Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 29 de agosto de 2009

Uma rua chamada solidão (19)

"Contou tudo sobre os últimos dias de vida da fulana. Disse que eram amigas, quase irmãs, e que amar o mesmo homem foi o único pecado que cometeram. Falou das joias e do dinheiro"



Na delegacia, nova testemunha estava pronta a esclarecer o caso. Sininha, a puta foragida, ex-ocupante do quarto de Maria, sabia de muitas coisas. Depois de ter sido surrada e ameaçada de morte pelo bandido amante, no Bairro Nacional, decidiu não guardar mais segredo. Por mais de duas horas, contou tudo sobre os últimos dias de vida da fulana. Disse que eram amigas, quase irmãs, e que amar o mesmo homem foi o único pecado que cometeram. Falou das joias e do dinheiro. O assassino era a única certeza que Sininha não tinha. Não precisava. Na soma dos fatos, Carvalini fechou o quebra-cabeças.


Já era noite. Dorinha cantava na praça de alimentação de shopping da cidade. Show acústico de voz e violão. O olhar comprido da cantora passeava pelo espaço na esperança de ver João. Nada. O moço evangélico, em busca de Maria, estava ocupado demais, de porta em porta nos puteiros da Rua Guaicurus. O filho de terras do Espírito Santo, incansável, com a ajuda de Lilico, percorreu todos os corredores e becos escuros do lugar. Nem sinal da ex-namorada, grande amor em tempos passados. João, ao descer escadaria, chegou a esbarrar em Carvalini na contramão. O policial também queria rever Maria, que, de porta fechada, por R$ 20 fazia feliz garoto de identidade adulterada.


Carvalini furou a fila e espantou o bolinho à espera da bela puta. Ao sair do quarto e dar de cara com o homem de olhar da lei, o moleque desmamado teve as pernas ainda mais bambeadas. “Some, garoto!”, mandou o detetive, mostrando a pistola automática enfiada na cintura. Pela primeira vez Maria sentiu vergonha do ofício, ao ver o sujeito da jaqueta de couro, constrangido, em sua porta. “Posso entrar?”, perguntou. “Claro”, ela disse.


Os dois não pronunciaram palavra por minuto naquele quarto de mentira. Foi Carvalini quem quebrou o silêncio: “Vim convidar você para jantar”. Maria não pensou muito para responder: “Humhum”. Pediu tempo para banho e avisou a amiga Claudete que não voltaria com ela para o São Gabriel. Escadas vencidas, o casal ganhou a rua da solidão e, no carro preto do policial, seguiu para restaurante na Praça Duque de Caxias, em Santa Teresa.


Já passava das 22h, quando João se deu por vencido: “Não devia ter vindo”, disse ao amigo taxista. “Garoto, vou te dar um conselho. E aproveite porque é de graça: toque a sua vida. O que tiver que ser, será”, disse Lilico, enquanto dirigia até o Edifício JK. João pagou pela corrida e ainda deu boa gorjeta pela dedicação do descolado gigolô. Subiu para esperar por Dorinha, dona da quitinete. Cuidou do schnauzer Raul e ouviu a cantora chegar. “Desculpa por não ter conseguido ir ver você cantar”, pediu. “Não faz mal. Eu entendo. Você deve estar com fome. Vou preparar alguma coisa pra você”, ofereceu, generosa.


Lancharam mudos, sob o olhar carinhoso do cão.


(No próximo sábado, o último capítulo)


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 29 de agosto de 2009

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A vida ao avesso

Hoje, quinta-feira, às 20h30, tem pré-estreia de Vila dos mortos, no Espaço Cultural Puc Minas.




O outro lado da vida está em Vila dos mortos, em cartaz, no Espaço cultural PUC Minas, na Praça da Liberdade. Seis histórias de pessoas simples, sobrepostas pelo tempo, se cruzam em rua de bairro qualquer de Belo Horizonte. Em comum, os dramas provocados pela fatalidade das circunstâncias.


VILA DOS MORTOS


Direção: Jefferson da Fonseca Coutinho
Espaço Cultural Puc Minas – Tel. 3269-3260
Rua Sergipe, 790 – Funcionários

Pré-estreia hoje, 27 de agosto.
Quintas e sextas-feiras, às 20h30.
Até 11 de setembro.
Ingresso: 1 quilo de alimento não perecível.


Contato: 3269-3260; 8838-6279 ou 9952-2901

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Jeová e seus amigos

Veja só, caro leitor, o casal transformou em palco uma banca de revista. A ideia é sensacional e arrebatou seguidores, parceiros e agregados das mais diferentes vocações.



Na foto de Renata Almeida, Ricardo Koctus comanda apresentação na calçada


O Jeová é o cara. Exemplar dono de banca de revista, acima do bem e do mal. O projeto Cultura na calçada, realizado por ele, já ganhou destaque até do outro lado das montanhas de Minas. No sábado tem mais uma edição do evento, que, justiça seja feita, já está entrando para o calendário das festas mais bacanas da cidade. A partir das 10h, na Avenida Brasil, 458, no Bairro Santa Efigênia, o quarteirão vai ficar pequeno para a quantidade de pensadores que vão se reunir na calçada.

