Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

quinta-feira, 27 de junho de 2013

26 de junho

Um dia para não esquecer. São milhões os brasileiros que querem um país renovado, passado a limpo, contrários aos atos de violência. No entanto, se o Brasil está nas ruas, e nele há criminosos aos montes, infelicidade natural que a bandidagem também esteja presente – são incontáveis os bandidos nesta terra, sabemos todos. Os chamados "vândalos", "baderneiros", "arruaceiros" se manifestam como sabem. Uma pequena amostra dos filhos deste solo em evidência. Ontem, 26 de junho, com uma câmera de bolso, pequeno registro do povo que marchou da Praça Sete, na Região Central, à Pampulha.














A revolução e a esperança


Este é o momento político mais importante da minha vida. Nasci nos “Anos de Chumbo”, no período mais repressivo da ditadura militar no Brasil, entre 1968 e 1974. Criança, porém, não tenho grandes lembranças do início dos anos 1970. Lembro-me do Exército nas ruas. Só isso. O resto fui aprender nos livros, bem mais tarde - já que minha família gostava mesmo é de futebol, infelizmente.

Política nunca foi tema de tanta responsabilidade nas rodas que frequento. E isso, honestamente, tem me trazido satisfação bem particular. Ver os companheiros de praça discutindo reforma política; plano de governo; propostas deste ou daquele movimento; a importância dos partidos; a força da juventude politizada; a imprensa livre; os deveres do poder público; a segurança do país… tudo isso, preciso dizer, reacende em mim a esperança de uma nova era.

O momento é de reflexão. Sempre acreditei que para mudar o mundo, antes, a gente precisa cuidar do nosso quintal. Não adianta bradar contra a corrupção se você usa uma carteira falsa de estudante ou burla o imposto de renda. Não adianta sair com uma placa dependurada no pescoço, pedindo o fim da violência se você bebe e pega no volante, grita com sua família ou sai na mão por qualquer bobagem.

Vejo o Brasil dos últimos dias acordado para um novo tempo. Não é uma utopia. Creio, com a força das minhas convicções, que, desde que o povo foi para as ruas, muita gente acostumada com aquele famoso “jeitinho brasileiro” de levar vantagem  está com as duas mãos na consciência.

A “revolta dos vinte centavos” há de despertar cidadãos, os políticos e todo o poder público. Numa palavra, a voz das ruas diz: “Basta!”. Nada de enfrentar a Polícia Militar, os federais, o Exército ou a Força Nacional. Não é necessário. Algumas forças políticas de valor, crescentes, já se movimentam para uma nova história.

Ainda que tudo indique o caos, prefiro acreditar na força da maioria, pacífica, que só quer ressaltar o que já foi dito: “Basta!”. Estou nas ruas. Em paz! Pelo futuro dos meus filhos.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

domingo, 23 de junho de 2013

“Mikaela, 23: use sem moderação”


Vicente Cantareira, o velho coronel, estava pronto para receber Mikaela. O programa combinado pela manhã para às 19h prometia: “Mikaela, 23: use sem moderação”, vendia a coluna dos classificados do jornal. O homem solitário, colecionador de encontros com as meninas de aluguel, às segundas-feiras, estava decidido a quebrar a rotina. Além do jantar e da dança, talvez, uns carinhos para relembrar os tempos de amor com a mulher companheira. No fogão, pronto para a mesa, Tonnarelli Al Nero Di Seppia com Camarão. O interfone berrou às 19h25.

- Mikaela.

Sistemático, Vicente não costumava tolerar atrasos. Chegou a mandar voltar meninas por 15 minutos. Naquela noite estava de bom humor e ficou bastante encantado com a bela das pernas grossas e dos olhos profundos. Mikaela se explicou.

- A cidade está um caos. Manifestação. Parece que vai ter revolução.
- Já não era sem tempo.
- Desculpa o atraso.

Cantareira a recebeu com a elegância dos homens bons. Setentão, conservado e bem disposto, o viúvo estava feliz com a encomenda. Enquanto Mikaela tomava conta do lugar, Cantareira ajeitou a mesa para o jantar. Ele queria conversa.

- Você estava na manifestação?
- Tá doido?
- Por que? Você não iria para as ruas para exigir mudanças?
- E adianta? Prefiro ficar na minha e fazer a minha parte.
- E qual é a sua parte, Mikaela?
- Ah… ser honesta, não matar nem roubar… essas coisas.
- Está certo. E votar? Você procura conhecer bem os seus candidatos?
- Eu até que tento, mas ninguém conhece ninguém, né!? A pessoa pode ser boa, ter propostas, mas quando chega lá, acaba virando bandido. É triste.
- Verdade.

