Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Meu coração pensador

Deus promove os encontros e o resto... bom, o resto é com a gente. Tem a distância física e tem a distância do pensamento. É o que aprendi bem cedo, ainda criança, quando, por tempo e força das circunstâncias, fui obrigado a ficar longe do meu pai. Depois, longe da minha mãe. Quis o destino, muito pouco tempo da vida perto dos dois. Seria felicidade demais para uma criança só.

O pai, o melhor amigo, está bem, firme e forte, “bom, bonito e gordo”, como costuma dizer. Comemorou 75 anos na semana passada. Já a mãe, está bem, ainda mais linda e sorridente ao lado dos pais, meus avós, anjos do céu.

E foi criança, bem pequeno, com menos de metro e meio, que aprendi, na marra, esse negócio da diferença entre a distância física e a distância do pensamento. Mesmo longe de um ou do outro, e, muitas vezes, dos dois, jamais estive distante dos que amo no meu coração pensador.

Nem sempre estar longe significa estar distante. Assim como nem sempre estar perto significa estar junto. O amigo leitor, se estou certo, sabe bem o que isso quer dizer. Meu coração pensador é um furacão. Fora as agruras mais comuns do ser humano, diz-me coisas sempre muito boas que não me deixam a cabeça.

A última, num sopro de bem, me ensina que é melhor ser feliz do que ter razão. E assim vou vivendo, cada vez mais distante e bem longe dos dissabores que posso evitar. Não sou do tipo que gosta de discutir relação nenhuma. Para mim, quando se ama, ama-se e pronto. Quando se perdoa, perdoa-se e ponto.

Ficar remoendo o passado, sofrendo com o que não tem valor, não ocupa um mísero bite do meu coração pensador. Quando algo que não pertence mais ao meu coração se acaba, acaba-se e fim. Em mim, alimento a filosofia de “viver para não se arrepender”.

Vivo. E vivo tão muito e intensamente que uma vida é bem pouco para dar conta do tanto que há aqui, no peito. Hoje, estou assim: que não me aguento. Antes, não gostava de aniversários. Hoje, motivos não faltam para comemorar!

Obrigado, pai! Obrigado, mãe! Obrigado, meus filhos! Obrigado, mulher companheira! Do melhor da vida, o que guardo e cuido, é o meu coração pensador, casa de melhores amigos.

Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O paraíso perdido

Em 2011, durante festinha junina da igreja, Toni e Daise conheceram o fogo da paixão fulminante. Em olhares cruzados, aproximaram-se, dançaram madrugada adentro e fizeram juras e promessas para toda a vida. No mesmo dia, Toni expulsou de casa, entre tapas e bicudões, Martinha, a companheira adolescente, filha de um vendedor de cachaça da região, com quem vivia há quase um ano. Daise também terminou um caso sério, abandonou a casa da mãe e foi morar com o novo amor, no Bairro Paraíso.

Daise, ensino fundamental completo, fogosa, traços finos, sorriso largo, seios pequenos, bunda do tipo tanajura, pés de bailarina e dedos longos. Adorava saias cor-de-rosa. Toni, pouco estudo e educação, magro, alto, barbinha rala, olhos claros, dedos e dentes amarelados, cabelos grandes e encaracolados. Ele desde pequeno invadia casas vazias. Juntos, em comum, o sexo e o cigarro. Os dois formaram química pura. Engoliam-se despudoradamente de três a quatro vezes por dia e acendiam um careta no outro.

Daise tomou gosto pela vocação do companheiro de ladrão. Começaram a arrombar em parceria. Ele era exímio chaveiro – ofício que aprendera com um tio evangélico na adolescência. Tinha ferramentas e habilidade para abrir qualquer trava, tranca ou fechadura. Não só roubavam. Faziam ainda o maior carnaval nos imóveis das vítimas ausentes. Comiam, bebiam, fumavam e, claro, trepavam. Desfilavam nus pelos cômodos e, por fim, fotografavam-se nas poses mais indecentes e inimagináveis.

Eram também viciados em fotografia. E gostavam da foto no papel. Nada de computadores ou redes sociais. Preferiam a diversão suja nas residências de casais sem filhos ou de moradores solitários. Especialistas. Preparavam tudo em detalhes, da invasão à fuga. Invadiam e faziam a “limpa”. Farreavam e davam no pé em pouco mais de hora. Não gostavam de armas, tampouco transavam violência. Toni não sabia atirar e Daise nunca viu de perto um revólver. Gostavam mesmo era de câmeras fotográficas e mantinham coleção das mais raras. A grana da “labuta” era suficiente para manter aquela vidinha bandida.

Foram quase seis meses de invasões, roubos, cigarros e indecências. Até que na madrugada do Natal daquele ano, céu sem estrelas e atmosfera de vingança e morte, a casa no Paraíso caiu para os dois vagabundos. Enquanto dormiam, o barraco foi arrombado e invadido por Martinha – a filha do vendedor de cachaça. Rejeitada a tabefes e pontapés, a adolescente não deu conta de perdoar o dissabor do mês de junho.

Implacável, a menina descarregou o 38 do pai nos dois, nus, no leito que um dia fora também de amor e suor de seu corpo. Sob o colchão ensangüentado, várias caixas de sapatos com centenas de fotografias sujas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho




terça-feira, 5 de novembro de 2013

A violência, essa filha da ignorância



Tenho um amigo próximo, meio irmão, que acaba de voltar de Cuba. Geraldo trouxe assunto para mais de metro daquelas bandas. Convicções políticas à parte, uma das questões que mais o impressionaram é a força da cultura e da educação em toda a boa gente de lá. “Violência zero. É o que ouvi por todos os lugares. Ouvi de um moço, guia pelas ruas de Havana Velha: ‘Sou pobre. Minha única propriedade é a minha vida. E dela cuido até o último suspiro’. Conheci muitos pobres e nunca vi tanta dignidade entre os que tem apenas o suficiente para viver”, disse-me o companheiro.

Minha conversa com o Geraldo foi no domingo. No mesmo dia em que fui visitar o Murilo – outro amigo muito querido, assaltado na semana passada. Murilo desceu do ônibus no Bairro Floresta, Região Leste de Belo Horizonte, e tomou dois tiros de um sujeito covarde que estava na garupa de uma moto. O assalto e o relato de Cuba ficaram me martelando a cabeça. Quem conhece o Murilo, homem de bem, paz e bom coração, tem razões de sobra para indignar-se com a violência sofrida por ele. É assustadora a violência crescente em nossa cidade.

