Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

sábado, 28 de agosto de 2010

Camila, o anjo da Casa André Luiz

Vitinho ainda não havia completado 5 anos quando conheceu Camila. E isso há quase 40 anos. Uma menina diferente de todas as outras da rua, do bairro, da família e do mundo. Foi na escolinha de Santa Efigênia, na Casa Espírita André Luiz, já na época uma espécie de creche mantida por grupo de bom coração – é quase uma redundância falar em espírita de bom coração. Lá, crianças de famílias humildes se encontravam em busca de futuro melhor. Nos anos 1970 eram muitas. Centenas, talvez. Entre os pequenos de muitas idades estavam Dico, Rogério, Vitinho e Camila.

Vitinho já estava na instituição há mais de ano com seu irmão caçula, o Dico. Eram unha e carne. De salas diferentes, ainda assim, no recreio, andavam grudados como siameses. Diferença de idade pouca, 10 meses, os dois cresciam como gêmeos. Camila era nova no lugar. Vinha de família que teve boa situação financeira e faliu. Havia perdido o pai naquela primavera, vítima de acidente de trabalho no Iraque, onde defendia o pão por grande construtora. A mãe, em choque, precisou de internação para tratamento psiquiátrico. Camila e cinco irmãos foram morar com a avó, no Bairro Paraíso. Com Vitinho, na Avenida Mem de Sá, o quadro era bem menos dramático, apesar do casamento infeliz de seus pais.

Num cenário assim, de dramas familiares desmedidos, sob as folhas da primavera de 1975, os dois pequeninhos se encontraram. Vitinho jamais se esqueceu do dia em que conheceu Camila. Estava na fila da merenda com o irmão Dico, quando um marmanjo de cicatriz no rosto, dois anos mais velho, metido a rei da escola, quis comprar briga pela posição para receber a caneca do leite. Foi um empurrão só, suficiente para levar ao chão os dois irmãos. De repente, sem asas, como se tivesse descido do céu, com seu cabelo longo e de olhos esverdeados, surge Camila para enfrentar o valentão: “Por que você não empurra alguém do seu tamanho, minino?”.

Vitinho e Camila se tornaram muito amigos. Enamorado, o filho do Zé e da dona Maria descobria o amor, amando simplesmente. Jamais houve beijo, abraço ou aperto de mão. A presença e o sorriso apenas, do tipo que conforta e faz disparar o coração. Se Vitinho não sabia patavina do que estava sentindo, Dico, então, entendia menos ainda o abobalhamento do irmão. Pelo resto do ano, no intervalo, estavam sempre juntos os três: Dico, Vitinho e Camila, sentados no banquinho de pedra do pátio. Vitinho só tinha olhos e ouvidos para a inteligência histórica da menininha. Dico, na ponta, sobrando, ficava lá, mudo, brincando de fazer e desfazer laços na conguinha azul-marinho.

Do dia da fila do leite em diante, o menino da cicatriz ficou marcado pela bronca da Camila. Chamava-se Rogério. Vitinho soube depois. A marca que ele tinha no rosto foi feita pelo próprio pai, que também espancava a mulher. Mas essa é uma outra história. No ano seguinte, 1976, Camila não voltou para a Casa André Luiz. Vitinho não teve mais notícias da garota. Homenageou-a anos mais tarde, dando seu nome à filha. Hoje, moça feita, nem um pouco menos diferente da lindeza de outrora.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 28/8/10

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Amanhã, no Aqui

"Na Casa André Luiz, crianças de famílias humildes se encontravam em busca de futuro melhor. Lá, nos anos 1970, eram muitas. Centenas, talvez. Entre os pequenos de muitas idades, estavam Dico, Rogério, Vitinho e Camila". Leia amanhã, nas melhores bancas da cidade.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Para encerrar o assunto: não à violência!

Quase nunca dedicamos Bandeira Dois às celebridades. Já tem muita gente especializada por conta da matéria em tudo que é TV, rádio, jornal e página da internet. Além do mais, não é trabalho fácil, porque qualquer vacilo no trato da informação deixa de ser notícia e vira fofoca besta, sem propósito. Bom exemplo temos em nosso Aqui, na coluna Quatro por Quatro: a jornalista Simone Castro dá aula na cobertura da televisão e do mundo dos artistas. Então, por respeito e consideração, peço licença à vizinha de papel para espinafrar esse tal Dado Dolabella, que diz ser ator, mas parece saber mesmo é bater em mulher.

Não posso aceitar nenhum tipo de agressão. Fui educado na palavra e sei bem do que estou dizendo. Pancada é coisa de bandido e de gente que não tem razão. Na minha família pensamos assim. Entendo, amigo leitor, que isso é assunto para mais de metro. Mesmo em pouco espaço, faço questão de deixar registrada minha indignação em relação à violência contra a mulher. Esse Dado Dalabella, que, mais uma vez, está sendo acusado de bater em mulher, é famoso. Aí, o assunto ganha destaque na mídia. Mas, sabemos todos, existem muitos dados dolabellas por aí. Aos montes. É aproveitar o péssimo modelo para fazer servir de exemplo.

Para o leitor que não está por dentro da última do panguá, segue breve resumo: na sexta-feira passada, na 1ª Vara de Família da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, Viviane Sarahyba entrou na Justiça contra o marido, pedindo separação de corpos e medida cautelar para mantê-lo afastado dela. Ela alegou que, durante seu casamento, foi constantemente agredida pelo sujeito. No entanto, por enquanto, não registrou queixa pela agressão. O que complicaria e muito a situação do elemento, já que no dia 4, Dado Dolabella foi condenado a dois anos e nove meses de prisão - que poderá cumprir em regime aberto -, por ter agredidoa atriz Luana Piovani e a camareira Esmeralda de Souza. É claro que o advogado dele entrou com recurso contra a decisão.

O fato é que o bacana está na bica de ver o sol nascer quadrado. O futuro do agressor nervosinho está nas mãos da Sarahyba. Não deve dar em nada, infelizmente. Que sirva, ao menos, de exemplo para os machões de araque, chegados numa covardia. Quem não se lembra do Bruno, ex-goleiro do Flamengo, dizendo, cheio de pose, em defesa do jogador Adriano: "Quem não já saiu na mão com a mulher?". Deu no que deu. Homem que bate em mulher não vai adiante na vida. Conheço casos que não cabem nesta página de valentões, que se deram muito mal por praticar violência contra as companheiras.

Triste escrever sobre isso hoje, aniversário de moça tão amada. Um desabafo dedicado às mulheres que não toleram desaforos e que enquadram seus agressores. Também àquelas que apanham caladas e que buscam coragem para encerrar o assunto.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 25/8/10

sábado, 21 de agosto de 2010

O pequeno mentiroso

Mentiroso ou contador de histórias? Vitinho não sabia. Era jovem demais para entender a diferença entre o que é falsidade e o que é imaginação. Aos 3 anos, de mente muito fértil, incrementou sua primeira grande aventura. Não se sabe bem se provocado por imensa capacidade de criação ou se por delírio, efeito da febre alta por conta da meningite. A verdade é que Vitinho estava internado na enfermaria da Santa Casa de Misericórdia. Os pais, quilômetros dali, em barraco sem reboco nas margens da ribeira, choravam a triste sorte do garoto.

