Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Em 2010, tudo de bom!

O ano que finda pode não ter sido tão ruim. De mais a mais, para o cidadão honesto e trabalhador, as dificuldades já são regra. Exceção são os tempos de glória, fartura e alegria. A questão é que nem todo mundo aceita muito bem essa verdade. Entra ano, sai ano, é difícil haver novidade. Explodem novas quadrilhas de corruptos aqui e acolá. Em Brasília, então... Larápios e sanguessugas de tudo o que é lugar do Brasil acabam indo parar no Distrito Federal. Cegueira, miséria e corrupção. Dinheiro roubado na mala, na cueca, na meia e no calção. Haja ratoeira!

Argh! A política da falcatrua me dá nos nervos. Não vou nem render no papel que é pra não perder o humor. Vou é voltar à minha filosofia de fundo de quintal para dar seguimento ao raciocínio: 2009 poderia ter sido pior. Verdade. Aprendi com o Deus que há em mim que, quando algo está ruim, pode piorar. Portanto, entendo o que é ruim, assim, simplesmente ruim. Ruim e ponto. Já o que é bom, para mim, é sensacional, incrível... Fico feliz com pouco ou quase nada. Desde que passei a aceitar que (sobre)viver é matar um leão por dia, ganhei mais força para continuar lutando. Problemas todo mundo tem. Sabemos disso, amigo leitor. A diferença está em como cada um lida com eles. Vencedor ou perdedor? Depende de nós.

Vejo de tudo nessa praça. Posso garantir que quem não tem dificuldades reais, no fim das contas, acaba dando um jeito de inventar obstáculos imaginários. E como tem gente assim. Observando alguns conhecidos, cheguei a pensar que o homem não nasceu para viver em paz. Na época, assustou-me bastante essa conclusão. Cheguei a preencher meia dúzia de cadernetas com o assunto. Numa delas, amarela de capa dura, escrevi: “Incrível, quando estamos bem, em paz com nossas ações, damos um jeitinho de arrumar confusão”. Lembro-me bem da ocasião. Curiosamente, foi quando entrei num assunto para defender um amigo e perdi o sono com o aborrecimento.

Relendo as anotações reunidas, posso dizer: “Que bom que a gente amadurece”. No entanto, algumas histórias se repetem. Muito do que foi escrito há quase cinco anos está aí. Especialmente no que se refere à fantástica vocação do homem para ir atrás ou atrair problemas. Lembro-me de um tal Tony, conhecido do Adelson. Dizia-se bom de briga. Contava vantagem sobre os seus desentendimentos e adorava confusão. Começou a praticar uma dessas lutas de academia com gente desqualificada e, por fim, em 2004, foi esfaqueado numa briga de rua. Por pouco não morreu. “Tome juízo, Tony”, escrevi. Em 2009, pelo que tive notícia, não foram poucos os casos de violência assim.

Repassei os textos de fim de ano e um sentimento de gratidão se repete: viver é um privilégio. Cada instante a mais, em corpo emprestado, é presente do universo. Fácil? Quem disse que seria? Mas ter consciência do poder do Deus que há em nós ajuda a vencer. É o que precisamos acreditar para não desperdiçar a vida. As dificuldades tiramos de letra. Em 2010, amigo leitor, muito de bom nos espera!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 30/12/09

sábado, 26 de dezembro de 2009

Os amores de Alice

Encontro fatídico aquele entre o ex-marido e o novo amor de Alice, na ante-sala do bloco cirúrgico do hospital de pronto-socorro. E tudo muito rápido, coisa de hora, na madrugada do Natal. O caminhão perdeu o freio na Avenida Nossa Senhora do Carmo, avançou o sinal e acertou em cheio o uninho prateado da publicitária de 32 anos. Com o impacto, presa entre as ferragens, a mulher bêbada perdeu os sentidos. A bolsa de couro cru no banco de trás, espremida entre embrulho de presente e dúzia de flores, espalhou papéis pelo assoalho retorcido. Em evidência, fácil ao olhar do bom bombeiro, bilhete em cartão colorido: “Vou passar o final de semana com a família de um amigo. Não vivo sem você. Com amor, Diego”.

Logo abaixo da assinatura, número do telefone do sítio em Betim. O homem do resgate não teve a menor dúvida: a caminho do hospital de urgência, sob o som da sirene e dos efeitos das luzes agitadas, telefonou para dar a notícia do acidente ao tal Diego. “Ela não está bem. É melhor o senhor se apressar”, disse, objetivo, o agente de plantão. Diego saltou da cama emprestada com a cabeça num só giro. Havia exagerado no vinho durante a ceia na casa de madeira do colega músico. Jogou água fria no rosto e seguiu para Belo Horizonte. Estava a quase hora de distância do HPS. Tempo suficiente para repassar os oito anos de vida ao lado da acidentada, agora, entre a vida e a morte.

Rompidos há três semanas, Diego e Alice até que viveram dias felizes. Como tudo que começa um dia acaba, o casamento terminou no saco preto das idiossincrasias. O golpe duro veio dela: “Tenho novo amor. Adeus!”, disse assim, na lata, de bagagem arrumada. De romance há mais de mês com seu estagiário na agência, Alice não deu conta de viver na mentira. Já Diego vinha fazendo de tudo para resgatar a mulher. Em vão. O coração da moça já era do Luís Adriano, mais interessante e cheio de graça. Um sucesso o garotão de vinte e poucos anos: descolado, divertido e beberrão. “Nada disso importa agora”, pensou Diego, ao estacionar o carro em frente ao HPS.

“O caso é grave, meu senhor. Ela está sendo operada”, foi o que ouviu da enfermeira apressada, sem nuance ou expressão. Na ante-sala vazia, um silêncio de morte. Ateu, Diego andou de um lado para o outro sem ter a quem recorrer. Pensou apenas na natureza e tentou buscar força em si mesmo. Estava com a cabeça no infinito, quando ouviu a voz do rival: “Toma aí. Vai te fazer bem”. Virou-se e viu Luís Adriano, com copo de café na mão. Visivelmente abatido, com olheiras profundas, o rapaz, novo companheiro de Alice, manteve o braço erguido em oferta durante a longa pausa do ex-marido. “Toma, vai”, insistiu. Diego aceitou sem agradecer palavra. Ficaram ali, mudos, apenas os dois. Os ponteiros do relógio na parede se arrastavam na falta de notícia.

No “sinto muito” da mulher de branco, os dois se abraçaram numa única dor.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26/12/09

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Sou mais o menino Jesus

Querem remoçar o bom velhinho. Domingo, dois amigos da praça trouxeram o assunto para a mesa do lanche. O Osmar disse que querem um Papai Noel mais jovem, sem barriga, atlético e esbanjando saúde. Também não querem o generoso senhor da barba branca com seu trenó puxado por animais. A conversa rendeu por mais de hora. Primeiro, em tom sério, a notícia despertou o interesse de todos. Depois, com as piadas do Rubinho, o tema ganhou graça. Mais tarde, respeitosamente, encerramos o assunto para retomar o batente.

Motivado pelo espírito do Natal, num passeio, subi a Avenida Afonso Pena até a Praça do Papa, no Bairro Mangabeiras. Ainda não havia passado por lá depois das luzes de Natal. Havia acabado uma apresentação de uma espécie de teatro produzido por uma marca famosa de refrigerante. Ainda havia algum movimento no lugar, além de exposição, trenzinho e coisa e tal. Era fim de festa, mas foi possível perceber que se tratava de evento de grande porte. Parei o carro em mirante limpo e pude ver a beleza de nossa Belo Horizonte iluminada.

Respirei fundo com aquela belíssima vista de cartão-postal e resolvi dar tempo para reflexão e escrita. Saquei a caderneta de papel pautado e deixei a caneta correr solta, no fluxo do pensamento. Escrevi muito. Agradeci aos astros do céu por tudo de bom que a vida tem me oferecido: a saúde de todos os que amo; o pai extraordinário e os filhos incríveis; a companhia da doce Violeta que, este ano, voltou dos Estados Unidos para se entender comigo; os estudos beneficiados por momento de paz interior; o trabalho e, por fim, os amigos e parceiros raros que venho somando desde que nasci.

Entendi que, apesar de alguns projetos parecerem não sair do lugar, só tenho motivos para agradecer e comemorar. Viver em harmonia com o que é essencial e sagrado, realmente, é tudo o que importa. O resto é necessidade e invenção do homem. Manter-se alinhado com todos os nossos eus é um privilégio. A loucura é uma porta miúda que abrimos de fora para dentro. Manter sua chave em lugar seguro é tarefa para poucos. Afinal, entre o certo e o errado há uma linha por demais fina, quase invisível. Libertar-se dos males alojados no entorno do próprio umbigo é uma bênção.

É Natal. Independentemente de credo ou religião, há mesmo nesta época um espírito de luz que ronda o coração da maioria dos homens. Vendo a cidade daqui, com tantas mansões, um pensamento: é triste tanta diferença. E elas estão aí, por todos os lados. Os shoppings lotados e os sinais também, com crianças e pedintes de caixinhas nas mãos. Impossível não pensar nisso. Com tanto a ser feito por quem tem fome, não entendo como ainda tem gente que se preocupa com o tamanho da barriga do Papai Noel. Sou mais o menino Jesus.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 23/12/09

domingo, 20 de dezembro de 2009

O outro lado é apenas um ponto de vista

Dos mais difíceis, também dos mais felizes, "Vila dos mortos" volta ao cartaz em 2010. Aos companheiros de criação compartilhada, veteranos e recém-formados, o meu carinho. Aos parceiros (e mistérios) do lado de lá, nosso muito obrigado.








Leia mais sobre "Vila dos mortos" em:
http://jeffersondafonseca.blogspot.com/2009/09/vila-dos-mortos-critica.html

sábado, 19 de dezembro de 2009

Incômodo necessário

Poema do concreto armado, da Trupe de Teatro e Pesquisa, é perturbador. O espetáculo, dirigido por Yuri Simon, consegue provocar pelo todo. Há na peça bom alinhamento de texto e encenação. O que se vê em palco-passarela é trabalho de vertigem. O texto de Rodrigo Robleño, palhaço profissional, fala, entre tantas outras coisas, sobre a desumanização do homem-consumido(r). Não é fácil receber seu desabafo. Talvez porque as verdades contidas nas entrelinhas incomodem. Ou, ainda, porque seja por demais provocador perceber-se em subtextos como: “Veja aonde você quer chegar, idiota”. Comumente, sabemos todos, o homem vira as costas para recados assim. Afinal, é mais fácil se afundar na ignorância do que se erguer no vazio.