Murilo é daqueles sujeitos incapazes de fazer mal a quem quer que seja. Para citar apenas uma passagem, recentemente, um outro amigo abriu uma escola de arte. Murilo, que havia se graduado em administração, quis ajudar duas pessoas de uma só vez. Eu estava presente e testemunhei quando ele chegou para o dono da escola e disse: “Estou depositando o valor de uma bolsa integral desse curso que a sua escola está oferecendo. Dê a vaga para alguém que queira muito fazer e que não tem condição de pagar”.

Isso tem mais de ano e foi muito marcante. O Murilo, garoto, com vinte e poucos anos, disse que estava apenas retribuindo algum bem que foi dedicado a ele na vida. Impossível esquecer. Aí, um moço desse, com o coração desse tamanho, está caminhando na rua e toma dois tiros à queima-roupa? Não está certo. O que isso tem a ver com Cuba? Tudo. O problema da violência nada tem a ver com pobreza. Tem a ver com a ignorância, com a falta de educação e com a impunidade.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

Um último cigarro

Ele deixou o consultório no pequeno prédio do São Lucas em frangalhos. A voz do homem de branco lhe atingiu como flecha. O timbre grave do doutor Leopoldo havia lhe decretado sentença de morte: câncer no pulmão. Mal causado pelo cigarro, companheiro inseparável de longa data. Oito ou 10 meses de vida, talvez. Era o que lhe restava.

Tempo para colocar deveres e obrigações em dia e, quem sabe, morrer em paz. Queria se redimir de qualquer culpa. Em 50 anos de vida ganhou desafetos bestas e vacilou feio com parentes e amigos. Condenado, vagou a pé pelo bairro da Serra. Entrou num botequim da Rua do Ouro, pediu café e começou a listar, em folha de papel vagabundo, tudo o que queria fazer antes de partir.

O maço cheio de cigarros, no bolso, junto ao peito, ele fingiu não ter. “Agora, não!”, pensou. “Mais tarde.” E começou a escrever os nomes daqueles com quem deveria desculpar-se. O filho, abandonado no passado. Hoje, homem feito, o garoto não queria saber do pai vacilão. O amigo, quase irmão, perdido por bobagem. O pai esquecido, largado no interior. O afilhado sem presente, abraço ou aperto de mão.

Listou o nome da mulher leal e companheira. A mesma dona sem valor, tratada freqüentemente com descaso e desconsideração. Incluiu também uns 10 colegas de trabalho, subordinados, injustiçados. Naquele bar, repensou a vida e seus significados. Determinou que, daquele instante em diante, tudo teria outro sentido. E que poderia, no pouco tempo que lhe restava, ser o homem que não fora em meio século de vida.

Fim de tarde. O boteco, antes vazio, ganhava movimento de fim de expediente, e ele, solitário, numa mesa de canto, com o café frio no copo lagoinha, não parava de escrever nomes e ações de redenção em guardanapos de papel. Na cabeça, as vozes alegres dos fregueses falastrões se confundiam com o falar manso e sério do homem de branco, amigo desde a infância.

Apesar do ambiente barulhento, ele pôde ouvir o chamado insistente do telefone celular. No identificador de chamadas, o número pessoal do doutor Leopoldo. Hesitou. Pensou em não atender. Atendeu. Do outro lado, o médico sem graça se desculpa por erro grave do laboratório de radiologia. Exames trocados. Acontece.

O homem desligou o telefone sem pronunciar palavra. Catou no bolso um cigarro. Mandou goela abaixo o café gelado. Acendeu o careta e puxou fundo um último trago. Decidido, mandou o maço no latão de lixo da calçada.

As anotações de desespero ele guardou. Quem sabe, para rever mais tarde.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Os subterrâneos das paixões


Agenor, quarentão, estava que não se aguentava de saudade da enteada Carolina. Depois que a mulher dançarina abandonou a família por caso antigo, foram seis meses sem um sorriso sequer da menina única – cópia fiel de Inês, a mulher bandida. Três vezes ao telefone apenas. E tudo muito rápido, cheio de pausas. Da última, marcaram conversa na casa de shows onde o genro, performer, é atração na noite. Foi a condição de Carolina para o encontro, já que Agenor não aceitava Walace, o namorado.

Para o advogado, sistemático, cheio de regras, artista era sinônimo de problema. Sendo assim, Walace, com aquele cabelão black power, cheio de roupas coloridas e modo de falar descolado, não inspirava nenhuma confiança para ser o homem da menina tão querida. Além do que, desde que se casou com Inês – mãe solteira, com Carolina de 12 anos na bagagem –, Agenor foi tomado por verdadeira loucura pela enteada. Um amor descabido, impossível e secreto, trancafiado na alma por mais de dez anos.

Carolina, por sua vez, também sentia algo sem explicação por Agenor. Jamais conseguiu vê-lo como padrasto. Ela passou a adolescência provocando o marido da mãe, atualmente, dançarina em cabarés da Europa. Tanto provocava que a mãe sabia. Inês, no início do ano, quando largou Agenor, deixou bilhete de uma linha na bolsa da filha: “Meu marido agora é seu. Do jeito que você sempre quis, Carol”. E partiu, enrabichada com um dançarino espanhol. Carolina, aos 23 anos, sentindo-se culpada pela atitude da mãe, saiu de casa e foi morar com o tal Walace, colega do curso de artes plásticas.

Agenor chegou mais cedo para o encontro. Workaholic, levou pilha de trabalho para a casa de shows e ficou lá, no suco de laranja e descendo a caneta na papelada. Carolina não demorou. Estava linda, vestida em roupa de festa, em cores quentes. Walace, no camarim, se preparava para a dança performática em parceria com a banda da noite. Agenor, solitário que só ele, mergulhou nos olhos de Carolina e sorriu profundo como nunca fizera em toda a vida. A moça retribuiu com um suspiro sincero, cheio de intenção. Sentados, frente a frente, decidiram dar jeito nos subterrâneos das paixões. Depois do silêncio, deixaram a boate de mãos dadas sem olhar para trás.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Tudo vai ficar bem

Francisco não se abateu quando recebeu a notícia de que estava doente. Gravemente doente. Os pais, bem relacionados no estrangeiro, trataram logo de ajeitar hospital especializado nos Estados Unidos. Já Francisco, aguerrido, só queria que a irmã caçula, Mariana, ficasse bem. Foi ele, desde os 12, quando o pai e a mãe assumiram compromissos além da conta na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que sempre cuidou da menina.

