Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Nem tudo é festa


Walker quis dar um tempo ao movimento dos últimos anos, desde que entrou para a empresa de ricaço, promotor de baladas em Belo Horizonte e Nova Lima. Quis janeiro diferente, já que, entra ano, sai ano, vivia de agitar bebedeira e pegação para os outros. “E em mim? Cadê a festa?”, perguntou-se no silêncio da madrugada.

Não conseguiu pregar o olho às 6h, quando chegou ao pequeno apartamento financiado a perder de vista. Sem tirar a roupa da moda – de profissional chique de boate da Zona Sul –, olhou para a mulher, Alessandra, linda, a dormir profundo, do lado direito da cama. No criado dela, sob a meia luz do abajur lilás, livro sobre a vida das abelhas.

Do lado dele, no pequeno móvel, nada de livro. Cartela apenas, com tubo de energéticos. Droga para dar conta do trabalho nas viradas dos fins de semana. Olhos avermelhados, coração aos pulos, respirou fundo, acariciando os cabelos negros da mulher de boas carnes e deixou a cama para andar pela rua do Bairro Paraíso. Precisava espairecer.

Walker rodou quarteirão com as mãos no bolso, chutando latinhas. Acendeu um cigarro: “O último. Agora é sério”. Vivia de fazer tal promessa para a mulher amada. Alessandra, companheira, sonhou vida diferente ao lado do marido. Conheceram-se durante o último ano do ensino médio em colégio público do Bairro Santa Efigênia. Enamoraram-se e, juntos, traçaram linha comum de afeto e vontades.

O trabalho na noite veio como oportunidade naquele ano. “Véi, é fino o trampo. A gente fica perto só de gente bonita, da alta, e ainda descola uma grana”, ofertou o sujeito, colega de sala. Alessandra, na época enamorada, até deu força. “Depois você arranja coisa melhor. É só por um tempo”, sorriu-lhe.

O tempo: 10 anos, oito meses e 15 dias, anotados em caderninho de bolso, hábito de garoto. No início, Walker até se divertiu e arrebatou relações de interesses. “Pobres garotos ricos”, rabiscou repetidas vezes na agenda, toda vez que ouvia conversa furada, sem valor. “Festa emburrece”. E como emburrece.

A padaria de esquina já estava com os portões de aço levantados. Walker entrou e pediu café sem açucar para ajudar a fluir o pensamento. O homem de jaleco branco e olho de vidro o atendeu sorrindo. O promouter sacou a cadernetinha do bolso e revisou garranchos em frases soltas, desalinhados nos últimos meses.

Em letra miúda, contou suas melhores passagens e se assustou com a soma: nenhuma alegria. Suspirou fundo para espantar a pobreza de espírito – às vezes dá certo –, deixou trocado sobre o balcão e voltou apressado pra casa. Lá, em pranto seco, amou a mulher, grávida de outro – um vizinho, talvez – como há muito não fazia.

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P.S.: Dia 26, quinta-feira, às 20h30, tem a peça “Um inimigo do povo”, no Palácio das Artes. Vai ser um prazer receber o amigo leitor no Grande Teatro.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 23/1/12

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