Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 11 de julho de 2009

Uma rua chamada solidão (12)

"Os cabelos, em cachos, livres ao vento que soprava da janela sussurro de romance. Sentia-se diferente. Desde que o ex-marido partiu, ela não pensava novo amor".



Na Guaicurus, Maria, de portas fechadas, por mais uma jornada não abriu as pernas para ninguém. Já Claudete, por R$ 15, se acabou embaixo de autista gigante. A noite desceu mansa depois de dia difícil. Fim de expediente, as duas amigas caminharam até a Estação Central do Metrô e aguardaram trem para o São Gabriel. Claudete falou sobre a tal Sininha, puta foragida, ex-ocupante do quarto onde o dinheiro e as joias foram encontrados:

– Ela era só colega de corredor, mas não é difícil saber das coisas por aqui. É menina boa não teria coragem de mandar espetar ninguém. Ela e fulana estavam de caso com o mesmo sujeito. Um bandido barra pesada da cidade. O cara chapava o melão e vivia aprontando com as duas. Não falei nada para aquele delegado porque ele acha que é Deus. Já o polícia, o de cabelo liso… o Cavalinho…

– Carvalini.

– Isso. Agradei do moço. Mão bonita, macia. Educado, né!?

– Humhum.

– Ele tava de olho comprido em cima de você.

– Tava nada.

– Te passou até o telefone que eu vi.

– Tá fazendo o trabalho dele.

– Sei.

Na velocidade dos vagões de aço, naquela conversa, João, o amor antigo que esquadrinhava a cidade no rastro de Maria, nem de longe parecia existir. No entanto, não muito longe dali, em bairro chique da Zona Oeste, ele e o descolado taxista aguardavam Madame Lalá. João jamais havia colocado os pés em ambiente tão colorido. A decoração em vermelho, verde e amarelo iluminava uma dúzia de belas garotas em roupas de descanso. A mais simpática do grupo, de rolinhos na cabeça, veio avisar: “Madame já está descendo, amor”.

Na cozinha de apartamento do JK, Dorinha caprichou a mão na massa da receita de torta de macarrão que ela recortou da revista. Vinhozinho na geladeira, a cantora queria agradar João. Separou CDs com músicas populares para alegrar o ambiente. Vestiu-se menina: saia azul rodada, bordada à mão, com desenhos de luas e estrelas; blusinha branca que lhe favoreceram os pequenos seios apessegados e sandálias em couro cru. Os cabelos, em cachos, livres ao vento que soprava da janela sussurro de romance. Sentia-se diferente. Desde que o ex-marido partiu, ela não pensava novo amor.

Dorinha se perfumou delicada para esperar por João. No celular, chamada besta em tom extravagante veio para estragar a noite: “Alô!”

(Continua no próximo sábado)

Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 11 de julho de 2009

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