Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sobre os filhos dos descasados

Hoje – segunda-feira para o amigo leitor –, há uma dose a mais de contentamento no traço da caneta que corre solta pelo caderno de papel pautado. Motivos não faltam. Gabriel e Tiago vieram passar o fim de semana comigo. É sempre uma alegria tê-los em casa. Na sexta-feira, vieram de Vila Velha com a mãe e o padrasto para casamento em Belo Horizonte. Pelo que soube, um evento de arromba. Mas quem fez festa pra valer fui eu, em boa companhia. Há muito não vivia sábado e domingo tão em família, pelas bandas de Santa Efigênia. Violeta comandou o cardápio com mãos de fada. Os rapazes e eu, claro, cuidamos da arrumação pela farra que promovemos. Afinal, não dá pra caprichar nos pratos sem aprontar aquela bagunça boa na cozinha. E Violeta caprichou.

Ajuda-me muito a mulher companheira. Especialmente com meus filhos. Um privilégio. Não há sujeito, pai ou mãe, divorciado e ajuizado, que não sonhe encontrar novo amor capaz de aceitar verdadeiramente seus laços com o passado. Não é fácil. Mas quando isso ocorre, amigo leitor, posso dizer, é uma bênção. Violeta completa-me por tudo. Ainda mais pelo respeito e pela consideração que tem pelos meninos. Conversamos à beça sobre a nossa relação e tudo o que temos alcançado nos últimos tempos. Jamais imaginei encontrar parceira tão madura. “Mesmo que seus filhos com a Norma não sejam meus, quero ajudar em tudo para que você seja o melhor pai do mundo. Porque ainda podemos ter os nossos e, quando isso acontecer, não quero que seja diferente”. Foi o que me escreveu num cartão, no dia em decidimos morar juntos.

Incrível a capacidade da Violeta de compreender o espaço dos filhos no coração de um pai divorciado. Não digo apenas pelas experiências infelizes, vividas com as outras moças que conheci depois da separação. Mas também pelas histórias dos amigos próximos, quase irmãos. O Lúcio, por exemplo, apaixonado pela filha Karine, de 5 anos, enfrentou a maior barra com a ex-namorada. A moça morria de ciúmes da menina. Havia fim de semana, quando os três estavam juntos, que a namorada fingia que a criança nem existia. A gota d’água foi tapa que ela deu na boca da pequena Karine. O Lúcio chegou na hora e ficou arrasado. “Bateu na menina só porque ela não parava de chorar, Josiel”, contou-me. Depois disso, eles terminaram. Até tentaram mais umas duas ou três vezes. Não teve jeito. E a Lúcia, colega de faculdade? Separada, com filho pequeno, também reclama falta de sorte no amor. Revelou-me outro dia, triste, que não consegue encontrar ninguém que sabe lidar com sua condição de mãe descasada.

Esse assunto vive a rondar-me o pensamento. Hoje, agradecido pelos últimos anos, faço homenagem à mulher-amiga e aos filhos companheiros. Minha maior satisfação no momento é perceber que, com a ajuda da Violeta, Gabriel e Tiago, muitíssimo amados, já sabem bem a diferença entre o que é distância e o que é ausência.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 28/4/10

sábado, 24 de abril de 2010

O passado da menina atriz

O grande teatro já estava lotado. Na bilheteria, o aviso de ingressos esgotados deixou muita gente do lado de fora. Belo Horizonte foi a cidade escolhida para a estreia nacional da superprodução paulista, com direito a orquestra e corpo de baile. Uma belíssima tragédia escrita por um tal William Shakespeare. Nos bastidores, até o mais experiente do elenco tinha o coração aos pulos pela responsabilidade de soprar os versos do bardo inglês. Mas nada se comparava à emoção da estreante Diva Bandeira, depois de anos de volta à terra natal. Concentrada, sentada em cantinho qualquer da coxia, ao ouvir o primeiro sinal a atriz mergulhou no tempo.

Lembrou-se do dia em que decidiu contar em casa que abandonaria o curso de patologia clínica para ser artista de teatro. “Tá maluca!” – esbravejou Joaquim, o pai – “Dou um duro desgraçado pra te dar uma vida decente e você quer dar nisso?”. Com a mãe, dona Cecília, também não houve amparo: “Larga disso! Não vê aí a mulher do Adamastor? Virou artista e agora tá que nem galinha do rabo torto. Vai dormir e esquece essa bestage, menina”. Diva não tinha mesmo mais clima para continuar na sala com os dois noveleiros, vidrados na TV. Entrou no quarto de forro carunchado e passou horas em claro, na madrugada mais longa de seus 19 anos. Levantou cedo, pela primeira vez, decidida a fazer a própria vontade.

Já estava com nome e endereço da escola de teatro na Praça da Liberdade, indicada por uma amiga. Matriculada, saiu de lá feliz com o clima do lugar e com o sorriso das duas secretárias. Não demorou para que a família soubesse. O pai comandou o carnaval: “Sua mãe desconfiou e eu não quis acreditar. Fui lá na escola técnica, aonde você devia estar, e fico sabendo que há mais de mês você não aparece. Que trancou a matrícula. Você pra mim morreu, Diva. Morreu!”, disse, em cólera. A mãe foi ainda mais dura: “Que desgraça! Quem mente é capaz de tudo. Teatro. Que vergonha! Quem acha que é dona do nariz tem que aprender a cuidar do resto do corpo”. O pai encerrou o assunto: “Junte suas coisas e saia dessa casa, menina”.

No mesmo dia, Diva deixou a casa amarela de Venda Nova. Passou uma semana em apartamento de parente distante e arrumou emprego como balconista na Pastelândia da Avenida Afonso Pena. Montou república e passou a dividir as despesas com quatro colegas, até que foi morar em São Paulo. Em jornada dupla, continuou firme com o propósito de ser atriz. Meia década se foi. Batalhadora e talentosa, entre muitas candidatas, foi a escolhida em audição para o principal papel da ousada produção. No dia da estreia, pela manhã, Diva foi até Venda Nova levar convite para os pais. “Seu” Joaquim e dona Cecília, surpresos, não gastaram muitas palavras. Apenas receberam os bilhetes com os olhos aguados. “Que bom que você conseguiu, filha”, arriscou o pai, embargado, segurando a xícara de café.