Aos 22, cheio de vida, o diagnóstico de mal devastador assombrou o coração de Francisco, estudante de geografia e escoteiro. Contudo, ele se manteve firme. Por amor a pequena Mariana, de 10. Na rua em que morava, na Região da Pampulha, havia outro motivo para Francisco manter-se cheio de esperanças. A bela Catarina, estudante de teatro, voluntária em hospital infantil e ex-namorada.

O fim do namoro foi justamente no dia em que Francisco soube o resultado dos exames e a viagem já acertada para a próxima semana. Dois golpes em menos de 8 horas. Catarina foi dura e direta: “Acabou. Não dá mais. Estou gostando de outro e não posso mais enganar você”. Francisco ouviu em silêncio. Sorriu miúdo, em silêncio, e levou Catarina até a porta. E só.

Quem procurou ficar do lado do escoteiro, logo que soube, foi o único amigo, também vizinho: Fabinho. Francisco precisava dividir o drama com alguém e chamou Fabinho para “a conversa mais séria de todos os tempos”. “É sério. Acho que tô indo, sem volta, Fabinho… e quero que você me prometa que vai cuidar da Mariana por mim. Promete?”

Fabinho disse “sim”. Não teve muito mais a dizer. Estava com o coração em frangalhos, tomado pelo drama de Francisco, o melhor amigo. Silêncio e angústia no banco da praça em flor. Sem rumo, o Fabinho. Especialmente, porque estava de caso com Catarina.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O segredo de um futuro brilhante

Malu sempre foi bastante perdida. Depois que teve Almerinda, então, ficou ainda mais abestada. Não é difícil entender a sujeita. Basta saber da infância difícil. O pai ela nunca conheceu. Já a mãe, menina ainda, deixou Malu, recém nascida, com os pais e foi tentar a vida nos Estados Unidos. Nunca mais voltou. O avô morreu em seguida, engasgado com a própria dentadura. Foi dona Mercedes, a avó, quem segurou a barra da menina, neta única.

A vida de Malu era sonhar ser artista de televisão. Achava a realidade mais divertida dentro daquela caixa de som e imagem. Desde novinha, bem pequenininha, era capaz de passar horas diante dos programas mais bestas de que já se teve notícia. Crescida, Malu não escondia sua predileção pelos concursos de beleza. Tão linda que era, verdade, bem que podia ter sido daquelas beldades em roupas de banho e faixas de miss.

Tímida e trabalhadora, sacoleira, sem tempo para ouvir o sussurro dos sonhos, Malu não teve oportunidade de se destacar pela beleza. Também não tinha o menor talento para fazer as novelas nas quais se via quando não estava acordada. Sem vocação para mulher de sujeito qualquer, Malu não se dava bem com seus pretendentes. Despachou vários antes mesmo dos beijos no portão da casinha cor-de-rosa em que morava no Bairro Floramar.

Teve um, um único rapaz, com quem Malu pensou ser feliz: Ludovico, um agente promocional das ruas, cão de pelúcia de empresa de segurança. O moço dançava e fazia macaquices mil nos semáforos de quatro tempos da cidade. Apaixonados, casaram-se e coisaram-se em menos de ano. Daí, veio ao mundo Almerinda,  mocinha bonita e encantadora, a cara da mãe. O casamento de Malu e Ludovico foi para o brejo. A vendedora só tinha olhos para a filha.

Malu estava decidida a dar a menina as oportunidades que não teve. Queria fazer da filha uma grande estrela. E, assim, determinou o futuro de Almerinda, antes mesmo de Almerinda saber o que era futuro. O que a menina descobriu cedo é que toda aquela história de ser estrela era tudo o que importava para a mamãe. A reviravolta veio com a coach profissional, especialista em “futuros brilhantes”, uma tal, Bárbara Burtier, que Malu contratou.

“Sua filha precisa ter liberdade para construir os próprios sonhos. Ninguém pode viver a vida dos outros, Malu. Perdoa-me a franqueza, mas é o meu trabalho”. No primeiro encontro com a doutora, psicanalista e psicopedagoga, em consultório de luxo na Região Centro-Sul, o golpe na fantasia. Bastou hora de consulta para doutora Bárbara trazer Malu à realidade e libertar a pequena Almerinda do mundo fantasioso da mamãe sem noção.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A namorada do papai

João vivia para a mulher e para a filha. Até que, num deslize besta, despencou nos braços de uma dançarina da noite. Gerente financeiro da Choupana, casa de shows, João passou mais de 10 anos trabalhando em horário comercial, bem longe das tentações noturnas. Foi só o administrador assumir o caixa, num fim de semana de doença na família do patrão, para ter a vida ao avesso.

Paty, uma das dançarinas da dupla sertaneja contratada para o período – loura, de corpo perfeito e sorriso de arrasar quarteirão –, cismou com o jeito sério, difícil e de responsabilidade do João. A bela passou duas noites flertando, dando mole, e nada. Quanto mais o moço resistia, mais a moça investia. Depois de sexta-feira e sábado de provocações, no domingo, não teve jeito.

Isadora, a mulher de João, desconfiada dos dois dias seguidos de perfume diferente e batom na camisa do companheiro, arranjou peruca e óculos para disfarce. Irreconhecível, a sacoleira foi vigiar o marido na Choupana. Ainda não havia virado a meia noite quando rolou o flagrante. Isadora não fez barraco. Apenas se aproximou da pegação e tirou o disfarce para ser reconhecida.

Isadora voltou em prantos para casa. Fez a mala do marido traíra e a deixou na porta. Do lado de fora. João não pôde entrar nem para se despedir da filha. A pequena Júlia, de 9 anos, da janela, viu o pai ir embora, para se ajeitar na república dos amigos escoteiros. Paty, não achou ruim o drama. A dançarina até deixou o trabalho na noite para investir no novo amor.

O João bem que tentou o perdão da mulher. Sem chance. Isadora era linha duríssima. Magoada, jurou para a vizinha, Ana, amiga de infância, que não queria nunca mais saber do marido. “Nem pintado de ouro, Ana!”. Menina Júlia não aceitava a separação. Pensava em pai e mãe juntos para toda a vida.