Sou fã do projeto, comandado pelo Jeová e pela Simone, desde que foi lançado, há três anos. Veja só, caro leitor, o casal transformou em palco uma banca de revista. Isso mesmo, quem diria, hein!?. A ideia é sensacional e arrebatou seguidores, parceiros e agregados das mais diferentes vocações. Tem de tudo: artista plástico, ator, músico, escritor, jornalista, artesão, domador de dragão, enfim, gente de primeira linhagem e de tudo o que é espécie rara. O mundo se encontra ali, na pequena arena do cavaleiro do rock e agitador cultural, meu amigo Jeová.

Minha empolgação é natural. Vi o projeto nascer. Conversa aqui, bate-papo ali, apoio de um, o incentivo do outro... pronto: deu-se o festival com shows, bitacas e outras paradas. O que brotou na melhor das intenções, com o objetivo de oferecer cultura de graça, ganhou dimensão extraordinária. É de encher a gente de orgulho. Bandas como Black & Blue, Acetato Pb, Club Vinttage Rock and Blues, Projeto Serenata, Rocknova, Submarino Cor-de-rosa e U2 Cover MG vão fazer para lá de especial o próximo sábado na Avenida Brasil. Pauteiros de plantão, senhores de faro para as boas notícias, tomem nota porque isso é matéria para os melhores jornais do mundo.

Já combinei com boa galera da praça o encontro na arena do Jeová. Vamos deixar o volante de lado, em dia de festa, para curtir a boa música do repertório da turma do rock da melhor qualidade. Na edição passada, foi uma grande alegria o acontecimento. Reencontrei amigos de tempos muito felizes no Bairro da Lagoinha. Grande Alfredo! As barracas de comes e bebes, armadas exclusivamente para a ocasião, também só reúnem gente de bem. Carne no tempero de deixar muito chef gaúcho na chinela e cerveja na temperatura dos pinguins de agasalho. Vale a pena conferir, amigo leitor. Depois, me digam se exagerei.

Hoje, estou de bem com o mundo. Recorro ao companheiro Jeová para mudar o tom de nossa Bandeira Dois. As últimas colunas foram tristes, sorumbáticas até. Falamos da partida do amigo Marco Antônio Brandão, jornalista inesquecível, e do assassinato do cabo Silva, morto pelas mãos de gente que não presta no Bairro Nova Suissa. Desastroso efeito da violência que acossa o cidadão. O mundo precisa de paz, de mais iniciativas como a do Jeová e seus amigos.

Vida longa ao projeto Cultura na calçada!



(Bandeira Dois - Josiel Botelho - 26 de agosto de 2009)

domingo, 23 de agosto de 2009

Fim de temporada

Última semana para ver "O comedor de batatas" no Teatro da Maçonaria, terça-feira, às 20h. Imperdível!





Desdobramento de "Chovia, mas os ladrões não usavam guarda-chuvas", o espetáculo traz à cena diálogo absurdo entre um homem e seu passado. No palco, Ferdinando Ribeiro e Emílio Zanotelli. Terça-feira, às 20h, no Teatro da Maçonaria (Av. Brasil, 478 - Santa Efigênia).

Informações: 9774-3214.

sábado, 22 de agosto de 2009

Uma rua chamada solidão (18)

"A primeira a descer foi Maria, esquálida. Embora não estivesse se sentindo muito bem, foi convencida a participar da cerimônia e de passeata, em manifestação de protesto contra a violência".





No velório de fulana, a tia revelou: “Tinha um outro moço no trabalho que não deixava ela em paz”. Carvalini começava a juntar as peças do quebra-cabeça que envolvia a mulher da vida, assassinada na Rua Guaicurus. Drama de despedida vazia, o policial deixou a senhora ao lado do caixão com a sobrinha. Quis tomar o ar da manhã acinzentada, que cobria o parque de ossos. Andou lento entre túmulos do Saudade. Debaixo de copa frondosa, viu quando o ônibus fretado por Bigode estacionou abarrotado de putas tristes.


A primeira a descer foi Maria, esquálida. Embora não estivesse se sentindo muito bem, foi convencida a participar da cerimônia e de passeata, em manifestação de protesto contra a violência. Cerca de 60 profissionais do sexo, operárias da rua da solidão, juntaram as mãos em reza pela colega de pouca sorte. Repórteres dos grandes jornais estavam lá. O caso repercutiu: “Tia reconhece corpo de puta morta”, manchetou o tabloide. Carvalini sorriu ao ver Maria. “Senti saudades”, pensou dizer. Não disse. Emudeceu-se diante da filha sofrida da Zona da Mata. Gentil, arrancou suspiro da menina carente: “Você”. Contudo, a moça se conteve. Talvez pelo coração ainda ocupado pelo jovem evangélico, do Espírito Santo.


