Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Cadê a graça, senhor impostor?


Espanta-me a falta de criatividade do humor brasileiro neste século 21. Venho de uma família que aprendeu a gargalhar com Chaplin, Tati, O gordo e o magro, Os três patetas, Oscarito, Mazaropi, Grande Otelo e Chico Anysio. Também curti à beça a graça quase inocente de Os trapalhões e de Chaves. Já este humor barato desses pseudo-humoristas, que ganham projeção fazendo hora com a cara dos outros ou com piadinhas de mau gosto, envolvendo diferenças de cor, sexo, biotipos e religião, que perseguem celebridades, francamente, isso, não tem audiência entre os que me são caros. Tenho pavor de trotes e pegadinhas de qualquer natureza.

Desculpe-me o desabafo, caro leitor. É que já há algum tempo estou para descer a caneta nesse humor chinfrim que emburrece e empobrece plateias de várias tribos. A gota d’água, para mim, veio com a notícia que acompanhei pela internet sobre um tal “impostor” brasileiro de um programeco desses de tevê, que invadiu o funeral da cantora Amy Winehouse. Cerimônia particular, apenas para familiares e amigos muito próximos, e o cara-de-pau lá, de papagaio de pirata, em busca de audiência. É verdade. Virou notícia. Aqui, em nosso quintal, do modo mais negativo possível, porque quem não é capaz de respeitar luto, não merece consideração.

Aliás, sobre essa moça, também preciso fazer registro. No Natal passado, ganhei um CD, presente do meu filho – um adolescente de muito bom gosto, estudante de música em Vila Velha. No CD, todas as canções da Amy Winehouse, em MP3. Desde então, é só o que toca no meu carro. Há sete meses ouço a voz inconfundível da menina morta. Caramba, quanto talento. Não sou entendido em nada – já conheço entendidos demais. Mas, não há dúvida que essa menina Winehouse não era artista qualquer. Sua breve passagem será lembrada para sempre. Não por causa de sua relação com as drogas, mas pela bela voz e pelas canções incríveis que ela compôs.

Quando Amy esteve no Brasil, no início do ano, Violeta e eu quase fomos ao seu show no Rio de Janeiro, mas contas apertadas, feitas na ponta do lápis, achamos melhor esperar uma outra oportunidade. Paulo e Márcia, casal velho amigo, foi. Paulo disse que, lá, havia um monte de gente torcendo para a menina dar algum vexame. Já a Márcia contou que jamais vai esquecer a emoção que sentiu ao ver a Amy Winehouse cantando, bem de pertinho. Gravou vídeos e fez uma porção de fotos do aparelho celular. Ontem, o Paulo me mandou e-mail: “Estamos muito tristes com a morte da Amy Winehouse, Josiel. Muito mesmo. Que ela, agora, encontre a paz”.

Bom, sobre a Amy Winehouse gostaria de escrever mais. Por hora, é o que dou conta de anotar entre uma corrida e outra, ao som de “Valerie”. Agora, sobre a pequenez dos engracistas de plantão, dessa safra pobre de humor barato que toma conta das emissoras de tevê, não tenho mais a dizer. Uma pergunta apenas: “Cadê a graça, senhor impostor?”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 27/7/11

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Homens que se abraçam


Até o Roberval, machão do tipo que raspa a garganta e cospe no chão, ficou assustado com a notícia. O caso de polícia, ocorrido em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, envolvendo sete criminosos que agrediram pai e filho, abraçados, confundidos com casal gay, é mesmo de causar espanto aos mais antigos. "O homem de 42 anos, abraçado ao filho de 18, teve parte da orelha decepada pelo agrupamento de agressores", disse o âncora da TV. Roberval, fazendeirão, crescido e criado entre mulas e marimbondos, ainda não havia se tocado por ação tão bárbara por parte do bicho-homem. Lembrou-se das palavras do pai, já do lado de lá, abatido por cirrose brava provocada pela cachaça: "Não quero você abraçado com o seu tio, moleque! Homem que é homem não abraça homem e espero não ter que repetir isso. Estamos entendidos?".