Noite de gala. No terceiro sinal, hora de entrar em cena, Diva voltou ao presente com fôlego de veterana para viver Hamlet. Na primeira fila, tímidos, os pais. Já sem a menor vergonha da menina atriz.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 24/4/10

Foto: "Hamlet el príncipe de Dinamarclown", com direção de Fausto Ramírez

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O saracoteio de Vanessa da Mata

Nem a acústica inadequada para show tão intimista foi capaz de esfriar os fãs da cantora Vanessa da Mata, que, aos milhares, lotaram o Chevrollet Hall na véspera do feriado de Tiradentes. Do lado de fora, pouco antes de "Mulheres brasileiras" começar, o caos de costume no entorno da arena. Quem já estava do lado de dentro, pelo celular, acalmava os amigos engarrafados. Os 30 minutos de atraso até que favoreceram a multidão que ainda estava para chegar. Não dava mesmo para perder a entrada da cantora, trajando luz. Ao abrir o foco, lá estava ela, descalça, vestida de sol, num amarelo-ouro esvoaçante para saracotear o público.

Vanessa da Mata, performer, dona de voz e sensibilidade arrebatadoras, emendou um sucesso atrás do outro, acompanhada em coro da boca do palco às galerias. Mesmo não se ouvindo com clareza as letras das músicas, dava para escutar os seguidores da intérprete, numa só voz, aportada por banda de primeira linhagem: Kassim (baixo e direção musical), Gustavo Ruiz (guitarra), Donatinho (teclados) e Stephane San Juan (bateria). Mas se na platéia, um ou outro reclamava por causa do som, bastava a simpatia – pomba gira, meio sereia, meio cigana – rodar o vestido, como em “Baú”, que tudo ficava bem. O chato foi não entender direito a pouca conversa da Vanessa no palco. Pareceu bastante simpática a performance da cantora, imitando o sotaque mineiro, ao telefone, com parente no Triângulo. Uma tia, de Ituiutaba, presumo.

As participações especiais, embora pequenas, foram show à parte em "Mulheres brasileiras". O duo com Fernanda Takai mandou bem “Cadeira de rodas”, de Fernando Mendes, e mostrou desenvoltura com o baião de Gilberto Gil. Tão distintas, juntas, ficam ainda mais encantadoras. Com Maria Gadú não foi diferente e Vanessa deixou que a menina tímida de jeito moleque mostrasse porque, desde que revelada ano passado, vem conquistando plateias de gosto requintado. Que vozeirão tem a pequena. A turma do gargarejo gostou e quis mais, pedindo em coro por Gadú. O que só ficou para o final, quando as três – anfitriã e convidadas – improvisaram “Por enquanto”, de Renato Russo.

Show realizado, agradecida, a equipe (palco e bastidor) se curvou diante do público que aplaudia com gosto e entusiasmo. Certamente, feliz da vida com as duas horas na companhia de Vanessa. Nos corredores, rumo aos portões de saída, o povo exibia satisfação. De volta à rua, para alguns a alegria durou pouco, já que estavam com carros presos, estacionados nas calçadas da Avenida Nossa Senhora do Carmo. Cena comum na BH engarrafada, tomada por motoristas de pouca ou nenhuma educação.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 21/4/10

O bem que prevalece

O tema das duas últimas semanas trazido aqui, “Deus não cobra ingresso”, continua rendendo. Deixo registro de agradecimento sincero a todos os leitores que fazem de Bandeira dois quintal de debate e respeito. São muitas as participações. Obrigado! Em paz e motivado, já reuni grande grupo de amigos, patrulheiros, em campanha contra qualquer tipo de falcatrua em nome de Jesus. Seja ela em templo ou terreiro. No mais, seguimos com fé e esperança. Porque, acredito, o fim dos tempos já começou. Verdade. Só não vê quem não quer. É hoje, amanhã e depois. Tudo o que começa um dia acaba, todos sabem. Logo, iniciados, rumamos ao final. Disso, não há dúvida.

Mas não vamos fazer render esse negócio de “juízo final”. Isso é assunto para muitas vidas. E só vamos saber de fato o que isso realmente significa quando não estivermos mais aqui. E lá, onde quer que a gente esteja, esse assunto já não vai fazer a menor diferença. O que podemos – e devemos – compreender é que tudo o que é mal não pode acabar bem. Amar e respeitar o outro e, naturalmente, a si mesmo é condição primeira para tudo na vida. Não é preciso de muita sensibilidade ou inteligência para entender isso. Mesmo não sendo simples assim, acredito nos homens de bom coração. Conheço muitos deles. Sei que são infinitamente superiores aos sujeitos do mal.

O mal existe. Sabemos todos. E está bem mais perto do que imaginamos. Tenho andado cada vez mais assustado com o que vem ocorrendo com o mundo. Em Belo Horizonte, para não ser preciso ir muito longe. Difícil entender esse chamado “bando da degola”, envolvido com crimes de tudo que é tipo, que vem ganhando manchetes e mais manchetes policiais. E o maníaco, estuprador e matador de mulheres? E o crack, cada vez mais perto de nossas famílias, dissolvendo o cérebro de crianças, adolescentes e adultos? E os assaltos cada vez mais frequentes na cidade? Essa tal modalidade, então, chamada “saidinha do banco” é um assombro. Outro dia, não faz tempo, com o sol a pino, o Adelson ajudou a socorrer um trabalhador baleado na Avenida Getúlio Vargas.

Bastante assustado, o Adelson me falou de outros cinco casos, só este ano, que ele teve notícia. Sobre o crack, a Meire, da papelaria do Raimundo, me contou caso muito infeliz. Disse-me que a irmã de uma conhecida fez uso da droga durante toda a gravidez e que o bebê já nasceu dependente da substância. A mulher foi embora e largou o filho no hospital. A conhecida da Meire, assistente social, contou que a criança nasceu com problemas no cérebro e nos ossos. “Uma tristeza”, ela lamentou. E o crack também já está destruindo a vida de gente de boa condição financeira. Não é mais droga barata de pobre. Sei de uma mãe, advogada, que teve a família completamente desestruturada depois que o filho caçula se envolveu com a droga.

