Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

sábado, 14 de novembro de 2009

Matar ou morrer

Teresa sempre teve queda por homem que não presta. Qual mulher não tem? Desde as primeiras travessuras com o quadril, ainda garota, podia ser vista em má companhia. De estudar nunca gostou: “Não é pra mim”. A droga veio cedo: cola e loló. O crack conseguiu evitar porque viu a melhor amiga morrer noiada: cena de terror em manhã chuvosa, sob o Viaduto Castelo Branco. Teresa jamais esqueceu a imagem da menina magrela vestida de saco e jornal. Daí, deixou as ruas e se ajeitou em barracão de fundos no Bairro Pindorama.

Na época, aos 15, sucumbiu pela falta de algo útil a fazer e acabou indo morar com Bedéu, quatro anos mais velho, flanelinha marginal, achacador. Sujeitinho da pior estirpe. Batia sem dó na companheira, por qualquer motivo. Mas, para o que a menina queria, o bigodinho prestava. O moço era bom de indecências. Juntos, na fome e vontade de comer, alimentavam-se, dias e noites, de suor, ritmo e berros de “eu te amo!”. Verdade: coisar-se custa pouco. Nas horas vagas, quando estavam de roupa, batiam ponto nos teatros e casas de shows para descolar dinheirinho fácil com os donos de carro na cidade.

Bedéu queria subir na vida: “Quero mais, minha preta! Quero mais!”. De achacador barato passou a assaltante. Descolou revólver 38 na mão de colega de achaque e começou a fazer a festa na Região da Pampulha. Em pouco mais de ano foi se ajeitando no crime. Grávida de gêmeos, Teresa, em casa, apenas tomava conta da grana. E cuidava bem, atravessando joias e objetos de valor. Quando as crianças nasceram, de tão feliz Bedéu presenteou a acamada com um Rossi 38, modelo 718: “Agora você vai precisar. Pra proteger os moleque”.

O tempo passou rápido e, entre um murro e um sopapo, os dois se iam. Mais ou menos felizes com João Elias e João Miguel correndo pela casinha nova no Bairro Rio Branco. Depois que foi preso e passou dois anos na cadeia, Bedéu ficou ainda mais violento. O que antes fazia bêbado, agora era a qualquer instante. Já havia matado um casal por dois celulares e R$ 130. Em casa, a mão pesada passou a descer com mais força na parceira e nos garotos. Numa noite, Bedéu chegou a desmaiar João Miguel com sopapo. Na ocasião, levou 22 pontos na barriga, vitimado pela fúria da mãe. Teresa desceu-lhe a faca de cozinha: “Nas criança não, desgraçado!”.

Arrancar sangue do outro ficou comum e o amor em gotas se foi. Idas e vindas passadas, muitas, separaram-se. Bedéu, inconformado, não dava sossego à família. Ameaças, o escambau. Era madrugada de desespero quando ele foi alvejado no peito. Levado ao hospital pelos vizinhos, sobreviveu. Na UTI, Teresa terminou o serviço. Descarregou dois trabucos no infeliz. O dele e o dela, presente de dia feliz.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 14 de novembro de 2009

2 comentários:

uai, mundo? disse...

Esse seu "olhar" para o cotidiano é simplesmente genial. Abraço. Paz e bem.

Jefferson da Fonseca Coutinho disse...

Obrigado, meu velho! Privilégio a sua audiência! Grande abraço!