Fantástico - Vai fazer o quê?

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O milagre do cachorro-quente

Só a fé e o suor 24 horas para explicarem o sustento de cinco famílias, tirado no carrinho de cachorro-quente. No alto do Mangabeiras, antes da bênção do Papa João Paulo II, em 1979, o ambulante José Alves de Oliveira, de 60 anos, deu início a história de luta movida por pão com salsicha. Atualmente, quatro endereços, com filhos, água, luz e telefone, em turnos alternados, são mantidos pela venda de aproximadamente 1,2 mil unidades – mais água, suco e refrigerante. “O sinhozinho da pipoca diz que não sabe como um carrinho só sustenta tanta gente. Ele diz que é ‘mistério de Deus’. É bênção e trabalho”, considera Silvana Gomes da Silva, de 29, plantonista do dia, moradora do Bairro Palmital B, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Vestida de jaleco e chapéus brancos, símbolo do asseio e capricho que ajudam a dar credibilidade ao negócio, Silvana conta que começou no ramo, pequena ainda, acompanhando o pai. “A gente vinha criança para brincar na praça. Depois, viemos para trabalhar”, relembra a herdeira de José Alves, que, em 1996, ampliou a jornada de 18 para 24 horas. Duas gerações, reunidas, somam histórias. É tarde de lembranças. A mãe de Silvana, Ana Neusa, de 56, nascida em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, confessa que, no início, com a chegada dos filhos, teve medo de passar necessidades. “Com o tempo, a gente viu que para Deus nada é impossível”, sorri. A luta agora das famílias é pela aquisição de veículo automotor para promover o negócio a microempresa.

O carrinho, personagem da notícia, é bancada sobre rodas, feita em alumínio, padronizada e regulamentada pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), que, desde o Código de Posturas, não licencia mais veículos de tração humana. Bem a vista, Documento Municipal de Licença (DML) validado e plastificado. A placa modesta exibe “Hot Dog Especial Mangabeiras” no vermelho e azul da pequena tenda protetora. Sobre a plataforma mínima, o estoque de pães e bebidas. Há ainda lampião tinindo, dependurado, para as noites que reviram madrugadas. Do lado de fora, sobre o teto, sombrinhas e lonas guardadas para os dias mais difíceis sob as águas. “Quando chove é um problema. Os clientes não tem onde se esconder”, lamenta Silvana, que aponta a falta de banheiro como outra parte complicada do negócio: “A gente tem que ir lá em cima, no Instituto Hilton Rocha”.

Na lida com os cachorros-quentes a família cresce. Renata Priscila de Souza Peixoto, de 23, estava de parto marcado a semana. Está feliz da vida com a chegada das gêmeas Ana Júlia e Ana Luiza. Casada há dois anos com o cobrador Átila de Souza, de 26, a ambulante reveza as jornadas diurnas com Silvana, mãe de Lucas, de 4, e Mateus, de 8. Às noites, com uma folga por semana, quem cuida do ponto é Otacílio Rosa da Paixão, de 63, outro que ganha o pão na Praça do Papa com o carrinho, “mistério de Deus”. Renata e Átila, enamorados, demonstram o orgulho da vida multiplicada com a bênção dos pães. Os dois são mimo e chamego com Belo Horizonte emoldurada ao fundo. Ela usa o banquinho de madeira para ajudar com o peso de 38 semanas das duas bebês. Ele, companheiro, é só cuidado com o barrigão da mulher.

“A gente não imaginava duas crianças. A intenção agora é crescer mais e tentar dar um futuro melhor para as meninas. Não que o nosso tenha sido ruim. Queremos dar a elas condição de estudar. E uma família unida, né, amor!?”. O marido sorri em resposta e não se contém: “Tenho uma excelente esposa. Agora a responsabilidade é bem maior, com três moças no meu pé…”, sorri. Átila, que trabalha desde os 14 anos, fala em voltar a estudar para ajudar ainda mais a família com os negócios. Renata, de vestido longo, florido, vê com olhos de admiração os planos do marido.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 30/5/12

Foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A fome dos descasados


“A vista é de endoidar”, exibe o corretor anão, na ponta dos pés. Matias viu o Bairro Serra, emoldurado pela esquadria de alumínio, sob o sol da manhã. “Fechado”, acordou o aluguel do 902, ali, na hora. Um modesto apartamento de dois quartos, reformado, em prédio de 12 andares, com mais de 20 anos de construção na Rua do Ouro. O professor universitário, bom moço, juntou força e coragem para buscar novo lar e sair de casamento ruim, com periguete do Bairro Planalto – a sicrana, mesmo depois de casada, seguiu ficando com todo bicho homem que encontrou pela frente. Com 24 meses de tormento, Matias sentiu que era hora de dar novo rumo da vida. Deixou a casa montada com o suor do trabalho e partiu com um fiatizinho e a roupa do corpo.

Sem móvel algum ou panela qualquer, não sabia bem como recomeçar. No dia em que pegou as chaves, comprou colchãozinho azul, em flores, para passar sua primeira noite no apartamento. Sentiu-se importante ao deixar o carro na garagem apertada, entre colunas, tomar o elevador e cravar a chave de aço na fechadura. Achou curioso, no corredor, cruzar com mulher loura, belíssima, também de colchãozinho azul, em flores, igual ao seu, sob o braço. Entrou na sala, acendeu a luz, trancou a porta e, tomado por sentimento distante, pulou como criança, movido por estranha euforia: “Uhuuuuu!”. Vindo de fora, Matias ouviu outro “Uhuuuuuuuu!!!”. Não era eco. O professor foi até a janela e viu a loura do corredor, saltitante, na sala do apartamento vizinho, 904.

