Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Para refletir e guardar na alma



Em poucas situações na vida senti-me tão próximo de Deus como no encontro com a família Gibosky, semana passada, no Bairro Dona Clara, na Região da Pampulha. Para quem não acompanhou de perto o caso, trata-se de família vítima daquele desastre no Anel Rodoviário, que, no início do ano, alterou o rumo de várias pessoas, com cinco mortos e 12 feridos. Entre eles, Laura Gibosky (foto), de 4 anos, sobrevivente por milagre – já que teve grave traumatismo no crânio, no abdômen e na perna esquerda, além de profundo estado de coma. Da parte dos médicos, a pior previsão possível: apenas 2% de chances de sobrevivência.

Resultado do excesso de velocidade de carreta carregada com 37 toneladas de trigo, tocada por Leonardo Hilário, de 24, de Mundo Novo (MS), que arrastou, além do carro da família Gibosky, outros 14 veículos em fila, engarrafados na rodovia. Na tragédia, outra garotinha, Ana Flávia, de 2, prima de Laura, morreu na hora. Marcelo Ferreira dos Santos, de 12, a avó dele, Maria da Conceição dos Santos, de 60, Márcia Iasmine de Azeredo Villas Boas Sales, de 44, e Eduardo de Souza Oliveira, de 40, também perderam suas vidas no mesmo acidente naquele fatídico 28 de janeiro de 2011.

Tocou-me sobremaneira a união, o amor incondicional e a fé inabalável dos pais de Laura, Ricardo e Priscila, que não poupam esforços para trazer a menina novamente à vida. O quadro pode até parecer de esperança doída por causa do diagnóstico de paralisia cerebral, mas, considerando os avanços de Laura até aqui, a pequena guerreira tem tudo para surpreender sua equipe médica a cada dia. Ainda que sem falar e andar, com bem poucos movimentos, a vida percebida nos olhares da menina são de força descomunal. Laura é apaixonante. A mocinha tem um encanto natural arrebatador. Há um campo de luz contagiante em torno da menina de carinhar os sentidos.

Quando deixei a casa dos Gibosky, levei comigo imagem que jamais vou esquecer: a da pequena Laura no colo da mãe. Priscila não escondia ter nos braços porção mais preciosa de amor em seu sentido mais puro. O pai, Ricardo, bravo lutador, não esconde as cicatrizes da alma. Contudo, um só sorriso na presença da filha, o professor e advogado é exemplo de fé e determinação. Conheci também o garoto Yuri, de 10, filho mais velho do casal. Moço cheio de simpatia, apaixonado pela irmãzinha, que, em julho, comemorou cinco anos em casa, depois de passar mais de 150 dias internada nos hospitais João XXIII e Felício Rocho.

Nos próximos dias, Laura deve voltar ao hospital para se submeter a mais uma cirurgia no cérebro. A família está confiante de que o novo procedimento vai ajudar ainda mais na recuperação da pequena Gibosky. Do lado de cá, com todos os eus que me habitam, peço em oração a oportunidade de reencontrar Laura recuperada. Olhar bem fundo nos olhos da mocinha e dizer a ela o quanto sua história de luta me faz repensar a vida e minha relação com o mundo. Ricardo, Priscila, meu carinho e minha admiração de homem e pai de família. Vida longa, Laura! É meu desejo de espírito pelo tempo que se aproxima. Guardo você, menina. No peito e na alma.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 28/12/11

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Natal da vida


Natal de 2010. Laura Gibosky, de 4 anos, pede ao Papai Noel uma bicicleta sem rodinhas. Já sabe se equilibrar. A estrela dourada no topo da árvore luminosa foi colocada pela menina. De véspera, o brinquedo “surge” amarrado ao balanço. Laura duvida: “Ah… ele não ia amarrar a bicicleta”. Na noite de celebração, com a família reunida em outra casa, Papai Noel, contratado para fazer a alegria da criançada, surpreende a mocinha: “Então, Laura… gostou do presente que deixei no balanço?”. Boquiaberta, num suspiro, a menina linda corre para os braços dos pais. Está certa da existência do bom velhinho. Noite de sonhos, viagem de férias, ano novo e a vida segue. Fim de janeiro, já de volta a Belo Horizonte, em novo passeio – desta vez longe dos pais –, uma carreta bitrem carregada com 37 toneladas de trigo faz estragos na alma. Conduzida por Leonardo Faria Hilário, de 24, de Mundo Novo (MS), arrasta 15 veículos engarrafados no Anel Rodoviário, matando cinco pessoas e ferindo outras 12. Uma delas, Laura Gibosky, levada de helicóptero ao Hospital João XXIII. Pai e mãe recebem a notícia: traumatismo no crânio, no abdômen e na perna esquerda, além de profundo estado de coma, com apenas 2% de chances de sobrevivência. Só um milagre para salvar a menina.

Natal de 2011. Num canto da sala de dois ambientes na casa de número seis, no Bairro Dona Clara, na Região da Pampulha, sob a mesma árvore da estrela dourada, Laura é o presente da vida no colo da mãe, Priscila Gibosky, de 34. O pai, Ricardo de Carvalho, de 45, não esconde a alegria de ter a filha em casa depois da tragédia no Anel. No primeiro semestre, em cinco meses de internação, foram várias as intervenções cirúrgicas. Yuri, o mocinho mais velho da casa, com 10 anos, pausa as estripulias com os amigos para se juntar à família. Lolla, a mascote maltês, faz festa para o registro. Retrato de fé, amor e união, que se renova no mais legítimo espírito do renascimento. Há uma luz a mais a cobrir a família. Laura, de olhos vivos, arrebatadora, parece buscar a lente da câmera. Linda, de batom, vestida na moda, de calça legging fusô preta e camisa vermelha com estampa da Sininho – a Tinkerbell dos dias atuais –, chama a atenção pela força da presença, que afasta o clima do nunca. Impossível ficar indiferente aos olhares da menina, que (ainda) não anda, não fala e pouco se movimenta.

Antes de Laura ganhar a sala, a atmosfera da entrevista de Ricardo e Priscila ao Estado de Minas é uma miscelânea de sentimentos: dor pela morte de Ana Flávia, de 2, prima de Laura, que não sobreviveu ao acidente; revolta por conta da impunidade nas tragédias do trânsito e o descaso com o Anel Rodoviário; tristeza por saber de mocinha tão ativa ter a vida ao avesso; alegria pelo milagre da sobrevivência; esperança pela recuperação, ainda que lenta; e receio por mais uma cirurgia que se aproxima. A família acaba de receber a notícia da necessidade de mais uma intervenção no cérebro da garota. Uma válvula no sistema ventricular. Batalha longa e desgastante pela vida, que não afeta o otimismo de Ricardo e Priscila. Advogados de sucesso, ambos foram obrigados a rever a carreira para dar conta de dar atenção especial às circunstâncias. Apesar de a infraestrutura hospitalar 24 horas em casa ser mantida por convênio médico, os custos descobertos chegam a R$ 6 mil mensais, com alimentação, medicamentos e assistência particular.

De todos os sentimentos percebidos em duas horas de conversa, sobressaem o amor e a esperança. Priscila é mais força. Ricardo é mais sorriso. A mãe respira fundo repetidas vezes e tenta segurar as inquietações de quem demonstra amar além de todas as contas. Não se contém e desaba uma, duas vezes. O pai, desenvolto, chora por vezes. Sorrindo, derrama lágrimas enxutas pelas costas da mão. Explica o sentimento de “quebra no tempo e no espaço”, vivido desde o fatídico 28 de janeiro. “Primeiro, o choque com a quase morte, o vazio. Depois, o porquê. A gente tentava entender… por que com a nossa família? Em seguida, veio a realidade de UTI, com várias tragédias reunidas no mesmo lugar. E a gente unido, lutando contra todas as previsões. Todo dia sabendo que ela podia morrer e, ao mesmo tempo, comemorando um novo dia”, relata.

Ao falar de julho, mês em que Laura deixou o hospital, voltou para casa e comemorou 5 anos, o advogado abre ainda mais a envergadura do sorriso e fala de dias melhores: “Depois de tudo, uma fase muito boa de motivos de festa por cada conquista”. Comenta as dificuldades encaradas com determinação por todos os amigos e familiares e considera as incertezas com o futuro trazidas pelo quadro de paralisia cerebral. Priscila reconhece: “Não é fácil. Tem dias que falta força para sair da cama”. No entanto, fortalecida por nova dose de esperança a cada instante, apega-se à fé na recuperação da filha. “A verdade é que ninguém sabe nada do cérebro. As melhoras vêm do próprio cérebro. Os médicos acreditam que, como a Laura já tinha registros quando ocorreu o acidente, a recuperação seja possível.” Longe dos casados comuns, pai e mãe exibem cumplicidade admirável durante toda a conversa. Fazem-se soma e equilíbrio: ele fé, ela comunhão.

Há 17 anos juntos, Ricardo e Priscila fazem dos momentos mais difíceis razão para crescer. Mão e luva, se amparam para superar a dureza da síndrome pós-traumática. Demonstram olhar diferenciado sobre os dramas dos outros e se apegam às pequenas conquistas diárias de Laura. “Em todas as famílias, você vai vendo que cada um tem lá as suas tragédias”, diz Ricardo, que, daqui para a frente, só pensa na melhor maneira de trazer Laura para a própria vida como ela é, sem pensar apenas no futuro, vivendo o presente com a maior integridade possível. “Quero ter alegria. Parece que a sociedade, no fundo, quer ver você triste. Algumas pessoas se espantam com o mínimo de alegria preservada em você”, lamenta o professor. Muito emocionado, desabafa: “Quero viver o hoje da minha filha. Não quero mais viver de passado e com medo de não tê-la mais”.

Priscila vai até o andar de cima buscar Laura. No quintal, Yuri é pura energia com os amigos. “Filho, vamos fazer uma foto!”, convoca o pai. O garoto reclama. Natural. Não quer deixar a farra com os vizinhos. Ali, é tarde de água boa sob a chuva fina. Com a chegada de Laura na sala, a cadela maltês faz festa. A imagem da mocinha na escadaria, no colo de Priscila, parece pintura. Mãe e filha num cuidado de dar gosto. A advogada, funcionária pública licenciada, tem mais vida e luz na expressão de encanto. Deixa de lado qualquer resquício do que é lúgubre para dar espaço ao que é somente beleza. É preciso repetir: Laura é linda. Olhos profundos cheios de vida por viver. Pele bem cuidada que faz mínimas as cicatrizes do corpo. Boca vermelha, entreaberta, de quem sabe agradecer em silêncio. “No final, peça para que todo mundo continue orando por ela”, apela o coração da mãe. Do lado de fora, a bicicletinha sem rodinhas ainda espera por Laura, milagre da vida.

