O Adelson, leitor assíduo de nosso Aqui, aprendeu na marra a ter uma visão muito interessante da vida. Na segunda-feira, almoçamos juntos e, para minha satisfação, ao fim do prato feito, o amigo colocou a página do Bandeira dois sobre a mesa e disse: “Agora, vamos falar desse caminho da felicidade”. Até leu um pedacinho do último parágrafo:
“São muitos os que desarmonizam os lares e os escritórios por uma conversa atravessada ou por qualquer contrariedade besta. Desses, tenho pena. Porque a alegria é felicidade demais para ser perdida”.
Adelson é parceiro das antigas. Tem história de aprendizado exemplar. Soube dar a volta por cima nos momentos mais difíceis. Alegra-me saber que o texto da semana passada, no Aqui, tocou-o sobremaneira.
Disse-me que o que estava escrito era exatamente o que ele precisava ouvir. Falou de problemas particulares na família e no trabalho. Emocionou-se ao falar da irmã caçula, em crise com o marido, prestes a se separar com três crianças pequenas – duas de colo ainda.
“Sabe, Josiel, a vida pra mim é como uma roda gigante: tem hora que a gente tá em cima, tem hora que a gente tá em baixo… o importante é manter a alegria e a coragem. Não perder a alegria quando sobe e não perder a coragem quando desce”, filosofou.
O Adelson esteve preso. Vou contar isso aqui porque ele pediu. Nos anos 2000, na volta da Bahia, foi pego numa blitz próximo a Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri. No carro, meio quilo de maconha. O moço amargou condenação de três anos. Réu primário, bons antecedentes, com um ano recobrou a liberdade.
Fato é que a vida foi ao avesso. “Juro pra você, Josiel… eu achava que podia tudo. Meu pai não me deixava faltar nada. Facilitou ao máximo a vida pra mim e eu não soube valorizar. Depois que ele se separou da minha mãe, quando eu tinha 8 anos, passou a me dar ainda mais. Me dava o que eu queria e não queria”. Mais uma vez, o Adelson se emocionou na mesa do bar.
O taxista precisava falar. “Em Neves, é que fui entender a diferença entre fazer o que a gente gosta e fazer o que é necessário. Entre fazer o que é bom só pra mim e o que é bom também pra quem está perto de mim. Minha mãe quase morreu quando fui preso, Josiel. Se há uma coisa que não esqueço é a primeira visita dela lá na penitenciária”.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
quarta-feira, 15 de maio de 2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
"Priscila, 22, linda e liberal"
Depois que o coronel Vicente Bueno Cantareira, viúvo, contratou Brigitte, garota de programa, para jantar e dança apenas, gostou tanto da experiência, que não parou mais. Foi no aniversário de 70 anos, no ano passado. O velho se sentiu tão bem naquela hora com a companhia de aluguel que decidiu repetir a dose uma vez por semana.
Sexo? Não era mais importante. Cantareira havia sublimado o calor do quadril depois que perdera Mercedes, a fogosa companheira de longa data, em 1993. Maduro, o prazer para o coronel Bueno estava na alma. Aos 71 anos, contentava-se com o céu azul e com as noites de estrelas. O médico, amigo, até sugeriu remédio para reacender o entusiasmo. Nada. Cantareira não quis. Agradeceu e mandou ao lixo o papel com a prescrição.
A felicidade dos últimos tempos estava em conhecer bem pouco das mulheres comuns por trás daqueles anúncios em colunas de indecências para adultos. Cantareira esquadrinhava os classificados para escolher a garota da semana, sempre às segundas-feiras. Um ritual: o prato especial para o jantar – feito por ele; a música antiga, rara, para dança de rosto colado e a mulher de aluguel para os 60 minutos de delicadeza.
Manhã de dia de rito. Logo às 6h, com o jornal popular sobre a mesa, o velho leu quadrinho por quadrinho: “Priscila, 22, linda e liberal”, dizia a publicidade curta de duas linhas ao pé da página. “Linda e liberal” não importava ao coronel. Mas, o nome, ainda que de mentira, chamou a atenção do velho.
Priscila era o nome da filha única que Cantareira e Mercedes perderam em tempos de agonia. A mocinha nasceu com doença grave e não completou meio ano de vida. O casal, doído, então, optou por não ter mais filhos. Passado. O coronel não costumava remoer a linha da vida. Orgulhava-se da fé particular no bom coração. Bastava.
Assim, guardou o número do telefone da garota de aluguel, para ligar mais tarde. Como de costume, desceu até o mercado central para a compra da semana. Tomou café da manhã e caprichou na limpeza do apartamento na Região Central. Às 9h, o coronel ligou para a tal Priscila e agendou o compromisso de R$ 300.
À noite, às 19h, recebeu a menina profissional para tratá-la como mulher fina, de família e futuro. Jantaram, dançaram e sorriram juntos. Ao fim da hora de satisfação, o dinheiro combinado, abraço e beijo no rosto de boa-noite. Pela primeira vez, em três anos, Priscila pôde voltar para casa sem tirar a roupa ou fingir alegria.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
Sexo? Não era mais importante. Cantareira havia sublimado o calor do quadril depois que perdera Mercedes, a fogosa companheira de longa data, em 1993. Maduro, o prazer para o coronel Bueno estava na alma. Aos 71 anos, contentava-se com o céu azul e com as noites de estrelas. O médico, amigo, até sugeriu remédio para reacender o entusiasmo. Nada. Cantareira não quis. Agradeceu e mandou ao lixo o papel com a prescrição.
A felicidade dos últimos tempos estava em conhecer bem pouco das mulheres comuns por trás daqueles anúncios em colunas de indecências para adultos. Cantareira esquadrinhava os classificados para escolher a garota da semana, sempre às segundas-feiras. Um ritual: o prato especial para o jantar – feito por ele; a música antiga, rara, para dança de rosto colado e a mulher de aluguel para os 60 minutos de delicadeza.
Manhã de dia de rito. Logo às 6h, com o jornal popular sobre a mesa, o velho leu quadrinho por quadrinho: “Priscila, 22, linda e liberal”, dizia a publicidade curta de duas linhas ao pé da página. “Linda e liberal” não importava ao coronel. Mas, o nome, ainda que de mentira, chamou a atenção do velho.
Priscila era o nome da filha única que Cantareira e Mercedes perderam em tempos de agonia. A mocinha nasceu com doença grave e não completou meio ano de vida. O casal, doído, então, optou por não ter mais filhos. Passado. O coronel não costumava remoer a linha da vida. Orgulhava-se da fé particular no bom coração. Bastava.
Assim, guardou o número do telefone da garota de aluguel, para ligar mais tarde. Como de costume, desceu até o mercado central para a compra da semana. Tomou café da manhã e caprichou na limpeza do apartamento na Região Central. Às 9h, o coronel ligou para a tal Priscila e agendou o compromisso de R$ 300.
À noite, às 19h, recebeu a menina profissional para tratá-la como mulher fina, de família e futuro. Jantaram, dançaram e sorriram juntos. Ao fim da hora de satisfação, o dinheiro combinado, abraço e beijo no rosto de boa-noite. Pela primeira vez, em três anos, Priscila pôde voltar para casa sem tirar a roupa ou fingir alegria.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O caminho da felicidade
“Alegria é a melhor coisa que existe. É assim como a luz no
coração”, escreveu o poeta Vinicius de Moraes a quatro mãos com Baden
Powell em Samba da bênção. Encanto antigo, trata-se de uma ode à
felicidade: “É melhor ser alegre que ser triste”. Um hino ao amor
próprio e às boas energias que devemos tratar por dentro. Alguns amigos
me criticam, dizendo que estou me saindo “um bom escritor de autoajuda”.
Não tenho nada contra essa história de autoajuda. Se ajuda, se pode
fazer bem à alguém, que mal pode ter?
Neste quintal, não dá para ficar preocupado em agradar a meia dúzia de amigos intelectuais que odeiam Paulo Coelho e que não tiram os olhos das páginas de nosso Aqui – brincadeira, Lúcio, Henrique, Juarez, Helena, Marília e Hugo. Este espaço é para todos os sujeitos de bem. E do mal também, desde que queiram dar novo rumo à vida. Para isso, autoajuda é uma beleza.
Voltando ao poeta – é o que interessa –, ano passado, ganhei um CD com Samba da bênção gravada 23 vezes. A leitora Ana Cristina, vizinha do Osmar, mandou pelo amigo taxista. Presente que não sai do aparelho do carro e que não me canso de agradecer. Não passo dia sem ouvir a música e os versos falados que tanto me inspiram. Há um trecho que já sei até de cor:
“Cuidado, companheiro! / A vida é pra valer / E não se engane não, tem uma só / Duas mesmo que é bom / Ninguém vai me dizer que tem / Sem provar muito bem provado / Com certidão passada em cartório do céu / E assinado embaixo: Deus / E com firma reconhecida! / A vida não é brincadeira, amigo / A vida é arte do encontro / Embora haja tanto desencontro pela vida”.