No hospital, no 2º andar, Vitinho não conseguia pregar o olho com saudades de casa. Mesmo em cama mais confortável e paparicado pelas moças de branco do lugar, Vitinho queria picar a mula e voltar para a vila onde morava. Sentia falta até do cheiro de bebida e de cigarro do pai. Já estava a mais de semana entre os doentes daquela ala sem fazer grandes amizades. Não era de muita conversa para fora. Vivia cheio de prosa para dentro. Calado, falava o tempo todo, de tudo, para si mesmo. Ouvia vozes também. Nada de paranormal. Criatividade somente. Do canto em que estava, próximo da janela, podia contar estrelas e ver os braços das árvores. No relógio de parede, 4h30.

Vitinho esperou que o vizinho, um gordinho tagarela e insone, pregasse os olhos. Ergueu o tronco e conferiu, uma a uma, se as vinte e tantas crianças dormiam. Aproveitou o cochilo da enfermeira peituda, arrancou o soro do braço, calçou o chinelinho e saiu pé ante pé até alcançar o corredor. Uma eternidade até as escadas que davam para o térreo. No andar de baixo, o movimento era intenso, parecia dia. Para não ser pego, foi preciso que Vitinho se escondesse atrás de cadeira de rodas. Encolhido, viu com olhos arregalados quatro policiais gigantes, fardados, empurrando uma maca. Nela, uma mulher e um recém-nascido ensaguentados.

Área liberada, arisco, saltou para beco com barreira transparente ao fundo. Ao tentar saber para aonde dava a porta, viu vários homens verdes, mascarados, com ferramentas de aço nas mãos – umas brancas, outras vermelhas. Com o susto, deixou a quebrada num pinote e alcançou novamente a escadaria. Enfim, o térreo. Faltava pouco para a rua. O homem grande de bigode, concentradíssimo, estava escrevendo qualquer coisa numa prancheta. Vitinho não estava disposto a desistir. Queria rever o pai, a mãe e os irmãos. Tomado de nova carga de coragem, veloz como um atleta, cruzou a portaria. O porteiro custou a acreditar no que viu. Ligeiro, pegou Vitinho no colo ainda na calçada. No alto, o fujão avistou um helicóptero voando baixo.

Curado, dois dias depois, Vitinho teve alta. Feliz, voltou para a casa nos braços da mãe. Vê-lo contar sua tentativa frustrada de fuga na Santa Casa de Misericórdia, perseguido por soldados, marcianos e disco voador, virou atração. “Já nasceu pescador o moleque”, gargalhava o avô. Para a família, um mentiroso. Para o mundo, um novo escritor.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 21/8/10

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Cia. Baobá e outras alegrias

Leitor amigo, como é difícil cumprir a promessa de não ficar estressado com o trânsito em Belo Horizonte. Pela mãe do guarda! É preciso bem mais que força de vontade e paz de espírito para dar conta do que vem ocorrendo com esta cidade engarrafada. Estou apelando até para aqueles mantras indianos que ajudam na meditação. Desejo ser um monge do volante. Isso. Um monge do volante. Só assim. No som do carro, música ambiente para trazer calma e paz. Tenho até um CD com barulhos do mar. Então, se o amigo leitor tomar um táxi e encontrar na direção um sujeito com cara de monge, saiba, sou eu. Respiro fundo e sigo em frente. Caso contrário, jogo a toalha.

Pronto. Já desabafei. E na calma posso até falar, sem medo de carregar a mão, do caos que está aquele trecho próximo ao BH Shopping por causa das obras de melhoria na região. A gente até sabe que para arrumar tem que atrapalhar, mas parece até castigo para quem vem de Nova Lima. Fica até difícil não cobrar pelo retorno. Ontem, gastei mais de hora para andar uns três quilômetros, não mais que isso. Uma loucura! Um gargalo inacreditável. Na pista, trator, caminhão e até carreta. E olha que ouvi dizer que a região está esperando mais de dez mil famílias até o fim do ano. Que isso!? Isso dá, pelo menos, uns 20 mil carros. É. O negócio é ouvir e pensar o mar.

Agora vamos falar sobre o que dá alegria. Fiz programa fantástico no domingo com a Violeta. Fomos ao Espaço Centoequatro, ali na Praça Rui Barbosa, bem em frente a Praça da Estação. É um ponto de encontro só de gente do bem, que está cada vez mais bacana. Era dia de despedida do Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte. Uma amiga da Violeta insistiu muito pra gente ir com ela. Disse que ia ter uma apresentação de um grupo de dança muito legal. Amigo leitor, que beleza! Chama-se Cia. Baobá de Dança. Um encanto! Ficamos muito impressionados com as dançarinas e com os músicos. Eles apresentaram, se entendi bem, dois trabalhos: “Quebrando o silêncio” e “Ancestralidade: herança do corpo”.

Nem vimos o tempo passar. Fiz até questão de anotar o nome do povo só para dar os parabéns aqui em nossa Bandeira dois: Lú Silva, Andréia Pereira, Gabriela Rosário, Marisa Veloso, Júnia Bertolino, Yara Nascimento, Kênia Caroline, Victória Capilo, Tatiane Barbosa, Jander Ribeiro, Tico Percussão, Fred Santos, Alex Diego e Karú Torres (produção). A direção geral e coreografia são de Júnia Bertolino. Mamour Ba é o diretor musical e Mestre João Bosco, o preparador corporal. Uma maravilha de trabalho. Dá gosto ver apresentações assim nessa cidade. Violeta, moça viajada que já percorreu a Europa e os EUA, disse que o povo mandou bem demais. Fiquei boquiaberto e fã da galera toda. Obrigado, Lílian! Cia. Baobá, muito sucesso sempre!

Outras alegrias ficam por conta das aulas na universidade. Estudar é muito bom. Faz a gente perceber o mundo com um outro olhar. E o estresse com o trânsito, quem diria, fica insignificante perto de um trabalho de matemática financeira. Brincadeira, Rubão!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 18/8/10

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O dia em que Eugênio nasceu

Mesmo com Jacira passando mal, Jonas saiu para beber com os amigos no bar do Buxexa. Não deu importância à mulher, que reclamava demais. Gravidez complicada, oitavo mês. "Já que você não vai, vou jogar uma sinuquinha com a patota e não me demoro. É só pra aliviar um pouco o batidão do volante", disse o motorista de linha vermelha, penteando o cabelo para trás. Era pouco mais de 7h da noite e o céu estava num azul escuro de morte, quase negro.

Jonas deixou Jacira no barracão de fundo, com único quarto e banheiro de cimento grosso. Sem televisão, a mulher ligou o rádio para ajudar a esquecer a dor. Costumava dar certo. O locutor de voz aveludada anunciou música vinda do estrangeiro: "Una furtiva lacrima". Deitada no sofá-cama duro e manco, respirou fundo e, sentindo-se melhor, chorou simplesmente. Olhou pela janelinha sobre a pia e viu os insetos que rodeavam em farra a lâmpada de luz fraca. Os pingos da torneira marcavam os suspiros do tempo. No rádio, notícias do mundo de lá. Jacira, doméstica desempregada, ouvia as conversas do pensamento e carinhava a criança que estava para chegar.