Estado de Minas - 25/12/11 - Jefferson da Fonseca Coutinho
Foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press

Papai Noel às avessas


“Faço o bem porque tenho uma missão e tento compensar um passado ruim”, diz Leonardo Thomasi, de 63 anos, que há quase duas décadas ganha a vida como Papai Noel e, sem fazer alarde, assiste a cerca de 600 pessoas carentes. Leonardo, de 1,90m, 130 quilos, olhos verdes, barbas brancas e óculos na ponta do nariz, comanda outros 12 Papais Noéis em Belo Horizonte e tem sua imagem maquiada, espalhada por vários cantos do Brasil. Ano passado, esteve até em reality show, exposto por 14 dias dentro de casinha de vidro em shopping chique do Triângulo Mineiro. Leo faz uso de apenas 20% do que recebe como microempresário e personagem. De todo o montante, fica apenas com o básico para si e para a família – 11 filhos, 17 netos e quatro bisnetos. Enquanto se transforma para mais uma apresentação beneficente, num banheiro de 3x3, Leo aceitou falar ao Aqui. Emocionado, deixa escapulir passado difícil como agente pelas nove fronteiras do país. Pede segredo por ações das quais não tem nenhum motivo para se orgulhar.


Mostra no corpo agigantado, com ilha tatuada no peito, marcas do tempo ruim: cicatrizes traçadas por armas brancas e de fogo. Bate em vários pontos do tronco, dos braços e das pernas para indicar a grande quantidade de platina junto aos ossos. Conta problemas recentes de pescoções e ameaças por parte de traficantes e maus policiais – “todos denunciados na corregedoria”, salienta. Pouco a pouco, o Leo, simples dono de pequena cantina, vai se transformando em Papai Noel, atração mais famosa do imaginário popular. Poliglota, além de bom português, fala francês, alemão, russo, italiano, inglês e espanhol. Já esteve em 74 países e contabiliza 200 outdoors em campanha pelo Natal. Ano passado, a serviço em pedaço do Polo Norte montado em grande centro comercial de BH, sofreu infarto que lhe rendeu encaminhamento para quatro pontes de safena. Teimoso, resistiu e fez “recauchutagem mais simples, com quatro stents apenas”.


Sábado, contratado a peso de ouro por gente graúda, percorreu cinco mansões com seu trenó automotivo puxado por 240 cavalos. A mulher de Leo, Svânia Souza do Nascimento, de 49, braço forte, aparece na porta do banheiro e avisa: “As crianças já estão esperando”. Papai Noel deixa o camarim improvisado, entra em cena e é recebido com galhardia por dezenas de criancinhas do Colégio Santa Tereza. As avarias no peito ele atribui ao trabalho com os pequenos. Para citar apenas um, traz da memória momento marcante vivido recentemente. “Foi numa ala de crianças do Hospital das Clínicas. Estava distribuindo presentes, carrinhos e bonecas, aproximei-me de uma mocinha bem pequena, coberta por lençol. Deixei o presente dela e virei as costas. De repente, ouço um chamado: ‘Papai Noel, troca pra mim!’. Quando me virei, ela estava com a boneca nos braços em toco e pediu: ‘Troca pelas minhas mãozinhas’”, desaba o gigante, tão valentão no passado.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26/12/11
Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A alegria dos pardais


Ontem, na cozinha, Johnny foi encontrado sem vida. Seguramente, o pardal mais serelepe de que já se teve notícia em todo o Bosque do Jambreiro, em Nova Lima. O mundo lá fora... mas o danado do passarinho só queria saber da cozinha. Não teve espantalho, palma ou reza brava que afastasse Johnny da mesa e das bancadas de guloseimas. Meu amigo não queria muito. Os restos apenas. Vez ou outra, fazia de banheiro as nossas mais belas toalhas, vasilhas e os tampões de granito. “Melhor do que o pó do asfalto”, repetia para a mulher companheira. Sempre procurei deixar as vidraças abertas para que ele pudesse arriscar seus mergulhos suicidas. Johnny gostava de aventuras. Conversávamos muito, em silêncio, e ele parecia entender minhas elucubrações. Mantinha seu ninho no telhado, com a minha cobertura – uma troca (injusta, reconheço): um pouco de segurança por muita inspiração. Fiz até acordo com os cães para que o deixassem em paz. Osho e Leona aceitaram na boa. É... há um tempo para tudo. Depois de rasante na janela fechada, meu intrépido parceiro das madrugadas descansa, agora, ao pé de nossa goiabeira. Salve, Johnny! Não esqueço você, amigo. Que venham os seus filhos!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O porco arrumadinho


“BH e a falta de educação”, texto publicado na semana passada, rendeu. “É cultural, Josiel. Tudo é uma questão de cultura”, ouvi de muitos. Pode até ser. Mas, como cidadão e pai de família, não posso aceitar que a falta de educação – que emporcalha e prejudica nossa cidade – seja algo sem solução. Mais um motivo para dar um basta no lixo que enfeia as ruas e entope bueiros, impedindo o escoamento das enxurradas. Já que o adensamento urbano não tem solução, precisamos aprender a lidar melhor com o lixo, com máxima urgência. Um triste fato: a cidade dos engarrafamentos está fadada a se transformar em concreto e pó de asfalto. “Vê se pode: para rodar 20 quilômetros, fico mais de duas horas por dia dentro do carro. Meia hora só para conseguir uma vaga para estacionar”, reclamou o Daniel, do Bairro Buritis.

A Silvana do Carmo espinafrou: “Minha rua no Bairro Caiçara é um lixo só. Estou cansada de ver gente jogando papel, sacola plástica, na calçada, Josiel. Cigarro, então, é um nojo. O povo fuma que nem desesperado e joga o toco em qualquer lugar, sem respeitar o direito de ninguém. Quer morrer, morre, mas não precisa sujar a cidade, que é de todo mundo. Outro dia, minha professora falou que as pessoas acham que a cidade é dever do poder público, que só a prefeitura é que tem que dar conta de deixá-la em ordem, sempre limpa e bem cuidada. ‘Em parte’, ela explicou. Porque a cidade também é obrigação de quem mora nela. Depois que a fêssora falou, fiquei pensando… é verdade. Ainda não tinha parado para pensar nisso. Agora, o problema é que, em Belo Horizonte, a maioria das pessoas mostra que não tem preparo nenhum para cuidar do que é público”. É, Silvana. É triste. Infelizmente, tenho que concordar que a maior parte dos belo-horizontinos é mesmo de doer.

Lúcia Helena, moradora da Avenida Augusto de Lima, no Barro Preto, enfermeira, participou por telefone: “A gente tinha que criar uma disciplina na escola voltada para os cuidados com o lixo e para a prática da gentileza urbana. Pais e filhos deviam cumprir duas horas por semana de matéria obrigatória sobre o assunto. Pode publicar isso, Josiel. Aliás, você bem que podia fazer uma campanha, né!?”. Estamos de sentinela, Lúcia Helena. Por uma BH mais limpa. É isso! O assunto rendeu também entre os companheiros de praça. Osmar, Adelson, Sueli, Oswaldo, Nenem, Arildo, Onofre e Zé Elias estão firmes no propósito de manter a cidade limpa. Estamos até fazendo uma vaquinha para distribuir uns adesivos educativos para carros.

Segunda-feira, debaixo da maior chuva, uma senhora de no máximo 50 anos, entrou no meu carro com um saco de biscoito. Comeu, comeu e depois, descaradamente, jogou o saco na rua, na Savassi. Só não parei porque tinha um ônibus na minha cola. “Minha senhora, tenho uma lixeira aqui na frente”, falei. Ela sorriu sem graça: “É o costume”. Agora, pense bem, amigo leitor: chovendo, a mulher abre o vidro e dispensa o saco no asfalto… na maior cara de pau do planeta. Isso é das poucas coisas que me tiram do sério. Tenho um passageiro, advogado, que adora mascar chicletes. Já perdi a conta de quantas vezes o vi embolar a goma na ponta dos dedos e jogar na rua. A cena é bizarra: o cara de terno, alinhadíssimo, dando peteleco em bolinha de chiclete no ar. E tem gente que acha exagero da minha parte. “Exagero, Josiel. O povo de BH até que é educadinho”, disse a Tia Eneida, domingo, na casa da Sueli. “Educadinho”, dona Eneida!? Educadinho é um porco arrumadinho.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 21/12/11

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A BH que eu amo


Keven resgatou com o cabo da vassoura o banquinho de madeira feito pelo avô a boiar na Linha Verde. “Um presente, Kevinho. O vovô fez pra você”, retumbou a lembrança quando trouxe o móvel salvo ao teto, único ponto de sobrevivência do barraco no Bairro Primeiro de Maio. Sentou-se sob as chuvas que castigavam Belo Horizonte. A imagem do avô, pedreiro, vindo de Taquaraçu de Minas nos anos 1960 para tentar a vida na cidade grande, não lhe deixava o pensamento. Ainda mais porque na manhã seguinte ao presente – o banquinho –, o velho Ananias foi abatido por mal súbito, encaminhado ao pronto-socorro e de lá para nunca mais. O adolescente era unha e carne com o mulato forte das barbas brancas e do coração cansado. “Tá descendo aí o meu pai”, chorou diante da cova no Cemitério da Paz, em 2000. Na época garoto, Keven não tinha somado 15 anos.

A morte do Ananias virou ao avesso a família. O barracão de três cômodos, única herança, foi motivo de discórdia, já que Tuca e Chumbinho só pensavam no dinheiro. Keven, o mais moço dos três irmãos sem pai, foi o único a se preocupar com a mãe, que teve quadro de doença psíquica agravado com o fim do arrimo da casa. Selma, em tarde de crise, saltou da passarela para mergulho no asfalto da Avenida Cristiano Machado. Na velocidade trágica do instante, foi um caminhão de combustível a fazer o serviço. De volta ao cemitério, em menos de ano, Keven viu a terra vermelha cobrir caixão barato mais uma vez. Os irmãos, ocupados com assalto pé de chinelo, não compareceram. Órfão e desamparado, Kevinho olhou para os lados e não disse palavra. Suspirou profundo apenas e decidiu vencer na vida. Deixou de lado amigos suspeitos e começou a trabalhar pesado para juntar dinheiro e comprar a parte dos irmãos no imóvel. Sentia no lugar a presença do avô, que ergueu sozinho tijolo por tijolo.

Em quatro janeiros, sem gastar tostão fora do que é necessário, o mocinho pagou no papel de ajudante de obra a parte de cada irmão. “Agora, cacem seu rumo”, disse com firmeza, no dia em que completava 19 anos. Caçaram nada. O bom coração de Keven permitiu que Tuca e Chumbinho continuassem por lá sempre que careciam de abrigo limpo e comida na geladeira. Às vezes, sumiam por meses. Volta e meia, o ajudante de pedreiro voltava para casa e encontrava um dos irmãos na salinha, de prato na mão: “Tô no apuro, mermão. Não esculacha”. Fazer o quê? Sentar e comer junto. No fundo, Keven até gostava de saber que eles estavam vivos e livres. O volume do Córrego do Onça desespera. E o tempo, como filme a rodar a cabeça do corpo do bom moço, encharcado, sentado no banquinho sobre a laje do barracão. As águas já cobriam as paredes. Impávido, Keven não arredou os pés da propriedade, arrasada pelas chuvas. Ficou ali a relembrar o avô e a mãe, enquanto a BH das obras, do futuro e da Copa do Mundo, derretia em estado de emergência.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19/12/11

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

BH e a falta de educação


Nem é preciso ser crescido e criado em Belo Horizonte para ter opinião formada sobre a chuva que, entra ano, sai ano, promove o maior estrago na cidade. A tempestade de ontem, em menos de uma hora, fez correr perigo moradores de vários bairros. Tenho amigos no Prado que descreveram o ocorrido como “calamidade”. Teve gente que foi arrastada pela força das águas e muitos moradores e comerciantes tiveram prejuízos consideráveis. Graças a Deus nenhuma vida foi perdida. É a boa notícia em meio ao caos que se repete. Passado o temporal de segunda-feira, em casa, na calma das chinelas e com o céu mais manso sobre o telhado, desço a caneta na caderneta de papel pautado para discorrer o que penso sobre o assunto.

