Vincent - Um solo de amor

sábado, 19 de junho de 2010

A casa da mãe morta (8)

No apartamento deixado pela mãe morta, no Bairro Aparecida, Carolina veio saber de Larissa. Porta aberta, a professora volta ao palco de conversa muita séria no dia em que conheceu Beatriz, há pouco mais de cinco anos. Foi numa noite de sexta-feira. Larissa havia acabado de entrar no banho. Carolina tomou coragem e, em vez de esperar no carro, como de costume, decidiu subir para conhecer a tão falada mãe biológica da namorada. Beatriz foi dura, implacável, diante da mulher.

– Sei quem você é. Entra.
– Com licença.

As duas mulheres, já beirando os 40, se olharam como quem procura ler pensamentos. Tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes, fizeram silêncio, interrompido apenas pelo barulho das águas do chuveiro, vindo do corredor. Carolina quis conversar.

– Larissa fala sempre em você.
– De você ela nunca diz nada.
– Ela pensa que você não vai entender.
– Posso não ter estudo, mas entendo muita coisa, dona. Minha filha tá achando que você pode ser uma boa mãe pra ela. A avó morreu, eu nunca existi, e ela precisava de alguém assim, com idade pra ser mãe dela. Você é professora dela, não é!?
– Sou a namorada dela, Beatriz.
– Mas ainda é ou foi professora também. Desconfiei quando ela andou aparecendo aqui em casa com um monte de CDs emprestados pela professora de filosofia. Canções de amor, quase sempre cantadas por lésbicas. O que falta à minha filha, senhora professora, é referência. Não me importa que ela goste de mulher. Não sou tão ignorante assim. O que me incomoda, sinceramente, é que ela não tenha a oportunidade de conhecer um homem que possa fazê-la feliz.
– Posso fazer a sua filha muito feliz.
– Não tenho dúvida disso, professora. Na minha família ninguém conseguiu ser feliz ao lado de macho nenhum. Mas a senhora já viveu um bom bocado. E a minha filha não pode conhecer o mundo apenas pelos olhos de outra.
– Bem vejo que você não conhece mesmo sua filha. À maneira dela, ela tem uma visão de mundo bem particular e melhor que nós duas juntas.
– Ela é uma criança.

Enrolada na toalha, Larissa pôs fim ao desabafo da mãe:

– Beatriz! Você não tem o direito! Carolina, você não devia ter subido.

Na cabeça de Carolina, o encontro com Beatriz foi revivido como filme. Larissa, com caixinha de segredos da mãe nas mãos, fez despertar a companheira: “Carol!”.

(Continua no próximo sábado)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19/6/10

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