O velho Pedro era mesmo de lascar. Também pudera, analfabeto de pai e mãe, educado por coro de vara de marmelo e pescoções, jamais soube o que era abraço. Quase recebeu um único apenas. No leito de morte. Mas ficou no quase, já que o pequeno Roberval não teve coragem de desobedecer o moribundo. O garoto chegou a se inclinar e levar os bracinhos em direção ao pai, na cama de madeira pesada, no quarto mais triste da fazenda. Tomado por trauma, acabou por interromper o gesto ao bater o olho na cara amarrada do homem-macho que se ia. A imagem do último suspiro do pai, 45 anos passados, voltou nítida aos pensamentos do Roberval, hoje, às vésperas de seu cinquentenário. A notícia da estupidez contra pai e filho no interior paulista tocou para valer o sujeito, que parou para rever a vida.

Lembrou-se dos filhos homens, jamais abraçados, que estavam para chegar na manhã daquele sábado para o domingo de festa de aniversário no Triângulo Mineiro. Três rapazes feitos, estudantes de respeitada instituição de ensino em Belo Horizonte. Embora turrão, Roberval era pai preocupado com o futuro. Até montou apartamento no Bairro Coração Eucarístico para os garotos tocarem a vida. Depois que a mulher o deixou então, no verão passado, passou a pensar mais ainda nos meninos. Iracema largou Roberval para morar em casinha de praia no Guarujá. "Pra lá é que não vou nunca, Iracema. Se quiser, pode ir", disse à mulher. Ela foi.

Longe da mulher e dos filhos, o Roberval estava mesmo disposto a olhar para dentro de si. Agora, pela televisão, a barbaridade cometida contra pai e filho em São Paulo soprou-lhe a alma. Assim sendo, o produtor rural colocou sua melhor roupa e deu ordens à cozinheira: "Dona Francisca, hoje, quero melhor almoço que a senhora já fez nesta casa, ouviu!". Seguiu a pé os três quilômetros de terra batida até a porteira. Lá, sob frondosa copa de ipê cor-de-rosa, ficou a ouvir pássaros azuis. Horas depois, gastou os melhores abraços da vida com seus três homens feitos. Iracema, no banco de trás do carro sedan, surpresa de aniversário, acabou ela surpreendida com a cena de família.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 25/7/11

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A praga do ciúme


Mais um crime motivado por suposta traição para perturbar o cidadão de bem. Foram sete disparos contra a mulher. Bastava uma bala. Mas, tamanha a fúria do marido traído, foram sete. O assassinato e a entrega do criminoso, trabalhador, sem maus antecedentes, foram destaque no noticiário policial. Amigos e conhecidos da praça comentam com tristeza mais essa trágica história de violência. É sempre um horror quando o amor se faz doença. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém. Todos sabemos disso. Ainda assim, com triste frequência, a gente fica sabendo de tragédias assim. Homens e mulheres estragando suas vidas em ações bestas, criminosas, por absoluta falta de juízo. Na maioria dos casos, estupidez do macho, ferido na alma, para lavar a “honra”. Francamente. Só a loucura para explicar.

Quem não já sofreu por amor? É duro ser substituído no coração de quem quer que seja. As decepções amorosas são mesmo de lascar. É fato. Posso falar de carteirinha porque também trago no peito carcaça cheia de remendos. Hoje, mais feliz do que nunca, ao lado da melhor companheira do planeta. Mas, até chegar aqui, amigo leitor, não foi nada fácil. O que posso afirmar, com a certeza de quarentão escaldado, que, desde sempre, vive intensamente a chama das paixões, é que há sempre alguém pela frente bem melhor do que aquele que ficou para trás. Tenho inúmeras razões para pensar assim: foi trocado? Não olhe para trás. O remédio está adiante. Poderia citar aqui casos e mais casos de desfechos felizes para as separações mais doídas. Em família e entre amigos.