Em primeiro lugar, não dá para desconsiderar o adensamento urbano, com o crescimento desordenado da metrópole. Onde haviam casas, hoje, são prédios e mais prédios. Dentro da Avenida do Contorno, há até pontos – e conheço vários – em que predinhos de três e quatro andares deram lugares a torres com pisos a sumir de vista. Matemática simples essa: com o volume de lixo, de esgoto, de redes elétricas e de telecomunicação, mais o asfalto e o peso do concreto multiplicado somam muito mais do que o solo aguenta. Alguém tem dúvida disso? Basta contar as árvores perdidas – cortadas no toco ou mutiladas aos montes – em nome do progresso. Progresso? Que progresso é esse, amigo leitor?

Outro ponto polêmico do caos que toma conta da cidade com as chuvas é a falta de educação do belo-horizontino. Sei que vai render – toda vez que toco no assunto, chove reclamação, dizendo que estou generalizando. Mas não é isso. É claro que na cidade tem pessoas conscientes que fazem a sua parte. A minoria, infelizmente. Por isso, repito: a grande maioria não tem educação. Não sabe e não se importa com a cidade. É lixo espalhado por gente de todas as idades. Cansei de ver mocinho e mocinha jogar embalagens de picolés, balas e doces no chão, na presença dos pais, e ficar por isso mesmo. O Adelson, semana passada, comprou briga porque chamou a atenção de um garoto no zoológico. O rapazinho, de uns 12 ou 13 anos, jogou uma garrafa pet e um marmitex amassado na rua. E na frente da família, em piquenique, amontoada sob copa frondosa. “O pai do menino fingiu que não viu, Josiel. Vê se pode! E quando mostrei a lixeira para o garoto, o cara veio tirar satisfação comigo”.

Rodo muito e vejo coisas que me dão vergonha de ser desta cidade. Nos carros, por exemplo a coisa chega a ser criminosa. O camarada fuma, fuma e lasca a guimba pela janela. Outro dia, o carro da minha frente, no sinal, resolveu fazer uma faxina no possante e jogar o lixo sem nem olhar para fora. Fiquei de cara com a falta de consciência do indivíduo. Absurdo flagrado em toda a cidade, praticado por cidadãos de todas as idades e classes sociais. Já vi lixo voar de dentro de carro importado, de ônibus e caminhão. Será que não é de conhecimento público que o lixo é dos grandes responsáveis pelos problemas de escoamento das enxurradas? É o que diz sempre o velho Botelho: “Pior que o homem, só o homem.”

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 14/12/11

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Bodas de cristal


Verão. Aniversário de casamento. Palmira e Wenceslau sonharam programa diferente para festejar 15 anos de união. Na praia, claro. Sem a mulher saber, o comerciante resolveu fechar suíte do melhor motel de Guarapari para a ocasião. “Em Guarapari, Wenceslau!?”, duvidou o amigo, Moisés, colega de shopping popular. “Tamo indo amanhã. E, além do mais, tô podendo fazer essa extravagância, você sabe”, sorriu. Já Palmira era só empolgação: “15 anos. É tempo demais da conta. Misericórdia! Hoje em dia não é para qualquer uma. 15 anos! Tô até desconfiada que ele vai me fazer uma surpresa. É que ele anda falando baixo, meio escondido, no telefone. A gente vai tá na praia. Quero só ver. Comprei uma lingerie...”, contou, toda sapeca, para a Augusta, colega docente.

Estrada adentro, silêncio. Só sorrisinhos marotos, no canto das bocas, por nove horas de volante. Nunca foram de muita conversa. Havia quem dissesse que era este o segredo da união tão duradoura. “Casal que conversa demais dá bom-dia a cavalo. Está ali homem e mulher que sabem das coisas”, dizia em coro a vizinhança, no Vale do Jatobá. Não que não gostassem de boa prosa. Com os outros até que eram bem falantes. Mas, de fato, em casa, nunca foram de jogar conversa fora. Comunicavam-se muito com o olhar. Bastava o Wenceslau fitar a Palmira para ela ler seu pensamento. E vice-versa: era só a Palmira inclinar o olhão azul para o lado do Wenceslau, que ele tinha certeza do que ela estava querendo. E assim tocavam a vida de acordo: 15 anos!

De poucas palavras, o assunto predileto do casal era sexo. Entre os dois, uma harmonia. “Satisfação 100%”, ele fazia questão de dizer. Os amigos jamais entenderam porque o Wenceslau, em 15 anos, jamais pulou a cerca. Sério. Desde o sim na igrejinha do Barreiro, o moço sequer deu brecha para qualquer tentação. Para a cambada amiga, mérito da Palmira, “boa de cama”, que soube “trancar-lhe o quadril”. Quando conheceu o Wenceslau, teve certeza: “É ele”. E foi para nunca mais dar mole para ninguém. Leal como não costuma existir. Juntos: a fome e a vontade de comer. Daí, não havia jeito melhor de festejar os anos de sexo de qualidade: no céu com a bunda de fora.

Fim da estrada. Wenceslau sorriu safado e deu lenço vermelho para a mulher, que, sem demora, entendeu que era para os olhos. Não só amarrou a venda, como, para apimentar a intenção, desceu a calcinha minúscula sem tirar a saia. Foram direto para a suíte do “Toca do Coelho”. Lá, a coisa ferveu. Só que o Wenceslau teve um piripaque grudado na mulher, ensandecida, no minuto que precede o paraíso. Foi preciso ambulância no motel para resgatar o Wenceslau. Mais tarde tudo ficou bem. Difícil foi encarar os funcionários do hospital na semana de internação. Cidade pequena. O povo fala. E como fala.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho- 12/12/11

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O espírito do Natal


Inesquecível ver duas mil crianças abraçadas pelo Papai Noel na manhã de sábado pela Jornada Solidária do jornal Estado de Minas, no Bairro Buritis. Balançou-me testemunhar a emoção da criançada de 23 creches de Belo Horizonte e Região Metropolitana ganhar o ginásio do Uni-BH – tão carinhosamente preparado para a importante ação social. Disciplinados, em fila, descalços pela liberdade de saltar em brinquedos infláveis, mocinhos e mocinhas, de até 7 anos, correram aos pulos quando a entrada foi liberada. Do lado de dentro, dezenas de voluntários formavam corredor de aconchego para a recepção. Vi quando a professora Luciana Cândida, da creche Santa Sofia, do Morro das Pedras, entrou no salão com seus 34 pupilos, todos de pulseirinhas de identificação, numa serelepice só. Foram os primeiros a chegar. “A expectativa é muito grande. O melhor de tudo é ver a alegria deles”, conta a educadora.

Com a entrada dos pequeninhos homenageados, o galpão em fantasias e uniformes multicoloridos é pura farra. A garotada aproveita a leveza dos pés no chão e corre, brinca, pula e pinta. E borda – os mais abusados até puxam o rabo do Tigrão, azaram o Bob Esponja e cutucam o Shrek, gigante verde, atração de destaque. “Calma aí, garotada!”. Nada que uma bronquinha da gentil assistente não dê jeito. Para manter a ordem, dezenas de voluntários, bem distribuídos pelo amplo galpão coberto, estavam atentos ao menor sinal de descuido. Vez por outra o microfone anunciava moçoilo ou moçoila desgarrado. Super-heróis, fadas, princesas, palhaços e protagonistas de desenhos davam brilho especial à animação. Batman, o homem-morcego “voa” baixo. Tem no encalço uma dúzia de intrépidos sujeitos. Sorrisão para foto. Uma beleza. O Homem-Aranha não fica atrás e também faz cena para a posteridade entre a meninada. Rafael Costa Reis, pequeninho, de 3, abraça a Bela Adormecida como quem parece viver conto de fadas. “Ela é linda”, diz baixinho.

A Jornada Solidária é a coroação de trabalho de empenho e dedicação de todo o ano. Ao longo de 2011, várias atividades foram realizadas para arrecadar fundos que vão beneficiar crianças de áreas de grande exposição a sérios problemas sociais. Creches são reformadas e aparelhadas pelo bem da comunidade. O programa tem 47 anos e já atendeu mais de 1,6 milhão de mocinhos em calças curtas. Glaucia Alessandra Pereira, de 36 anos, do Bairro Jaqueline, se desdobrava, ao lado de outros educadores, para acompanhar o pique de 60 crianças da creche Santa Terezinha. A professora destaca que, além dos recursos financeiros doados, a interação com outras comunidades é outro ponto importante para as crianças. “Natal é união. É uma melhor compreensão da importância da família”, ressalta.

Célia Alves Pereira, do Centro Comunitário Infantil Caminhando com Jesus, do Bairro Camargos, fala das histórias de vida sofrida de muitas das 120 crianças sob seus cuidados. “Sinto-me como aquele passarinho que leva água no bico para apagar o incêndio na floresta. O Brasil seria outro se existissem mais programas como a Jornada Solidária”, afirma. Andante ginásio adentro, guardei cenas lindas de se ver e contar. Fui tomado de especial alegria ao ver o bom velhinho, incansável, distribuir dois mil carinhos, com direito a fotos e beijinhos. Taí: é esse o espírito do Natal.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 7/12/11

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Gritos do silêncio


Uma cobertura marginal. Para dar mais emoção à tarefa da reportagem longe do campo ou da TV, cronômetro no celular sem conexão com a internet ou notícias do mundo da bola. Envergonhado pela falta de graça da competição nacional em Minas, neste domingo, o vento não parece soprar camisa celeste ou alvinegra no varal à mostra na área de serviço da Rua Maranhão, no Bairro Funcionários. Em Belo Horizonte, a 10 minutos para o Galo encarar a Raposa na casa do Jacaré, Expedito Cândido, o “Pelé”, atleticano, de 58 anos, não parece querer saber de futebol. “Quando o jogo começar, para não passar raiva, vou colocar um bolero no som: Romance de Cuba, sorri, anunciando cervejinha. Não para o jogo. Para a limpeza de dois carros na fila. O lavador arrisca o placar: “0 x 0”. O céu coberto não sugere espaço para o azul. Buzina tímida de motoca amarela quebra o silêncio da Rua Gonçalves Dias. Meia dúzia de foguetes anunciam o início da partida. 17h05. O tempo rola.

Dentro do carro da reportagem, foi preciso endurecer o apelo ao motorista Júlio César, atleticano doente, de 24, para desligar o rádio. “Pelo amor de Deus. É sério?”. Sim. Vamos acompanhar o clássico pelo movimento da cidade. O vazio da Avenida do Contorno lembra a madrugada. Na Praça Floriano Peixoto, em Santa Efigênia, dois amigos, em panos rivais, levam na esportiva o “jogo da degola”. “Acho que o Cruzeiro cai, infelizmente”, prevê o desempregado Edwagner Soares, de 25. Mal fechou a boca, fogos pululam próximo ao quartel da PM. Ao fundo, parado no ar, um berro: “Zêro!” 17h15. Buzinas cortam a avenida. “1 x 0. Roger!”, anuncia o rapaz de patins. Thiago Augusto, o atleticano, não diz palavra. Prefere fitar os olhos de Maria Francielle, que passeia sob as copas. “Acho que vou ver só o segundo tempo. Não quero sofrer o jogo todo”, diz a moça cruzeirense.

17h20. Alguém venta “Galo” da janela de prédio residencial. O som não reverbera. Nem buzina, nem berro irmão. Nada. No ponto de ônibus, em frente à funerária, Eliane de Souza, de 18, torcedora do Cruzeiro, tem fones nos ouvidos. Escutando o jogo? “Não. James Blanche”. Nada de futebol. A auxiliar de serviços quer é balada romântica para fechar o domingo de trabalho. Chega o busão. Fábio Benigno, de 33, atleticano, abre a porta. Satisfeito? “Como? Meu Atlético está perdendo”, lamenta o motorista da linha azul Taquaril. Pelo alto, longe, o céu acinzentado ameaça abrir brecha azul celeste. 17h35: mais fogos numa rajada. O barulho não espanta a pomba branca, solitária, em pose para fotografia, sobre fio de alta tensão em frente ao restaurante de luxo. Mais fogos e gritos de “Gaaalo!” e “Zêeeero!” num bar de esquina. (?) Não dá para saber o resultado. Os uivos pelo time da Raposa se repetem. 17h40. Em festa, o moço barbado grita de dentro do carro no semáforo: “3 x 0”.

Dentro do circular amarelo, o professor de artes Henrique Albuquerque ruma a rodoviária. Tem a sede nos ouvidos. “Tentei ficar sem ouvir o jogo… não teve jeito. A cidade inteira está em polvorosa”, diz com a orelha em pé na partida, de ponto eletrônico no ouvido. “Acharam um atleticano infiltrado lá no campo”, comenta. Hora de voltar para o carro da reportagem. Júlio César está que não se aguenta. Desliga o rádio. “Nenhum torcedor do Galo merece isso! É muita sacanagem”, sofre. Foguetes voltam a pipocar e sugerem o final do primeiro tempo. Na rodoviária, o movimento é intenso. Pouca gente ligada no confronto dos clubes da cidade. Marília Santana, de 25, estudante de psicologia, chama a atenção. De celular entre os dedos, tem o livro Ciência e comportamento humano, de B. F. Skinner, ao alcance das mãos. Sofrendo? “Sim, mas porque o Vasco está ganhando do meu Flamengo”. Baiana de Mortugaba, candidata a mestrado em Brasília, tem relação muito particular com o esporte.

Perturbação

De volta ao carro do EM, Júlio César comenta que o primo, Marcinho, lá da Arena do Jacaré, já começou a perturbar o sossego dele. “Ligou de lá, acredita?” Na Via Expressa, a mulher do carro ao lado mostra a mão cheia para um motoqueiro. “Não. Isso não. Outro gol do Cruzeiro? Pelo amor de Deus, deixa eu ligar o rádio?” Buzinaço. Outro motorista, no sinal, dá a notícia: “Gol do Galo”. 18h30. No Bairro Coração Eucarístico, amasso na esquina. Casal, entre mesas vazias no bar, namora ao som do DVD de banda pop brasileira. Sem futebol na TV? “Aqui, por segurança, a gente não vê futebol em dias de clássico”, explica o garçom Jucélio Xavier, sorridente, torcedor do baiano Vitória, da Segunda Divisão. Na pracinha, o maior barulho quem faz é o bem-te-vi na frondosa castanheira. O céu já é mais azul naquelas alturas da rua de nome santo. 18h45.

No caminho de volta, nosso motorista é silêncio. Pelos bares de ruas e avenidas da cidade, torcedores atleticanos de braços cruzados. Muitos fogos no Barro Preto, nas proximidades da Praça Raul Soares. 18h55: na Avenida Amazonas, em frente ao Edifício Tupis, farra nas duas pistas. Buzinaço. No terceiro andar do Edifício Assumpção, uma moça de camisa azul grita “Zêeeero!” três vezes da janela, em coro com outros moradores da Região Central. Conta alto e bom tom o placar final: “6 x 1”. Convidada, Roberta Oliveira, de Três Marias, estudante de administração, desce para falar com a reportagem e faz pose, numa só felicidade, tendo como fundo o lendário prédio “Balança Mas Não Cai”.


Na foto de Gladyston Rodrigues, companheiro do Estado de Minas, Roberta extravasa diante do edifício cujo nome simboliza a jornada do Cruzeiro: "Balança Mas Não Cai"


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5/12/11

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Bem piores que animais


O Josué, amigo, lavador de carros, de 19 anos, está revoltado com a morte de um motorista de ônibus, linchado no domingo, no Parque Santa Madalena, Região Sudoeste de São Paulo. A coisa ainda está sob investigação, mas, ao que tudo indica, Edimílson dos Reis Alves, que completaria 60 anos ontem, foi espancado até a morte por multidão enfurecida na porta de casa de baile funk. “Tenho vergonha quando fico sabendo de coisas assim, Josiel. Vergonha”, comentou. Edimílson passou mal enquanto dirigia, perdeu o controle do veículo e acabou atropelando uma pessoa, que já está fora de perigo. Arrancado do ônibus à força, o motorista foi massacrado por cerca de 300 pessoas. Inacreditável a maldade humana.

A revolta de Josué tem ainda mais razão de ser. O bom moço, trabalhador desde criança, testemunhou atitude parecida em caso de menor gravidade. Seu tio mais próximo, quase pai, vizinho de frente em bairro de periferia, há três anos passou por situação parecida. Motorista experiente, com mais de 30 anos de profissão, o tio do Josué sofreu desmaio em pleno batente e subiu no meio-fio de boteco lotado. “Graças a Deus não havia mesa na calçada e ninguém foi atingido. Só que o povo de dentro do bar, uns 15 caras, ficaram tão furiosos que invadiram o ônibus e quebraram o meu tio todo. Ele quase morreu. Passou mais de mês internado e só conseguiu voltar ao trabalho um ano depois”, contou.

O Osmar, companheiro de praça e padrinho do Josué, confirma a história e emenda: “Isso é reflexo desse mundo perdido. As pessoas já estão tão acostumadas com a violência, que estão ficando violentas e achando isso normal. É nas ruas, na TV, o tempo todo. E tá assim de gente que acha isso bonito. Por isso, digo e repito: prefiro os animais. Meus cachorros não me dão problema nenhum. Já os meus vizinhos, toda semana saem no tapa. São todos do nível daquela história recente de ex-jogador de futebol com o vizinho advogado. A diferença é que o meu bairro é de gente pobre. Tenho para mim que o homem é muito, mas muito pior que os animais”. É Osmar, sou obrigado a concordar que a coisa anda mesmo feia.

Josué, cheio de planos, quer fazer direito e prestar concurso para chegar à magistratura. Diz que, toda vez que toma conhecimento de casos como esse de São Paulo, tem vontade de fazer alguma coisa para combater isso. Sensato, tem absoluta certeza de que isso é reflexo da falta de educação e cultura no país. “Se pudesse, obrigava todo mundo a ter educação e cultura. Transformaria os presídios em grandes universidades e mandava os políticos todos para a escola. A mente ocupada com os estudos não ia dar tempo pra ninguém pensar em matar e roubar”. Está certo, Josué. Não é!? A questão, amigo, é que a ignorância é um mau que se alastra na velocidade da luz. Há bem mais gente interessada em se arrastar na mesmice – sem falar naqueles que estão no poder e se alimentam dela – do que cavar alguma sabedoria. Ignorância mata, sabemos todos, mas elege também, infelizmente.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 30/11/11

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tapioca, o pescador


No fim dos anos 1960, quando os pais se separaram, Leo foi morar com a mãe na casinha de praia da família, na Barra do Itapemirim, no Espírito Santo. Moleque, branquelo e mineiríssimo – cheio de sôs e uais –, Leo não conseguia se enturmar. Sentia saudades demais do pai, que havia ficado em Belo Horizonte, em frangalhos com o fim do casamento de 8 anos. O menino, que já era calado, emudeceu-se de vez. Terminado o verão, o litoral ficou vazio. Forte ali, na época, era o turismo. Nas férias, a mineirada toda descia para o Espírito Santo. Para Leo, a saudade de Minas apertava mais do que ele dava conta. Tanto que ele não parecia fazer muita questão de viver e usava e abusava da sorte em aventuras de grande perigo.

Até atravessar o Rio Itapemirim, no seu trecho mais perigoso, no Pontal, onde suas águas se encontravam com o mar, Leo atravessou. Saltou das pedras – mesmo sem saber nadar muito bem – e deu conta de chegar na prainha. Na volta, no braço exausto, o desespero. Só não morreu afogado porque foi salvo por garoto nativo, pescador, que passava de canoa. Tapioca, menino descolado, dois anos mais velho, pescava para ajudar em casa. Vida salva, ficou a amizade que marcou a infância do mineirinho, filho de seu José e da dona Maria. Leo se apegou ao exemplo de luta do capixaba e quis batalhar para crescer na vida. Assim, pequeninho, aos 10 anos, Leo, quando não estava na escola, também pescava no Itapemirim.

Leo juntou dinheiro para voltar para Belo Horizonte. A mãe não deu conta de segurar o garoto, que voltou para morar com o pai. Tapioca, o amigo, continuou a ganhar a vida com a pesca. O tempo, no descer e subir das marés, passou como as águas. E lá se foram mais de 40 anos. De volta, a prainha, estudadíssimo, careca e barrigudo, em julho deste ano, Leo quis rever o amigo de infância. “Sabe onde posso encontrar o Tapioca?”, perguntou ao velho peixeiro no Porto da Barra, que apontou à margem do rio, junto às pedras. Lá, um pequeno barco a motor, de nome “Sossego”. O homem, de pele muito curtida pelo sol, lavava a proa e ouvia Roberto Carlos. “Mineiro!? Cadê o cabelo, maluco?”, perguntou sorrindo, depois de reconhecer Leo.

Abraçaram-se como dois irmãos. Falaram das mulheres e dos filhos. Mostraram fotografias dos pequenos, já crescidos, e lamentaram a perda dos parentes amados. Tapioca, o pescador, e Leo, o engenheiro, passaram a tarde sentados no barco, relembrando os tempos de garotos. Conversaram sobre muitas coisas. Um, enriquecido, viajado, conhecedor de vários pedaços do mundo. O outro, homem simples, que jamais deixou o Espírito Santo. Trabalha apenas 6 horas por dia, seis meses por ano. A maior parte do tempo, Tapioca dedica à mulher e aos cinco filhos. Leo, em folga rara de feriado, luta 18 horas diárias para se manter em multinacional. Escravo da tecnologia, não vive sem iPhone, iPad e iMac. Já Tapioca, alheio a tudo o que é modernidade, nem sabe o que é Facebook.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 28/11/11

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Deu no Estado de Minas

É com muito orgulho de todos os companheiros de "Um inimigo do povo" que compartilho a crítica de João Paulo, publicada no jornal Estado de Minas. Quem acompanha a imprensa nacional sabe bem que o editor de Cultura do EM é hoje um dos jornalistas mais respeitados do Brasil.




Um contra todos

Por João Paulo

Ibsen (1828-1906) fez teatro para pensar a partir da mobilização intensa do sentimento. Sua arte está na encruzilhada de elementos românticos, realistas e simbólicos, com temas que vão da revolta contra as convenções machistas à recusa metafísica da transformação do homem em coisa. Dentro de casa e na balbúrdia das ruas, foi o autor dos mais profundos diagnósticos da corrupção moral do capitalismo do seu tempo. Ao mesmo tempo, pulverizou a indignação muito além da dimensão política para atingir a condição humana no sentido filosófico. Um inimigo do povo, de 1882, se situa no cerne desse projeto. É peça que permite leituras psicológica, social e política. E que mantém atual.

A montagem dirigida por Walmir José, que já havia levado o texto ao palco anteriormente, estabelece um relacionamento com dilemas contemporâneos no campo do pensamento e da ação política. Depois de montar o texto nos anos 1970, em plena ditadura militar (quando a própria palavra “inimigo” não permitia metáforas), o diretor opta por problematizar a questão ideológica atual, a partir de referências mais universais, embora fortemente marcadas pela conjuntura. Nunca a política esteve tão em desprestígio como hoje, o que explica, ao mesmo tempo, a força dissolvente das ideias convencionais (não parece haver mais oposição no reino do pensamento único) e a leniência das formas de revolta, substituídas por um hedonismo desmobilizador e individualista.

É nesse sentido que a montagem oferece sua contribuição. Em primeiro lugar, pela crença na força da palavra. A adaptação, que atualiza a trama original incorporando a dimensão ecológica, vai ao texto de Ibsen para resgatar nele sua mais determinada intenção. Há, a seu modo, a afirmação de uma tragédia liberal (que vai além do modelo da tragédia burguesa), que lança mão de um novo tipo moral. O dr. Stockmann de Ibsen equilibra várias fontes de revolta para afirmar o modelo de homem político, capaz de ir contra a maioria para preservar sua humanidade. A mentira, mais que um mal a ser afastado, é resultado de um sofisticado arranjo social que ganha guarida na alma de pessoas fracas e cediças.

Há, na peça, o risco real de submeter as ideias do autor a um jogo de certo e errado, verdadeiro e falso, ético e imoral. Nada mais distante do espírito de Um inimigo do povo. A tradução desse equívoco poderia ganhar a forma de um simples duelo de posições maniqueístas, da qual os irmãos Stockmann, o cientista e o prefeito, incorporariam os limites, numa falsa disputa entre razões da ciência e interesses da política. Ibsen foi além ao incorporar certa dimensão farsesca, de humor destrutivo, que mancha a atuação dos dois lados. Há a hipocrisia do poder, mas também o empenho salvacionista e desequilibrado da razão embriagada de certeza. Sem falar na fatuidade burguesa, na ambição do homem de negócios e na ética de circunstância da imprensa.


Anarquismo

No palco, a escolha do diretor sublinha os elementos anarquistas do protagonista, que luta contra todos e sobrevive a seu modo. É astuta a criação de um clima de comício, mimetizando o cenário em que a política dá as mãos ao marketing para se submeter a meias verdades funcionais.

No elenco, destaque para a atuação de Jefferson da Fonseca (Tomás Stockmann, um Quixote contagiante, enlouquecido com sua verdade) e Geraldo Peninha (Pedro Stockmann, numa composição que equilibra postura emproada e a dissimulação). A atualização da trama, no entanto, não fica bem caracterizada no cenário e figurino. Se o texto é tão preponderante e bem articulado pela adaptação, nada mais justo que dar ao espectador elementos teatrais igualmente fortes e significativos.

Ibsen não queria ser identificado com seu personagem, ainda que carregasse em parte as mesmas ideias. Um dramaturgo não se coloca no palco. Quem deve se reconhecer nos personagens é o espectador. Neste sentido, Um inimigo do povo segue atual, ainda que em outro contexto. E o espetáculo de Walmir José tem o mérito de jogar a luz para a plateia.


ÚLTIMO DIA (27/11/11)

Um inimigo do povo
De Ibsen. Direção de Walmir José. Com Jefferson da Fonseca Coutinho, Geraldo Peninha, Olavo de Castro, Ana Amélia Cabral, J. Bueno, Bianca Tocafundo, Beto Plascides, Márcio Miranda e Luiz Hermidas. Teatro Marília, Av. Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia, (31) 3277-4697. Hoje, domingo, às 19h. R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 12 (Simparc).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Respeitável público!


“O palhaço”, de Selton Mello, é poema como não se vê comumente nos cinemas do Brasil. Muito bem dirigido e interpretado, o segundo longa-metragem da carreira do artista como diretor é tiro certeiro para quem busca trabalho autoral. Foge dos clichês e das fórmulas tradicionais – humor barato, miséria e violência – que fazem a história das maiores bilheterias do país. Não é novidade a paixão pelo cinema neste quintal. Vez por outra, com prazer, falamos sobre o assunto. É que, viciado na sétima arte desde os tempos de moleque, ao menos duas vezes por semana vou ao cinema. Violeta e eu, entre outras tantas coisas, temos mais esse gosto em comum. Assim sendo, na semana passada, lá fomos nós ver “O palhaço”, tão bem recomendado pelo ator e amigo Maurício Canguçu. Uma beleza!

Emocionante, poético e divertido, o filme conta um pouco dos bastidores de uma família de artistas de circo que mambemba Brasil adentro. Puro Sangue (Paulo José) e Pangaré (Selton Mello), pai e filho, tocam a vida como podem para levar alegria aos moradores de cidades do interior. O palhaço mais moço, porém, vive drama contido em busca de identidade. Pangaré passa a maior parte do filme bastante infeliz com sua condição de filho de artista. Talentoso, sabe bem fazer graça para o público, mas não consegue dar dose de alegria a si mesmo. Puro Sangue, velho comandante da trupe, entende bem o significado de texto repetido ao longo da trama: “O gato bebe leite; o rato come queijo; e eu, sou palhaço”. Não posso contar mais do enredo para não prejudicar o amigo leitor, que, sei bem, já deve estar interessado em saber mais da história do Circo Esperança.

O que posso dizer é que quem for conferir “O palhaço” vai encontrar de tudo e mais alguma coisa em pouco mais de uma hora de exibição: tem gente do bem e gente do mal; tem trilha sonora de fazer rir e de fazer chorar; tem músico bacana e mocinha bandida; e tem homem triste e criança feliz. Ah, de quebra, tem o cantor Moacyr Franco como o delegado Justo, com interpretação que agrada até aos críticos mais exigentes. A cena protagonizada pelo sujeito depois de confusão num boteco é inesquecível. Ele, sentado atrás de uma mesa, em movimentos mínimos, olhar firme e voz em tom grave, uníssono, rouba a atenção do público com performance invejável. No filme há outras participações especiais bem marcantes: Fabiana Carla, Ferrugem, Tonico Pereira e Emílio Orciollo Neto não passam batido.

Além de excelentes interpretações, o roteiro feito a quatro mãos na dobradinha de Selton com Marcelo Vindicato tem grandes sacadas. A relação de Benjamim – nome do palhaço Pangaré – com ventiladores e cataventos, por exemplo, é um achado que pontua o silêncio cheio de significados da história. Detalhes que se desdobram, também fazem a diferença e contribuem para o sucesso de “O palhaço”. Teuda Bara, atriz do Grupo Galpão, manda muito bem como dona Zaira e é peça chave que acrescenta em particularidade. Logo no começo, ela, peituda que só sua personagem, pede um sutiã novo para Pangaré. O pedido se desdobra em duas ótimas cenas que provocam a plateia no melhor sentido da ação. Ao subir dos créditos, ficou a vontade de mais histórias como “O palhaço”, que respeitam a inteligência do público.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 23/11/11

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O golpe do adeus


Erre era um pirralho espinhento que cheirava a fraldas. Tinha acabado de completar 13, mas não parecia ter 10. Franzino, metidíssimo a brigador. Ainda mais depois que a TV começou a dar destaque para competições de pancadaria: “Foda demais!”, dizia sorrindo, feliz da vida, toda vez que via sangue jorrar na telinha, sob a narração do locutor abestalhado, histriônico. Coisas da grana, da publicidade... fazer o quê!? Há quem diga não haver o que o dinheiro não compre. E lá, no interior de Minas, na cidadezinha de nome doce, Erre não desgrudava da televisão nos dias de porrada. Valia tudo para torcer pelo mais “foda”. Até bicudar a mãe, grávida, doente e descasada.

– Sai da minha frente, mãe! Já tá começando, porra!
– Não saio. É tarde, minino! Vai pra cama! Já falei!
– Pra cama o cacete! Toma!

E a porrada começou ali, em casa mesmo, na mãe, em frente à TV, comprada em 24 prestações pela coitada da diarista. Com problemas de circulação – não havia cirurgia que desse jeito nas veias da dona Maria –, a mãe do pequeno diabo teve ferida aberta na altura da canela. Bicudo do Erre, filho mais velho, chegado em violência. Mais, muito mais, depois que ele aprendeu na TV que ser bom de porrada podia ser legal. Até sonhou ser famoso e ganhar muito dinheiro distribuindo socos e pontapés. Tanto que começou a treinar em casa e com a vizinhança.

Dos moradores da Rua do Chuvisco, Eme, de 16 anos, mocinha tímida, evangélica, era quem mais sofria com os ataques de fúria do Erre. O garoto infernizava a menina. E até tentou estuprá-la sob a luz do dia. Aproveitou que os pais de Eme estavam na Igreja e invadiu a casa dela num domingo de manhã. Ela estava de cama, febril, se recuperando de pneumonia. Erre saltou em cima da moça e forçou arrancar suas roupas. Eme, movida por força fora do comum, conseguiu jogar o moleque para fora do cômodo e trancar a porta. Furioso, Erre quebrou e ateou fogo na casa. Com o braço esquerdo quebrado e com o rosto em sangue por corte profundo na testa, Eme conseguiu saltar a janela e correr para a casa de fundos, do vizinho aposentado.

Foi o seu Antônio quem resolveu dar cabo na situação e chamou a polícia para o infeliz. Procurado e apreendido, Erre foi parar em casa para menores infratores. Lá, em três dias, sentou a mão em pelo menos dez garotos. Sentiu-se o campeão da pancadaria. Nocauteou até assistente social com pernada na cabeça. Imbatível, saltou o muro do lugar e correu, campeão, para o golpe do adeus. Só parou na BR-381, atropelado por caminhão de televisores de última geração.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 21/11/11

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Bacalhau no café da manhã

Fim de semana prolongado. Uma beleza! Pernas para o ar com os pés na chinela porque ninguém tem o calcanhar de ferro. E a vida é festa quando a opção é ser feliz. É o que digo sempre: com saúde, todo o resto é viver bem e melhor, buscando sempre a paz entre os que amamos. Infelizmente, sabemos todos, há muita gente que só sabe é sofrer com problemas imaginários. Dificuldades existem e precisamos saber conviver com elas da maneira mais equilibrada possível – por mais que isso seja difícil. Agora, sofrer por tudo é desespero e não precisamos disso. Dinheiro? Só para o que realmente importa. Grana não pode ser amarra para a boa gente. Tenho pena daqueles que se acorrentam à moeda. Não há sujeito de dignidade e bom coração que morra de fome porque, afinal, “quem ama vive, quem vive trabalha e quem trabalha tem pão”, escreveu Van Gogh – não me canso de repetir isso aqui, em nosso quintal.

Tudo isso para dizer que, no feriadão, tive o privilégio de passar a noite de segunda-feira na casa de casal dos mais especiais que conheço – bons amigos são fundamentais ao plano de felicidade de qualquer um. Peninha e Iremar, anfitriões de generosa grandeza, abriram as portas do lar e o coração da família para pequeno grupo chegado num baralho e em fazer da vida festa, longe, bem longe, de qualquer espécie de problema inventado. Violeta e eu, na terça-feira, saímos de lá mais encantados do que quando chegamos. Que beleza são as boas companhias, não!? Não bastasse Peninha e Iremar, participaram do encontro os namorados Bianca e Danilo, além da atriz e professora Ana Amélia Cabral, amiga de longa data. Em momentos assim, de agrupamentos tão felizes, é que podemos compreender melhor a importância das boas companhias e dos amigos na vida.

Na mesa, o “mexe-mexe” fazia o baralho correr solto pelo espírito de diversão apenas. Quer dizer… mais ou menos, já que a bela e divertida Bianca parecia fazer valer o barracão com empenho de jogadora profissional. Nunca vi numa mesa de carteado tamanha concentração e vontade de vencer. Eita! Bom mesmo era ver a Ana Amélia bater por último com a euforia de vencedora. Iremar, o anjo da mesa, a mais experiente e de raciocínio mais veloz, ficava feliz mesmo era em ajudar os iniciantes na modalidade – eu, por exemplo –, a não fazer feio. Para o Peninha tudo era festa, ainda mais depois que seu labrador, o Simba, reapareceu. O cão, gente boa até, fugiu e passou horas fora de casa, debaixo da chuva, em busca de aventuras submarinas em lago qualquer das cercanias de Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Para a alegria do dono da casa, que, em vão, já havia rodado o lugar, o fujão voltou sem causar nenhum aborrecimento aos vizinhos.

Não se viu a noite se afundar na madrugada, menos ainda o sol mudar a cor do céu. E lá pelo raiar do dia, depois de petiscos de primeira, saiu o nosso jantar: o melhor bacalhau que Violeta e eu comemos na vida. Preparado por Ana Amélia, mestre das artes cênicas e culinárias, o prato fez o maior sucesso e já virou promessa para novos encontros. Obrigado, Simba, Peninha, Iremar, Danilo, Bianca, Ana Amélia e Violeta por noitada tão especial. São momentos assim que fazem a gente acreditar em felicidade.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/11/11

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Curta temporada


Poucas vezes na vida, em mais de 20 anos de obsessão pelo teatro, um espetáculo foi tão desafiador. Tenho em mim grande paixão por todos os trabalhos que realizo – nas redações, nos sets, nas salas de aulas e ensaios – e pelo conhecimento e amizades que eles me trazem. Foi assim que ganhei amigos caros, que enriquecem a minha relação com o mundo e com tudo que nele realmente importa. Com "Um inimigo do povo", em cartaz no Teatro Marília, aprendo lições inabaláveis sobre liberdade e distinção moral. A todos os companheiros que, direta ou indiretamente, fazem parte dessa história, o meu mais sincero obrigado.


Todos ao teatro!

Fica o convite aos amigos, leitores e leitores amigos, homens de bem, que ainda não viram nossa montagem. A temporada é curta e vai só até dia 27 deste mês. O endereço do Teatro Marília é Av. Alfredo Balena, 586 - Bairro Santa Efigênia.

A peça é apresentada de quinta-feira a sábado, às 20h30, e, aos domingos, às 19h. O texto de Ibsen, produzido por Rômulo Duque e Marisia do Prado, tem adaptação e direção de Walmir José.

Trilha original de Léo Correia; preparação corporal de Dulce Beltrão; iluminação de Felipe Cosse e Juliano Coelho. Alex Magalhães comanda a técnica e as fotografias são de Andrea Maia e Nello Aun.

No elenco, com orgulho, divido a cena com Ana Amélia Cabral, Bianca Tocafundo, Geraldo Peninha, Márcio Miranda, Olavo de Castro, J. Bueno, Beto Plascides e Luiz Hermidas. Trupe que aprendo a amar mais e melhor a cada dia. Evoé!

Jeff

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Alegro bebum


Gabriel Ramírez, de 40 anos, é bebedor profissional. Trabalha para a mais importante produtora de tequila de Cozumel (foto), ilha do Mar das Antilhas pertencente à província de Quintana Roo, no México. O lugar é um paraíso banhado por mar de cor azul-turquesa, com cerca de 90 mil habitantes. Gabriel está na ilha desde garoto. Por opção. Decidiu deixar a capital dos Estados Unidos Mexicanos – Cidade do México – para viver em paz próximo ao farol, mar adentro. Lá, não tem contas a pagar, menos ainda compromisso com o que não lhe interessa. Tem dois filhos, Juan e Miguel. É casado com a bela Dulce (“É ‘Doce’ como el azúcar”, a apresenta, feliz, em portunhol). Os garotos estão bem na escola e já dominam a língua inglesa. “Fazem o que querem desde os tempos do ventre. Jamais tiveram um resfriado sequer”, conta.

O mexicano bem que poderia fazer fama e fortuna nos teatros, nas tevês e nos cinemas, como intérprete. Trata-se de um ator de recursos invejáveis. Jamais estudou artes dramáticas na vida, mas merece um Oscar pela performance para a plateia de turistas de todo o mundo presente em mais um fim de tarde. Era a quinta do dia. Em média, são seis “palestras” diárias. Em cada uma delas, com a melhor cara do mundo, manda goela abaixo cinco doses de preparos à base da melhor tequila de que já se teve notícia. De licores com café à mais pura “Cava Antigua” – assim chamada a tequila de Cozumel. Não bebe apenas. Num trabalho solo, repleto de pausas, intenções e transições – como se recitasse Shakespeare –, Gabriel diz à plateia de homens e mulheres:

“Hombre, quando você bebe tequila você tem uma imagem de si mesmo como um ‘bandito’ com um bigode de cabo longo, provavelmente montado em um cavalo com uma cartucheira pendurada em seu peito”, sorri ao olhar para o americano com pinta de agente da CIA. Pisca para a senhora gorda de dentes amarelos: “Então, novamente, chica, se você é mulher, você provavelmente tem uma imagem de si mesma sentada em uma praia do Caribe depois de uma partida de golfe, sob uma palmeira com seu namorado, bebericando alguns margarita wild-coloridas”. E segue num ritual para o gole final: “Arriba, abajo, ao centro”, tigue, tigue, tigue (faz dancinha rebolada) e vira de uma só vez o copinho de plástico descartável, levando o público com ele na coreografia, de fazer rir até o careca bigodudo da cara amarrada.

O povo bate palmas. Assim vive Miguel, que, ao fim do dia, está bastante alegre com a garrafa de sabores dos mais ricos e variados do México, entornada em pequenas doses. O mexicano não tem salário. Vive das gorjetas acumuladas no chapéu. Apresenta-se em parceria com o primo Tico, assistente encarregado de distribuir os copos e servir a tequila e seus derivados. Depois da “palestra” de Gabriel e da degustação, são poucos os que deixam o rancho sem levar ao menos uma garrafa. Os preços variam entre US$ 45 e US$ 85. Alegre com mais uma jornada de bom desempenho, Miguel recolhe a parte que lhe cabe dos trocados e segue para os braços da bela Dulce. Vai a pé, porque, consciente, prefere não tocar sua motoca depois do trabalho.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 14/11/11

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Você é livre?

Entre as coisas boas que chegam com o entrar dos anos, certamente, está a liberdade de espírito. A cada aniversário que somamos, no mínimo, mais livres temos a obrigação de viver. Neste quintal, na semana passada, falamos muito em liberdade. O tema provocou muitos amigos leitores, que acabaram por comparecer com ideias que merecem ser compartilhadas. O Adauto telefonou e deixou recado na secretária eletrônica: “Josiel, estou ligando só para dizer que achei a coluna de hoje muito legal e que um homem livre é aquele que não tem rabo preso com ninguém. Escreve lá na coluna que deixei esse recado pra você. Depois, vai lá no Bar do Antônio. Ele disse que tem umas coisas sobre liberdade que ele gostaria de ver publicadas em Bandeira Dois. Abração”.

Sem demora, assim que ouvi a mensagem, passei no Bar do Antônio, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Foi perto da hora do almoço. Aí, aproveitei e mandei ver o prato feito de lá. Por sinal, muito bom. Colocamos a conversa em dia. O Antônio queria muito falar sobre liberdade. Ele teve caso triste de irmão preso como traficante de drogas. Maconha. O caçula da família, há cerca de 20 anos, foi preso na BR-040 com uns 300 gramas da erva. O rapaz disse que era para uso próprio, mas a história teve outras complicações e ele acabou preso, julgado e condenado a sete anos. Por bom comportamento, passou bem menos tempo na penitenciária. O fato é que o homem deixou o lugar “completamente transformado”. O Antônio disse que o tema da coluna foi o que bastou para que ele decidisse desembargar a garganta. Escolheu o nosso Aqui para tocar em assunto tão delicado. O quintal é seu, amigo.

“Quero, Josiel, se você puder anotar, falar um pouco do Luca lá no jornal. É que o Aqui tem muitos leitores e isso pode ajudar alguém. Vou dizendo do meu jeito e você passa para o português, tá bom!? No início, todos nós ficamos indignados com o jeito que tudo aconteceu. O Luca tinha 22 anos. Era um menino. Que ele usava maconha a gente desconfiava... mas vender, traficar, isso nunca passou pela nossa cabeça. O que eu sei é que, hoje, maduro, o Luca se tornou exemplo na família. Depois de tudo o que todo mundo lá em casa enfrentou, liberdade passou a ter muita importância para todos nós. Hoje, quando o Luca se levanta, a primeira coisa que ele faz é andar pela rua. Faz questão de sair para comprar o pão, todos os dias, para a mulher e para os filhos. Voltou a estudar, arrumou um bom emprego e vive falando sobre liberdade. O mais importante da liberdade, para ele e para mim, é poder acompanhar o crescimento dos filhos de cabeça erguida e com a consciência limpa”. Pronto, Antonio. Muito bom o recado.

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P.S.: No próximo sábado, dia 12, no Teatro Marília, às 20h30, tem espetáculo de teatro que toca em cheio no assunto liberdade: “Um inimigo do povo”, de Ibsen, é uma martelada em cheio na pluralidade dos homens e nas verdades da maioria.

Bandeira Dois - 9/11/11

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um minuto de silêncio


A notícia da morte de Marcello Castilho Avellar, amigo, irmão, companheiro em artes e letras, mestre e homem da cultura, veio num sopro com as marolas do mar da cor do céu. No México, pausa na felicidade de nova etapa na vida para rever – como um filme – mais de 20 anos de amizade construída na força bruta do estudo e do trabalho, do respeito e da admiração. Primeiro, o professor; depois, o colega de editoria no jornal Estado de Minas, na Escola de Teatro da Puc e nos palcos de Minas e do Brasil. Para sempre, mestre em duas grandes obsessões: o teatro e o jornalismo. Juntos, desde 1995, com “Vincent”, espetáculo inspirado em Van Gogh, percorremos várias cidades do interior do estado e seis capitais brasileiras. Em 2001, realizamos “O cântico dos cânticos”, experimentação a seis mãos com a atriz Maíra Soares. Em 2006, de Lourenço Mutarelli, “Eu era dois em meu quintal”, cena curta que nos fez levar a cara a tapa como atores-encenadores, em projeto do Grupo Galpão. Na última década, ao menos uma dúzia de assistências em espetáculos de formatura.

Na última semana, imagino, muito já foi dito nos jornais e nas redes sociais sobre o crítico de arte genial que a imprensa brasileira perdeu. No entanto, vai ser sempre preciso dizer mais e melhor sobre o homem distinto, absolutamente livre, que muita gente não teve o prazer de conhecer pessoalmente. Professor exemplar, provocador, que ajudou na formação de duas gerações de artistas dos melhores que Minas já conheceu. Passaram por suas salas de estudo – das pequenas oficinas às grandes instituições de ensino – artistas profissionais que aprenderam a ensinar. Se nas aulas de arte e nos bastidores de importantes montagens ele fez escola, na redação não podia ser diferente. Mesmo sem ter cursado faculdade de jornalismo, tornou-se referência para muitos colegas no trato da informação e no ajuntamento das letras. Informativos ou analíticos, seus textos sempre foram objetivos, elegantes e singulares, objetos de estudo para estudantes, diplomados e pós-graduados da comunicação.

Indomável, Marcello jamais foi homem de regras e concessões. Quando algo não lhe dizia mais respeito, ele simplesmente dava de ombros para seguir seu espírito livre. Da redação e das escolas, incomodado, simplesmente foi embora sem olhar para trás ou pedir as contas. Fez isso meia dúzia de vezes nas duas últimas décadas. Teve até episódio no curso de direito da UFMG – para o qual ele foi aprovado sem estudar para o vestibular. Por entender que alguns professores diziam “besteiras” demais, largou a graduação pela metade. Ah, também gostava muito de dormir em salas de ensaio, teatro e cinema. Raramente chegava na hora de qualquer compromisso e vivia de dar bolo nos amigos. Muita gente não sabe, mas Marcello viveu num grande aperto financeiro. Por vezes, sem grana até para a condução. Dono de coração bem maior que o bolso, abria mão de seus trocados para não ver os amigos em dificuldades. Não deixou se vender para os burocratas do poder público, que viviam de lhe assediar. E assim, distinto, dormindo, Marcello deu de ombros aos “humanos”. Um minuto de silêncio, por favor. Em homenagem a um verdadeiro homem livre.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 7/11/11

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre a liberdade

“Liberte-se da escravidão mental. Ninguém além de nós pode libertar nossas mentes…” imortalizou Bob Marley, com Redemption Song, música das mais belas que já ouvi na vida. Liberdade. Palavrinha danada. Perturba-me por vezes. Ontem, ao ouvir Bob Marley, fiquei com a letra na cabeça. Ainda mais depois de conversa boa que tive com casal de amigos argentinos. Manuel e Mercedes são amigos de longa data e uma lição de vida. São as pessoas mais simples que conheço. São artesãos e, na prática, vivem belo discurso de liberdade. Tirei a segunda-feira de folga porque venho de dois finais de semana de trabalho e o corpo, já há alguns dias, pedia pausa para ter os pés na chinela. Na parte da tarde, recebo telefonema do Manuel, com aquele sotaque carregado, inconfundível. Convidou-me para provar umas empanadas que Mercedes estava experimentando. A comadre é uma fera na cozinha.

Manuel sabia do meu dia de folga porque a gente havia se falado no domingo, em ponto perto da Santa Casa. No fim da conversa, ele prometeu: “Se Mercedes for fazer umas empanadas amanhã, chamo você para experimentar, Josiel”. Promessa feita. Promessa cumprida. Aí, em plena segunda-feira, lá estava eu, no Bairro Sagrada Família, de bermuda e chinelas. Melhor que as empanadas só mesmo a conversa com o casal. É o que digo sempre: as boas companhias melhoram a gente. E muito. Impressionante o espírito livre, presente na casinha simples, de fundo, sob frondosa mangueira. Finalmente, entendi os cabelos grisalhos compridos de Manuel. O amigo tem nos cabelos símbolo de liberdade. Não tem patrão nem superiores. É dono das próprias ideias – que incluem o tamanho dos cabelos. É um homem livre, em paz com os seus e, especialmente, com sua consciência. “Sou pobre, Josiel. Mas vivo com dignidade. Não há dinheiro no mundo capaz de comprar a liberdade das ideias”, afirmou com admirável convicção, enquanto enrolava cigarrinho de palha.

Manuel tem 55 anos. Mercedes, 51. Conheceram-se em Buenos Aires, durante manifestação política. Na época eram estudantes. Foi paixão fulminante. Estão juntos há mais de 20 anos. Têm dois filhos que estão cursando letras na Argentina. Não quiseram ficar no Brasil. “São livres. Como todos em nossa casa. A família precisa ser livre. Mercedes e eu somos livres. E o mais interessante é que, mesmo com toda a liberdade que existe entre nós, continuamos juntos. Não tem segredo. É liberdade apenas. Ficar juntos, para nós, também é uma liberdade de escolha. É isso que muita gente não consegue entender, infelizmente”, lamenta. Vendo os dois juntos, a liberdade fica ainda mais bonita. O carinho de ambos e o respeito às individualidades são uma lição. Violeta e eu sempre citamos exemplar o modelo de relacionamento de Manuel e Mercedes. Tentamos aplicar isso em nossa casa, em todos os nossos dias. Ficar juntos porque somos livres: simples assim. Bob Marley embala o pensamento: “Você não vai ajudar a cantar mais uma canção de liberdade?”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2/11/11

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O amarelo das acácias

Doutor G. sempre foi muitíssimo respeitado. Casou-se com moça de família tradicional de Minas Gerais. “Juntaram-se ali duas grandes forças econômicas e morais”, escreveu o velho colunista, cheio de autoridade entre os mais endinheirados do país. G. e sua mulher tiveram dois filhos que ajudaram a construir Belo Horizonte. Teve vida badalada entre gente de diversos segmentos da cidade. Ninguém jamais imaginou que o empresário, aos 73 anos, teria fim tão solitário. No velório de cemitério chique, apenas o motorista, camarada de décadas de cumplicidade, a velar o sujeito. Mulher, irmãos, filhos e netos não compareceram. Cleonice, a viúva, bem que pensou ir. Mas, acamada, não podia deixar o repouso depois de acidente vascular cerebral.


Miguel, o motorista, foi quem cuidou do funeral, com recursos vindos do filho mais velho do falecido. “Faça o que tem que ser feito. Depois, manda queimar tudo. Tudo. As cinzas espalhe pelos bueiros do Arrudas. Do Arrudas, está me entendendo? E faça-me o favor: suma do mapa. Suma!”. Matias era o mais revoltado com o pai. “Ele não tinha o direito! Não tinha”, esbravejou logo que tomou conhecimento do escândalo de amor secreto. O motorista gastou cada centavo dos R$ 5 mil dispensados ao corpo de G. Ainda pagou do próprio bolso a única coroa de flores no lugar. “Descanse em paz, companheiro”, assinado: Miguel. Nem os mais curiosos do salão vizinho compareceram para ver o defunto. Nem padre, nem pastor, nem pai de santo, ninguém. Foi Miguel, sem parentes ou amigos, o único a rezar pela alma de G.


Na família numerosa, não havia quem tivesse coragem de tocar no assunto. Doutor G. estava para desaparecer simplesmente. Os 110 imóveis – espalhados pelos bairros mais nobres de BH – mais a fortuna em ações e fundos de investimentos, herdados do doutor morto, não foram suficientes para diminuir o desgosto da revelação. Já Miguel, silencioso, agradecia cada minuto que teve ao lado de G. O velho não imaginava tanto desafeto. Nem quando enfrentou o pai, político de carreira suja em Brasília, foi alvo de tamanha revolta entre os seus. Tampouco quando contrariou os interesses do governador bonachão, que o perseguiu por anos, o céu esteve tão fechado para a sua alma.


O tempo de voltar ao pó se aproxima. Dois funcionários do cemitério avisam ao motorista: “Dez minutos, senhor”. Miguel, de pé, de mãos dadas consigo mesmo, faz a última prece pela alma do amigo. Retira do paletó o lenço em cores e o coloca junto ao peito de G. Suspira profundezas e beija a testa do morto. Tampa ele mesmo o caixão e autoriza a ação. Lágrima num olho só. Dois dias depois, de posse das cinzas de G., Miguel se muda para o interior do Rio de Janeiro. Casinha de praia, secreta, único bem em seu nome. Lá, o motorista espalhou os restos de G. sob o amarelo das acácias.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 31/10/11

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O pior do casamento

É a separação. Até quando é para o bem de ambos, o rompimento é sempre uma pancada. E os filhos? Aí é que a coisa pega para valer. Na casa dos 40 anos, com relações intensas dissolvidas, posso dizer com convicção: alguém sai sempre machucado na hora de partir. No último domingo, o casamento veio à luz das ideias por causa de matéria do jornal Estado de Minas sobre infidelidade, sob o título “Onde mora o pecado”. Equipe de jornalistas estava nas ruas para fazer reportagem sobre os descasos com o patrimônio público em praças e parques de Belo Horizonte e acabou encontrando casais em segredo, que não podiam ser fotografados juntos. A pauta, vindo de dentro da notícia, dividiu opiniões entre companheiros de praça.


Há quem diga que está certo: “O importante é ser feliz.” Os mais centrados espinafraram: “Não é correto. Ninguém tem o direito de enganar ninguém. Não dá mais? Então, que cada um siga o seu caminho, sem mentiras”, defendeu a Sueli. A conversa rendeu toda a tarde. Ouviu-se de tudo. Casos e mais casos de amigos e conhecidos. Nada de fuxicos ou mexericos. Tudo de bastante relevância sobre casamento, lealdade – assunto de interesse de todos os presentes. Lembrei-me de entrevista que fiz com a advogada, doutora Lilian Campomizzi, amiga e passageira de longa data. Na semana passada, curiosamente, em grupo da universidade, debatemos muito o divórcio para trabalho de direito, intitulado “Cama de tatame”. Trecho do material tem muito a ver com a coluna de hoje e diz o seguinte:


Ajuizados, distantes das páginas policiais, muitos descasados vão parar nas varas de família. É quando entra em ação o direito para cuidar da pior parte do casamento: o divórcio. Lilian Campomizzi Bueno, há duas décadas no exercício da advocacia especializada, chama a atenção para a mudança até no Código Penal brasileiro, que, a partir de 2005, deixou de tipificar o adultério como crime, que previa detenção de 15 dias a seis meses. A advogada explica que também ficou mais fácil dar fim ao casamento nos conformes da lei. O que não significa paz nos tribunais. São raras as situações em que uma parte não sai magoada. O patrimônio costuma maltratar ainda mais os corações. E os filhos, claro, sempre pesam na hora de chutar o pau da barraca.


Doutora Lilian analisa a batelada de casos resolvidos por seu escritório. “A maioria a propor o divórcio ainda é a mulher. Para o homem é mais difícil. Ele não se separa apenas da mulher. Separa-se da família”, ressalta. Para a advogada, o homem continua traindo mais. “Muitas vezes, para o homem, a traição é um deslize menor. Um divertimento apenas. Para a mulher o assunto é mais sério. É verdade, entretanto, que já conheço muitas mulheres que pensam como homens”, revela. Aos 44 anos, solteira, Lílian não esconde que a convivência com os processos de divórcio enfraquece seu encanto com o casamento. “Isso me afeta, infelizmente. Vejo as mentiras, as reclamações… mais do que a traição, as pessoas reclamam o descaso, a falta de assistência. Não há relacionamento que sobreviva a isso”, considera. Palavra de quem conhece o assunto. No mais, amigo leitor, só o amor para dobrar a luxúria.


Bandeira Dois - Josiel Botelho - 26/10/11

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Que país é esse?

Meia dúzia de pessoas na sala de cinema em noite de estréia. Rock Brasília – A era de ouro, de Vladimir Carvalho, não é para a massa. Não é para quem busca entretenimento. Não compete com os blockbusters americanos de excelência em efeitos especiais em som, imagem e na vendagem de pipocas. O documentário, de melhor, tem idéias que embalaram uma geração de jovens brasileiros. Chega a ter áudio tosco, fotografia frágil e figurações desnecessárias – os atores contratados para fazer cena não acrescentam ao longa-metragem. Mas nada disso importa. O que faz valer Rock Brasília é sua beleza histórica e os ideais de seus protagonistas. Para quem está na casa dos 40 anos, saber mais sobre a garotada de bandas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Os Paralamas do sucesso tem significado bastante singular.

Em Belo Horizonte, nos anos 1980, distante do Distrito Federal, um grupo de estudantes do Colégio Santos Dumont, no Bairro Santa Efigênia, juntava trocados para comprar os discos de Renato Russo, Dinho Ouro Preto, Philippe Seabra e companhia. De família de poucos recursos – anos difíceis aqueles –, todos trabalhavam pesado durante o dia e encaravam com seriedade as aulas até depois das 22h. Filhos de alfaiate, barbeiro, pedreiro e sapateiro, Tonho, Kim, Kiko e Fabinho eram fãs da música que vinha de Brasília. Até gostavam das bandas Ira, Doutor Silvana e Cia., Titãs, Camisa de Venus e Kid Abelha. Mas eram as canções do grupo Legião que os garotos mais gostavam de cantar. Tanto que Fabinho aprendeu a tocar violão por causa de Faroeste Caboclo – letra que ele virou madrugada para decorar, enquanto treinava datilografia.

O documentário do Vladimir Carvalho revela que o Fé Lemos, baterista do Capital Inicial, vendeu bicicleta para comprar bateria. O Fabinho, do Santos Dumont, também vendeu a bicicleta para comprar violão. Depois das aulas, em frente ao colégio, na Avenida Mem de Sá, o músico amador comandava sarau ao menos duas vezes por semana. O garoto, office boy, não era grande coisa nas seis cordas, mas cantava com timbre de profissional. A amizade do grupo crescia à medida que eles compreendiam melhor as mensagens que vinham da moçada de Brasília. “Vocês vão fazer alguma coisa para consertar as próprias vidas? Eu cheguei a seguinte conclusão: não adianta consertar o resto. Consertar a gente ajuda pra caramba”, disse o Renato Russo, num show, entre estrofes de Que país é esse?.

Em 1988, logo depois do trágico episódio envolvendo o Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, no Distrito Federal, Tonho, Kim, Kiko e Fabinho foram ao Mineirinho ver Renato Russo comandar show em BH. Inesquecível. Novas escolas e oportunidades de trabalhos fora de Minas acabaram por afastar o quarteto que fazia cover do Legião nas esquinas de Santa Efigênia e nos acampamentos na Serra do Cipó. No entanto, o rock-martelo deu resultado e os garotos seguiram suas vidas em busca de fazer diferença. Reencontro marcado mais de 20 anos depois. Já quarentões, dois professores e dois advogados, pais de filhos de boa educação, o grupo se reuniu na última sexta-feira para ver o filme Rock Brasília. Fabinho levou o velho violão. Depois, na calçada, em mesa de boteco tradicional, ninguém entendeu nada ao ver o quarteto grisalho, em performance adolescente, tocar e cantar “Que país é esse?”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 24/10/11

sábado, 22 de outubro de 2011

Dos gritos da alma













Há mais de 20 anos uma ideia de perseguição: não há bússola para as navegações do espírito. Está no ator – no corpo e na mente – o rumo dos sentidos. Para a construção da verdade instantânea, no aprumo dos significados, não há planta nem rascunho. Não há trabalho de mesa que dê conta das explosões da alma no levantamento prático da cena. Há uma infinidade de possibilidades veladas, ativadas a partir do suor do papel. Melhor o processo, melhor o desdobramento. Mais aprofundados os estudos e as orientações do corpo diretor, mais convicente o conjunto. Mesmo que para isso, seja necessário se envenenar de paixão. De resto, o tempo. Dia 12 de novembro, sábado, "Um inimigo do povo". (Jefferson da Fonseca Coutinho)


Um pouco de estudo para justificar as ações

Vsevolod Emilevich Meyerhold, era pseudônimo de Karl Kazimir Theodor Meyerhold, mais conhecido apenas por Meyerhold. Nasceu em 1874, em Penza, na Rússia. Foi um importante encenador, ator e teórico do teatro. Em oposição ao naturalismo teatral, desenvolveu uma técnica de encenação antinaturalista denominada de Biomecânica. Foi a Moscou estudar direito, mas deixou a escola em 1896 e ingressou nas aulas de Vladimir Nemirovich-Danchenko, no Instituto Dramático-Musical da Filarmônica de Moscou. Tendo concluído os estudos formando-se ator, em 1898 foi convidado a se juntar à trupe do recém fundado Teatro de Arte de Moscou - TAM, de Stanislavski, onde trabalhou por quatro anos. Templo do naturalismo e do realismo psicológico, o Teatro de Arte foi a grande escola de Meyerhold, que em 1902 decide percorrer caminhos próprios fundando uma nova trupe, a Sociedade do Drama Novo. Danchenko e Stanislavski
criaram o TAM para escapar e se contrapor ao tradicionalismo teatral de então, aos clichês repetitivos e enfadonhos, às interpretações baseadas na imitação pela imitação, na cópia servil.


O Ator na Biomecânica, segundo Márcia Lima, pesquisadora das artes cênicas em Brasília:

O ator sobre a cena é como um escultor frente a um pedaço de argila: deve reproduzir em forma sensível, como o escultor, os impulsos e as emoções de sua própria alma. O material do pianista está representado pelos sons de seu instrumento, o do cantor por sua voz, o do ator por seu corpo, a fala, a mímica, os gestos. “A obra interpretada pelo ator representa a forma de sua criação”.

O ator biomecânico é um artista que cultua e exercita a agilidade – do corpo e do raciocínio - o otimismo e a felicidade. Criador simples e despojado prescinde das máscaras naturalistas, dos clichês, disfarces e maquiagem. Este ator encontra-se em um ponto eqüidistante do trabalhador comum que faz teatro e do exímio especialista que nada vê à frente que não seja o teatro. Técnica e consciência de classe tornam o ator de Meyerhold um agente da arte e da história.

O corpo do ator é entendido como mais um objeto de cena, portanto sua disposição em relação ao cenário tem importante papel como elemento de comunicação visual. Por essas razões, outros elementos típicos do teatro de Meyerhold, como a iluminação, cenário e figurino estilizados e antinaturalistas são essenciais para o perfeito funcionamento da biomecânica.

O ator biomecânico é ágil, otimista, feliz, simples; não precisa de disfarces ou maquiagem. Nas palavras de Hormigon, “não é nem um trabalhador que faz teatro, nem um virtuose que encontra no teatro um fim em si mesmo. Graças à sua técnica e consciência de classe, o teatro se transforma em seu meio de produção e de atuação na história.”

Meyerhold cria o “Teatro da Convenção Consciente” onde tanto a platéia como ator tem a consciência de estar assistindo a uma representação, não há a intenção de criar uma ilusão no espectador. O ator é levado a ter uma maior aproximação com público o que exige dele um maior domínio do espaço.

No seu teatro, o ator, juntamente com o autor, o diretor e o público são criadores absolutos do fenômeno teatral. Embora a participação do público fosse apenas emocional, nunca física, através de sua imaginação que deveria ser empregada “criativamente a fim de preencher os detalhes sugeridos pela ação do palco”. O que força o espectador a passar de uma simples contemplação, ao ato criador.

Meyerhold eliminou o proscênio e trouxe para o seu trabalho, a máscara. Desnudou o palco e expôs os meios metafóricos do gesto, do ritmo e da maquiagem. Entre 1918-1919, Meyerhold organizou uma Escola para Treinamentos dos Atores, a fim de formar atores polivalentes que colaborassem na criação. Estudava-se, em sua escola, técnicas de movimento cênico, pantomima, Commedia Dell´Arte e teatro espanhol. O fundamento de sua biomecânica estava na idéia de centrar, no corpo do ator, a expressão e vida de seu teatro.

Sobre isso dizia: Tirem a palavra, o figurino do ator, o palco cênico, o edifício teatral e as coxias, deixem somente o ator e seus movimentos para os quais foi treinado, mesmo assim o teatro continuará: o ator comunicará ao espectador através de seus movimentos, dos seus gestos, da sua mímica; o ator pode organizar, sem a ajuda do edifício teatral, o seu teatro como, onde quiser e considerar adequado, dispondo da própria habilidade.