A situação ficou ainda pior num domingo, quando João buscou a filha para dia de programa na república. Lá, além dos amigos escoteiros, também estava Paty, a nova namorada do papai. Júlia não perdeu a oportunidade de provocar a rival da mãe: “Minha mãe é muiiiiiiito mais bonita que você!”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Nas costas do cachorrão


Todo mundo tem um primo folgado. Landislau tinha o Binha, o mais sem noção de Nova Serrana, interior de Minas Gerais. Depois que foi largado pela mulher – cansada de sustentar vadiagem –, Binha deixou a terra natal para tentar nova mamata em Belo Horizonte, onde Landislau, o primo, ganhava a vida vestido de cachorro.

Sim: vestido de cachorro – trabalho de representação, dos mais nobres, e de muitas alegrias. Landislau era agente promocional de empresa de segurança e passava horas, fantasiado de cachorrão, nos sinais mais demorados da cidade, acenando e levando graça aos passantes. Dançava e fazia mil e uma “cachorrices” para dar publicidade ao negócio.

Feliz, Landislau acolheu o primo na república em que morava na Avenida Augusto de Lima, na Região Central. Antes, reuniu os companheiros: “É apenas por uns dias... uma semana, no máximo. Ele é boa gente, escoteiro, lobinho como a gente. Só está num momento difícil. Podia ser com qualquer um de nós... hein!?”

Estudantes e trabalhadores, Marcelo e Gustavo já sabiam da fama de sem noção de Binha, expulso do agrupamento dos lobinhos de Nova Serrana por folga e indisciplina. Ainda assim, deram oportunidade: “Uma semana, Landislau. Por uma semana!”. Até trabalho Landislau arranjou para o primo preguiça. Um fiasco. Binha não conseguiu ficar meia hora debaixo da roupa peluda de cachorrão. “Que calor da peste. É ruim de agüentar”, choramingou.

Uma semana, duas, três... e somou mais de mês. Nada de Binha caçar rumo. O camarada tomou foi conta do apartamento. Já havia mudado o pacote da TV por assinatura e dobrado o consumo de água, energia, cosméticos, gás e comida. Sem falar no papo doce para cima das namoradas de Marcelo e Gustavo. Os dois, de regras, já estavam para explodir e convocaram reunião.

Sem acordo com Landislau, que não quis abrir mão da companhia do parente, Marcelo e Gustavo viram a dupla de lobinhos partir. Os dois arranjaram abrigo em casa de tia torta, solitária, em Contagem. Lá, Binha ajeitou encosto de rei, de chinelas, nas costas da velha e do primo cachorrão.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

“Talita, 39. Jóia rara”

Não que Cantareira não se alegrasse com as mais jovens. Alegrava-se. Mas felicidade mesmo o setentão tinha com as meninas de aluguel na casa dos 40. Quando o coronel viúvo viu o anúncio da tal Talita nas páginas dos classificados relax, não teve dúvida. Era ela a escolhida para aquela noite de segunda-feira. Combinou os R$ 250 e esperou. Às 19h01, a encomenda:
 
– Talita.
– Sobe.
 
Seguramente, ainda que em excelente forma, vestida de verde-moleca, a mulher beirava os 50. Os 39, assim como o nome no anúncio, eram fantasia. Um desejo natural das meninas, maiores, do ramo de brecar a soma das horas. O velho sorriu ao identificar as riscas do tempo nas mãos de Talita. Dentes repostos, de porcelana, feitos à mão. Botox nas esquinas da face e muitas histórias no coração. Talita, ao tomar conta da sala, se apresentou com uma frase que encabulou o coronel:
 
– Sou uma mulher de família, moço.
– Ah... Sim. Bem-vinda, Talita.
– Digo logo de cara que sou de família para evitar constrangimento. Como disse no telefone, não topo qualquer parada. Não digo palavrão, não beijo na boca e não fico de costas. Faço papai e mamãe e sou boa de conversa. Posso ficar? São R$ 50 pelo táxi.
– Aqui você não vai precisar fazer nenhuma extravagância, Talita. Dou minha palavra. Sou inofensivo. Um monge... pode-se dizer.
– Tipo Buda?
 
Cantareira riu. Começou a achar graça naquela figura exuberante com cara de gente de verdade. Serviu vinho, trouxe petiscos para a mesa e colocou música antiga da sua coleção de “Boleros para sempre”. Talita, pouco a pouco, foi se sentindo segura na presença do velho.
 
– Você me parece legal. É que tem cada tipo que aparece, que a gente tem que falar no telefone e no local o que a gente não faz e o que a gente faz. Ainda mais no meu caso, que trabalho sozinha... sou autônoma. Tem colega que vive dizendo que vale a pena investir na internet, no site, que é mais seguro... mas sou das antigas, não gosto desse negócio de computador não.
 
– Você disse que é uma mulher de família...
– Sim. Tenho filhos, marido e tudo. Até cachorro a gente tem. Três. Mel, Rex e Pingo.
– E o seu marido não se importa?
– O Zé? Não. O Zé é tipo Buda também.
– E os seus filhos... eles sabem?
– Não. Já pensei em contar depois que eles ficaram maiores... mas o Zé e eu, a gente achou melhor não dizer. Não precisa, né!? São dois. Um menino e uma menina. A menina está estudando inglês na Irlanda.
– Em Dublin?
– Sim. Ela é muito inteligente. É lésbica. Está casada com a “ferrugem”, eu chamo ela assim porque ela é ruiva e toda pintadinha... Já o menino, é carreteiro... vai ser pai agora pela segunda vez.
– O seu marido trabalha, Talita?
– Já trabalhou muito. É aposentado. Ficou entrevado depois que um poste caiu em cima dele lá na nossa cidade.
– É perto de Belo Horizonte?
– Não. É bem longe. Fico 15 dias aqui e sete lá. Já tem uns cinco anos que faço assim. Também já trabalhei no Rio e em São Paulo.
– Posso fazer uma foto sua?
– Foto? Pra quê, moço? Mexe com isso não.
– É um capricho antigo. Gosto de registrar as companhias que melhoram a minha vida.
– Acho melhor não...
– Dou a minha palavra que ninguém vai ver a foto.
– Pelada?
– Não. Quero apenas uma lembrança do seu sorriso.
– Esse sorriso custou caro, viu moço. Foi um dentista lá em São Paulo. Quanto você acha que me custou o tratamento? Troquei todos os dentes da frente...
– Não faço a menor idéia, Talita...
– Caia pra trás... R$ 40 mil. Ralei muito pra juntar esse dinheiro.
– Imagino.
– Uma foto só, hein!?
 