O ciúme é uma praga que cega e só induz à besteira. O importante é acreditar no amor que constrói, que realiza. Não há segredo nem fórmula. Para mim, o caminho é ter autoconfiança e amor próprio em qualquer relação. Não dá para se perder na vida do outro, acreditando que assim você vai ter garantia de alguma coisa. Não há garantia. Nunca há. O amor é um salto no abismo à espera de alguém para lhe segurar lá embaixo. Só que esse alguém só pode ser você mesmo. Não faz sentido transferir para o outro as responsabilidades que envolvem os saltos do nosso coração. Até, vez por outra, costuma aparecer pessoa boa afim de nos auxiliar nisso. Contudo, a experiência mostra que é melhor não contar muito com isso.

O melhor é acreditar nas manobras dos céus. Existem ditos populares aos montes que indicam esse pensamento: “Há males que vêm para bem” ou “Deus escreve certo por linhas tortas”, para citar apenas dois. Se há um sujeito ou uma sujeita fazendo você de gato e sapato, traindo a sua confiança, amigo leitor, não titubeie: siga em frente. Mas de mãos limpas, porque a violência é coisa besta, efeito de ignorância. Quem fere o outro, bem no fundo, acaba por destruir a si mesmo. O amor, tenho certeza, não é nada disso que se vê nas manchetes de polícia.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 20/7/11

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Um recado do Olimpo


O Olavo é um cara do bem. Bom moço em todos os planos, o jovem ator é daquele tipo de artista – diferentemente de muitos – que vive inteiramente a arte que há em si. “É um escolhido”, dizem os veteranos. Sabe bem mandar um texto e se comportar nos bastidores. Não gosta de fofocas, mexericos ou conversas lançadas ao vento. Aprecia boas intenções e acredita nas sérias relações de afeto e de trabalho. Sonhador, tem a cabeça no infinito, bem perto do Olimpo. Lá, onde agora deve sorrir o pai.

Dessas peças que só a arte sabe pregar, o pai do Olavo teve mal súbito. Isso, dias antes de nova estreia do filho. No CTI, em estado grave, o homem motivou o herdeiro, fiel escudeiro, a não deixar de lado o sonho de viver dignamente como ator. Já tarde da noite, com a força que lhe restava, o bom homem disse palavras de disciplina e esperança ao garoto, que deixou o hospital com muita fé na recuperação do pai. Enquanto o sol se levantava, quis o universo, o pai do Olavo partiu.

Silêncio de saudade e dor. Emudecido, o artista, estudioso das emoções construídas, experimentou sentimento que não se mente, que não se repete. Repassou a vida de três décadas como um filme. Lembrou-se do pai na plateia, em muitas de suas estreias, com a melhor cara do mundo. Ocasião em que, quase num ritual, o velho (nem tão velho assim) gostava de usar as roupas novas do filho sem que ele soubesse. Do palco, Olavo se divertia ao ver o pai estreando seus panos de bom gosto.

“Quer saber?”, pensou Olavo, “vai ser como sempre foi”. Confidência guardada entre os dois. E assim, separou roupa nova para vestir o pai. Decidiu ele mesmo preparar o corpo do velho para o sepultamento. Com o coração em frangalhos, amparado por braços camaradas, o moço se despediu do pai-amigo para tocar adiante a vida. Havia muito a fazer. “A dor faz crescer homens de verdade”, é o que costumam dizer. Com o Olavo não seria diferente.

Ainda mais dedicado, voltou aos salões de ensaio para vencer caminhos. Pouco tempo passado, reencontrou conhecido espírita, de quem havia muito não tinha notícia. Um abraço apertado e um recado do Olimpo, soprado em segredo: “Olavo, seu pai mandou agradecer a roupa nova”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 18/7/11

