Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Massachusetts. Parece até nome de comida

Massachusetts, EUA

E seguem rendendo as últimas homenagens prestadas pelo Aqui aos artistas anônimos da cidade. E como tem gente boa, de talento e vocação, se desdobrando para ganhar o pão em Belo Horizonte, amigo leitor! O caso do advogado que queria ser pianista, publicado em nosso quintal, foi apenas o início do assunto, que vem ganhando rodas da praça. O Pedro, marido da Maria Lúcia, teve lá em casa no domingo só para me mostrar que também é fera no violão. Recém-chegado à praça, está se enturmando aos poucos. Durante muito tempo foi empregado em Governador Valadares. Passou uma longa temporada nos Estados Unidos trabalhando como lavador de carros e agora tem andado feliz da vida no Bairro Paquetá. Bom moço demais o sujeito.

Pois é. O Pedro já teve um grupo de forró e manda muito bem no violão. Contou-me que chegou a tocar por uns trocados na noite, mas a situação foi ficando tão difícil, mas tão difícil, que ele, por vezes, tocou em troca do jantar ou do almoço. “Josiel, pra você ter uma ideia, quando conheci a Maria Lúcia eu tava tocando pela comida e pelo lugar pra dormir, lá na Serra do Cipó. Tinha um conhecido que tava trabalhando numa pousada nos fins de semana e conhecia o dono de um restaurante. Aí, ele deu uma força e me deixou acampar no quintal da casa dele. Foi uma luta. Foi logo quando voltei de Massachusetts. Vim batalhar em Belô, só que já tem muita gente que canta na noite aqui e, por isso, não deu certo”, lamentou, enquanto destrinchava o franguinho que a Violeta preparou. Eu, claro, tomei nota para poder contar aqui ao nobre leitor.

A visita do Pedro e da Maria Lúcia alegrou o domingo. Violeta e eu até soltamos a voz, relembrando Legião Urbana, Zé Ramalho, Belchior, Almir Sater, Sá e Guarabyra e, evidente que não podia faltar, o maluco beleza Raul Seixas, entre outros tantos sucessos na nossa época. A cantoria rendeu até a noite e foi muito bom. O Américo, a Leila e a Cristina também apareceram para fazer parte da roda. Com a farra tão boa, estendemos o dia ao máximo, com o devido cuidado e respeito para não incomodar os vizinhos. O Pedro é realmente muito talentoso. Assim como a dupla Francisco & Adriano – homenageada aqui na semana passada –, merecia melhor sorte com a arte. Lembrei-me de muitos outros conhecidos, grandes artistas de mão cheia, que pelejam em jornada dupla. Só conhecidos, Violeta e eu contamos vários.

Inclusive, Violeta tem uma prima que tem batalhado muito para ser atriz profissional no Rio de Janeiro. Linda e talentosa, a Rafaela é vendedora numa livraria de Ipanema. Todo o tempo que tem vago ela dedica à carreira. Faz aulas de canto, dança e muita ginástica. Também vive de fazer testes para a TV e o cinema. É isso aí, Rafaela! Uma hora você emplaca, moça!

Com a cabeça no travesseiro, sem sono pelos pensamentos cruzados em meio à arte e a sobrevivência, a coluna de hoje: “Massachusetts. Parece até nome de comida”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2/6/10

Um comentário:

Cacá disse...

É, a luta pela sobrevivência está ficando cada vez mais difícil no campo das artes em geral. Vale mais o que se aparenta do que aquilo que se tem de bagagem. Vivemos numa era de imagens (pessoais e virtuais) sem currículo. Mas o talento acaba uma hora sendo descoberto e reconhecido. Muito boa a crônica. Abraços. Paz e bem.