Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Van Gogh está de volta



Depois de dois anos longe dos tablados de Belo Horizonte, “Vincent” está de volta. O solo do ator e diretor Jefferson da Fonseca, produzido pela Querida Companhia de Arte, foi levado ao palco pela primeira vez em 1995. Daquele ano em diante, foram duas décadas ininterruptas de salas convencionais e espaços alternativos, em paisagens diversas pelo Brasil. “Vincent”, que, agora, ganha o subtítulo “Um solo de amor”, se reapresenta renovado no Teatro Marília (Avenida Professor Alfredo Balena, 586), no Bairro Santa Efigênia, de 17 a 26 de novembro, sexta e sábado, às 21h, domingos, às 19h.

Novas cores e nuances, caracterização, e releitura dos textos de Van Gogh, Antonin Artaud e Shakespeare, são o que pode ser destacado na nova versão de “Vincent”. “São mais de 20 anos desde as primeiras leituras das quase mil cartas de Van Gogh. É natural que, em novo tempo, tomados de muitas outras motivações, a gente reveja o que criamos. A mudança mais significativa é o menor peso dramático na concepção. Hoje, entendemos um pouco melhor a poesia, a provocação e as cores de Vincent. O tanto que tudo isso nos afeta. A melancolia, antes aos montes, de doer, continua, em outros lugares, porém, em outra proporção”, diz Jefferson.




“Vincent – Um solo de amor” é um espetáculo centrado na força da palavra e do ator. Inspirado em algumas das muitas cartas do pintor holandês, o texto traz à cena um ser humano rude, apaixonado e solitário, que fala de Deus, amor e liberdade. Num período dos mais conturbados de toda a sua vida - abatido pela miséria, mergulhado na literatura e na filosofia e de relações cortadas com a família -, Vincent buscava a reconciliação com seu protetor e mais leal amigo: o irmão Theo.

Em 20 anos de carreira (1995-2015), “Vincent” foi destaque em festivais nacionais de São Paulo (Franca e Piracicaba) e Paraná (Curitiba). E, por meio da Planeta Produções, em parceria com a Fundação Belgo-Mineira, a montagem percorreu o interior do Espírito Santo e Minas Gerais. Também foi atração para grupos de psiquiatria em Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo. O espetáculo foi criado por Jefferson da Fonseca, com a supervisão geral do crítico, professor e diretor teatral Marcello Castilho Avellar (1961-2011).

Ao longo de mais de 20 anos, “Vincent” esteve em bares, galpões e teatros de formatos diversos. Em todos esses espaços, buscou investigar o que seria a forma ideal para que a relação palco-plateia pudesse ali se realizar plenamente, o que acabou permitindo a seus criadores o acúmulo de soluções cênicas que se destacam na obra. Soma-se a isso a importância do debate presente no próprio texto, que trata da arte, de Deus, de amor, do artista e da liberdade.

Fotos: Ana Cândida Cardoso





Em dezembro tem "Vincent - Um solo de amor" no Espaço Cênico Yoshifumi Yagi - Teatro Raul Belém Machado


Logo que encerrar a temporada no Teatro Marília, "Vincent - Um solo de amor" segue para a Região Noroeste de Belo Horizonte. A peça vai ser apresentada no Espaço Cênico Yoshifumi Yagi – Teatro Raul Belém Machado (Rua Leonil Prata s/n), no Bairro Alípio de Melo, dias 1, 2 e 3 de dezembro, de sexta a sábado, às 20h, e, domingo, às 19h. Informações: (31) 3277-6437


Sobre Jefferson da Fonseca, ator e diretor de “Vincent – Um solo de amor”