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A última janta do Cabeleira


Por Josiel Botelho*

Semana intensa de muito trabalho. Pausa para um cineminha porque ninguém é de ferro. Afinal, ou é assim ou acabo perdendo a namorada – moça pra lá de especial, com uma paciência incrível para aguentar o meu batidão no volante. Fazer o quê: “O trabalho edifica o homem”. É o que cresci ouvindo o velho Botelho dizer. No cinema, fui ver um filme de um tal Woody Allen, chamado Meia-noite em Paris. Caramba! Escolha da Violeta, chegada num filme diferente. Achei um barato. A gente que é muito acostumado com o cinemão americano assusta um pouco, é verdade. Porque, cá entre nós, esse Woody Allen pode até ter nascido nos EUA, mas nem parece americano. Os diálogos são muito bons e ele é muito crítico. Critica tudo e a si mesmo o tempo todo. É muito legal. Então, fica aqui a dica cultural: uma viagem no tempo e no espaço. Ah, Paris! Falei do filme e da vontade que fiquei de conhecer Paris para alguns amigos e eles caíram na minha pele: “Que isso, Josiel? Tá sonhando alto, hein, parceiro!?” Porque não, Adelson? Pobre também sonha, meu filho. Não é não, amigo leitor!?

Para não render, vamos mudar de assunto. Depois a gente conversa, Adelson. Olhem só, tenho uma passageira com uma história incrível que preciso dividir. Não vou citar o nome dela aqui para que ninguém a identifique. Isso não seria bom. Mas foi ela mesma, nossa leitora há mais de cinco anos, quem autorizou. “Pode anotar aí no seu caderno, Josiel. Quem sabe isso não vai abrir os olhos de alguém que vive uma situação parecida com a minha”, disse, com os olhos avermelhados, domingo, a caminho de Confins. Vamos chamá-la de Magnólia. Magnólia passou mais de dois anos namorando o Cabeleira, um comerciante de Contagem. Pensava que era amor para toda a vida. O camarada, casado, enrolou a Magnólia cheio de manha e malandragem. Disse até que a esposa estava entrevada, vítima de doença rara e coisa e tal. Segundo ele, a condição da mulher era um grave impedimento para que ele se separasse.

E, assim, o tempo passou. Até que a Magnólia descobriu que a mulher do Cabeleira tinha uma saúde de ferro e que era professora. Até o endereço da escola ela descobriu com uma conhecida em comum – Belo Horizonte é cidade pequena demais, vivo dizendo. Magnólia foi até o colégio e teve uma conversa muito séria com a dona, que para o espanto da Magnólia, sabia de tudo. Contou que o marido não era fácil mesmo e que tinha um monte de caso. Que ela – a minha amiga – “não era a primeira e nem seria a última”. E que eles, de fato, já não dormiam juntos havia tempo. Mas não por causa da Magnólia, e, sim, por causa de uma tal de Ivete, lá do Vale do Jatobá. Por fim, disse que não se separava do marido porque ele é que tinha que sair de casa. E até disse que já estava bem feliz, com novo amor e tudo. Fiquei boquiaberto. E olha que conheço muitas histórias cabeludas.

O desfecho foi que a Magnólia, com muito sangue frio, preparou um jantar bem caprichado para o sujeito, na sexta-feira – dia em que ele sempre dormia na casa dela. Depois que ele mandou ver a beringela recheada, ela decidiu colocar tudo em pratos limpos. Cabeleira não negou a Ivete. Disse que amava as duas. Magnólia ficou arrasada. Mandou ele embora e disse que lá, ele não come nunca mais. De Confins, muito triste, seguiu para Brasília. Vai passar uns tempos na casa de uma irmã para ver se esquece o pilantra.

*Josiel Botelho é colunista do jornal Aqui e taxista em Belo Horizonte

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Conversa de salão

Fala-se muito em salão. No da Matilde, então, é uma beleza. Lá, toda mulher, arrumada, até que parece ser bem feliz. Não importa a idade, a condição financeira ou o estado civil. Agenda lotada regularmente, a loja chique faz sucesso há mais de 15 anos. Além da clientela fixa, vez por outra, o acaso leva alguém de passagem ao estabelecimento. Foi assim com o Hugo, vendedor ambulante, que precisava dar um tapa no visual. "Dá para aparar o cabelo?", perguntou. "Vamos entrando", respondeu Matilde, aproveitando brecha na agenda. Zuleika, a manicure, pintava de vermelho as unhas de uma senhora feita no bisturi, que aparentava uns 70 anos. Odete, outra especialista, massageava o couro cabeludo de jovem e elegante madame. Matilde ofereceu ao Hugo a cadeira próxima às duas distintas clientes. Deu-lhe uma revista - dessas de muitas caras e pouco conteúdo - e desceu a tesoura. No entorno, o assunto parecia interessantíssimo. A cliente da Zuleika, metida a gostosona, dominava a cena:

– Eu não. Só tenho a agradecer por não ter que cuidar de marido. Homem envelhece muito mais que a gente. Tenho a cabeça de menina. Uso short e minissaia até hoje. O que é bonito tem que ser mostrado. Ninguém fala a idade que eu tenho.