Cantareira disparou a câmera e guardou Talita, que recebeu os R$ 250 e não discutiu o programa sem indecência. Ela ainda pediu o resto do jantar – risoto de beterreba com bolinhas de bacalhau – para dar ao amigo morador de rua.
 
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O bom e velho Logan

Sou daqueles sem o menor preconceito com o cinema. Em casa, desde sempre, é um problema. Violeta só curte os bons dramas, suspenses e, acreditem, terror. Nada trash. Os psicológicos, apenas. Mas terror. Só a Violeta mesmo. Delicada como ela, chegada numa fita de medo. Vai entender.
 
Já eu gosto de quase tudo. Só não me chamem para rever “A centopeia humana”, do diretor holandês Tom Six. Na minha opinião, francamente, o filme mais horrível de todos os tempos. Indicação do amigo doutor Carlos Pellegrino. Indicação não, sacanagem. E a coisa ainda teve duas sequências. Tô fora.
 
Meus filmes preferidos são os argentinos e os iranianos. Para citar apenas dois: “O segredo dos seus olhos”, de Juan José Campanella, e “Filhos do paraíso”, de Majid Majid, são sensacionais. A página aqui é pequena para falar de filmes bons. São muitos os que me pululam à cabeça.
 
Claro que não dá para deixar de fora o cinema norte-americano. A grande indústria do entretenimento. Quando o assunto é tecnologia e efeitos especiais, então, os caras são feras. Basta citar o blockbuster “Wolverine: imortal”, em cartaz em várias salas da cidade.
 
Violeta não curte muito. Natural. Ainda assim, levei-a para ver o bom e velho Logan, vivido por Hugh Jackman. Nas mais de duas horas de trama, as cenas de ação e efeitos são de tirar o fôlego. Tem um combate em cima de um trem bala que é das cenas de luta mais bem feitas que já vi.
 
O roteiro também merece respeito. Nada de grande sensibilidade, mas muito eficiente no trato com os conflitos e pontos de virada da história. Tem até surpresa no final – que não vou contar aqui para não tirar o prazer do amigo leitor, que ainda pretende ver a fita. O filme é bom. Vale o programa.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

domingo, 18 de agosto de 2013

“Babi, 27. Só para os fortes”

O anúncio atrevido provocou Cantareira. O viúvo acertou o programa para às 19h. Nem discutiu o preço: R$ 500. O bom salário de coronel aposentado bancava a satisfação das segundas-feiras, com jantarzinho caprichado em encontro reservado, em casa. A encomenda chegou em cima da hora.
 
– Babi.
– Sobe.
 
Linda. Pele bem cuidada, cabelo ruivo iluminado, corpo natural sem retoque ou forjado nas academias. Havia até uma barriguinha charmosa, à mostra, sob a blusinha transparente. A mulher sorriu ao ver o velho na porta.
 
– É chope.
– O que?
– A barriga. Posso entrar?
– Claro.
– Desconcertei você...
– De forma alguma.
– Vi que você olhou pra minha barriga.
– É bonita.
– Também acho.
– Uso o piercing pra dar um destaque... gosta?
– Sim. É uma gota?
– De brilhante. Presente de caso aí.
– Interessante.
– E da tatuagem? Gosta?
– Duas asas... são lindas.
– Fiz quando tinha 18. Quis dizer pra minha família que quem mandava no meu corpo era eu. Que era livre pra voar...
– E voou?
– Sim. Pra bem longe.
– Mas não fiz mais nenhuma tatuagem. Ficou comum. Hoje, qualquer um risca o corpo à toa. Em mim, perdeu o sentido. Não é um vício.
– Entendo.
– Bonito seu apartamento... Gosto de tudo o que é antigo.
– Então você vai gostar de mim.
– Quantos anos você tem?
– Setenta.
– Não parece. Não digo isso para agradar... Não sou desse tipo. É que não parece mesmo. Eu diria, no máximo, sessenta.
– Nesse caso, agradeço, simplesmente. Não vou dizer que é generosidade da sua parte para não ofender você...
– Então, não diga. Vinho bom esse...
– É argentino...
– Eles são bons com uvas e com carnes...
– Sim. Tem também o Papa. Parece bom moço.
– E o Messi. Eles também sabem tudo de futebol. Vou dizer uma coisa... Vicente... É Vicente, não é!?
– Sim. Vicente Cantareira, Babi.
– Torço para a seleção da Argentina. Sempre torci. Desde pequena. Acho o brasileiro muito metido a besta com o futebol. 
– Muitos são.
– Namorei um jogador que se achava. Mandei ele catar coquinho pra deixar de ser besta.
– Ele deve ter sofrido muito.
– Sofreu foi pouco. Até hoje o infeliz, casado, fica na minha cola.
 
A conversa rendeu. Jantaram, dançaram e ao fim da última faixa do disco de “boleros para toda a vida”. Cantareira trouxe a máquina polaroide para eternizar Babi.
 
– Posso?
– Foto? Claro... Deixa-me ajeitar o cabelo...
– Não precisa. Você está muito linda, assim... com o cabelo solto.
– Pronto.
– Se quiser, deixo você fotografar a minha barriga...
– Não precisa... tome.
 
Cantareira, feliz da vida, pagou os R$ 500 pela hora. Babi não entendeu o dinheiro fácil – pelo jantar, pela dança e pela foto, apenas. Sorriu, entretanto, sem forçar o programa. Beijou a boca do velho e foi embora, deixando o perfume e um sorriso no papel brilhante.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Aqui vai à escola

Alunos e professores da Escola Municipal Paulo Mendes Campos trabalharam em sala de aula os textos da coluna Bandeira Dois, publicados no jornal Aqui 

Rafaela Vaz Sayão e Juliana Carvalho Oliveira, alunas do nono ano, participaram do encontro com o autor de Bandeira Dois - do eu que há em mim, da Editora B

É muita alegria estar perto do amigo leitor. Especialmente, e ainda mais, do jovem leitor. Ontem, alunos do nono ano da Escola Municipal Paulo Mendes Campos, garotos e garotas de 14 e 15 anos, conversaram em sala de aula sobre nossa Bandeira Dois. Trouxe-me satisfação enorme conhecer e trocar impressões sobre a vida com o grupo de estudantes, que, há tempos, vem trabalhando os textos publicados às quarta-feiras em nosso Aqui.