Não é de espantar que parte da plateia perceba Poema do concreto armado apenas trabalho alternativo, meio teatro, meio videoinstalação, defendido por boa trupe. De fato, é o que encontramos na superfície. No entanto, apesar do incômodo provocado por isso, vale dobrar-se em si mesmo, em busca do eu profundo, para enxergar de fora para dentro. Pensar já não se faz necessário no mundo pasteurizado em que vivemos. Quem questiona o sistema – se incorruptível – é silenciado com a morte. Yuri Simon consegue levar isso ao seu lugar qualquer sujo e caótico.

Tecnicamente, para êxito plural e absurdo da montagem, além do espaço apropriado em Santa Tereza, a direção reuniu estrutura multimídia eficiente, com monitores e projetor de vídeo. Achatados e fragmentados na parede, ou aprisionados em tubos (ao vivo ou gravados), as personagens de Poema do concreto armado se instalam e se expõem. A trilha, com sons, músicas, ruídos e offs, ajuda na construção de clima e atmosfera. Assim como o cenário, os objetos de cena e os figurinos são bastante adequados à poesia de Robleño. Se os excessos na roupagem são positivos em Poema do concreto armado, os de interpretação enfraquecem algumas criações.

Com tanta balbúrdia consistente na proposta, faz-se desnecessário, por exemplo, os olhos estatelados de Alice Corrêa, no papel de Male. Atriz de notável potencial e recurso, sua composição se apresenta por vezes externa. Simone Caldas, crível como Arthul, no papel de Fâny, erra a mão. Convincentes, ainda que em limite perigoso, estão os bons Jader Corrêa e Flávia Fernandes. Justos, por timing preciso e composição acertada, vê-se Alexandre Toledo e Edu Costa. Alexandre é ator visceral, que consegue dar cor ao silêncio. Já Edu, desdobrado, não força a barra numa vírgula. Representa com competência a sorte que ampara o herói morto.

Poema do concreto armado tinha tudo para ser apenas mais um furor criativo de trupe apaixonada por arte cênica e pesquisa. No entanto, oportuno e pertinente, coloca o dedo na ferida do que estamos fazendo de nós.

Poema do concreto armado
Hoje e amanhã, às 20h, no Ideal Clube, Rua Estrela do Sul, 169, Santa Tereza. Ingressos limitados (50 lugares): R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia-entrada). Informações: (31) 9123-1160.


Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19/12/09
Foto: João Silver

Um presente de Deus

Desde que foi vítima de derrame, no início deste ano, o pai da Júlia não soprou mais palavra. Aposentou-se por invalidez e pareceu ganhar novo mundo, imerso em si mesmo. Aos 58 anos, o silêncio foi a principal sequela do mal súbito que o deixou tempos acamado. Apesar das dificuldades motoras, Wilson conseguiu recuperar independência para as necessidades primárias. Voltou a andar e a cuidar da própria higiene. No entanto, não é mais de esboçar expressão. Os olhos têm brilho apenas na companhia da filha única, Júlia, médica de 29 anos. Perto da mulher, Carmelita, talvez por desgosto, "seu" Wilson se afundava no vazio de coisa nenhuma.

É verdade que não foi feliz no casamento. Laçado firmemente no passado, o advogado sempre penou nas mãos da dondoca. Da alta sociedade, Carmelita se casou por conveniência. Todo mundo sabia. Mas o coração - vai saber - tem lá as suas razões e o homem, apaixonado, pagou para ver. De cara, endividou-se até o pescoço para dar conta das extravagâncias e vontades da companheira. Sem vocação para fazer algo útil ou produtivo, Carmelita continuou a exigir mesada do pai. Wilson considerava aquilo um absurdo, já que todo o dinheiro era para roupas, perfumes, maquiagens e sapatos.

A vida se ia até que noite inesquecível mudaria o rumo dos acontecimentos. Isso, há quase 30 anos. Wilson chegou mais cedo do escritório e preparou prato predileto da mulher. Ela estava fora. Na ginástica, talvez. Ele, com resultado de exame no bolso, ensaiou a notícia ruim. Pensou em não dizer nada, mas não achou certo esconder verdade tão séria. Bem mais tarde do que de costume, Carmelita chegou descabelada. Nem olhou na cara do marido e mandou na lata: "Estou grávida! Você vai ser pai, Wilson!" E foi tomar banho, dizendo-se acabada. Seguiu sem esperar qualquer reação do sujeito. Aturdido, ele decidiu não revelar que, estéril, não podia ser pai. Os meses se somaram e a chegada da pequena Júlia acabou trazendo alegria ao infeliz.

Três décadas vividas, Carmelita não sossegava o quadril vagabundo. Depois do derrame do Wilson, passou a aprontar em casa mesmo. Com o marido no quarto ao lado, ela se acabava no colo de qualquer um. Dia desses, Júlia deu fim ao desrespeito da dona assanhada. Voltou do consultório e, ao encontrar o amante da mãe de calças arriadas no sofá, decidiu ir embora com o pai. Na porta, de malinha na mão, foi dura: "Vergonha. A senhora me enche de vergonha". Desceu a mão na cara plastificada da velha fogosa e foi parar em apart-hotel com o pai.

Naquela noite, no sofá-cama da sala de aluguel, Wilson quebrou o silêncio e sorriu com as palavras: "Você foi um presente de Deus, minha filha!".

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19/12/09

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Os donos do jogo

É o elenco quem segura O jogo da velha – Dooutroladodecá, em cartaz no Teatro João Ceschiatti. Não fossem atores tão bem preparados, a peça teria duração além da conta. Com mais de duas horas, a trama emaranhada, que a escritora Adriana Falcão resolve bem no papel, mostra-se ainda mais confusa na adaptação do diretor Zé Walter Albinati. No palco, a história de amor entre Luna Clara e Apolo Onze (também de Doravante e Aventura) se perde mais do que é devido em tempo e espaço. Fácil ao espectador deixar escapar o fio da meada, onde parece não haver fio nem meada, cortinados por jogo extravagante de palavras.

Ainda assim, tamanha força poética da obra, o texto infanto-juvenil levado à cena é sedutor. Preservado, em diálogos ou solilóquios, é capaz de dar independência aos sentidos e fazer valer qualquer esforço por parte da plateia para o alinhamento das ideias contidas na história original, extraída do livro Luna Clara & Apolo Onze. Não só pela poesia O jogo da velha merece audiência: vê-se no espetáculo tabuleiro de criatividade e de boas interpretações, com 17 atores em entrega e ritmo de formatura.

Montagem de conclusão do curso profissionalizante do Centro de Formação Artística (Cefar) da Fundação Clóvis Salgado, O jogo da velha tem encenação que oferece suporte ao elenco. Nisso, mérito da direção de Zé Walter, que, adepto da criação compartilhada, não engessou o grupo e permitiu que seus intérpretes-criadores trabalhassem. João Filho, com seu papagaio de inteligência inestimável, merece registro. O ator tem carisma, verve e consciência corporal destacados. Luísa Bahia é outro nome de futuro. Fácil dobrar-se ao timing de sua composição. As envergaduras de Marina Ferraz e de Priscila Bortoli também não passam despercebidas. Inesquecíveis ainda os mantenedores de Madrugada, Erudito e Aventura.

Produção cuidadosa, O jogo da velha tem ficha técnica de primeira linha: Inês Linke (cenário), Raul Belém Machado (consultoria de figurino) e Lúcia Ferreira (preparação corporal) mostram porque, entra ano, sai ano, estudar teatro no Palácio das Artes é tão concorrido. É notável o acabamento do trio-professor na realização de seus pupilos. A trilha, executada ao vivo pelo Grupo de Percussão do Cefar, também enriquece o espetáculo. Embora, por vezes, tenha volume além do necessário para a sala pequena e de boa acústica. Enfim, O jogo da velha é bom espetáculo de atores. É o bastante.

O JOGO DA VELHA – DOOUTROLADODECÁ
Teatro João Ceschiatti – Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400). Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 17h e 19h30. Entrada franca. As senhas devem ser retiradas 1h antes do espetáculo.


Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 18/12/09
Foto: Paulo Lacerda

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Corpo fechado

De fato, há muitas coisas entre o céu e a terra. Hoje não posso deixar de dividir com o amigo leitor pensamento que vem me pululando a cachola. Desde que tive como passageira, mulher triste, de nuvem escura na cabeça, não deixo de anotar o assunto. Em dois dias foram quatro cadernetas de bolso em riscos e rabiscos. Trata-se, numa linha simples, de inveja e olho gordo. Nunca fui de pensar muito nisso. Mas, depois da Conceição, fui obrigado a rever as ideias.

Foi uma aventura nosso encontro. Tomou-me o táxi sob forte chuva, no Bairro São Lucas, e seguimos até a região da Pampulha. Logo de início combinamos preço justo pela ida e pela volta. Disse-me que demoraria no máximo meia hora e pediu que esperasse por ela. Topei por várias razões. Menos pelo serviço e mais, talvez, por pressentir a história. Conceição, recém-separada do marido, seguia para consulta com uma velha, especialista em mau olhado.

Na ida, demorada pelo trânsito caótico da Avenida Pedro II, a bela mulher do vestido florido e de olho esverdeado me contou sobre a má fase. Sua história deixou-me arrepiado. Segundo ela, tudo começou há pouco mais de mês, com a chegada de uma prima nordestina. A parente passou uma semana em sua casa, para participar de curso na área de marketing. Feliz com o novo apartamento, comprado com o próprio suor no meio do ano, Conceição conta que fez de tudo para sua hóspede se sentir em casa.

Desde então, foi um festival de acontecimentos estranhos. A começar pelo jardim da área privativa: todas as flores mortas de um dia para o outro. O cachorrinho de estimação, um poodle branco “alegre e saltitante”, choroso e acuado por tudo que é canto, escondido sob os móveis. Problemas com trabalho, casamento e saúde: “Minha chefe quer a minha cabeça. Meu marido, sem mais nem por que, disse que precisava de um tempo e saiu de casa. E, como se tudo não bastasse, me aparece essa ferida. Olhe”, mostrou-me o machucado horrível no peito do pé direito.