Quadras para cima da ribeira, Jonas mandava ver cachaça e bola na caçapa. Um campeão entre as ruindades do copo-sujo. Jogava valendo a ficha e, quase sempre, fazia a barba e o bigode da cambada. Podia virar a noite sem perder uma só partida. Cigarrinho no canto da boca, mascarava e matava a pau numa mão. Naquela noite, endiabrado, Jonas fez rodar a fila. Na faixa AM do Claudomiro, mais conhecido como "Buxexa", a música era alegre: samba. A pinga corria solta e o tira-gosto gordurento compunha a festinha barata. Ali, não havia goteira que desse conta do tempo.

Horas depois, madrugada, com a chave na mão, Jonas mal podia se manter de pé diante da porta do barraco. Ao destravar a fechadura, viu a mulher no chão com a bolsa rompida encolhida em dores. Desesperado, reuniu forças para sair com Jacira apoiada em seu ombro e ganhar a rua deserta. Não havia um vizinho que tivesse carro ou telefone. Aos trancos e barrancos, cortaram dois quarteirões para dobrar a avenida. Por obra de Deus, sabe-se lá, ao longe, Jonas avistou as luzes de uma Veraneio da polícia.

Quatro homens fardados desceram para oferecer ajuda. A mulher ocupou o banco de trás do camburão, enquanto Jonas se acomodou na parte gradeada ao fundo, reservada aos criminosos. O trajeto até a Santa Casa de Misericórdia, de sirene aberta, foi longo, quase interminável. O homem, ainda bêbado, só retomou seu estado sóbrio ao ouvir o choro da criança nos braços dos policiais. O veículo mal estava estacionado em frente ao hospital, quando a mulher e o bebê, sujos e ensanguentados, seguiram de maca pelos corredores do pronto-socorro.

Esquecido na jaula da radiopatrulha, Jonas precisou fazer muito barulho para que pudesse ser solto e acompanhar a família. Foi assim quando Eugênio nasceu: um milagre. Força do acaso e mão do destino.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 14/8/10

A cura

Muito bom o primeiro capítulo de A cura, da TV Globo. Parabéns aos muitos amigos e companheiros de Minas que estão na minissérie. Promete! Vale registrar os créditos:

SERIADO DE: João Emanuel Carneiro & Marcos Bernstein

DIREÇÃO: Ricardo Waddington & Gustavo Fernandez

DIREÇÃO GERAL: Ricardo Waddington

ELENCO: Nivea Maria, Rogerio Marcico, Juca de Oliveira, Andreia Horta, Selton Mello, Ana Rosa, Caco Ciolcler, Deivy Rose, Luiza Mariani, Eunice Braulio, Ines Peixoto, Alvaro Chaer, Carmo Dalla Vecchia, Dyjhan Henrique, Ary Fontoura, Dayse Belico, Ferruccio Verdolin, Mariana Nunes, Luiz Felipe Mendes, Tino Gomes, Rita Clemente, Jackson Antunes, Helena Varvaki, Chico Pelúcio, Domingos Montagner, Iracema Starling.

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL:

A CRIANÇA: Dyjhan Henrique

CENOGRAFIA: Alexandre Gomes

CENOGRAFIA ASSISTENTE: Alexis Pabliano, Celina Bertin, Cristiane Bisaglia e Gabriela da Silva Pinto Maciel

FIGURINO: LABIBE SIMÃO

FIGURINISTAS ASSISTENTES: Maria Julia Brant, Verginia Scofano, Luana Felipe

EQUIPE DE APOIO AO FIGURINO: Luciene Mendes Gomes, Sheila Helena Campos, Marcio da Silva Avelino, Ricardo Ferreira da Silva, Juan Carlos Ferreira de Paiva, Claudia Verdan, Heliana Conceição, Benedita dos Santos Henrique, Jurema Garcia da Silva, Helena Ribeiro

DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: Ricardo Gaglianone

DIREÇÃO DE ILUMINAÇÃO: Paulo Roberto Miranda Costa

EQUIPE DE ILUMINAÇÃO: Rodrigo Montes Rodrigues, Leonardo Alves dos Santos, Jose Mauro Bertolino, Marcos Henrique dos Santos, Luis Alberto dos Santos, Luciano Martiniano, marcos Antonio da Silva, Julio Cesar Braga Machado, Jose Roberto de La Veja, fernando Horácio, Alexandre O. Figueiredo, Paulo Roberto Barbosa, Felipe Amaral, Alvaro Rodrigues Melo.

PRODUÇÃO DE ARTE: Angela Melman

PRODUÇÃO DE ARTE ASSISTENTE: Danielle Oliveira, Ana Karina, Renata Richard, Thereza Medicis, Monica Klein

EQUIPE DE APOIO À ARTE: Antonio Gonzales da Rocha, Sergio Luiz Pinto Brandão, Andrea Neves, Izaque Caetano Gonçalves, Luis Fernando Rodrigues de Oliveira

PRODUÇÃO DE ELENCO: Luciano Rabelo

INSTRUTORA DE DRAMATURGIA: Paloma Riani

PRODUÇÃO MUSICAL: Eduardo Queiroz


CARACTERIZAÇÃO: Gilvete Santos

EQUIPE DE APOIO À CARACTERIZAÇÃO: Sumaia Assis do Amaral, Ana Carolina Bicudo, Ana Paula Barbosa Ferreira, Maria Gorete, Maxmillan Bittencourt, Regina Chipolesch, Dirlene Thomaz, Matheus Pasticchi, Alessandra Torres

EDIÇÃO: Fabrício Ferreira

COLORISTA: Saulo Silva

SONOPLASTIA: Nelson Zeitoune

EFEITOS VISUAIS: Toni Cid

EFEITOS ESPECIAIS: Federico Farfan

ABERTURA: Hans Donner, Rodrigo Gomes, Luciano Armaroli

CÂMERAS: Paulo Jose Corado, Ricardo Pettersen Bittencourt, Leonardo Parnace, Marcone Couto

EQUIPE DE APOIO À OPERAÇÃO DE CÂMERA: Alessandro dos Santos, Benedito Maragon, Raphael Duarte Belo, Randolfo Thomaz da Silva, Pedro Indio, Zaify da Silva Sampaio.

EQUIPE DE VÍDEO: Gilberto dos Santos Martins, Tatiane Correia

EQUIPE DE ÁUDIO: Gabriel Pascoa, Adamo Martins dos Santos, Diego Monsores Andrade, Pablo Mendonça da Rocha.

SUPERVISOR E OPERADOR DE SISTEMAS: Renato Queiroz

GERENTE DE PROJETOS: Marco Tavares

SUPERVISOR DE PRODUÇÃO DE CENOGRAFIA: Alexandre Santanna, Reinaldo Fonseca, Jonas Lemos, Edson Gonçalves

EQUIPE DE CENOTÉCNICA: Carlos Alexandre Rebelo, Anderson Nascimento, Angela Delgado, Antonio Clementino, Claudio Francisco, Daniele Oliveira Santos, Diego Antunes, Eduardo Almeida, Flavio Alexandre Nascimento, Gilson da Silva, Guilherme dos Santos, Helio Miranda, Hernandes Pereira, João Luiz da Silva, Jose Aurelio Gonçalves, Julio Cesar Ferreira, Luiz carlos Pereira, Marcio Bragança Pinho, Marcio Paiva, Marinaldo Santos Silva, Osvaldo das neves, Rafael Senna do Carmo, Sergio Ferreira dos Santos, Simone Eloy, Sivanildo dos Anjos, Thiago Lima, Vanilton Saraiva.