Lá estava ela, linda, dançando sozinha, feliz, de olhos fechados, no imóvel igualmente vazio, descortinado. Matias ficou por instantes a admirar a alegria da estranha. Ao ser percebido por ela, sorridente, ele, sem graça, afastou-se da janela e voltou a curtir a própria condição de descasado. “Livre! Graças a Deus, livre!”, repetia para si mesmo. Esquadrinhou cada canto do imóvel tomado por paz interior sem tamanho. Chegou a deixar escapar lágrima de felicidade ao topar com as luzes da cidade na belíssima vista do janelão principal. Veio a fome e Matias sacou o celular para pedir pizza. Deu o novo endereço com a boca cheia para a atendente, que anotou o pedido. “De 30 a 40 minutos, senhor”. O professor não tinha pressa. Tirou da mochila garrafa de espumante e sacou a rolha com o entusiasmo de quem vence prêmio de Fórmula 1.

Barulho semelhante ao provocado pelo saltar da rolha também veio do 904. Matias, curioso, voltou à janela e viu a loura com garrafa da mesma marca em uma das mãos. Debruçados na esquadria de alumínio, afastados metros pelo vão do prédio, ambos sorriram em brinde. “Sara”, ela diz. “Matias”, ele corresponde. O interfone toca e anuncia a massa gigante marguerita. Duas. Idênticas. Uma também para o 902. Portas brancas abertas ao mesmo tempo para receber o motoqueiro da pizzaria. Olhos nos olhos dos descasados famintos. O rapaz percebe o clima, agradece a gorjeta e caça rumo. Já o homem e a mulher, livres, vararam a madrugada na maior comilança.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 28/5/12

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O melhor da Xuxa

 Todo o muito que já foi dito ainda é pouco perto da gravidade do assunto. Na noite de domingo, na TV aberta, a revelação de abusos sofridos pela apresentadora Xuxa Meneghel, até os 13 anos, trouxe à tona questão que merece atenção permanente por parte de todos. Pessoa pública, endinheirada, estrela da televisão brasileira, não é de impressionar a repercussão de trecho da entrevista em toda a mídia impressa, eletrônica e nas redes sociais. Independentemente da espetacularização do drama, o fato é que abusos dessa natureza devem ser combatidos com força e coragem. Nunca fui fã da Xuxa. No entanto, reconheço a sua força e o seu valor, às vesperas de completar 50 anos.

Na segunda-feira, entre os amigos de bem, não houve outro assunto. Ainda mais por parte do Genilson, inflamado quando a conversa é a violência contra crianças. Nosso amigo, taxista, é “tolerância zero” com estupradores. Genilson não esconde nem breve passagem pela polícia. Nos anos 1990, em Santa Efigênia, ele flagrou um sujeito de meia idade com as calças no chão, abusando de um garoto de 8 anos. Ele bateu tanto no abusador que foi parar na delegacia, fichado. O tarado, todo quebrado, fez a família deixar o bairro de tanta vergonha. “Os pais do infeliz, ricos, eram pessoas muito boas, os irmãos também. Eles não deram conta de encarar os vizinhos depois da atitude do filho”, diz Genilson.

Genilson revela que depois que o abusador se mudou de Belo Horizonte, apareceram outras duas famílias com o mesmo problema causado pelo mau elemento. “Um ano depois, soubemos que o sujeito havia sido preso pelo mesmo motivo e amanheceu morto num presídio do interior de São Paulo”, conta. Triste fim para uma história que se repete em todas as classes sociais. A Sueli, que também acompanhou a revelação bombástica da Xuxa, diz saber de caso próximo, de gente muito querida, semelhante ao da apresentadora. “As crianças, meninos e meninas, não entregam o abusador, quase sempre, por medo do que a família pode pensar. Chegam até a se sentir culpados pela violência sofrida”, diz.

O Adelson traz para Bandeira Dois ponto de vista polêmico, debatido por ele, recentemente, com um psicanalista, passageiro das antigas. “Depois de tudo o que ouvi sobre o caso do maníaco do Bairro Anchieta, o tal Pedro Meyer, anote aí, Josiel… esse é um problema que pode se repetir. O abusador costuma ser um sujeito que foi abusado na infância. Como escreveu Freud: ‘A criança é o pai do homem’. Disse-me o Dr. René”. Será mesmo que Freud dá conta de explicar a quantidade de gente doente espalhada pelo mundo, capaz de abusar de nossos pequenos, Adelson? O assunto vai render.