É bonito demais. Digo o texto acima para mim mesmo, sempre, como uma oração. “A vida é pra valer e é uma só. E a vida gosta é de quem gosta da vida”, acredito. Lição decorada na alma. Os desencontros existem aos montes –sabemos todos. A doença talvez seja o maior deles. Derramei lágrimas à beça com os males que sucumbiram gente próxima, muito amada.
Não é fácil. De resto, desagrados como a falta de dinheiro não me abalam. Nunca perdi uma noite de sono com aborrecimentos menores. Menos ainda: jamais desperdicei um bom-dia nas manhãs de qualquer cor e natureza.
Tenho lá as minhas fraquezas. E são muitas. Mas o que não tenho é a doença do pessimismo ou mal algum das feridas imaginárias que vergam o corpo e mandam ao ralo simpatias. Há quem destrata os mais próximos, de graça, por uma noite mal dormida.
Pior ainda: são muitos os que desarmonizam os lares e os escritórios por uma conversa atravessada ou por qualquer contrariedade besta. Desses, tenho pena. Porque a alegria é felicidade demais para ser perdida.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
Neste quintal, não dá para ficar preocupado em agradar a meia dúzia de amigos intelectuais que odeiam Paulo Coelho e que não tiram os olhos das páginas de nosso Aqui – brincadeira, Lúcio, Henrique, Juarez, Helena, Marília e Hugo. Este espaço é para todos os sujeitos de bem. E do mal também, desde que queiram dar novo rumo à vida. Para isso, autoajuda é uma beleza.
Voltando ao poeta – é o que interessa –, ano passado, ganhei um CD com Samba da bênção gravada 23 vezes. A leitora Ana Cristina, vizinha do Osmar, mandou pelo amigo taxista. Presente que não sai do aparelho do carro e que não me canso de agradecer. Não passo dia sem ouvir a música e os versos falados que tanto me inspiram. Há um trecho que já sei até de cor:
“Cuidado, companheiro! / A vida é pra valer / E não se engane não, tem uma só / Duas mesmo que é bom / Ninguém vai me dizer que tem / Sem provar muito bem provado / Com certidão passada em cartório do céu / E assinado embaixo: Deus / E com firma reconhecida! / A vida não é brincadeira, amigo / A vida é arte do encontro / Embora haja tanto desencontro pela vida”.
É bonito demais. Digo o texto acima para mim mesmo, sempre, como uma oração. “A vida é pra valer e é uma só. E a vida gosta é de quem gosta da vida”, acredito. Lição decorada na alma. Os desencontros existem aos montes –sabemos todos. A doença talvez seja o maior deles. Derramei lágrimas à beça com os males que sucumbiram gente próxima, muito amada.
Não é fácil. De resto, desagrados como a falta de dinheiro não me abalam. Nunca perdi uma noite de sono com aborrecimentos menores. Menos ainda: jamais desperdicei um bom-dia nas manhãs de qualquer cor e natureza.
Tenho lá as minhas fraquezas. E são muitas. Mas o que não tenho é a doença do pessimismo ou mal algum das feridas imaginárias que vergam o corpo e mandam ao ralo simpatias. Há quem destrata os mais próximos, de graça, por uma noite mal dormida.
Pior ainda: são muitos os que desarmonizam os lares e os escritórios por uma conversa atravessada ou por qualquer contrariedade besta. Desses, tenho pena. Porque a alegria é felicidade demais para ser perdida.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
segunda-feira, 6 de maio de 2013
A traíra da perna grossa
O camarada fez de tudo para salvar o casamento. Faltou fazer curso de vidência e adivinhação para atender os caprichos da traíra ruíva da perna grossa. Ela já estava enrabichada com outro. A moça pisou na bola e esfrangalhou o companheiro. Corno de muletas, acidentado, em flagrante triste de tarde bandida. A dona picou a mula, caiu no mundo com sujeitinho qualquer, deixando para trás marido e filhos. Nunca mais deu notícia.
Desde moça freqüentava o corpo de muitos rapazes. Fogosa, entregar-se era algo quase incontrolável. Já ele, comportado, até gostava de uma farra. Com os amigos. Futebol semanal. Cervejada. Churrascos, em encontros de família. Quando se conheceram foi uma loucura. Ela lhe deu chave de pernas de pirar o cabeção. Cegou o peladeiro. O negócio dele agora era abater a pelada em cama barulhenta, em outro campo de suor e palavrões. Abandonou os amigos e passou a viver no ritmo da serelepa.
Namoro, noivado e, em pouco mais de ano, lá estavam os dois, lindos, de joelhos no altar. Encenação modesta de sentimentos tolos embrulhados em tecidos chiques. Ele, babão, apaixonado, cego e perdido em panelada de sonhos e projetos. Ela, perfeita no papel da mocinha branquela, de família, que quer cuidar de casinha e criar barriguinha. Uma beleza. Os pais da noiva não fizeram economia: festão, farra, música em caixas amplificadas, na voz de cantora contratada. E registro, em vídeo e fotografia, de fazer inveja a muito bacana.
A lua-de-mel foi espetáculo. Teatrinho sexual rídiculo em praia carioca. Na pousadinha modesta, o casal não passava despercebido. Só andava juntinho, em babação infantil: “morzinho” pra cá, “tchutchuquinha” pra lá. Um nojo. Rídiculo, não?! Casalzinho marmanjo, fazendo voz de criancinha!? Tenha paciência! E na praia, indecência: ela fantasiava fazer “amorzinho gostoso” no mar. Num cair da tarde, lá estavam os dois, grudadinhos, dentro d’água, na maior safadeza no chacoalhar da maré. Já voltaram do passeio grávidos. Juravam, em tom retardado, que o espermatozóide valente nadou, sem braçadas, em águas salgadas. Era comédia pastelão ouvir os dois conversando sobre a concepção do bebê.
O tempo passou e a moça destrambelhada liberou a periquita. Com um, dois, três… Corneava sem dó nem piedade o “morzinho” dela. Do casamento, três filhos. A trairagem durou tempo, até que o marido, atropelado no horário de almoço, fraturou a perna e, em muletas, foi dispensado do trabalho. Ao chegar mais cedo em casa, flagrou a “princesinha” infiel na cama com outro. No desespero, quebrou a muleta na cabeça do visitante e botou a mulher para fora de casa. Viveu dias de drama sem fim.
Já a dona ruiva das pernas grossas e do rabo torto foi tentar vida nova no interior com outro sujeitinho qualquer. Paizão, é o moço do chapéu de boi quem cuida dos três filhos adolescentes. Dez anos passados, e até hoje ele sente falta dos carinhos da bandida.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Deus é a própria vida
O texto da semana passada rendeu. E quando o assunto rende, em
respeito ao amigo leitor, que participa e comparece, a gente o traz de
volta. Teve e-mail, telefonema e mensagem no celular. Visita também. O
Osmar, que há tempos não aparecia, teve lá em casa. Já chegou dizendo:
“Cara, será que a pastora que trabalhava na casa do Euclides não é a
dona Jabulani, não!?”. “Jabulani” é como o Osmar se refere a mãe da
ex-mulher. Assim como a “pastora”, personagem da coluna passada, a
ex-sogra do Osmar via o “coisa ruim” em todos os lugares e tanto fez e
disse que acabou por infernizar a vida da filha.
Do Barreiro também teve manifestação. Leonardo M. Santos escreveu: “Josiel, leio sempre o Aqui e toda quarta-feira gosto de ler Bandeira dois, porque você escreve muita coisa que parece que aconteceu comigo, na minha casa. A história do Euclides, professor, que você contou na semana passada, aconteceu comigo um pouquinho diferente. Lá em casa, não foi com a empregada porque eu nem tenho empregada. Foi pior porque foi com minha mulher que entrou para uma igreja dessa, evangélica e doente, e a nossa vida ficou de cabeça para baixo. Tudo era coisa do diabo e nada era de Deus. Eu disse pra ela: ‘Você fala mais no capeta do que em Deus. Que diacho de crente é isso?’. Infelizmente, é isso mesmo que você escreveu. Fé errada é doença”.
“Engraçado, Josiel. A mulher da coluna da semana passada falou que a pneumonia do Euclides era coisa do diabo. Por que ela, evangélica, não disse que a melhora dele foi obra de Deus?”, escreveu a Marta, universitária, filha do Irani. Chico, André, Neuzinha, Thaís, Pablo, Inês, Valdir, Moacir, Túlio, Elias, Sueli, Sarah e Roberta ajudaram a render o tema da fé. No domingo, entre amigos, Deus, nossa força maior que rege o universo, como sempre, foi conversa boa. Sabemos todos que o mal, o negativo, existe. Mas para quê destacá-lo?