CONTINUIDADE: Aurora Chaves e Luciana Biazzi.

ASSISTENTE DE DIREÇÃO: Joaquim Carneiro e Joana Clark.

PRODUÇÃO DE ENGENHARIA: Luis Otavio Cabral e Marcelo Cardoso de Almeida.

EQUIPE DE PRODUÇÃO: Jose Perez, Maria Carolina Mello, Soymara Almeida, Tainan Cerqueira, Wilian Cesar, Renata Gomes, Karen Terahata, Jayme Braga, Cyro Scarpa.

COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO: Andreia Hollanda, Marcelo Ferrarini

PRODUÇÃO EXECUTIVA: Mario Jorge

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Flavio Nascimento e Alexandre Ishikawa

DIREÇÃO DE NÚCLEO: Ricardo Waddington

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Moinho de versos

Para curtir Vida, da Companhia Brasileira de Teatro, não é preciso ser profundo conhecedor da obra de Paulo Leminski (1944-1989). Basta gostar de boa poesia e de trabalho de ator. O espetáculo de pesquisa sobre o poeta, erguido pela trupe paranaense, que esteve em cartaz na última semana do FIT BH, é combinação de valor das duas coisas. Experimental, ainda que dure além da conta – desgasta-se por entusiasmo –, Vida faz uso de encenação inventiva para incrementar metáforas. Parte de argumento simples para realizar obra tocante. Do ensaio de banda para comemorar o jubileu de cidade qualquer faz-se o mundo moinho de versos. Mapa empenado, trágico, cômico e dramático de quatro personagens, estranhos sem rumo, em ambiente único de contradições: ora pesado, claustrofóbico, ora leve, quase sem gravidade.

Além de boa narrativa, o que há de mais singular em Vida é a dramaturgia de estrutura fragmentada e de surpresas. Texto e carpintaria vão além da escrita e oferecem ao elenco plataforma de liberdade adequada à criação. Intérpretes experimentados, de recursos, não costumam desperdiçar oportunidades assim e, quase sempre, realizam encontro de diferenças. O cenário abre e fecha perspectivas e o figurino é correto e de bom gosto. Pelo todo, Marcio Abreu, responsável pelo texto e pela direção – embora permita sobras –, tem motivos para se orgulhar do feito. Vida tem alcançado destaque na cena nacional por conteúdo. Considerando, naturalmente, a força bruta de quem a defende no palco.

Rodrigo Ferrarini, dono de voz rara e limpa, tem tarefa difícil logo na primeira cena, professoral, com lauda longa de abertura. Competente, habilidoso com o quadro melódico de falas e com o ritmo, faz o que bem entende do desenho das palavras. Já Ranieri González tem início duro com seus textos curtos, carregado, e chega a parecer fraquíssimo. Adiante, cheio de gás, a partir de cena de esforço físico, cresce para não mais perder tamanho. Mostra-se excelente ator e arrasa no canto. Vestido de mulher, é aplaudido em cena aberta por performance impagável ao microfone.

Giovana Soar, que também assina a dramaturgia, tem técnica e coragem para a graça, tanto que lhe cabe. Mesmo histriônica, consegue construir momentos memoráveis – como na que contracena com Ranieri de peruca loira, num balaço inesperado. Nadja Naira não vai além do que o papel permite. Assim como o músico Gustavo Proença, marca posição e ajuda a dar qualidade à peça, que, devidamente aparada, seria ainda mais arrebatadora. Vale lembrar Leminski: “Viver é sucinto”. Em Vida boas ideias trazidas à luz se esgotam espichadas. Com o tanto que teve de bom e essencial nas mãos, Marcio Abreu desperdiça. Pormenor de quem mostra saber fazer bem o bastante.

Estado de Minas - Jeffersonda Fonseca Coutinho - 16/8/10

sábado, 14 de agosto de 2010

Deu no Estado de Minas

Donka – Uma carta a Tchekhov, destaque da 10ª edição do FIT


Por Janaina Cunha Melo

O Festival Internacional de Teatro Palco & Rua – FIT BH não termina amanhã, com o fim das apresentações dos espetáculos. A 10ª edição de um dos eventos mais importantes do calendário cultural da cidade foi realizada em três meses, depois de a população da cidade – de artistas e produtores culturais ao cidadão que participou das passeatas e manifestações de protesto – ter feito a Fundação Municipal de Cultura (FMC) desistir da ideia de adiar a empreitada para o ano que vem. No domingo, a primeira etapa desse processo terá sido cumprida, com programação de alto nível, que não deixou lacunas em relação aos anos anteriores: mais de 100 apresentações em diferentes espaços, incluindo alternativos e centros culturais das nove regionais, com mais de 600 convidados, entre artistas e técnicos, nacionais e de outros países. A partir de amanhã, todos os envolvidos na empreitada aguardam convocatória prometida pela FMC para seminário em outubro, em que estará em pauta o festival e os desafios da gestão pública da cultura em Belo Horizonte.

Menos de um mês antes da cerimônia de abertura na Praça da Estação, ainda havia dúvidas por parte da comunidade artística se o festival ocorreria de fato. A despeito das controvérsias, a Fundação Municipal de Cultura, presidida por Thaïs Pimentel, assegurava não apenas a realização, mas a garantia de que novo modelo de gestão serviria de experiência para esta edição do FIT e também para outras realizações de porte semelhante que dependem da ação direta do poder público e parceiros. Várias instituições locais foram convidadas para compartilhar a gestão, sob a batuta dos curadores Solanda Steckelberg, Rodrigo Barroso e Lúcia Camargo.

Esta estrutura, que coloca a fundação na linha de frente coordenando empresas e entidades sem fins lucrativos para gestão, coordenação e realização, recebeu elogios por parte dos produtores, que destacaram como benefícios a oportunidade de interferir diretamente na curadoria, sugerindo grupos e trabalhos, e garante diversidade de linguagens. Os gestores também se manifestaram satisfeitos com a democratização do acesso aos meios de produção. Por outro lado, os realizadores indicaram dificuldades para a operacionalização dos trabalhos, falta de comunicação entre as diferentes instâncias de deliberação e desconhecimentos dos limites e possibilidades da gestão pública.

Os quase dois meses que separam o encerramento oficial da programação e o início dos debates, que contará com participação de convidados de outros estados, serão o prazo que a classe artística terá para organizar propostas, sistematizar ideias e levar para o centro das discussões questões essenciais para o desenvolvimento de métodos e práticas condizentes com a realidade local e os anseios da comunidade. “A ideia de adiar o FIT foi rejeitada pela cidade e a fundação acatou essa decisão, que foi de todos. É cedo ainda para uma avaliação mais sistemática, mas entendemos que demos conta da realização num prazo fora do comum, driblando os desafios”, avalia Thaïs Pimentel.