Perguntei se ela havia procurado um médico. Ela disse que sim e que estava fazendo uma bateria de exames. Falou-me, porém, que estava certa de que tudo aquilo era fruto de energia ruim. Nisso, chegamos ao endereço combinado. Enquanto a aguardava, impressionado, desci a caneta no papel pautado e perdi a noção do tempo. A hora passou num raio e Conceição já estava de volta. Trazia uma sacola com ervas e pacote de cheiro bom. Pareceu-me aliviada. Não quis muita conversa. Abriu livro que comprou da benzedeira e não tirou os olhos dele.

De volta ao ponto de onde saímos, já sem chuva, sorriu pela primeira vez. No céu, uma estrela. Foi quando pude ler o título do tal livro: “Corpo fechado”. Anotei para adquiri-lo em seguida. É um romance editado pela Casa dos espíritos, “assinado por Robson Pinheiro, pelo espírito W. Voltz, orientado por Ângelo Inácio”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/12/09

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Yuri Simon e cia

Perturbador o "Poema do concreto armado", da Trupe de Teatro e Pesquisa. Esta semana escrevo sobre a montagem que fica em cartaz até domingo, dia 20.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O jogo da velha

Apesar de dramaturgia confusa, peça de formatura do Cefar tem festival de boas atuações. Esta semana, resenha em Vida Bandida.

O jogo da velha - dooutroladodecá
Formandos do Centro de Formação Artística (Cefar) da Fundação Clóvis Salgado - 2009. Sala João Ceschiatti - Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537 - 3236-7400). De quinta a sábado, às 21h e domingo (dia 20), às 17h e 19h30.

Dramaturgia e direção: Zé Walter Albinati


Entrada franca, com retirada dos ingressos 1h antes do espetáculo.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A maldição de Nelson

Carminha sempre teve inclinação para artista. Desde cedo roubava a atenção em casa e nas festas de família. Era “Carminha, dança para o titio” pra cá, “Carminha, canta pra vovó” pra lá... “Carminha, diz aquele poema do André Di Bernardi pra mamãe”. Uma loucura. Tanto é que a menina cresceu cheia de mimo e segurança. O pai, delegado, temia: “Essa menina vai dar muito trabalho”, disse certa vez, limpando o trezoitão. E deu. Bastou ganhar peitinho e bundinha para enlouquecer os colegas de escola.

Por onde andava Carminha fazia torcer o pescoço da marmanjada. Não fazia de propósito. O jeito tentador estava na alma. Mas não gostava dos garotos da sua idade. Na verdade, tinha verdadeiro pavor de adolescente com cara, riso e ideia de retardado. Carminha era diferente. Gostava de arte. Muita arte. Especialmente de teatro. Desde que conheceu Nelson Rodrigues, então, não quis saber de outra leitura.

Aos 16 anos, enveredou-se pelo campo das artes dramáticas. Escolheu escola séria, de nome e respeito. Procurou saber, entre os professores, quem era o mais entendido no escritor e anjo pornográfico. “É o Artistides. Sabe tudo. Já fez todas as peças do Nelson”, recomendou o secretário afeminado. “Quero a turma dele”, matriculou-se. Voltou para casa excitadíssima com as aulas já em andamento, que, para ela, começariam no dia seguinte. Comprou malha preta discreta para conter brilho e sedução. Não saiu à noite e foi para cama mais cedo.

Na escola, conheceu o professor: um cinquentão de olhar ordinário e fala mansa, com longas madeixas prateadas. Tinha mesmo cara de entedido o cretino. Apresentou-se por hora lambendo o próprio umbigo. Carminha, aquietada no fundo da sala, ouvia tudo atentamente e ajuizava seu valor. Os olhos do cidadão perceberam fundo a novata. “É você, com o cabelo trançado, a Carmem?”, perguntou o Aristides. Ela apenas moveu a cabeça. Ele discursou: “Gosta de Nelson, não é!? Pois saiba que não se aprende Nelson, minha filha. Vive-se Nelson”.

E continuou com tamanha convicção e postura vocal, que toda a classe pareceu hipnotizada. Menos Carminha. No entanto, convenceu-se para ver onde aquilo ia dar. Duas semanas passadas de muita falação, era hora de começar os ensaios. Acordaram montar cenas curtas, com textos de Nelson. O professor se ofereceu para preparação fora da escola com quem pegou o curso já iniciado. Naquela turma, apenas Carminha. O canastrão sugeriu domingo, à tarde, no teatro em reforma que ele administrava.

Na segunda-feira, pela manhã, cena rodriguiana em palco inacabado. Foi o pedreiro Adão o primeiro a chegar à obra. Encontrou inanimado, nu, com um tiro nos bagos, o professor Aristides. Amarrado, sangrou até morrer o infeliz. Soube-se na delegacia que ele adorava importunar menininhas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 12/12/09

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Poema do concreto armado


Bom diretor, bons atores... vamos ver o que Yuri Simon, Alexandre Toledo, Edu Costa e cia. aprontaram nessa proposta multimídia, que marca os 15 anos da Trupe de Teatro e Pesquisa.


Poema do concreto armado
De sexta-feira a domingo, às 20h, no Ideal Clube, Rua Estrela do Sul, 169, Santa Tereza. Ingressos limitados: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia-entrada). Até 20 de dezembro.
Informações: (31) 9123-1160.

Foto: João Silver

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Boa é a vontade


Não é querer demais esperar muito de uma montagem de formatura do Teatro Universitário da Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG. Fundada em 1952, o TU, como é conhecida, é uma das mais importantes escolas de arte do país. No entanto, Via Crucis do Corpo, da turma de 2009, dirigida por Alexander de Moraes, está longe de representar o conjunto das boas lições ensinadas por lá.

O pior do espetáculo está no desenho da cena, com marcações primárias e coreografias pobres, dessas comuns às escolas menores, livres e de pouco compromisso. A ideia do tango como ponto de partida se esgota e enfraquece a ação dramática. Mesmo o bom texto de Clarice Lispector perde força narrativa ao ser dissolvido por estrutura de jogral, usada apenas para justificar o número de atores no palco. O vermelho, presente ao longo de uma hora de duração, chapa e cansa.

Os três contos da escritora, “Miss Algrave”, “Praça Mauá” e “O corpo”, são narrados e encenados em três quadros cômicos de breve duração. Está em “O corpo” o resultado mais apurado: há boa química e trato da palavra entre o quarteto que sustenta a cena. Aliás, em Via Crucis do Corpo, pelo todo, se salva a boa vontade e entrega dos atores. Bem, precisamente, meia dúzia deles. Outros fazem número, engessados pela encenação.

Não há melhor ator que o estudante que busca a profissionalização numa escola séria. Em geral, intrépido e disposto a doar o corpo e a alma para aprender e mostrar serviço. Cabe à direção buscar o projeto que aproveite ao máximo o potencial de seu grupo. Nesse sentido, Alexander de Moraes erra ao privilegiar uma encenação ruim. Peca, também, ao desperdiçar a boa violoncelista Larissa Mattos com acordes já tão batidos ao universo pornográfico de Nelson Rodrigues.

O texto de Clarice Lispector, somado à boa trupe, merecia mais. Muito mais.

Via Crucis do Corpo
Espaço Trama Teatro Garagem (Rua Salinas, 642, Bairro Floresta). Até dia 20, de terça-feira a domingo, às 20h. Entrada franca. Ingressos limitados, controlados por senha. Reservas: (31) 3879-2475 e 9128-2475.


(Jefferson da Fonseca Coutinho - Estado de Minas - Foto Ilana Caiafa)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Via Crucis do Corpo

Uma pena. A direção não soube valorizar o elenco. Para espetáculo de formatura do TU, com texto de Clarice Lispector, o resultado decepciona. Amanhã, no blog, resenha sobre a montagem. Laura Picorelli e cia., bem-vindos ao mercado!

É hoje


O Comedor de Batatas
Hoje (quarta-feira), às 20h

Casa do Estudante (Avenida Getúlio Vargas, 85 - Funcionários)

Ingressos: R$ 2

Mineiros, cariocas e urubus


Parabéns aos flamenguistas de Juiz de Fora! Especialmente ao técnico Andrade, que fez bonito Brasil afora, levando o Flamengo ao hexacampeonato. Já pelas bandas de cá, verdade seja dita, não há muito o que comemorar. A Libertadores para o Cruzeiro não era mais do que obrigação. Para mim, sem oba-oba, o treinador Adilson Batista está é em falta. Vamos ver se vai saber aproveitar a nova oportunidade e o voto de confiança da torcida azul. E o Galo? Um fiasco. Definitivamente, não merece a torcida que tem.

Mas futebol é assunto para os entendidos (e são muitos). Resolvi abrir nossa Bandeira Dois com o Flamengo, do mineiro Andrade, porque estive no fim de semana em Juiz de Fora e fiquei bastante impressionado com a festa rubro-negra na cidade. Buzinaço e carnaval em vários pontos por onde passei. Parecia que Violeta e eu estávamos no estado do Rio de Janeiro. Nunca vi tanta gente bonita aglomerada vestida de preto e vermelho. Uma farra, com bares e ruas lotados.

Depois de sábado e domingo de muitas alegrias em terra de inclinações fluminenses, a semana começou bem na volta a Belo Horizonte. Praça movimentada, aquecida pelas chuvas e pelo Natal que se aproxima. Este mês promete ser muito bom. Ontem, o Adelson, otimista que só ele, disse que já faturou em uma semana mais do que durante todo o mês passado. Está rindo até, de carro novo e em paz com amor antigo. Grande, Adelson! Beijo na Rita, meu velho. É. Não tenho dúvidas: o bem atrai o bem. A cada dia acredito mais nisso.

Gosto muito de pensar que o pensamento é como ímã. Tenho provas reais, diariamente, da tal lei da atração. Tenho muitos amigos e colegas. Basta ser um pouquinho observador para ver de tudo: quem só pensa em mulher, tem muita mulher; em dívida, muita dívida; em trabalho, muito trabalho; em doença, muita doença... e por aí vai. Há até quem só pensa em dinheiro e tem muito dinheiro. O problema é que o dinheiro não é tudo. Daí a importância de equilíbrio na vida. Não é fácil, mas vale refletir sobre isso.