Para tudo o que é ruim, há em contra ponto o que é bom. Equilibrio. São dois pontos de vista para tudo na vida, creio. São dois os tipos de sujeitos que observo pelo caminho: há aquele, otimista, que se apega ao que é de Deus. E aquele, pessimista, que faz questão de enxergar apenas o lado ruim do que está ao seu redor. É mais fácil, pelo que compreendo, entregar-se à derrota. Achar que tudo é doença, miséria e fome que mata.
Difícil, no entanto bem simples, é ver que a vida é bem maior da natureza. Que há alguém bem perto de você, certamente, em situação muito mais complicada que a sua. Conheço gente aos montes que só sabe é reclamar da vida. Que perde um tempo precioso desejando apenas o que o outro tem. Gente incapaz de olhar para o lado e ver a alegria das crianças e agradecer pelos céus de todos os dias. Tem gente que é capaz de passar toda a vida procurando por Deus. E, assim, esquece-se de que Deus é a própria vida.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
Do Barreiro também teve manifestação. Leonardo M. Santos escreveu: “Josiel, leio sempre o Aqui e toda quarta-feira gosto de ler Bandeira dois, porque você escreve muita coisa que parece que aconteceu comigo, na minha casa. A história do Euclides, professor, que você contou na semana passada, aconteceu comigo um pouquinho diferente. Lá em casa, não foi com a empregada porque eu nem tenho empregada. Foi pior porque foi com minha mulher que entrou para uma igreja dessa, evangélica e doente, e a nossa vida ficou de cabeça para baixo. Tudo era coisa do diabo e nada era de Deus. Eu disse pra ela: ‘Você fala mais no capeta do que em Deus. Que diacho de crente é isso?’. Infelizmente, é isso mesmo que você escreveu. Fé errada é doença”.
“Engraçado, Josiel. A mulher da coluna da semana passada falou que a pneumonia do Euclides era coisa do diabo. Por que ela, evangélica, não disse que a melhora dele foi obra de Deus?”, escreveu a Marta, universitária, filha do Irani. Chico, André, Neuzinha, Thaís, Pablo, Inês, Valdir, Moacir, Túlio, Elias, Sueli, Sarah e Roberta ajudaram a render o tema da fé. No domingo, entre amigos, Deus, nossa força maior que rege o universo, como sempre, foi conversa boa. Sabemos todos que o mal, o negativo, existe. Mas para quê destacá-lo?
Para tudo o que é ruim, há em contra ponto o que é bom. Equilibrio. São dois pontos de vista para tudo na vida, creio. São dois os tipos de sujeitos que observo pelo caminho: há aquele, otimista, que se apega ao que é de Deus. E aquele, pessimista, que faz questão de enxergar apenas o lado ruim do que está ao seu redor. É mais fácil, pelo que compreendo, entregar-se à derrota. Achar que tudo é doença, miséria e fome que mata.
Difícil, no entanto bem simples, é ver que a vida é bem maior da natureza. Que há alguém bem perto de você, certamente, em situação muito mais complicada que a sua. Conheço gente aos montes que só sabe é reclamar da vida. Que perde um tempo precioso desejando apenas o que o outro tem. Gente incapaz de olhar para o lado e ver a alegria das crianças e agradecer pelos céus de todos os dias. Tem gente que é capaz de passar toda a vida procurando por Deus. E, assim, esquece-se de que Deus é a própria vida.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
terça-feira, 30 de abril de 2013
Palavrão é o nome feio
Para muitos é estranho, mas foi assim que dona Iracema registrou o menino sem pai, na semana em que ele nasceu: Asservildison. Podia ser pior. Bem pior, é verdade. Para facilitar, uma vizinha, na Vila Santa Helena, abreviou: “Sessé”. E para a alegria do moleque agigantado, o Asservildison, filho de dona Iracema, virou Sessé.
Só que o Sessé cresceu, engordou e virou Asservildison de novo. O chefe na fábrica de macarrão, um tal Gisleygradon, homem gordo e de voz de trovão, caprichava na hora de chamar pelo enorme operário. Enchia a boca de articulação: ASSERVILDISON, meu filho, vem ver o que você vez, Asservildison!”, berrava todos os dias pelo pavilhão industrial. Aquilo, de tão comum, nem incomodava mais o filho de dona Iracema.
Entretanto, depois que a costureira Iracema bateu as botas de morte morrida, Asservildison perdeu a paciência e passou a não tolerar mais os exageros com seu nome de batismo. Na volta da licença do luto, logo na primeira graça do chefe Gisley sei-lá-o-que, Asservildison plantou-lhe a mão na orelha. Demitido por justa causa, o técnico em termostato acabou vendendo coco em pracinha da Região da Pampulha. Sozinho, sem amigos ou nada que pudesse dar cor à vida, Asservildison emagreceu quatro arrobas.
Com sessenta quilos a menos, o filho da finada Iracema até que ficou mais bem apessoado e, aos 27 anos, arranjou a primeira namorada. Uma mulher de boas carnes, morena, salgadeira de mão cheia, de olhos amendoados e nome igualmente curioso: Laurilofitélia (uma combinação em homenagem aos quatro avós: Laurípedes, Murilo, Filermina e Aracélia. Criatividade do pai, Sergismundo).
Felizes, Asservildison e Laurilofitélia viveram amor de dar gosto. Daquele de dengo em apelidos. “Tutuco” para cá, “Tutuca” para lá, em 2011, os dois decidiram juntar os trapos e as escovas de dentes no barraco deixado pela dona Iracema, no Bairro Rio Branco. A banca de coco prosperou e a família ganhou novas alegrias com os gêmeos que acabam de chegar: João e Maria.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Quando a fé vira doença
Sou um homem de fé. Creio num Deus generoso, bem maior que o céu e a terra. Está em mim, está no amigo leitor, está nas estrelas do céu e do mar… está em todos os lugares. Não há movimento algum, numa folha sequer, que não seja provocado pelo sopro dessa força extraordinária e criadora, creio. Aprendi cedo, com o velho Botelho, a respeitar todas as religiões. Não muda em nada meu amor pelo próximo se ele é desse ou daquele grupo religioso. Das lições e bênçãos que trago de Deus, a mais importante, sem dúvida, é que sua presença é sinônimo de amor.
Sendo assim, Bandeira Dois de hoje é o desabafo de um amigo. Depois de ouvir a história do Euclides, amigo e passageiro das antigas, aborrecidíssimo por ter que dispensar a senhora que trabalhava na casa dele. O Euclides, professor de história, é homem estudioso e bom pai de família. Casado, apaixonado pela mulher e pelos três filhos já crescidos. Filho único, meu amigo levou a mãe para morar com ele em Lagoa Santa, na Região Metropolitana. Casa construída com suor e muita dificuldade. Para agradar a mãe, fez uma gruta com uma imagem de Nossa Senhora.
O lugar é um encanto. Um cantinho iluminado por lâmpada azul e entre flores para prece e meditação. A mãe do Euclides é católica e mulher de muita fé em Nossa Senhora. Tem razões de sobra para agradecer e enfeitar com flores de todos os tipos o altar que lá está. Respeito, admiro e, verdadeiramente, acredito na força dos símbolos daquele lugar sagrado. A imagem de Nossa senhora, em gesso, é linda e sua expressão me acalma a alma. Cheguei a comentar isso com o Euclides na festa junina que ele promoveu no ano passado.
Acontece que, no início do ano, uma senhora evangélica foi trabalhar na casa do Euclides. Daqueles grupos radicais, capazes de chutar os santos, a mulher de meia idade passou a “ver o diabo” naquele canto. Vítima de lavagem cerebral na congregação a qual pertence, certamente, a mulher não só abominava a imagem de Nossa senhora na gruta, como também passou a demonizar todos os quadros e símbolos católicos da casa. Não contente, ainda passou a falar pelos cantos e pela vizinhança que ali, naquela casa, morava o diabo.
A coisa se espalhou de tal maneira que acabou chegando no ouvido do Euclides. Curiosamente, de um evangélico de outro grupo, zelador do condomínio. O homem, idôneo e boa gente, com mais de 10 anos de trabalho no endereço, chamou meu amigo no canto e o alertou sobre o que a dona estava espalhando. O Euclides quase teve um piripaque. “Josiel, não acreditei no que tava ouvindo. Você me conhece… sabe da vida reservada que procuro levar… me explica… como é que uma pessoa passa a trabalhar na minha casa e me cria um problema dessa natureza?”, desabafou.
Muito incomodado com a história, Euclides foi apurar a situação com outras pessoas simples do condomínio. Ficou boquiaberto ao ouvir – “até dos mais discretos” – o que a evangélica andou espalhando pelo lugar. Em fevereiro, o professor andou doente, com pneumonia. Até isso foi assunto para a “pastora” que assegurou que a doença era coisa do “diabo da gruta”. Euclides precisava desabafar. No meu carro, entristecido com toda a situação, revelou-me que não teve outra opção: foi obrigado a demitir a mulher.