O seminário, afirma a presidente da fundação, será oportunidade para avaliação relevante, que contraponha as decisões tomadas no atual modelo. “Nos comprometemos com o setor, no sentido de ouvir as análises de cada um. Só assim teremos certeza se o caminho que estamos trilhando é o melhor”, afirma.

Considerando as vaias dirigidas ao prefeito Marcio Lacerda, em cerimônia de abertura do FIT no Grande Teatro do Palácio das Artes, as discussões devem apontar outros impasses quanto à definição de políticas públicas na área cultural para a cidade. As insatisfações são inúmeras, da potencialização dos centros culturais às reivindicações por melhores condições de trabalho no setor. Certamente, o embate não será fácil, embora necessário. No jogo da democracia, só há vencedores quando as cartas estão abertas na mesa.

Exercício de liberdade

A programação desta edição comemorativa do festival teve como destaques as apresentações de O banquete, do Teatro Oficina, e Donka – Uma carta a Tchekhov, da companhia Teatro Sunil, da Suíça. O diretor Zé Celso Martinez levou ao palco exercício de liberdade instigante. Em O banquete, ele e o Teatro Oficina provocaram reações diversas no público. Enquanto alguns se deliciaram com atmosfera inebriante, outros não deram conta do desafio e deixaram as instalações do Museu da Pampulha antes do fim do espetáculo.

De fato, a montagem é perturbadora na sua forma de transgredir. Confunde propositadamente o público e o privado, rompe limites entre o íntimo e o social. Sem luz, cenário ou figurino excessivamente elaborado, O banquete foi servido para deleite de todos, com humor e ironia próprios de um dos maiores mestres da dramaturgia brasileira contemporânea.

Donka – Uma carta a Tchekhov estreou no Brasil. O grupo levou à cena todos os elementos possíveis para a construção do espetáculo e emocionou o público com imagens surpreendentes e lúdicas. A encenação tem riqueza estética poucas vezes vista com tanta qualidade no país.


Para não esquecer

. Logo na abertura do festival, no Grande Teatro do Palácio das Artes, as vaias ao prefeito Marcio Lacerda, não por falta de educação, mas por posição política em favor da cultura de Belo Horizonte.

. A beleza dos efeitos visuais de Donka – Uma carta a Tchekhov, do Grupo Sunil.

. O público se apropria das instalações concebidas pelo cenógrafo do Corpo, Paulo Pederneiras, na Praça Sete e na Savassi.

. Em Menus larcins, dos franceses do Delit de Façade, lençóis azuis se transformam num oceano encapelado diante do olhar do público.

. A Cia. SeraQue? se despede em cortejo do público que assiste a Esquiz e canta com o grupo velhos cantos de despedida de devoções populares.

. Também não resiste a cantar junto com o elenco boa parte dos espectadores de Lamartine Babo, do Centro de Pesquisa Teatral –encenada por intérpretes que são tão cantores quanto atores.

. Um dos mais poderosos mitos do imaginário ocidental se materializa diante do público no momento em que o protagonista da intervenção Das saborosas aventuras de dom Quixote sobe à sela de seu cavalo montado sobre um carrinho em plena Praça Sete.

. O especial FIT Mostra o Circo, em tenda armada no Centro de Referência da Criança e do Adolescente, na Praça Rui Barbosa, revelou a qualidade das artes circenses produzidas na cidade.

. A mostra Movimentos urbanos no Espaço Centoequatro permitiu à cidade conhecer a potência de seus talentos, do erudito ao hip hop.

. A boa atuação de Guida Vianna, em Dona Otília e outras histórias, deu tom popular ao festival.

. No pirex, de Eid Ribeiro, ex-curador do FIT, excelente trabalho do Grupo Armatrux.

(Colaboraram Marcello Castilho Avellar e Jefferson da Fonseca Coutinho)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Sobre ratos e homens

Denso, difícil, crítico e acertado. Hamelin é mensageiro, exemplo de arte necessária, sem concessões de nenhuma medida, daquelas que buscam engrossar bilheterias. Seja pelo texto, com algo bastante complexo a dizer, seja pela encenação que opta por privilegiar essencialmente o que precisa ser dito. Sem firulas ou embalagem técnica de grandes recursos. Escrito em 2005 pelo espanhol Juan Mayorga, Hamelin aborda duramente a pedofilia, crime ainda mais comum com as facilidades da era digital, frequentemente estampado em manchetes policiais.

O título é livremente inspirado no conto folclórico “O flautista de Hamelin”, no qual um homem é contratado para dar cabo nos ratos que tomavam conta de Hamelin, cidade alemã. Com sua música hipnótica, o sujeito atrai e afoga os pequenos do mal. No entanto, não recebe o dinheiro combinado – uma moeda por cabeça –, já que não apresenta as cabeças dos ratos. Então, para se vingar, toca novamente sua flauta e enfeitiça as crianças do lugar.

A lenda medieval, fonte de inspiração de Mayorga, é apenas pretexto poético para a boa amarração da dramaturgia da peça. O diretor André Paes Leme, seguro e inventivo, faz leitura valiosa do trabalho do autor. Leva o texto à cena sem uso de nenhum truque cênico, explorando ao máximo a capacidade realista de interpretação dos atores reunidos. Criterioso, chega a dar vida às rubricas que diferenciam pausas e silêncios. Espécie de leitura dramática de luxo – com os textos tratados na memória –, Hamelin, cheio de bons motivos, é feliz encontro do intérprete com a palavra.

No drama policial realizado por Paes Leme não há o menor engano ao espectador, sempre lembrado – por meio de distanciamento – que o que está sendo mostrado é a representação de algo de responsabilidade que merece audiência. Longe da quarta parede, narradores-comentaristas conduzem habilmente a plateia às ações, ambientes e intenções literais do drama. Paes Leme consegue, assim, evidenciar em detalhes o entendimento de sua proposta no universo perturbador do jovem juiz protagonista.

Intento de direção dificilmente realizado não fosse o elenco tão competente. Distante léguas do bobo vendido pela televisão, Vladmir Brichta retorna às origens. Bom ator de teatro, revelado em A máquina, de João Falcão – que teve participação memorável na edição de 2000 do FIT BH –, cabe a ele a difícil missão do jovem magistrado. Brichta passeia inteiro pelas nuanças complexas das contradições. Homem de família e da lei, determinado, abatido pela incapacidade de ser justo.

Alexandre Mello, em desdobramento complicado – pedófilo/narrador –, alcança verdade com força interna que vale destaque. Divide o palco de igual para igual com os melhores companheiros de cena, como Oscar Saraiva e Claudia Ventura, eficientes por ritmo e contracena. Alexandre Dantas é outro ponto alto da narração alternada proposta por Paes Leme. Patrícia Simões, não por menos, também tem presença marcante em Hamelin. Demonstra saber lidar com as diferenças entre o que é físico e o que é verbo. Luz, figurino e som são corretos e complementares apenas. Em Hamelin, a melhor roupagem é a responsabilidade social. Mensagem que fica.

(Foto: Silvana Marques)


Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 12/8/10

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O FIT é pop

Quem poderia imaginar, no cultuado FIT BH, comédia rasgada, com cacos até? No Festival de Curitiba, vá lá. Tem de tudo ali. Na campanha de popularização de Minas também, pois no maior evento de artes cênicas do Brasil, há décadas, são as comédias as grandes vedetes. Mas no FIT? De fato, há algo de novo nesta 10ª edição. Dona Otília e outras histórias, produção independente do Rio de Janeiro, talvez seja marco popular na modalidade palco. Uma indicação de maior abertura ao entretenimento, sem tantas discriminações ou preconceitos. O FIT também é pop. Por que não?

