Fantástico - Vai fazer o quê?

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Vida Bandida - Preparação de elenco

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Clipe da oficina de atores para o seriado Vida Bandida,
produzido pela Brokolis do Brasil, sob o comando de Fernando Batista.
Julho de 2009.


Oficina de atores
Direção: Jefferson da Fonseca Coutinho
Casting: Andréa Maia
Câmeras: Antônio Mourão e Manoel
Apoio: Escola de Teatro Puc Minas


Atores convidados:
Maurício Canguçu, Beto Plascides, Edu Costa, Leo Quintão, Lilian Campomizzi, Jenniffer Lamounier, Wolney Oliveira, Nicaulis Costa, Juçara Costa, Ferdinando Ribeiro, Luís Guimarães, Luísa Lagoeiro, Freddy Mozart, Consuelo Cavalcanti, Vinícius Calamari, Paula Sá, Enzo Silveira, Fernanda Aguilar, Giovana Leão, Daniela Braga, Rafael Landim, Gabriela Chiari, Paula Albuquerque, Fabiano Persi, Bernardo Freitas, Sara Alves, Ana Cândida e Dodora.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Deu nos jornais

Matérias sobre o seriado Vida Bandida, produzido pela Brokolis do Brasil, publicadas nos jornais Aqui (27/07/09) e Estado de Minas (28/07/09).





sábado, 25 de julho de 2009

Oficina de atores - Vida Bandida

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Oficina de atores para Vida Bandida,
seriado para TV e novas mídias.

Julho de 2009

Uma rua chamada solidão (14)

"O schnauzer, valente, abocanhou-lhe os bagos e o fez deitar no chão e implorar piedade. Abatido, ouviu: 'Você vai embora agora e nunca mais vai se aproximar de mim. Está entendendo? Ou o Raul vai ter que fazer você virar mulherzinha?'”


Madame Lalá cantou a pedra: “Guaicurus. A Maria que você procura está na Rua Guaicurus”. João não gastou mais tempo nem para corresponder aos sorrisos das belezuras do lugar. Na companhia do taxista Lilico, o jovem evangélico saiu às pressas e bancou bandeirada para o centro da cidade. Sentiu próximo seu tão esperado reencontro com a mulher que o fez homem no Espírito Santo. “Maria”, pensou em voz alta decidido a fazê-la a dama mais feliz do planeta.


Já Maria, no Bairro São Gabriel, no barracão de fundos da velha amiga carioca, suspirou profundamente e entendeu que era hora de agir. “Não posso deixar que o mundo gire simplesmente”, disse para si mesma de frente ao espelho vagabundo de moldura alaranjada. Claudete naquela noite quis se deitar mais cedo. Agarrou-se ao pequeno Julim e dormiram abraçados, com a televisão ligada. Decidida, Maria desfez a mala, contou e recontou suas economias somadas nos tempos de calçadão no Rio de Janeiro, e planejou trabalho duro no dia seguinte para espantar a tristeza. “Vou fazer o que faço melhor”. Fingir gozo embaixo de homens sós era o que a puta que havia nela fazia muito bem. Prazer ela sentiu apenas com João, adormecido num canto qualquer da memória.


Carvalini rodou a cidade com o pensamento em Maria. Diferentemente de outras jornadas, o detetive não quis estapear moleques para espantar o tédio. Também não quis a companhia de seu parceiro Leomar. Liberou o agente amigo do faro apurado para farrear com Suely, mulher casada com vendedor ambulante em missão na Bahia. Chamada não atendida de casinho raso que conheceu em festa junina no Bairro Santa Terezinha, desligou o celular para não falar com ninguém. Já passava das 22h, quando mandou ver prato feito no Bar do Bolão, na Praça Duque de Caxias. Virou cerveja gelada em poucos golos para aliviar a garganta embargada pela falta de sorte com as mulheres que passaram pela sua vida.