Na Guaicurus, João percorria os hotéis de indecências da rua. Em vão. Conversou com algumas garotas, porteiros, auxiliares, entre outros tantos trabalhadores que povoam o lugar. Do velório o capixaba soube logo cedo, quando tomou o táxi de Lilico, na porta do JK. Mas quis passar no Centro primeiro, na esperança de reencontrar a amada. “Segue para o Saudade”, pediu ao amigo taxista. Eles cruzaram o portão depois das 11h30. Tarde demais. Corpo entre flores a sete palmos, a passeata já voltava pela Andradas. O coveiro do rosto de paz quis ajudar: “Uma lourona falou que o povo ia a pé até a rodoviária”.


Maria não seguiu com o grupo. Por fraqueza, tombou quando o caixão desceu à sepultura. Na companhia de Claudete, foi levada por Carvalini para unidade de pronto atendimento. No celular do detetive, chamado às pressas: “Preciso de você, garoto. Agora!”, convocou Bueiros. Maria ainda ficou em observação, assistida pela amiga carioca. Demorou para que as duas deixassem o ambulatório. Passaram em self-service barato e desceram de ônibus para o trabalho. Na Praça Rio Branco, findava a manifestação.


O Bigode pareceu preocupado: “Pensei que você fosse bater as chinelas, minha filha”, disse logo quando viu Maria vencer a escada. “É porque ela não come. Eu falo, mas não adianta”, afirmou a coroa do quadril surrado, quase mãe. Maria conversou que estava bem e foi para o quarto se desvestir para, enfim, receber a clientela. Tardinha de movimento, homens aos montes congestionavam os corredores.


Na delegacia, nova testemunha estava pronta a esclarecer o caso e encerrar a novela.

(No próximo sábado, o penúltimo capítulo)


Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 22 de agosto de 2009

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Para o Meu Coração...

"A poesia tem comunicação secreta..."




Para o meu coração basta o teu peito,
para a tua liberdade as minhas asas.
Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a tua alma.


És em ti a ilusão de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.
Minas o horizonte com a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.


Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste, como uma viagem.


Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu acordei e à vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma.

(Pablo Neruda)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Descanse em paz, cabo Silva

"Muito triste a violência que assombra os cidadãos. Nem o homem da lei, preparado para as situações de risco, está imune à brutalidade que mata".





A morte do cabo Marcos Antônio da Silva, de 43 anos, ao reagir a um assalto no Bairro Nova Suissa, em Belo Horizonte, foi assunto ontem entre amigos da praça. O PM foi baleado na noite de segunda-feira, quando chegava em casa, na Rua Veneza. Muito triste a violência que assombra os cidadãos. Nem o homem da lei, preparado para as situações de risco, está imune à brutalidade que mata. Ano passado perdemos dois amigos assassinados na porta do lar. Um deles foi morto com as mãos para cima, depois de ter entregue as chaves do automóvel. O outro, praticante de arte marcial, reagiu, desarmou o assaltante, mas foi morto pelas costas por comparsa que estava escondido. Uma tragédia que, infelizmente, a família tão cedo não vai superar.


Nós que rodamos à noite temos que redobrar a atenção. “Reagir jamais”, é o que prega o Adelson sempre que tem oportunidade. E ele pode afirmar com a voz de quem quase morreu duas vezes nas mãos de gente que não presta. Numa delas, em 2002, o bandido chegou a puxar o gatilho. Por sorte, ou pela mão de Deus (quem sabe), a arma falhou. Da outra, em 2006, a bala passou de raspão, no pescoço. Na ocasião, o Adelson arrancou e o marginal fez vários disparos em direção ao táxi. O Oswaldo também já passou por maus bocados preso num porta-malas por quase cinco horas. O Genilson, filho do Everaldo, tomou pancada na cabeça e levou 19 pontos no rosto. Ficou marcado para sempre. Nunca mais quis saber de rodar à noite.


Ontem, por menos de hora, foram muitos os casos relembrados durante a pausa para o jantar no Bairro Padre Eustáquio. O Samir, filho de sargento da PM, estava indignado com a morte do cabo. “Conheço vários policiais. O pai e muitos dos seus companheiros dão a vida pelas pessoas. Um homem da lei, do bem, não pode morrer assim tão desgraçadamente, sem chance de se defender. Ninguém pode morrer assim. Mas, na polícia, para mim, isso é morrer duas vezes”, desabafou, tomando as dores do pai, que está aborrecidíssimo com a morte do colega de corporação.


