Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O sonho dentro do sonho

"Inesquecível a performance musical nordestina de Pedro Gracindo, logo na abertura de 'Clandestinos'. Sem falar na pluralidade de Adelaide de Castro"




Dos três mil inscritos de todo o Brasil, 400 foram entrevistados. Trinta participaram das oficinas. Apenas 14 atores foram escolhidos. Começa assim, antes mesmo de o espetáculo existir, a saga dos anônimos de João Falcão. Clandestinos, peça apresentada no fim de semana em Belo Horizonte, traz o sonho para dentro do sonho e privilegia a vontade de quem busca um lugar ao sol como artista.

O dramaturgo e diretor João Falcão conhece bem as agruras da carreira. Passou por maus bocados quando deixou o Recife, em 1985, para tentar a vida no Rio de Janeiro. Desde então, certamente, começou a compor sua trama baseada na vida dura – como ela é. Por fim, reconhecido, ao levar para o tablado sua comédia romântica musicada, o pernambucano faz um desabafo público bem-humorado pelo indigesto pão que o diabo amassou em tempos difíceis na “Hollywood brasileira”.

Clandestinos atinge, de maneira diferente, dois públicos. A plateia comum pode vê-lo como montagem bem acabada e honesta, tecnicamente funcional, com timing individual e verve cômica. Sonhadores, românticos e operários da fantasia encontram em cena o abraço de boa sorte – ou de “merda”, como dizemos nos bastidores do teatro. Para a empreitada, João Falcão montou trupe de luxo. Trouxe à ribalta talentos desconhecidos que não deixam nada a desejar aos mais bem-sucedidos atores do país.

O autor e diretor, amparado pela boa direção musical de Ricco Viana, soube valorizar as aptidões particulares do elenco. É emocionante ouvir You don’t know me na bela voz de Bruno Ferraz. Inesquecível a performance musical nordestina de Pedro Gracindo, logo na abertura. Sem falar na pluralidade de Adelaide de Castro, mineirinha de Três Corações. São muitos os pontos altos que fazem de Clandestinos obra de valor. Eduardo Landim e Emiliano D’Avila são contagiantes. Alejandro Claveaux, outro destaque, desfila tipos com graça, segurança e intenção.

Impagáveis os excessos trágicos do teatro-cabeça representados pela paulista Renata Guida. O chamado teatro vertical ganhou sátira honrosa pelas vísceras da atriz. Entre os melhores da cena revela-se Elisa Pinheiro. Habilidosa, mantém-se a um palmo do inacreditável. Já Fabio Enriquez, ator que alinhava a história, sabe somar, com a empáfia característica de quem caça talentos.

O único senão fica por conta do esvaziamento provocado pela repetição do tema por quase duas horas. Tropeço menor de dramaturgia, minimizado pela boa presença dos intérpretes. Clandestinos toca pelo conjunto, na boa roupagem de Kika Lopes. Pesquisador da atmosfera fantástica, João Falcão reuniu grupo de primeira linhagem para a estreia de sua Companhia Instável. Bom para o teatro brasileiro.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 16/11/09

Foto: Marco Antônio Gambôa


2 comentários:

Braz Chediak disse...

Assim se completa o teatro: bom espetáculo e boa crítica.
Jefferson presta um bom serviço aos artistas e ao público. Parabéns.

Jefferson da Fonseca Coutinho disse...

Caro Braz Chediak,
Enche-me de orgulho o seu nome neste quintal. Obrigado!