Dorinha, no JK, teve a porta esmurrada pelo ex-companheiro bêbado. Do corredor o infeliz gritava: “Abre ou ponho tudo abaixo, vagabunda!”. A bela cantora, fortalecida pela certeza de não querer saber nunca mais do sujeito, abriu o trinco sem medo de encarar o animal. “Cadê o seu homem? Vim matar o filho da puta!”, esbravejou, invadindo o apartamento e partindo para cima da mulher. O schnauzer, valente, abocanhou-lhe os bagos e o fez deitar no chão e implorar piedade. Abatido, ouviu: “Você vai embora agora e nunca mais vai se aproximar de mim. Está entendendo? Ou o Raul vai ter que fazer você virar mulherzinha?”. Pegou o sujeito pelos cabelos e levou-o de volta ao corredor. “Pode soltar, Raul”, comandou. Dois vizinhos viram o canalha, em pranto covarde, deixá-la em paz.


Enquanto isso, João e Lilico esquadrinhavam os hotéis baratos da rua da solidão.


(Continua no próximo sábado)
Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 25 de julho de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Natasha

Do absurdo que há na realidade.

Imagens dos bastidores de "Natasha",
primeiro episódio do seriado Vida Bandida,
produzido pela Brokolis do Brasil.

Sob o comando de Fernando Batista, com grande elenco,
o projeto conta com profissionais do primeiro time da TV de Minas Gerais.

Em breve, numa emissora perto de você.





segunda-feira, 20 de julho de 2009

Perfil de Sergio Penna



Por Jefferson da Fonseca Coutinho

De volta a Belo Horizonte, depois de preparar o elenco de Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, em 2005, o diretor paulista Sérgio Penna abraça nova empreitada. Dessa vez com o Grupo Galpão em Cinema Instantâneo, proposta experimental que privilegia o trabalho do ator-criador. Nome de destaque nos bastidores de filmes como Bicho de sete cabeças, Carandiru, Não por acaso, Contra todos e Chega de saudade, Penna é dos mais requisitados preparadores de elenco do Brasil. Seu trabalho auxiliar na função do intérprete tem como ponto forte a busca pela verdade em mergulho profundo na criação da personagem. Atores como Rodrigo Santoro, Gero Camilo, Caio Blat, Wagner Moura, Cássia Kiss e Lázaro Ramos já foram orientados por Penna. Com Santoro, aliás, a parceria continua em carreira internacional. O diretor vem atuando como uma espécie de treinador particular do astro brasileiro. Foi assim em I Love you Phillip Morris, com Jim Carrey e Che, com Benício del Toro.

Sergio Penna já esteve com o Galpão em oficina aberta de interpretação ministrada em 2004. Foi quando recebeu convite de Helvécio Ratton para trabalhar no longa inspirado no livro homônimo de Frei Betto. O projeto atual está em fase de investigação e composição de temas. Trata-se de processo colaborativo que tem como foco central a disponibilidade da emoção do ator. “Não existe roteiro ou história. Não há compromisso com nada pré-estabelecido. Estamos pouco preocupados com resultado. No momento, o que importa é o processo”. Segundo Penna, as cenas são recortes de curta duração, construídos a partir dos sentimentos de cada ator-criador. Seu papel é exclusivamente ajudar o intérprete a se esvaziar de qualquer excesso, a se desconstruir para deixar espaço para a descoberta de novas verdades. “O instante não pode durar muito, se não ele se repete. O que está em questão é a disponibilidade do ator para o que pode acontecer no momento natural da criação. É um exercício de composição de fragmentos das relações humanas”, diz.


Carreira

Professor de Direção de Atores do departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo) e da Academia Internacional de Cinema de São Paulo, Penna também é palestrante e realizador de oficinas e workshops de interpretação por diversos estados brasileiros, além de professor convidado da EICTV (Escola Internacional de Cinema e Televisão), de Cuba. Tarimbado diretor teatral, formado em Ciências Sociais, foi revelado para o cinema por Laís Bodanzky, em 2000, quando preparou o elenco do premiado Bicho de sete cabeças. Na época, Penna dirigia grupo de teatro formado por pacientes psiquiátricos. Comedido, dono de voz tranqüila, o diretor de atores fala com especial carinho sobre o profissional de teatro: “O teatro é um exercício muito importante para o ator. Por tudo. Especialmente pelo seu processo criador, de colaboração. O palco tem o seu lugar na formação do bom intérprete. É onde se exercita com mais freqüência o jogo de cena, o conflito o estudo da personagem. Infelizmente, o Brasil ainda não produz tanto cinema quanto deveria. Seria muito rico se todo ator pudesse exercitar o seu trabalho dentro da linguagem cinematográfica. A partir dessa experiência teria um domínio ainda maior sobre suas ações”, ressalta.