Na gruta, em Lagoa Santa, para encerrar de vez os aborrecimentos dos últimos tempos, flores brancas para Nossa Senhora. Homem de bom coração, o Euclides disse ter feito prece e pedido pela evangélica que, “sem noção de respeito à vida alheia”, vivia de fazer da fé doença brava. Em mim, Deus é amor! Simples assim: não importa o templo… menos ainda a religião. Aqui, entre nós, pobres mortais, uma lição: a língua é o chicote do corpo.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
terça-feira, 23 de abril de 2013
Oração de São Jorge
Ó São Jorge, meu guerreiro, invencível na Fé em Deus, que trazeis em vosso rosto a esperança e confiança abra os meus caminhos.
Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer algum mal.
Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrar.
Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, a Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos.
Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel cavalo meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós.
Ajudai-me a superar todo o desanimo e alcançar a graça que tanto preciso: (fazei aqui o seu pedido)
Dai-me coragem e esperança fortalecei minha FÉ e auxiliai-me nesta necessidade.
Com o poder de Deus, de Jesus Cristo e do Divino Espírito Santo. Amém!
São Jorge rogai por nós!
Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer algum mal.
Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrar.
Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, a Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos.
Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel cavalo meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós.
Ajudai-me a superar todo o desanimo e alcançar a graça que tanto preciso: (fazei aqui o seu pedido)
Dai-me coragem e esperança fortalecei minha FÉ e auxiliai-me nesta necessidade.
Com o poder de Deus, de Jesus Cristo e do Divino Espírito Santo. Amém!
São Jorge rogai por nós!
segunda-feira, 22 de abril de 2013
O drama da menina livre
Berenildes da Costa foi daquelas beldades que faziam ajoelhar os
rapazes mais descolados dos anos 1960. Em paz e livre para o amor, a
mulher teve todos os homens que quis aos pés. Linda, de corpo perfeito e
bem à frente de seu tempo, a bela de roupas coloridas e cabelos na
cintura sabia como ninguém arrancar um suspiro.
Tomou de conhecidas – algumas amigas até – os namorados mais fiéis. João, Beto, Ricardo, Lu, Maurício, Chico, Breno, Joaquim, Roberto, Walley, Thomas, Tonico, José e Frederico, todos maconheiros, fizeram sofrer mais de dúzia de boas companheiras por causa de Berenildes. Bastava ela dobrar a seda para a rapaziada endoidecer de amor.
Estudante da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Berenildes era diferente da grande maioria de seus colegas de sala de aula. Enquanto grupo de estudantes discutia o futuro do país e enfrentava – como podia – as forças armadas, a moçoila só queria se acabar no colo e na maconha.
Tanta diferença fez Berenildes largar os estudos e curtir a vida com a mesada do pai, fazendeiro da Região Central de Minas. Filha única, a beldade pintava e bordava com o seu Natanael, viúvo e dono de coração sem igual. “Deixa a menina viver, Zé! A vida é uma só”, dizia o homem para o irmão que morava em Belo Horizonte, padrinho de Berenildes, que queria porque queria dar jeito na menina.
O tio advogado até que tentou acompanhar os passos da afilhada na capital. Aconselhou, chamou a atenção... brigou... esperneou e nada. Por fim, decidiu entregar para Deus. “Essa, só o diabo!”. Berenildes tatuou o sol, a lua, o mar e as estrelas no corpo. Encheu de flores os braços e mandou ver raízes nas pernas. Nas costas, duas asas gigantes para ir mais longe.
Natanel morreu e Berenildes chorou semana. Sem ter nada a ver com a terra em que nasceu, vendeu tudo para rodar o mundo com o patrimônio deixado pelo pai. Tio Zé, sempre presente, tentou tirá-la de cabeça: “Sossega o facho aqui, menina. Vai estudar!”. Em vão. No exterior, Berenildes seguiu a promover suspiros. Fogosa e desgarrada, a ex-universitária só queria saber de farra entre os mais livres e drogados.
Livre, apaixonou-se por colombiano que vivia em Londres. O sujeito, Lorenzo, era sua cara metade: “Me gusta disfrutar de la vida. Es todo lo que importa a mi, mi amor”, vivia de repetir o bonitão. Traficante procurado por autoridades internacionais, Lorenzo caiu e levou junto Berenildes. Hoje, à espera de julgamento, o casal troca bilhetes de amor em dois presídios de Bogotá. É o tio Zé, velho e doente, quem tenta trazer de volta a afilhada.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Melhor remédio é o otimismo
O João Elias é amigo dos bons, dos mais otimistas que conheço.
Daqueles raros que, com exemplo, melhoram a vida da gente. Teve lá em
casa no fim de semana, na tarde de almoço em que Violeta caprichou pelo
batizado de nosso garoto. Pouca gente. Só os mais próximos da família. E
o João é irmão de consideração. Cortou mais de 300 quilômetros para
comparecer à Igreja de Santo Antônio e experimentar o feijão da patroa.
Desde que se mudaram para a Zona da Mata, ele e a família têm vindo muito pouco a Belo Horizonte. “Só em ocasiões muito especiais, Josiel”, diz. Obrigado, João! Foi uma grande alegria rever o amigo otimista e exemplar. Sujeito dos mais trabalhadores e alegres de que já se teve notícia. De família de poucos recursos, irmão mais velho dos nove filhos de dona Maura, João, aos 8 anos, começou a trabalhar por iniciativa própria para a judar em casa.
Estudou só até o que era chamado “primeiro grau”. Mesmo assim foi reprovado no último ano, na oitava série. Estudava à noite. Levantava às 4h30, na Região da Pampulha, para trabalhar como servente de pedreiro. Depois do dia inteiro no serviço pesado, ainda reunia forças para ir para à escola. Foi quando a gente se conheceu. Ele, pregado de tanto cansaço, dormia na sala, no último horário, por volta das 22h. Não era para menos.
Resultado: aos 16 anos, reprovado na oitava série. Na ocasião, falava que estudar não era para ele. “Tenho é que trabalhar. Ganhar dinheiro pra ajudar a minha família”, disse-me. Nunca esqueci. No ano seguinte, até estava matriculado, mas não voltou aos bancos da escola. Encarou firme o trabalho e ajudou a mãe a sair do aluguel com os irmãos mais novos. Como ele, todos os outros filhos de dona Maura seguiram o caminho do trabalho.
Depois que João deixou a escola, ficamos um tempo sem contato. Até que, por essas manobras do destino, Marília, mocinha mais velha da dona Maura, veio parar no meu táxi. Cinco anos passados, não dei conta de reconhecer a irmã do João. Estava crescida e bastante mudada. Mulher feita. Retomamos o contato e a boa amizade. João havia deixado o serviço de servente e juntado dinheiro para comprar três carroças e trabalhar com outros dois irmãos.
Fiquei triste quando soube da morte do pai dos meninos, vítima de acidente de ônibus. A situação que já era difícil ficou ainda mais complicada. E o que, na época, já me impressionava é que, na casa de dona Maura, com nove filhos, ninguém reclamava da vida. Todos, sempre, cheios de otimismo. Havia alegria em tudo naquele endereço. Uns pelos outros em toda e qualquer circunstância. Jamais conheci família mais unida, alegre e otimista na vida.
Enquanto João Elias, Humberto e Chico tocavam o negócio das carroças em serviço de limpeza urbana, dona Maura e as filhas trabalhavam – lavando e cozinhando para particulares. Há dois anos, João Elias juntou recursos com irmãos e cunhados. Juntos, compraram uma terrinha para investir na plantação de grãos. Dona Maura resistiu, mas acabou cedendo e topando deixar BH. Só Anita, a caçula, na faculdade de administração, ainda não foi.
João, a mulher Fabiana, e o filho Luiz Carlos, de 7, estão felizes com a vida nova. Domingo, depois que nossos convidados se foram, Violeta e eu conversamos muito sobre a história de vida de João Elias. Minha mulher estava comigo e ouviu o amigo, por horas, contar sobre os irmãos. Em momento algum, algo ruim. Eterno otimista, João só tinha motivos para se orgulhar da família, agradecer o presente e acreditar no futuro.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
Desde que se mudaram para a Zona da Mata, ele e a família têm vindo muito pouco a Belo Horizonte. “Só em ocasiões muito especiais, Josiel”, diz. Obrigado, João! Foi uma grande alegria rever o amigo otimista e exemplar. Sujeito dos mais trabalhadores e alegres de que já se teve notícia. De família de poucos recursos, irmão mais velho dos nove filhos de dona Maura, João, aos 8 anos, começou a trabalhar por iniciativa própria para a judar em casa.
Estudou só até o que era chamado “primeiro grau”. Mesmo assim foi reprovado no último ano, na oitava série. Estudava à noite. Levantava às 4h30, na Região da Pampulha, para trabalhar como servente de pedreiro. Depois do dia inteiro no serviço pesado, ainda reunia forças para ir para à escola. Foi quando a gente se conheceu. Ele, pregado de tanto cansaço, dormia na sala, no último horário, por volta das 22h. Não era para menos.