Em pauta, perguntas de sensibilidade, envolvendo jornalismo, literatura e as relações com o outro, com o mundo. Moços e moças de olhos vivos e profundos, cheios de ideias, me fizeram refletir sonhos, família, cidade, futuro, amigos, passado e presente. É a segunda vez que a instituição de ensino, no Bairro Floresta, dirigida pelo professor Antônio Augusto Horta, o Guto – idealizador do projeto Tertúlia – reúne grupo para pensar Bandeira Dois. Aos alunos e professores presentes, meu abraço e minha gratidão!




Bandeira Dois - Josiel Botelho

terça-feira, 13 de agosto de 2013

“Sofia, 33. Decifra-me ou te devoro!”

O anúncio nos classificados relax trazia o desafio da Esfinge de Tebas, que, na Grécia antiga, eliminava aqueles que se mostrassem incapazes de responder a um enigma: "Que criatura tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?". Como Édipo, Cantareira, o viúvo, sabia bem: "É o ser humano! Engatinha quando bebê, anda sobre dois pés quando adulto e recorre a uma bengala na velhice". Sofia, a grega, por R$ 800, estava pronta para devorar o coronel aposentado naquela noite de segunda-feira.

– Sofia.
– Sobe.

Vestida em cores quentes, a menina de aluguel ganhou o andar do prédio antigo da Região Central com seus saltos da moda, de última altura. Deixou rastro de cheiro doce e venceu o apartamento de Vicente Cantareira. Com a segurança a dois que só a amizade é capaz de promover, Sofia tomou conta da sala. Deixou a bolsa sobre o sofá e desfilou pelo ambiente de decoração antiquada. Depois de fazer o reconhecimento do espaço, a puta de luxo respirou profundamente na janela com vista para o concreto das ruas.

– Isso aqui não muda.
– Você já conhecia o prédio?
– Muito. Passei a infância aqui, no andar de cima.

Cantareira demorou a reconhecer a filha do vizinho morto. Heitor, o grego, outro velho solitário do residencial havia morrido há quase dez anos.

– Não pode ser... Você é a Sofia, filha do Heitor...
– Sim. Porque a surpresa?
– Porque as garotas dos jornais costumam mudar os nomes...
– Bobagem.
– A gente é o que a gente é. O nome é apenas um nome.
– Um nome diz muita coisa...
– Mas também pode não dizer nada... Meu pai gostava disso aqui. Ficou no apartamento dele até morrer. Passei muitos anos fora...

– Sim. Eu sei. Em Atenas. Você morou com os pais da sua mãe. Seu pai falava muito em vocês duas...

– Acho que ele nunca aceitou muito bem a separação. A verdade é que a mãe nunca gostou dele. E quando decidiu ir embora e acabar com o casamento...

– Foi um golpe duro demais. (Pausa) O Heitor sempre falou com orgulho de você: advogada, formada na Grécia. Não podia imaginar nunca você...

– Garota de programa? Mais uma bobagem. As meninas de aluguel guardam segredos secretos demais até para um homem vivido como você. Tem o estereótipo, é verdade. Mas há também muitas particularidades nos classificados de acompanhantes.

Cantareira, setentão, vivido e cheio de histórias não podia imaginar o jantar com a filha crescida do Heitor, vizinho solitário. Beberam, comeram e dançaram música antiga com alegria. O viúvo, como de costume, segurou o que vai além da vontade. Depois da foto instantânea para o mural das lembranças pagas, quitou os R$ 800 pelo programa sem intimidades. Sofia não discutiu sexo nem insistiu indecência. Sumiu no corredor, simplesmente, de cabeça erguida e sem olhar para trás.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

'Kika, 25. Modelo e puta'

Cantareira escolheu a moça do dia sem pestanejar. Nos classificados relax, em preto e branco, havia até foto produzida, pequeninha. Logo abaixo, um endereço eletrônico, “com mais imagens de tirar o fôlego”, ofertava o papel jornal. Nada de links para internet. O velho coronel queria conhecer Kika pessoalmente, no tête-à-tête. E estava disposto a pagar com gosto os R$ 400 pelo programa.

- Kika.
- Sobe.

Ela subiu. Vestido vermelho, curto, colado no corpo suspenso pelo salto alto preto – naquela altura, ela, com mais de metro e oitenta. Boca carnuda colorida de vermelho, cílios destacados nos olhos negros em sombra azul. Uma pintura. Cantareira engoliu a seco com o calor da juventude abaixo do umbigo. Kika, gostosíssima, entrou no apartamento disposta a arrebatar o sujeito.

– Oi. Agora, a gente pode se apresentar direito… por telefone é tão frio… e pelo interfone, gelado… “sobe”. Falta de graça. (pausa de sorriso e malícia). Sou a Kika. Estudante de relações internacionais e modelo nos tempos que me sobram…

– Modelo?

– Sim. Modelo. Faço fotos para campanhas publicitárias de um montão de coisas. Não aqui. Em São Paulo. Essa cidade é uma roça. Fico aqui só por causa do meu pai, que tá doente e precisando de mim.

– Bonito gesto o seu. Conheço muitas pessoas que não ficariam nessa roça por causa do pai.

– Gosto dele. Foi infeliz a vida toda. Quando foi largado pela minha mãe, quase morreu de desgosto. Agora, por causa de um AVC no ano passado, vive de cama e não parece querer mais se comunicar com o mundo. Mas, vai entender, sorri quando eu estou perto. É o que me faz ficar aqui.

– Quantos anos tem o seu pai, Kika?

– 71. Quer dizer… ele ainda não tem 71. Vai fazer, se Deus quiser. Em dezembro.

– Também tenho 70. É uma idade bonita de se ter, pode acreditar.

– Mas você tá enxutão… Meu pai parece que é seu avô. Tá muito acabado ele. Foi muito judiado pela vida. Começou a trabalhar criança na lavoura. E quando cresceu foi só desilusão. Foi casado duas vezes e acabou abandonado as duas vezes. Achava que não podia ter filho, aí eu nasci… do último casamento.