Método

Sobre seu processo apurador, Sergio Penna fala com a intimidade de quem, há anos, ganha o pão com a busca pela perfeição na elaboração de qualquer papel. Explica a diferença no seu método de lidar com artistas experientes e com pessoas comuns na função circunstancial de intérprete. “Quando tenho um elenco profissional, independente da sua formação, procuro fazer com que ele descubra o menos, tento fazer com que ele entenda a importância da respiração e do domínio do seu corpo. Com não-atores é um processo inverso: busco trazê-los para a realidade técnica da linguagem. Procuro fazer com que cada ator em exercício tenha recursos para recorrer à repetição sem perder a naturalidade necessária para sustentar sua criação. Quando digo ‘menos’, quero dizer ‘mais’ ao que é interno. Na busca pela verdade não há lugar para o excesso, ao que é apenas externo. É fundamental ao ator entender sua pulsação, ouvir o tempo presente em todas as coisas. É como música, dança. Há uma pulsação para tudo. E esse o caminho”, ensina.

É no haikai, estrutura poética japonesa de concisão e objetividade, que Sérgio Penna busca grande parte de sua inspiração para o exercício da síntese. Diz-se muito influenciado também pela dança contemporânea, pelo teatro oriental e pela música. Cita Stanislavski, Brecht, Grotowski, Peter Brook, Boal como quem já devorou livros voltados para o ator. No entanto, reconhece o desenvolvimento de método particular no acúmulo das informações recebidas nos livros e na prática como diretor de grupos especiais. “Eles estão em mim. Não tenho dúvidas quanto a isso. Em geral, todos nós somos a soma de muita coisa. Há em mim uma inquietação muito grande e a arte amplia horizontes para você investigar essa inquietude. O fator determinante para esse olhar para dentro, vem do meu trabalho com atores portadores de necessidades especiais e com pacientes psiquiátricos. Eles desenvolvem, de maneira rara e apurada, olhar, sensibilidade e escuta. São demasiadamente humanos”.

(Matéria publicada no jornal Estado de Minas em 2008)

Perfil de Fátima Toledo




Por Julia Duailibi
Foto: Marcos Mendes



No cinema brasileiro, o preparador de elenco é um profissional em ascensão. Quase todos os filmes de destaque dos últimos anos contaram com o seu trabalho. A mais influente é Fátima Toledo, de Tropa de Elite e Cidade de Deus. Em seu rastro seguem nomes como Sergio Penna (Bicho de Sete Cabeças), Walter Lima Junior (Cazuza) ou Márcio Mehiel (Crianças Invisíveis). É a busca do naturalismo e, acima de tudo, o desejo de pôr gente comum para atuar o que leva diretores importantes a delegar poder ao preparador, que muitas vezes dá o tom das cenas. Em Tropa de Elite, por exemplo, só Wagner Moura, o capitão Nascimento, lia o roteiro previamente. Todos os outros diante das câmeras ficavam sabendo o que tinham de fazer quando Fátima Toledo lhes dava uma ordem. Ao contrário do coach americano, contratado para ajudar um ator a construir um personagem e superar dificuldades específicas, como aprender um sotaque, o preparador brasileiro cuida do elenco como um todo. Seu repertório de técnicas é eclético e chega à bioenergética (terapia segundo a qual o corpo sempre fala a verdade) e ao cundalini (tipo de ioga para despertar a energia vital). Isso soa um bocado "holístico", mas os fins são pragmáticos. Pode-se dizer que o Brasil está criando uma escola de "atuação de resultados", cujo objetivo é arrancar do elenco – não importa como, e pouco importa se formado por veteranos ou amadores – as emoções necessárias. "Aqui não há construção de personagem. Faço os atores viver cada situação", diz Fátima. Ela é a formuladora daquilo que alguns já chamam de O Método.



