido.

Fim


(Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5 de setembro de 2009)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vila dos mortos - crítica

Janaina Cunha Melo esteve na estreia de "Vila dos mortos". Em sua coluna "Holofote", no Estado de Minas, a jornalista comentou a montagem.


Nova proposta

Amanhã tem mais uma sessão de Vila dos mortos, no Teatro da PUC (Rua Sergipe, 790, Funcionários), às 20h30. A montagem da Escola de Teatro da PUC/MG tem méritos que a tornam uma experiência curiosa para a plateia. Situação rara no teatro mineiro e nacional, o argumento leva para cena elementos do realismo fantástico, com ótimos resultados. A partir de seis histórias, que em algum momento se encontram, a trama revela as muitas maneiras como as pessoas se relacionam com seus mortos. A bem da verdade, trata das perdas. Algumas inesperadas, outras nem tanto. E da maneira como é possível lidar com elas, com mais ou menos habilidade.

O cenário é outro ponto importante da montagem. Bem resolvido e com inspiração em linguagem cinematográfica, ajuda na dramaturgia. Cada uma das histórias é apresentada de forma clara e favorece o entendimento do texto. Pela complexidade do que é proposto, facilmente a trama poderia se embaralhar, mas, com ajuda dos objetos e da estrutura da montagem, a narrativa ganha força em cada núcleo em movimento crescente, até encontrar nexo como espetáculo. Como experimentação, Vila dos mortos depende de pequenos ajustes e amadurecimento de atuação, mas merece destaque, sobretudo pela coragem de propor algo novo para o público e os próprios estudantes. Aventura corajosa, que pode render bons frutos para a companhia, com 25 integrantes. Eles demonstram que nem sempre o caminho mais curto, óbvio e fácil, é o melhor.

Janaina Cunha Melo

(Coluna Holofote - EM Cultura - Jornal Estado de Minas - 2 de setembro de 2009)

Aliados da paz

"A religiosidade impregnada em nossos atos alimenta a fé e ‘remove montanhas’. Aliás, o grande entrave dos mineiros: as montanhas! Benditas pelo belo relevo, pelo aconchego... e malditas pela limitação: êta povo difícil, meu Deus!"


Affonsinho e Fred Heliodoro, pai e filho, em mais uma edição do Cultura da calçada


“Jeová e seus amigos”, assunto da semana passada, rendeu muitas mensagens. No sábado, a edição do Cultura na calçada foi um sucesso. O churrasqueiro Bin Laden cortou um dobrado para atender a demanda. Eugênia Dornellas, leitora querida, esteve presente com e-mail dos mais bacanas: “Adorei sua coluna comentando do nosso amigo Jeová. Precisamos muito abrir a cabeça dos mineiros para novos conceitos. Segue abaixo um pequeno desabafo acerca das preferências ‘mineirísticas’. Se quiser publicar, fique à vontade... Um abraço e sucesso!


Li o texto e, claro, aprovei. Divido, então, com vocês, amigos leitores, o desabafo da Eugênia: “Mineirice, mineirada, mineirando...

Sou mineira da gema, nascida e criada em BH, na Contorno, logo aliiii (de mineiro)... comentar sobre o ‘mineirês’ já não é novidade, é um ‘jeitin’ gostoso de falar, de engolir sílabas sim, de arrastar o s ‘mess...’, de reforçar a exclamação também, uai!

A desconfiança, enraizada em nosso ser, faz parte do reconhecimento da área, de um aprendizado para não dar passos em falso e avançar com segurança.

A religiosidade impregnada em nossos atos alimenta a fé e ‘remove montanhas’. Aliás, o grande entrave dos mineiros: as montanhas! Benditas pelo belo relevo, pelo aconchego... e malditas pela limitação: êta povo difícil, meu Deus! É que nem São Tomé, sô, tem que ver pra crer. Vai falar pro mineiro que tem algo novo acontecendo pra ver se ele comparece, se ele arrisca, se ele ousa conhecer, sem alguma indicação do pai, da mãe, do amigo ou do jornalista. ‘Num vai de jeito ninhum’, quer apostar?

Então, agora é sério, é justamente sobre este assunto que gostaria de comentar. Trabalho com arte e cultura há alguns anos aqui nesta terrinha boa, mas, confesso, é extremamente árduo esse caminho. Nada contra os axés da vida, o funk (que, na sua raiz, é fabuloso!), o sertanejo (ah, a doce viola dos interiores!) e outras modalidades musicais, os shows desta galera estão lotados, entupidos, enquanto os ritmos locais, a música mineira, o rock, os trabalhos autorais, nossos talentosos e incomparáveis artistas estão a ver navios, perambulando por aí, batendo de porta em porta, implorando para soltar seu canto. Parece-me que a mineirada não se propõe a abrir a cabeça para o novo, o diferente, o inusitado, eles vão onde tem fila, sem saber ao certo o que verão (ou inverno, ou outono...), entram no bolo e está ótimo: ‘Nú, estava bombando lá ontem’...´’e assim caminha a humanidade, mais um boi na boiada... e por que não, afinal, ‘os brutos também amam’.

Mas, graças a Deus, existem eventos como o Cultura na calçada: acordes mágicos vindos de uma banca de revistas, artistas mineiros fora da mídia, trabalhos próprios, riquíssimos. Ali, pessoas do bem, em uma calçada lotada de arte, onde cada participante pode tocar sua música sem medo de ser feliz, sem medo da crítica, sem medo de não ter público, onde poetas colocam suas palavras, artistas mostram seus quadros. Esta legião de anjos criadores expõe suas criaturas a quem, de fato, os valoriza e os repeita.

Obrigada ao Jeová e à Simone, mentores do Cultura na calçada. Obrigada a todos os que compactuam, prestigiam e fortalecem esse importante movimento.

Vamos fazer diferente, caríssimos mineiros, vamos avançar as montanhas e abrir novos e belos horizontes, vamos ter coragem e atitude para descobrir o novo, o lindo, o incomum...

Saudações culturais, vida longa aos militantes da arte e da paz!”

(Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2 de setembro de 2009)