Resultado: aos 16 anos, reprovado na oitava série. Na ocasião, falava que estudar não era para ele. “Tenho é que trabalhar. Ganhar dinheiro pra ajudar a minha família”, disse-me. Nunca esqueci. No ano seguinte, até estava matriculado, mas não voltou aos bancos da escola. Encarou firme o trabalho e ajudou a mãe a sair do aluguel com os irmãos mais novos. Como ele, todos os outros filhos de dona Maura seguiram o caminho do trabalho.
Depois que João deixou a escola, ficamos um tempo sem contato. Até que, por essas manobras do destino, Marília, mocinha mais velha da dona Maura, veio parar no meu táxi. Cinco anos passados, não dei conta de reconhecer a irmã do João. Estava crescida e bastante mudada. Mulher feita. Retomamos o contato e a boa amizade. João havia deixado o serviço de servente e juntado dinheiro para comprar três carroças e trabalhar com outros dois irmãos.
Fiquei triste quando soube da morte do pai dos meninos, vítima de acidente de ônibus. A situação que já era difícil ficou ainda mais complicada. E o que, na época, já me impressionava é que, na casa de dona Maura, com nove filhos, ninguém reclamava da vida. Todos, sempre, cheios de otimismo. Havia alegria em tudo naquele endereço. Uns pelos outros em toda e qualquer circunstância. Jamais conheci família mais unida, alegre e otimista na vida.
Enquanto João Elias, Humberto e Chico tocavam o negócio das carroças em serviço de limpeza urbana, dona Maura e as filhas trabalhavam – lavando e cozinhando para particulares. Há dois anos, João Elias juntou recursos com irmãos e cunhados. Juntos, compraram uma terrinha para investir na plantação de grãos. Dona Maura resistiu, mas acabou cedendo e topando deixar BH. Só Anita, a caçula, na faculdade de administração, ainda não foi.
João, a mulher Fabiana, e o filho Luiz Carlos, de 7, estão felizes com a vida nova. Domingo, depois que nossos convidados se foram, Violeta e eu conversamos muito sobre a história de vida de João Elias. Minha mulher estava comigo e ouviu o amigo, por horas, contar sobre os irmãos. Em momento algum, algo ruim. Eterno otimista, João só tinha motivos para se orgulhar da família, agradecer o presente e acreditar no futuro.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Genevieve, a boneca de Sete Lagoas
Helvis, mecânico, machão desembestado, já ouviu muitas histórias sobre os feitos de Madame Sicrana. De um lado, que a vidente é anjo caído, disfarçado. Do outro, dizem, ela é o diabo em forma de mulher feia. E ela é feia. Tem a mulher feia. Tem a mulher muito feia e tem a Madame Sicrana. Incrédulo, Helvis nunca levou a sério esse negócio de despacho, terreiro e encruzilhada. Dia desses, em conversa de botequim, ouviu de amigo: “O bilau do meu tio nunca mais subiu”. Desconfiado, reagiu: “Fala sério!”.
Tunin, o amigo, emendou a conversa: “Tô falando. Minha tia foi lá na madame e voltou muito estranha. Aí, numa sexta-feira, lá pela meia-noite, na esquina da minha casa, da janela do meu quarto, eu vi: minha tia sangrou uma galinha garnizé, esquartejou um pinto preto de pescoço pelado e embrulhou os pedacinhos numa calcinha branca, que ficou toda vermelha de sangue… Ela resmungava: “Zé, Zé! Zé, Zé!”. Zé é o nome do meu tio, irmão da minha mãe. Ele tinha fugido com uma colega de serviço. Um mulherão, uma indecência. Nunca vi mulher mais gostosa. Uma semana depois, a gostosona largou o tio Zé e saiu espalhando que ele era brocha. O cara se acabou. Tá na pior”.
Helvis, que acreditava ter resposta para tudo, não deixou por menos: “Vai vê seu tio já era boiola. Bicha-moça. Gilete. Era boneca, já gostava de dormir na caixa”.
Aquilo deixou Helvis pra lá de encucado. Então, o machão de Sete Lagoas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, resolveu conhecer a madame. Marcou consulta e foi ver a macumbeira. O mecânico até molhou as calças só de ver Sicrana. Não de medo. De susto. Nunca tinha visto na vida mulher tão feia. Sicrana mandou na lata, logo que bateu o olho em Helvis: “Ce vai virá moça!”. Duzentos real!
Aturdido, Helvis pagou sem reclamar e deixou o endereço. O mecânico já saiu de lá mudado. Abandonou a oficina e virou dançarino de boate gay. Casou-se com Tonhão do caminhão e acaba de cortar o pingolim. Até nome novo ganhou: Genevieve.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
quarta-feira, 10 de abril de 2013
A miséria no olho da rua
O assunto merece reflexão. Nos dois últimos anos, em “turnê” com companhia teatral pelo interior de Minas Gerais, fiquei bastante encabulado com a ausência de pedintes e moradores de rua na grande maioria das cidades visitadas. Todo mundo bem, trabalhando e dono de casa. Especialmente, no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Será mesmo que, por essas bandas, tudo anda tão bem assim?
Em vários lugares, de muitos moradores, ouvi que, ali, não havia mendigos porque eles chegam e são despachados no mesmo dia. Não são bem-vindos. Para muitos, sujam e desvalorizam a cidade. Provocam uma tremenda sensação de insegurança e atraem outros, que atraem outros… e outros. Carlos, o amigo produtor cultural, observa: “A boa gente pobre, miserável, podia mesmo não estar nas ruas. Não porque são despachados. Mas pelo fim da miséria, das drogas e da falta de vontade política… no interior e nos grandes centros. Isso sim!”, sonha.
Enquanto isso, os “fiscais”, implacáveis, despacham pela ordem e limpeza pública. “Tem muita gente vigiando na rodoviária. Quando alguém desembarca, estranho, sem rumo, com pinta de pobre que vai ficar na rua, o fiscal dá um prato de comida, ajuda no que é possível, e paga a passagem para a capital”, revelou o pipoqueiro antenado com o movimento de sua terra natal. Em outra cidade vizinha, linda, cheia de praças, a comerciante endinheirada também afirmou que, lá, “morador de rua não tem vez”.
“Aqui, eles têm que tomar o rumo de outro lugar no mesmo dia. Tem muita gente organizada, disposta a evitar que os moradores de rua venham afear o município”, diz a mulher. Fato é que, em Belo Horizonte, segundo o Movimento Nacional de População de Rua, em seis anos, o número de sem-teto dobrou. Já são 2,2 mil. Em 2006, eram 1,1 mil. Um retrato da miséria, pelo olho da rua, que, infelizmente, está longe de acabar no Brasil.
Há também outro agravante já conhecido: as drogas. O crack está tomando conta e acabando com a vida de muita gente. O mal que assombra todas as classes sociais brasileiras está entre todas as idades. É caso de saúde pública. No interior, em algumas cidades, o crack está empobrecendo famílias inteiras. “Meu irmão sempre foi trabalhador, honesto. Começou a mexer com isso e acabou. Perdeu o que tinha e o que não tinha”, conta Josué, o frentista.
A família do Josué tem tradição no trabalho em campo, nas plantações de soja, café e com gado de corte. O homem simples, trabalhador desde garoto, só tem a lamentar os últimos tempos. “Não é só meu irmão não. Tem muito primo e conhecido também que largou a lavoura pra mexer com droga. Só não tão morando na rua porque Deus não deixa. Só que não vai demorar, se continua como tá, vão é morrer, né!?”.
Se, no interior, o crack é tão assustador, podemos imaginar, então, o tamanho do mal que tem assombrado Belo Horizonte. Aqui, não temos notícias de “fiscais” despachando os moradores de rua para canto algum do país. E esse número absurdo, 2,2 mil, dobrado em seis anos? Não é preciso rodar muito pela cidade para encontrar os viciados largados pelo espaço público, próximo ao hipercentro. É a miséria tomada pelo tráfico. Só não vê quem não quer, amigo leitor. Só quem não quer.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
segunda-feira, 8 de abril de 2013
O castigo do Francisco
Dois irmãos, únicos. Filhos de dona Dejanira com sujeito sem
importância. Um, Joaquim, de 27, acaba de voltar dos Estados Unidos, às
pressas, pela pouca sorte da família. Há três anos o caçula ganhava a
vida como copeiro em Nova York. O outro, Francisco, de 41, o Chico, está
preso. Condenado a sete anos por tráfico de drogas. Começou vendendo
cachaça de fusquinha laranja, acabou distribuindo pó com jipão
importado. A condenação do filho predileto foi golpe duro demais para a
cozinheira. Dejanira teve piripaque de tristeza e passou maus bocados,
vítima de acidente vascular cerebral, em CTI de hospital público de Belo
Horizonte.