– E porque você está nas páginas dos jornais? Quer dizer… podia passar mais tempo com ele… Digo isso, Kika, sem querer ofender você…

– Não me ofende. Também fico me perguntando isso quando saio para trabalhar. Os programas para mim são trabalho. Gosto do que faço e preciso sair um pouco para viver a minha vida… é muito sofrimento na nossa casa. (pausa) Não sou triste. Quer dizer… não gosto de ser triste. Mas ele pode ir embora a qualquer momento… e a minha história é outra, não posso depender dele… tem que continuar. Penso assim.

– Entendo. Você não tem namorado?

– Namorada. (pausa para a falta de graça e acender o cigarro) Já tive. Mas tô tirando um tempo pra mim.

Kika e Cantareira beberam amizade. O velho pediu para fazer foto, registro do encontro. Ela sorriu para a câmera polaroide e guardou o pagamento pelo programa. Como as outras meninas do mural de lembranças de Cantareira, Kika partiu feliz por não ter tirado a roupa.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 29 de julho de 2013

'Sônia, 48. Para quem sabe o que quer'

Naquela segunda-feira, nada de invencionices para o jantar. Um ravióli de queijo brie, damasco e nozes ao molho de champanhe. Receita que Cantareira aprendeu num dos cursos de gastronomia que ele vivia de fazer. O velho preparou a mesa com toalha de luxo para receber Sônia. Uma coroa magrela, corpo de menina, acertada nos classificados por R$ 200 - promoção da coluna relax do jornal popular.

- Sônia.
- Sim. Sobe.

Ela subiu sem demora. Na porta, sorriu para o olho mágico com a segurança das meninas maduras. O coronel setentão suspirou ao ver a dama de preto e branco - moda em Belo Horizonte. Admirou-a dos pés à cabeça e disse a primeira frase que veio-lhe à mente:

- Meninas crescidas assim são raras de se encomendar hoje em dia.
- Você quer dizer velha...
- Não. Quero dizer com essa estatura de presença. Por favor, entre.
- Obrigada, Vicente. Vicente... não é isso?
- Sim. Vicente. Você é a Sônia...
- Já tive muitos nomes. Todas têm. Mas gosto de Sônia. Foi o nome que a minha mãe me deu. Homenagem a minha vó, uma mulher guerreira do Norte.
- Uma pergunta... Você gosta do Papa Francisco?
- Não gosto nem desgosto. Simpático ele. Por que?
- É que, antes de você chegar, estava aqui pensando... Eu não serviria pra ser Papa.
- Você? Papa?
- Sim. (pausa) Parece que dá muito trabalho esse negócio de ser santo. Mas esse argentino está me saindo muito bem, não acha?

Sônia concordou com a cabeça. Sorriu charme e não levou adiante o assunto. Vicente trouxe o jantar e serviu-lhe a taça de vinho branco, chileno. Cantareira não fez mais rodeios e falou em amor.

- Você já amou de verdade, Sônia?
- Uma vez. Faz tempo. Foi bom. Serviu pra me dar força pra tocar a vida.
- O que aconteceu? Importa-se em tocar no assunto?
- De jeito nenhum. Estou curada. O sujeito se apaixonou por outra e foi embora. Eu tava grávida. (pausa) Perdi o bebê. Deus sabe o que faz. Aí, cai na vida.
- Há quanto tempo?
- Muito. Eu era bem menina.
Sem sofrimento, o velho viúvo e a dona de aluguel trouxeram à mesa o passado. Ela falou um pouco mais sobre o namorado que sumira no mundo, enquanto mandava ver o ravióli. Cantareira revelou à companheira de ocasião o amor intacto pela mulher amada, morta há mais de 20 anos.

- Amor a gente não explica. A gente só sente, não é!?
- É o que digo, Vicente: amor é amor. Sexo é outra coisa. A gente pode até botar preço. E quando tem preço a coisa fica mais transparente, às claras para os dois.


Também sorriram tolices. Ao fim do jantar, Cantareira pagou os R$ 200. Fez bela foto da coroa para o mural de lembranças. Na porta, já de saída, Sônia abraçou o velho como se o amasse por instante.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Crianças felizes, homens melhores


“A melhor maneira de tornar as crianças boas é torná-las felizes”, escreveu Oscar Wilde. Sou um sujeito meio atrevido com a psicologia. Um amador, curioso, estudioso do assunto por conta própria. E as crianças não me saem da cabeça. “A criança é o pai do homem”, disse Freud, o pai da psicanálise.

Também sou pai. Criança, fui pai do homem que sou. E tenho três filhos encantadores, donos do meu coração. Portanto, ainda que sem título de pós-doutorado na matéria, homem, sou grande observador. Esquadrinhador por natureza e paixão. Tenho razões particulares para acreditar que a infância pode explicar o sujeito crescido.

Meu pai, o velho Botelho, me ensinou isso cedo. Muito cedo. Vivíamos um inferno em casa, com a ausência da minha mãe. Entretanto, o pai não “deixou o cachimbo cair”, como costumava dizer. “Cochilou, o cachimbo cai, meu filho”. E assim foi. O velho fez de tudo para que seu filho fosse uma criança feliz.

Nada de reclamações ao vento, à direita e à esquerda. O velho nunca foi de reclamar. No rosto, um sorriso de todo tamanho. Sempre! Conheço adultos às avessas que só sabem é reclamar da vida. Crianças infelizes, infelizmente.

Olhar para o meu pai e ver a criança que ele foi tem sido um exercício permanente na minha vida. Especialmente, porque ele, budista, setentão, desde a meia idade, esforça-se ao máximo para cuidar da criança do passado. Um garoto filho de pai severo e ignorante. De muito bom coração, mas absolutamente ignorante, que o ensinou o único modo de ser que conhecia.

O velho Botelho conta passagem que me impressiona: aos sete anos, já trabalhando na roça, recebeu um canivete e um pedaço de fumo de presente do meu avô, que disse: “Tome. Homem que é homem tem o seu próprio fumo”. Era o que o velho, pai do meu velho, acreditava.

Se pensar apenas no fumo, vejo um grande absurdo. Mas, além, bem além, havia uma lição que o Botelho jamais esqueceu: nunca foi sujeito de pedir favores. Honesto como jamais conheci, o velho nunca pediu nada emprestado ou deixou de honrar compromisso algum. Lição do meu avô, ignorante que só ele.