O que sei, pai de família, é que não dá para baixar a guarda em relação às companhias de nossos filhos. Temos que ser vigilantes sempre. Como na história da Xuxa, que, alegre, falante na infância, de repente tornou-se calada, o mal pode estar muito mais perto do que a gente imagina: entre parentes, amigos, professores e vizinhos. É preciso denunciar. Lugar de quem maltrata a inocência é atrás das grades. No ideal em construção, pelo qual toda gente do bem trabalha, não há espaço para quem não tem coração. Com tanto tempo de TV, enfim, Xuxa trouxe à cena um pouco do seu melhor: a coragem.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 23/5/12

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Entre amor e sexo na Bahia

 Estrada deserta, noite fria, na volta para Belo Horizonte. Vendas fracas na Bahia. Parada no boteco do Posto Barão, café amargo e cigarro de palha. Na solidão dos faróis, o pensamento caçava novos rumos para vida. Em Ilhéus, Oseias arranjou problema crônico na cabeça e no coração. No peito, Joana, a mulher companheira, mãe do pequeno Hugo, de 2 anos, com quem estava junto desde o supletivo, em 2007. Já na falta de razão, as loucuras vividas nos últimos dias com Ariane, baiana de boas carnes, de 34 anos, divorciada e sem filhos.

No botequim às margens da rodovia, o jovem atendente cochila junto ao balcão. No caixa, o homem barrigudo faz palavras cruzadas. Comenta o sono do colega: “Esse aí tá virado tem dois dias. Nasceu o filho dele anteontem. Tá todo besta. Deixa ele. Se o senhor quiser alguma coisa é só me pedir”. Oseias pediu pão com linguiça para tapear o estômago e voltou a pensar em como encarar Joana. Por mais que tentasse evitar, nas idéias, o corpo monumental e a fala macia, quase doce da bela baiana. O cheiro de Ariane ainda estava no vendedor viajante. Ali, Oseias fechou os olhos para suspirar a amante.

Foi logo no primeiro dia, no Quiosque da Jandira, que ele conheceu o pecado de decote em vestido rodado. Ela chegou e mandou na lata: “Conheço você”. Oseas ficou sem entender e nada disse. “Seu nome é Oseas e você vende bolsas e sandálias na região. Você gosta de misturar cerveja na coca-cola e fuma cigarro de palha. Acertei?”, sorri e, charmosa, apresenta-se: “Ariane. Fui casada com o Tobias, da Rua do Porto. Ele já comprou muito na sua mão. Posso me sentar?”. “Sim. Claro...”, ele respondeu. Fogo à primeira vista. O encontro foi parar em casinha de onde se ouvia o mar. Lá, na rede, na varanda e no porão, sexo como o sujeito nunca teve na vida. E assim, no suor dos quadris por noites seguidas, o viajante foi vencido pela semana.

O pão com linguiça, do jeito que estava, no prato ficou. Oseas pagou e pegou novamente a estrada para encarar a volta para casa. Estava decidido a chutar o pau da barraca e o amor de Joana. Com ele, enfeitiçado, brecha apenas para o sexo de Ariane. O sol já estava a pino quando Oseas desligou o motor da caminhonete em frente ao portão de ferro, no Bairro Jardim Alvorada. Na suíte do casal, Joana, dava banho em Hugo, que gargalhava. Ele esquadrinhou a casa decorada e, por dentro, chorou os retratos felizes da família.

O vendedor respirou fundo em busca de coragem e só encontrou o amor pela mulher companheira. Não resistiu ao sorriso sincero, de saudade, de Joana e almoçou em família como se nada tivesse acontecido. Oseas conversou com o patrão e mudou de rota. Nunca mais voltou a Bahia.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 21/5/12

quarta-feira, 16 de maio de 2012

É triste o filme das drogas


Quando a turma toda se reúne é conversa boa para mais de metro. A cervejinha tem lá os seus efeitos de inteligência. Falo sério. O Adelson, por exemplo, mais reservado, tímido até, é só tomar uma cervejinha, que só traz para a roda assunto de intelectual. No último domingo, carros guardados na garagem, é claro, fizemos um churrascão na casa do Osmar. Uma farra inesquecível entre amigos. Nunca vi tanta boa gente, junta, por metro quadrado. Foi aniversário do irmão caçula do Osmar, o Mauro. Ele acaba de voltar dos Estados Unidos. Passou 15 anos lá, na peleja, como garçom, pintor e motorista. “A situação na América já não é mais a mesma para os brasileiros faz tempo…”, lamentou. O Osmar, bom irmão, cheio de saudade, resolveu fazer uma homenagem surpresa. Uma beleza de emoção! O Mauro estava muito feliz. Não é para menos: nesses 15 anos, o moço só esteve no Brasil uma vez, em 2004, quando o pai morreu.

Meus amigos gostam de boa prosa. E como gostam. Entre tanto assunto papeado, O Adelson – tinha que ser ele – estava bastante bem impressionado por um filme nacional, em cartaz nos cinemas da cidade. Chama-se Paraísos artificiais, de Marcos Prado. Também gosto do filme. Não o acho tão bom quanto o Adelson, mas, realmente, chama a atenção pela bela fotografia, direção de arte, trilha sonora e interpretações. Luca Bianchi e Nathalia Dill convencem até nas cenas mais difíceis, de sexo,
dirigidas com bom gosto. O roteiro, na minha opinião, é que tem lá umas brechas e, em algumas passagens, deixa parecer legal o uso das drogas – mesmo matando uma belíssima personagem e encarcerando o mocinho da história. Bom, é uma opinião apenas. O Adelson, taxista, quase um filósofo, acha que tinha mesmo que parecer muito legal, “porque é uma realidade construída. No fundo, é feio como a morte”.