No momento, por exemplo, tenho pensado muito em paz. Especialmente, na paz do mar e de suas marés no Espírito Santo. É onde vou passar a segunda quinzena de janeiro com a família, logo depois da etapa final do vestibular da UFMG. Feliz, estou procurando não pensar muito nas provas da próxima fase. Não quero perder os cabelos. Em vez de continuar comendo os livros, optei por um treinamento zen: bioenergética e meditação. Comecei na segunda-feira mesmo, logo depois de saber o resultado.

No mais, 12 horas de jornada. No tempinho vago, mão na caneta azul, que corre solta na caderneta de papel pautado. Depois de falar de Minas, do Rio e do Flamengo, um título: “Mineiros, cariocas e urubus”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 9 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Clarice Lispector

É sempre bom ver atores mergulhados no universo de Clarice. Vou hoje. Depois conto pra vocês.


Via Crucis do Corpo
Com os formandos do TU 2009
Adaptação dos contos de Clarice Lispector
Direção: Alexander de Moraes

Espaço Trama Teatro Garagem
Rua Salinas, 642 - Floresta

De 9 a 20 dezembro, às 20h

Reservas:
(31) 9128-2475
(31) 2515-1580

sábado, 5 de dezembro de 2009

O professor e a prostituta

"Mesmo sentados a meio estabelecimento de distância, Jonilson e Bela trocaram olhares fulminantes. Ele, por paixão, tipo amor à primeira vista. Ela, por esporte, pura diversão"




Tudo começou com uma permuta. A proposta partiu dele, que já havia desembolsado bom trocado pelos sussurros da mulher de aluguel. Desde que a conheceu, num restaurante da Rua da Bahia, tomou gosto pelas habilidades incríveis da profissional do sexo. Jonílson colocou as despesas na ponta do lápis e concluiu que, com o salário de professor, não daria para duas vezes por mês. "Com a outra eu queria todo dia!", pensou alto ao ver a esposa sem sal roncar numa madrugada fria, já mordido de amor.

Com a relação minguada em casa, vez ou outra, no sacrifício, ele estava decidido a se arranjar na rua. Daí, num rodízio de massas com o pessoal do trabalho, conheceu a beldade loura. Ela estava na mesa dos fundos, acompanhada de antigo chefe em casa de idiomas. Assim foram apresentados: "Esta é a Bela", disse o velho gentil. "Prazer...", suspirou Jonílson. "Este é o melhor professor de línguas que já passou pela minha escola", elogiou o ex-patrão. A garota de programa sorriu sedutora: "Gosto de línguas".

Mesmo sentados a meio estabelecimento de distância, Jonílson e Bela trocaram olhares fulminantes. Ele, por paixão, tipo amor à primeira vista. Ela, por esporte, pura diversão. O "seu" Messias, pagante da vez, nem pareceu se importar. Com o sorriso largo, demonstrava gosto pela situação. Até incentivou Bela a escrever bilhete no guardanapo. Prato na mesa, Jonílson mandou ver macarrão ao alho e óleo. "Muito bom ver você", despediu-se Messias, entusiasmado com dose de Viagra na cabeça. Já a Bela, maliciosa, apenas tomou a mão do Jonilson e soltou recado marcado com batom.

Papel perfumado entre os dedos, aquilo arrepiou o homem do calcanhar ao cocoruto. Despistou os colegas e foi ao banheiro para ler o guardanapo: "R$ 500 a hora". Abaixo do preço, o número do celular. Aquilo incendiou ainda mais o varão adormecido. Pensou no dinheirinho das economias e não teve dúvidas. Esperou tempo para a farra do ex-patrão e, já no entrar da madrugada, ligou para a indecência. Do outro lado, doce: "Pensei que não fosse mais ligar". Jonílson tomou nota do endereço e suou R$ 1 mil na cama king size, em suíte da cobertura de Bela, no Bairro de Lourdes.

Lá pelo terceiro encontro, Bela, que já dominava inglês e espanhol, por graça ou simpatia, resolveu aceitar a proposta de Jonílson: para cada hora de francês, uma hora de sexo. Não precisou completar um caderno de exercícios para reviravolta na vida dos dois. Ele saiu de casa e deixou a escola para abrir o próprio negócio. Ela jogou fora caderneta de contatos e montou confecção de lingeries.

Grávidos, acabaram de voltar de lua de mel em Paris.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Estreia prestigiada

Vila dos mortos tem estreia marcada pela presença de artistas, escritores, produtores de TV e jornalistas de Minas Gerais. Apesar da forte chuva, muita gente de bem foi prestigiar o grupo que, hoje e amanhã, às 20h, faz mais duas apresentações.

Peça de inspiração em técnicas de cinema (roteiro e montagem), Vila dos mortos conta com sete histórias cruzadas, editadas quadro a quadro, em pouco mais de uma hora de duração. São 30 personagens defendidos por 25 atores, numa rua de bairro qualquer em Belo Horizonte.

É programa imperdível para quem gosta de novas propostas de encenação.



Fica o convite:

Hoje e amanhã (dias 3 e 4/12), às 20h, no Espaço Cultural Puc Minas, Rua Sergipe, 790 (Praça da Liberdade). Senhas 30 minutos antes da apresentação. Informações: 3269-3260.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Vila dos mortos - Chamada

video

Hoje tem espetáculo!

Hoje tem Vila dos mortos, às 20h, no Espaço Cultural Puc Minas (Praça da Liberdade). Senhas 30 minutos antes da apresentação. Entrada pela Rua Sergipe, 790, Bairro Funcionários. Espero vocês!



Sete histórias de amor e morte, encenadas simultaneamente, compõem Vila dos mortos. Peça tem estrutura cinematográfica e conta com 25 atores no elenco. Abaixo, leia crítica escrita pela jornalista Janaina Cunha Melo, publicada no jornal Estado de Minas:


Nova proposta

Amanhã tem mais uma sessão de Vila dos mortos, no Teatro da PUC (Rua Sergipe, 790, Funcionários), às 20h. A montagem da Escola de Teatro da PUC/MG tem méritos que a tornam uma experiência curiosa para a plateia. Situação rara no teatro mineiro e nacional, o argumento leva para cena elementos do realismo fantástico, com ótimos resultados. A partir de seis histórias, que em algum momento se encontram, a trama revela as muitas maneiras como as pessoas se relacionam com seus mortos. A bem da verdade, trata das perdas. Algumas inesperadas, outras nem tanto. E da maneira como é possível lidar com elas, com mais ou menos habilidade.

O cenário é outro ponto importante da montagem. Bem resolvido e com inspiração em linguagem cinematográfica, ajuda na dramaturgia. Cada uma das histórias é apresentada de forma clara e favorece o entendimento do texto. Pela complexidade do que é proposto, facilmente a trama poderia se embaralhar, mas, com ajuda dos objetos e da estrutura da montagem, a narrativa ganha força em cada núcleo em movimento crescente, até encontrar nexo como espetáculo. Como experimentação, Vila dos mortos depende de pequenos ajustes e amadurecimento de atuação, mas merece destaque, sobretudo pela coragem de propor algo novo para o público e os próprios estudantes. Aventura corajosa, que pode render bons frutos para a companhia, com 25 integrantes. Eles demonstram que nem sempre o caminho mais curto, óbvio e fácil, é o melhor.

Janaina Cunha Melo

(EM Cultura - Jornal Estado de Minas - 2 de setembro de 2009)

Em cartaz: dias 2, 3 e 4 de dezembro, às 20h

Espaço Cultural Puc Minas - Rua Sergipe, 790 (Praça da Liberdade)

O vestibular da UFMG é osso!

Mais um vestibular da UFMG deixado pelo caminho. Lá se foi! Eita que é preciso estar em muita paz interior para encarar a peleja. A começar pelo desafio de chegar ao local das provas. Mandaram-me para campus no Bairro São Gabriel. O lado oposto de onde moro. E olha que havia a opção de uma escola bem ao lado da minha casa. Não entendo a geografia desse povo. Não seria muito mais fácil encaminhar o vestibulando para um ponto próximo ao seu endereço?

Com isso, certamente, não ocorreria a confusão no trânsito rumo ao São Gabriel e aos outros pontos espalhados pela cidade. O engarrafamento que encarei já estava armado na Avenida Cristiano Machado. Uma loucura! Tempo chuvoso para complicar a situação. Não fosse a Violeta ao volante, mesmo tendo saído de casa com duas horas de antecedência, teria encontrado os portões fechados. Desci do carro e segui a pé para a universidade. Foi longa a caminhada, sob chuva fina, desde a Linha Verde. Misturei-me na multidão de adolescentes na mesma situação.

Segui longa caminhada, a passos largos, na companhia de rapazes e moças que podiam ser meus filhos. Devo confessar que curti a aventura. Achei aquilo um barato. Imaginei-me feliz, nos bancos da escola, aprendendo com todos aqueles garotos. E eles sabem muito. Eu sei que sabem. Era possível perceber os bons candidatos pelo sufoco no andar. Toda aquela correria para chegar 30 minutos antes das provas é só para gente muito interessada. Eu, quarentão, não faço mais do que a minha obrigação. Agora, aquela meninada de 17, 18 anos... só por comprometimento. Fiquei bastante admirado.

Conheço jovens aos montes que não estão nem aí para os estudos. Tenho amigos que estão cortando um dobrado com os filhos, que só querem saber de farra e de vida mansa. Se a vida anda dura até para quem tem estudo e qualificação, imaginem para o sujeito sem formação ou conhecimento. Violeta sempre diz: "O caminho é a universidade". Nisso também concordo plenamente com ela. E ela sabe bem o que diz. Tem estudo para mais de metro e está concluindo mestrado. Tenho muito orgulho da Violeta. É minha principal apoiadora nessa empreitada com os estudos. Mulher exemplar está ali: jamais fala pelos cotovelos e é incapaz de qualquer indelicadeza.

Mais tarde, conferiu o gabarito comigo como se fosse ela a candidata. Deu-me abraço carinhoso pela pontuação e sorriu com doçura. Fiz o melhor que pude para travar o bode pelo chifre. Busquei todo o equilíbrio possível para não fazer feio. Estudei o ano inteiro como não havia estudado em toda a vida. Li até o que não dei conta e apanhei de muita informação. Vestibular na federal é isso: osso. Agora é aguardar o resultado.

Boa sorte, garotada!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2 de dezembro de 2009

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Vila dos mortos

A vida ao avesso está de volta em espetáculo de formatura dos alunos da Escola de Teatro da Puc Minas. Imperdível!