Do aeroporto internacional de Confins, de mala e tudo, Joaquim foi direto para o hospital. Implorou ao chefe de plantão para entrar e ver a mãe, ainda que fora de hora. O bom homem careca, de olhos verdes, solidário ao drama do rapaz, quebrou o protocolo. A mãe sorriu com os olhos e, grogue, com o canto seco da boca, balbuciou o nome do filho preso: “Chico... Chico...” E tome lágrima de matar o coração. Joaquim prendeu o choro e deixou o hospital. Passou em casa na Região de Venda Nova para deixar as malas. Lá, pelos vizinhos, soube melhor das trapalhadas do irmão sem juízo.
Orientado por conhecido, Joaquim se cadastrou para poder ver o parente. Enquanto aguardava parecer para entrar no presídio, teve que enterrar a mãe. Na noite em que o filho caçula voltou dos EUA, Dona Dejanira teve duas paradas cardíacas seguidas e não resistiu. Outro bom doutor foi quem ouviu o último suspiro triste da cozinheira: “Chico”. Coube ao copeiro dar a notícia da morte da mãe ao irmão condenado. Diante do sujeito, o silêncio mais doído de duas vidas. Foi Chico quem puxou assunto qualquer para despistar o desespero e a vergonha.
– Tava com saudades de você, Kim. Tá gordo, chique, até com cara de rico. (pausa) Ainda bem que você veio. Liguei pra pedir sua ajuda só pra segurar a barra com a mãe. Só até eu sair daqui.
– Cara, olha só a merda que você fez. Que você andava perdido todo mundo sabia... que vivia preso por não pagar a pensão dos meninos, disso eu fiquei sabendo lá... mas virar traficante? Que merda você tem na cabeça?
– Vai esculachar? Até você veio aqui pra me dar lição de moral? (pausa) A mãe é sua também. Quando você decidiu tentar a vida nos Estados Unidos, eu dei a maior força... quem ficou aqui, morando com ela fui eu. Agora, tô ferrado. Só isso.
– Ferrado e levando todo mundo com você... você sabe o que os seus filhos estão sentindo? Ontem, eu tive com o André e ele disse que você tá morto pra ele. Sabe porque? Não é porque você tá aqui não... é porque tem três anos que você não dá um telefonema pra saber se ele tá vivo.
– Não se mete na minha vida. Você só tem que cuidar da mãe até eu ajeitar as coisas.
– A mãe morreu. Tem três dias. Desgosto. A última coisa que ela disse foi o seu nome.
Silêncio de morte entre os dois. Joaquim respira fundo e sai de cena. Chico, o condenado, mergulha a cabeça entre as mãos como o mais perdido dos mortais.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
Do aeroporto internacional de Confins, de mala e tudo, Joaquim foi direto para o hospital. Implorou ao chefe de plantão para entrar e ver a mãe, ainda que fora de hora. O bom homem careca, de olhos verdes, solidário ao drama do rapaz, quebrou o protocolo. A mãe sorriu com os olhos e, grogue, com o canto seco da boca, balbuciou o nome do filho preso: “Chico... Chico...” E tome lágrima de matar o coração. Joaquim prendeu o choro e deixou o hospital. Passou em casa na Região de Venda Nova para deixar as malas. Lá, pelos vizinhos, soube melhor das trapalhadas do irmão sem juízo.
Orientado por conhecido, Joaquim se cadastrou para poder ver o parente. Enquanto aguardava parecer para entrar no presídio, teve que enterrar a mãe. Na noite em que o filho caçula voltou dos EUA, Dona Dejanira teve duas paradas cardíacas seguidas e não resistiu. Outro bom doutor foi quem ouviu o último suspiro triste da cozinheira: “Chico”. Coube ao copeiro dar a notícia da morte da mãe ao irmão condenado. Diante do sujeito, o silêncio mais doído de duas vidas. Foi Chico quem puxou assunto qualquer para despistar o desespero e a vergonha.
– Tava com saudades de você, Kim. Tá gordo, chique, até com cara de rico. (pausa) Ainda bem que você veio. Liguei pra pedir sua ajuda só pra segurar a barra com a mãe. Só até eu sair daqui.
– Cara, olha só a merda que você fez. Que você andava perdido todo mundo sabia... que vivia preso por não pagar a pensão dos meninos, disso eu fiquei sabendo lá... mas virar traficante? Que merda você tem na cabeça?
– Vai esculachar? Até você veio aqui pra me dar lição de moral? (pausa) A mãe é sua também. Quando você decidiu tentar a vida nos Estados Unidos, eu dei a maior força... quem ficou aqui, morando com ela fui eu. Agora, tô ferrado. Só isso.
– Ferrado e levando todo mundo com você... você sabe o que os seus filhos estão sentindo? Ontem, eu tive com o André e ele disse que você tá morto pra ele. Sabe porque? Não é porque você tá aqui não... é porque tem três anos que você não dá um telefonema pra saber se ele tá vivo.
– Não se mete na minha vida. Você só tem que cuidar da mãe até eu ajeitar as coisas.
– A mãe morreu. Tem três dias. Desgosto. A última coisa que ela disse foi o seu nome.
Silêncio de morte entre os dois. Joaquim respira fundo e sai de cena. Chico, o condenado, mergulha a cabeça entre as mãos como o mais perdido dos mortais.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
segunda-feira, 1 de abril de 2013
A dama da noite
O Marciano nunca mais foi o mesmo depois daquela noite de Páscoa. Faz anos que o vendedor de automóveis conheceu a mulher pintada. Jamais experimentou noitada como a que teve com a antiga moradora do Bairro Alípio de Melo. A mulher, que cheirava a dama-da-noite, tinha olhar de promessa e gosto de rosa. Foi hora de entrega sem limites. Para nunca mais.
Conheceram-se assim, ao acaso, em noite rara de chuva e ventania. Ele, mais ou menos feliz, havia acabado de deixar o bar com os amigos. Ela, parada sobre o quebra-molas. Linda, com vestido branco molhado, desenhado no corpo perfeito. Ao diminuir a velocidade para ultrapassar lombada, Marciano bateu os olhos na mulher de sardas e parou o carro. Ficou ali, boquiaberto, a observá-la pelo retrovisor. Ela caminhou em sua direção e, sem dizer palavra, abriu a porta e entrou no carro.
Minuto de silêncio. Vidros fechados, embaçados no Verona. O rádio, desligado, funcionou sozinho. Música antiga, melosa, dos anos 1970. Motor apagado, Marciano não tirou os olhos da carona. Esquadrinhou cada curva em gotas. Respiraram juntos um só suspiro. Deram-se as mãos, num ato lento e simultâneo. Frias, geladas. Apertaram-se as linhas da vida. Leram-se. Beijaram-se demoradamente, sob o vaivém das paletas para expulsar as águas no vidro. Quarentão solitário, ele ardeu em vontade pela estranha. Um ou outro carro cortava a via naquela meia-noite. A chuva ganhava força à medida que o casal se dedilhava. No ar, aroma. Ao vento, sussurros.
Roupas arrancadas com violência. Fizeram valer a suspensão do Verona. No rádio, por conta própria, mais volume para a balada dançante. Baile louco, acinturado. Uma. Duas. Três vezes nos estofados inclinados. Ah… Grito parado no ar. Desmanchados, sem pressa, cataram suas vestes. Ajeitaram os cabelos em sorriso e cansaço. Ao fim da última canção, o aparelho parou de tocar. Ele bem que tentou. Não teve jeito. Enguiçado.
“Preciso ir”, lamentou a estranha. “Eu te levo”, ele respondeu. “Eu te mostro o caminho”, ela sorriu. Marciano dirigiu até pequena rua escura. “É aqui”, ela disse, apontando para a placa azul 77. Longa pausa. “Posso entrar?”, ele quis saber. “Melhor não”, pontuou a sardenta, doce. Palmas tocadas em despedida. Ela desceu e venceu o portão enferrujado. Bela, sorriu antes de sumir no quintal.
Marciano partiu sob tempestade. Não pregou os olhos até amanhecer. Trabalhou durante a manhã com a cabeça na mulher pintada. Na hora do almoço, decidiu reencontrar a estranha. Com dificuldade, localizou a rua estreita. Ao chegar diante do número 77, reconheceu a casa. Abandonada, porém. Emudeceu-se quando soube, pelo vizinho, que a moradora, uma bela mulher ruiva, ali, havia morrido há mais de cinco anos.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
segunda-feira, 25 de março de 2013
E o bandido virou pó
Posto que é chama: o destino. Antes da reviravolta, a história: Ananias, empresário, dono de estabelecimento de gasolina, perdeu tudo para o empregado larápio, um tal Rosalvo. O sujeito roubou combustível do patrão por anos. Em noites de calmaria, lá estava o gatuno a desviar parte do estoque com a ajuda de primo comparsa. Homem de aparente confiança, o gerente nadou de braçada sem levantar suspeita.
