Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O aniversário da Margô


Ah, a Margô! Mulher boa estava ali. Para casamento. Mas a doutora, advogada de altíssimo nível, quarentona, de boas carnes, não queria saber de compromisso sério com sujeito algum. “Comprometimento ali, só com a OAB”, diziam baixinho, pelos corredores do fórum, os barrigudos e carecas de gravata do Barro Preto. Não havia em metro quadrado de Belo Horizonte e Região Metropolitana profissional mais competente no trato com as leis. Uma especialista em Direito Criminal. Doutora Margô sabia de frente para trás e de trás para frente o Código Penal, a Constituição e o Houaiss. Como escrevia e falava difícil a danada! As más línguas diziam até que ela conseguia tudo o que queria porque chegava a acanhar as autoridades – promotores, juízes e políticos dos mais graúdos – com o poder de sua escrita e a beleza de sua oratória.

Sem falar nos predicados físicos. Data venia, a doutora era uma delícia. Corpão bem tratado de deixar no bolso muita menininha na casa dos vinte anos. Sorriso radiante e peitos de inspirar rábulas e excelências. Doutor Tristão, veterano das causas perdidas, chegava a fazer balangar a dentadura quando via a doutora passar, perfumada, cítrica, graciosa, com seus vestidinhos florais – também tinha isso. Doutora Margô, muito elegante, não andava travada até o pescoço, “enfreirada”, como a maioria de suas colegas. Não. Era muito diferente. Curtia calcinhas minúsculas de virar a cabeça de quem passasse por ela. Já teve magistrado babão, durante julgamento, que cambaleou o raciocínio tentando imaginar as roupas íntimas da doutora sob o longo pano negro da ordem. Uma loucura.

Era difícil entender como mulher de tantos atributos continuava solteira. De sexo ela gostava. E muito. Mas, para ela, sexo não tinha nada a ver com amor. Era outra coisa. Podia até dar aula sobre o assunto. No entanto, não gostava de desperdiçar saliva. Com ela, era ação. Capaz de levar à lona qualquer homem de fôlego e entusiasmo, Margô mantinha vida íntima discretíssima. O que se sabia é que a doutora tinha enorme atração por gente maluca. Quanto mais problemático o namorado mais excitada ela ficava. O último, doido de jogar pedra, era tão ciumento que chegou a pagar garoto de programa bonitão para dar em cima da Margô. Só pra ver se ela caía em tentação. Não caiu e ainda resolveu despachar o malucão. Fim de caso. Depois que soube da combinação, assim, desgostosa, quis dar um tempo nos paqueras.

Semana passada, Margô precisou levar alvará de soltura para liberar cliente em grande depósito de presos da cidade. Comentou com o delegado, velho fã e grande admirador, que era dia de seu aniversário. O policial não teve dúvida e em fração de minutos armou homenagem com a turma da carceragem. Colocou três mil detentos para cantar parabéns para a doutora. Foi uma farra que fez chorar o monumento.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 30/1/12

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