Por tudo que vemos e vivemos, sabemos que o mal nos rodeia. Que a vida, breve, se vai num sopro. No entanto, pela eternidade, nos homens de fé, o bem prevalecerá.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 21/4/10

sábado, 17 de abril de 2010

Má companhia

Valdir aceitou por desespero. Já Ronilson propôs porque era bandido: “É só ficá com a moto ligada que eu faço o serviço. Num tá precisado!? Então!”. Foi numa partida de sinuca, no bar do “seu” Nico, que a conversa ganhou volume. Valdir estava no sufoco por causa das prestações atrasadas da moto que comprou para tentar a vida. Ronilson já estava na bandidagem, vivendo de roubo e pilantragem. Vizinhos desde a infância, cresceram e guardaram amizade. Valdir, filho de mãe solteira, doméstica, só pensava em acertar o rumo. O outro, Ronilson, vivia espancado pelo pai, que um dia, pipocado no peito, foi encontrado morto na mata baixa do morro. Obra do Ronilson, todo mundo sabia. Menos o Valdir, que preferia não acreditar que o amigo seria capaz de matar.

Embora diferentes, os dois rapazes tinham muito em comum: idade, gosto por música, futebol e mulher. Ajudaram-se muitas vezes em tudo o que já tinha sido problema. Meninices que costumavam relembrar crescidos, hoje, aos 27. Havia o que não querer relembrar também. Certa vez, apaixonaram-se pela mesma moça: Fátima. Uma morena linda que veio de Divinópolis. Ela gostava do Valdir, mas foi o Ronilson quem a ganhou no cansaço. Por consideração, Valdir abafou a paixão. O romance entre Fatinha e Ronilson foi trágico. Ele a engravidou e, três meses depois, numa briga de pescoções, fez com que ela perdesse a criança. Fatinha e a mãe, por desgosto, deixaram Belo Horizonte para nunca mais. Na ocasião, Valdir estava em Juiz de Fora, trabalhando como auxiliar do tio Arlindo, pedreiro, homem evangélico, bom e decente.

Quando soube do ocorrido, Valdir fez de tudo para saber notícias de Fatinha. Viajou para Divinópolis e nada. Encontrou apenas um primo distante: “Acho que foram pra São Paulo”, disse o parente, em tom de desconversa. Valdir voltou para a Zona da Mata e trabalhou por mais três meses. O tio, paternal, dizia: “Só o trabalho dá jeito nas coisas, meu filho!” Com o amigo bandido, nenhum contato. O reencontro dos dois foi no Natal. Ronilson foi até a casa de Valdir cheio de boa intenção: “Sumiu. Virou play, véi? Aqui, presente procê”. Na embalagem improvisada, um relógio roubado. Abraçaram-se e retomaram a amizade. No mês seguinte, Valdir financiou a moto em nome do tio juiz-forano. “Vê lá, rapaz. Juízo!”, disse Arlindo ao assinar o contrato. “Deus te abençoe”, abraçou o sobrinho. Um ano passado, com três prestações vencidas, Valdir perigava ter a motoca tomada por oficial de Justiça. Daí o “serviço” acertado com o Ronilson na sinuca. Ele, de piloto, o comparsa de ferro na mão.

Foi na “saidinha do banco”, em manhã de calma na Avenida do Contorno. Valdir do outro lado da via, enquanto Ronilson observava um homem alto, de cinquenta e poucos anos, que acabara de sacar no caixa eletrônico. O que se seguiu foi muito rápido, fração de minuto. Mal colocou os pés na calçada, o cidadão foi tomado de assalto. Reagiu no susto, por instinto. Tiros. “Não!”, gritou o Valdir, de cima da moto. Desesperado, largou-a no chão e correu em direção à vítima, que agonizava. Ronilson, sem entender, cortou a avenida a pé e sumiu quarteirão adentro. Valdir ainda arrancou fora o capacete para tentar, em vão, socorrer o tio. Arlindo, o pedreiro, veio de Juiz de Fora só para atender apelo da irmã, no sufoco com o filho endividado.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 17/4/10

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sobre os novos rumos do FIT

Noticiado pela PBH:

Fundação Municipal de Cultura anuncia novo modelo de gestão do FIT

Na manhã de segunda-feira, dia 12, a presidente da Fundação Municipal de Cultura (FMC), Profª Thaïs Velloso Cougo Pimentel, recebeu, na sede da FMC, representantes do legislativo municipal e do setor das artes cênicas para apresentar o novo modelo de gestão da 10ª edição do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua (FIT).

No encontro estiveram presentes o vereador Arnaldo Godoy, Rômulo Duque (SINPARC), Madalena Rodrigues e Geraldo Octariano (SATED), Leonardo Lessa (Teatro Invertido), Carlut Ferreira, Wesley Nascimento Simões e Carloman Bonfim (Movimento Teatro de Grupo) e Maria Mourão (Quatro Los Cinco).

A presidente da FMC anunciou que a coordenação do FIT será assumida pelo corpo de diretores da FMC e disse ainda que a programação da 10ª Edição do FIT será baseada no trabalho de curadoria realizado pela FMC durante o ano passado e que serão dedicados todos os esforços para a realização de um Festival à altura da expectativa da cidade. Thaïs confirmou a realização do Seminário do FIT que acontecerá no segundo semestre de 2010, após a 10ª edição do Festival, com o objetivo de discutir com o segmento cultural e das artes cênicas as diretrizes de gestão do FIT para suas futuras edições.