Fátima Toledo é uma alagoana brava de 54 anos, pouco mais de 1,50 metro de altura, cabelos curtos e ruivos. No começo dos anos 80, dava aula de teatro na Febem e foi contratada pelo cineasta Hector Babenco para lidar com os meninos que atuariam em Pixote, uma das primeiras produções nacionais a contar com preparação de elenco. Fátima usa o cundalini, mas é mesmo conhecida pelas dores que impõe aos pupilos. Com ela por perto, não é raro que haja choro, vômito ou pancadaria nos ensaios. Num de seus exercícios, ela põe música alta e atiça o pessoal: "Descontrola, descontrola!". Seus discípulos pulam, gritam, atiram-se na parede, chamam-se de lagartixa. Em Cidade Baixa, os amigos Wagner Moura e Lázaro Ramos acabaram se atracando depois de dançar uma valsa, na qual tinham de apontar os defeitos um do outro. Em Tropa de Elite, Wagner Moura viu nascer seu personagem, o capitão Nascimento, quando, humilhado, de quatro no chão, explodiu e partiu para cima do ex-capitão do Bope que ajudava Fátima no treinamento. O ex-policial saiu com o nariz quebrado. "As pessoas chegam para filmar carregadas de lixo pessoal. Se eu não tirar isso, não consigo entrar. A dor desbloqueia", diz a preparadora.



Há quem procure Fátima Toledo para fazer um desbloqueio preventivo – vai que aparece uma boquinha no cinema. O playboy Ricardo Mansur e a modelo Ticiane Pinheiro se submeteram à tortura e foram indicados para um papel. Muitos atores tarimbados que passaram por suas mãos tremem ao lembrar da experiência e temem sua influência nos bastidores. Poucos criticam O Método. Mas há discordâncias. Márcio Mehiel foi assistente de Fátima, é todo elogios para ela, mas hoje se diz adepto de técnicas mais suaves. "É como médico: tem gente que dá floral, tem gente que dá tarja preta", diz. Na mesma linha vai o ator e diretor de teatro Celso Frateschi. "Preparação é um trabalho de pesquisa sério", afirma. "Essa coisa de sadomasoquismo é mais que ridícula. É deplorável."



O PASSO-A-PASSO DO "MÉTODO"
Como a preparadora de elenco Fátima Toledo adestra suas vítimas – sejam elas leigos, sejam atores tarimbados como Wagner Moura



Primeiro passo


OLHAR 43

O que é: descobrir a personalidade do ator, seus medos e fraquezas

Como: submetê-lo a situações de pressão e testar sua tolerância por meio de exercícios físicos e psicológicos. Também vale o uso de técnicas como o cundalini e a bioenergética

Máxima: "olho muito as pessoas, elas se traem a todo momento"



Segundo passo


VISTA A CAMISA


O que é: extrair características do ator que têm a ver com as do personagem

Como: é preciso quebrar barreiras emocionais pelos conflitos físico e verbal. Exceto nas cenas de sedução, que pedem algo mais suave, como a oleoterapia e a massagem

Máxima: "Exercícios mostram a pessoa, e então eu consigo entrar. A dor quebra a pessoa, e ela mostra quem é"



Terceiro passo


CÂMERA, AÇÃO


O que é: cuidar do ator na filmagem da cena

Como: o preparador permanece no set e dá ordens. Os atores não recebem o roteiro e têm de improvisar, o que dá naturalidade ao filme

Máxima: "Não há construção de personagem. Faço os atores viver cada situação"


sábado, 18 de julho de 2009

Uma rua chamada solidão (13)

"Na ocasião, Dorinha soube que eles já estavam de caso há tempos. Traída e largada, sofreu horrores e decidiu enterrar o assunto. Cicatriz tocada, aquele telefonema reacendeu a dor"




No JK, Dorinha se perfumou para esperar João. No celular, chamada besta para estragar a noite: "Alô…". Do outro lado da linha, descompensado, o ex-namorado queria explicações:


– Soube que você já colocou outro homem dentro de casa. Vagabunda!
– Não tenho satisfações a lhe dar.
– Como não? Metade do que tem nesse muquifo quem comprou fui eu.
– Com o meu dinheiro.
– Não interessa. Não montei cama para mulher minha se deitar com vagabundo qualquer.
– Não sou mais sua mulher.