Rosalvo foi contratado ainda rapaz. Empregado, foi bom moço por algum tempo. Até que, incentivado por parente bandido, decidiu virar a casaca. No início, perdido entre sentimentos desonra, até sentia certa vergonha. Depois, seduzido pelo dinheiro fácil do esquema armado por quadrilha especializada, a cara-de-pau parou de arder.
Espertíssimo, Rosalvo ficou rico sem exibir excessos. Guardava a maior parte do dinheiro em esconderijo na garagem de casa construída na periferia. Mão-de-vaca, para justificar o imóvel e o carro novo, dizia-se bom comerciante e espalhou que emprestava dinheiro a juros. De fato, a agiotagem lhe trouxe ainda mais recursos. Do casamento com mulher honesta, de bem, um único filho: Adílio. Moço estranho, de pouca conversa.
Por outro lado, na vida de Ananias, o inferno. Roubado, em dificuldades, o comerciante começou a quebrar. E, num desses acontecimentos que superam a ficção, não é que o patrão teve que pedir emprestado ao empregado? O gerente endinheirado teve a maior boa vontade e ainda ofereceu taxa bastante generosa de 5%. Mas a dívida não durou muito: pouco mais de ano. A liquidação foi rápida e rasteira. Devendo até as cuecas, Ananias se viu obrigado a vender o posto para o pilantra.
E assim, o acontecimento incrível: de patrão a empregado do ladrão. Rosalvo reformou o estabelecimento com grande loja de conveniência e empregou o ex-proprietário no balcão. Ananias, que acabara de enterrar o casamento, vivia seu maior pesadelo. Como Jó, homem de fé inabalável, o sofredor se manteve firme e acreditava dar a volta por cima. Enquanto isso, Rosalvo, o criminoso, cada vez mais rico.
O que ninguém podia imaginar é que o fim da festa do surrupira estava próximo. Adílio, o filho rebelde, viciado em crack, estava em grande aperto com traficante. Em busca de dinheiro, num acesso de loucura, Adílio esfaqueou Rosalvo na garagem de casa. Noiado, espalhou gasolina pelo cômodo e ateou fogo no corpo do pai. O agiota de fachada morreu em brasa sobre fortuna em notas de R$ 100, escondidas sob o piso de madeira incendiado. Naquela noite, de longe pôde ser visto o clarão da casa em chamas.
No enterro do patrão e ex-funcionário, Ananias, sentido e inocente, ajudou a carregar a urna barata de tampa fechada. Dizem que foi lá que ele arrebatou o coração da viúva do bandido em pó e, em trágica reviravolta, retomou o estabelecimento de sucesso.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
quarta-feira, 20 de março de 2013
"A busca" é filme que merece atenção
O amigo leitor, sempre presente neste quintal, sabe bem da minha paixão pelo cinema. É um envolvimento quase visceral, vindo dos tempos de menino – lá nos idos de 1970 –, quando, o período de férias, além de bons passeios, também significava diversão e emoção no Cine Brasil.
Impossível esquecer, na Praça Sete, as boas histórias de Os Trapalhões. Era uma farra. Entre todas as paixões ensinadas pelo velho Botelho, o cinema, certamente, está entre as maiores. Depois de Didi Mocó e companhia, descobri e dei boas gargalhadas com a boa gente mais antiga: Chaplin, Mazaroppi, Oscarito e Grande Otelo.
Dito isso, vez por outra, não posso deixar de dividir com o amigo de Bandeira Dois, alguns dos bons momentos que as salas de cinema me proporcionam. Neste fim de semana, A busca, produção da O2 Filmes, com Wagner Moura, Mariana Lima e participação especial de Lima Duarte, foi daquelas gratas surpresas do cinema nacional.
Ainda que com alguma deficiência técnica no que diz respeito ao áudio – impressionante como os filmes brasileiros não dão jeito de vez no assunto –, o filme toca pelo bom roteiro, direção e interpretação do protagonista. Wagner Moura dispensa comentários. É, certamente, um dos melhores intérpretes de sua geração.
E não digo isso apenas pelo seu trabalho já consagrado na TV e no cinema. Tive o privilégio de vê-lo no teatro há mais de 10 anos em “A máquina”, de João Falcão, e o sujeito, ao vivo, é ainda muito melhor ator. Sabe mandar muito bem um texto e valoriza cada pausa, cada silêncio, das verdades da cena.
Em “A busca”, no papel de um pai desesperado no rastro do filho adolescente, que foge de casa, Wagner Moura vale o programa. O drama fala de descobertas, dos conflitos tão comuns das famílias contemporâneas, cada vez mais abafadas pelas urgências vazias.
Trata-se de uma história de ausências. Do pouco tempo para os valores mais sagrados das relações entre os que se amam. Em resumo, o sujeito, pai, perdido, sai em busca do filho e acaba por encontrar a si mesmo, além de encarar relação mal resolvida com o pai, muito bem interpretado pelo veterano Lima Duarte.
Para pais ou filhos, “A busca” é daqueles filmes que merecem atenção.
Bandeira Dois - Josiel Botelho
segunda-feira, 18 de março de 2013
"Mim, Branca de neve. Você, Seteanão"
O negócio do Canastra era se arrumar. “Ainda chego lá!” Tá certo. Que mal há nisso? O problema é que ele era capaz de prostituir a mãe para se ajeitar. Dona Betinha bateu as botas cedo e, cheia de desgosto, não teve tempo de ver o filho tomar jeito na vida. Tragédia. Engasgou-se com a dentadura e passou dessa para melhor. Até no velório, ele tentou se aproveitar do drama.
Ao lado do caixão, fingiu dor sentida. Mas não sabia chorar. Testa franzida, olhos em águas falsas, provocadas por um tal cristal japonês (recurso muito utilizado por atores ruins para provocar choro mentiroso nas novelas). Um fiasco. Não conseguiu enganar nem os três primos cegos. O tio ricaço, dono de grande mineradora, também não caiu na encenação. “Esse salafrário é uma vergonha!”, comentou com um irmão.
Espinafrado pelos olhares da parentalha, o picareta nem ficou para o enterro no Cemitério da Paz. Caiu no mundo e foi tentar a sorte em São Paulo. Com quase 30 anos nas costas, sem profissão ou vestígio de vida útil, estava decidido a vender o corpo em clube para mulheres. Foi onde conheceu o Jonas, empresário afeminado e cheio da nota. Negociou o quadril ali mesmo e armou a barraca na cobertura do moço carente.
Para quem vivia em quartinho ordinário, perto da rodoviária, um apartamentão nos Jardins foi salto com vara. Só que a união não durou muito. O parceiro generoso chegou mais cedo em casa e flagrou o giletão infiel na cama com a vizinha. O traíra ainda tentou abafar o babado: “Não é o que você tá pensando, bebê…”. Conversa! Resultado: foi obrigado a deixar o ninho luxuoso, com uma mão na frente e a outra atrás.
Na rua da amargura, descolou bico em hotel meia-boca na região central. Boa lábia, até cantinho para dormir conseguiu com a gerente do lugar. Carregador de malas, não perdeu as esperanças. “Ainda chego lá!” Um troquinho aqui, outro ali… e ele foi juntando grana para fazer curso de teatro barato. Viu anúncio no jornal: “Venha brilhar na televisão! Você pode, você consegue! Você é capaz, você é o cara!”
A propaganda arrebatou o interesseiro. Na escola, caiu nas graças de um famoso diretor, chegado num moçoilo ambicioso. Puta-velha, o ex-galã de tevê aplicou exercício de caras e bocas: “Amor, tá muito ruim… não sabe envergar o rosto? Expressão, amor… Expressão… parece uma vaquinha de presépio…”. Depois do ensaio, jantarzinho a dois. Caíram na lama em indecência, no casão da estrela serelepe.
O canastrão, em toalha, havia acabado de acender um cigarro no varandão do duplex, no Morumbi, quando um agigantado ex-namorado da celebridade invadiu a cena. Bêbado, partiu para cima: “Te mato, bichona! Ele é meu!” Entre tapas e tabefes, numa gravata, o invasor teve o pescoço quebrado e morreu na hora. Polícia, bafáfá… cadeia. Ainda pela manhã, na cela imunda e escura, o canastra foi arranjado por companheiro fortão: “Mim, Branca de Neve. Você, Seteanão”.
Foi quando, enfim, o moço oportunista aprendeu a chorar em verdade.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
segunda-feira, 11 de março de 2013
A gata baladeira
Quem melhor quer saber de Melissa, a Mel, de 26 anos, depois da condenação por tráfico de drogas, é a irmã de criação, de 17. Luiza, tomada por amor ainda maior, não quer arredar o pé da penitenciária nos dias de visita. Toda semana a menina marca presença com agrados de carinho para a irmã. Os pais das duas, separados, sem rumo ou estrutura, vivem de outras urgências doídas: o homem, alcoólatra, na luta desigual contra a depressão; já a mãe, usuária de cocaína, desde a separação há 11 anos, enrabichada com gente que não presta.