A montagem dirigida por Gilberto Gawronski, que faz última apresentação hoje, às 19h30, na Sala João Ceschiatti, reúne três textos de riqueza cômica, popular e absurda, escritos pela gaúcha Vera Karam. “Dona Otília lamenta muito”, “A florista e o visitante” e “Dá licença, por favor” compõem espetáculo hilário, costurado pelo monólogo de dramaturgia meia-boca (salva-se a intérprete) “Será que é o contrário a vida da atriz”. Gawronski, que está muito bem no palco, soube imprimir agilidade às mudanças de quadros, fazendo uso de simplicidade prática no desenho das cenas. Boa trilha e figurino correto arrematam valores técnicos. Modesta projeção, cadeiras e flores artificiais, apenas, bastam para o bom trabalho do elenco.

Das três histórias, a segunda deixa cair o espetáculo. Chega a parecer um equívoco. Não que o problema esteja em Gawronski e Letícia Isnard, que a defendem com vigor e timing. A questão está na diferença gritante do humor inteligente contido nas outras tramas. Espremida entre dois quadros geniais, “A florista e o visitante” não tem fôlego e cansa. “Dona Otília lamenta muito”, de cara, faz gargalhar e ganha a plateia, enquanto, na outra ponta, “Dá licença, por favor” encerra a curta hora de duração da peça, causando ainda melhor impressão no espectador.

Nesses quadros se destacam as atuações. Sávio Moll, excelente ator, além de se manter com segurança em seus pontos mais elevados de participação, faz escada perfeita para a impagável parceira. Guida Vianna, veterana sob as luzes, é show à parte em Dona Otília e outras histórias. Impressiona pela presença, por técnica, verve e capacidade de dar vida ao texto. É ela quem protagoniza os melhores momentos dirigidos pelo bom Gawronski.

Dona Otília e outras histórias – não ao acaso – é homenagem ao fazer teatral. Ainda que sob influência do teatro do absurdo, além de celebrarem os 50 anos de nascimento da autora Vera Karam (morta aos 43), Gawronski e companhia dão grande contribuição à cena mineira em momento político de transição. Fazem lembrar que o “FIT-lei” é, primeiramente, do povo – e não só de um grupo de iniciados.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 11/8/10

Em BH, no vaivém das mares

Não é fácil se assentar em Belo Horizonte depois de semanas junto do pai e dos filhos no Espírito Santo. É como se tivesse com as orelhas em concha, reverberando o barulho das marés. Uma beleza! Este ano, a grande novidade: vamos trocar Santa Mônica, em Guarapari, pela renovada Marataízes. Fica, aqui, o convite ao amigo leitor para, quando puder, passear pela “pérola capixaba”, terra do Dr. João Lino, da Cidália e do Luís.

Peixe distribuído (o carango veio carregado), é hora de retomar a vida na querida Belo Horizonte. Ô cidade bacana! Com esse mundaréu de carros, sinceramente, não sei onde vamos parar, mas que a cidade é bacana demais, disso não resta dúvida. Não fosse o caos no trânsito e a violência assombrosa dos últimos tempos – nem vamos render o assunto que é para não estragar o dia –, não teria do que reclamar. Nasci e cresci por essas bandas e tenho muito orgulho disso.

Estou na cidade desde a madrugada de segunda-feira. Não gosto muito de encarar estrada à noite, mas, para passar o Dia dos Pais com os garotos, não teve outro jeito. Valeu o sacrifício. O domingo foi de farra inesquecível. Aproveitamos para fazer uma festinha de despedida de nosso recanto de janelas azuis. Imóvel simples, que durante anos muito felizes só nos deu alegria. O mundo muda e precisamos mudar com ele. Agora, é hora de conquistar novas amizades, sem deixar de lado as antigas.

Ainda não recolhi todos os meus eus. Alguns ainda estão de chinelas à beira-mar. Pouco a pouco eles vão se alinhando. Até o fim de semana, a patota que há em mim está de volta. Enquanto isso, vou me ajustando à praça. Trabalho é o que não falta para quem não brinca em serviço. E BH está que é uma beleza com este festival internacional de teatro, o FIT-BH. Violeta e eu somos fãs do evento. Tem um monte de espetáculo legal, de graça, nas ruas e em espaços alternativos.

Já montamos nosso programa e vamos “mambembar” – como diz o povo do teatro – por algumas plateias da periferia. Eita! No batente já comecei pesado, com jornada de 12 horas para refazer as economias. Afinal, olhar para o mar com as contas em dia é muito melhor. Em outros tempos, passaria 18 horas no volante, mas, agora, tem a universidade e é preciso ter força e ânimo para estudar porque a vida é ainda mais difícil para quem já está beirando os 40. Estou firme na escola para não fazer feio ou decepcionar a mulher amada, mestre das ciências sociais.

Com todas as dificuldades – viver não é fácil, sabemos todos –, estou no melhor momento da minha vida. Cercado por amigos leais, mais chegado de Deus, e muito entusiasmado com os pequenos pontos de luz que enxergo por todo canto. Estou aprendendo, num exercício diário, a não ter tempo ruim com nada. “Nada é tão bom que dure para sempre ou tão ruim que não se acabe”, conforme o dito popular. E assim vou vivendo, com o espírito em paz, no vaivém das marés.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 11/8/10

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Os sussurros da alma

Algumas das primeiras linhas de Tennessee Williams (1911-1983) em Fale comigo doce como a chuva dizem: “Um quarto. Numa cama está deitado um homem tentando despertar e seus suspiros são os de um homem que foi se deitar muito bêbado. Lá fora o céu está cinzento, carregado de uma chuva que ainda não começou a cair. A mulher está segurando um copo de água. Ela toma pequenos goles com gestos nervosos. Ambos têm rostos jovens e desolados como as crianças em países devastados pela fome. Na maneira de falar existe certa delicadeza, espécie de formalidade meiga, como em duas crianças solitárias que desejam ser amigas, e, no entanto, têm-se a impressão de que eles vivem nesta situação íntima há muito tempo e a cena que está se passando entre eles é uma repetição de cenas anteriores tão frequentes que se tornaram patéticas, pois nada mais resta do que a aceitação do inalterável entre eles, sem nenhuma esperança de mudança”.

Com a escrita acima, em 1953, o dramaturgo norte-americano traz à luz peça de único ato das mais belas no que se refere à solidão a dois. Não são raros os textos teatrais que esquadrinham o tema. Bem poucos, porém, com a delicadeza de Tennessee. A montagem da Companhia Teatro Adulto, de título adaptado – Fala comigo como a chuva –, dirigida por Cynthia Paulino, que esteve em cartaz no Teatro Alterosa, pela 10ª edição do FIT BH, é bastante fiel às indicações do escritor. Especialmente ao sopro das palavras: “Na maneira de falar existe uma certa delicadeza, uma espécie de formalidade meiga como de duas crianças solitárias que desejam ser amigas”. Rubrica levada à risca por Luiz Arthur e Samira Ávila, mergulhados em quarto de casal a naufragar. A dupla de atores domina o jogo de infelicidade e desesperança proposto por Tennessee. Ainda que o tom intimista – especialmente de Samira –, por vezes, não permita que a plateia ouça bem as personagens. Pormenores à parte, a atriz repete em Fala comigo como a chuva a boa atuação que a destacou em Por Elise, do Grupo Espanca!, em 2005.

