Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 28 de novembro de 2009

O sopro do diabo


Ah, Alcinólia! Estava ali a anunciação da tragédia. Desde criança a sujeita demonstrava incrível vocação para o mal. Pensava apenas em si mesma. Todo o resto, no entorno, não passava de acessório para manhas e vontades. Cresceu obtendo, de um jeito ou de outro, tudo o que queria. Pintou e bordou com tudo e com todos. Crescida sem pai ou mãe que a desse jeito ou educação, a sardenta da bunda larga era o cão chupando manga.

Ainda assim, horrenda por dentro e por fora, arranjou casamento. Um pobre Zacarias, que conheceu no lotação. Na época, o motorista do busão era muito bem casado e pai de três filhos. Simpático, apenas sorriu para a Alcinólia, como fazia para todos os seus passageiros. Mostrar os dentes para o dragão foi o suficiente para ter novo rumo na vida. A jabiraca, já beirando os 30, passou a marcar todos os horários do cidadão. Chegou a tomar a gaiola vermelha de vestido curto, cor-de-rosa e decotado, só para dar mole para o moço honesto do volante. Quanto mais ele se esquivava, mais atiçava a jaguatirica.

Foi assim por mais de mês. Até que Alcinólia foi parar em terreiro de macumba para encomendar trabalho. Queria porque queria arrancar o sujeito da mulher e dos filhos. Com a fotografia que fez do Zacarias nas mãos, pediu para a baixinha gorda do pescoço invisível: "Quero este homem debaixo do meu pé, custe o que custar". Gastou o que tinha e o que não tinha e saiu de lá com o sapato enfeitiçado: sob a palmilha, o nome Zacarias escrito com sangue de galinha preta. Também tomou sete banhos de canjica, acendeu vela vermelha e ofertou cachaça com farofa em sete encruzilhadas.

Não houve santo que amparasse o ateu. Do nada, como se influenciado por sopro do mal, Zacarias passou a desejar o tribufu. Chutou o pau da barraca em casa e, conforme o prometido, no 45º dia já estava morando com Alcinólia. Ninguém conseguia entender a troca que o Zacarias fez. Deixou para trás moça boa e mãe extraordinária para encarar o capeta. "Só pode estar possuído", lamentou o melhor amigo de viação. Alcinólia, soberba, desfilava a conquista arrancada no laço da bruxaria.

Vadia por natureza, sem estudo ou qualificação, Alcinólia vivia da pensão e dos aluguéis deixados pela avó, morta de desgosto. Com o salário do Zacarias ela não podia contar: o que não ia para a pensão alimentícia, dava apenas para a cachaça que o infeliz passou a entornar depois do concubinato traçado na chinela. E foi numa dessas bebedeiras, por tristeza e arrependimento, que ele engravatou o dragão: "Não há mal desejado que não volte dobrado", soprou tomado pelo diabo ao estrangular Alcinólia, que se findou que nem galinha preta do pescoço meio cortado.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 28 de novembro de 2009

2 comentários:

Diogo disse...

Excelente cronica Jeff, gostei da galinha de pescoco meio cortado. Se nao fosse Gloria oq ue seria dessa frase ein! abraco e saudades!

Jefferson da Fonseca Coutinho disse...

Grande Diogo! Sem a Glória eu não seria o mesmo, meu velho! Bons tempos aqueles, hein!? rs