Também participaram da reunião o Diretor Especial de Equipamentos Culturais, Rodrigo Barroso Fernandes, que assume interinamente a Diretoria de Teatros da FMC, a Diretora de Ação Cultural, Solanda Steckelberg e a Diretora do Centro de Referência em Audiovisual (CRAV), Lúcia Camargo, que assumem a coordenação geral do Festival. “A decisão sinaliza uma mudança histórica no modelo de gestão do FIT, alinhando sua coordenação às diretrizes institucionais da Fundação Municipal de Cultura”, afirmou a presidente da FMC.

Segundo a diretora de Ação Cultural, Solanda Steckelberg, a equipe da FMC já está trabalhando na produção do Festival junto à Associação Pró-Cultura Palácio das Artes (APPA), instituição parceira da FMC para a realização do Festival. De acordo com Solanda, o modelo de coordenação do FIT a partir de uma gestão compartilhada é extremamente positivo para consolidar o caráter público do Festival. O grupo de diretores envolvidos com a produção do FIT conta ainda com a experiência da Diretora do CRAV, Lúcia Camargo, que teve passagens pela diretoria artística do Teatro Municipal de São Paulo e pela curadoria do Festival de Teatro de Curitiba.


Gestão Compartilhada

A presidente informou que o novo modelo de gestão do FIT também buscará constituir a articulação com outras instituições culturais de Belo Horizonte, como a Fundação Clóvis Salgado e seu Centro Técnico de Produção (CTP), além de outros espaços, associações e grupos culturais da cidade. Thaïs chamou a atenção para a parceria com o Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (SINPARC), que prepara uma pesquisa sobre o consumo das artes cênicas em Belo Horizonte.

Segundo a presidente, a FMC não tem medido esforços para que a coordenação da 10ª edição do FIT garanta não só a realização do Festival, mas uma experiência para inovar em seu modelo de gestão em um contexto em que todos os festivais no Brasil estão passando por uma revisão de modelos. “Estamos construindo novas estratégias de gestão e incorporando novos conhecimentos e tecnologias de produção para o FIT”, informou.

“Estamos avaliando atividades que promovam as relações culturais, pesquisas e estudos comparativos, além da produção de conteúdos. Estamos em constante diálogo com realizadores de outros festivais internacionais para identificar experiências e estabelecer interlocução com parceiros diversificados. A ideia é construir um quadro de referência para as próximas edições do FIT, a partir da avaliação dessa metodologia e do seminário, que terá a participação de nomes importantes das artes cênicas de Belo Horizonte e do Brasil para debater os desafios e as melhores estratégias de realização do Festival. O nosso grande desafio não é só realizar a 10ª edição do FIT, mas aproveitar e avaliar todo esse processo de transição de gestão do Festival”, disse a presidente.


Prêmio para monografias sobre o FIT

De acordo com a presidente da FMC, uma das novidades da próxima edição do FIT é a criação de um prêmio para monografias com o tema da história do FIT a partir de parcerias com universidades e cursos de teatro e artes cênicas em Belo Horizonte. “Nosso objetivo é entender a memória do FIT e estimular a reflexão sobre a presença do Festival no cenário cultural da cidade”, anunciou Thaïs.

A presidente da FMC informou que a coordenação do FIT será formada por um Núcleo de Produção e um Núcleo de Gestão. Além da programação, o Núcleo de Produção será responsável pela coordenação das atividades do Ponto de Encontro e de gastronomia, além das ações de formação e exposições. O Núcleo de Gestão, segundo a presidente, ficará responsável pela coordenação administrativa, financeira, captação de recursos, avaliação e comunicação do Festival, além da articulação com o segmento turístico de Belo Horizonte. “Contamos com o compromisso da Prefeitura de Belo Horizonte e parcerias importantes do Ministério da Cultura e Funarte, além da sinalização de patrocínios da Petrobras e da Oi”, garantiu Thaïs.

“Reafirmamos a decisão de realizar o FIT no mês de agosto de uma maneira responsável, com seriedade e ética por parte da diretoria da FMC. Sabemos que a decisão de realizar o FIT exigirá muito empenho e dedicação por parte de toda a equipe da Fundação. O processo de transição levou em conta o clamor do segmento das artes cênicas e de toda cidade pela realização do Festival, além da superação das questões e desafios apresentados no momento de avaliação sobre o adiamento do Festival, já que aqueles argumentos continuam na nossa pauta. A proposição de um modelo de gestão diferente aponta para o novo, mas resgata a análise da experiência da produção de nove edições do FIT pela Fundação”, disse a presidente.


Representantes

O retorno dos representantes das artes cênicas presentes à reunião na FMC foi muito positivo. A presidente do SATED, Madalena Rodrigues, manifestou sua apreciação da decisão e destacou a positividade da gestão compartilhada do FIT. “Sempre tivemos interesse em dialogar”, disse. Leonardo Lessa, do Teatro Invertido, destacou a importância da interlocução. “É fundamental que se mantenha esse canal democrático de diálogo. Essa comissão aqui presente tem a legitimidade quantitativa e qualitativa de um movimento que realizou cinco reuniões durante as últimas três semanas para discutir a política pública de teatro em BH”, disse.

Rômulo Duque, presidente do SINPARC, destacou que o momento é muito interessante para atender a demanda do segmento das artes cênicas e sugeriu que a comissão de representantes assuma responsabilidades junto ao novo modelo de gestão do FIT. O vereador Arnaldo Godoy salientou o clima positivo do encontro e afirmou sua confiança para a realização da edição 2010 do FIT e para as próximas edições.


Conselho Municipal de Cultura e Semana de Belo Horizonte na Casa de Minas

A presidente da FMC destacou que a reflexão sobre o FIT e seu modelo de gestão, comunicada na reunião desta segunda-feira para representantes das artes cênicas, confirma a intenção da FMC de garantir o diálogo permanente não só com este setor, mas todos os demais segmentos culturais e artísticos de Belo Horizonte. Nesse sentido, Thaïs anunciou que em breve será realizada a eleição do Conselho Municipal de Cultura e que está sendo avaliada a possibilidade de instituição de uma Câmara Setorial na Fundação Municipal de Cultura.