Luiz Arthur, com bagagem de quem esteve em trabalhos impactantes da cena mineira – O beijo no asfalto (Wilson Oliveira, 1996), Noites brancas (Yara de Novaes, 2004) e Servidão (Carlos Gradim, 2007), para citar apenas três –, não menos vertical, tem sua performance mais modesta em Fala comigo como a chuva. Generoso, abre espaço para a companheira mostrar serviço. Quando comedido, discreto até, não esconde a respiração que o faz intérprete acima da média. Cynthia Paulino, com sensibilidade de quem sabe reinventar sensações, consegue levar a plateia para dentro de seu quadrado dramático. Agrega bom amparo técnico (arte, luz e cenografia), que dá eficiência ao espaço, ao tempo e à ação. Com invencionices corporais de menos, permite que seu bom duo não vá palmo além do que realmente importa quando o assunto é Tennessee: os sussurros da alma.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 10/8/10

domingo, 8 de agosto de 2010

Último dia no FIT BH 2010

Quem ainda não viu não pode perder "No pirex", com o Grupo Armatrux, no Teatro Marília (Av. Alfredo Balena, 586 - Santa Efigênia - Tel.: 3224-4445). O espetáculo, absurdo, físico e circense, tem a mão de Eid Ribeiro, diretor que se supera a cada empreitada. Não bastasse o condutor genial, "No pirex" conta ainda com elenco admirável: Cristiano Araújo, Eduardo Machado, Paula Manata, Raquel Pedras e Tina Dias defendem o palco com a grandeza de quem faz diferença. Hoje, às 18h. (Foto: Bruno Magalhães/Agência Nitro)

Tennessee no Alterosa

Pelo FIT BH 2010, "Fala comigo como a chuva", peça de único ato escrita por Tennessee Williams em 1953, faz última apresentação, hoje, às 19h30, no Teatro Alterosa (Av. Assis Chateaubriand, 499 - Floresta - Tel.: 3237-6611). A montagem da Companhia Teatro Adulto, dirigida por Cynthia Paulino, tem em cena casal de atores que merece respeito. Luiz Arthur e Samira Ávila interpretam com extrema sensibilidade o jogo de desesperança e infelicidade conjugal proposto pelo dramaturgo norte-americano. Imperdível. (Foto: Guto Muniz)

O CV vai ao cinema

400 contra 1 – história da criação do Comando Vermelho (CV) – não faz marginal de mocinho. O filme mostra sem nenhum glamour, com estética dura e suja, o caos que faz organizar a bandidagem no Rio de Janeiro. O diretor Caco Souza realiza ótimo trabalho de ação, com reconstituição de época de impressionar. Os anos 1970 e 1980, tempos de chumbo, ganham a tela com direção de arte das mais competentes do cinema nacional. O elenco conta com atuações destacadas: Daniel de Oliveira, no papel de William – o líder "professor" –, Daniela Escobar, Fabrício Boliveira – "Cavanha", o bandido que enfrentou sozinho os 400 (policiais) do título –, Lui Mendes, Jefferson Brasil, Branca Messina, Rodrigo Brassoloto e Jonathan Azevedo – que rouba a cena no papel do divertido "Baiano". A censura é 18 anos e, nesta semana de estreia, 400 contra 1 pode ser visto em quatro salas:

Via Shopping - Cineart 5
15h,17h,19h,21h

Shopping Cidade - Cineart 5
15h,17h,19h,21h

BH Shopping - Cineplex 6
15h,17h10,19h30,21h50

Shopping Paragem - Usiminas Paragem 3
15h10,17h10,19h10,21h10

Bom filme!

sábado, 7 de agosto de 2010

As cartas de dona Eulália

Ele sempre gostou de linhas traçadas em papel barato. Nunca soube muito bem por quê. Hoje, cartas tão fora de moda, o funcionário público municipal, com quase duas décadas de prefeitura, tem em casa um quarto para seus guardados escritos à mão. Dirigidas a ele são bem poucas, já que não é de muitos amigos ou parentes distantes. Genilson coleciona cartas que não lhe dizem respeito. Há tempos, desde que começou a trabalhar como contínuo em casa comercial da Avenida Amazonas, oferece dinheiro aos conhecidos por suas correspondência de pouca importância.

Perguntado sobre a razão do hábito tão estranho de compra, Genilson é seco: “Porque gosto”. E gostava mesmo. Gostava simplesmente. Sentia-se feliz em ter um pedacinho da vida dos outros. Para os colegas de seção, o sujeito do almoxarifado era verdadeira incógnita: quarentão reservado, sem família ou vida social. Não gostava de futebol, cerveja ou mulher de nenhuma medida. “É enrustido. Só pode ser”, balangavam os beiços maldosos pelos corredores da repartição. Genilson sabia das conversas de boca miúda, mas não se importava. Para ele, de valor mesmo, apenas a preciosa coleção.

Para entender Genilson, é preciso voltar aos anos 1970, quando deixou a mãe, no interior, para viver com o pai, pintor, em Belo Horizonte. Ao sair da cidadezinha na Zona da Mata, garoto de pouco mais de metro, pediu à mãe de coração partido: “Escreve pra mim toda semana, mamãe, escreve?!”. Dona Eulália, tristíssima com a partida do rebento, balançou a cabeça dizendo que sim. Da janela do ônibus esverdeado o pequeno Genilson pôde ver o olhar da mãe embaçado como quem perde um pedaço.

A vida na capital não foi fácil. A começar pelo primeiro aniversário, interminável semana depois da viagem. Dia em que o pai, ocupado, se esqueceu de mimo ou abraço. Golpe duro para moleque tão mal-acostumado com os beijos da Eulália. Para agigantar o drama, ainda, nada de carta. Com o acumular das semanas vieram os meses. Nem recado ou bilhete. Telefone era sonho, já que em nenhum dos dois barracões havia. Lá, no interior, terra de gente humilde, um só posto para dois mil habitantes. Do lado de cá, pelas bandas da Gameleira, única linha na rua, em casa de moço bravo, militar. Certa vez, Genilson o ouviu oferecer ao pai: “Para o caso de urgência e extrema necessidade”.

E foi por meio do aparelho vermelho, do vizinho policial, que Genilson manteve contato com a mãe por longa data. Duas ou três vezes por ano, não mais que isso, mãe e filho aguavam os olhos da saudade. Os anos se foram duros e velozes. Genilson já era rapaz feito e estava empregado quando soube da morte da mãe. Ao voltar à terra para o enterro, coube a ele, mais velho entre os irmãos, desfazer o quarto de Eulália. Para sua surpresa, numa gaveta enorme de móvel carunchado, centenas de cartas rabiscadas, iniciadas. Genilson soube, então, que a mãe não sabia escrever.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca outinho - 7/8/10

Poético e necessário

Foi assim: palmas aos realizadores que se empenharam para levar adiante o FIT BH 2010 e duras vaias ao prefeito Márcio Lacerda, que, agora, parece ter entendido que a cidade está viva para os assuntos da cultura. Quem foi ao Grande Teatro do Palácio das Artes na noite de quinta-feira testemunhou a saia justa entre autoridades e parte da plateia, nos minutos iniciais da abertura da polêmica 10ª edição do festival-lei. Palanque desfeito, palco descortinado, a arte se sobrepõe à política sem graça, para a apresentação de Donka – uma carta a Tchekhov.

