Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 14 de novembro de 2009

Matar ou morrer

Teresa sempre teve queda por homem que não presta. Qual mulher não tem? Desde as primeiras travessuras com o quadril, ainda garota, podia ser vista em má companhia. De estudar nunca gostou: “Não é pra mim”. A droga veio cedo: cola e loló. O crack conseguiu evitar porque viu a melhor amiga morrer noiada: cena de terror em manhã chuvosa, sob o Viaduto Castelo Branco. Teresa jamais esqueceu a imagem da menina magrela vestida de saco e jornal. Daí, deixou as ruas e se ajeitou em barracão de fundos no Bairro Pindorama.

Na época, aos 15, sucumbiu pela falta de algo útil a fazer e acabou indo morar com Bedéu, quatro anos mais velho, flanelinha marginal, achacador. Sujeitinho da pior estirpe. Batia sem dó na companheira, por qualquer motivo. Mas, para o que a menina queria, o bigodinho prestava. O moço era bom de indecências. Juntos, na fome e vontade de comer, alimentavam-se, dias e noites, de suor, ritmo e berros de “eu te amo!”. Verdade: coisar-se custa pouco. Nas horas vagas, quando estavam de roupa, batiam ponto nos teatros e casas de shows para descolar dinheirinho fácil com os donos de carro na cidade.

Bedéu queria subir na vida: “Quero mais, minha preta! Quero mais!”. De achacador barato passou a assaltante. Descolou revólver 38 na mão de colega de achaque e começou a fazer a festa na Região da Pampulha. Em pouco mais de ano foi se ajeitando no crime. Grávida de gêmeos, Teresa, em casa, apenas tomava conta da grana. E cuidava bem, atravessando joias e objetos de valor. Quando as crianças nasceram, de tão feliz Bedéu presenteou a acamada com um Rossi 38, modelo 718: “Agora você vai precisar. Pra proteger os moleque”.

O tempo passou rápido e, entre um murro e um sopapo, os dois se iam. Mais ou menos felizes com João Elias e João Miguel correndo pela casinha nova no Bairro Rio Branco. Depois que foi preso e passou dois anos na cadeia, Bedéu ficou ainda mais violento. O que antes fazia bêbado, agora era a qualquer instante. Já havia matado um casal por dois celulares e R$ 130. Em casa, a mão pesada passou a descer com mais força na parceira e nos garotos. Numa noite, Bedéu chegou a desmaiar João Miguel com sopapo. Na ocasião, levou 22 pontos na barriga, vitimado pela fúria da mãe. Teresa desceu-lhe a faca de cozinha: “Nas criança não, desgraçado!”.

Arrancar sangue do outro ficou comum e o amor em gotas se foi. Idas e vindas passadas, muitas, separaram-se. Bedéu, inconformado, não dava sossego à família. Ameaças, o escambau. Era madrugada de desespero quando ele foi alvejado no peito. Levado ao hospital pelos vizinhos, sobreviveu. Na UTI, Teresa terminou o serviço. Descarregou dois trabucos no infeliz. O dele e o dela, presente de dia feliz.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 14 de novembro de 2009

2 comentários:

uai, mundo? disse...

Esse seu "olhar" para o cotidiano é simplesmente genial. Abraço. Paz e bem.

Jefferson da Fonseca Coutinho disse...

Obrigado, meu velho! Privilégio a sua audiência! Grande abraço!