Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

quarta-feira, 30 de março de 2011

Bully o quê?

Bullying. É essa a palavrinha monstra muito usada nos debates com os amigos da praça na última semana. Desde que o companheiro Oscar mostrou no celular um vídeo envolvendo dois garotos australianos, não se fala em outra coisa em nossos encontros. É mesmo de impressionar. Parece que a história do menino grande, muito simpático, que, para se defender, quase quebrou um moleque muito atrevido no pátio da escola rodou meio mundo. Daí, desde então, “bullying” me ocupa as ideias. Procurei ajuda de gente graúda, doutora, na universidade, para saber o que significa exatamente esse nome feio. Apurado, é ainda mais feio do que imaginei.

Na verdade, é uma crueldade antiga, que muitos de nós, adultos, sabemos o que significa. Só que agora, na onda midiática, vem ganhando projeção internacional como “bullying”. Em português popular, de praça, trata-se de uma espécie de intimidação, de um abuso, praticado por alguém (ou grupo) que, de alguma maneira, detém mais força ou poder. O alvo, vítima desse acossamento, dessa intimidação, quase sempre passa por essa espécie de tortura em silêncio. No caso do garoto australiano, ele resolveu dar um basta às agressões físicas que andava sofrendo. Defendeu-se com um golpe daqueles de luta livre e acabou se tornando herói para muita gente. Certou ou errado? Violência gera violência. Não vamos entrar fundo no assunto porque isso é para mais de metro e nosso quintal é estreito. Mas não dá para deixar de comentar que esse tal “bullying” é um grande mal contra o qual devemos lutar.

Entre os que me são caros, o respeito às diferenças é princípio fundamental. Não está certo desrespeitar ninguém. Espantam-me as atitudes maldosas por parte de algumas crianças. Fui criança, sou pai de dois adolescentes e tenho muitos afilhados. Faço o que posso para esquadrinhar esse universo das relações entre os pequenos. Pai separado, não abro mão de acompanhar passo a passo a vida dos meus garotos. Lembro-me bem de quando o Gabriel brigou na porta da escola, lá no Espírito Santo. Foi numa segunda-feira. Ligou-me chorando, com o olho roxo, dizendo que não iria voltar mais ao colégio. No dia seguinte, lá estava eu em Vila Velha, para tentar entender o que estava acontecendo. Norma, minha ex-mulher, e eu conversamos com a família do outro garoto, vizinho. Foi briga besta – quase sempre é – coisa de garoto. Tanto foi que, na semana seguinte, os dois já haviam se acertado e são amigos até hoje.

O Gabriel sempre foi muito calado, reservado mesmo. Na época, não sabia desse nome “bullying”, mas fiquei muito preocupado exatamente com o que essa palavra representa. Hoje, revirando o passado, lembrei-me da Rosa, amiga dos meus tempos de menino. Ela vivia sozinha pelos cantos da escola. Não conversava com ninguém e estava sempre chateada com os colegas, que riam dela porque era ruiva e tinha sardas – o que, para mim, era um charme inesquecível. Um dia, ela simplesmente não voltou mais ao grupo. Nunca mais tive notícias dela. Rosa, minha lembrança, meu carinho. Aqui, assim como meus bons amigos, estou em campanha contra o “bullying”!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 30/3/11

segunda-feira, 28 de março de 2011

O cheiro do Ladro

O Almeida, casado, vivia de ser quem não era. Talvez por medo das amantes interesseiras, talvez por canalhice simplesmente. Era homem de pouca fé e muitos disfarces. Dono de construtora bacana, dessas que sobem arranha-céus, aos montes, em Belo Horizonte. Em coisa de 15 anos reuniu patrimônio de fazer inveja aos gênios da computação. Quarentão descolado, amador, amava as mentiras de luxo que só o teatro sabe contar. Aprendeu a construir personagens em curso livre, no Núcleo de Estudos Teatrais (NET), só para se dar bem com as mulheres. Sua melhor interpretação era a de pobre. Verdade. Tinha até casa simples, montada para dar mais naturalidade e mais realismo ao papel. Apartamentinho de 50 metros quadrados, mobiliado, com vaga presa, no Bairro Nova Gameleira. Uma singeleza.

Também fazia-se passar por advogado, médico, jornalista, produtor de moda e capitão de polícia. Mas nada superava o Almeida operador de telemarketing. Escolheu para pobre ser operador de telemarketing porque se tratava de profissional do bem, muito trabalhador e injustiçado pelo povo mal-amado, de pouca educação ou nenhuma paciência. No fundo – tamanha verdade emprestada ao personagem –, o Almeida tinha tudo para se dar bem na profissão. Era sua melhor performance. Tanto que a deixava para as ocasiões mais especiais. Os passeios em Piúma e Guarapari, por exemplo. No verão, desde 2006, lá estava ele desfilando com seu veículo popular, com som nas alturas, pelas praias capixabas. A mulher e os filhos, claro, ele mandava para o exterior: Punta Cana, Nova York e Paris.

No estacionamento da mansão onde morava, no alto da Avenida Afonso Pena, com a patroa e os filhos, coleção de importados de luxo. Já na vaga presa do Nova Gameleira, um 1.0 prateado, financiado em 60 meses. Parcelado porque o Almeida, de tanto que levava a sério esse lance de personagem, queria experimentar o desgosto de pagar a bagaça em cinco anos. Certa vez, ano passado, até atrasou três prestações só para ter o dissabor de ter um oficial de Justiça na cola. Sem noção o Almeida. Nas suas criações, em honra ao pai falecido, só não inventava sobrenome. Era sempre Almeida: Wilmar; Maurício; Lucas; Douglas; Roberval e Sinésio. O pobre, o Almeida batizou de Cleomar. Incorporado, explicava: “É uma homenagem aos meus avós. Uma combinação de Cleonice com Valdemar: Cleomar”.

E o Cleomar – incrível –, pobre, fazia um sucesso da peste com a mulherada. A figura beirava a perfeição. Até perfume de pobre o camarada usava. Bom e barato. Um tal Ladro que ele descobriu com um dos motoristas da sua construtora. E foi o cheiro do Ladro que deu a ele sua maior conquista: Janira. Uma balconista evangélica que ele conheceu fazendo compras no shopping popular. Levou-a ao ponto de ônibus porque ela não aceitou carona: “Não posso aceitar. Mas se você quiser, domingo tem culto. Aparece lá no templo”, convidou. Bastou a postura da Janira para o Almeida perder o rumo. Domingo pela manhã, lá estava o Cleomar no culto, ao lado da moça. Deixou 10% de pobre na sacola do pastor e nunca mais voltou para a mansão do Mangabeiras.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 28/3/11

quarta-feira, 23 de março de 2011

O sorriso dos assassinos

Rodo diariamente noite adentro e pela manhã recolho a carcaça porque ninguém é de ferro. Ontem, foi difícil pegar no sono com o sorriso da dona Marisa Santana Chaves de Araújo, de 48 anos, assassina confessa de Guilhermino Aparecido da Costa, de 58, estampado nas manchetes dos jornais. Depois de esquadrinhar o noticiário não dei conta de dormir. Foi osso. Fiquei com a imagem da mulher, algemada, sorrindo ao lado do filho, cúmplice no assassinato do sargento reformado da PM, nas ideias. Cena, entre outras, que me assombra em tempos de tão pouco valor à vida. Entristeceu-me, especialmente, a participação do filho de 28 anos no crime. Família é bem maior, de honra, que precisa ser exemplo. Certa vez, li que só por meio da boa família vamos dar conta de combater a violência. Agora essa: mãe e filho em cana por assassinato horroroso. Golpes de barra de ferro e corpo incendiado. E a assassina ri. Mata-se assim hoje em dia: rindo. Não dá para dormir.

Pai de família, estou muito assustado também com a tentativa de assassinato contra a estudante de medicina Maria Luiza Costa, de 21 anos, na noite de sábado, no Bairro Salgado Filho. Que Belo Horizonte é essa, amigo leitor? Se o pai da moça, Aílton Antônio Pinto, não estivesse com a filha, talvez tivesse sido ainda pior. Graças a Deus ela está fora de perigo, assim como o pai que, em luta com o criminoso, também foi agredido. Agora vejam só: o agressor, um colega estudante de medicina, motivado por ciúmes. Nem namorado da moça o sujeito era. É o fim dos tempos. Só mesmo muita fé e oração para pedir proteção aos que amamos. Difícil saber exatamente quem são as companhias de nossos filhos. A gente faz de tudo para proteger, para estar perto, aí, na universidade, aparece pelo caminho um mau elemento disposto a matar. Valei-me pai, criador do céu e da terra. Juízo para esse povo perdido.

Não bastasse os dois casos acima, ainda agora, pelo celular, fico sabendo de um assassinato seguido de suicídio, no Bairro Palmital, Em Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Parece que um homem de 34 anos, descontente com fim da relação, deu dois tiros na ex-namorada de 18 anos e depois se matou. Agora, depois de mais essa barbaridade, é que o sono não vai chegar mesmo. Haja filosofia budista, "mente positiva, metas definidas e alta motivação" para não perder o equilibrio e manter a respiração sob controle. Vendo tudo isso, tanta notícia ruim, a saudade dos filhos aperta, a garganta embarga, a boca fica seca e o coração fica aos pulos. Melhor ligar para o Espírito Santo, lá para Vila Velha, e procurar saber como vão os garotos.

Como certamente diria o velho Botelho, amigo, pai e protetor, o negócio é não perder a esperança de dias melhores e pedir muita paz e muita luz ao coração daqueles montes perdidos que vagam sorrindo por aí. Amém!

Bandeira dois - Josiel Botelho - 23/3/11

segunda-feira, 21 de março de 2011

Frango ao molho pardo

Não se falava noutra coisa. Era conversa de igreja, quartel e padaria. Só na casa do Edgar (75) é que o assunto morria calado. Não era para menos. O velho não merecia o desgosto. Coronel Edgar, reformado e viúvo, homem de regra e ordem, passou a vida a lutar contra desvio de conduta de qualquer razão. Linha duríssima, fez de tudo, em casa e no trabalho, para compartilhar caráter. Melhor para os dois filhos, Jonas (46) e Ricardo (44), crescidos sob o olhar e a bênção da honradez. Mas nem tudo se ensina nessa vida e o militar, hoje em cadeira de rodas – vítima de doença rara –, estava bem perto de sentir na pele o peso da verdade.

Sábado acinzentado. Na casa 6, da Rua 29, hora de almoço a três. Noras e netos estavam para outras bandas, em shopping qualquer. Como de costume, sábado sim, sábado não, era dia dos filhos visitarem o coronel. Na mesa farta, frango ao molho pardo. Ricardo, capitão de polícia, há tempos andava por demais reservado. Enquanto Jonas, advogadozinho de carreira em orgão público, mulherengo e farrista, cada vez mais satisfeito com a vidinha para trás. O capitão nem esperou pelos pratos vazios para desembargar a garganta: “Amanhã, Aninha, minha filha mais velha, completa 21 anos. Tem 47 dias que eu penso no dia de hoje. Pensei que, talvez, pudesse arranjar alguém pra resolver esse problema… mas pensei melhor e entendi que seria covardia da minha parte delegar isso pra outra pessoa”.

O pai e o irmão estacionaram os garfos, confusos com o capitão. Ricardo encarou o velho como quem pede permissão para agir. Sem pressa ou desespero, sacou o revólver e disparou contra o peito de Jonas. Na mesa, diante do coronel, o capitão depositou exame de DNA. No documento, a confirmação da traição do primogênito com a nora, mãe de Aninha: o advogado morto era o verdadeiro pai da moça. Estava ali, escrito, feito e refeito. Coronel Edgar, com a prova entre os dedos, quis ouvir o caçula:

– E a mãe da minha neta?

– Confessou. Disse que tiveram um caso.

– Isso não se faz.

– Matar um irmão?

– Desonrar uma família.

Em silêncio, o coronel e o capitão esperaram pela polícia. Juntos, voltaram aos pratos para, ao menos, não deixar sobrar o frango ao molho pardo.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 21/3/11

quarta-feira, 16 de março de 2011

Força, Japão, país amigo!

O velho Botelho, meu pai, foi budista dos mais praticantes. Quase um japonês. Eram horas diárias de daimoku (oração). Levou-me junto por longos anos. Fomos da Soga Gakkai, uma organização não governamental que trabalha pela paz, pela cultura e pela educação. Sua filosofia está amparada pelo budismo de Nitiren Daishonin. Há um mantra poderoso, que divido aqui, hoje, com o amigo leitor: "Nam-Myoho-Rengue-Kyo". Fazer daimoku é recitar "Nam-Myoho-Rengue-Kyo" por um tempo determinado. Lembro-me de ter começado com cinco minutos. Nos bons tempos de prática, nos anos 1980, cheguei a duas horas diárias de oração. Também li e ouvi muito sobre a filosofia de vida oriental. "Mente positiva, metas definidas e alta motivação". Cresci com essa frase na cabeça, além, é claro, de muito daimoku. Logo, por meio do meu velho, o Japão está em grande parte de tudo o que sou.

Entristece-me profundamente tudo o que está ocorrendo do lado de lá. Não consigo me desligar das notícias, que chegam a todo momento pelas redes de comunicação. São imagens e mais imagens que me pululam os pensamentos. Sou grande admirador daquele povo e de sua cultura. Fico extremamente admirado com a postura dessa gente diante das catástrofes. Não se vê comumente tanta dignidade diante do apuro. Todos, juntos, se ajudando o tempo todo. Já do lado de cá, em situações de caos, há sempre bando de aproveitadores reunido. Envergonha-me, por exemplo, os saqueadores de nosso Brasil, que, sem escrúpulos, roubam as casas de vítimas de chuvas, como vimos recentemente na Região Serrana do Rio de Janeiro. Ou, ainda, os ladrões de gravata, capazes de roubar merenda escolar, aposentadorias, ambulâncias e remédios.

Melhor falar dos japoneses. Ontem, pela manhã, o velho Botelho conversou longamente comigo sobre o Japão. Tem amigos japoneses que moram no Brasil e soma muitos brasileiros que conhecem o Japão. Hoje, não frequenta mais as reuniões budistas. Mas continua praticante de daimoku. O pai está atento aos desdobramentos do terremoto, seguido do tsunami, que arrasou nosso país amigo. Falam em mais de 15 mil mortos – número que muda da manhã para a noite. Oficialmente, já contam mais de três mil. São mais de 10 mil desaparecidos. Os prejuízos materiais são incalculáveis. Mas, como lembra bem o velho Botelho, são os que menos importam, já que se trata de um povo com capacidade extraordinária de dar a volta por cima. Japoneses não cruzam os braços, não se descabelam nem choram miséria. Vão à luta. Num respiro, estão prontos pra voltar à vida. Força, Japão, país amigo!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/3/11

segunda-feira, 14 de março de 2011

Troca-troca do amor

Dois casais, quatro amigos inseparáveis: Pedro e Cristina; Roberto e Maria. Todos na casa dos 30. O mais velho, Roberto, comemorou 34 em janeiro, com festinha mínima, reservada, para quatro. Jantarzinho em Rio Acima: vinho, massa e muita gargalhada. Entre as duas duplas era sempre assim onde estivessem. Quem os vê agora, mudos, no automóvel, não saberia reconhecer a amizade inabalável. Pelos olhares perdidos estrada adentro, no caminho de volta, nada será como antes depois do carnaval em Cabo Frio. Pedro, ao volante, tem o pensamento no infinito. Sua mulher, Cristina, com a cabeça no encosto do banco, acordada, mantém os olhos fechados. Já o casal no banco de trás, de braços cruzados, é só paisagem: Roberto e Maria só queriam saber das janelas. Na atmosfera do Doblô negro, culpa e arrependimento. Em parte.

Os quatro – não podia ser diferente – com a cabeça no daqui para frente. O feriadão foi definitivo para dois casamentos. Dias intensos de muita carne e muita birita na Praia do Forte. Quem organizou tudo foi a Cristina. Alugou o apê e rateou as despesas. Na sexta-feira, logo depois do trabalho, encararam a estrada. Pedreira: viagem longa, tensa, 12 horas. Parecia o mundo seguindo para a Região dos Lagos. Juntos, Pedro e Cristina, Roberto e Maria nem viram o tempo passar. Curtiram cada quilômetro vencido com muita disposição. Brincaram de adedanha até – aquela bobagem de contar uma letra nos dedos das mãos e gastar sabedoria com os nomes das coisas. Cristina, por exemplo, viajada, arrasou nas cidades começadas por W. Quando o assunto era carro, só dava o Pedro, há tempos colecionador de miniaturas.

O apartamento, um aconchego só. “Intuição de mulher”, respondeu Cristina ao receber elogio geral pela escolha do imóvel em classificado do Estado de Minas. O quarteto estava mesmo precisado de um descanso. O ano começou bravo, cheio de trabalho. Desde o verão de 2008 os dois casais não sentiam o cheiro do mar. Apesar da chuva, até a noite de terça-feira tudo nos trinques, sem grandes extravagâncias. Mas, amizade e golo demais nas ideias, os quatro decidiram fazer festinha de despedida. Não se sabe ao certo quem começou, mas o som trance quem colocou foi a Maria, avessa ao funk e à música da Bahia. O batidão psicodélico, misturado aos drinques coloridos, preparados pelo Pedro, foi combinação explosiva. Daí, troca de casais, a portas fechadas. Loucura até o raiar da quarta-feira de cinzas.

Pela manhã, dia de retorno, ninguém deu conta de fingir amnésia. Era puro silêncio. Nem um oi, tampouco um olá. Estampada em cada um a travessura na madrugada. Enquanto ajeitavam as malas e davam geral no imóvel, só a chuva e o mar a conversar lá fora. Olhares do quatrilho enviesados, apenas pelo ajeitar do incorrigível. Na estrada, nem tudo era o caminho da volta para dois.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 14/3/11

quarta-feira, 9 de março de 2011

Os trapalhões de Marataízes

O Orlando é sujeito observador. Somos colegas de universidade e a amizade veio rápido, fácil, por uma série de trabalhos em grupo e muita nota boa. Mas nem todo mundo consegue ser amigo do Orlando, porque ele, às vezes, é sincero de doer. Para minha família, o moço e sua namorada, Lívia, também da escola, são mesmo é boa companhia. Tanto que insistimos para que fossem passar o carnaval com a gente, em Marataízes. Disseram que tinham um outro compromisso, coisa e tal, e que ficaria para uma outra vez. Surpresa! Quando chegamos, no sábado, depois de 12 horas de estrada tensa, abarrotada, e muita chuva, lá estava o casal amigo, hospedado no Praia Hotel, à beira-mar. Insistimos para que eles ficassem com a gente, em nosso cafofo, mas os dois pombinhos, apaixonados, já estavam com pacote pago. Nem forcei a barra porque entendo bem esse lance de privacidade.

Orlando e Lívia não conheciam Marataízes. Aliás, pouca gente com menos de 30 anos conhece, porque a boa Marataízes ficou no passado, nos idos de 1970 e 1980. Nos últimos 20 anos, verdade seja dita, a cidade esteve bastante caída. No entanto, há um esforço de muitas esferas para que o município volte a ser atraente. E esse esforço pode ser visto facilmente. Basta olhar para a praia central que, por meio de engenharia genial, com espigões e aterramento, voltou a existir. Só que, todos sabem, reconquistar o turista não vai ser da noite para o dia. Vai ser preciso muito trabalho, com foco em infra-estrutura para a cidade voltar a pegar. De cara, a parte central de Marataízes, que vai até o Xodó, precisa perder o aspecto de abandono. São dezenas de imóveis, aparentemente largados, que, como estão, empobrecem a orla reconstruída.

Na falta do que fazer – a chuva não deu a menor trégua –, Orlando, Lívia, Violeta e eu debatemos Marataízes. Ouvimos com atenção o Orlando, turista, porque, falante e sincero, graduando em administração, ele tinha o que dizer: “Quando vi as fotos que o Josiel me mostrou lá na sala, fiquei curioso para saber como é que eles fizeram para o mar recuar. Realmente é de impressionar. Parece que está ainda mais bacana do que já foi. Posso falar alguma bobagem, mas vou falar como um turista que não conhecia Marataízes e que veio por causa da propaganda de um amigo. Chegando aqui, tomei um susto ao ler o jornal local. Denúncia estampada que todos os vereadores da cidade foram fazer curso na Bahia, custeado por recursos públicos, durante o carnaval. Parece mentira, mas não é. Estava lá, em veículo sério, com dados, documentos, fontes e tudo. Uma cidade em plena reconstrução, no feriado mais importante para o turismo local, e os vereadores na Bahia? Com tudo pago pelos cofres públicos? Não pode estar certo”.

Não foi só com a trapalhada dos vereadores que o Orlando ficou decepcionado: “Outra coisa é esse povo que fica com o som do carro na maior altura com essas músicas de mau gosto. Isso espanta o bom turista. Isso só atrai a farofada que bota para correr o bom consumidor. Na porta do nosso hotel, era impossível dormir com tanto farofeiro ouvindo funk”. Foi mal, Orlando. Da próxima vez, vamos torcer para que isso mude.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 9/3/11

terça-feira, 8 de março de 2011

Carnaval debaixo d'água

Em Marataízes, a família mineira não perdeu a praia revitalizada. Debaixo de chuva fina, chatíssima, durante quatro dias sem parar, o negócio foi se ajeitar sob as sombrinhas. (Foto: Josiel Botelho)

O dia seguinte

O sábado de Carnaval foi uma beleza. O Ananias, recém-separado, deitou e rolou em bailão de marchinhas na Pampulha. Começou a beber no ajuntamento dos ponteiros, ao meio-dia. Perdeu-se rápido da turma de colegas do trabalho. Pensava apenas em afogar as mágoas, já que, bastante contrariado, havia assinado o divórcio naquela semana. Na vara da família, rever a ex, Conceição, felicíssima, irreconhecível, cheia de plásticas às suas custas, foi golpe duro no vendedor de automóveis. Passado. Agora, Ananias, enxutão aos 45, queria mais era correr atrás do tempo perdido. Afinal, tipo raro, só pulou a cerca duas ou três vezes durante os quase 20 anos de casamento. E o filhão, André, já estava encaminhado, na Escola de Engenharia. Hora de curtir a vida. No clube, com dezena de quarentonas para cada macho, desesperadas, pelas paredes, o Ananias se jogou na multidão. Voltou a ser garoto. Quando entrou a noite, não sabia com quantas havia ficado. Bonita ou feia, não importava. O Ananias queria era beijar e ser beijado.

O duro foi acordar domingo sem se lembrar de nada. Primeiro, despertou por dentro, sem abrir os olhos, que, pesados, não davam conta do menor movimento. O corpo, doído, parecia chicoteado. A cabeça girava pesada. Pensou apenas, catando na parede da memória a última cena passada. Flashes de sarros e amassos o aturdiam. Lembranças vagas de esfregas com loiras, morenas, gordinhas e magrelas. Sorriu baixinho, cheio de si: “Sou o cara!” Virou-se com jeito, devagar, para o outro lado da cama e venceu as pálpebras. Ao seu lado, nua, uma loiraça dormia abraçada a uma garrafa de vodka. Tinha o rosto coberto pelas longas madeixas oxigenadas. Ananias não se lembrou da mulher. Também não reconheceu o quarto acortinado por blackout. Levou a mão até o criado e acendeu pequena luminária. Olhou por debaixo do lençol e, assim como a boazuda descabelada, ele estava sem roupa. No entorno da cama, mesmo à pouca luz, dava para perceber o cenário da farra: toalhas molhadas, sapatos virados e roupas torcidas, espalhadas pelos cantos. Na maçaneta da porta do banheiro, próxima ao abajur, uma calcinha de oncinha chamava a atenção. No ventilador de teto, um sutiã GG e uma cueca amarela, enlaçados, pendurados.

Espiou mais uma vez por debaixo do lençol para ver se reconhecia a mulher do rosto sob os cabelos. Nada. Jamais viu corpão tão caprichado, feito a mão. Os peitões, turbinados, pareciam mais coisa de escola de samba ou reality show. A barriguinha, lipoaspirada, parecia até de artista de televisão. Difícil calcular a idade da mulher: “Deve ter uns 30, 35. Um biju!”, pensou por canalhice ou absoluta falta do que fazer. Esquadrinhando a estranha, pedaço do Ananias ameaçou sinal de vida. Mas, exaurido, voltou às trevas.

O rádio-relógio, sobre o criado do outro lado, disparou alarme estridente. A loira, com dificuldade, desligou o aparelho. Virou, mexeu e espreguiçou-se. Respirou fundo, manhosa, levou a mão nos cabelos para liberar o rosto e abriu os olhos: “Você!?”, gritaram juntos, os dois, no susto. “Meus Deus!”, exclamou a mulher. Já o Ananias não achou de todo ruim reconhecer a mãe de seu filho e suspirou: “Tá gostosona pacas, hein, Conceição?!” ]

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5/3/11

quinta-feira, 3 de março de 2011

Como é que é, doutor?

O Mourão está indignado e com razão. Levou o pai, "seu" Zezito, às pressas em hospital bacana, particular. Fala-se muito em mãe, mas pai como o do Mourão não se vê por aí, aos montes. O "seu" Zezito, conheço bem, é homem da maior estatura. O fato é que o pai do Mourão, abatido por forte dor na coluna, aos 72 anos, mal tinha condições de caminhar. Tanto é que chegou ao consultório em cadeira de rodas. Lá, o doutor, jovem pelo que parece, receitou anti-inflamatório e passou remédio injetável para aliviar a situação: "Tem uma farmácia aqui perto", disse o especialista. Mourão, surpreso com a fala do doutor, perguntou – já que o paciente estava tomado por fortes dores – se a medicação não poderia ser aplicada ali, no hospital. "Não, a farmácia é aqui perto", repetiu o cidadão de jaleco.

Não dá para não tomar as dores do Mourão. Também tenho pai. Imagine, amigo leitor, um senhor adoentado, portador de Mal de Parkinson (um agravante) encaminhado para tomar remédio numa farmácia qualquer, quarteirão dali, na rua? A questão é: num atendimento de emergência, de pronto-socorro, o médico de plantão encaminha um paciente à drogaria da rua? Parece brincadeira! Não pode ser sério um atendimento desse. O nome do doutor e do hospital, por hora, estão sendo preservados porque as medidas cabíveis ao caso estão em curso. Isso é assunto de muita gravidade e não pode se repetir. Casos como o do "seu" Zezito, quando não são denunciados, ajudam a manter gente despreparada a lidar com nosso bem maior: a vida.

Quando soube da situação fiquei bastante chateado. Tenho muitos amigos médicos e estudantes de medicina. É muito pouco provável que qualquer um dos meus amigos doutores, sérios e respeitados como são, agissem dessa maneira. Posso afirmar que são bem mais profissionais do que esse plantonista.

Lembro-me bem de conversas longas com vários deles, sempre muito atentos às necessidades de seus pacientes. Desde que soube do ocorrido, conversei com muita gente de bem sobre o assunto. O velho Botelho, por telefone, pediu que eu tomasse nota: o delicado. Já perdi a conta de quantas vezes fui muito mais bem atendido pelo SUS. Tem muito médico em hospital particular que atende convênio com a maior má vontade. Quando se trata de quem tem mais de 60, então, a coisa costuma ser pior. O negócio agora é andar com o Estatuto do Idoso debaixo do braço. O Mourão tá certo. Tem que deixar registrado para que esse médico aprenda a cuidar melhor de seus pacientes. Acredito que isso seja muito bom até para o hospital, porque, se eu tenho um hospital, eu ia querer ficar sabendo qual é o tratamento que os meus pacientes recebem. Às vezes, quem sabe, o dono nem sabe que tem no seu quadro de pessoal gente que não sabe tratar de gente".

Falou tudo o velho Botelho. Qualquer desdobramento do rumo oficial do caso do "seu" Zezito, conto aqui em nossa Bandeira Dois.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2/3/11