Vila dos mortos, redesenhada, ganha nova cena de investigação sensorial. O elenco, em busca de desafios, assume novos conflitos na trama de plataforma fantástica. No palco, 25 atores contam a história de pessoas comuns em bairro qualquer de Belo Horizonte.


Dias 2, 3 e 4 de dezembro, às 20h
Ingressos: 1 quilo de alimento não-perecível

Senhas 30 minutos antes do espetáculo.


sábado, 28 de novembro de 2009

O sopro do diabo


Ah, Alcinólia! Estava ali a anunciação da tragédia. Desde criança a sujeita demonstrava incrível vocação para o mal. Pensava apenas em si mesma. Todo o resto, no entorno, não passava de acessório para manhas e vontades. Cresceu obtendo, de um jeito ou de outro, tudo o que queria. Pintou e bordou com tudo e com todos. Crescida sem pai ou mãe que a desse jeito ou educação, a sardenta da bunda larga era o cão chupando manga.

Ainda assim, horrenda por dentro e por fora, arranjou casamento. Um pobre Zacarias, que conheceu no lotação. Na época, o motorista do busão era muito bem casado e pai de três filhos. Simpático, apenas sorriu para a Alcinólia, como fazia para todos os seus passageiros. Mostrar os dentes para o dragão foi o suficiente para ter novo rumo na vida. A jabiraca, já beirando os 30, passou a marcar todos os horários do cidadão. Chegou a tomar a gaiola vermelha de vestido curto, cor-de-rosa e decotado, só para dar mole para o moço honesto do volante. Quanto mais ele se esquivava, mais atiçava a jaguatirica.

Foi assim por mais de mês. Até que Alcinólia foi parar em terreiro de macumba para encomendar trabalho. Queria porque queria arrancar o sujeito da mulher e dos filhos. Com a fotografia que fez do Zacarias nas mãos, pediu para a baixinha gorda do pescoço invisível: "Quero este homem debaixo do meu pé, custe o que custar". Gastou o que tinha e o que não tinha e saiu de lá com o sapato enfeitiçado: sob a palmilha, o nome Zacarias escrito com sangue de galinha preta. Também tomou sete banhos de canjica, acendeu vela vermelha e ofertou cachaça com farofa em sete encruzilhadas.

Não houve santo que amparasse o ateu. Do nada, como se influenciado por sopro do mal, Zacarias passou a desejar o tribufu. Chutou o pau da barraca em casa e, conforme o prometido, no 45º dia já estava morando com Alcinólia. Ninguém conseguia entender a troca que o Zacarias fez. Deixou para trás moça boa e mãe extraordinária para encarar o capeta. "Só pode estar possuído", lamentou o melhor amigo de viação. Alcinólia, soberba, desfilava a conquista arrancada no laço da bruxaria.

Vadia por natureza, sem estudo ou qualificação, Alcinólia vivia da pensão e dos aluguéis deixados pela avó, morta de desgosto. Com o salário do Zacarias ela não podia contar: o que não ia para a pensão alimentícia, dava apenas para a cachaça que o infeliz passou a entornar depois do concubinato traçado na chinela. E foi numa dessas bebedeiras, por tristeza e arrependimento, que ele engravatou o dragão: "Não há mal desejado que não volte dobrado", soprou tomado pelo diabo ao estrangular Alcinólia, que se findou que nem galinha preta do pescoço meio cortado.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 28 de novembro de 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O fim do mundo

"Fomos parar em 2012. Um desespero. Tratava-se do fim do mundo. Uma superprodução americana, dirigida por um tal Roland Emmerich. Houve até quem gargalhasse com os excessos e com as piadinhas tão comuns ao humor norte-americano".



Foi grande a repercussão de “Carta aberta ao francês Olivier Rebellato”, publicada em Bandeira Dois na semana passada. O texto, que está se multiplicando pela internet, foi postado por um estrangeiro no site http://sites.google.com/site/oliviervsjosiane/ em inglês e francês. Também foi encaminhado às embaixadas do Brasil e da França. O advogado Rodrigo Dolabela, do Bairro São Bento, e Antonio Lourenço enviaram importante e-mail de apoio. O trágico acidente provocado por Olivier Rebellato, que deixou Wenner Gonçalves na cadeira de rodas e Josiane Ramos em estado vegetativo, vem mobilizando muita gente de bem.

Evandro, um generoso vendedor da drogaria Araújo fez questão de levar pessoalmente sua doação à menina, que, sem pai nem mãe, passa por sérias necessidades. Vander Possas e Ana Cândida Cardoso também fizeram importante contribuição. Dezenas de alunos da PUC Minas estão envolvidos diretamente numa série de ações para trazer um pouco de dignidade à garota, que sonhava ser atriz. A partir da próxima semana serão apresentados vários espetáculos teatrais com ingressos trocados por alimentos. Mais informações com Moema ou Patrícia no telefone (31) 3269-3260.

Para arejar um pouco a cabeça e deixar de lado os aborrecimentos dos últimos tempos, aceitei o convite da Violeta para um cineminha no fim de semana. Fui sem rumo, sem saber o que veria. Costumamos fazer assim: chegamos na bilheteria e compramos entradas para o próximo horário. Fomos parar em 2012. Um desespero. Tratava-se do fim do mundo. Uma superprodução americana, dirigida por um tal Roland Emmerich. Houve até quem gargalhasse com os excessos e com as piadinhas tão comuns ao humor norte-americano. Violeta não achou a menor graça. Ficou tensa do início ao fim da película. Eu não sabia muito bem o que pensar.

Tudo o que vi em mais de duas horas de duração me fez dobrar as ideias. Saí da sala com a cabeça a mil. Não dei conta nem de conversar com a Violeta sobre o que senti. Cheguei em casa, mão no caderno, desci a caneta no papel. O fim do mundo é tema para mais de metro. O fim do mundo é aqui, agora. O homem já faz tempo perdeu o juízo (se é que o teve algum dia). E não vou nem citar o desrespeito ao planeta. Discutimos isso aqui outro dia. Falo da intolerância com o semelhante. Da ambição desenfreada, da deslealdade, da falsidade e da falta de caráter. Perdemos a noção e os limites. A vaidade anda comendo pelas beiradas o que há de bom no homem.

Tenho testemunhado e tomado conhecimento de cada coisa de fazer cair o queixo até de quem não presta. Mente-se em tudo que é lugar. Rouba-se cada vez mais descaradamente. Mata-se por pouco ou quase nada. Violência, miséria, abuso de poder e corrupção. É isso o fim do mundo.

É a destruição silenciosa que mais me dá medo.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 25 de novembro de 2009

sábado, 21 de novembro de 2009

O amor e o seu duplo

Há quem pense amar duplamente, assim, por quase nada: um sorriso, um encontro casual. O Andrés, 34 anos, vendedor, sabe bem dos efeitos do que é fugaz. Quando estacionou o carro na pracinha da pequena cidade do Norte de Minas, à tardinha, depois de horas de estrada e de comércio na região, não imaginou sorte tão estranha. Estômago nas costas, entrou na única pizzaria do lugar. Queria mandar ver marguerita do tamanho da fome.

Numa mesa de canto, sozinha, Manuela fazia dançar pedras de gelo com o dedo no copo lagoinha. No prato, fatia fria intocada. Conversado, Andrés puxou assunto:

– Manuela?
– A gente se conhece?
– Mais ou menos. Da última vez que tive aqui tentei vender umas sandálias na sua loja. Mas você já tinha estoque e pediu para que eu voltasse outro dia.
– Ah... Mas isso faz muito tempo...
– Dois anos.

Bastou para que os dois fechassem o estabelecimento e varassem madrugada no banco da praça. Conversando, apenas. Ela falou sobre o vazio provocado pelo fim de compromisso sério. Ele pensou novo amor, seduzido pelo cheiro e pelo sorriso da bela mulher, de 29 anos. Aliás, 30. Completos ali, no coreto. “Decidi fazer uma festinha hoje, no clube, para enterrar o passado. Ficaria feliz se você fosse”, ela convidou. “Claro!”, ele respondeu. Enamorados, despediram-se, com a lua pela metade, com certo ar de futuro.

No hotel, na beira da estrada, o viajante não conseguiu pregar o olho. A luz subiu rápido e descortinou sábado de céu limpo, de azul raro. Andrés saiu cedo e percorreu o centro, em busca de roupa nova. Distribuiu mercadoria e fez bom negócio. Desligou o celular e tirou a tardinha de descanso. Dormiu sono perturbado pelo sorriso de Manuela. Chegou a sentir no travesseiro o cheiro da nativa. Sonhou perdido, excitado, como havia muito não sonhava. Acordou já era a hora, num susto, suando bicas. Banhou-se para lavar o pensamento. Longe, em Betim. Vestiu-se com elegância, como em dia de cerimônia.

No carro, na porta do clube, decidiu falar em casa antes de entrar e deixar para trás o telefone. Do outro lado da linha, a voz preocupada: “Amor, tentei falar com você a tarde toda. A Laurinha teve outra convulsão. Já está bem, mas a médica achou melhor ela ficar no hospital até amanhã. Quando você volta?”, perguntou a mulher companheira.

Andrés voltou logo, sem se despedir ou presentear Manuela.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 21 de novembro de 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ArcelorMittal




Campanha de vigilância compartilhada ArcelorMittal
Filme: Sempre juntos pela vida
Com Jefferson da Fonseca Coutinho, Leo Quintão, Ana Luisa Alves e grande elenco.
Direção: Marko Costa

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Carta aberta ao francês Olivier Rebellato


Olivier,

Você é garoto ainda e, ao que sei, cheio de vida. Aos 20 anos, endinheirado e saudável, tem o mundo pela frente. Muito triste o que ocorreu em 17 de abril, quando você dirigia seu carrão pela Savassi e mudou para sempre a vida de cinco jovens brasileiros. Especialmente o futuro da estudante de teatro Josiane Ramos, de 27, que, desde então, vive em estado vegetativo. Wenner Silva Gonçalves, de 24, motorista do outro veículo, também segue novo rumo, em cadeira de rodas. André Eduardo Magalhães, de 26, sofreu um acidente vascular cerebral. Naturalmente, você também é vítima dessa tragédia. Entendo assim. Acho pouco provável que esteja em paz depois do acidente.