Mesa posta. É hora de mandar ver o vinho e a massa com camarão. Mikaela provou com paladar de especialista. E comentou:

- Faltou um pouco mais de conhaque. Ia equilibrar mais o gosto do parmesão.
- Não sabia que receberia na minha casa uma chef de cozinha.
- Gosto de cozinhar. Mas, não tá ruim não. Tá muito bom, de verdade. O comentário do conhaque foi só um toque.
- Você tem razão. Teria ficado um pouco melhor com um pouquinho mais de conhaque.
- Você mora sozinho?

Pratos limpos, Vicente foi até o aparelho de som para colocar bolero dos tempos de casado. Convidou a moça para trocar os passos e sorriu feliz ao tê-la em seus braços. Dançaram felizes, como velhos amigos. Mikaela sorriu divertida e tirou sarro com o cliente. Usou e abusou da boa carne colada ao corpo do sujeito da cabeça prateada. Fim da dança e do programa. Vicente agradeceu e pagou o combinado pelo encontro.

- Foi grande prazer, Mikaela. Posso fazer uma foto sua?
- Já? Pensei que você fosse me convidar para ficar até amanhã…
- Por hoje me basta, menina.

O velho buscou a câmera polaroide, fotografou a mulher e acompanhou-a até a porta. Ela sorriu e sugeriu novo encontro:

- Dá próxima vez, posso cozinhar para nós dois.
- Vamos combinar isso.

Mikaela ganhou o corredor. Cantareira, feliz, fixou a menina na parede de memórias.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Força, família Cotta!

Não é preciso ser pai para indignar-se com o assassinato de João Pedro Avelar Cotta, de 2 anos, no colo do pai, Sandro Magno Cotta, no último fim de semana, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Triste. Mais um inocente, em calças curtas, vítima da violência que esfrangalha famílias inteiras de nosso país.

Tenho uma amiga, advogada, que acaba de voltar de longa temporada na Europa. Ela diz que o Brasil tem vendido uma imagem lá fora de “País das Maravilhas”. Diz que até brincavam com ela, chamando-a de “Alice” – referência ao clássico de Lewis Carroll. A morte cruel do pequeno João Pedro não está no melhor da literatura.

A criança foi morta no colo do pai. No lado esquerdo do peito, colada ao coração. É de embargar a garganta de qualquer cidadão de bem o depoimento de Sandro aos jornalistas. O pai de família, em pedaços, diz que o assassino atirou sem dó nem piedade. Atirou três vezes, enquanto Sandro oferecia a chave do carro.

Tenho amigos maduros, na casa dos 60 anos, que falam de um tempo em que os bandidos respeitavam mulheres e crianças. Faziam e aconteciam por dinheiro e objetos de valor. Nada mais. Com o mínimo de humanidade, poupavam as vidas e a integridade física de suas vítimas. Hoje, matam por muito pouco ou quase nada.

O sujeito, assassino do pequeno João Pedro, foi filmado por câmera de segurança na rua, no Bairro Inconfidentes. Soube, por parte de amigo policial, que o crime indignou também os agentes empenhados em prender o assassino. Prender o criminoso é questão de tempo. Até este ponto do texto o sujeito continua foragido.

Peritos trabalham nas imagens e em depoimentos de testemunhas. Enquanto isso, o pai, ferido no corpo e na alma, fala em paz. Chegou a dizer que quer o bem do indivíduo. Contudo, não é para menos, clama por justiça. De bom coração, Sandro não quer que ninguém passe pelo que sua família está passando.

Fica uma pergunta que ecoa pelos quatro cantos do “País das Maravilhas”: até quando? Da Zona Norte à Zona Sul, na periferia ou nos bairros mais chiques de nossas cidades, inocentes continuam sendo assassinados. Não é de estranhar as pessoas, em milhares, tomando as ruas em protesto contra o poder público.