Faz sentido. O que sei é que o assunto rendeu. O Mauro não viu o filme, mas disse que nos EUA teve grandes amigos que trabalhavam em festas. Inclusive, contou que fez alguns bicos como barman por uns dólares a mais. “Não esqueço. Trabalhei numa festa que rolou muita droga. Fiquei com tanto medo da polícia aparecer por lá, que pedi desculpas para o meu amigo que descolou o trampo e sartei fora quando a coisa começou a esquentar”. Mauro falou de música eletrônica, luz colorida e ecstasy na cabeça na moçada. Chega a ser parecido com o que acontece no filme do Marcos Prado. Paraísos artificiais mostra um pouco do rumo do sem rumo. Um retrato da triste contradição – dependência/liberdade – daqueles que não sabem lidar com limites.

Sueli ficou curiosíssima para ver o filme. Ela já perdeu uma pessoa muito amada para o mundo das drogas. “Era o melhor sujeito que conheci na vida. Ficamos uns dois anos juntos… aí, ele começou a usar maconha. E a vender… tive que sair da vida dele… nunca mais tive notícias”. Em casa, mais tarde, ao lado da mulher amada, uma conclusão: “É muito triste o filme das drogas”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/5/12

domingo, 13 de maio de 2012

Casa da vida

Texto: Jefferson da Fonseca Coutinho
Fotos: Juliana Flister

Minha mãe morreu “menina” ainda, aos 66 anos, no Dia das Crianças. Um coágulo depois de cirurgia besta e lá se foi Maria. Uma dor na lembrança. Quem já perdeu sabe, melhor que ninguém, a falta que a mãe faz. O tempo fortalece o coração, mas não dá conta da saudade. Não há melhor mulher que a mãe, é fato. Para homenagear aquela que traz à luz o homem, o Estado de Minas passou 24 horas no Hospital Sofia Feldman (HSF), maior maternidade de Minas Gerais, terceira maior do país, com mais de 800 partos por mês. Foi lá que, entre 125 mulheres de várias idades e de toda sorte, encontramos Morgana, Dayse, Aline, Leide, Andrea, Poliana, Janaína, Rosemary, Eunice, Vitória, Adriana, Natane, Madalena, Tatiana, Any, Jussara, Isadora, Ariane, Cláudia, Luciana, Kênia, Jéssica, Regina, Arielly, Camila e Jaqueline, ainda mais queridas neste domingo.

Não há luxo de hotelaria, tampouco camisolas de panos caros. Tudo é muito simples e toda a atenção é voltada para a melhor hora da gestante. Na portaria o movimento é grande, com cuidados voltados para a classificação da urgência de caso a caso. Da triagem para dentro, a aventura do nascimento. "Nasceu!" é a palavra festiva que se repete, dia e noite, em bom tom e intenção, entre os profissionais. Médicos, enfermeiros, doulas (espécie de parteira à moda antiga, sem ação direta)  e auxiliares movimentam os postos, corredores e quartos da maternidade, envolvidos por trabalho permanente. Ali, com média de 26 partos diários, há sempre um bebê no caminho da luz, sem pressa, no tempo da vida.

Com 75% de partos normais, no HSF busca-se, na medida do possível, dar unicamente ao bebê o instante do parto. Monitoradas, as gestantes chegam a caminhar horas pelos corredores em favor do momento. Jaqueline de Souza Lopes, de 38, anda em silêncio. Vai e volta por vezes em passos calmos, mãos unidas para trás e o pensamento longe. Educada, sorri pelo cumprimento. Está com 41 semanas. Grávida pela segunda vez, quer ter Guilherme sem nenhuma intervenção. A professora está há mais de 10 horas na maternidade. Cai a noite. Nos quartos batizados Dona Beja, Maria Nazareth, Adélia Prado, Yara Tupynambá e Chica da Silva, gemidos, gritos e sussurros. Por fim, o choro na garganta miúda, esperado por longos meses.

Na esquina reversível, transformada em sala de anestesia, o sonar mede o batimento cardiofetal (BCF). É o som da saúde de André, de 41 semanas, ainda no ventre da mãe, Adriana Santana, de 28. Ela acarinha a barriga para afagar o mocinho, que não parece ter pressa. A enfermeira obstetra Daniela Campolina, de 37, conta: "136… o ideal é entre 120 e 160. Está indo bem". Janaína Rodrigues de Oliveira, de 23, grita. É Marcus Vinícius, de 40 semanas, que decidiu mostrar a carinha em passagem normal. Mais gritos no quarto ao lado, de cor azul. O pequeno Renan, de 41 semanas, está bem perto de conhecer a beleza da mãe Camila Duelis, de 20. A técnica em meio ambiente quer muito o parto natural.

Jaqueline continua a passear pelo hospital. Agora, acompanhada pelo marido, Eduardo de Moraes Torres Júnior, de 38, microempresário. Na mulher, ainda o silêncio de história triste, deixada para trás. Ainda não é hora. Na balança, peladão, Yuri, serelepe, com 3,815kg. "É a cara do pai", diz Poliana Inácia Felix, de 21, garçonete, aliviada com o parto normal. "Era o que eu mais queria", comemora. Áurea Damascena Poles, de 60, doula da noite, comenta o gosto pelo serviço voluntário. "Venho feliz. Por toda a noite. É emocionante segurar a mão da mãe na hora do nascimento da criança", diz.