A Justiça brasileira acreditou em você. Na sua honra e no seu compromisso. Tanto é que o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) concedeu liminar que liberou o seu passaporte. Entenderam que você, por residir e ter negócios em Belo Horizonte, não deixaria o país para fugir de qualquer responsabilidade. Estavam enganados. Soube pela mídia que você desfez de tudo na cidade e foi embora. E o pior: sem oferecer o menor auxílio ou satisfação às vítimas da colisão que você provocou.

Segundo o advogado das irmãs Viviane e Josiane Ramos, Marcos Luiz Egg Nunes, você cometeu quatro infrações: avanço de sinal, dirigir em alta velocidade, dirigir em estado de embriaguez e, por fim, não tinha licença para dirigir no Brasil. Tudo devidamente comprovado por documentos e testemunhas. É lamentável. Nessa história triste, sinceramente, muita coisa não entra na cabeça de várias pessoas de bem que conheço. Conversamos muito sobre você. Como, simplesmente, virar as costas e voltar para casa, no estrangeiro? Li e ouvi que você até zombou de nossas leis. Uma meninice, imagino.

Sabe, Olivier, decidi dedicar este espaço a você num apelo. Não podemos voltar no tempo e mudar isso ou aquilo. Mas podemos agir no agora, com responsabilidade e juízo, pela paz de nossa consciência. Espero, sinceramente, que você tenha vida longa. Mas, se não fizer algo, sabe que os anos pela frente, certamente, serão marcados pelo que deixou de fazer. Faça por você mesmo, Olivier. Não queira passar o resto da vida sem poder se ver no avesso do espelho. Conheço gente assim que foi infeliz até o último suspiro. Pense nisso. A foto acima é de dia feliz, como era a Josiane.

P.S. Ao amigo leitor: Josiane Ramos, sem pai, nem mãe, passa por sérias necessidades. Quem puder colaborar de alguma maneira com fraldas ou alimentos, entre em contato com Moema ou Patrícia pelo telefone (31) 3269-3260.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 18 de novembro de 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O sonho dentro do sonho

"Inesquecível a performance musical nordestina de Pedro Gracindo, logo na abertura de 'Clandestinos'. Sem falar na pluralidade de Adelaide de Castro"




Dos três mil inscritos de todo o Brasil, 400 foram entrevistados. Trinta participaram das oficinas. Apenas 14 atores foram escolhidos. Começa assim, antes mesmo de o espetáculo existir, a saga dos anônimos de João Falcão. Clandestinos, peça apresentada no fim de semana em Belo Horizonte, traz o sonho para dentro do sonho e privilegia a vontade de quem busca um lugar ao sol como artista.

O dramaturgo e diretor João Falcão conhece bem as agruras da carreira. Passou por maus bocados quando deixou o Recife, em 1985, para tentar a vida no Rio de Janeiro. Desde então, certamente, começou a compor sua trama baseada na vida dura – como ela é. Por fim, reconhecido, ao levar para o tablado sua comédia romântica musicada, o pernambucano faz um desabafo público bem-humorado pelo indigesto pão que o diabo amassou em tempos difíceis na “Hollywood brasileira”.

Clandestinos atinge, de maneira diferente, dois públicos. A plateia comum pode vê-lo como montagem bem acabada e honesta, tecnicamente funcional, com timing individual e verve cômica. Sonhadores, românticos e operários da fantasia encontram em cena o abraço de boa sorte – ou de “merda”, como dizemos nos bastidores do teatro. Para a empreitada, João Falcão montou trupe de luxo. Trouxe à ribalta talentos desconhecidos que não deixam nada a desejar aos mais bem-sucedidos atores do país.

O autor e diretor, amparado pela boa direção musical de Ricco Viana, soube valorizar as aptidões particulares do elenco. É emocionante ouvir You don’t know me na bela voz de Bruno Ferraz. Inesquecível a performance musical nordestina de Pedro Gracindo, logo na abertura. Sem falar na pluralidade de Adelaide de Castro, mineirinha de Três Corações. São muitos os pontos altos que fazem de Clandestinos obra de valor. Eduardo Landim e Emiliano D’Avila são contagiantes. Alejandro Claveaux, outro destaque, desfila tipos com graça, segurança e intenção.

Impagáveis os excessos trágicos do teatro-cabeça representados pela paulista Renata Guida. O chamado teatro vertical ganhou sátira honrosa pelas vísceras da atriz. Entre os melhores da cena revela-se Elisa Pinheiro. Habilidosa, mantém-se a um palmo do inacreditável. Já Fabio Enriquez, ator que alinhava a história, sabe somar, com a empáfia característica de quem caça talentos.

O único senão fica por conta do esvaziamento provocado pela repetição do tema por quase duas horas. Tropeço menor de dramaturgia, minimizado pela boa presença dos intérpretes. Clandestinos toca pelo conjunto, na boa roupagem de Kika Lopes. Pesquisador da atmosfera fantástica, João Falcão reuniu grupo de primeira linhagem para a estreia de sua Companhia Instável. Bom para o teatro brasileiro.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 16/11/09

Foto: Marco Antônio Gambôa


sábado, 14 de novembro de 2009

Sábado e domingo tem "Os sem vergonhas"

Hoje (dia 14), às 21h, e amanhã (domingo), às 19h, tem "Os sem vergonhas" no Sesi de Betim (BR-381 - Km 436). Peça, comédia inspirada no filme "Ou tudo ou nada", desde 2005, é sucesso em todo o Brasil






Em São Paulo, André, Maurício, Jefferson e Ilvio



No elenco, J. Bueno, Leri Faria, André Prata, Maurício Canguçu, Ilvio Amaral e Jefferson da Fonseca Coutinho. "Os sem vergonhas" conta a história de seis desempregados que resolvem ganhar a vida tirando a roupa. O resultado é uma farra que traz à cena os desacertos dos cidadãos comuns. Imperdível!



"Os Sem Vergonhas"
Dias 14 e 15, às 19h e 21h
Sesi Betim (BR-381,Km 436)
R$ 10 antecipado nas lojas Carlaile Sports do Centro e Água de Cheiro, no Betim Shopping. Na hora, o ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)



Leia a crítica de Marcello Castilho Avelar:

Matar ou morrer

Teresa sempre teve queda por homem que não presta. Qual mulher não tem? Desde as primeiras travessuras com o quadril, ainda garota, podia ser vista em má companhia. De estudar nunca gostou: “Não é pra mim”. A droga veio cedo: cola e loló. O crack conseguiu evitar porque viu a melhor amiga morrer noiada: cena de terror em manhã chuvosa, sob o Viaduto Castelo Branco. Teresa jamais esqueceu a imagem da menina magrela vestida de saco e jornal. Daí, deixou as ruas e se ajeitou em barracão de fundos no Bairro Pindorama.

Na época, aos 15, sucumbiu pela falta de algo útil a fazer e acabou indo morar com Bedéu, quatro anos mais velho, flanelinha marginal, achacador. Sujeitinho da pior estirpe. Batia sem dó na companheira, por qualquer motivo. Mas, para o que a menina queria, o bigodinho prestava. O moço era bom de indecências. Juntos, na fome e vontade de comer, alimentavam-se, dias e noites, de suor, ritmo e berros de “eu te amo!”. Verdade: coisar-se custa pouco. Nas horas vagas, quando estavam de roupa, batiam ponto nos teatros e casas de shows para descolar dinheirinho fácil com os donos de carro na cidade.

Bedéu queria subir na vida: “Quero mais, minha preta! Quero mais!”. De achacador barato passou a assaltante. Descolou revólver 38 na mão de colega de achaque e começou a fazer a festa na Região da Pampulha. Em pouco mais de ano foi se ajeitando no crime. Grávida de gêmeos, Teresa, em casa, apenas tomava conta da grana. E cuidava bem, atravessando joias e objetos de valor. Quando as crianças nasceram, de tão feliz Bedéu presenteou a acamada com um Rossi 38, modelo 718: “Agora você vai precisar. Pra proteger os moleque”.

O tempo passou rápido e, entre um murro e um sopapo, os dois se iam. Mais ou menos felizes com João Elias e João Miguel correndo pela casinha nova no Bairro Rio Branco. Depois que foi preso e passou dois anos na cadeia, Bedéu ficou ainda mais violento. O que antes fazia bêbado, agora era a qualquer instante. Já havia matado um casal por dois celulares e R$ 130. Em casa, a mão pesada passou a descer com mais força na parceira e nos garotos. Numa noite, Bedéu chegou a desmaiar João Miguel com sopapo. Na ocasião, levou 22 pontos na barriga, vitimado pela fúria da mãe. Teresa desceu-lhe a faca de cozinha: “Nas criança não, desgraçado!”.

Arrancar sangue do outro ficou comum e o amor em gotas se foi. Idas e vindas passadas, muitas, separaram-se. Bedéu, inconformado, não dava sossego à família. Ameaças, o escambau. Era madrugada de desespero quando ele foi alvejado no peito. Levado ao hospital pelos vizinhos, sobreviveu. Na UTI, Teresa terminou o serviço. Descarregou dois trabucos no infeliz. O dele e o dela, presente de dia feliz.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 14 de novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Pontiac

Um filme de Letícia Mendanha (direção) e Anderson Telles (fotografia e roteiro). Com Priscila Bortolli, Ferdinando Ribeiro, Leo Quintão e Jefferson da Fonseca Coutinho. Fotos: Marta Mourão

























quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O problema da falta de educação

Muito vem sendo falado sobre o caso da estudante Geisy Arruda (foto), da Universidade Bandeirante (Uniban), do ABC Paulista. Assunto de todas as mídias, a moça do vestido curto cor-de-rosa, desrespeitada vergonhosamente por colegas universitários (falam em centenas), ganhou espaço em páginas e mais páginas de jornais de todo o Brasil, com direito a notícia até no New York Times.

Venho acompanhando o caso com muita atenção porque o assunto “educação” não me sai do bloco de anotações. Sou mais uma vez vestibulando e, velho estudante, para mim, toda e qualquer instituição de ensino deveria ser templo sagrado contra a ignorância. Como podemos ver, infelizmente, não é a realidade. E como o governo não dá conta, com o ensino público de mal a pior, a educação virou negócio.