A cantora desligou o telefone. Não perdeu tempo para explicar que não era exatamente o que o sujeito estava pensando. Afinal, há três meses, foi o canalha quem chutou o pau da barraca e foi morar com muambeira em Vespasiano. Na ocasião, Dorinha soube que eles já estavam de caso há tempos. Traída e largada, sofreu horrores e decidiu enterrar o assunto. Cicatriz tocada, aquele telefonema reacendeu a dor. Emudecida diante do espelho, reviu os dias de má-companhia. Raul, o schnauzer, assistia a tudo sob a mesa. Na geladeira, vinhozinho em balde de aço. No forno, o jantar de bom gosto à espera de chamas.


Madame Lalá desceu com elegância a escadaria do casarão do bairro chique da Zona Oeste. João e Lilico, o taxista, a aguardavam na sala colorida que dava para o jardim em flor. As beldades, espalhadas pelo ambiente colorido, faziam charme e cochichavam serelepes. A velha, enxutíssima, sorriu para o gigolô do volante: "Ora, ora, sim, senhor! Que faz por estas bandas o Don Juan de araque?". Lilico respondeu moleque: "Buscar inspiração com quem sabe das coisas, minha rainha". Trocaram abraço de afeto e cumplicidade. João não quis perder tempo e entrou direto no assunto:


– Procuro uma mulher, minha senhora. O nome dela é Maria.
– Aqui todas são marias, meu bem.
– Ela é mineira, mas veio do Rio de Janeiro. Trabalhava em Copacabana. Tem 25 anos e chegou em Belo Horizonte faz poucos dias.
– É mulher de rua?
– Como assim?
– É dama de calçada ou atende em local fixo?


João não precisou saber dizer ao certo. Madame Lalá cantou a pedra: "Guaicurus. A Maria que você procura está na Rua Guaicurus".


(Continua no próximo sábado)


Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 18 de julho de 2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vila dos mortos

Quando o outro lado é apenas um ponto de vista.

Dias 15 e 16 de julho, às 20h, no Espaço Cultural da Puc Minas (Praça da Liberdade), Rua Sergipe, 790, quase esquina com Avenida Brasil - Bairro Funcionários. Direção: Jefferson da Fonseca Coutinho

Senhas 30 minutos antes do espetáculo.
Entrada franca.

sábado, 11 de julho de 2009

Uma rua chamada solidão (12)

"Os cabelos, em cachos, livres ao vento que soprava da janela sussurro de romance. Sentia-se diferente. Desde que o ex-marido partiu, ela não pensava novo amor".



Na Guaicurus, Maria, de portas fechadas, por mais uma jornada não abriu as pernas para ninguém. Já Claudete, por R$ 15, se acabou embaixo de autista gigante. A noite desceu mansa depois de dia difícil. Fim de expediente, as duas amigas caminharam até a Estação Central do Metrô e aguardaram trem para o São Gabriel. Claudete falou sobre a tal Sininha, puta foragida, ex-ocupante do quarto onde o dinheiro e as joias foram encontrados:

– Ela era só colega de corredor, mas não é difícil saber das coisas por aqui. É menina boa não teria coragem de mandar espetar ninguém. Ela e fulana estavam de caso com o mesmo sujeito. Um bandido barra pesada da cidade. O cara chapava o melão e vivia aprontando com as duas. Não falei nada para aquele delegado porque ele acha que é Deus. Já o polícia, o de cabelo liso… o Cavalinho…

– Carvalini.

– Isso. Agradei do moço. Mão bonita, macia. Educado, né!?

– Humhum.

– Ele tava de olho comprido em cima de você.

– Tava nada.

– Te passou até o telefone que eu vi.