Jefferson da Fonseca, mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1971, é ator, diretor, jornalista e professor. Diretor da Casa do Ator - Studio de Treinamento e Arte; professor de interpretação da Rede Pitágoras (2000-2007); professor de interpretação e improvisação da Puc Minas (2000-2014). Em 1998 e 2014, com trabalhos em Cuba, Argentina, Alemanha, França, Espanha e Luxemburgo, Jefferson foi curador do Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte (Fit-BH). Entre dezembro de 2015 e agosto de 2017, foi diretor das artes da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Diretor do Fit-BH, em 2016. Desde 1992, é profissional de teatro, TV e cinema. É autor das crônicas semanais de “Vida Bandida” e “Bandeira Dois”, publicadas pelo Grupo Diários Associados, onde é colaborador desde 1991. Foi repórter de cultura e cidades. “Natasha”, “Nós outros”, “Um outro alguém”, “Bonsai” e “Alma nua” são algumas das histórias de Jefferson roteirizadas para o cinema. Para o teatro, entre outras peças, o ator e dramaturgo escreveu “Era uma vez Mary Lane”, “Chovia, mas os ladrões não usavam guarda-chuvas”, “O comedor de batatas”, “Alice ao avesso”, além de “Vincent – Um solo de amor” – adaptação de cartas do pintor Vincent Van Gogh. Como ator, premiado em drama e comédia, Jefferson atuou nos espetáculos “A intrusa”, “O processo”, “O mágico de Óz”, “Peter Pan”, “Ricardo 3”, “Vincent”, “Palmeira seca”, “Lua de cetim”, “Essa velha é uma parada”, “Fulaninha e dona coisa”, “Os sem vergonhas”, “Um inimigo do povo” e “Antígona: outra vez tenho vontade bater em alguém”, com a Cia Pitouch (França), entre outros. Na TV, pela Rede Globo, esteve no elenco da minissérie JK, nas novelas “Sete Vidas”. “Novo mundo”, “Os dias eram assim” e em quadros especiais para o Fantástico, de 2012 a 2016. No cinema, destacam-se as obras “Amor perfeito”, de Geraldo Magalhães, “Pequenas histórias”, de Helvécio Ratton, “Galinha ao molho pardo”, de Feliciano Coelho, “Alma nua”, “O homem das multidões”, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, os inéditos “Alma nua”, “Descompasso” e “Escuta-me”, da Casa do Ator, e o premiado “Foro Íntimo”, de Ricardo Mehedff.



FICHA TÉCNICA

Textos:
VINCENT VAN GOGH
WILLIAM SHAKESPEARE
ANTONIN ARTAUD

Roteiro e Direção:
JEFFERSON DA FONSECA
MARCELLO CASTILHO AVELLAR

Arte, Figurino e Fotografia:
ANA CÂNDIDA CARDOSO

Iluminação:
CÁSSIO PINHEIRO

Produção:
QUERIDA COMPANHIA DE TEATRO
PAULA SÁ E TERESA BORGES 

Contatos:
Paula Sá (31) 99637-1416
Teresa Borges (31) 99972-5818

vincentvangogh.solo@gmail.com



terça-feira, 8 de setembro de 2015

Quando os anjos morrem na praia



Muito vem sendo dito em todo o mundo sobre a imagem no garoto sírio encontrado morto na praia de Bodrum, na Turquia. Aylan não tinha três anos. Nilufer Demir, a fotógrafa, certamente, jamais vai esquecer aquela figura capturada na primeira hora de sol, na quarta-feira, dia 2. Eu também não.

Na tragédia das águas que afogam o futuro de milhares de imigrantes, pela lente de Nilufer, o retrato silencioso de Aylan fez estremecer os cinco continentes. Por meio das grandes redes de notícias e pelas mãos de vários artistas, a foto sensibilizou lideranças e fez chorar o Papa. O menino sem vida, de bruço, com parte do rosto mergulhado na areia e com as palmas das mãozinhas para cima, à beira-mar, não é de longe o pior que pode ser fotografado nas desgraças. 

O instante eternizado, ali, em calça e camisa curtas, tocou sobremaneira o meu coração. Não é preciso ser pai ou homem de bem para indignar-se com a violência e com a estupidez de tantas guerras. Não é a primeira e, infelizmente, não vai ser a última fotografia a enquadrar a realidade mais triste de crianças, vítimas da intolerância e da falta de amor.