Thaïs anunciou também que a FMC conta com a participação do segmento das artes cênicas no evento “Semana de Belo Horizonte”, coordenado pela Belotur, durante os dias 10 e 31 de maio, na Casa de Minas em São Paulo. “É mais uma forma de articulação do segmento das artes cênicas de Belo Horizonte com o setor nacional, além de gerar projeção, visibilidade e intercâmbio para o que fazemos aqui”, concluiu.

(Recorte do site da PBH)

Deus não cobra ingresso (2)

O assunto trazido aqui, na semana passada, rendeu. Foram muitos os comentários na praça, por e-mail e por telefone. Sei bem que religião é tema delicado e que merece respeito. Não se brinca com a fé das pessoas. Algumas igrejas é que parecem não saber disso. Abusam de fazer dó e vergonha. A pedidos, especialmente do Luís Eduardo e da Fátima Silveira, Bandeira Dois volta à questão. Não se trata, aqui, de espinafrar uma única seita ou grupo religioso. O que está em pauta é a mentira e a falcatrua. O desrespeito, muitas vezes, ao desespero do cidadão de bem, que só quer é sair do atoleiro, da situação difícil.

Sei de casos de doença. Dona Naná, com o filho muito doente, recorreu a tudo que é pastor, padre, médium e pai de santo. Gastou o que tinha e o que não tinha. Em vão. Perdeu o filho e o pouco que tinha percorrendo terreiros e templos de todo tipo e espécie. Também sei de testemunhos incríveis de pais com filhos nas drogas que foram salvos pelo apoio de bons pregadores. Já soube de padre pedófilo e de charlatão espírita, assim como picaretas que juram trazer amor e emprego em 10 dias. É muita desordem de informação numa só cabeça. Só mesmo o velho Botelho, papel e caneta para ajudar a aquietar os pensamentos. Volto a dizer: de tudo, a única certeza é a existência de Deus. Não somos acaso. Nossa fé, seja ela de qualquer natureza, faz toda a diferença.

Em quase 40 anos, posso afirmar, testemunho a presença de Deus em tudo o que é bom. Entendo apenas que Deus não pode gostar de quem mente ou faz teatrinho para faturar em nome de Jesus. Francamente, amigo leitor. Pense comigo: não estão à venda quartos no céu. Ajudar o próximo é de Deus e Deus acha bom. Mas não podemos permitir que ninguém abuse da nossa fé ou de nossa boa vontade. Com discernimento, devemos estar sempre alertas contra os falsários que só pensam em dinheiro. Devemos ter muito cuidado com a lavagem cerebral que bate carteiras. Não se compra paz ou prosperidade, sabemos. Só a fé, o estudo e o trabalho podem nos dar força para vencer desafios.

A morada de Deus é onde quer que estejamos, de coração puro e consciência tranquila. Quando somos muitos, então, reunidos, pode até ser melhor. Por que não!? Nada contra as casas honestas, levantadas pela comunhão de homens de boa fé. Desde que tudo, às claras, seja voltado exclusivamente para o que é de Deus. De resto, creio, todo o abuso dos que vendem os céus em nome do Senhor só serve a alimentar vaidades. Para todos estes ratos falantes, Salmo 38, amigo leitor.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 14/4/10

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O mundo das voltas


Só o tempo faz dobrar a razão:
Ontem, passado de azar; hoje, portal de alegria!

Não há mal sem significado na construção do sentido.
O amor, velho bufão, vive de fingir ser o que não é.
Depois, como quem ensina a espera, revela-se.

Cândida, meu mundo que gira!

sábado, 10 de abril de 2010

As sombrinhas de Deus

Pedro passou a madrugada com os pensamentos acesos, agarrados às sombrinhas de Deus: “Sombrinhas de Deus? – estranhou – Coisa mais esquisita... Mas Deus bem que podia mandar um guarda-chuva para que ninguém morresse por causa da chuva”, concluiu, pensante, em sono dos mais profundos, logo depois de assistir ao noticiário do jornal das 22h. O garoto Pedro, pequenino ainda, com sete anos de vida, estava bastante impressionado com todas aquelas imagens e depoimentos de gente sofrida, em apuros, no Rio de Janeiro.

Durante o telejornal, ele estava só na sala do barracão no Alto São Lucas. O pai, Altair, vigia noturno, batalhava pelo pão em prédio comercial do Bairro Funcionários, não muito longe dali. Chiquinho e Maria Alice, os dois irmãos menores, em fraldas, dormiam na cama da mãe. Lucimara, grávida de seis meses, com inchaço e fortes dores nas pernas, deitada, do quarto chamou: “Desliga essa televisão e vai dormir, minino!” Sem piscar ou desgrudar os olhos da tela, comprada pelo Altair em 36 prestações no Natal passado, o rapazinho respondeu: “Só mais um pouquinho, mãe”.

Nada naquele aparelho grande, com mais de 20 polegadas, o havia chamado tanto a atenção. Ali, via desenho, filme, futebol, propaganda e novela. Telejornal também. Sempre achou os homens de gravata muito elegantes e as mulheres de dentes brancos muito lindas. Até brincava, dizendo-se namorado de todas elas. Especialmente das bonitonas que falavam sobre o tempo, sempre com carinhas de princesas. Mas nunca foi de dar ouvidos ao que elas diziam. Gostava de ver, somente. Naquela noite, foi diferente. Entristeceu-se sem saber o motivo ou a razão.

A mãe não precisou mandar duas vezes e ele, obediente, no boa-noite da mulher peituda, desligou a TV. Antes de deitar-se ainda foi à janela que dava para a cidade. De lá, na ponta dos pés, podia avistar o prédio de vidro, onde o pai trabalhava. “Será que vai chover?”, pensou preocupado. Olhou para o céu escuro, carregado, e juntou as pequenas mãos numa prece: “Sai pra lá chuva! Amém”, e fez o Nome-do-Pai meio atrapalhado – já que, no final do sinal da cruz, nunca sabia se beijava os dedos.