Os gemidos não cessam. É a hora e a vez de Maria Eduarda, de 40 semanas e dois dias. O "quinto e último" parto de Rosemary Barbosa, de 33, mãe também de Patrícia, de 12, Werikliander, de 10, Mateus, de 5, e José, de 2. Pelo corredor, passos firmes, o dr. William de Aguiar Fontes, de 30, médico de Camila Duelis. Para o obstetra, defensor do parto humanizado, é preciso reverter a ideia de que "a mulher que não tem dinheiro 'sofre' o parto normal, enquanto a mulher de recursos 'ganha' de cesariana". Camila segue firme com o propósito de parto natural. É chegada a hora de conhecer o filho. Não foi fácil. Com o uso de fórceps de alívio, às 22h50, com 47cm e 3,550kg, enfim, ganha a cena Renan, "o renascido em Deus".

No sexto andar, espaço democrático da refeição, mamães, acompanhantes e funcionários fazem fila para o macarrão com legumes e carne cozida. A comida é boa e a companhia melhor ainda. Regina Ramires Romão, de 40, nina Alice Mariah, vinda ao mundo pela manhã. Bela, nascida sob as águas. Na TV de tela plana, novela para pura distração. Dois andares abaixo, corre-corre com uma mãe em apuros.  Uma equipe de 10 pessoas faz a transferência de Eunice Ferreira da Silva, de 35, para o setor de gravidez de alto risco. Mãe e filha, Vitória, prematura, passaram por maus bocados por eclampsia, mas já estão bem. Desfeito o susto, a madrugada de lua cheia segue rara: tranquila.

Guilherme, o filho da professora andante Jaqueline, nasce às 3h08. Cesárea. Tempo de descanso depois de 19 horas de hospital. Às 4h25, Jussara dos Anjos Faria, de 29, tem no peito Isadora, de 39 semanas. "Engravidei em Porto Seguro. Sou chique, bem!", faz graça. Mais um choro de garganta miúda: Ismael, filho de Madalena Bonjardim, de 32. A doméstica, mãe de quatro filhos, já é quase avó. O filho Jefferson, de 17, está para ser pai. "Meu Deus do céu! É a minha filha! A minha filha!" ecoa em meio aos gritos de dor, de cócoras, no quarto Leila Diniz, no anexo da maternidade. Paula Tatiana Inácio Soares, de 27, festeja Júlia. Com a boca da pequena no seio, tem brilho inesquecível no olhar: "Que força ela tem… ó, ó!"

"Essa aí vai ser ‘a’ mãe! É forte demais!", elogia o pintor Wemerson de Almeida, emocionadíssimo. Refere-se à mulher, Arielly Samer, de 19, que, na banheira, sob as lentes do EM, trouxe à luz Pedro Othon, de 40 semanas. "Ficamos seis meses tentando, e quando paramos de tentar, ela engravidou", conta o papai coruja. A mulher retribui: "Ele chorou comigo. Ficou desesperado e queria a dor pra ele", sorri. Ao lado, mais nenéns. Depois de Karla, Kleber, Sarah, Raquel e Mariane, é a vez de Adrian deixar o ventre de Luciana Rodrigues Gonçalves, de 25, e cheia de coragem. No alojamento conjunto, Jaqueline, mãe de Guilherme, ainda se recupera da cesárea. Tem a companhia do marido, fiel parceiro, que muito bem cabe em si de tanto contentamento.

A história de Jaqueline, graduada em letras pela UFMG, é comovente. Ela conta que há 15 anos teve um garoto que morreu, antes de completar um ano, por complicações no pulmão. Ela ficou arrasada e o casamento ruiu. Sozinha, fechou-se para novos relacionamentos e pensou jamais ter condição de voltar a ser mãe.  Ela revela que ali, no silêncio das suas andanças, aos 38 anos, reviu valores e repensou o mundo. "Ganhar um presente assim, faz a gente pensar muito em Deus, no milagre da vida. Tanta gente vive de forma tão material, tão superficial. Procurei ter meu filho aqui por causa dessa filosofia diferenciada, no momento mais capitalista da medicina. Assim como acontece com a educação, a saúde também tem sido um comércio para muita gente", desabafa.

Milagre do nascimento

Foram nove semanas com a bolsa rompida. Em Contagem, a baiana Dayse Deiró Mendes, de 22 anos, com 23 semanas e quatro dias de gestação, ouviu que o melhor seria abortar Davi. Ela disse não e foi encaminhada às pressas para o HSF, onde, guerreira, amparada pela Casa de Sofias – anexo auxiliar mantido pela maternidade –, segurou o rebento por 63 dias, até que ele estivesse pronto para nascer. No último dia 4, o presente, "força do destino", vindo de um susto, mesmo com o uso de dispositivo intra-uterino (DIU). No colo, emocionada, exibe o mocinho, belo e forte, sob os cuidados da equipe da UCI. 

