Vincent - Um solo de amor

sábado, 24 de abril de 2010

O passado da menina atriz

O grande teatro já estava lotado. Na bilheteria, o aviso de ingressos esgotados deixou muita gente do lado de fora. Belo Horizonte foi a cidade escolhida para a estreia nacional da superprodução paulista, com direito a orquestra e corpo de baile. Uma belíssima tragédia escrita por um tal William Shakespeare. Nos bastidores, até o mais experiente do elenco tinha o coração aos pulos pela responsabilidade de soprar os versos do bardo inglês. Mas nada se comparava à emoção da estreante Diva Bandeira, depois de anos de volta à terra natal. Concentrada, sentada em cantinho qualquer da coxia, ao ouvir o primeiro sinal a atriz mergulhou no tempo.

Lembrou-se do dia em que decidiu contar em casa que abandonaria o curso de patologia clínica para ser artista de teatro. “Tá maluca!” – esbravejou Joaquim, o pai – “Dou um duro desgraçado pra te dar uma vida decente e você quer dar nisso?”. Com a mãe, dona Cecília, também não houve amparo: “Larga disso! Não vê aí a mulher do Adamastor? Virou artista e agora tá que nem galinha do rabo torto. Vai dormir e esquece essa bestage, menina”. Diva não tinha mesmo mais clima para continuar na sala com os dois noveleiros, vidrados na TV. Entrou no quarto de forro carunchado e passou horas em claro, na madrugada mais longa de seus 19 anos. Levantou cedo, pela primeira vez, decidida a fazer a própria vontade.

Já estava com nome e endereço da escola de teatro na Praça da Liberdade, indicada por uma amiga. Matriculada, saiu de lá feliz com o clima do lugar e com o sorriso das duas secretárias. Não demorou para que a família soubesse. O pai comandou o carnaval: “Sua mãe desconfiou e eu não quis acreditar. Fui lá na escola técnica, aonde você devia estar, e fico sabendo que há mais de mês você não aparece. Que trancou a matrícula. Você pra mim morreu, Diva. Morreu!”, disse, em cólera. A mãe foi ainda mais dura: “Que desgraça! Quem mente é capaz de tudo. Teatro. Que vergonha! Quem acha que é dona do nariz tem que aprender a cuidar do resto do corpo”. O pai encerrou o assunto: “Junte suas coisas e saia dessa casa, menina”.

No mesmo dia, Diva deixou a casa amarela de Venda Nova. Passou uma semana em apartamento de parente distante e arrumou emprego como balconista na Pastelândia da Avenida Afonso Pena. Montou república e passou a dividir as despesas com quatro colegas, até que foi morar em São Paulo. Em jornada dupla, continuou firme com o propósito de ser atriz. Meia década se foi. Batalhadora e talentosa, entre muitas candidatas, foi a escolhida em audição para o principal papel da ousada produção. No dia da estreia, pela manhã, Diva foi até Venda Nova levar convite para os pais. “Seu” Joaquim e dona Cecília, surpresos, não gastaram muitas palavras. Apenas receberam os bilhetes com os olhos aguados. “Que bom que você conseguiu, filha”, arriscou o pai, embargado, segurando a xícara de café.

Noite de gala. No terceiro sinal, hora de entrar em cena, Diva voltou ao presente com fôlego de veterana para viver Hamlet. Na primeira fila, tímidos, os pais. Já sem a menor vergonha da menina atriz.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 24/4/10

Foto: "Hamlet el príncipe de Dinamarclown", com direção de Fausto Ramírez

5 comentários:

João Paulo disse...

Jefferson tudo bom!?
Sou eu João Xavier, seu profesor de Ingles la do Ingles & cia.
Estava morando em londres e agora retornei ao brasil e a BH.

Queria entrar em contato.

eu email é

kindd_boy@yahoo.com.br

johnxavierbrasil@hotmail.com

Walmir disse...

Uma alegria, hein, mano blogueiro?
Dar com essas vontantes artísticas cumprindo o bom caminho é alento sem igual.
grande abraço

Anônimo disse...

Ela teve um ótimo professor, quer dizer ótimos.
Carlinhos.

Anônimo disse...

Ela merece tudo de bom. E eu, como colega, fico muito orgulhoso.
beijos
Sandra

Floca disse...

Essa coisa de lutar contra o mundo para ser o que se é... Conheço bem esta história, e apesar de dolorosas, isso as torna mais lindas. Muito bacana.