O inferno da guerra na Síria tem lançado adultos e bebês ao mar em busca de alguma esperança. Caso da família de Aylan. O pai, Abdullah, havia pago o equivalente a R$ 17 mil reais pela “oportunidade” de fazer a travessia com a mulher e com os dois filhos pequenos. Iria até a Grécia para depois tentar chegar ao Canadá. Abdullah perdeu tudo. Restou-lhe a vida de desespero.

Os refugiados se aventuram em botes infláveis, com capacidade para 10 pessoas. No máximo 15. Organizados por traficantes, chegam a transportar 45. Famílias inteiras, como Abdullah, a mulher e os filhos. Chama a atenção a quantidade de crianças de colo. Segundo a Anistia Internacional, só no mês passado, 30 mil refugiados chegaram a Lesbos, uma pequena ilha grega com 86 mil habitantes.

Um pesadelo sem fim. Na minha caderneta de papel pautado, na companhia da mulher e dos filhos amados, no conforto da minha casa, a garganta embarga. O sono não é bom, tomado pela imagem do pequeno Aylan. Na estante, amontoado de recortes de jornais com matérias sobre o meu Brasil, país de futuro. 

Entre as reportagens, denúncias de desvio de dinheiro de merenda escolar e de creches. Hospitais infantis fechados e ocupações miseráveis, com a boa gente miúda dormindo entre cobras e escorpiões. Vacinas e doações perdidas pela burocracia; mentiras e corrupção à esquerda e à direita. Com o coração aos pulos, um pensamento ganha o papel: “Do lado de cá, no Atlântico, nossas crianças também morrem na praia”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Meu coração pensador

Deus promove os encontros e o resto... bom, o resto é com a gente. Tem a distância física e tem a distância do pensamento. É o que aprendi bem cedo, ainda criança, quando, por tempo e força das circunstâncias, fui obrigado a ficar longe do meu pai. Depois, longe da minha mãe. Quis o destino, muito pouco tempo da vida perto dos dois. Seria felicidade demais para uma criança só.

O pai, o melhor amigo, está bem, firme e forte, “bom, bonito e gordo”, como costuma dizer. Comemorou 75 anos na semana passada. Já a mãe, está bem, ainda mais linda e sorridente ao lado dos pais, meus avós, anjos do céu.

E foi criança, bem pequeno, com menos de metro e meio, que aprendi, na marra, esse negócio da diferença entre a distância física e a distância do pensamento. Mesmo longe de um ou do outro, e, muitas vezes, dos dois, jamais estive distante dos que amo no meu coração pensador.

Nem sempre estar longe significa estar distante. Assim como nem sempre estar perto significa estar junto. O amigo leitor, se estou certo, sabe bem o que isso quer dizer. Meu coração pensador é um furacão. Fora as agruras mais comuns do ser humano, diz-me coisas sempre muito boas que não me deixam a cabeça.

A última, num sopro de bem, me ensina que é melhor ser feliz do que ter razão. E assim vou vivendo, cada vez mais distante e bem longe dos dissabores que posso evitar. Não sou do tipo que gosta de discutir relação nenhuma. Para mim, quando se ama, ama-se e pronto. Quando se perdoa, perdoa-se e ponto.

Ficar remoendo o passado, sofrendo com o que não tem valor, não ocupa um mísero bite do meu coração pensador. Quando algo que não pertence mais ao meu coração se acaba, acaba-se e fim. Em mim, alimento a filosofia de “viver para não se arrepender”.

Vivo. E vivo tão muito e intensamente que uma vida é bem pouco para dar conta do tanto que há aqui, no peito. Hoje, estou assim: que não me aguento. Antes, não gostava de aniversários. Hoje, motivos não faltam para comemorar!

Obrigado, pai! Obrigado, mãe! Obrigado, meus filhos! Obrigado, mulher companheira! Do melhor da vida, o que guardo e cuido, é o meu coração pensador, casa de melhores amigos.

Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O paraíso perdido

Em 2011, durante festinha junina da igreja, Toni e Daise conheceram o fogo da paixão fulminante. Em olhares cruzados, aproximaram-se, dançaram madrugada adentro e fizeram juras e promessas para toda a vida. No mesmo dia, Toni expulsou de casa, entre tapas e bicudões, Martinha, a companheira adolescente, filha de um vendedor de cachaça da região, com quem vivia há quase um ano. Daise também terminou um caso sério, abandonou a casa da mãe e foi morar com o novo amor, no Bairro Paraíso.

Daise, ensino fundamental completo, fogosa, traços finos, sorriso largo, seios pequenos, bunda do tipo tanajura, pés de bailarina e dedos longos. Adorava saias cor-de-rosa. Toni, pouco estudo e educação, magro, alto, barbinha rala, olhos claros, dedos e dentes amarelados, cabelos grandes e encaracolados. Ele desde pequeno invadia casas vazias. Juntos, em comum, o sexo e o cigarro. Os dois formaram química pura. Engoliam-se despudoradamente de três a quatro vezes por dia e acendiam um careta no outro.

Daise tomou gosto pela vocação do companheiro de ladrão. Começaram a arrombar em parceria. Ele era exímio chaveiro – ofício que aprendera com um tio evangélico na adolescência. Tinha ferramentas e habilidade para abrir qualquer trava, tranca ou fechadura. Não só roubavam. Faziam ainda o maior carnaval nos imóveis das vítimas ausentes. Comiam, bebiam, fumavam e, claro, trepavam. Desfilavam nus pelos cômodos e, por fim, fotografavam-se nas poses mais indecentes e inimagináveis.

Eram também viciados em fotografia. E gostavam da foto no papel. Nada de computadores ou redes sociais. Preferiam a diversão suja nas residências de casais sem filhos ou de moradores solitários. Especialistas. Preparavam tudo em detalhes, da invasão à fuga. Invadiam e faziam a “limpa”. Farreavam e davam no pé em pouco mais de hora. Não gostavam de armas, tampouco transavam violência. Toni não sabia atirar e Daise nunca viu de perto um revólver. Gostavam mesmo era de câmeras fotográficas e mantinham coleção das mais raras. A grana da “labuta” era suficiente para manter aquela vidinha bandida.

Foram quase seis meses de invasões, roubos, cigarros e indecências. Até que na madrugada do Natal daquele ano, céu sem estrelas e atmosfera de vingança e morte, a casa no Paraíso caiu para os dois vagabundos. Enquanto dormiam, o barraco foi arrombado e invadido por Martinha – a filha do vendedor de cachaça. Rejeitada a tabefes e pontapés, a adolescente não deu conta de perdoar o dissabor do mês de junho.

Implacável, a menina descarregou o 38 do pai nos dois, nus, no leito que um dia fora também de amor e suor de seu corpo. Sob o colchão ensangüentado, várias caixas de sapatos com centenas de fotografias sujas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho




terça-feira, 5 de novembro de 2013

A violência, essa filha da ignorância



Tenho um amigo próximo, meio irmão, que acaba de voltar de Cuba. Geraldo trouxe assunto para mais de metro daquelas bandas. Convicções políticas à parte, uma das questões que mais o impressionaram é a força da cultura e da educação em toda a boa gente de lá. “Violência zero. É o que ouvi por todos os lugares. Ouvi de um moço, guia pelas ruas de Havana Velha: ‘Sou pobre. Minha única propriedade é a minha vida. E dela cuido até o último suspiro’. Conheci muitos pobres e nunca vi tanta dignidade entre os que tem apenas o suficiente para viver”, disse-me o companheiro.

Minha conversa com o Geraldo foi no domingo. No mesmo dia em que fui visitar o Murilo – outro amigo muito querido, assaltado na semana passada. Murilo desceu do ônibus no Bairro Floresta, Região Leste de Belo Horizonte, e tomou dois tiros de um sujeito covarde que estava na garupa de uma moto. O assalto e o relato de Cuba ficaram me martelando a cabeça. Quem conhece o Murilo, homem de bem, paz e bom coração, tem razões de sobra para indignar-se com a violência sofrida por ele. É assustadora a violência crescente em nossa cidade.