Foi por ocasião do fim do casamento de Juliano e Magali, em 2002, que a vida de Mel foi tomada pelo assombro das baladas sem limites. Quando ela estava para comemorar 15 anos, com 400 convites já na gráfica para a festa de aniversário, Juliano e Magali, em crise, decidiram cancelar a festa e a vida sob o mesmo teto. Revoltada, a adolescente se afundou no mundo das amizades perigosas. Tornou-se, além de péssima aluna, a garota mais baladeira da tradicional escola da Região Centro-Sul. Por fim, depois de concluir o ensino médio em supletivo barato, Mel parou de estudar e começou a promover festas e traficar ecstasy.
No ano passado, no Aeroporto de Confins, no desembarque de vôo vindo da Inglaterra, a bela Melissa caiu em operação da Polícia Federal. Julgada, foi condenada a 5 anos em regime fechado. Ontem, dia de visita, Luiza, levou presente e seu melhor sorriso para a irmã encarcerada. Boas notícias também, trazidas de conversa que teve naquela manhã com o pai, Juliano.
– Tenho ótimas notícias...
– O que?
– Abre o presente primeiro...
Dentro da sacola, um belo vestido floral. Melissa o coloca junto ao corpo com tristeza.
– É lindo.
– Que carinha mais triste é essa? Você ainda não ouviu a boa notícia...
– Qual é?
– O pai. Tá melhor e disse que na próxima semana vem ver você. Hoje, faz 43 dias que ele não bebe.
– Que bom. Mas, diz que ele não precisa aparecer. Que eu tô bem e sei me virar sozinha.
– A boa notícia não é que ele vem aqui. A boa notícia é que ele tá melhor da depressão e tá arrumando um bom advogado pra tirar você daqui. Aí, você vai poder usar o vestido.
– Ninguém do pai vai me tirar daqui. O tio Maurício já disse que tá fazendo o que pode. E eu confio nele... tenho que confiar. Vou sair daqui sozinha. Não vai demorar... você vai ver. E tem coisa que a gente até se acostuma, Luiza. (longa pausa) E a mãe? Você teve notícia dela?
– Agora, ela só quer saber de um namorado que arranjou lá em Trancoso. Só fica na casa da praia. (pausa) Anteontem, Dona Mercedes ligou e disse pro pai que tava preocupada porque socorreu a mãe caída na rua outra vez, babando e se debatendo que nem gente doida. Eu tava na extensão e ouvi tudo.
– O pai tinha que deixar ela morrer. Só assim pra ele ficar bom.
Luiza olha profundamente os olhos bonitos da irmã. Respira e manda, na lata:
– Vou sair de casa, Mel.
– Como assim? (pausa) Você tem tudo morando com o pai...
– Quero ter a minha vida... liberdade, sabe!? Ser como você... dona do meu nariz.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
segunda-feira, 4 de março de 2013
Nós Outros
Primeiro curta da Casa do Ator em parceria com a
Guerrilha Filmes, Nós Outros entrelaça,
numa penitenciária qualquer, vários dramas pessoais estabelecidos a partir da
ausência. Cinco histórias de amor e afeto, assombradas pela impossibilidade da
vida comum além dos muros da prisão. Em fase de treinamento e levantamento de
cenas, elenco e parte da equipe técnica seguem imersos nas agruras do tema.
A menina bailarina
A filha de Gracielle sonhava ser bailarina. Desde garotinha, Bianca vivia na ponta dos pés. Para a pequena das pernas longas, a dança é a metade da razão de viver. A outra metade é a mãe, mulher de pouca sorte, para quem ela sempre fez tudo. Quando o pai abandonou o lar para morar nos Estados Unidos com a melhor amiga da família, foi a mocinha – na época, com 8 anos – quem melhor cuidou da dona de casa. Tia Iolanda, vizinha de frente, esteve por perto para ajudar a sobrinha a manter a casinha de fundos em paz.
O abandono do marido, Eduardo, foi golpe duro demais para a psicóloga. Logo que teve Bianca, Gracielle foi convencida pelo companheiro a largar emprego de futuro para cuidar melhor do rebento. “A gente não precisa de dinheiro, amor. A menina precisa é da mãe, dentro de casa”, disse o homem. Eduardo, taxista, mostrou na ponta do lápis para a mulher que com o salário que ela ganhava era mais negócio ficar em casa do que pagar escolinha. E assim foi. Até que o camarada infiel decidiu “ganhar a vida na América”, na companhia da amante, cozinheira.
Gracielle adoeceu quando soube da trairagem. Quem contou tudo foi Iolanda, a cunhada, revoltada com a atitude do irmão. Já era tarde da noite: “Tenho que contar porque não tá certo e ele está morto para mim. O Dudu não foi sozinho… foi com a desgraçada da Amanda. Eles são amantes. Amantes!”. Bianca estava acordada e ouviu tudo. Amanda era figura das mais presentes naquele endereço. As três – Gracielle, Iolanda e Amanda – cresceram e estudaram juntas nas salas de aula do Estadual Central.
Os dias seguintes foram de tristeza profunda para a dona de casa, revoltada. Por amor à Bianca, a psicóloga até reuniu forças para seguir. Batalhou emprego e conseguiu algumas oportunidades, mas, com o coração ferido, Gracielle não dava conta de nenhuma ocupação profissional. Iolanda, comerciante bem sucedida, não deixava faltar nada para as duas inquilinas queridas. Desempregada, Gracielle fazia questão de levar e buscar a filha no balé.
Na escola, a psicóloga passava o tempo dos ensaios num canto, do lado de fora do salão, ouvindo boa música vinda da janela. Cinco anos corridos, Amanda voltou dos EUA para ver a mãe com câncer. Eduardo ficou em Nova Iorque, cuidando dos filhos Lucas e Matheus, gêmeos, de 2 anos. Já era noite, quando, na saída do Hospital das Clínicas, na Avenida Alfredo Balena, Gracielle esperou Amanda para descarregar ressentimento e revólver 38.
Dia de visita, presente feito à mão, na cela, e novidade na penitenciária de mulheres: mãe e filha matam a saudade no pátio. Na próxima semana tem estreia da companhia de dança de Bianca, que esta semana faz 15 anos. Sonho antigo, de menina: apresentação no Grande Teatro do Palácio das Artes. Mamãe não vai poder estar na plateia.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
O abandono do marido, Eduardo, foi golpe duro demais para a psicóloga. Logo que teve Bianca, Gracielle foi convencida pelo companheiro a largar emprego de futuro para cuidar melhor do rebento. “A gente não precisa de dinheiro, amor. A menina precisa é da mãe, dentro de casa”, disse o homem. Eduardo, taxista, mostrou na ponta do lápis para a mulher que com o salário que ela ganhava era mais negócio ficar em casa do que pagar escolinha. E assim foi. Até que o camarada infiel decidiu “ganhar a vida na América”, na companhia da amante, cozinheira.
Gracielle adoeceu quando soube da trairagem. Quem contou tudo foi Iolanda, a cunhada, revoltada com a atitude do irmão. Já era tarde da noite: “Tenho que contar porque não tá certo e ele está morto para mim. O Dudu não foi sozinho… foi com a desgraçada da Amanda. Eles são amantes. Amantes!”. Bianca estava acordada e ouviu tudo. Amanda era figura das mais presentes naquele endereço. As três – Gracielle, Iolanda e Amanda – cresceram e estudaram juntas nas salas de aula do Estadual Central.
Os dias seguintes foram de tristeza profunda para a dona de casa, revoltada. Por amor à Bianca, a psicóloga até reuniu forças para seguir. Batalhou emprego e conseguiu algumas oportunidades, mas, com o coração ferido, Gracielle não dava conta de nenhuma ocupação profissional. Iolanda, comerciante bem sucedida, não deixava faltar nada para as duas inquilinas queridas. Desempregada, Gracielle fazia questão de levar e buscar a filha no balé.
Na escola, a psicóloga passava o tempo dos ensaios num canto, do lado de fora do salão, ouvindo boa música vinda da janela. Cinco anos corridos, Amanda voltou dos EUA para ver a mãe com câncer. Eduardo ficou em Nova Iorque, cuidando dos filhos Lucas e Matheus, gêmeos, de 2 anos. Já era noite, quando, na saída do Hospital das Clínicas, na Avenida Alfredo Balena, Gracielle esperou Amanda para descarregar ressentimento e revólver 38.
Dia de visita, presente feito à mão, na cela, e novidade na penitenciária de mulheres: mãe e filha matam a saudade no pátio. Na próxima semana tem estreia da companhia de dança de Bianca, que esta semana faz 15 anos. Sonho antigo, de menina: apresentação no Grande Teatro do Palácio das Artes. Mamãe não vai poder estar na plateia.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho
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