Deixamos a mesa com comida nos pratos. Assunto indigesto, ninguém deu conta de comer em paz. Cada um assumiu o volante de seu ganha-pão e seguiu jornada. Fiz sete corridas magras madrugada adentro. Na fila da rodoviária, entre um avanço e outro, tomei nota de alguns pensamentos para a Bandeira Dois de hoje. No som, música suave para relembrar o amor dos filhos e da bela Violeta, sentimento-razão para agradecer pela vida e querer se manter de pé por longo período ainda. Antes de voltar para casa, um beijo na mulher amada e telefonema fixo para o Espírito Santo, para ouvir a fala rouca do velho Botelho, homem do mar e das gaivotas. Um alô carinhoso para os filhotes e a cabeça no travesseiro com cheiro de rosa. Pensamentos mil, respiração profunda para aliviar o peso dos efeitos da violência e alcançar sono de descanso.


Na caderneta, uma última nota: “Descanse em paz, cabo Silva”.


(Bandeira Dois - Josiel Botelho - 19 de agosto de 2009)

sábado, 15 de agosto de 2009

Uma rua chamada solidão (17)

"Tuca deixou o barracão cor-de-rosa sem rumo. Naquela madrugada, depois de surrar a amante de vida fácil, assumiu o volante do importado roubado e desapareceu às margens da Lagoa da Pampulha"




No Bairro Nacional, esconderijo de Sininha, a revelação de que Tuca não havia esfaqueado fulana provocou reviravolta no caso da puta assassinada na Rua Guaicurus. Aturdido, o bandido não teve coragem de disparar a arma apontada para a mulher. Sem saber o que fazer para recuperar o dinheiro e as jóias levantados no último assalto, na companhia do comparsa Leleco, Tuca deixou o barracão cor-de-rosa sem rumo. Naquela madrugada, depois de surrar a amante de vida fácil, assumiu o volante do importado roubado e desapareceu às margens da Lagoa da Pampulha.


No JK, João e Dorinha nem perceberam o chegar da manhã. Viraram a noite apenas em conversa amiga, sem segundas intenções. Dorinha, feliz como há muito não se via, foi quem acordou para a hora:


– Meu Deus! Nem vi amanhecer. Acho que a gente precisar dormir, né!?
– É. O tempo passou num galope. Obrigado pelo jantar, Dorinha.
– Não há o que agradecer. Olha só... hoje à noite vou cantar na praça de alimentação do Shopping Cidade. Fica no Centro. Eu ia ficar muito contente se você aparecesse por lá.


João disse que ia fazer de tudo para prestigiar a nova amiga. Sabia que o dia seria longo na volta à rua da solidão em busca de Maria. Ajeitou-se no sofá macio e dormiu sono profundo, enquanto Dorinha, sob lençol perfumado, sentia-se cada vez mais envolvida pelo jovem capixaba evangélico.


Maria, Claudete e o pequeno Julim acordaram cedo no Bairro São Gabriel. Manhã de ação para as duas putas que queriam recuperar o tempo perdido dos últimos dias. Chegaram antes das 8h no hotel de indecências. O Bigode havia acabado de passar café. Foi ele quem deu a notícia do velório da fulana: "Vai ser no Cemitério da Saudade, às 11h. Uma tia da fulana avisou para a Jezebel. Ela passou aqui e pediu para mobilizar todo mundo para ir lá se despedir da coitada". Maria disse que precisava trabalhar e que, como não conheceu a morta, não se sentia à vontade para participar da cerimônia. Já Claudete, além de garantir presença, se encarregou de ligar para uma dezena de conhecidas para fazer o comunicado.


Depois da tia, o detetive Carvalini foi o primeiro a chegar no local. Passou pelo caixão barato recheado de flores brancas e cumprimentou a parente da morta, sentada num canto do cômodo. Puxou assunto com a curiosidade profissional de quem queria desvendar o caso. Da doninha de cabeça prateada arrancou depoimento importante: "Na semana passada ela foi até a minha casa e falou que tava gostando muito de um moço de vida errada. Mas disse que tinha um outro no trabalho que não deixava ela em paz".



(Continua no próximo sábado)


Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 15 de agosto de 2009

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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

E lá se foi o Marquinho

"Um garoto que soube somar alegria ao longo de toda a sua história. Não havia tempo ruim com aquele moço. Que Deus o receba com a mesma gentileza que ele soube distribuir tão bem em vida..."





Na volta de dias de felicidade ao lado da Violeta e dos filhotes, um segundo semestre cheio de esperança. A quinzena passada, de reflexão e descanso, ajudou a ajeitar a cabeça, viver o presente e redesenhar o futuro. Rever o orçamento, ajustar as contas e dar novo rumo aos projetos e à carreira profissional. Uma força extraordinária, no entanto, abalada pelo falecimento de companheiro muito querido.

Marco Antônio Brandão vai deixar saudades. Passagem das mais alegres teve por essas bandas. Conheceu-me ainda garoto, há 24 anos. Foi dos melhores amigos da família. Especialmente do velho Botelho, que, na segunda-feira, recebeu a notícia de sua morte, aos 52 anos, com muita tristeza: “Um garoto que soube somar alegria ao longo de toda a sua história. Não havia tempo ruim com aquele moço. Que Deus o receba com a mesma gentileza que ele soube distribuir tão bem em vida. Esta noite, vamos fazer silêncio por ele”, disse, por telefone, do Espírito Santo.