O preço das passagens de ônibus é marco, ponto de virada, apenas. É o basta. Em questão há muito mais. Há o cansaço de um povo exaurido pela corrupção, pela falta de respeito, pelo descaso com a segurança, com a educação e com a saúde. No país do futebol, em tempos de vitrine internacional, o espetáculo é o da indignação.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

segunda-feira, 17 de junho de 2013

“Mel, 21, prazer sem compromisso”

O anúncio de mais de mês na página de classificados ofertava mais uma beldade. Por R$ 200 a tal Mel prometia loucuras. Sem agenciamento nem nada: do outro lado da linha, a garota em pessoa acertava o programa. Cantareira não pechinchou. Acordou o negócio para às 19h – como de costume às segundas-feiras. Embrenhou-se na cozinha para o cardápio da noite: coxa de frango grelhada com molho de romã.

– Mel.
– Sobe.

A mocinha parecia ter pouco mais que 21. Desceu do elevador, deixando rastro de perfume adocicado e fez do pequeno corredor passarela para desfile de figurino com as cores quentes de Almodovar. Porta aberta, Mel esquadrinhou o velho e ganhou o apartamento sem sorrir palavra. Cheia de olhares, apenas. O viúvo setentão não se intimidou com a presença da tão esperada figura voraz.

– Fique à vontade, Mel. Sinta-se em casa.

A menina de aluguel não pensou duas vezes: enquanto Cantareira foi até até a cozinha para trazer a garrafa de vinho, Mel tirou parte da roupa para ficar em peças quase íntimas na sala de estar. O coronel reformado não se fez surpreso ao voltar ao cômodo. Não encarou a mulher. Comedido, sorriu sem tomar as medidas perfeitas da bela.

– Este é um tinto mais encorpado. Combina com você.
– Gosto de vinhos... ainda mais dos que combinam comigo. Vicente? Não é!?
– Sim. Vicente. “Aquele que sempre vence”, dizem. Você... Hoje, é Mel ou Melissa?
– Mel, Melissa... Qual você acha mais apropriado?
– Carolina. É mais forte.

A menina não entendeu a direta. Com elegância, o velho trata das duas taças.

– Por que Carolina?
– Não foi esse o nome que o seu pai deu a você, em São Pedro da Aldeia, em 1989?

Silêncio de olhar profundo, distante, como quem volta no tempo. Cantareira deixa a sala e vai à cozinha buscar o prato. Mel, atônita, veste de volta as roupas quentes em cores de Almodóvar. A ação é lenta, próxima da realidade.

– Não se espante, Mel. Posso explicar. Conheci bem o seu pai, João Elias. Trabalhamos juntos durante muito tempo. Ele foi um bom policial. Um homem de bem... você sabia? Dos melhores que conheci.

– O filho da puta nunca me procurou.
– Faltou-lhe coragem, imagino. Ele me disse que quando descobriu onde você estava, já não tinha mais saúde para ser o pai que você merecia. Me disse também que amou muito a sua mãe e que nos últimos 24 anos não passou um só dia sem pensar em você.
– Um covarde que viu a minha morrer quando eu era pequena e não fez nada. Me deixou jogada na casa de gente que nem gostava de mim.
– O João Elias disse ter tido suas razões para não ter ficado com você.

A pausa da amargura toma conta do jantar. Carolina come sem vontade. O velho respeita o silêncio da menina. Pratos limpos, a menina volta ao assunto:

– Como você me descobriu?
– Foi ele. No mês passado, no hospital, pouco antes de morrer, seu pai me deu essa página e pediu que dia 17 de junho eu entrasse em contato com você. Hoje é seu aniversário, não é?

A menina balança a cabeça e diz que sim. Cantareira tira do bolso do paletó um envelope endereçado à Carolina.

– Ele também pediu que eu entregasse isso para você. Disse que foi o que ele conseguiu juntar trabalhando honestamente como inspetor de polícia.

Com as mãos trêmulas, a menina de aluguel se emociona ao ver seu nome na folha de cheque especial de R$ 275 mil. Cantareira saca a carteira e também coloca sobre a mesa quatro notas de R$ 50.

– Este é meu. Pela noite inesquecível, Carolina.

Carolina é só silêncio. O viúvo pega a velha polaroide e pede para fazer uma foto.

– Posso?

A menina volta a balançar a cabeça, dizendo que sim. O homem velho captura o instante. Carolina guarda o cheque e o dinheiro na bolsa e vai embora. Antes de sumir na porta, a garota esboça sorriso miúdo de despedida.

Porta fechada. Cantareira escreve o nome da moça no retrato e fixa-o no mural. Profundo, suspira diante de sua coleção de putas tristes.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Obrigado, Violeta!