O que ocorreu em São Paulo reflete bem a que ponto chegamos com a educação no Brasil. Professores com salários de fome, despreparados, outros desmotivados, e escolas particulares de baixíssimo nível espalhadas país afora. E o que mais me impressiona é que alunos ignorantes, como estes da Uniban, acabam professores amanhã.

Conheci um sujeito, vizinho em Santa Efigênia, que entrou para uma faculdade do tipo “pagou-passou”, fez uma pós-graduação a distância. A irmã mais velha dele, minha amiga, fazia quase todos os trabalhos para ele. Hoje, o cidadão é professor da faculdade que o formou. Outro dia, numa festa, me disse: “Vai pra lá, Josiel. Lá é tranquilo”. Francamente! É a indústria do diploma fazendo de bobo o brasileiro.

Não vai ser com um número cada vez maior de diplomados (assim) que vamos construir um país melhor. Precisamos de conhecimento. De educação de qualidade. É uma vergonha o que houve com a moça do ABC Paulista. Virou piada. Prato cheio para os programas de humor barato que, a cada dia, emburrecem ainda mais o telespectador. Hoje, qualquer mané pode ter diploma. Já educação… não é para qualquer sujeito.

Revolta-me tudo isso. Não consigo entender os maus alunos que pegam carona nos trabalhos dos outros, que até pagam por monografia qualquer. Tenho uma passageira que ganha a vida fazendo monografias e dissertações. Conhecedora das normas acadêmicas, começou como revisora. Por fim, pela demanda altíssima, passou a fazer tudo. Bom para ela, que, com isso, tem aprendido muito sobre vários cursos.

A Uniban, depois de expulsar a Geisy, voltou atrás. Menos mal. Contudo, vai ter trabalho para resgatar o respeito de muita gente. Certamente, vai ter que rever seu processo seletivo para tentar filtrar o bando de gente despreparada que lá se encontra. Que o ocorrido sirva de lição contra a picaretagem que assola a educação no Brasil.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 11 de novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

O sonho operário

"Chegava a dar para sentir o bafo do capoeirista estrangeiro com quem a pilantra passou a madrugada só na rasteira"




O Alvismar mais parecia uma granada sem pino. Não bastasse a namorada cretina, tinha ainda o chefe sem noção para lhe fritar os miolos. Família na cidade não sabia o que era havia tempo, desde que os pais resolveram deixar a capital em busca de paz no interior. O contador estava prestes a explodir. “Valei-me, Deus!”, sussurrava para si mesmo, naquela manhã acinzentada, enquanto esperava a inicialização do PC tartaruga vezes 7.0. A verdade é que tudo parecia maior e mais grave no arrastar da hora.

Para piorar a situação, o vizinho de mesa, à esquerda, Leonel, autista de quase tonelada, dava geral no salão com o indicador no nareba. À direita, o Cotoco, velho e careca, esfregava um calcanhar no outro com o pé chulezento fora do sapato. Sentada logo à frente, dona Nair, gorda e feia como o capeta, oferecia lance bizarro sem calcinha. “Visão do inferno”, pensou com o cenho franzido e cara de nojo. Ao fundo, o abestalhado caçador de estagiárias tarrafava com liberdade: “E aí, princesa?”. Fato é que mais um dia comum aterrorizava o Alvismar.

Logo cedo, antes da 6h, a namorada vacilona ligou para justificar o perdido da noite anterior: “Tava na casa da Dadá. Esqueci o celular, bebê. Foi mal, picurruchinho da Lulu. Você tentou falar comigo, né!?”. Chegava a dar para sentir o bafo do capoeirista estrangeiro com quem a pilantra passou a madrugada só na rasteira. Alvismar não disse palavra. Lamentou, apenas, por gostar demais da sujeita. Afinal, quem não já sofreu mal de amor bandido? Foi na Avenida Pedro II, no busão, em engarrafamento descomunal, que o humor do pacato cidadão começou a ir para o saco: “Ninguém merece!”

Ao chegar ao trabalho, no elevador levou sapatada do gerente burocrata: “Atrasado de novo. Virou festa? É a segunda vez só este ano, ‘seu’ Alvismar. E ainda estamos em novembro. Não sei não”. A voz do mala sem alças e bigode soou-lhe trovoadas. Respirou fundo três vezes para não chutar o pau da barraca ali mesmo, no micro quadrado de aço. Afrouxou a gravata, entrou na seção e ligou o computador retardado. Enquanto esperava, esperava... esperava, repassou a vidinha sem graça daqueles tempos de má companhia.

Manjou bem o futuro, vendo o Leonel, a dona Nair, o Cotoco e o velho tarado. Olhou para dentro e aquietou os pensamentos: “É isso!”. O sistema operacional ainda não estava pronto para rodar quando o Alvismar deixou o prédio esquálido, cortou a Praça 7 e ganhou a rodoviária. Sorriu para a bilheteira oxigenada e tomou ônibus para nunca mais.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 7 de novembro de 2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pela menina Josiane


Josiane Ramos, 27 anos, aluna de teatro da PUC Minas, vítima de grave acidente de trânsito em abril deste ano, está passando por sérias necessidades. Quem puder ajudar, de qualquer forma, com fraldas, dinheiro ou alimento, entre em contato com Moema ou Patrícia, pelo telefone (31) 3269-3260.

Josiane não tem mais os pais. Por ela, apenas a irmã Viviane.


http://www.band.com.br/jornalismo/cidades/conteudo.asp?ID=209121

http://www.dzai.com.br/jornaldaalterosa/video/playvideo?tv_vid_id=64730


Bom dia pessoal.

Gostaria apenas de externar a minha vontade de ajudar com o q for para o q o Jefferson comentou ontem sobre o caso da garota q se acidentou no trânsito. Tenho certeza q podemos ajudá-la de forma conjunta se cada um da sala se propuser a dar uma contribuição. Como disse o Jefferson o estado dela é crítico e foge palavras p/ ilustrar tal quadro, mas pela reportagem podemos perceber q foge do nosso alcance mesmo tal ilustração.

Quem sabe se marcassemos um dia X do mês de novembro p/ entregarmos nossa contribuição lá na PUC mesmo e se não fosse financeira, fosse em forma de fraldas, alimentos, enfim, em um momento tão delicado, temos q fazer algo por ela e não é pq passou ou é aluna da PUC, mas é q fosse eu q tivesse no lugar dela, com certeza ficaria feliz em espírito p/ com todos q estivem fazendo algo por mim.

Não vou pedir q nos coloquemos no lugar dela, pois mensurar tal situação não é nem possível. Apenas espero q com este simples gesto possamos celebrar nossa saúde, nossa família e nossa oportunidade de fazer, criar, sentirmos vivos e agradecer a DEUS a liberdade de estarmos vivos e muitas vezes ainda ficamos P da vida com coisas q não merecem nossa chateação. Ainda um dia, vamos aprender a dar valor as pequenas coisas, mas chegou a hora de fazermos algo grandioso a quem tanto necessita e com certeza passa por um momento q jamais imaginou.

Estou as ordens para o q for necessário e toda idéia aqui será de grande valia.
Fiquemos com DEUS.

Saúde e Paz.

Alexandre Lamas Gonçalves

Aos mortos que tanto amamos

“O planeta se alimenta de seus frutos. Da terra viemos, para a terra voltamos. Por que, então, não ter a consciência tranquila quando retornar ao lado de lá?”



Gosto das palavras novas que recolho no batidão do volante. Dezenas delas arrebatam-me o cerebelo. No Dia de Finados, “sustentabilidade” valeu-me a caderneta cheia de rabiscos e reflexões. Dois passageiros, senhores muito distintos, ferveram no assunto. Foi durante corrida longa, do Bairro São Lucas até belíssimo sítio em Esmeraldas. Eu, naturalmente, só na rebarba do conhecimento. Calei-me para ouvir a aula que o homem da cabeça prateada e o baixinho de óculos ofereciam ali, de graça. Conversa boa, como há muito não ouvia, sobre o homem e o planeta.

Sustentabilidade tem significado para mais de metro, mas vou aqui, com o meu português modesto, dividir com o amigo leitor um pouquinho do que entendi ao descer a caneta no meu bloco de estudo. Trata-se, basicamente, de equilíbrio. Da relação que construímos com tudo o que há no planeta. Houve um tempo em que o homem (ignorante que só ele) pensava que a Terra era fonte inesgotável de tudo o que nela havia. Ou seja, que a gente podia explorar; desmatar; esburacar; desperdiçar; fazer; acontecer; mandar e desmandar na natureza. Hoje, a realidade é outra. E muita gente de bem, organizada, vem fazendo de tudo pela preservação do meio ambiente.

O fato é que ignorantes e gananciosos ainda andam por aí, aos montes, destruindo a natureza. Meus dois passageiros, defensores ferrenhos da ideia da sustentabilidade, lideram movimento de ecologistas que age em todo o Brasil, com representantes em várias partes do mundo. Falaram também sobre o aquecimento global (para muitos, desdobramento da ação irresponsável do homem sobre a natureza). A conversa foi tomando um rumo científico inteligente demais para a minha cabeça operária. Contudo, acho que captei a essência da coisa.

Entendi a urgência da questão e que o futuro é agora. Que a vida é breve. Vai-se num sopro. É bastante claro que não dá mais para trabalhar com a ideia de que temos que agir apenas pelo amanhã. Temos que agir hoje, agora, pelo presente. Do contrário, o depois pode nem existir. A dupla de ilustres cidadãos, no meu carro rumo à Região Metropolitana de Belo Horizonte, falou de atitudes bem simples, nossas pequenas ações cotidianas, sobre o que fazemos com nosso lixo, por exemplo. Quase todo mundo já ouviu falar em coleta seletiva, mas, na prática pouca gente põe a mão na massa.