Passageiro fiel de longas corridas, em duas décadas, esquadrinhamos Belo Horizonte. Guardo histórias ao lado do Marquinho que não caberiam nesta página. Ensinou-me muito o grande jornalista. Foi o primeiro a me orientar com as letras. Paciente, generoso, risonho, acrescentou-me respeito e prazer à escrita. Repórter admirável, colega inesquecível. Nosso último encontro foi recente, em aniversário dos mais alegres. Abraçou-me como quem enlaça um irmão. Relembramos aventuras e falamos, claro, de amor. Assunto que ele conhecia muito bem.

Ajudou-me com a Violeta. Sorriu-me dizendo: “Agora você vai tomar jeito na vida, né, garoto!?” Desfilou simpatia, matou a saudade de velhos conhecidos e, camarada, ouviu mais do que falou. Sempre foi do tipo preocupado com o outro. Nunca foi de reclamar disso ou daquilo. Homem bom, profissional competente, certamente deixou marcas por onde quer que tenha passado. Grande, Marquinho! São muitos os amigos em comum. É o assunto da semana nas rodas dos mais próximos. Não há quem não tenha se pronunciado com pesar sobre sua partida.

Fica a homenagem por gratidão e amizade. Siga em paz, meu velho!


(Bandeira Dois - Josiel Botelho - 12 de agosto de 2009)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O voo sem asa de Alvisi

Com atuação apaixonada e convincente, Luana Piovani sustenta montagem com direção frágil e concepção dramática superficial





Jefferson da Fonseca Coutinho

Há dois espetáculos em Pássaro da noite, que, no fim de semana, passou rasante por Belo Horizonte e Nova Lima. O primeiro, o da palavra confusa, desacertada, por vezes, em rima barata e prosa vazia. Infeliz viagem de José Antônio de Souza, autor, entre outros, do belo romance Paixões alegres e do genial texto teatral Crimes delicados. O segundo, que valeu os 60 minutos da noite de sexta-feira, no Teatro Alterosa, é o da intérprete visceral, inteira, entregue de corpo e alma à criação. Verdadeira, justa, na soma do que havia de melhor e de pior na montagem carioca. Grata surpresa ver a atuação de Luana Piovani em trabalho solo.

No palco, a solidão é uma escola. Luana parece saber a lição. Longe dos devaneios do que está na superfície, a atriz passeia com propriedade por rica variedade de nuanças e transições; valoriza com vigor pausas e subtextos; faz drama e brinca com o ridículo, com o chulo. Até se faz feia com meia dúzia de caretas a serviço de sua personagem passarinha, depenada, em frangalhos. Trabalha o corpo com evidente domínio e consciência. Compõe tipos coadjuvantes eficientes e tem o dom da naturalidade. No entanto, o que sobra na entrega da atriz, lamentavelmente, falta ao roteiro e à encenação.

A direção de Marcus Alvisi, no que se refere ao desenho da cena, é primária. Há que se considerar, sem dúvida, a sua boa condução no desempenho da atriz. O diretor está lá, percebe-se, na respiração, na ação interna de Luana. Porém, suas marcações no tablado são comuns aos trabalhos de iniciação das escolas de teatro, que buscam o exercício do melhor aproveitamento e uso do espaço (ora direita, ora esquerda, ora ao fundo, ora à frente). Diminui-se também, previsível, o vazio do palco pela ausência de cenário. Conceito, certamente, já que se trata de produção requintada. Só que o preenchimento da caixa cênica com o uso excessivo da máquina de fumaça e mudanças de luz chega a incomodar. Não surpreenderia absolutamente que um banquinho e Luana, apenas, já salvassem o espetáculo.

Em Pássaro da noite, pelo todo, a direção errou a mão. Homem de teatro responsável por trabalhos importantes da cena nacional, como Hamlet e Othelo, de Shakespeare, além de Diário de um louco, de Gogol (todos com Diogo Vilela), Marcus Alvisi, que também é ator experiente, decepciona ao retroceder léguas, num vôo sem asas. Infelizmente, perde-se no argumento movediço, no conteúdo pretensioso, na falta de rumo da personagem escrita pelo mineiro de Januária. Contudo, esse Pássaro da noite não deixa de contribuir para que Luana Piovani alcance o lugar que vem merecendo junto às grandes atrizes do teatro brasileiro.


(Crítica publicada no jornal Estado de Minas)

sábado, 8 de agosto de 2009

Uma rua chamada solidão (16)

"Tuca, armado, acompanhado pelo comparsa Leleco, queria conta da bolsa preta de náilon, com os R$ 20 mil em dinheiro e as jóias, malocada na cama de alvenaria do hotel barato".