Ficar é fácil. O difícil é permanecer. É bem simples confundir o amor. Desejo qualquer um pode ter. Amor não. Amor é para quem ama. Há algo de extraordinário de carona com o tempo: a maturidade – ainda que o amadurecimento não seja para qualquer um. A gente cresce e o olhar vai junto, apurado, atento ao que antes, mesmo lá, dentro, não podia ser percebido.

Meu pai sempre diz que o jovem pode e não sabe; já o velho, esse, sabe e não pode. Aos de meia idade cabe a sobrevivência, trazendo ao futuro o que melhor resiste à linha fina do tempo. Sabe melhor quem descobre junto. É o que tenho aprendido com as muitas cabeçadas na vida. Pode até demorar, mas, com boa vontade e respeito às diferenças, todo mundo pode um dia se acertar com o coração.

Tenho amigos que, como eu, aos 40, somam desacertos. Muitos desses amigos deram a volta por cima, aprendendo com os erros. Outros insistem nos mesmos tropeços. O Osmar tem uma tese. Para o meu amigo taxista, casais que se divertem juntos são mais felizes. E casais amigos de casais felizes são ainda mais felizes. Faz sentido.

Nos últimos cinco anos, sem dúvida, tenho aprendido mais com o casamento do que em três décadas. Ficar junto também é uma opção. Uma decisão particular que, somada à boa fé do outro, pode durar para todo o sempre. Amar mais e melhor. Sempre. É o que digo para mim mesmo todos os dias.

Também suspiro em pensamento o “Soneto do amor total”, de Vinicius de Morais, que, pensando na mulher amada, aprendi de cor. Para o amigo leitor, sozinho ou em boa companhia, um recorte do que escreveu o grande poeta:

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

segunda-feira, 10 de junho de 2013

“Kelly, 19, tipo mulher fruta”

A menina mal sabia se manter em cima do salto arranha-céu, com 18 centímetros. O anúncio dos classificados relax dizia tratar-se de mulher fruta, daquele tipo exagero que alimenta. Mas o que chamou a atenção do velho Cantareira, como sempre, foi o nome Kelly, irlandês, “donzela guerreira”. Assim, como de costume nas noites de segundas-feiras, o viúvo e coronel aposentado, Vicente Cantareira, agendou programa com menina qualquer, de aluguel. Kelly chegou na hora. Pelo interfone, a voz de criança:

- Oi. É a Kelly.

Cantareira destravou o portão e sorriu por nada. A mocinha saiu do elevador tentando mandar bem no salto. Não deu conta. Perdeu o equilíbrio logo na entrada do apartamento e caiu do sapato vermelho nos braços do cabeça prateada.

- Ops... desculpa... é que tá estragado. O sapato.
- Não faz mal.

Cantareira deixa a garota entrar. Kelly é magra, baixinha e está com os peitos enormes, em fuga na blusinha colada. Muito maquiada, usa saia curtinha, em napa colorida. O coronel, discretamente, observa a pequena da cabeça aos pés.

- Olhando daqui de cima até que parece bem novo.
- O que?
- O sapato.
- É novo sim. Mas tá estragado. É a primeira vez que coloco ele, mas tá com defeito. Ate trouxe uma sandalinha na bolsa. Posso tirar o salto?
- Fique à vontade. Você bebe suco de quê? Tenho de uva, pêssego, caju e manga... qual você prefere?
- Gosto mesmo é de cerveja. Mas, hoje, pode ser de uva.

A menina, de havaianas, deixa os sapatos de salto arranha-céu junto à bolsa de oncinha no sofá. Senta-se à mesa e aguarda o velho voltar da cozinha. Tem as mãos tímidas e bem pintadas entre as pernas, como quem quer se aquecer.

- Está aqui o seu suco de uva, Kelly. Também preparei um prato especial para você.
- Jura? Ninguém cozinha pra mim. Na minha casa ninguém sabe cozinhar nada. Nenhuma das minhas irmãs sabe. Elas até cozinham. Mas é muito ruim. O que é isso?
- É um salmão com crosta de ervas e coalhada seca cítrica. Você gosta de peixe?
- De peixe eu gosto, mas desse jeito eu nunca comi não. É chique, hein!? Gosto muito de salmão. É o peixe que eu mais gosto, depois de peruá. O senhor gosta de perua?
- Gosto, Kelly. É bom. Experimenta esse... que tal?
- Que delícia! Não tem gosto de coalhada. Mas é pouquinho assim?
- Posso preparar outro pra você, se quiser.
- Não precisa. Já jantei. Mas é que é pouquinho, né!? Quem tá com fome tem que bater um pratão depois de comer esse tantinho... O senhor está fazendo regime?
- Mais ou menos. Tem dia que eu até como além da conta.