– Tá fazendo o trabalho dele.

– Sei.

Na velocidade dos vagões de aço, naquela conversa, João, o amor antigo que esquadrinhava a cidade no rastro de Maria, nem de longe parecia existir. No entanto, não muito longe dali, em bairro chique da Zona Oeste, ele e o descolado taxista aguardavam Madame Lalá. João jamais havia colocado os pés em ambiente tão colorido. A decoração em vermelho, verde e amarelo iluminava uma dúzia de belas garotas em roupas de descanso. A mais simpática do grupo, de rolinhos na cabeça, veio avisar: “Madame já está descendo, amor”.

Na cozinha de apartamento do JK, Dorinha caprichou a mão na massa da receita de torta de macarrão que ela recortou da revista. Vinhozinho na geladeira, a cantora queria agradar João. Separou CDs com músicas populares para alegrar o ambiente. Vestiu-se menina: saia azul rodada, bordada à mão, com desenhos de luas e estrelas; blusinha branca que lhe favoreceram os pequenos seios apessegados e sandálias em couro cru. Os cabelos, em cachos, livres ao vento que soprava da janela sussurro de romance. Sentia-se diferente. Desde que o ex-marido partiu, ela não pensava novo amor.

Dorinha se perfumou delicada para esperar por João. No celular, chamada besta em tom extravagante veio para estragar a noite: “Alô!”

(Continua no próximo sábado)

Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 11 de julho de 2009

sábado, 4 de julho de 2009

Uma rua chamada solidão (11)

"Eu sempre acreditei que sexo faz bem pra pele, meu amigo. Madame Lalá é prova viva disso. É ela a madrinha de quase tudo o que é garota de serviço na cidade"




Maria, Claudete e Bigode deixaram a delegacia. O administrador e as duas putas pegaram carona no camburão e voltaram ao batente na Rua Guaicurus. Carvalini, o policial, não conseguia deixar de pensar em Maria, mulher das mais lindas em lugar de pouca sorte. O detetive Leomar farejou o clima:


– Um pitel a mais nova, não?
– Mais ou menos.
– Pare com isso, Carvalini. Até o delegado percebeu que ela balançou você.
– Ele disse isso?
– Nem precisava. Só liberou os três por sua causa.
– São inocentes.
– E o Bueiros lá liga pra isso? Já deixou dormir na jaula muita puta de bem.
– Há algo nessa Maria que me intriga.
– Linda demais pra fazer vida, né!?
– Não é só isso. Há algo mais nessa mulher.
– Paga pra conferir, parceiro.


João, em busca de Maria, seguia na companhia do taxista para a casa de Madame Lalá. O motorista, figuraça, estacionou na porta do casarão azul e sorriu descolado:

– Vais conhecer agora a eterna e primeira dama de Belo Horizonte. Tudo quanto é político famoso que você pode imaginar, já passou pelo colo dessa mulher. Hoje, pendurou a calcinha. Também, cá entre nós, dizem que tem mais de 80. Impressionante. Está mais enxuta que muita coroa de 50. Eu sempre acreditei que sexo faz bem pra pele, meu amigo. Madame Lalá é prova viva disso. É ela a madrinha de quase tudo o que é garota de serviço na cidade. Se ela não conhecer a sua Maria, ninguém mais conhece. A corrida você paga aqui. R$ 19,50. A minha companhia vai de brinde. Gostei de você. Além do mais, estou precisando dar um abraço na Madame.


Desceram do carro e, juntos, ganharam o sobrado discretíssimo em bairro elegante.

Dorinha, no JK, encerrou feliz o repertório para o show do dia seguinte. Cantou bonito as canções listadas para Raul, o schnauzer de estimação. Pensando em João, a artista da noite começou a preparar jantarzinho para receber o hóspede capixaba. Já era fim de tarde quando ela cortou a praça para comprar garrafa de vinho.


Enquanto isso, na rua da solidão, Maria, de portas fechadas, por mais um dia não abriu as pernas para ninguém. Já Claudete, por R$ 15, se acabava embaixo de autista gigante.


(Continua no próximo sábado)
Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 4 de julho de 2009