Fantástico - Vai fazer o quê?

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O paraíso perdido

Em 2011, durante festinha junina da igreja, Toni e Daise conheceram o fogo da paixão fulminante. Em olhares cruzados, aproximaram-se, dançaram madrugada adentro e fizeram juras e promessas para toda a vida. No mesmo dia, Toni expulsou de casa, entre tapas e bicudões, Martinha, a companheira adolescente, filha de um vendedor de cachaça da região, com quem vivia há quase um ano. Daise também terminou um caso sério, abandonou a casa da mãe e foi morar com o novo amor, no Bairro Paraíso.

Daise, ensino fundamental completo, fogosa, traços finos, sorriso largo, seios pequenos, bunda do tipo tanajura, pés de bailarina e dedos longos. Adorava saias cor-de-rosa. Toni, pouco estudo e educação, magro, alto, barbinha rala, olhos claros, dedos e dentes amarelados, cabelos grandes e encaracolados. Ele desde pequeno invadia casas vazias. Juntos, em comum, o sexo e o cigarro. Os dois formaram química pura. Engoliam-se despudoradamente de três a quatro vezes por dia e acendiam um careta no outro.

Daise tomou gosto pela vocação do companheiro de ladrão. Começaram a arrombar em parceria. Ele era exímio chaveiro – ofício que aprendera com um tio evangélico na adolescência. Tinha ferramentas e habilidade para abrir qualquer trava, tranca ou fechadura. Não só roubavam. Faziam ainda o maior carnaval nos imóveis das vítimas ausentes. Comiam, bebiam, fumavam e, claro, trepavam. Desfilavam nus pelos cômodos e, por fim, fotografavam-se nas poses mais indecentes e inimagináveis.

Eram também viciados em fotografia. E gostavam da foto no papel. Nada de computadores ou redes sociais. Preferiam a diversão suja nas residências de casais sem filhos ou de moradores solitários. Especialistas. Preparavam tudo em detalhes, da invasão à fuga. Invadiam e faziam a “limpa”. Farreavam e davam no pé em pouco mais de hora. Não gostavam de armas, tampouco transavam violência. Toni não sabia atirar e Daise nunca viu de perto um revólver. Gostavam mesmo era de câmeras fotográficas e mantinham coleção das mais raras. A grana da “labuta” era suficiente para manter aquela vidinha bandida.

Foram quase seis meses de invasões, roubos, cigarros e indecências. Até que na madrugada do Natal daquele ano, céu sem estrelas e atmosfera de vingança e morte, a casa no Paraíso caiu para os dois vagabundos. Enquanto dormiam, o barraco foi arrombado e invadido por Martinha – a filha do vendedor de cachaça. Rejeitada a tabefes e pontapés, a adolescente não deu conta de perdoar o dissabor do mês de junho.

Implacável, a menina descarregou o 38 do pai nos dois, nus, no leito que um dia fora também de amor e suor de seu corpo. Sob o colchão ensangüentado, várias caixas de sapatos com centenas de fotografias sujas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho




terça-feira, 5 de novembro de 2013

A violência, essa filha da ignorância



Tenho um amigo próximo, meio irmão, que acaba de voltar de Cuba. Geraldo trouxe assunto para mais de metro daquelas bandas. Convicções políticas à parte, uma das questões que mais o impressionaram é a força da cultura e da educação em toda a boa gente de lá. “Violência zero. É o que ouvi por todos os lugares. Ouvi de um moço, guia pelas ruas de Havana Velha: ‘Sou pobre. Minha única propriedade é a minha vida. E dela cuido até o último suspiro’. Conheci muitos pobres e nunca vi tanta dignidade entre os que tem apenas o suficiente para viver”, disse-me o companheiro.