A pausa é longa. O velho vê a menina com olhos de carinho.

- Kelly, qual é a idade do seu bebê?
- Como é que o senhor sabe que eu tenho um filho?
- É porque você está com uma carinha muito bonita... de mãe...
- O senhor se importa?
- Com o quê?
- Com o meu filho... tem homem que não gosta.
- Não me importo. Falo sério. Pode me dizer... como ele se chama?
- Ele é lindo. O nome dele é Roberson. Tá pequeninho ainda... tem dois meses.
- Roberson. Bonito nome. É aquele que sabe muito. Seu filho vai ser muito inteligente. E o seu nome? Qual é?
- O senhor promete que não vai contar pra ninguém?
- Prometo.
- É Aparecida. Na minha casa todo mundo só me chama de Cida.
- Muito bonito. Uma homenagem à Virgem Maria.
- Posso fazer uma foto sua?

Aparecida diz que sim com a cabeça. Cantareira vai até a estante e pega a câmera polaroide. Sentada, Aparecida sorri para a fotografia. O velho saca a carteira e paga o combinado pelo programa.

- Aqui está o que combinamos.
- Mas a gente ainda não fez...
- Não precisa, Aparecida. É pela foto e pela sua companhia.

Cantareira se levanta vai até o sofá. Pega a bolsa e os sapatos da menina. Aparecida guarda as sandálias e volta a assumir o papel de Kelly, a mulher fruta, do peito agigantado pela maternidade. Ele guarda a foto em seu mural de amizades.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Cinema para quem gosta de teatro



Quem não gosta de ver gente de verdade, ao vivo, nos palcos, não vai gostar dessa nova versão de Bonitinha, mas ordinária, do genial dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980), para as salas de tela grande. O roteiro e a direção de Moacyr Góes tem força concentrada nas interpretações. Não é cinema de quem faz cinema. É cinema de quem sabe muito sobre o bom teatro. Os quadros super fechados, colados no rosto dos intérpretes, é opção de quem sabe o que quer do elenco.

Moacyr Góes, homem das artes cênicas, tem passagens muito modestas pelo cinema. Dirigiu Padre Marcelo e Xuxa em filmes menores que nada tem a ver com esse seu Bonitinha…, rodado em 2008 – com cinco anos de atraso a fita, finalmente, chega ao público. Gosto do filme. Ainda que a adaptação para os dias atuais prejudique a trama central de Nelson, a produção comandada por Góes valoriza o que há de melhor na obra: o texto.

Segue a sinopse para quem não conhece e ficou curioso para conhecer a história:

Edgard (João Miguel) é namorado de Ritinha (Leandra Leal), uma mulher bonita e simples, que trabalha como professora para sustentar suas três irmãs e a mãe desequilibrada. Ele também sofre com as dificuldades financeiras para sustentar a mãe. Edgard trabalha na empresa do milionário Werneck (Gracindo Junior).

O drama de Edgar começa quando o colega Peixoto (Leon Góes), genro de Werneck, faz proposta para que ele se case com Maria Cecília (Letícia Colin), a filha do chefe. Desde então, Edgard tem de lidar com a tentação de morte: abrir mão do amor por Ritinha ou casar-se com Maria Cecília.

João Miguel, o Edgar de Bonitinha…, é ator de traços fortes, de força já comprovada no cinema. Esteve com muita competência em trabalhos inesquecíveis como Estômago, de Marcos Jorge, de 2007. Na trama, João Miguel é Nonato, um migrante nordestino que busca vencer na cidade grande. O ator também fez história em Mutum, O céu de Suely e Cinema, aspirinas e urubus.

Gracindo Júnior, na pele do Dr. Werneck, é outro ator de estatura na fita. Já Leon Góes, comedido, é grata surpresa entre os grandes. As duas mocinhas não decepcionam. Leandra Leal, reconhecidamente uma das melhores atrizes brasileiras de sua geração, dá vida a Ritinha, professorinha e prostituta, cheia de motivos. Em contraponto, doce e envolvente, Letícia Colin faz bem o papel de moleca ordinária.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

domingo, 2 de junho de 2013

“Victoria, 27, para homens exigentes”

Mais uma moça de vida nada fácil para a coleção de nomes do setentão Vicente Bueno Cantareira. Hoje, “Victoria”. Escolhida a dedo nos classificados relax. Como “Vicente”, o coronel reformado da Polícia Militar, “Victoria” significa quem vence. A cada novo encontro, maior o gosto do viúvo sem filhos pelas meninas de aluguel. O encontro pago, semanal, excitava-o na alma. Chef de cozinha amador, Cantareira havia encontrado companhia perfeita, sem compromisso, para seus experimentos gastronômicos. Victoria, loura e linda, se atrasou. Trinta minutos. O interfone anuncia:

- Victoria.
- Está atrasada.
- Perdi a hora, bem. Abre.

Vicente não quis deixar a mulher falando alto na rua. Destrancou a portaria e esperou-a com expressão de pouca amizade. A gostosona, profissional, não parecia ser do tipo disposto a perder a pose. Porta aberta, ela, dona do pedaço, ganha a cena.

- Fica nervoso não, bem. Stresse dá ferida no estômago. Vou compensar o atraso pra você não se arrepender. Se não ficar satisfeito te dou um “vale outra vez”.

Vicente vai até a cozinha buscar a garrafa de vinho. Victoria se mostra à vontade no cômodo. Senta-se à mesa e tenta decifrar o velho e o ambiente. O velho percebe o olho esquerdo roxo debaixo da maquiagem carregada.

- Seu olho. Alguém machucou você?
- Isso é olheira, bem. Coisa de quem trabalha na noite.

Longa pausa da mentira. Os dois trocam olhares. Vicente serve a bebida. Victoria repousa o queixo sobre a mão direita e faz charme.

- Você enxerga bem pra sua idade, hein!? Caprichei tanto na base… jurava que ia passar batida. Gosto de homem que repara. Tive um namorado que eu podia pintar o cabelo de rosa, vermelho e amarelo… ele nem notava.
- Conheço bem essas olheiras que aparecem num olho só. Trabalhei muito nas ruas, à noite, e conheci muitas moças como você, Victoria… assim… com essas olheiras.

A mulher muda de assunto.

- Meu padrinho mora num apartamento desse estilo… lá em São Paulo. Da janela do quarto dele dá pra ver um parque lindo. Daqui também tem um visual legal?

- Se você gosta de carro e de asfalto, vai poder apreciar um visual bem interessante de qualquer canto da casa.

Vicente traz a comida, enquanto Victoria vai até a janela. Ela volta à mesa e devora com gosto o risoto de arroz preto com costeletas de porco. O velho mantém firme o olhar no olho machucado da moça. Com habilidade, ele volta ao assunto:

- Tenho um amigo, sujeito bom, correto e boa praça, que é especialista no assunto.
- Que assunto, bem?
- Nas olheiras como essa aí. Você pode procurá-lo em meu nome… ele vai fazer o melhor pra você… de graça.
- Ele é médico?
- Não. É policial. Vai dar jeito em quem fez isso com você… e também deixou essas marcas no seu braço.

Cantareira escreve o nome do amigo e o telefone num pedaço de papel e entrega a mulher. O resto foi só silêncio. Ao fim do jantar, Vicente sacou a carteira e entregou os R$ 300 pelo programa. Foi até a estante e buscou a câmera polaroide.

- Você se importa?

Com a cabeça, ela diz que não. Ele faz a foto.

- Posso saber o seu nome… o de verdade, menina?

Ela pensa por instantes. Resolve dizer, sem filtros ou preocupações.

- Lucimara.
- Obrigado.

Ele a companha até a porta. Ela vai embora. O velho volta à mesa, retira a caneta do paletó e escreve “Lucimara” atrás da imagem de expressão fechada, quase melancólica. Vai até o corredor e, num mural, na parede, ajeita a fotografia entre outras tantas de sua coleção.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

O cinema da alma

A Casa do Ator já é realidade. Um templo de intérpretes em formação permanente, de fato, voltado para o cinema da alma. O primeiro dia de filmagens de "Nós Outros" é pequeno recorte de que sonhar junto vale a pena. Bem distante dos sets de luxo, política e vaidade, agregamos elenco e equipe técnica de sensibilidade e respeito, pela vontade de aprender e fazer mais e melhor, simplesmente. O caminho é longo – quem disse que seria fácil? Estamos em boa companhia para ir mais longe. Gratidão!