Com a cabeça a mil por reflexão, como efeito da aula de segunda-feira, sinto a orelha esticada pela mão de nossa mãe natureza. Caderneta revisada, no passar e repassar das páginas de papel pautado, a palavra sustentabilidade se repete. No pé de uma folha ímpar a seguinte anotação: “O planeta se alimenta de seus frutos. Da terra viemos, para a terra voltamos. Por que, então, não ter a consciência tranquila quando retornar ao lado de lá?”. Lembro-me bem de quando anotei isso. Foi enquanto o sol se afundava, diante de árvore de copa verde e frondosa, no Cemitério da Saudade, em homenagem aos meus mortos muito amados.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 4 de novembro de 2009

sábado, 31 de outubro de 2009

Os dragões não conhecem o paraíso

"O que a jabiraca melhor fazia era mimar as sucuris e infernizar a vida do companheiro, que, homem de regras, fiel aos compromissos, jamais pensou tirar do dedo a aliança"





Finou-se o Alcebíades. Por escrito, o último desejo: “A quem por mim tem respeito, um pedido: quero ser cremado. Minhas cinzas joguem no mar de Rio das Ostras, bem em frente às amendoeiras. Ponto final e um abraço”. Verdade seja dita, foi lá, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, que o velho mineiro nascido na Zona da Mata viveu tempos felizes. Funcionário público aposentado, passou maus bocados por mais de 30 anos em repartição abarrotada de burocratas e traíras na prefeitura de Belo Horizonte.

Contudo, o trabalho, nem de longe, foi sua pior sorte. Azar mesmo foi a dona gorda e destemperada que arranjou para mulher. Uma tal Dasdor, que conheceu numa excursão para Brejo Grande. Um colosso descomunal. Mais feia do que filho bater na mãe no aniversário de Jesus. Nem boa parideira a fulana era. Abortou só de sacanagem, com um cabide, o filho homem que o Alcebíades tanto queria. Um baque e tanto para o sujeito. De resto, com a dona, no balaio das infelicidades, vieram duas assombrações de saias: Fiorella e Fiorentina. “Filhas do capeta, isso sim!”, era o que a vizinhança dizia.

As duas gurias, quase gêmeas, com oito meses de diferença apenas, fizeram o diabo com o pobre do Alcebíades. Manhas, birras, pirraças, o escambau. A mãe, do tipo que só sabia comer, dormir e reclamar doença, deixava tudo por conta do marido. O que a jabiraca melhor fazia era mimar as sucuris e infernizar a vida do companheiro, que, homem de regras, fiel aos compromissos, jamais pensou tirar do dedo a aliança. A vida sofrida, de pouca ou nenhuma alegria, ganhou graça foi mesmo com a compra da casinha na praia. Principalmente, porque os dragões não gostaram do lugar. As três disseram em coro, na varandinha que dava para o mar: “Melhor a morte!”.

Aquilo deixou o Alcebíades chateado para burro. Nem quando teve o crânio afundado pelo peso da panela de pressão, agredido pela Dasdor e pelas filhas, ficou tão sentido. Mas, pela primeira vez, sustentou a própria vontade, manteve a compra do imóvel e passou a viajar sozinho uma vez por ano, em feriado qualquer, quando a patroa deixava: “Vai, desgraça!”. A verdade é que, lá, em paz, passou dias de glória. Durou pouco. Cinco anos apenas. Até que teve piripaque, passando os vestidões GGs da família. Fulminante. Morreu com o ferro quente na mão. Dasdor viu a queda e ainda berrou: “Levanta, imprestável!”.

O bilhete de vontade póstuma, grampeado na capa de pasta de documentos, Dasdor rasgou com a conivência das infelizes. O corpo do Alcebíades acabou num caixão barato, enterrado em cemitério popular da cidade. Ainda assim, certamente, alcançou o paraíso.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 31 de outubro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Pontiac - Ficha técnica

O filme promete. Bom roteiro, equipe de primeira e muita disposição! Privilégio fazer parte desse grupo. É set que vai deixar saudade.





FICHA TÉCNICA

Elenco:
Jefferson da Fonseca
Léo Quintão
Ferdinando Ribeiro
Priscila Bortolli

Roteiro: Anderson Telles
Direção: Letícia Mendanha
Assistente de Direção: Marcos Rafael Bomfim
Continuidade: Guilherme Sander

Direção de Fotografia: Anderson Telles
1º Assistente de Câmera: Ruan Senna
2 º Assistente de Câmera: Flávio Von Sperling
Chefe de Elétrica e Maquinária: Frederico de Lima

Direção de Arte: Joycilene Santos
Assistente de Arte: Clareana Turcheti
Figurino: Taís Tozatti
Maquiagem: Gabriela Dominguez
Produção de Objetos: Marta Mourão

Produção Executiva: Daniela da Matta Machado
Assistente de Produção Executiva: Elton Delgado
Direção de Produção: Diana Vidigal
1º Assistente de Produção: Marcus Luan Neto
2º Assistente de Produção: João Gabriel Campos
3º Assistente de Produção: Vivian Britsch
Produção de Elenco: Samuel Ferman
Produção de Locação: Marcus Luan Neto

Técnico de Som: Leonardo Diniz

Edição: Rafael Borges
Trilha Sonora: Gabriel Telles

Still: Marta Mourão
Making Of: Joycilene Santos

Motorista: Aguinaldo Ferreira Silva

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Razões para ficar bem

"Osho, Dagmar e a força do pensamento", coluna publicada na semana passada, trouxe leitores e velhos conhecidos à nossa caixa postal. Mourão, Lilian, Flavinha, Lúcio, João Miguel, Maurício e Inês, meu abraço. Fico muito feliz em saber que tem muita gente com o olhar voltado para dentro de si mesmo. Se há um caminho, é este, temos certeza. Converso sempre com a Violeta sobre isso: o poder infinito que existe em nós. Tudo o que é externo precisa estar sempre no seu devido lugar. Do lado de fora, é claro. É um exercício diário pensar assim. Aprendi que para fortalecer a consciência é preciso reaprender a respirar. É a respiração dos cinco tempos: inspiro pelo nariz contando até cinco e seguro o ar, contando até cinco. Depois, solto o ar pela boca. Funciona que é uma beleza. Experimente, amigo leitor. Dia desses, me conte o resultado.

Mens sana in corpore sano (uma mente sã, num corpo são). Quem disse que taxista não sabe latim? Chique, não!? E assim vou vivendo, mais e melhor, sem dar mole para a tristeza ou para o azar. Os motivos que alimentam o otimismo são muitos: saúde, filhos, família, amigos, amor e trabalho. Muito trabalho. Nos últimos dias, uma corrida puxando a outra. Ora aqui, ora ali, no pouco tempo vago, a caneta correndo solta, no fluxo do pensamento. A letra, na mão mais veloz, cada vez mais horrorosa. Às vezes, nem eu mesmo consigo entender o garrancho. Mas as ideias andam ganhando mais força, trazendo-me paz e alegria. Não há tempo para pensar ou fazer o que não presta. Se tivesse sete vidas, certamente saberia o que fazer com cada uma delas. Sério. Não é presunção. É amor pela existência e por tudo o que ela representa.

Problemas? Quem não os tem? A diferença está em como lidamos com eles. Conheço quem olha para uma barreira e diz: "Danou-se". Já outros: "É hora de mudar o caminho". Sou mais o segundo tipo, porque o primeiro é muito triste. Viver não é fácil. Quem disse que seria? Tem cada vez menos espaço para a preguiça dos derrotistas. Cabeça erguida, mãos à obra. Há muito o que ser feito para aprender a ser alguém. "Mas como ser alguém se nem sabemos bem o que somos?", ouvi outro dia de passageiro entristecido. Depois de longa conversa sobre o assunto, deixei-o mais animado em praça no Bairro Planalto. Concluímos que a resposta para questões dessa natureza só pode estar no Deus que habita o nosso ser. Mais uma vez, recorri ao Mestre Osho para aquietar o pensamento.

Jornada encerrada em mais um dia de paz. Eus recolhidos (e temos muitos, acreditem), hora de colocar a cabeça no travesseiro e respirar em cinco tempos. Sons do oceano, com marolas e gaivotas no CD, mergulho no colo da Violeta adormecida. No repassar dos sentidos, são muitas as razões para ficar bem.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 28 de outubro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

O sorriso da Laurinha

O movimento foi fraco naquela tarde de domingo. No Parque Municipal, o cinquentão Olegário não arrebentou mais do que dois quilos de milho. De marcante no expediente, apenas o testemunho de fora arrasador que a bela mocinha levou do canastrão da camisa vermelha: “Adeus!”. A cena triste chateou o pipoqueiro. Tanto que, pouco depois do episódio, ele resolveu encerrar o carrinho e a jornada.

Despediu-se do Nico, vendedor de algodão-doce, que, feliz da vida, segurava o varão com único exemplar de resto. Andou sem pressa, tocando as rodinhas empenadas. O barulho irritante do carrinho abafava o canto dos pássaros e das cigarras. E assim, comendo algodão cor-de-rosa, que comprou do amigo, o Olegário seguiu até a velha caminhonete, estacionada sob o viaduto Santa Tereza.

Amarrou firme o ganha-pão na carroceria e assumiu o volante. Insistente, bateu a chave na ignição até reanimar o motor cansado. Subiu a Rua da Bahia para dobrar a Avenida Augusto de Lima, rumo à Praça Raul Soares. O sol morria sem graça quando o Olegário abriu o portão de aço da garagem do casarão azul, no Bairro Serrano. Venceu as escadas de cimento grosso e cruzou o alpendre. Ao abrir a porta da sala, reencontro inesperado.

No sofá, Luzia, a filha única, expulsa de casa há dois anos por ocasião de gravidez indesejada, segurava as mãos da mãe. Ao lado, de pé, o genro, desafeto em tempos de destempero e ignorância. Na fita da retina, o passado, como filme: a noite em que expulsou a garota de casa, contrariando os apelos da mulher: “Não faz isso, Olegário! É nossa menina!”. Já ele, sem dó ou perdão: “Quero essa vagabunda longe daqui. Não criei filha minha pra se embarrigar na rua. Tá aqui a sua trouxa. Agora, some!”.

O Olegário, mudo, só retomou o presente ao ouvir a voz da filha, mais grave do que na época em que partiu. “Pai”, disse baixinho em tom melancólico. O pipoqueiro apenas meneou a cabeça. A mãe prendia o choro por tristeza profunda. O jovem marido encarou o sogro como o mais duro de todos os homens. Luzia foi quem desenrolou a conversa:

– A gente não quer incomodar. Só tava esperando o senhor.
– O que você e esse sujeito vieram fazer aqui?
– Trazer um convite. É... pra missa de 7º dia da nossa filha.

Na foto em papel barato, o último sorriso da pequena Laurinha. Com pouco mais de um ano de vida, o bebê foi vítima de pneumonia. Com o impresso na mão, Olegário desabou por dentro enquanto o casal partia.

Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 24 de outubro de 2009