Ajeitou-se no sofá sob o cobertozinho surrado e deu ao corpo miúdo descanso. Foi, então, que imaginou as tais sombrinhas de Deus. Em cores, sonhou todas as pessoas protegidas por guarda-chuvas mágicos. Deus sorria, com seus grandes olhos coloridos espalhados pelo mundo. Pedro, alegre, voava rasante, com suas asas de anjo, até ser acordado pelo chamado da mãe, assustada com a forte tempestade que o céu despejava. Esperto, o garoto correu num canto do banheiro e passou a mão na velha sombrinha azul, remendada. Com ela aberta sobre a família, dentro de casa, ele esperou pelo pai.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 10/4/10
Arte: Juha Vasku

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Vencedores Sesc/Sated 2010

Prêmios Especiais

Marketing Cultural – Copasa
Reconhecimento de Mérito Cultural – Governo do Estado de Minas Gerais (Circuito Cultural Praça da Liberdade)
Homenagem Especial – Ronaldo Boschi, Patrícia Avellar, Jota Dangelo e Carla Estrela


Cinema

Curta Metragem (Ficção e Documentário)

Diretor
Ana Moravi e Dellani Lima – “Calça de Veludo”

Ator
Geraldo Carrato – “O Filme mais Violento do Mundo”

Atriz
Camélia Guedes – “150 Miligramas”

Longa Metragem (Ficção e Documentário)

Diretor
Realizadores Indígenas Tikmuun – “Caçando Capivara”

Ator
Rômulo Braga – “Bem Próximo do Mal”

Atriz
Renata Cabral – “Mulher à Tarde”

Curta Metragem
“Filme de Sábado” (Gabriel Martins)

Longa Metragem
“Mulher à Tarde” (Affonso Uchoa)



Dança

Coreógrafo
Jomar Mesquita – “Por um Fio” (Mímulus Cia de Dança)

Bailarino
Bruno Ferreira - “Por um Fio” (Mímulus Cia de Dança)

Bailarina
Gabriela Junqueira - “Imã” (Grupo Corpo)

Espetáculo
“Por um Fio” (Mímulus Cia de Dança)


Teatro

Infantil

Diretor
Wilson Oliveira – “Flicts”

Ator
Carluty Ferreira - “Crianças Invisíveis”

Atriz
Andréa Baruqui – “Crianças Invisíveis”

Espetáculo
“Crianças Invisíveis”


Adulto

Diretor
Eid Ribeiro – “John & Joe”

Ator
Chico Aníbal – “John & Joe”

Atriz
Inês Peixoto – “Till a Saga de um Herói Torto”

Revelação
Amanda Santana - "Contracapa" (bailarina)

Técnico
Roberto Duque – Cueca (1º Ato Cia de Dança)

Espetáculo
“Till – A Saga de um Herói Torto” (Grupo Galpão)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Deus não cobra ingresso

Religião é assunto dos mais recorrentes em nossa roda de pensadores e palpiteiros. Futebol também. Mas sobre futebol, cá entre nós, fico com o pé atrás porque é tema que sempre atrai gente ignorante e sem noção. Basta dizer que, recentemente, apartei dois marmanjos, pais de família, engalfinhados, por causa da camisa cor-de-rosa do Galo. Francamente. Então, vamos à religião por interesse e, antes de tudo, respeito. Sinto-me muito à vontade para falar de Deus porque, desde garoto, sinto sua presença. Nasci evangélico, cresci budista, estudei o catolicismo, amadureci espírita e, hoje, praticante da meditação, ando bastante envolvido com a força do universo. Em tudo, aqui ou ali, uma única certeza: a existência de Deus e do poder infinito que há em cada um de nós.

Atento e curioso – aprendiz das lições do velho Botelho –, tenho amigos muito caros de todos os credos e crenças. Sinceramente, do fundo do meu coração, não tenho preconceitos. Já estive de corpo e alma em terreiros simples, assim como em templos dos mais luxuosos. Em todos os lugares, claro, Deus estava lá. Portanto, daí a minha intimidade com tudo o que é de Deus. E, amigo leitor, você sabe, Deus é bom. Infinitamente bom. Quem o conhece sabe bem do que estou dizendo. E para conhecê-lo perfeitamente bem, apenas feche os olhos e ouça o seu coração.

Sendo assim, tão filho do Homem lá de cima, leal e crente, resolvi escrever sobre o que chamo "teatro da fé". Confesso-me bastante impressionado com a performance de alguns pregadores. Já estive na presença de verdadeiros atores, iluminados pelo dom da performance. Outro dia mesmo, testemunhei um jovem que deveria ganhar um Oscar. Pregou por mais de hora com voz poderosa, interpretando Deus e o diabo. Sua voz de capeta era de assustar Satanás. Já Deus, manso e delicado. O moço deu show no conhecimento da Bíblia, de cor, soprando versículos. A plateia, milhares no grandioso templo, hipnotizada, foi arrebatada pela apresentação idefectível do pastor-garoto.

Como ele, posso dizer, conheci muitos. Missionários preparados para dar assistência e arrebanhar novas ovelhas. Nada de errado até aí. O mundo tem precisado cada vez mais de gente assim, conhecedora das boas lições da Bíblia. Melhor um milhão de fanáticos na igreja do que um bandido nas ruas, penso assim. O único fato que me incomoda profundamente é o lucro, por abuso, em nome de Jesus. Não pode estar certo. O dinheiro é invenção do homem, todos sabem. Não pode ser correto cobrar doações em nome de Deus. "O dízimo está na Bíblia", ouço sempre. Leio também, já que tenho um belo exemplar ilustrado à minha cabeceira. No entanto, é fato, o poder e a ambição desenfreada andam a alimentar falsos profetas aos borbotões.

