Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre a liberdade

“Liberte-se da escravidão mental. Ninguém além de nós pode libertar nossas mentes…” imortalizou Bob Marley, com Redemption Song, música das mais belas que já ouvi na vida. Liberdade. Palavrinha danada. Perturba-me por vezes. Ontem, ao ouvir Bob Marley, fiquei com a letra na cabeça. Ainda mais depois de conversa boa que tive com casal de amigos argentinos. Manuel e Mercedes são amigos de longa data e uma lição de vida. São as pessoas mais simples que conheço. São artesãos e, na prática, vivem belo discurso de liberdade. Tirei a segunda-feira de folga porque venho de dois finais de semana de trabalho e o corpo, já há alguns dias, pedia pausa para ter os pés na chinela. Na parte da tarde, recebo telefonema do Manuel, com aquele sotaque carregado, inconfundível. Convidou-me para provar umas empanadas que Mercedes estava experimentando. A comadre é uma fera na cozinha.

Manuel sabia do meu dia de folga porque a gente havia se falado no domingo, em ponto perto da Santa Casa. No fim da conversa, ele prometeu: “Se Mercedes for fazer umas empanadas amanhã, chamo você para experimentar, Josiel”. Promessa feita. Promessa cumprida. Aí, em plena segunda-feira, lá estava eu, no Bairro Sagrada Família, de bermuda e chinelas. Melhor que as empanadas só mesmo a conversa com o casal. É o que digo sempre: as boas companhias melhoram a gente. E muito. Impressionante o espírito livre, presente na casinha simples, de fundo, sob frondosa mangueira. Finalmente, entendi os cabelos grisalhos compridos de Manuel. O amigo tem nos cabelos símbolo de liberdade. Não tem patrão nem superiores. É dono das próprias ideias – que incluem o tamanho dos cabelos. É um homem livre, em paz com os seus e, especialmente, com sua consciência. “Sou pobre, Josiel. Mas vivo com dignidade. Não há dinheiro no mundo capaz de comprar a liberdade das ideias”, afirmou com admirável convicção, enquanto enrolava cigarrinho de palha.

Manuel tem 55 anos. Mercedes, 51. Conheceram-se em Buenos Aires, durante manifestação política. Na época eram estudantes. Foi paixão fulminante. Estão juntos há mais de 20 anos. Têm dois filhos que estão cursando letras na Argentina. Não quiseram ficar no Brasil. “São livres. Como todos em nossa casa. A família precisa ser livre. Mercedes e eu somos livres. E o mais interessante é que, mesmo com toda a liberdade que existe entre nós, continuamos juntos. Não tem segredo. É liberdade apenas. Ficar juntos, para nós, também é uma liberdade de escolha. É isso que muita gente não consegue entender, infelizmente”, lamenta. Vendo os dois juntos, a liberdade fica ainda mais bonita. O carinho de ambos e o respeito às individualidades são uma lição. Violeta e eu sempre citamos exemplar o modelo de relacionamento de Manuel e Mercedes. Tentamos aplicar isso em nossa casa, em todos os nossos dias. Ficar juntos porque somos livres: simples assim. Bob Marley embala o pensamento: “Você não vai ajudar a cantar mais uma canção de liberdade?”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2/11/11

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