Minha conversa com o Geraldo foi no domingo. No mesmo dia em que fui visitar o Murilo – outro amigo muito querido, assaltado na semana passada. Murilo desceu do ônibus no Bairro Floresta, Região Leste de Belo Horizonte, e tomou dois tiros de um sujeito covarde que estava na garupa de uma moto. O assalto e o relato de Cuba ficaram me martelando a cabeça. Quem conhece o Murilo, homem de bem, paz e bom coração, tem razões de sobra para indignar-se com a violência sofrida por ele. É assustadora a violência crescente em nossa cidade.

Murilo é daqueles sujeitos incapazes de fazer mal a quem quer que seja. Para citar apenas uma passagem, recentemente, um outro amigo abriu uma escola de arte. Murilo, que havia se graduado em administração, quis ajudar duas pessoas de uma só vez. Eu estava presente e testemunhei quando ele chegou para o dono da escola e disse: “Estou depositando o valor de uma bolsa integral desse curso que a sua escola está oferecendo. Dê a vaga para alguém que queira muito fazer e que não tem condição de pagar”.

Isso tem mais de ano e foi muito marcante. O Murilo, garoto, com vinte e poucos anos, disse que estava apenas retribuindo algum bem que foi dedicado a ele na vida. Impossível esquecer. Aí, um moço desse, com o coração desse tamanho, está caminhando na rua e toma dois tiros à queima-roupa? Não está certo. O que isso tem a ver com Cuba? Tudo. O problema da violência nada tem a ver com pobreza. Tem a ver com a ignorância, com a falta de educação e com a impunidade.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

Um último cigarro

Ele deixou o consultório no pequeno prédio do São Lucas em frangalhos. A voz do homem de branco lhe atingiu como flecha. O timbre grave do doutor Leopoldo havia lhe decretado sentença de morte: câncer no pulmão. Mal causado pelo cigarro, companheiro inseparável de longa data. Oito ou 10 meses de vida, talvez. Era o que lhe restava.

Tempo para colocar deveres e obrigações em dia e, quem sabe, morrer em paz. Queria se redimir de qualquer culpa. Em 50 anos de vida ganhou desafetos bestas e vacilou feio com parentes e amigos. Condenado, vagou a pé pelo bairro da Serra. Entrou num botequim da Rua do Ouro, pediu café e começou a listar, em folha de papel vagabundo, tudo o que queria fazer antes de partir.

O maço cheio de cigarros, no bolso, junto ao peito, ele fingiu não ter. “Agora, não!”, pensou. “Mais tarde.” E começou a escrever os nomes daqueles com quem deveria desculpar-se. O filho, abandonado no passado. Hoje, homem feito, o garoto não queria saber do pai vacilão. O amigo, quase irmão, perdido por bobagem. O pai esquecido, largado no interior. O afilhado sem presente, abraço ou aperto de mão.

Listou o nome da mulher leal e companheira. A mesma dona sem valor, tratada freqüentemente com descaso e desconsideração. Incluiu também uns 10 colegas de trabalho, subordinados, injustiçados. Naquele bar, repensou a vida e seus significados. Determinou que, daquele instante em diante, tudo teria outro sentido. E que poderia, no pouco tempo que lhe restava, ser o homem que não fora em meio século de vida.

Fim de tarde. O boteco, antes vazio, ganhava movimento de fim de expediente, e ele, solitário, numa mesa de canto, com o café frio no copo lagoinha, não parava de escrever nomes e ações de redenção em guardanapos de papel. Na cabeça, as vozes alegres dos fregueses falastrões se confundiam com o falar manso e sério do homem de branco, amigo desde a infância.

Apesar do ambiente barulhento, ele pôde ouvir o chamado insistente do telefone celular. No identificador de chamadas, o número pessoal do doutor Leopoldo. Hesitou. Pensou em não atender. Atendeu. Do outro lado, o médico sem graça se desculpa por erro grave do laboratório de radiologia. Exames trocados. Acontece.

O homem desligou o telefone sem pronunciar palavra. Catou no bolso um cigarro. Mandou goela abaixo o café gelado. Acendeu o careta e puxou fundo um último trago. Decidido, mandou o maço no latão de lixo da calçada.

As anotações de desespero ele guardou. Quem sabe, para rever mais tarde.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho