Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Mais perto do leitor


Na semana passada, na noite de terça-feira, Bandeira Dois teve o privilégio de participar do Projeto Tertúlia, na Escola Municipal Paulo Mendes Campos. O Aqui estava lá, representado também pelos jornalistas Thiago Lemos e Cristina Horta, que fizeram a boa cobertura publicada na edição do último domingo. Importante agradecer aos dois companheiros e, especialmente, a editora Crislaine Neves, pelo carinho dedicado ao nosso trabalho. Com os bons colegas de redação – são muitos – é aprender sempre, melhor e mais. Já na escola, frente a frente com os alunos, foi emoção para não esquecer jamais. Ouvir o diretor Antônio Augusto Horta, idealizador do projeto, recitar trechos de Bandeira Dois e perceber a atenção sincera da plateia, nos dá a certeza de que toda empreitada realizada com boa vontade e intenção pode dar voz ao coração das pessoas. Poucas vezes pude sentir-me tão próximo das boas coisas que fazem a vida valer a pena.

Por duas horas, ouvimos e conversamos com a boa gente estudiosa do Bairro Floresta, no casarão vizinho à TV Alterosa, na Avenida Assis Chateaubriand. Muitos falaram que se identificam com as histórias contadas no livro Bandeira Dois – Do eu que há em mim, publicado pela Editora B e trabalhado em sala de aula. Outros comentaram que algumas reflexões, ali tratadas, ajudam a lidar com as durezas cotidianas. Motivo de orgulho para o escritor amador, “chofer das letras” e pai de família apaixonado pelos filhos. Não vou esquecer cada olhar, cada aperto de mãos, ao final do encontro, durante sessão carinhosa de autógrafos. É sentimento por demais nobre que afaga a alma e aumenta o compromisso com o bom exemplo. Hoje, depois de 312 encontros semanais, em 6 anos de histórias, sinto-me ainda mais próximo de um ideal. Por tudo, amigo leitor e educadores da Escola Paulo Mendes Campos, muito obrigado!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 27/6/12

terça-feira, 26 de junho de 2012

Um anjo nas trevas


Hoje, estreia de "A casa das ilusões", na PUC Minas, é dia de compartilhar Genet:


 Por Flávio Viegas Amoreira*

Imaginem uma criança abandonada no nascimento, entregue a um orfanato e aos 8 adotado por uma família de camponeses; aos 10 anos acusado de furto enviado a reformatório: acaba encarnando o papel que a sociedade o imputa, torna-se ladrão. Cresce em meio a marginais, exilado como um errante pela Europa no entre-guerra, cai na mendicância e no submundo: seu desejo amoroso homossexual era um agravante para uma sociedade ainda não aberta a afetividades incompreendidas. De prostíbulos a prisões, aos 30 anos descobre a literatura em contato com intelectuais encarcerados pelos nazistas; lê Proust e nos calabouços de Paris nasce o maior dramaturgo francês do século XX e um dos maiores romancistas do Ocidente. Colocado em liberdade pela ação de Sartre, Camus e Cocteau, molda a figura do maldito sacralizado: com Lautréamont, Rimbaud, Artaud, o quarteto de “poetas malditos”. 

Descobri Genet aos 15 anos lendo Nossa Senhora das Flores, Diário de um ladrão e Querelle, seguido impacto de ler o libertário André Gide e assistir ao clássico de Fassbinder, o mesmo Querelle interpretado por Brad Davis, Franco Nero e a maior atriz européia viva: Jeanne Moreau. Bom! um artigo não é uma Wikipédia, expresso tanto devo à obra de Genet e convite a seu universo. No Brasil, Genet foi descoberto por Patrícia Galvão: sempre Pagu! No teatro, O Balcão, um primor de simbolismos sociais e existenciais, adaptada em plena ditadura, dirigida pelo argentino Victor Garcia, produzida por Ruth Escobar que hospedou Genet, contou no elenco estelar com 2 santistas: Sérgio Mamberti e Jonas Mello. Genet era poesia em todos suportes, gêneros; um autor que expôs as vísceras da condição humana, sem nenhuma concessão à burguesia, denunciou a hipocrisia dos mecanismos sociais e a intransponível solidão de almas variando entre a santidade e a torpeza. A solidariedade entre dois indigentes esmolando pelas ruas de Barcelona em O diário de um ladrão talvez seja uma das mais pungentes páginas da generosidade entre a degradação que li. 

Genet deve ser redescoberto, novamente encenado e para compreendê-lo duas senhas: Saint-Genet de Sartre e Genet: uma biografia de Edmund White. Consagrado, seguiu transgredindo, escandalizando, provocando. Mas à Genet tudo era permitido: colecionou amantes, mas era pela palavra que atingia o êxtase se despindo em poderosas metáforas. Genet traça um panorama fiel da atmosfera das cidades portuárias: o crime, a traição, a volúpia são brumas que envolvem o cais de Brest, a costa de Tanger ou ladeiras de Marselha. A lascívia do marinheiro, a sordidez do bandido, o sacrifício do monge : “Querelle tinha então o sentimento de uma outra solidão: aquela de sua singularidade criadora”. Xangai, Casablanca, Hamburgo: a Arte viceja no deserto, numa cela promíscua, monástica e especialmente no grande elemento que nos espelha, artistas: o Oceano-Mar. Wilde dizia que a sociedade pode perdoar até o criminoso, jamais o artista: nada mais subversivo em nosso mundo onde tudo deve servir para algo, que a Arte, essa subversiva “inutileza” para quem não sente profundo. Batedor de carteira, gigolô, Genet nunca foi aceito pela “boa sociedade” por ser artista. Os gregos, Cervantes, Wilde, Tennessee Williams; Genet foi último a expor vísceras do Homem no virtuosismo frásico. Genet deve ser lido para compreendermos dois atributos humanos insondáveis: a consciência e a crueldade. 19 de dezembro, Genet 100 anos!


        1980, puta tesão por Brad Davis desde O expresso da meia-noite e me sentindo Franco Nero, aquele Aschenbach de Genet roubado de Thomas Mann espreitando a macheza de “Querelle”. Só um homem do mar, um costeiro, um maldito, homem com desejo por homens é capaz de tornar palpável Genet? Talvez! Mas não curto reducionismo, amor Henry Miller, e não fui acostumado com tantas bucetas como o autor de Trópico de Cancêr. Importa a poeticidade de um Proust avesso: frase por frase, Genet compõe um inventário de sensações, de tatos, epidermes: os lábios e o cu, as coxas, o toque dos fluídos, a sordidez ritualizada como ascese:


        Genet sabe que enrabar é de uma subversão deleuziana? Genet nunca leu Deleuz, caralho! Mas intuía a possibilidade de rompimento no coito sem fecundação. “Filhos pelas costas é ele quem faz. Ele dá um gosto perverso (quem nem Freud nem Marx jamais deram a ninguém, ao contrário): o gosto para cada um de dizer coisas simples em nome próprio, de falar por afetos, intensidades, experiências, experimentações. Dizer algo em nome próprio é muito curioso, pois não é em absoluto quando nos tomamos por um eu, por uma pessoa ou um sujeito que falamos em nosso nome”.

        Falo de Genet como quem toca um instrumento de ouvido: sem Wikipédia! Sem academicismo! Mas adoro essa passagem das Conversações de Deleuze. Antecedentes? A balada dos enforcados, de François Villon, anuncia Genet 700 anos nesse jogo de cutucar a ver se fura o muro espesso do engessamento de emoções por sistemas, dogmas e estratificações. Mas Genet curtia a lei a negando: tinha tesão também na hierarquia, só por ela é capaz de fazer o contraponto pela perversão. O crime é refém indissociável da lei. Genet pede ser lido ao som de Henyrk Górecky ou Arvo Part: é um missal, liturgicamente indefeso diante da sociedade onde foi posto: Genet vomita asco, regurgita nexo: é um decodificador de indignações. “Gêner” em francês, bem me lembra o amigo e escritor Jediel Gonçalves, é incomodar: ninguém assustou tanto e demoliu ortodoxias quanto Genet. “A ideia de homicídio evoca frequentemente a ideia de mar, de marinheiros. Mar e marinheiros não se apresentando com a precisão de uma imagem, é antes o homicídio que faz a emoção inundar-nos por ondas. Se os portos são o palco repetido de crimes, a explicação disso, que não levaremos a cabo, é fácil: mas numerosas são as crônicas onde se sabe que o assassino era um navegador falso ou verdadeiro; e se ele é falso, o crime por sua vez tem relações mais estreitas com o mar”. Essa abertura de Querelle que me fascina como os textos de Conrad ou Stevenson sobre o oceano e suas implicações estéticas e mesmo ideológicas no sentido amplo duma ética auto-erigida sobre os escombros do conformismo que os homens de bordo vem amesquinhar o cotidiano dos gentis homens de terra firme sob os alicerces da caretice consentida.

        “Compara o masturbador solitário na prisão com o escritor inspirado. Sonha com um homem sádico poderoso e impiedoso, e seu Ganimedes bonito e louro. Eleva o amor homossexual em geral e a felação em particular, usando figuras poéticas derivadas de Villon, Ronsard, Baudelaire e Rimbaud” - assim narra Edmund White: o escritor é o autor em palavras de uma felação ou ejaculação masturbatória com acaso da criação forjado por um prazer inumano de expressão: erotismo do discurso exorbitado da significação usual das coisas dadas e convencionadas. A lei, a ordem! Como necessitam do álibi avesso da transgressão para perpetuar sua tirania: “Se não houvesse juiz, onde iríamos parar? Mas se não houvesse ladrões...” - diz o próprio magistrado em O balcão. É Genet quem sentencia nossa condição de desterrados: “Estamos todos condenados a uma reclusão solitária no interior de nossa pele”. Ele nos diz da intransferibilidade, impermeabilidade irredutível de nossos sentimentos e sensações mais recônditas: ninguém sabe o que é sentir além do seu testemunho do sentir. Segue Genet nos apontando: “É a realidade que vocês tem diante de si que é uma ilusão e o que vocês captam em minha ficção teatral é a análise lúcida da sua sociedade apodrecida”. Na costura de meus espantos recebe a unção da escritura: o inferno na vida é um homem é o deserto de amor, o oásis do amor é desespero desejante. Genet queria: a interdição traçava o verbo. Não o desconsolo, o desespero, não o vazio, o esgotamento. 

Sartre é insuperável: O que desejava ele dizer, exatamente? Que estava se perdendo em si mesmo, não conseguia sentir-se culpado e, entretanto, esforçava-se para julgar-se severamente, que parecia se ao mesmo tempo um monstro e uma vítima inocente, que não confiava mais na na sua vontade de corrigir-se e entretanto tinha um medo terrível do seu destino, que sentia vergonha, desejava que sua falta se apagasse, mesmo sabendo irremediável, que morria de vontade de amar, de ser amado, e sofria, acima de tudo com essa exclusão atroz e incompreensível, que suplicava ser reintegrado ao seio da comunidade e que o deixassem recuperar a sua inocência. “Toda coragem era do menino buscando remissão: um senso católico, martiriológico e uma misoginia que remetia à um paixão pela virgem não profanada: a mãe desconhecida. Genet era, como homossexual, absolutamente masculino: não queria ferir a imaculada visão inatingível da mulher. Genet me fez entender aspectos vitais em minhas idiossincrasias: Genet nega o viado e exalta o sodomita ritualístico: não se prende a apetrechos, é todo ele um ser inteiriço em seu estilhaçado desconforto. 

O amor de indigentes em Diário de um ladrão: “Os piolhos nos habitavam. Os meus amores com Salvador duraram seis meses. Não foram os mais estonteantes, mas foram os mais fecundos. Eu conseguira gostar do corpo frágil, do rosto inexpressivo, da barba rala e ridiculamente plantada. Salvador tomava conta de mim, mas durante a noite, à luz da vela, eu procurava nas costuras da sua calça os piolhos, os nossos piolhos”. Dois mendigos, dois pederastas amantíssimos! Não viadinhos “fashions” ou entendidos “descolados”. Sodoma em Genet é o purgatório para chegar ao Paraíso do amalgamento do espírito: Genet busca ser rocha, rio, santificado nome pela palavra para completude no verbo, impossibilitada pela plenitude do corpo impenetrável sem a força do espírito. Saúdo Genet, como um fiel enobrece seu mago andante. 

*Flávio Viegas Amoreira, escritor, jornalista e crítico literário, já lançou 8 livros entre poesia, contos e romance. Faz parte da denominada “Geração 00”, representantes da Novíssima Literatura Brasileira. Atua em movimentos de direitos GLS e em defesa de políticas públicas para Cultura. (Dezembro de 2010)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O segredo do Figueiredo


“É FiGUEIredo, meu amigo! GUEIredo! Não é FiGUEREdo! Tem o “i”... Preste atenção! Vaca!”, esbraveja o comerciante estúpido, ao celular, com o atendente da operadora de telefonia. “Pelas minhas barbas e pelos meus bigodes! É muita incompetência! O povinho burro! Olhe só, Malu... Me deixaram esperando de novo! Chega!”, desligou, furiosíssimo, o aparelho de ponta, tatuado pela maçã mordida.

Figueiredo, vendedor de bebidas, de 44 anos, pai do Juliano e do Gustavo, estava que não se aguentava com uns chiados que surgiram nos últimos dias em sua linha telefônica móvel. Ele tinha aquele aparelho como bem dos mais importantes de toda a vida. Era sua conexão com o mundo, plataforma de seus silêncios mais profundos. A qualquer hora do dia, em qualquer lugar da casa, era só o dedo correndo solto na tela de cristal liquído. Malu, vivia de pensar: “Aí tem coisa...”.

Ela, boa moça de Sete Lagoas, de 41, professora, reclamava vez por outra com as amigas: “Tem seis meses que ele não me toca... seis meses! E da última vez... pareceu que ia vomitar”, chorou, na semana passada, com colega de profissão secreta. Solidária, a amiga de infância, Kamura, decidiu ajudar: “Malu, desde que o Otacílio me deixou, estou trabalhando como detetive particular para uma agência muito discreta em Belo Horizonte. Se quiser, posso investigar o Figueiredo pra você...”.

O zumbido estranho no iPhone do Figueiredo era resultado da conversa de Malu com a detetive Kamura, que, espiã, grampeou o telefone do comerciante. Naquela manhã de domingo, depois dos aborrecimentos com a atendente da operadora, Figueiredo soltou a frase de todas as noites e fins de semana, nos últimos três anos: “Vou sair com uns amigos, Malu”. O sujeito só não sabia que Kamura, no comando de mais dois agentes, estava na cola, pronta para dissolver a farsa do careca bruto.

A detetive já tinha material suficiente para desmascarar o traíra. Em três dias, foram 19 diálogos, além de duas dezenas de mensagens comprometedoras rastreadas por aplicativo espião no mimo do Figueiredo. Faltavam apenas imagens para o dossiê. E foi em plena luz do dia, em quebrada da Zona Norte, que o binóculo fotográfico da investigadora registrou os lances mais indecentes, inimagináveis, do homem da voz grossa, mentiroso, pai de família.

De posse de documentação de fazer inveja ao serviço secreto americano, Malu, de olhos fundos e coração partido, enquadrou o marido com quem passou 15 anos de sua vida: “Gay, Figueiredo!? Gay!?”

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 25/6/12

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O amor na ponta dos dedos



O homem saiu mais cedo do trabalho e passou no shopping para comprar presente para a mulher, mãe de seus filhos, companheira de vinte e tantos anos. Gravata frouxa, olhou daqui, dali, e percorreu as lojas chiques do centro comercial mais badalado da Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Com o casamento em crise, queria algo diferente. Nada de eletrodoméstico, roupas ou perfumarias, como de costume. Joia, então, nem pensar. A mulher não usava. Era daquelas raras que achavam um grandissíssimo desperdício o tal penduricalho brilhante. Rodou, rodou e, por fim, o sujeito, advogado de carreira, entrou em loja de lingeries.

Com a ajuda da balconista, escolheu o que havia de mais bonito no estabelecimento. Ele jamais havia comprado uma peça íntima para a mulher, embora desaprovasse todas as roupinhas sem graça que ela usava para dormir. “Um cartão”, pensou baixinho. Desde os tempos de namoro, o doutor não escrevia letra qualquer para a parceira.

Na papelaria, na seção dos bilhetes melosos, o cinquentão se viu lado a lado com garoto de pouco mais de metro, 8 anos, cabelinho partido ao meio, óculos quadrado e em mangas de camisa. O menino lia os cartões, deixando soltar um pouco da voz, com cuidado de chamar a atenção. O advogado puxou assunto:

– Para a namorada?
– Mais ou menos. É pra Renatinha, minha vizinha.
– Ah... e você achou algum cartão... bacana?
– Não. Tá tudo muito fraco. Tudo repetido. Olha só... Não tem emoção. Tem que ser o que a gente sente de verdade. Tô pensando... acho que vou escrever uma cartinha mesmo... porque ela é muito legal. Você devia fazer isso também, moço. Tchau!

E o garoto, correndo, catou a mão da mãe na porta da livraria e partiu. De longe, ainda sorriu para o estranho, que, bastante tocado, decidiu ouvir a inspiração. Abatido por sentimento ainda maior pela mulher, o homem pensou poesia. Pagou papel pautado e deixou vontade particular recomeçar o amor na ponta dos dedos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 18/6/12

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O diálogo das putas


O duo de meninas tristes estava atento à notícia da TV. Na tela, a imagem congelada da loura derrotada. A mulher picotou o marido milionário e espalhou os pedaços pela Região Metropolitana de São Paulo. A dupla de prostitutas de luxo lamentou o trágico fim da bela enjaulada, quase princesa. Sabendo das expectativas da amiga, companheira de apartamento, Natasha provocou Michele:

– Putz, colega… cortasse só o pingolim dele.
– Agora, vão falar que ela só fez isso porque já foi puta.
– Não existe conto de fada, Mi.
– Cada um tem o príncipe que merece.

Enrolada na toalha, Michele desconversou: “Gata, tô em cima da hora”. Dia de sair com o “namorado”, executivo graúdo de Belo Horizonte. Romance de ano e meio, iniciado por R$ 400 a hora. O moço ligou cedo, nervoso. Casado, posto contra a parede pela mãe de seus filhos, o traíra estava disposto a terminar tudo com a amante. Enganada, Michele se vestiu com requinte, como borralheira à espera de carruagem. “Tchau, gata!”, despediu-se. No noticiário, a matéria longa ainda dava detalhes sobre o Matsunaga morto, esquartejado.

O celular toca. End no cliente endinheirado. Natasha não estava para indecências. Pausa para paz de espírito. Naquela noite, a menina tímida do interior de Goiás somava sete anos de programas. Sem pai nem mãe, mantinha algum contato apenas com a avó materna, com alzheimer. Desligou a TV para viver saudade dos tempos de criança. “Chega de desgraça!”, disse para si mesma. Vestiu pijama cor-de-rosa, com desenho da Minnie, e tentou dormir.

Não havia passado hora, quando Michele, de maquiagem borrada, vestido rasgado e sapato de salto nas mãos, entrou no quarto de Natasha.

– Você faria um troço daquele?
– O que?
– Matar o cara… se ele enganasse você?
– Não sei… acho que não, Mi.
– Boa noite, gata.

Depois de banhar-se em água fria, Michele afastou da cabeça as ideias de morte. E, de vez, largada, pôs fim aos sonhos de princesa.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 11/6/12

domingo, 10 de junho de 2012

O caminho da roça



Texto: Jefferson da Fonseca Coutinho
Fotos: Euler Júnior

Longe das carretas que matam, da poluição, dos gargalos sem solução e da verticalização que afasta o homem da terra, em paz, brota a vida no campo. Na contramão do progresso e das tecnologias de última geração, do mundo de concreto armado, há caipiras na lida e no sossego da roça a uma hora do caos da metrópole de nome belo no espaço que a vista abrange. Durante quatro dias, foram percorridos 530 quilômetros no entorno da Região Metropolitana de Belo Horizonte, de prosa com a boa gente que amanhece com os galos e dorme com a criação. Por trilhas de terra vermelha, o Estado de Minas encontrou povoados de entardecer de modo diferente, onde, como escreveu o itabirano Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), “a sombra vem nos cascos, no mugido da vaca separada da cria”.

Na zona rural de Sabará, Brumadinho, Lagoa Santa, Pedro Leopoldo, Florestal e Santa Luzia, ainda se honra o fio do bigode, brinca-se de roda e cumprimenta-se o vizinho. As compras são pagas no dinheiro e o crédito é o da caderneta. Em diversos trechos não há sinal de operadora telefônica. Nada de iPhones, redes sociais ou amigos virtuais. Steve Jobs? Mark Zuckerberg? Quase ninguém sabe quem são. As crianças, criadas soltas, batem bola descalças e pedalam nas ruas e nos campinhos de terra. Na roça, interior do interior, “craque” conhecido é o jogador habilidoso. O outro, o crack – grande mal que consome –, é notícia ruim vinda das antenas. Dos 12 lugarejos visitados, em apenas um, em Lagoa Santa, o EM encontrou ocorrência com a droga. “Aqui é um lugar muito sossegado. Todo o mal daqui, roubo e droga, veio da cidade”, afirma um conhecido do usuário em tratamento.

Leia a reportagem em:
http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/06/10/interna_gerais,299192/a-pouco-mais-de-uma-hora-do-centro-de-bh-povoados-rurais-privilegiam-a-tranquilidade.shtml 
































quarta-feira, 6 de junho de 2012

A arapuca do Irajá


Quem vive no batidão do volante está sempre pra lá e pra cá na imensidão da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Dias atrás tive o privilégio de conhecer melhor Itaúna (foto). Fiquei bastante encantado com a cidade. Povo do bem, gente bonita e descolada. O Adelson, amigão de tempos e velho conhecido do leitor de Bandeira dois, já havia me falado muito bem da terra. Teve um grande amor na cidade nos anos 2000 e não passava semana sem marcar presença na região. Conheci a moça: Helena. Linda, muito estudiosa, de família tradicional e bastante querida na área da educação. Infelizmente, o romance não foi pra frente. Toda a turma jurava que era pra casamento. Mas, sei bem, a amizade ficou e o Adelson e só elogios à moça, hoje, “amiga, apenas”, ele diz. O que sei é que ele treme nas bases toda vez que ouve o nome dela.

Outro que é só elogios ao município de Itaúna é o Osvaldo. Antes do táxi, ele trabalhou na cidade como representante comercial. “É Josiel… Itaúna deixou saudades. Fiz amigos que até hoje guardo com carinho. Umas duas vezes por ano a gente se encontra no sítio do Júlio. É sempre uma alegria”, diz. A Sueli também tem história para aquelas bandas. Contou-me que morou na casa de uma tia, quando veio de São Paulo, ainda menina. Disse que a tia e o marido, comerciantes, foram fundamentais para a restruturação da família dela. “Tempos difíceis aqueles. A gente deixou Ribeirão com a roupa do corpo, quando a minha mãe foi largada pelo meu pai. Em Itaúna, com a ajuda da tia Maria a gente começou tudo de novo”.

Não pude deixar de pensar nos companheiros Adelson, Osvaldo e Sulei durante os três dias em que estive na cidade, na companhia da família. Lá, conhecemos a “arapuca do Irajá”, um estabelecimento na Avenida Jove Soares, muito bem localizado na “prainha”, com o melhor churrasco que já provamos em Minas Gerais. O Irajá e a mulher são chefs que não ficam atrás de nenhum campeão do famoso Comida di Buteco. Aliás, fica a dica para os organizadores do festival: conheçam o showrrasco, pessoal. Não sou de ficar fazendo propaganda, mas o Irajá, que já foi gráfico e músico, merece o nosso respeito. O moço é especialista no ramo. São 40 anos no comércio, 12 só na prainha.

O segredo? “Fazer o que gosta e no melhor procedimento. A pessoa tem que saber esquentar o umbigo no fogão”, disse, enquanto preparava a melhor carne para a nossa mesa. “Vou colocar mais uma brasinha aqui, porque o calor não pode baixar não”. E, mesmo bom de prosa, não perde o foco no atendimento: “O vinagrete é só com tomate verde. Porque a gente conhece até como o tempero deve entrar no prato”. Cinco mesas bem servidas na calçada, no cair da noite de sábado. Na placa de churrascos especiais, o aviso do funcionamento até as 23h. Um local de família, administrado por casal companheiro, exemplar. Deu gosto conhecer o endereço. Fica a dica para quem passar por Itaúna: a arapuca do Irajá.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 6/6/12

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O repuxo do Zé Esteves


Depois que a esposa se foi, o aposentado Zé Esteves, de 72 anos, doído de amor, não quis mais saber de mulher. Foram quatro décadas de união, dormindo junto, de “conchinha” por todas as noites de vida conjugal com a Filermina. No entanto, Zé Esteves de santo nada tinha. Fora do casamento, o sujeito passou quase 40 anos enrabichado com outras tantas de perder a conta. “Sexo apenas!”, dizia para si mesmo. “Amor só com a Filermina!”.

O fato é que, diante do caixão em flor da companheira a descer à cova, Zé Esteves foi abatido por dor descomunal na consciência. Ali, no Cemitério Bonfim, sob chuva fina e raios a trincar o céu, o traíra caiu de joelhos entre familiares e amigos e jurou com as mãos para o céu: “Nunca mais, Filermina! Nunca mais!”. Daquele fim de tarde em diante, findou-se o apetite sexual do Zé. Nenhum sinal de vida na parte baixa.

Nem quando quis muito, para uma esticadinha besta, solitária, com revista de ex-BBB nas mãos, o sexo reagiu. Nada. Tentou até um “avatar” – espécie de pilulazinha azul, genérica, comprada na mão de um amigo caminhoneiro. Um fiasco. Viúvo já fazia ano, de flerte com nova inquilina periguete, moradora do barracão de fundos, Zé Esteves, aos 72 anos, resolveu procurar um médico para saber da gravidade do assunto.

– Então, doutor… é grave?
– Ok. Tudo ok com os exames, seu Zé…
– Mas…
– Está na sua cabeça… é psicológico. Tome isso… um por dia.

De posse do placebo, Zé Esteves saiu sem rumo, distraído, dirigindo seu opalão e, quando se deu conta, estava no Bairro Bonfim, bem de frente ao cemitério. “Eu hein!?”, pensou pelo mistério do ocorrido. Pensou, pensou e decidiu visitar o túmulo de Filermina. Estacionou a raridade branca 1974 e percorreu quilômetro entre os mortos sob o sol poente. Diante do mausoléu da família, em prece, pediu uma forcinha para a ex-companheira.

E assim, vez por outra, passou a sentir uns repuxos para a farra da solidão. 

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 4/6/12