Bem perto de Dayse, a poucos metros, outra dupla valente: mãe e filha, num só carinho. Aline Santana Oliveira, de 21, e Isabela Vitória, nascida com 26 semanas e 620 gramas. "Ela ficou 56 dias na UTI. Eu adoeci e tive de ficar duas semanas em casa, só pensando nela. O resto do tempo fiquei aqui, acreditando que ela ia ficar bem", conta. Aline não desgruda de Vitória. Mimo para afastar o terror vivido em 8 de março, quando, em dois hospitais da região metropolitana - em Matozinhos e em Pedro Leopoldo -, ouviu que se insistisse na bebê correria sérios riscos de morrer. Prevaleceu Vitória.

Mimo e euforia

As mamães escutam a enfermeira obstetra Kelly Borgonove. É a reunião da tarde. Na sala, envoltos pelo aconchego das mantas e dos colos, 14 recém-nascidos. Nas mulheres, o cansaço e alegria se confundem. Não é para menos. Todas trouxeram as crianças ao mundo nas últimas 24 horas. Em pauta, cuidados. Fala-se em planejamento familiar – ali, não é tão raro, moças pobres, de vinte e poucos anos, já costumam ter meia dúzia de filhos.

Entretida, Morgana Sueli de Oliveira, de 21, segura cheia de mimo o pequeno Adriano, de 44cm e 16 horas, nascido com 36 semanas de gestação. Ela se destaca entre as outras mães pelo sorriso aberto que bem lhe cabe na boca. Sentada, faz dançar o tronco para embalar o tão querido Adriano. Forte, não parece ter enfrentado 15 horas de trabalho para o parto natural. "Nem soro tomei. Foi muito difícil colocá-lo pra fora… agora, tô feliz demais!".

No dia seguinte, pela manhã, o EM encontrou Mário Lúcio Rodrigues, de 29, pai do garoto, no café da manhã. O operador de retroescavadeira, vaidoso, barba desenhada à mão, fez questão de exibir o vídeo de 10 minutos feito por ele na hora do nascimento. "Bonitão demais, né não!? Olha só!" O filme, amador, é cheio de closes no saco roxo do menino. "Tem um monte de foto também! Quer ver?". Figuraça!


 
Arielly e Pedro Othon

 Leide e Daniel

 Madalena e Ismael

Poliana e Yuri

Tatiana e Julia

Adriana e André

Aline e Vitória

 Andrea e Aline

Ariane e Gabriele

Camila e Renan

 Dayse e Davi

 Janaina e Marcus Vinícius

Jaqueline e Guilherme

 Jessica e Tawanny

Jussara e Isadora

Kênia e Thiago

 Luciana e Adrian

Morgana e Adriano

 Natane e Luiz Otávio

 
Rosemary e Maria Eduarda


A HORA DA ALEGRIA
A felicidade das mães em 24 horas ininterruptas (das 14h do dia 8 às 14h do dia 9) na maternidade

15h
Leide Francisco Oliveira, de 31 
Daniel Gusmão Oliveira,
38 semanas
50cm; 3,095kg
Bairro Padre Eustáquio – BH

15h57
Andrea dos Santos, de 33
Aline dos Santos de Araújo,
40 semanas
50cm; 3,2kg
Bairro São Gabriel – BH

18h37
Poliana Inácia Félix, de 21
Yuri Félix Perussi,
41 semanas
49cm; 3,815kg
Ribeirão das Neves – Grande BH

19h24
Janaína Rodrigues Oliveira, de 23
Marcus Vinícius Rodrigues de Castro, 40 semanas
49 cm; 3,785kg
Conceição do Mato Dentro – MG

20h04
Rosemary Barbosa, de 33
Maria Eduarda Soares Paixão, 40 semanas
44cm; 2,855Kkg
Bairro Tupi – BH

21h29
Eunice Ferreira da Silva, de 35
Vitória Ferreira de Oliveira,
33 semanas
40cm; 1,915kg
Dores do Indaiá – MG

22h50
Camila Duelis Martins, de 20
Renan Duelis Martins Alves,
41 semanas
47cm; 3,550kg
Bairro Havai – BH

22h50
Adriana Santana Oliveira, de 28
André Santana Rosa,
41 semanas
54cm; 4,295kg
Ribeirão das Neves – MG

23h17
Natane Ribeiro de Assis, de 17
Luiz Otávio Ribeiro de Oliveira, 41 semanas
49cm; 3.550kg
Brumadinho – Grande BHMG

3h08
Jaqueline de Souza Lopes, de 38
Guilherme de Moraes Torres Lopes, 41 semanas
47cm; 3,860k
Vespasiano – MG

4h25
Jussara dos Anjos Faria, de 29
Isadora Faria de Freitas,
39 semanas
47cm; 3,330k
Bairro Tupi – BH

5h43
Madalena Bonjardim da Silva, de 32
Ismael Costa Silva
48cm; 3,090kg
Bairro Maria Goreti – BH

5h58
Paula Tatiana Inácio Soares, de 27
Júlia Inácio da Silva,
40 semanas
48cm; 3,535kg
Sabará – Grande BH

7h16
Any Ferreira Dutra, de 23
Gustavo Lopes Dutra Medeiros,
38 semanas
52cm; 3,990kg
Belo Horizonte

8h47
Ariane Martins Teodoro, de 17
Gabriele Martins Santana,
41 semanas
48cm; 3,595kg
Bairro Belmonte – BH

9h40
Jéssica Teixeira do Carmo, de 20
Thawanny Teixeira Fernandes,
40 semanas
47cm; 2,855kg
Bairro Nova York – BH