Crianças boas são as mais felizes. Ao longo da vida, no entanto, acredito, podemos mudar o rumo das infelicidades enraizadas quando as percebemos. Tenho pensado muito nisso. Ainda mais vendo tanta gente triste, infeliz porque não dá conta de enxergar e tratar dos males da infância.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Bela, 23: 'Porque Deus fez a mulher'

O anúncio em negrito, na coluna Relax, parecia fora de lugar. O classificado do jornal popular provocou o velho Cantareira, que circundou o quadrado com a caneta vermelha, de luxo. Catou o telefone e, sem pensar muito, agendou o compromisso com a moça para às 19h.

- R$ 300.
- Combinado.

Na medida para dois, o jantar: tortiglioni fresco ao ragu de linguiça artesanal. Mais uma especialidade do coronel aposentado, chef de cozinha amador. Bela, diferentemente das outras meninas alugadas pelo viúvo, chegou mais cedo.

- Bela.
- Ah, sim. Sobe.

Um espetáculo de metro e sessenta, mais ou menos. Pernas bem feitas, pele delicada, sem excessos na maquiagem. Cabelos brilhantes, nos ombros. Perfume levemente adocicado, roupas de bom gosto e de corte sensual em vermelho e amarelo. Colo à mostra, com seios firmes e naturais. Mas o melhor estava na boca: dentes brancos e alinhados, de cinema. De quebra, o sorriso mais gostoso de que Cantareira teve notícia.

- Vicente Cantareira?
- Sim. Isabela?
- Não, amor... Bela. Curtinho assim é melhor, não acha? Bela.
- Bela. Sim, claro. Combina melhor com você. Tem razão.
- Isabela é muito comum... não sou nada comum amor... você vai ver.

Ela entrou como se conhecesse o lugar. Soltinha, andou pela sala e escolheu o CD para alegrar o ambiente.

- Posso?
- Claro.

Bela colocou a música antiga e pediu bebida.

- Adoro música velha. Hoje, só tem coisa ruim... sertanejo é tudo igual... um horror. Ninguém merece. É só dor de corno e de cotovelo. Tem funk, né!? Podem criticar à vontade, mas tirando a metade mais pesada, cheia de sacanagem, o batidão do funk é muito bom pra gente dançar. Isso é o que?

- Cartola. “Preciso me encontrar”, instrumental com o Choro das Três... É uma das minhas músicas prediletas. Gosta?

- Linda. Muito linda. Eu conheço... quer dizer, acho que conheço.

Bela bebe a taça de vinho num só gole. Alegre, divertida, troca passos e começa a dançar sozinha na sala. Show que arranca suspiros do velho sistemático e bem comportado. Ele assiste com raro prazer a performance da mulher. Ao fim da música, o coronel vai até a cozinha buscar o prato para a noite de programa. Uma faixa instrumental emenda à outra e a trilha de fundo agora é “O mundo é um moinho”, outro clássico de Cartola.

- Essa eu conheço demais... minha mãe vivia cantando pra mim... “Presta atenção, querida, embora eu saiba que estás resolvida... em cada esquina, cai um pouco tua vida... em pouco tempo não serás mais o que és...”

- Sua voz é muito linda, Bela.
- Obrigada! É que cantava no coral da igreja.
- Você é católica?
- Sim. Mas não vou mais à missa... ficou muito chato.

Juntos, jantaram como velhos amigos. Cantareira pagou com gosto pela companhia. Sexo? Nem pensar. Ali, sexo só para os fracos.

- Boa noite, amor.

Uma foto com a velha polaroide para o mural particular de alegrias do viúvo apaixonado. Bela foi para casa, dormir, feliz por não ter tirado a roupa.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O garoto e a mulher de vento

Vê-se muita coisa nessa vida. É coisa que se a gente contar ninguém acredita. Mas se deixa de contar, o passado fica encasquetando a cabeça da gente de tal maneira, que fica difícil pegar no sono. Já faz mais de hora que tento dormir e nada. O jeito é deixar a caneta correr solta na caderneta de papel pautado, enquanto o sol se levanta. Assim, quem sabe, o espanto se vai. O dia vai ser longo e logo mais vem a hora do batente de novo.

A história já vou contar. Foi no Bairro Califórnia, na Região Noroeste de Belo Horizonte, numa rua com nome de instrumento. A corrida foi combinada pela manhã, por telefone – indicação do Adelson, que está de férias na Bahia. A voz do jovem passageiro foi firme. Ele queria um carro de bagageiro grande. Estava de mudança para São Paulo e não queria qualquer um com seus pertences mais particulares. Combinamos a corrida para às 21h.

Pouco antes, já estava à disposição do freguês. Toquei o interfone e esperei. Vou contar aqui porque o Adelson, primo do sujeito, me garantiu que ele até ia gostar, já que não faz segredo de algumas de suas “extravagancias”. O rapaz de vinte e poucos anos é comerciante. Inclusive, está indo para São Paulo para receber o dobro do que estava ganhando em Minas Gerais.

Pois bem. O garoto desceu com duas grandes malas. Ambas, muito pesadas e bem lacradas com três cadeados cada. Ele, bem vestido, com terno muito bem cortado, gravata florida, cabelo penteado de lado e óculos de grau. Malas acomodadas, ele voltou para buscar sua companhia de viagem e “de vida”. Para mim, uma grande surpresa, devo admitir.

Ele e a sujeita se sentaram no banco de trás. Pelo retrovisor, era difícil acreditar na cena que mais parecia teatro do absurdo. Uma mulher de vento. Sério. Uma daquelas bonecas importadas que mais parece gente. Perfumada, loira, de salto alto e com um vestido decotado de parar o trânsito. Já tinha ouvido falar de como essas “meninas” são reais, mas daquele tanto… não podia imaginar.

Ele ficou o tempo todo abraçado com a boneca. Ajeitava a roupa da “moça”, os cabelos… Sussurrava no ouvido dela. Alguma coisa consegui ouvir: “Amanhã cedinho a gente chega…” Ou ainda: “Vai ser melhor do que avião… você vai ver”. Pareceu-me sonho. O Adelson nem para me alertar a situação. Foi me contar a história depois. Quando deixei o garoto e a tal mulher de vento na rodoviária, a primeira coisa que fiz foi ligar para o amigo.

“Trata-se de caso sério de amor”, explicou o Adelson. Há mais de ano, desde que o rapaz esteve na China, a trabalho, ele não desgruda da “criatura”. Parece que eles se conheceram por lá, num jantar à luz de velas em Xangai.

Bandeira Dois - Josiel Botelho