Murilo é daqueles sujeitos incapazes de fazer mal a quem quer que seja. Para citar apenas uma passagem, recentemente, um outro amigo abriu uma escola de arte. Murilo, que havia se graduado em administração, quis ajudar duas pessoas de uma só vez. Eu estava presente e testemunhei quando ele chegou para o dono da escola e disse: “Estou depositando o valor de uma bolsa integral desse curso que a sua escola está oferecendo. Dê a vaga para alguém que queira muito fazer e que não tem condição de pagar”.

Isso tem mais de ano e foi muito marcante. O Murilo, garoto, com vinte e poucos anos, disse que estava apenas retribuindo algum bem que foi dedicado a ele na vida. Impossível esquecer. Aí, um moço desse, com o coração desse tamanho, está caminhando na rua e toma dois tiros à queima-roupa? Não está certo. O que isso tem a ver com Cuba? Tudo. O problema da violência nada tem a ver com pobreza. Tem a ver com a ignorância, com a falta de educação e com a impunidade.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

Um último cigarro

Ele deixou o consultório no pequeno prédio do São Lucas em frangalhos. A voz do homem de branco lhe atingiu como flecha. O timbre grave do doutor Leopoldo havia lhe decretado sentença de morte: câncer no pulmão. Mal causado pelo cigarro, companheiro inseparável de longa data. Oito ou 10 meses de vida, talvez. Era o que lhe restava.

Tempo para colocar deveres e obrigações em dia e, quem sabe, morrer em paz. Queria se redimir de qualquer culpa. Em 50 anos de vida ganhou desafetos bestas e vacilou feio com parentes e amigos. Condenado, vagou a pé pelo bairro da Serra. Entrou num botequim da Rua do Ouro, pediu café e começou a listar, em folha de papel vagabundo, tudo o que queria fazer antes de partir.

O maço cheio de cigarros, no bolso, junto ao peito, ele fingiu não ter. “Agora, não!”, pensou. “Mais tarde.” E começou a escrever os nomes daqueles com quem deveria desculpar-se. O filho, abandonado no passado. Hoje, homem feito, o garoto não queria saber do pai vacilão. O amigo, quase irmão, perdido por bobagem. O pai esquecido, largado no interior. O afilhado sem presente, abraço ou aperto de mão.

Listou o nome da mulher leal e companheira. A mesma dona sem valor, tratada freqüentemente com descaso e desconsideração. Incluiu também uns 10 colegas de trabalho, subordinados, injustiçados. Naquele bar, repensou a vida e seus significados. Determinou que, daquele instante em diante, tudo teria outro sentido. E que poderia, no pouco tempo que lhe restava, ser o homem que não fora em meio século de vida.

Fim de tarde. O boteco, antes vazio, ganhava movimento de fim de expediente, e ele, solitário, numa mesa de canto, com o café frio no copo lagoinha, não parava de escrever nomes e ações de redenção em guardanapos de papel. Na cabeça, as vozes alegres dos fregueses falastrões se confundiam com o falar manso e sério do homem de branco, amigo desde a infância.

Apesar do ambiente barulhento, ele pôde ouvir o chamado insistente do telefone celular. No identificador de chamadas, o número pessoal do doutor Leopoldo. Hesitou. Pensou em não atender. Atendeu. Do outro lado, o médico sem graça se desculpa por erro grave do laboratório de radiologia. Exames trocados. Acontece.

O homem desligou o telefone sem pronunciar palavra. Catou no bolso um cigarro. Mandou goela abaixo o café gelado. Acendeu o careta e puxou fundo um último trago. Decidido, mandou o maço no latão de lixo da calçada.

As anotações de desespero ele guardou. Quem sabe, para rever mais tarde.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Os subterrâneos das paixões


Agenor, quarentão, estava que não se aguentava de saudade da enteada Carolina. Depois que a mulher dançarina abandonou a família por caso antigo, foram seis meses sem um sorriso sequer da menina única – cópia fiel de Inês, a mulher bandida. Três vezes ao telefone apenas. E tudo muito rápido, cheio de pausas. Da última, marcaram conversa na casa de shows onde o genro, performer, é atração na noite. Foi a condição de Carolina para o encontro, já que Agenor não aceitava Walace, o namorado.