Assassinos costumam frequentar velórios. Carvalini se despediu do legista e seguiu para a funerária, perto do IML. Queria apurar onde fulana seria enterrada. Sabia que o principal suspeito era o tal Tuca, apontado por pista deixada no chip do celular de Sininha, puta foragida, ex-ocupante do quarto de Maria. "Vai ser no Saudade, Carvalini", confirmou o agente funerário, enquanto cuidava do corpo. O policial, com a identidade verdadeira da morta na mão, dedicou olhar profundo à fulana, nua, sobre o mesão de aço. Pensou alto:


– Uma pena.
– Um pitel, não!? 25 aninhos.
– 24. completaria 25 no domingo.
– Não sabia que tinha mulher assim na Guaicurus. Olha só os dentes...
– Lá tem de tudo, amigo.
– E a moça, quem diria, era de BH. Pra mim, era tudo de fora.
– Há o mundo naquele lugar.
– Variedade pouca é bobagem.
– E a tia?
– Disse que ia tentar localizar a irmã, mãe da menina. Escolheu o caixão, acertou tudo e marcou de esperar no cemitério. O telefone dela taí, na nota do serviço.


A madrugada se arrastava. No Edifício JK, Dorinha e João, depois do jantar, conversavam como velhos amigos. A cantora parecia ter enterrado de vez o aborrecimento passado com o ex-companheiro. Já o jovem evangélico capixaba, reservado, mesmo sem perder Maria na cabeça, demonstrava satisfação. O schnauzer roncava sob a mesa.


Longe dali, no esconderijo de Sininha, no Bairro Nacional, cena de desespero. Tuca, armado, acompanhado pelo comparsa Leleco, queria conta da bolsa preta de náilon, com os R$ 20 mil em dinheiro e as jóias, malocada na cama de alvenaria do hotel barato.


– O ferro tá carregado, vagabunda! Cadê a mala?
– Já disse... tá lá, no lugar que você deixou.
– Eu falei que era pra você tomá conta, sua bosta!
– A polícia tava na cola...
– Não quero saber... Tamo bolado contigo! Leleco, vô apagá essa puta!
– Me solta! Você não precisava ter apagado a fulana...
– Eu não matei porra de fulana nenhuma!



(Continua no próximo sábado)


(Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 8 de agosto de 2009)

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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O monólogo da bela



O trio Luana Piovani (em cena), José Antônio de Souza (texto) e Marcus Alvisi (direção) merece respeito. É verdade que mandam muito bem nos tablados do país. Hoje, em BH, é dia de conferir o monólogo da moça, atriz das mais competentes de sua geração. “Pássaro da noite” vai ser apresentado no Teatro Alterosa, às 21h. Amanhã, sábado, também tem. No domingo, vai ser em Nova Lima, às 20h30, no Teatro Municipal Manoel Franzen de Lima. Em cena, as tormentas do eu sozinho.

Informações:
Em Belo Horizonte - (31) 3237-6611
Em Nova Lima - (31) 3542-5949 / 3541-4426


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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Sobre os jardins e as borboletas

"Se uma porta está fechada, outra pode estar para ser aberta. E se outra e mais outra não se abrem, colocamos abaixo uma parede"






Ainda à beira-mar, uma reflexão: amigo leitor, preste atenção porque funciona: dedique ao menos cinco minutos do seu dia à sua presença. Feche os olhos e respire profundamente (pode ser antes de dormir). Reúna todos os seus eus (e são muitos, acredite). É verdade que deixamos muitos deles perdidos por aí, nas esquinas dobradas do passado. Nos relacionamentos frustrados, nos dissabores profissionais ou nas pendengas do cotidiano. Chegou a hora de entender que o universo está dentro de você.


O segredo do bem, tenho para mim, é acreditar sempre. Independentemente de religião ou condição social. Em quase quatro décadas de muitos desacertos, ainda assim posso dizer com convicção: "Eu acredito!". "Em quê?", perguntam-me. É simples: acredito no poder de luta que há em nós. O homem é, pela própria natureza, um lutador. Um bravo sobrevivente de tempos dos mais difíceis. Sabemos todos que é fácil fraquejar e entregar os pontos. Conhecemos também os efeitos da fraqueza: o derrotismo que embota e estagna. Que nos emperra e não nos deixa sair do lugar.


Comigo e com você não pode ser assim, meu caro leitor. Só a morte para nos travar a ação. Melhor ser abatido no ar, em pleno combate, do que dormindo, na preguiça. As injustiças, os desrespeitos, as necessidades, as fatalidades estão aí, aos montes, sabemos todos. O verdadeiro guerreiro, o imbatível, faz disso força e coragem para seguir adiante. Não adianta fugir dos problemas. Muitos deles nos perseguem até o fim. Portanto, amigo lutador, façamos da letargia (ou da falta de oportunidades) saco de areia. Se uma porta está fechada, outra pode estar para ser aberta. E se outra e mais outra não se abrem, colocamos abaixo uma parede.


E para isso precisamos do alinhamento de todos os nossos eus. Juntos, somos mais fortes. Porque a força maior que mantém o universo, contém também a nossa presença. Cabe a cada um de nós discernimento para as escolhas. Vivemos a soma das decisões que tomamos no passado. Fugir é fácil. São muitas as fugas. Transferimos deveres e responsabilidades. O vício e a ignorância são rotas fáceis, escancaradas, que nos convidam a todo instante. Queremos o que está do outro lado da muralha, aparentemente inacessível. Não nos assombram os obstáculos. Assustam-nos a falta de iniciativa, a covardia e a preguiça.


Cinco minutos por dia. Não mais que isso. Pausa breve para nos livrar do lixo que há em nós. Tempo para cuidar do jardim e alimentar as borboletas.



(Bandeira Dois - Josiel Botelho - 5 de agosto de 2009)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Vincent e o comedor de batatas

Nos EUA, o ator Emílio Zanotelli não conseguiu embarcar a tempo para a estréia de "O comedor de batatas", hoje, no Teatro da Maçonaria. O espetáculo não pode parar. Daqui a pouco, às 20h, entro em cena com o velho parceiro Ferdinando Ribeiro (foto).



O comedor de batatas
Teatro da Maçonaria
Av. Brasil, 478 - Santa Efigênia
Tel. 3213-4959
Hoje, às 20h, com Ferdinando Ribeiro e Jefferson da Fonseca Coutinho.
Foto: Marlos Ney Vidal

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

No Teatro da Maçonaria, às 20h

"O comedor de batatas", com Ferdinando Ribeiro e Emílio Zanotelli, estreia amanhã, terça-feira, às 20h, no Teatro da Maçonaria. Imperdível.

video

O triunfo da palavra

"Maria Stuart" ofereceu à plateia o belo e denso texto de Schiller, traduzido por Manuel Bandeira. Júlia Lemmertz e Lígia Cortez foram aplaudidas de pé



Jefferson da Fonseca Coutinho

Longe do modismo dos stand-ups; das comédias ligeiras que invadem de norte a sul do Brasil e das invencionices de cabeças flutuantes que pregam a reinvenção da roda, Maria Stuart trouxe ao Palácio das Artes, no fim de semana, teatro como há muito não se vê na cidade. O texto do historiador, poeta e dramaturgo alemão Friedrich von Schiller (1759-1805), traduzido por Manuel Bandeira, teve tratamento respeitoso nas mãos do diretor Antônio Gilberto. Os cinco atos originais sofreram apenas pequenos cortes, adaptados para dois períodos com intervalo de 15 minutos. Como nos velhos tempos, o público foi brindado com mais de três horas de boa palavra.


Há muito não são comuns espetáculos com tamanha duração. É absolutamente compreensível qualquer cansaço e esforço do público para se manter atento à trama. Em Maria Stuart, sexo, poder, ambição e rivalidade entre duas rainhas alinhavam a liberdade moral e o idealismo kantiano de Schiller. Tudo isso transposto da linguagem culta alemã para o português erudito. De fato, não é programa para quem gosta de Big brother ou de Pânico na TV.


Os novos tempos, emburrecedores, é verdade, nos fazem enferrujar o cerebelo. Se de um lado da quarta parede há certo estranhamento ou desconforto na plateia, do outro, no palco, não é muito diferente para o elenco – que, vez por outra, perde naturalidade por descompasso entre verbo e intenção. Por efeito da carência real da realização de grandes clássicos no Brasil, há, ainda, o lamentável equívoco que cometem alguns intérpretes, que vão ao cadafalso por excesso da ação física e da voz. A medida justa é objeto de trabalho constante do ator. No palco, não dá para falar baixo demais ou apenas menear os olhos. No sábado de estreia em BH, certamente, quem estava mais ao fundo teve dificuldades em ouvir parte do texto.


Nem as protagonistas Júlia Lemmertz e Lígia Cortez deixam de cometer excessos em Maria Stuart. No entanto, boas atrizes, elas são responsáveis por momentos extraordinários sob a luz. Júlia, a rainha escocesa Maria, legítima e encarcerada, seduz pela beleza, impulso e destempero. Lígia, no papel de Elizabeth I, a filha bastarda do rei Henrique VIII com a polêmica Ana Bolena, se impõe com pulso firme e obstinação. Juntas, em sequência silenciosa e marcação limpa, compõem o belo quadro de encerramento da peça.


A direção, notadamente, procurou privilegiar o texto de Schiller. Desenhou movimentação simples, quase monótona, para o cenário funcional de Helio Eichbauer. Obteve com Tomás Ribas iluminação bastante adequada à montagem. Já os figurinos, de Marcelo Pies, beiram o óbvio na busca por atemporalidade. Com destaque para o belo vestido branco de Maria Stuart na última cena.


Ao final, casa lotada, a plateia aplaudiu de pé, provando que, resistente, o bom teatro da palavra ainda não perdeu sua vocação em terras mineiras.