Entendo perfeitamente os elevados custos para a manutenção dos templos; salários, alimentação e transporte das lideranças; das redes de comunicação e para a propagação do evangelho. Só não entra na minha cabeça qualquer mentira em nome de Deus, que, tão bom, jamais vai cobrar ingresso para o verdadeiro Reino dos Céus.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 7/4/10

Mineiros no Fit 2010

ESPETÁCULOS MINEIROS SELECIONADOS PARA PARTICIPAÇÃO NO FIT-BH/2010


Processo nº 01.193702.09.45

A Presidente da Fundação Municipal de Cultura, no uso de suas atribuições legais e em cumprimento ao item 7.15 do "Edital de Seleção de Espetáculos Mineiros para Participação no FIT-BH/2010", publicado no DOM de 2 de janeiro de 2010, torna público, para conhecimento dos interessados, a lista dos espetáculos selecionados:


1º - “Fala Comigo Como a Chuva” , proponente Companhia Teatro Adulto, categoria Palco, inscrição nº 006;

2º - “É Só Uma Formalidade”, proponente Sr. Ítalo Laureano da Silva, categoria Espaço Alternativo, inscrição nº 009;

3º - “As Grandes Lonas do Céu”, proponente Companhia Candongas e Outras Firulas, categoria Espaço Alternativo, inscrição nº 018;

4º - “Proibido Deitar”, proponente Sra. Carolina Rosa, categoria Rua, inscrição nº 022;

5º - “De Peixes e Pássaros”, proponente Companhia Suspensa, categoria Espaço Alternativo, inscrição nº 025;

6º - “Baby Dolls, Uma Exposição de Bonecas”, proponente Sra. Érica Vilhena, categoria Rua, inscrição nº 038.


Da decisão acima cabe recurso, dirigido à Coordenação do FIT, no prazo de 5 (cinco) dias úteis, contados a partir da publicação deste resultado.

Diário Oficial do Município - 7/4/10

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A reinvenção do excesso

John Travolta (Pulp fiction) e Jonathan Rhys Meyers (Match point) estão para lá de entrosados em From Paris with love, em pré-estreia na cidade sob o título de Dupla implacável. Mas a parceria que rouba a cena está nos bastidores: Luc Besson (produção e argumento) e Pierre Morel (direção) repetem a dobradinha bem- sucedida de Busca implacável (Taken), protagonizado por Liam Neeson. Besson e Morel realizam bem mais que boas tomadas de perseguição e violência. Juntos, complementares, dão diferencial à ação e ao suspense por meio de boa história levada à tela com sacadas que prendem, divertem, surpreendem e tiram o fôlego.

Todo rodado em Paris, Dupla implacável conta o drama de um jovem funcionário da embaixada americana que sonha ser integrante da CIA. Apaixonado pela namorada, em função menor, de apoio à inteligência dos EUA, James Reece (Meyers) segue em exercício até que tem a incumbência de dirigir para o agente Charlie Wax (Travolta) em missão na França. Do encontro dos dois em diante, qualquer detalhe escrito aqui pode estragar as intenções do duo Besson e Morel. Claro que, como toda boa fita de ação, Dupla implacável tem lá os seus exageros. Mas vale esperar algo além de tiros, pancadaria e rotas fantásticas sobre rodas.

John Travolta, desde que revelado intérprete acima da média por Quentin Tarantino, em 1994, parece ter tomado gosto pelo trabalho de ator. Embora por cenas pareça repetir o tipo desequilibrado que compôs em O sequestro do metrô, Travolta exibe técnica e domínio de quem sabe construir verdades. Aos 56 anos, também demonstra bom preparo físico para dar conta de papel dos mais difíceis em ação. Na pele do pouco ortodoxo Wax, é o anti-herói esperto e rude. Já com Jonathan Rhys Meyers, que ganhou projeção sob o comando de Woody Allen, em 2005, está a maior carga dramática de Dupla implacável. Seu romântico enxadrista, no desdobramento das revelações do thriller, passa por notável transformação.

Na cruzada dos acertos em películas de ação, Luc Besson e Pierre Morel, chegados num bom casting, seguem implacáveis na reinvenção dos excessos. Como poucos, fazem do exagero diversão e arte.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5/4/10

Deu no teatrojornal.com

Site de conteúdo e credibilidade, o www.teatrojornal.com, publicou:


"Fit-BH: Palco e Rua da Amargura

Por Valmir Santos

Durante duas semanas, até quarta-feira 31, a população e a comunidade artista de Belo Horizonte foram espectadores da insensibilidade do poder público em relação à arte e à cultura. A prefeitura (coligação PT-PSDB), por meio da Fundação Municipal de Cultura (FMC), súbito, adiou de 2010 para 2011 a 10ª edição do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua (5 a 15 de agosto), mas depois recuou da decisão.


Óbvio, a repercussão negativa para além das alterosas conectou o fio terra à administração, para não dizer da demissão de dois membros da curadoria, Eid Ribeiro e Richard Santana, o que horas depois contribuiu para a presidente da FMC, Thaís Pimentel, finalmente recapitular diante da gravidade; e para não dizer ainda do edital aberto no início do ano às produções locais que intentam fazer parte da programação do festival e realizaram sessões para a comissão julgadora, “45 espetáculos apresentados entre fevereiro e março, 3 sessões cada [um], com investimento próprio”, como anotou neste blog o produtor Rodrigo Fidelis, que conheci trabalhando no Galpão Cine Horto tempos atrás.


Na cidade dos grupos Giramundo, Galpão, Corpo, Primeiro Ato, Zap 18, Luna Lunera, Oficina Multimédia, Companhia Clara, Espanca!, a presidente da fundação – instituição equivalente e substituta da Secretaria Municipal de Cultura desde 2005 – se diz recolher à “humildade” de não ter percebido a importância do evento, como relata Miguel Anunciação. Pimentel não habitou o planeta cultura de Belo Horizonte nos últimos anos, intuímos.


Uma das funções da FMC é “planejar, coordenar”, como consta em seu estatuto. A alegação de que convém realizar o festival em ano ímpar e não par – coincidente com Copa do Mundo, Olimpíadas, eleições e afins – é pertinente, louvável até, inclusive pela maior disputa por orçamento – aliás, quinhão da cultura que teria aumentado de R$ 6,2 milhões em 2009 para R$ 7,5 milhões em 2010, relatam Julia Guimarães e Fabiano Chaves em reportagem de título inspirado: Cultura a passos de formiga. Mas abortar a organização do festival a cinco meses do parto é bagunçar o coreto de maneira inconsequente.


