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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Apenas águas de verão


O que pensar desse tal Fernando Bezerra Coelho, cabeça do Ministério da Integração Nacional? Os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo se desmanchando e, ao que tudo indica, ele fazendo política com dinheiro público. Em Minas, na semana passada, ficou três horas em encontro com o governador. Bem que podia ter passeado pela Região Metropolitana de Belo Horizonte, feito turismo pela histórica Ouro Preto e dado uma passadinha pela Zona da Mata. Podia ter sido até pelo ar mesmo. De helicóptero ou avião. Desde que, claro, tivesse na janela para ver a desgraça que atingiu milhares de mineiros que perderam tudo. Muitos, ilhados, sem água potável, remédio, energia e telefone, chegaram a passar fome.

É de revoltar qualquer cidadão de bem. O velho Botelho, lá do Espírito Santo, assim como eu, também não se conforma. E olha que o homem é budista, calmo como uma plantação de romã. Conversamos muito por telefone e ele disse já ter perdido a esperança no poder público brasileiro. Até tomei nota na caderneta de papel pautado de trecho que ele me disse ontem, quando soube de mais mortos na catástrofe que causou muitos estragos em Sapucaia, no Rio de Janeiro e em Além Paraíba, na Zona da Mata mineira. Ele disse:

“Neste mais de 70 anos de vida, meu filho, vi a chuva causar muita desgraça. Mas nada parecido com o que está acontecendo agora. As cidades crescem, as pessoas vão ocupando o que é da natureza, muita gente em áreas de risco, sem ter recursos para viver com segurança, e, com isso, as tragédias se tornam cada vez mais comuns. Muito triste, todo ano, ver milhares de pessoas perderem suas casas, seus sonhos, suas vidas, Josiel. A gente vê o Brasil crescer, ganhar respeito internacional, virar potência na economia... imagina se houvesse menos corrupção? Imagine só, meu filho, se essa bandalheira que desvia verbas públicas, pinta e borda com o dinheiro público, colocasse a mão na consciência e desce ao Brasil o que é, de fato, do povo brasileiro... Hoje, não estou para muitas esperanças, Josiel”.

Não é fácil ouvir do pai, homem de bem e bom senso, sempre preocupado com o outro e de olho no futuro, depoimento assim. Isso, pai, só faz aumentar a minha revolta com o país dos privilégios e das relações de interesses. O que tenho visto tem tocado a minha alma e me tirado o sono. Fico a pensar no Brasil dos meus filhos e dos filhos dos meus filhos. No momento, também falta-me força e convicção para encará-los de frente e dizer-lhes que tudo isso são apenas águas de verão.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 11/1/12

Foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press

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