Fotografia: Nana Moraes e Rubens Cerqueira


(Crítica publicada no jornal Estado de Minas)

sábado, 1 de agosto de 2009

O absurdo está de volta

"Pensei que você fosse um deles. Nunca se sabe quem está para entrar quando abrimos uma porta. Entre".



A partir da próxima terça-feira, dia 4, às 20h, O Comedor de Batatas faz curta temporada no Teatro da Maçonaria (Av. Brasil, 478 – Santa Efigênia). São apenas quatro apresentações, às terças-feiras, neste mês de agosto.

Com orgulho, assino texto e direção da montagem. No palco, os atores Ferdinando Ribeiro e Emilio Zanotelli. A peça, inspirada em quadro do pintor holandês Vincent Van Gogh e no gênero Teatro do Absurdo, é desdobramento do espetáculo Chovia, mas os ladrões não usavam guarda-chuvas, que realizamos em 2005.

Em cena, um velho e seu passado travam diálogo sobre Deus, amor e liberdade. Intimista, a peça retrata escolhas que o homem faz diante das bifurcações e esquinas desenhadas por seus caminhos. O espaço, cômodo qualquer isolado do mundo exterior, propõe trazer o espectador, enclausurado, para dentro de si mesmo.


Ficha técnica

Texto e direção: Jefferson da Fonseca Coutinho
Elenco: Ferdinando Ribeiro e Emilio Zanotelli
Fotografia: Marlos Ney Vidal

Teatro da Maçonaria Av. Brasil, 478 – Bairro Santa Efigênia (31) 3213-4959 e 9774-3214. Ingressos: R$ 24 (inteira). Antecipados: R$ 12 (para todos).

Contato: Ferdinando Ribeiro: 9774-3214



Esperamos vocês.

Uma rua chamada solidão (15)

"João percebeu ambiente retocado com requinte para o jantar. Impossível não notar as velas coloridas, iluminando talheres finos e guardanapos de luxo sobre a mesa posta para dois"



João e Lilico esquadrinhavam os hotéis baratos da Guaicurus. Os relógios beiravam meia-noite. Final de expediente na rua da solidão. Lilico já estava acostumado, mas o moço do Espírito Santo, de terninho feito no corpo, ficou bastante impressionado com os predinhos do lugar. Especialmente com os corredores abarrotados de homens sós. Escadarias engarrafadas e muitas portas fechadas escondiam indecências. Os porteiros não puderam ajudar: "Maria? Difícil, amigo. Aqui todas são marias", respondeu um deles, negro forte, com quase dois metros de altura e bigodinho desenhado na navalha. "Amanhã eu volto lá", disse João ao taxista Lilico, já diante do Edifício JK. Pagou pela corrida e guardou o cartão com o telefone da nova amizade, gigolô e motorista.

No apartamento de Dorinha, a noite parecia haver descido pelo ralo. Ainda assim ela abriu a porta e sorriu tímida para seu hóspede capixaba. João percebeu ambiente retocado com requinte para o jantar. Impossível não notar as velas coloridas, iluminando talheres finos e guardanapos de luxo sobre a mesa posta para dois. A musiquinha suave ajudava a deixar no passado os aborrecimentos com o ex-companheiro invasor. "Com fome?", perguntou a anfitriã caprichosa. Com o estômago nas costas, João apenas balançou a cabeça dizendo que sim. "Enquanto você toma banho, eu preparo alguma coisa pra gente comer. Aqui, sua toalha", disse retomando a graça, a caminho da cozinha.

No São Gabriel, as duas putas e o pequeno Julim dormiam em paz. Quem não conseguia pregar o olho era o detetive Carvalini, com os pensamentos em nó por Maria. Rodou a cidade e foi parar no IML para trocar ideia com Ludovico, velho amigo de plantão.

– Carvalini! Hoje não tem carteado. O Geraldo tá de licença, esqueceu?
– Não vim jogar, parceiro. Queria trocar umas ideias com você. (pausa) Muito trabalho?
– Não, hoje tá tranquilo. Acabaram de levar o corpo da dona.
– Que dona?
– A prostituta, morta na Guaicurus. O Bueiros liberou.
– Quem levou?
– Uma tia. O pessoal da funerária do Yuri saiu daqui não tem 10 minutos.
– Vou passar lá. (pausa) É… Escuta, Ludovico… Você é sujeito vivido, já viu muita coisa… você acha que uma garota dessas, de programa… poderia mudar de vida?
– Todo mundo pode mudar de vida, Carvalini… mas por que você tá perguntando isso?
– Nada. Bobagem… é que o assassinato dessa garota mexeu um pouco comigo.

Carvalini não rendeu o assunto. Despediu-se do legista e seguiu para a funerária. Queria apurar onde fulana seria enterrada. Assassinos costumam frequentar velórios.

(Continua no próximo sábado)

Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 1º de agosto de 2009