O teatro-circo do Grupo Sunil, da Suíça, com dramaturgia e direção do italiano Daniele Finzi Pasca, é agregado imperdível do muito que é trágico, cômico e poético na obra do médico, escritor e dramaturgo russo. Anton Tchekhov (1860-1904), autor das peças Um trágico à força, A gaivota, Ivanov, Tio Vânia, As três irmãs, entre outras, e de contos como Viérotchka, O beijo, A dama do cachorrinho, Angústia e Uma história enfandonha, tem influenciado teatrólogos de todo o mundo.

Donka..., com dois atos, foi levantado por meio de parceria do grupo suíço com o The Chekhov International Theatre Festival de Moscou, para celebrar os 150 anos de nascimento de Tchekhov. A peça faz homenagem ao escritor, levando à cena fragmentos de sua existência. Parte da vida do doutor ganha narrativa cômico-lúdica com recursos técnicos de circo, luz e sombra. Os clowns do Sunil esbanjam carisma e habilidade do início ao fim das duas horas de encenação. Seja no plano da realidade, seja no campo dos sonhos, os oito artistas da companhia se desdobram completos: atores, músicos, dançarinos, malabaristas e poliglotas.

Rolando Tarquini – o mais velho da trupe –, esteja no proscênio ou no fundo do palco, simpático e experiente, se destaca no trato com a palavra e na contracena. Tem verve e timing para fazer escola. David Menes, de Madri, manda bem nos malabares, enquanto as brasileiras Beatriz Sayad (Doutores da Alegria) e Helena Bittencourt (Intrépida Trupe) fazem com brilho as honras da casa. Moira Albertali, Karen Bernal, Verônica Melis e Sara Calvanelli na dança – especialmente no sapateado –, na música, no balanço ou no tecido aéreo, por vezes, roubam as retinas mais exigentes.

Impecável, Donka... compõe poema visual inesquecível com suas projeções em jogo precioso de imagens, luzes e sombras. A música de Maria Bonzanigo, original, pontua e enriquece o lúdico-circense da obra. Os figurinos de Giovanna Buzzi também impressionam. Pasca, autor, diretor, coreógrafo e criador da luz, realiza com seus agregados espetáculo para ficar na história do FIT, que, a cada edição, se faz ainda mais necessário.

FIT BH – 2010
Ingressos: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia-entrada), à venda no Mercado das Flores – Posto da Belotur (Av. Afonso Pena, esquina com Rua da Bahia, Centro), das 10h às 19h; loja Ingresso Rápido, no 5ª Avenida (Rua Alagoas, 1.314, Loja 27C, Savassi), das 9h às 16h; e no Teatro Marília (Av. Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia), das 10h às 19h. Programação de hoje na página 4 e programação completa no site www.fitbh.com.br/2010.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 7/8/10

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Enfim, o FIT BH 2010

O Grupo Puja, da Espanha, com K@osmos (foto), mostra hoje seu teatro aéreo com show de rock, a partir das 23h, na Praça da Estação. Antes, às 20h, no Palácio das Artes, tem Donka – Uma carta a Tchekhov, com o Teatro Sunil, da Suíça, para convidados. A apresentação no Grande Teatro marca a abertura do 10º Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte. Com essa edição, depois de muita trapalhada, a Fundação Municipal de Cultura busca dar a volta por cima e oferecer às plateias da cidade mais arte e menos politicagem.

A programação completa está no site:
www.fitbh.com.br/2010/programacao.php

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O homem é bom

É. A água salgada é mesmo capaz de lavar as ideias. O tempo passa a galope quando estamos de chinelas. Viver é isso. Do contrário, é somar os dias à espera do fim. São 7h e o mar está especialmente lindo, iluminado pelo sol. Papel e caneta na mão, é hora de deixar escrever o coração. A imensidão do azul que embeleza Santa Mônica é a mesma que se vê em Marataízes (foto), a alguns quilômetros daqui. Marataízes. É pra lá que vamos no próximo verão. É hora de mudar com o vento e com as marés. O velho Botelho está certo.

Violeta, Gabriel e Tiago estão muito empolgados. Os garotos têm amigos de escola, lá em Vila Velha, que vão sempre para a “pérola capixaba”, terra do Luís, do Dr. João Lino e da Cidália. O pai vai cuidar da transação imobiliária. “Vou fazer isso com muito gosto, meu filho. Vou arranjar uma casinha linda pra vocês bem pertinho da minha. Pode escrever isso no Aqui”, disse, empolgadíssimo, ontem à noite, durante o carteado. Até o mês passado, sinceramente, trocar Guarapari por Marataízes não estava nos nossos planos. Mas viver bem é não ter medo do futuro. E saber que tudo pode acontecer quando não esperamos que algo aconteça.

Com essa história de vender e comprar imóvel, o assunto da última semana foi dinheiro. Ouvi de tudo, de muita gente. Há quem diga que não é hora de vender, porque os preços tendem a subir. Há quem afirme que não é hora de comprar porque os preços estão lá em cima. Quem entende? O que sei é que aprendi muito cedo com o velho Botelho que é melhor ser feliz do que ter dinheiro. Conheço gente aos montes que vive num sufoco danado, cheio de capital no banco e que só pensa em ter mais e mais. Nunca foi essa a nossa matemática. O pai e eu sempre procuramos ter apenas o suficiente para não faltar o essencial. No mais, vivemos de aprender a não confundir esse essencial. Herança de valor são bons modos e educação.

Bom negócio tem que ser bom para as duas partes. Se alguém está levando vantagem, algo está errado. Não sou economista, administrador, homem de números. Sou moço simples das letras e do afeto. Basta-me saúde para amar e trabalhar. “Quem ama vive, quem vive trabalha e quem trabalha tem pão”, escreveu um tal Van Gogh. Quando li isso quase enlouqueci como o pintor holandês. Sou o acumulado de pensamentos de gente assim. Vocação para a poesia, para a fé incondicional de que o homem é essencialmente bom. O que o faz se desviar do bom caminho é não ouvir o que diz o coração. E, certamente, caro leitor, poder e dinheiro costumam bloquear as vias do peito que nos levam à ação.

Grana não traz bem maior. Felicidade é atitude. É porta que se abre por dentro. Fora o inevitável, a fatalidade das circunstâncias, ficar bem é prerrogativa da vontade. O que não se dá jeito é a morte. Finda a página, um título… “O homem é bom”. Pode ser.

P.S. Amigos de Belo Horizonte, na próxima semana estou de volta. Tomem nota: nem esse trânsito horroroso daí vai me roubar a paz. Ah, o peixe já foi encomendado, moçada! O mar me chama. Fui.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 4/8/10