Para o advogado, sistemático, cheio de regras, artista era sinônimo de problema. Sendo assim, Walace, com aquele cabelão black power, cheio de roupas coloridas e modo de falar descolado, não inspirava nenhuma confiança para ser o homem da menina tão querida. Além do que, desde que se casou com Inês – mãe solteira, com Carolina de 12 anos na bagagem –, Agenor foi tomado por verdadeira loucura pela enteada. Um amor descabido, impossível e secreto, trancafiado na alma por mais de dez anos.

Carolina, por sua vez, também sentia algo sem explicação por Agenor. Jamais conseguiu vê-lo como padrasto. Ela passou a adolescência provocando o marido da mãe, atualmente, dançarina em cabarés da Europa. Tanto provocava que a mãe sabia. Inês, no início do ano, quando largou Agenor, deixou bilhete de uma linha na bolsa da filha: “Meu marido agora é seu. Do jeito que você sempre quis, Carol”. E partiu, enrabichada com um dançarino espanhol. Carolina, aos 23 anos, sentindo-se culpada pela atitude da mãe, saiu de casa e foi morar com o tal Walace, colega do curso de artes plásticas.

Agenor chegou mais cedo para o encontro. Workaholic, levou pilha de trabalho para a casa de shows e ficou lá, no suco de laranja e descendo a caneta na papelada. Carolina não demorou. Estava linda, vestida em roupa de festa, em cores quentes. Walace, no camarim, se preparava para a dança performática em parceria com a banda da noite. Agenor, solitário que só ele, mergulhou nos olhos de Carolina e sorriu profundo como nunca fizera em toda a vida. A moça retribuiu com um suspiro sincero, cheio de intenção. Sentados, frente a frente, decidiram dar jeito nos subterrâneos das paixões. Depois do silêncio, deixaram a boate de mãos dadas sem olhar para trás.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Tudo vai ficar bem

Francisco não se abateu quando recebeu a notícia de que estava doente. Gravemente doente. Os pais, bem relacionados no estrangeiro, trataram logo de ajeitar hospital especializado nos Estados Unidos. Já Francisco, aguerrido, só queria que a irmã caçula, Mariana, ficasse bem. Foi ele, desde os 12, quando o pai e a mãe assumiram compromissos além da conta na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que sempre cuidou da menina.

Aos 22, cheio de vida, o diagnóstico de mal devastador assombrou o coração de Francisco, estudante de geografia e escoteiro. Contudo, ele se manteve firme. Por amor a pequena Mariana, de 10. Na rua em que morava, na Região da Pampulha, havia outro motivo para Francisco manter-se cheio de esperanças. A bela Catarina, estudante de teatro, voluntária em hospital infantil e ex-namorada.

O fim do namoro foi justamente no dia em que Francisco soube o resultado dos exames e a viagem já acertada para a próxima semana. Dois golpes em menos de 8 horas. Catarina foi dura e direta: “Acabou. Não dá mais. Estou gostando de outro e não posso mais enganar você”. Francisco ouviu em silêncio. Sorriu miúdo, em silêncio, e levou Catarina até a porta. E só.

Quem procurou ficar do lado do escoteiro, logo que soube, foi o único amigo, também vizinho: Fabinho. Francisco precisava dividir o drama com alguém e chamou Fabinho para “a conversa mais séria de todos os tempos”. “É sério. Acho que tô indo, sem volta, Fabinho… e quero que você me prometa que vai cuidar da Mariana por mim. Promete?”

Fabinho disse “sim”. Não teve muito mais a dizer. Estava com o coração em frangalhos, tomado pelo drama de Francisco, o melhor amigo. Silêncio e angústia no banco da praça em flor. Sem rumo, o Fabinho. Especialmente, porque estava de caso com Catarina.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho