Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Bem piores que animais


O Josué, amigo, lavador de carros, de 19 anos, está revoltado com a morte de um motorista de ônibus, linchado no domingo, no Parque Santa Madalena, Região Sudoeste de São Paulo. A coisa ainda está sob investigação, mas, ao que tudo indica, Edimílson dos Reis Alves, que completaria 60 anos ontem, foi espancado até a morte por multidão enfurecida na porta de casa de baile funk. “Tenho vergonha quando fico sabendo de coisas assim, Josiel. Vergonha”, comentou. Edimílson passou mal enquanto dirigia, perdeu o controle do veículo e acabou atropelando uma pessoa, que já está fora de perigo. Arrancado do ônibus à força, o motorista foi massacrado por cerca de 300 pessoas. Inacreditável a maldade humana.

A revolta de Josué tem ainda mais razão de ser. O bom moço, trabalhador desde criança, testemunhou atitude parecida em caso de menor gravidade. Seu tio mais próximo, quase pai, vizinho de frente em bairro de periferia, há três anos passou por situação parecida. Motorista experiente, com mais de 30 anos de profissão, o tio do Josué sofreu desmaio em pleno batente e subiu no meio-fio de boteco lotado. “Graças a Deus não havia mesa na calçada e ninguém foi atingido. Só que o povo de dentro do bar, uns 15 caras, ficaram tão furiosos que invadiram o ônibus e quebraram o meu tio todo. Ele quase morreu. Passou mais de mês internado e só conseguiu voltar ao trabalho um ano depois”, contou.

O Osmar, companheiro de praça e padrinho do Josué, confirma a história e emenda: “Isso é reflexo desse mundo perdido. As pessoas já estão tão acostumadas com a violência, que estão ficando violentas e achando isso normal. É nas ruas, na TV, o tempo todo. E tá assim de gente que acha isso bonito. Por isso, digo e repito: prefiro os animais. Meus cachorros não me dão problema nenhum. Já os meus vizinhos, toda semana saem no tapa. São todos do nível daquela história recente de ex-jogador de futebol com o vizinho advogado. A diferença é que o meu bairro é de gente pobre. Tenho para mim que o homem é muito, mas muito pior que os animais”. É Osmar, sou obrigado a concordar que a coisa anda mesmo feia.

Josué, cheio de planos, quer fazer direito e prestar concurso para chegar à magistratura. Diz que, toda vez que toma conhecimento de casos como esse de São Paulo, tem vontade de fazer alguma coisa para combater isso. Sensato, tem absoluta certeza de que isso é reflexo da falta de educação e cultura no país. “Se pudesse, obrigava todo mundo a ter educação e cultura. Transformaria os presídios em grandes universidades e mandava os políticos todos para a escola. A mente ocupada com os estudos não ia dar tempo pra ninguém pensar em matar e roubar”. Está certo, Josué. Não é!? A questão, amigo, é que a ignorância é um mau que se alastra na velocidade da luz. Há bem mais gente interessada em se arrastar na mesmice – sem falar naqueles que estão no poder e se alimentam dela – do que cavar alguma sabedoria. Ignorância mata, sabemos todos, mas elege também, infelizmente.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 30/11/11

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tapioca, o pescador


No fim dos anos 1960, quando os pais se separaram, Leo foi morar com a mãe na casinha de praia da família, na Barra do Itapemirim, no Espírito Santo. Moleque, branquelo e mineiríssimo – cheio de sôs e uais –, Leo não conseguia se enturmar. Sentia saudades demais do pai, que havia ficado em Belo Horizonte, em frangalhos com o fim do casamento de 8 anos. O menino, que já era calado, emudeceu-se de vez. Terminado o verão, o litoral ficou vazio. Forte ali, na época, era o turismo. Nas férias, a mineirada toda descia para o Espírito Santo. Para Leo, a saudade de Minas apertava mais do que ele dava conta. Tanto que ele não parecia fazer muita questão de viver e usava e abusava da sorte em aventuras de grande perigo.

Até atravessar o Rio Itapemirim, no seu trecho mais perigoso, no Pontal, onde suas águas se encontravam com o mar, Leo atravessou. Saltou das pedras – mesmo sem saber nadar muito bem – e deu conta de chegar na prainha. Na volta, no braço exausto, o desespero. Só não morreu afogado porque foi salvo por garoto nativo, pescador, que passava de canoa. Tapioca, menino descolado, dois anos mais velho, pescava para ajudar em casa. Vida salva, ficou a amizade que marcou a infância do mineirinho, filho de seu José e da dona Maria. Leo se apegou ao exemplo de luta do capixaba e quis batalhar para crescer na vida. Assim, pequeninho, aos 10 anos, Leo, quando não estava na escola, também pescava no Itapemirim.

Leo juntou dinheiro para voltar para Belo Horizonte. A mãe não deu conta de segurar o garoto, que voltou para morar com o pai. Tapioca, o amigo, continuou a ganhar a vida com a pesca. O tempo, no descer e subir das marés, passou como as águas. E lá se foram mais de 40 anos. De volta, a prainha, estudadíssimo, careca e barrigudo, em julho deste ano, Leo quis rever o amigo de infância. “Sabe onde posso encontrar o Tapioca?”, perguntou ao velho peixeiro no Porto da Barra, que apontou à margem do rio, junto às pedras. Lá, um pequeno barco a motor, de nome “Sossego”. O homem, de pele muito curtida pelo sol, lavava a proa e ouvia Roberto Carlos. “Mineiro!? Cadê o cabelo, maluco?”, perguntou sorrindo, depois de reconhecer Leo.

Abraçaram-se como dois irmãos. Falaram das mulheres e dos filhos. Mostraram fotografias dos pequenos, já crescidos, e lamentaram a perda dos parentes amados. Tapioca, o pescador, e Leo, o engenheiro, passaram a tarde sentados no barco, relembrando os tempos de garotos. Conversaram sobre muitas coisas. Um, enriquecido, viajado, conhecedor de vários pedaços do mundo. O outro, homem simples, que jamais deixou o Espírito Santo. Trabalha apenas 6 horas por dia, seis meses por ano. A maior parte do tempo, Tapioca dedica à mulher e aos cinco filhos. Leo, em folga rara de feriado, luta 18 horas diárias para se manter em multinacional. Escravo da tecnologia, não vive sem iPhone, iPad e iMac. Já Tapioca, alheio a tudo o que é modernidade, nem sabe o que é Facebook.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 28/11/11

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Deu no Estado de Minas

É com muito orgulho de todos os companheiros de "Um inimigo do povo" que compartilho a crítica de João Paulo, publicada no jornal Estado de Minas. Quem acompanha a imprensa nacional sabe bem que o editor de Cultura do EM é hoje um dos jornalistas mais respeitados do Brasil.




Um contra todos

Por João Paulo

Ibsen (1828-1906) fez teatro para pensar a partir da mobilização intensa do sentimento. Sua arte está na encruzilhada de elementos românticos, realistas e simbólicos, com temas que vão da revolta contra as convenções machistas à recusa metafísica da transformação do homem em coisa. Dentro de casa e na balbúrdia das ruas, foi o autor dos mais profundos diagnósticos da corrupção moral do capitalismo do seu tempo. Ao mesmo tempo, pulverizou a indignação muito além da dimensão política para atingir a condição humana no sentido filosófico. Um inimigo do povo, de 1882, se situa no cerne desse projeto. É peça que permite leituras psicológica, social e política. E que mantém atual.

A montagem dirigida por Walmir José, que já havia levado o texto ao palco anteriormente, estabelece um relacionamento com dilemas contemporâneos no campo do pensamento e da ação política. Depois de montar o texto nos anos 1970, em plena ditadura militar (quando a própria palavra “inimigo” não permitia metáforas), o diretor opta por problematizar a questão ideológica atual, a partir de referências mais universais, embora fortemente marcadas pela conjuntura. Nunca a política esteve tão em desprestígio como hoje, o que explica, ao mesmo tempo, a força dissolvente das ideias convencionais (não parece haver mais oposição no reino do pensamento único) e a leniência das formas de revolta, substituídas por um hedonismo desmobilizador e individualista.

É nesse sentido que a montagem oferece sua contribuição. Em primeiro lugar, pela crença na força da palavra. A adaptação, que atualiza a trama original incorporando a dimensão ecológica, vai ao texto de Ibsen para resgatar nele sua mais determinada intenção. Há, a seu modo, a afirmação de uma tragédia liberal (que vai além do modelo da tragédia burguesa), que lança mão de um novo tipo moral. O dr. Stockmann de Ibsen equilibra várias fontes de revolta para afirmar o modelo de homem político, capaz de ir contra a maioria para preservar sua humanidade. A mentira, mais que um mal a ser afastado, é resultado de um sofisticado arranjo social que ganha guarida na alma de pessoas fracas e cediças.

Há, na peça, o risco real de submeter as ideias do autor a um jogo de certo e errado, verdadeiro e falso, ético e imoral. Nada mais distante do espírito de Um inimigo do povo. A tradução desse equívoco poderia ganhar a forma de um simples duelo de posições maniqueístas, da qual os irmãos Stockmann, o cientista e o prefeito, incorporariam os limites, numa falsa disputa entre razões da ciência e interesses da política. Ibsen foi além ao incorporar certa dimensão farsesca, de humor destrutivo, que mancha a atuação dos dois lados. Há a hipocrisia do poder, mas também o empenho salvacionista e desequilibrado da razão embriagada de certeza. Sem falar na fatuidade burguesa, na ambição do homem de negócios e na ética de circunstância da imprensa.


Anarquismo

No palco, a escolha do diretor sublinha os elementos anarquistas do protagonista, que luta contra todos e sobrevive a seu modo. É astuta a criação de um clima de comício, mimetizando o cenário em que a política dá as mãos ao marketing para se submeter a meias verdades funcionais.

No elenco, destaque para a atuação de Jefferson da Fonseca (Tomás Stockmann, um Quixote contagiante, enlouquecido com sua verdade) e Geraldo Peninha (Pedro Stockmann, numa composição que equilibra postura emproada e a dissimulação). A atualização da trama, no entanto, não fica bem caracterizada no cenário e figurino. Se o texto é tão preponderante e bem articulado pela adaptação, nada mais justo que dar ao espectador elementos teatrais igualmente fortes e significativos.

Ibsen não queria ser identificado com seu personagem, ainda que carregasse em parte as mesmas ideias. Um dramaturgo não se coloca no palco. Quem deve se reconhecer nos personagens é o espectador. Neste sentido, Um inimigo do povo segue atual, ainda que em outro contexto. E o espetáculo de Walmir José tem o mérito de jogar a luz para a plateia.


ÚLTIMO DIA (27/11/11)

Um inimigo do povo
De Ibsen. Direção de Walmir José. Com Jefferson da Fonseca Coutinho, Geraldo Peninha, Olavo de Castro, Ana Amélia Cabral, J. Bueno, Bianca Tocafundo, Beto Plascides, Márcio Miranda e Luiz Hermidas. Teatro Marília, Av. Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia, (31) 3277-4697. Hoje, domingo, às 19h. R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 12 (Simparc).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Respeitável público!


“O palhaço”, de Selton Mello, é poema como não se vê comumente nos cinemas do Brasil. Muito bem dirigido e interpretado, o segundo longa-metragem da carreira do artista como diretor é tiro certeiro para quem busca trabalho autoral. Foge dos clichês e das fórmulas tradicionais – humor barato, miséria e violência – que fazem a história das maiores bilheterias do país. Não é novidade a paixão pelo cinema neste quintal. Vez por outra, com prazer, falamos sobre o assunto. É que, viciado na sétima arte desde os tempos de moleque, ao menos duas vezes por semana vou ao cinema. Violeta e eu, entre outras tantas coisas, temos mais esse gosto em comum. Assim sendo, na semana passada, lá fomos nós ver “O palhaço”, tão bem recomendado pelo ator e amigo Maurício Canguçu. Uma beleza!

Emocionante, poético e divertido, o filme conta um pouco dos bastidores de uma família de artistas de circo que mambemba Brasil adentro. Puro Sangue (Paulo José) e Pangaré (Selton Mello), pai e filho, tocam a vida como podem para levar alegria aos moradores de cidades do interior. O palhaço mais moço, porém, vive drama contido em busca de identidade. Pangaré passa a maior parte do filme bastante infeliz com sua condição de filho de artista. Talentoso, sabe bem fazer graça para o público, mas não consegue dar dose de alegria a si mesmo. Puro Sangue, velho comandante da trupe, entende bem o significado de texto repetido ao longo da trama: “O gato bebe leite; o rato come queijo; e eu, sou palhaço”. Não posso contar mais do enredo para não prejudicar o amigo leitor, que, sei bem, já deve estar interessado em saber mais da história do Circo Esperança.

O que posso dizer é que quem for conferir “O palhaço” vai encontrar de tudo e mais alguma coisa em pouco mais de uma hora de exibição: tem gente do bem e gente do mal; tem trilha sonora de fazer rir e de fazer chorar; tem músico bacana e mocinha bandida; e tem homem triste e criança feliz. Ah, de quebra, tem o cantor Moacyr Franco como o delegado Justo, com interpretação que agrada até aos críticos mais exigentes. A cena protagonizada pelo sujeito depois de confusão num boteco é inesquecível. Ele, sentado atrás de uma mesa, em movimentos mínimos, olhar firme e voz em tom grave, uníssono, rouba a atenção do público com performance invejável. No filme há outras participações especiais bem marcantes: Fabiana Carla, Ferrugem, Tonico Pereira e Emílio Orciollo Neto não passam batido.

Além de excelentes interpretações, o roteiro feito a quatro mãos na dobradinha de Selton com Marcelo Vindicato tem grandes sacadas. A relação de Benjamim – nome do palhaço Pangaré – com ventiladores e cataventos, por exemplo, é um achado que pontua o silêncio cheio de significados da história. Detalhes que se desdobram, também fazem a diferença e contribuem para o sucesso de “O palhaço”. Teuda Bara, atriz do Grupo Galpão, manda muito bem como dona Zaira e é peça chave que acrescenta em particularidade. Logo no começo, ela, peituda que só sua personagem, pede um sutiã novo para Pangaré. O pedido se desdobra em duas ótimas cenas que provocam a plateia no melhor sentido da ação. Ao subir dos créditos, ficou a vontade de mais histórias como “O palhaço”, que respeitam a inteligência do público.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 23/11/11

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O golpe do adeus


Erre era um pirralho espinhento que cheirava a fraldas. Tinha acabado de completar 13, mas não parecia ter 10. Franzino, metidíssimo a brigador. Ainda mais depois que a TV começou a dar destaque para competições de pancadaria: “Foda demais!”, dizia sorrindo, feliz da vida, toda vez que via sangue jorrar na telinha, sob a narração do locutor abestalhado, histriônico. Coisas da grana, da publicidade... fazer o quê!? Há quem diga não haver o que o dinheiro não compre. E lá, no interior de Minas, na cidadezinha de nome doce, Erre não desgrudava da televisão nos dias de porrada. Valia tudo para torcer pelo mais “foda”. Até bicudar a mãe, grávida, doente e descasada.

– Sai da minha frente, mãe! Já tá começando, porra!
– Não saio. É tarde, minino! Vai pra cama! Já falei!
– Pra cama o cacete! Toma!

E a porrada começou ali, em casa mesmo, na mãe, em frente à TV, comprada em 24 prestações pela coitada da diarista. Com problemas de circulação – não havia cirurgia que desse jeito nas veias da dona Maria –, a mãe do pequeno diabo teve ferida aberta na altura da canela. Bicudo do Erre, filho mais velho, chegado em violência. Mais, muito mais, depois que ele aprendeu na TV que ser bom de porrada podia ser legal. Até sonhou ser famoso e ganhar muito dinheiro distribuindo socos e pontapés. Tanto que começou a treinar em casa e com a vizinhança.

Dos moradores da Rua do Chuvisco, Eme, de 16 anos, mocinha tímida, evangélica, era quem mais sofria com os ataques de fúria do Erre. O garoto infernizava a menina. E até tentou estuprá-la sob a luz do dia. Aproveitou que os pais de Eme estavam na Igreja e invadiu a casa dela num domingo de manhã. Ela estava de cama, febril, se recuperando de pneumonia. Erre saltou em cima da moça e forçou arrancar suas roupas. Eme, movida por força fora do comum, conseguiu jogar o moleque para fora do cômodo e trancar a porta. Furioso, Erre quebrou e ateou fogo na casa. Com o braço esquerdo quebrado e com o rosto em sangue por corte profundo na testa, Eme conseguiu saltar a janela e correr para a casa de fundos, do vizinho aposentado.

Foi o seu Antônio quem resolveu dar cabo na situação e chamou a polícia para o infeliz. Procurado e apreendido, Erre foi parar em casa para menores infratores. Lá, em três dias, sentou a mão em pelo menos dez garotos. Sentiu-se o campeão da pancadaria. Nocauteou até assistente social com pernada na cabeça. Imbatível, saltou o muro do lugar e correu, campeão, para o golpe do adeus. Só parou na BR-381, atropelado por caminhão de televisores de última geração.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 21/11/11

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Bacalhau no café da manhã

Fim de semana prolongado. Uma beleza! Pernas para o ar com os pés na chinela porque ninguém tem o calcanhar de ferro. E a vida é festa quando a opção é ser feliz. É o que digo sempre: com saúde, todo o resto é viver bem e melhor, buscando sempre a paz entre os que amamos. Infelizmente, sabemos todos, há muita gente que só sabe é sofrer com problemas imaginários. Dificuldades existem e precisamos saber conviver com elas da maneira mais equilibrada possível – por mais que isso seja difícil. Agora, sofrer por tudo é desespero e não precisamos disso. Dinheiro? Só para o que realmente importa. Grana não pode ser amarra para a boa gente. Tenho pena daqueles que se acorrentam à moeda. Não há sujeito de dignidade e bom coração que morra de fome porque, afinal, “quem ama vive, quem vive trabalha e quem trabalha tem pão”, escreveu Van Gogh – não me canso de repetir isso aqui, em nosso quintal.

Tudo isso para dizer que, no feriadão, tive o privilégio de passar a noite de segunda-feira na casa de casal dos mais especiais que conheço – bons amigos são fundamentais ao plano de felicidade de qualquer um. Peninha e Iremar, anfitriões de generosa grandeza, abriram as portas do lar e o coração da família para pequeno grupo chegado num baralho e em fazer da vida festa, longe, bem longe, de qualquer espécie de problema inventado. Violeta e eu, na terça-feira, saímos de lá mais encantados do que quando chegamos. Que beleza são as boas companhias, não!? Não bastasse Peninha e Iremar, participaram do encontro os namorados Bianca e Danilo, além da atriz e professora Ana Amélia Cabral, amiga de longa data. Em momentos assim, de agrupamentos tão felizes, é que podemos compreender melhor a importância das boas companhias e dos amigos na vida.

Na mesa, o “mexe-mexe” fazia o baralho correr solto pelo espírito de diversão apenas. Quer dizer… mais ou menos, já que a bela e divertida Bianca parecia fazer valer o barracão com empenho de jogadora profissional. Nunca vi numa mesa de carteado tamanha concentração e vontade de vencer. Eita! Bom mesmo era ver a Ana Amélia bater por último com a euforia de vencedora. Iremar, o anjo da mesa, a mais experiente e de raciocínio mais veloz, ficava feliz mesmo era em ajudar os iniciantes na modalidade – eu, por exemplo –, a não fazer feio. Para o Peninha tudo era festa, ainda mais depois que seu labrador, o Simba, reapareceu. O cão, gente boa até, fugiu e passou horas fora de casa, debaixo da chuva, em busca de aventuras submarinas em lago qualquer das cercanias de Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Para a alegria do dono da casa, que, em vão, já havia rodado o lugar, o fujão voltou sem causar nenhum aborrecimento aos vizinhos.

Não se viu a noite se afundar na madrugada, menos ainda o sol mudar a cor do céu. E lá pelo raiar do dia, depois de petiscos de primeira, saiu o nosso jantar: o melhor bacalhau que Violeta e eu comemos na vida. Preparado por Ana Amélia, mestre das artes cênicas e culinárias, o prato fez o maior sucesso e já virou promessa para novos encontros. Obrigado, Simba, Peninha, Iremar, Danilo, Bianca, Ana Amélia e Violeta por noitada tão especial. São momentos assim que fazem a gente acreditar em felicidade.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/11/11

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Curta temporada


Poucas vezes na vida, em mais de 20 anos de obsessão pelo teatro, um espetáculo foi tão desafiador. Tenho em mim grande paixão por todos os trabalhos que realizo – nas redações, nos sets, nas salas de aulas e ensaios – e pelo conhecimento e amizades que eles me trazem. Foi assim que ganhei amigos caros, que enriquecem a minha relação com o mundo e com tudo que nele realmente importa. Com "Um inimigo do povo", em cartaz no Teatro Marília, aprendo lições inabaláveis sobre liberdade e distinção moral. A todos os companheiros que, direta ou indiretamente, fazem parte dessa história, o meu mais sincero obrigado.


Todos ao teatro!

Fica o convite aos amigos, leitores e leitores amigos, homens de bem, que ainda não viram nossa montagem. A temporada é curta e vai só até dia 27 deste mês. O endereço do Teatro Marília é Av. Alfredo Balena, 586 - Bairro Santa Efigênia.

A peça é apresentada de quinta-feira a sábado, às 20h30, e, aos domingos, às 19h. O texto de Ibsen, produzido por Rômulo Duque e Marisia do Prado, tem adaptação e direção de Walmir José.

Trilha original de Léo Correia; preparação corporal de Dulce Beltrão; iluminação de Felipe Cosse e Juliano Coelho. Alex Magalhães comanda a técnica e as fotografias são de Andrea Maia e Nello Aun.

No elenco, com orgulho, divido a cena com Ana Amélia Cabral, Bianca Tocafundo, Geraldo Peninha, Márcio Miranda, Olavo de Castro, J. Bueno, Beto Plascides e Luiz Hermidas. Trupe que aprendo a amar mais e melhor a cada dia. Evoé!

Jeff

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Alegro bebum


Gabriel Ramírez, de 40 anos, é bebedor profissional. Trabalha para a mais importante produtora de tequila de Cozumel (foto), ilha do Mar das Antilhas pertencente à província de Quintana Roo, no México. O lugar é um paraíso banhado por mar de cor azul-turquesa, com cerca de 90 mil habitantes. Gabriel está na ilha desde garoto. Por opção. Decidiu deixar a capital dos Estados Unidos Mexicanos – Cidade do México – para viver em paz próximo ao farol, mar adentro. Lá, não tem contas a pagar, menos ainda compromisso com o que não lhe interessa. Tem dois filhos, Juan e Miguel. É casado com a bela Dulce (“É ‘Doce’ como el azúcar”, a apresenta, feliz, em portunhol). Os garotos estão bem na escola e já dominam a língua inglesa. “Fazem o que querem desde os tempos do ventre. Jamais tiveram um resfriado sequer”, conta.

O mexicano bem que poderia fazer fama e fortuna nos teatros, nas tevês e nos cinemas, como intérprete. Trata-se de um ator de recursos invejáveis. Jamais estudou artes dramáticas na vida, mas merece um Oscar pela performance para a plateia de turistas de todo o mundo presente em mais um fim de tarde. Era a quinta do dia. Em média, são seis “palestras” diárias. Em cada uma delas, com a melhor cara do mundo, manda goela abaixo cinco doses de preparos à base da melhor tequila de que já se teve notícia. De licores com café à mais pura “Cava Antigua” – assim chamada a tequila de Cozumel. Não bebe apenas. Num trabalho solo, repleto de pausas, intenções e transições – como se recitasse Shakespeare –, Gabriel diz à plateia de homens e mulheres:

“Hombre, quando você bebe tequila você tem uma imagem de si mesmo como um ‘bandito’ com um bigode de cabo longo, provavelmente montado em um cavalo com uma cartucheira pendurada em seu peito”, sorri ao olhar para o americano com pinta de agente da CIA. Pisca para a senhora gorda de dentes amarelos: “Então, novamente, chica, se você é mulher, você provavelmente tem uma imagem de si mesma sentada em uma praia do Caribe depois de uma partida de golfe, sob uma palmeira com seu namorado, bebericando alguns margarita wild-coloridas”. E segue num ritual para o gole final: “Arriba, abajo, ao centro”, tigue, tigue, tigue (faz dancinha rebolada) e vira de uma só vez o copinho de plástico descartável, levando o público com ele na coreografia, de fazer rir até o careca bigodudo da cara amarrada.

O povo bate palmas. Assim vive Miguel, que, ao fim do dia, está bastante alegre com a garrafa de sabores dos mais ricos e variados do México, entornada em pequenas doses. O mexicano não tem salário. Vive das gorjetas acumuladas no chapéu. Apresenta-se em parceria com o primo Tico, assistente encarregado de distribuir os copos e servir a tequila e seus derivados. Depois da “palestra” de Gabriel e da degustação, são poucos os que deixam o rancho sem levar ao menos uma garrafa. Os preços variam entre US$ 45 e US$ 85. Alegre com mais uma jornada de bom desempenho, Miguel recolhe a parte que lhe cabe dos trocados e segue para os braços da bela Dulce. Vai a pé, porque, consciente, prefere não tocar sua motoca depois do trabalho.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 14/11/11

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Você é livre?

Entre as coisas boas que chegam com o entrar dos anos, certamente, está a liberdade de espírito. A cada aniversário que somamos, no mínimo, mais livres temos a obrigação de viver. Neste quintal, na semana passada, falamos muito em liberdade. O tema provocou muitos amigos leitores, que acabaram por comparecer com ideias que merecem ser compartilhadas. O Adauto telefonou e deixou recado na secretária eletrônica: “Josiel, estou ligando só para dizer que achei a coluna de hoje muito legal e que um homem livre é aquele que não tem rabo preso com ninguém. Escreve lá na coluna que deixei esse recado pra você. Depois, vai lá no Bar do Antônio. Ele disse que tem umas coisas sobre liberdade que ele gostaria de ver publicadas em Bandeira Dois. Abração”.

Sem demora, assim que ouvi a mensagem, passei no Bar do Antônio, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Foi perto da hora do almoço. Aí, aproveitei e mandei ver o prato feito de lá. Por sinal, muito bom. Colocamos a conversa em dia. O Antônio queria muito falar sobre liberdade. Ele teve caso triste de irmão preso como traficante de drogas. Maconha. O caçula da família, há cerca de 20 anos, foi preso na BR-040 com uns 300 gramas da erva. O rapaz disse que era para uso próprio, mas a história teve outras complicações e ele acabou preso, julgado e condenado a sete anos. Por bom comportamento, passou bem menos tempo na penitenciária. O fato é que o homem deixou o lugar “completamente transformado”. O Antônio disse que o tema da coluna foi o que bastou para que ele decidisse desembargar a garganta. Escolheu o nosso Aqui para tocar em assunto tão delicado. O quintal é seu, amigo.

“Quero, Josiel, se você puder anotar, falar um pouco do Luca lá no jornal. É que o Aqui tem muitos leitores e isso pode ajudar alguém. Vou dizendo do meu jeito e você passa para o português, tá bom!? No início, todos nós ficamos indignados com o jeito que tudo aconteceu. O Luca tinha 22 anos. Era um menino. Que ele usava maconha a gente desconfiava... mas vender, traficar, isso nunca passou pela nossa cabeça. O que eu sei é que, hoje, maduro, o Luca se tornou exemplo na família. Depois de tudo o que todo mundo lá em casa enfrentou, liberdade passou a ter muita importância para todos nós. Hoje, quando o Luca se levanta, a primeira coisa que ele faz é andar pela rua. Faz questão de sair para comprar o pão, todos os dias, para a mulher e para os filhos. Voltou a estudar, arrumou um bom emprego e vive falando sobre liberdade. O mais importante da liberdade, para ele e para mim, é poder acompanhar o crescimento dos filhos de cabeça erguida e com a consciência limpa”. Pronto, Antonio. Muito bom o recado.

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P.S.: No próximo sábado, dia 12, no Teatro Marília, às 20h30, tem espetáculo de teatro que toca em cheio no assunto liberdade: “Um inimigo do povo”, de Ibsen, é uma martelada em cheio na pluralidade dos homens e nas verdades da maioria.

Bandeira Dois - 9/11/11

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um minuto de silêncio


A notícia da morte de Marcello Castilho Avellar, amigo, irmão, companheiro em artes e letras, mestre e homem da cultura, veio num sopro com as marolas do mar da cor do céu. No México, pausa na felicidade de nova etapa na vida para rever – como um filme – mais de 20 anos de amizade construída na força bruta do estudo e do trabalho, do respeito e da admiração. Primeiro, o professor; depois, o colega de editoria no jornal Estado de Minas, na Escola de Teatro da Puc e nos palcos de Minas e do Brasil. Para sempre, mestre em duas grandes obsessões: o teatro e o jornalismo. Juntos, desde 1995, com “Vincent”, espetáculo inspirado em Van Gogh, percorremos várias cidades do interior do estado e seis capitais brasileiras. Em 2001, realizamos “O cântico dos cânticos”, experimentação a seis mãos com a atriz Maíra Soares. Em 2006, de Lourenço Mutarelli, “Eu era dois em meu quintal”, cena curta que nos fez levar a cara a tapa como atores-encenadores, em projeto do Grupo Galpão. Na última década, ao menos uma dúzia de assistências em espetáculos de formatura.

Na última semana, imagino, muito já foi dito nos jornais e nas redes sociais sobre o crítico de arte genial que a imprensa brasileira perdeu. No entanto, vai ser sempre preciso dizer mais e melhor sobre o homem distinto, absolutamente livre, que muita gente não teve o prazer de conhecer pessoalmente. Professor exemplar, provocador, que ajudou na formação de duas gerações de artistas dos melhores que Minas já conheceu. Passaram por suas salas de estudo – das pequenas oficinas às grandes instituições de ensino – artistas profissionais que aprenderam a ensinar. Se nas aulas de arte e nos bastidores de importantes montagens ele fez escola, na redação não podia ser diferente. Mesmo sem ter cursado faculdade de jornalismo, tornou-se referência para muitos colegas no trato da informação e no ajuntamento das letras. Informativos ou analíticos, seus textos sempre foram objetivos, elegantes e singulares, objetos de estudo para estudantes, diplomados e pós-graduados da comunicação.

Indomável, Marcello jamais foi homem de regras e concessões. Quando algo não lhe dizia mais respeito, ele simplesmente dava de ombros para seguir seu espírito livre. Da redação e das escolas, incomodado, simplesmente foi embora sem olhar para trás ou pedir as contas. Fez isso meia dúzia de vezes nas duas últimas décadas. Teve até episódio no curso de direito da UFMG – para o qual ele foi aprovado sem estudar para o vestibular. Por entender que alguns professores diziam “besteiras” demais, largou a graduação pela metade. Ah, também gostava muito de dormir em salas de ensaio, teatro e cinema. Raramente chegava na hora de qualquer compromisso e vivia de dar bolo nos amigos. Muita gente não sabe, mas Marcello viveu num grande aperto financeiro. Por vezes, sem grana até para a condução. Dono de coração bem maior que o bolso, abria mão de seus trocados para não ver os amigos em dificuldades. Não deixou se vender para os burocratas do poder público, que viviam de lhe assediar. E assim, distinto, dormindo, Marcello deu de ombros aos “humanos”. Um minuto de silêncio, por favor. Em homenagem a um verdadeiro homem livre.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 7/11/11

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre a liberdade

“Liberte-se da escravidão mental. Ninguém além de nós pode libertar nossas mentes…” imortalizou Bob Marley, com Redemption Song, música das mais belas que já ouvi na vida. Liberdade. Palavrinha danada. Perturba-me por vezes. Ontem, ao ouvir Bob Marley, fiquei com a letra na cabeça. Ainda mais depois de conversa boa que tive com casal de amigos argentinos. Manuel e Mercedes são amigos de longa data e uma lição de vida. São as pessoas mais simples que conheço. São artesãos e, na prática, vivem belo discurso de liberdade. Tirei a segunda-feira de folga porque venho de dois finais de semana de trabalho e o corpo, já há alguns dias, pedia pausa para ter os pés na chinela. Na parte da tarde, recebo telefonema do Manuel, com aquele sotaque carregado, inconfundível. Convidou-me para provar umas empanadas que Mercedes estava experimentando. A comadre é uma fera na cozinha.

Manuel sabia do meu dia de folga porque a gente havia se falado no domingo, em ponto perto da Santa Casa. No fim da conversa, ele prometeu: “Se Mercedes for fazer umas empanadas amanhã, chamo você para experimentar, Josiel”. Promessa feita. Promessa cumprida. Aí, em plena segunda-feira, lá estava eu, no Bairro Sagrada Família, de bermuda e chinelas. Melhor que as empanadas só mesmo a conversa com o casal. É o que digo sempre: as boas companhias melhoram a gente. E muito. Impressionante o espírito livre, presente na casinha simples, de fundo, sob frondosa mangueira. Finalmente, entendi os cabelos grisalhos compridos de Manuel. O amigo tem nos cabelos símbolo de liberdade. Não tem patrão nem superiores. É dono das próprias ideias – que incluem o tamanho dos cabelos. É um homem livre, em paz com os seus e, especialmente, com sua consciência. “Sou pobre, Josiel. Mas vivo com dignidade. Não há dinheiro no mundo capaz de comprar a liberdade das ideias”, afirmou com admirável convicção, enquanto enrolava cigarrinho de palha.

Manuel tem 55 anos. Mercedes, 51. Conheceram-se em Buenos Aires, durante manifestação política. Na época eram estudantes. Foi paixão fulminante. Estão juntos há mais de 20 anos. Têm dois filhos que estão cursando letras na Argentina. Não quiseram ficar no Brasil. “São livres. Como todos em nossa casa. A família precisa ser livre. Mercedes e eu somos livres. E o mais interessante é que, mesmo com toda a liberdade que existe entre nós, continuamos juntos. Não tem segredo. É liberdade apenas. Ficar juntos, para nós, também é uma liberdade de escolha. É isso que muita gente não consegue entender, infelizmente”, lamenta. Vendo os dois juntos, a liberdade fica ainda mais bonita. O carinho de ambos e o respeito às individualidades são uma lição. Violeta e eu sempre citamos exemplar o modelo de relacionamento de Manuel e Mercedes. Tentamos aplicar isso em nossa casa, em todos os nossos dias. Ficar juntos porque somos livres: simples assim. Bob Marley embala o pensamento: “Você não vai ajudar a cantar mais uma canção de liberdade?”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2/11/11