O FIT-BH distingue-se no cenário dos festivais do Brasil justamente pela sua condição bienal, um luxo para que sua coordenação e curadoria não venham com desculpas protocolares em relação ao perfil de espetáculos e ao que pretendem transmitir naquela edição em termos de qualidade e diversidade. Conhecemos as dificuldades tradicionais de dar liga a um evento organizado e dependente basicamente da iniciativa pública. Mais um trunfo do FIT-BH: um festival público que tem compromisso idem, como prova a multidão que atrai para os cortejos e apresentações de abertura na região central. Um festival preocupado com o acesso do cidadão, com o preço do ingresso, parâmetro também levado em conta pelas prefeituras de Porto Alegre e São José do Rio Preto, protagonistas diretas nas realizações dos seus principais encontros internacionais de artes cênicas, cativos no calendário das respectivas cidades.


Outra alegação lançada por Pimentel em 18 de março soa ainda mais nebulosa: a curadoria não teria conseguido detectar espetáculos internacionais de qualidade. Ou seja, o problema é do teatro do mundo e não dos que estão no palco & rua da aldeia. Espio o twitter do Porto Alegre em Cena e lá estão antecipadas algumas atrações deste ano (8 a 26 de setembro), Bob Wilson na direção de dois solos de Beckett, Dias felizes e ele próprio em cena com A última gravação de Krapp, espetáculo ao qual assisti aqui no Festival Iberoamericano de Teatro Bogotá; um Dostoiévski pelo encenador lituano Eimunthas Nekrosius, O idiota; e a dança butô dos japoneses do grupo Sankai Juku.


Por fim, mas não por último, o pacto de origem do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte – em 1993, rumo à primeira edição em 1994 – é o que torna sua história tão original: a fusão de propostas pela direção do Teatro Francisco Nunes, que cuidava da curadoria de palco, e Grupo Galpão, encarregado da rua, ambos com apoio da extinta Secretaria Municipal da Cultura. Esse ideal durou pouco, desdobrou em rupturas, a comunidade dos artistas de teatro como que carrega cisões até hoje. Isso pode ter baixado a guarda para episódios tão deprimentes como o protagonizado agora pela FMC. E, paradoxo, os mesmos artistas cujo barulho em coro foi decisivo para que a próxima edição de agosto não sucumbisse. Carlos Rocha, também personagem das memórias do Teatro Francisco Nunes, mantém-se na coordenação enquanto costura com Pimentel a composição da curadoria fraturada. Resta torcer para que as sequelas não sejam tão graves daqui por diante. Porque, das cicatrizes de ontem e de hoje do FIT-BH, essas parece que não fecham tão cedo".

sábado, 3 de abril de 2010

O velório da dona Mercedes

Seria apenas mais um funeral na cidade, não fosse o velório da dona Mercedes. No cômodo triste do Cemitério da Saudade, manhã fria, meia dúzia de vizinhos velavam a morta. Junto ao caixão, de pé, com os dedos a ajeitarem os cravos, a filha Luísa. Primogênita, solteirona, 44 anos, foi ela quem cuidou da mãe até o último suspiro. Andréia, a caçula, que morava com o namorado no Bairro Santo Antônio, havia acabado de dar notícias pelo celular. Disse que estava com terrível dor de cabeça e que precisava dormir um pouco mais. "Lá pelas 10h eu chego. Faz sala aí pra mim, Lulu", desligou. Luísa conhecia bem a irmã e não se importou. Estava preocupada era com o Joel, irmão taxista. Desde que soube da morte da mãe, deixou o hospital e não apareceu mais. Na casa dele, em Contagem, ninguém atendia. Há pouco, coisa de meia hora, a mulher do rádio-táxi disse que ele não estava trabalhando. Luísa não sabia o que fazer. Pensou até em pedir a ajuda da polícia, mas decidiu aguardar o andar da hora.

Soubesse a Mercedes os herdeiros que colocou no mundo, teria morrido de desgosto. Quando o doutor anunciou a doença incurável, a viúva de 67 anos só quis saber se o tempo que lhe restava era suficiente para terminar a obra em casa. Um casarão antigo de quatro quartos e única suíte, no Bairro São Lucas. O sonho da aposentada, com a reforma do imóvel, era ter um banheiro para cada um dos três filhos. Sonhava em tê-los juntos, morando sob o mesmo teto. Luísa foi a única a não sair de casa. Vivia para a mãe. Joel e Andréia, os mais queridos de dona Mercedes, caíram no mundo cedo. Joel se enrabichou com mulher bem mais velha e largou os estudos para ficar na praça com a placa do pai. Com medo das irmãs reclamarem o bem, sumiu e, vez por outra, aparecia para descolar algum dinheiro com a velha protetora. Andréia, descolada que só ela, vivia para o próprio umbigo. Durante o dia, trabalhava como secretária numa clínica odontológica e, à noite, fazia teatro com grupo amador, horroroso.

O velório estava por se encerrar silencioso. Luísa não arredava o pé do corpo da mãe. Pequena missa celebrada, já beirava 11h quando Joel e Andréia chegaram, juntos, batendo boca. "Ladrão. Você é ladrão! Senta, Lu! Segura a tampa aí, moço. Pera lá! Sabe o que o seu irmão fez, Lu? Ontem, ele deixou a gente lá no hospital, arrumou um caminhão e deu uma limpa lá na casa da mamãe. Levou tudo de valor que tava lá. Eu chego lá agora de manhã pra buscar umas coisinhas que são minhas, que ela já havia me dado, e nada. E o pior, escuta só, ele ainda voltou com um chaveiro para trocar todas as fechaduras da casa. Só que ele quebrou a cara porque eu já tava lá com outro chaveiro, porque eu conheço bem o tipo de irmão que a gente tem. As chaves estão comigo e se ele aparecer lá de novo a gente tem que chamar é a polícia".

Luísa, com o olho em águas, não disse palavra. Fez sinal para o coveiro e pediu que ele fechasse o caixão. De costas para a discórdia, mais uma vez, rezou baixinho pela mãe.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 3/4/10
Arte: "Retrato de família", por Juha Vasku