10h57 e 11h30
Claudia Pereira de Jesus, de 39
Warley: 41cm; 2,320k
Wesley: 43cm; 2,115kg
Vespasiano – Grande BH

12h30
Luciana Rodrigues Gonçalves, de 25
Adrian Matheus Vieira Gonçalves,
39 semanas
48cm; 3,765kg
Ribeirão das Neves – Grande BH

12h46
Arielly Samer Moreira, de 19
Pedro Othon Moreira Batista,
40 semanas
50cm; 3,490kg
Bairro São Gabriel – BH

13h11
Kênia Gonçalves Maciel, de 30
Thiago Henrique G. Martins,
39 semanas
50cm; 3,760kg
Bairro Santa Mônica – BH



Envolvente e emocionante

Por Juliana Flister

Acredito que estas sejam as palavras certas para descrever as 24 horas que passei na maternidade Sofia Feldman. 

Pelo fato de estar grávida, quando me chamaram para fotografar as mulheres que se tornariam mães, encarei o trabalho como um desafio. Afinal, assistir um parto normal antes do seu proprio parto não é tarefa fácil. Os gritos de dor vem de diversas salas ao mesmo tempo e assustam. O coração começa a bater mais forte, o primeiro pensamento é: "vou sair daqui". Segundos depois, você escuta: "vem meu filho, a mamãe tá te esperando. Vem logo. Eu te amo". Aí, não tem jeito. As minhas pernas ficaram paralisadas, sentei e chorei com o primeiro chorinho do bebê. Ali, naquele instante, você entende que a dor do parto é uma coisa linda, e isso dá coragem e vontade de ver tudo aquilo com os próprios olhos.

Com a autorizacão de algumas mulheres, entrei em duas salas e registrei, da forma mais respeitosa, aquele momento pessoal, único e corajoso. Usei da minha observação mais aguçada para construir imagens comoventes, carregadas de muita força, amor e emoção. Naquela fração de segundo, onde eu não podia perder o momento do clique, minhas pernas bambearam, mas me mantive firme. 

Ali, em meio a tanto sentimento, eu entendi os vários significados da palavra mãe.





Estado de Minas - Caderno Gerais - 13/5/12

24 horas no Hospital Sofia Feldman, maior maternidade de Minas Gerais

 Minha mãe morreu "menina" ainda, aos 66 anos, no Dia das Crianças. Um coágulo depois de cirurgia besta e lá se foi Maria. Uma dor na lembrança. Quem já perdeu sabe, melhor que ninguém, a falta que a mãe faz. O tempo fortalece o coração, mas não dá conta da saudade. Não há melhor mulher que a mãe, é fato. Para homenagear aquela que traz à luz o homem, o Estado de Minas passou 24 horas no Hospital Sofia Feldman (HSF), maior maternidade de Minas Gerais, terceira maior do país, com mais de 800 partos por mês. Foi lá que, entre 125 mulheres de várias idades e de toda sorte, encontramos Morgana, Dayse, Aline, Leide, Andrea, Poliana, Janaína, Rosemary, Eunice, Vitória, Adriana, Natane, Madalena, Tatiana, Any, Jussara, Isadora, Ariane, Cláudia, Luciana, Kênia, Jéssica, Regina, Arielly (foto), Camila e Jaqueline, ainda mais queridas neste domingo.

Leia a reportagem:
http://www.em.com.br/app/noticia/especiais/dia-das-maes/2012/05/13/noticias_internas_diadasmaes,293989/em-passa-24-horas-em-maternidade-e-homenageia-as-novas-mamaes.shtml

As fotos são de Juliana Flister, grávida de quatro meses, companheira de empreitada.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A bandeira do abraço

 Antonio Edson, o Edinho, de 43 anos, mecânico dos bons lá do Bairro Guarani, na Região Norte de Belo Horizonte, andava enfrentando a maior barra com os males do coração. Tanto que, agora, fim de madrugada, com o sol pronto para rasgar o horizonte, estava em lágrimas, abraçado ao taxista bigodudo de sorriso amarelo, na Praça da Estação.

Antes, para o amigo leitor entender o inusitado da cena, é preciso voltar horas no tempo, no cair da noite, na Rua da Bahia. Quando Edinho, andante, peito de amor doído, resolveu perambular sozinho, desgarrado, para espairecer a ideia abatida. Entrou no Teatro da Cidade, sempre de portas abertas, e viu drama de morte severina. No fim da peça, derramou o molhado dos olhos que a seca bebe e desceu a rua para matar a sede de aguardente.

Antonio Edson passou pelo restaurante lotado, 24h, mas não queria movimento. Preferiu entrar no Edifício Maletta e vencer a escada de aço escangalhada. Sorriu sem graça para o sujeito desdentado e arranjou mesa no canto, afastada. O rádio tocava qualquer coisa de fossa feita por um tal Vander Lee. Música boa, porém, de doer a alma. Edinho acendeu cigarro picado só para contrariar o pavor pelo fumo Tragou fundo como se quisesse incendiar as próprias vísceras. Virou uma, duas, três doses de pinga barata e suspirou como quem quer ver Jesus.

Amargurado, Edinho observa mesa de grupo fanfarrão e não dá mole para a alegria. Deixa nota amarelada na mesa sem se preocupar com o troco. Faz gesto seco para o dono do estabelecimento e volta ao rumo da rua. Desce desnorteado, atravessa a Avenida Afonso Pena e acaba indo parar na parte mais baixa, no quarteirão das putas tristes. Lamentou a sorte dos homens sós, dos casados traíras e esquadrinhou os hotéis fedorentos. A madrugada avançava quando Edinho, por fim, achou melhor tomar carro de aluguel e voltar para casa. Amargou mais meia hora vazia até conseguir parar sedan branco de placa luminosa, com o motorista gordão em cara de sono.

Edinho, descasado e sem filhos, olhou para o taxista e disse num só sopro, dando liberdade a voz do espírito: "Amigo, eu pago a bandeira. Mas não precisa partir... só quero um abraço... bem apertado. Um abraço apenas". E, ali, no Bulevar Arrudas, o mecânico carente e o taxista auxiliar ficaram unidos por hora: como dois irmãos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 7/5/12

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Querida Companhia em Araxá


Cenas de espetáculo e bastidores de Alice ao avesso, da Querida Companhia de Arte, em Araxá. O público prestigiou os dois dias de apresentações da peça no Tauá Grande Hotel e no pátio da Fundação Calmon Barreto. Filha da terra, Ana Cândida Cardoso, atriz, figurinista e produtora, recebeu e apresentou amigos e parentes à trupe, fundada por ela e pela atriz e produtora Paula Sá.

A peça é livremente inspirada na obra de Lewis Carroll – "Alice através do espelho" e "Alice no país das maravilhas" – e dá sequência ao trabalho de pesquisa iniciado pelo ator e diretor Jefferson da Fonseca Coutinho em "Chovia, mas os ladrões não usavam guarda-chuvas" (2005-2006). No elenco, Ana Cândida Cardoso, Emílio Zanotelli, João Porto, Lílian Campomizzi, Paula Sá e Wallison Reis.

Patrocinado pela CBMM, o grupo teve produção local de Heliene Pena Ribeiro Lemos e Cássio Pinheiro. Como principais apoiadores, Ilvio Amaral e Maurício Canguçu.
 










Os olhos do coração


 Avançar além dos muros da escola e fazer a diferença na vida do próximo. No Dia Mundial da Boa Ação, os cerca de 1,2 mil alunos do Colégio Pitágoras, no Bairro Cidade Jardim, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, tiveram um intervalo para enxergar o futuro com os olhos do coração. O mutirão pela consciência cidadã, liderado por crianças de 10 e 11 anos, alunos do 6º ano, faz parte do movimento A Corrente do Bem, criado na Austrália em 2007, que apenas no ano passado mobilizou 1 milhão de pessoas em 35 países. São esperadas para este ano mais de 3 milhões de ações em todo o mundo.

Pátio adentro, Artur Cabral, de 17 anos, escreve seu recado no telão multimídia: “O ego leva ao buraco”. Ana Tereza, de 11, extrovertida, percorre quadrantes com a cesta colorida de mensagens para crianças e adultos. “O Dia Mundial da Boa Ação não representa apenas a solidariedade. Representa uma preocupação maior com a educação e com o carinho. Com o respeito aos outros. Quer ler uma mensagem?”, oferece. No retalho de papel, a boa lição: “Foi magoado? Perdoe.” Para Bianca Pessoa, de 17, o movimento é um passo importante pelo futuro: “É muito legal essa consciência desde pequeno. Quanto antes melhor”.

As crianças se multiplicam com suas cestinhas cheias de bilhetes com ideais de cidadania. “Quer ler um recado?”, oferta a mocinha de óculos. Sim, claro. “Recebeu um favor? Retribua”, sugere o papelzinho cor-de-rosa. Três homens azuis e um avatar, atores amadores e alunos da instituição, se destacam na ação. Leonardo Guimarães Duca, de 18, Renato Cardoso Guimarães Junqueira, de 17, e Lucas Oliveira Mendes, de 16, em performance, estão decididos a dar exemplo aos “meninos mais novos”, colegas de escola. “Queremos melhorar o coração das pessoas”, diz Renato.“

Uma mensagem, moço?”, impossível resistir a mais uma oferta. “Ofendeu? Desculpe-se.” É isso aí. Além de gentilezas, a jovem avatar distribui autógrafos. É um sucesso entre os menores. Foi preciso dois horários para Paula Dornelas, de 17, se transformar na personagem célebre do cineasta James Cameron, coberta por maquiagem azul. “Representar o avatar significa chamar a atenção para os cuidados com o futuro do planeta”, justifica. Requisitada, Paula, que pretende ser jornalista, dedica-se sem perder o fôlego à comunicação com os pequenos fãs, companheiros agentes da corrente do bem.

A diretora Cristina Durzi demonstra o maior orgulho da atitude de seus pupilos. “ A energia que eu tenho na minha vida tiro é daqui, da educação de nossos alunos”, alegra-se. Orgulho e satisfação que se repetem na professora de ética Beatriz Vilas Boas, orientadora do projeto de boa convivência. Para a educadora, a ideia é resgatar e valorizar as boas relações humanas. “A escola é um espaço de informação, mas é também de formação para a vida”, considera. (Jefferson da Fonseca Coutinho)

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2/5/12
Foto: Maria Tereza Correia