– Não fala mesmo. Te dou no máximo 50.

– Já falaram em 35, menina. Faço 64, sábado agora.

– Inacreditável.

– E não tenho o menor problema em assumir a idade. Só não deixo o cabelo branco porque acho feio. Olha só a minha mão... Até a minha mão tá conservada. Vocês já viram a mão da Hebe Camargo?

– É feia demais.

– Pois é. Antigamente, eu ficava assim: "Porque fulano não casou comigo? Ou o sicrano ou o beltrano?". Hoje, dou graças a Deus. Sou solteríssima e enroladíssima! (risos) Outro dia, no supermercado, encontrei um ex-namorado, de quem eu gostava muito. Ele terminou comigo pra ficar com uma baixinha horrorosa. Eu era muito melhor que ela. Aí, quando eu bati o olho nele, quase cai pra trás. Horrível. Arrastando a perninha, um caco. E a baixinha lá, cuidando da bagacera. Fiquei até com dó da figurinha.

A Matilde, gente muito boa, bastante envergonhada com a conversa furada da faladeira, cobrou só a metade pelo corte do Hugo, que não resistiu e, antes de deixar o salão, colocou ponto final na conversa: "Se me permitem... A senhora aí, toda plastificada, é um gradissíssimo tribufu!"

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 11/7/11

O teatro que se faz no teatro

"A hora da estrela" em imagens. Havia muito mais a fotografar. Da cabine, entre um foco e uma faixa, fica um pouco do que foi possível registrar. Aos Deuses do Olimpo, sabedores de todas as intenções e vontades, mais uma vez, o meu muito obrigado. Evoé!






















domingo, 10 de julho de 2011

"Tudo começou com um sim"

Hoje, às 20h, na Escola de Teatro Puc Minas, Rua Sergipe, 790, Funcionários, tem última apresentação de "A hora da estrela". Adaptação da obra de Clarice Lispector, a montagem marca a formatura de mais uma turma de alunos que vai deixar saudade. Meu carinho e meus votos de sucesso na carreira e na vida. Evoé!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Bom senso, pessoal. Bom senso


É o assunto do momento entre os mais próximos. Os novos radares de avanço de semáforo espalhados pela cidade dão muito o que falar. Não é para menos. Se, por um lado, são necessários, já que a ação é desdobramento de estudo muito sério que indicou pontos críticos com alto índice de acidentes – inclusive com atropelamentos que resultaram em mortes –, por outro, é motivo de preocupação para os motoristas que rodam tarde da noite e que vão ficar ainda mais vulneráveis ao ataque da bandidagem. Não há entre os amigos da praça quem não saiba ou tenha sido vítima de assalto no deserto das esquinas de Belo Horizonte e Região Metropolitana.

O Júnior, filho do Bartolomeu, há coisa de mês, na Rua Timbiras com Avenida Afonso Pena, foi surpreendido por moleque de pouco mais de metro e meio. Segundo ele, bastou um instante de vacilo. Disse que o sinal fechou e que foi trocar um CD. Ainda não era meia-noite. O menor, que aparentava ter menos de 15 anos, encostou caco de vidro na garganta do meu amigo. No banco ao lado, a namorada ficou aterrorizada. Tive com eles no dia seguinte ao susto, na casa do Bartolomeu. Tomei nota da nossa conversa na caderneta: “Foi uma sensação de incapacidade incrível. A Taninha ficou muito nervosa. Nem sei pra quem eu pedi mais calma, se para o infeliz ou para a Taninha. O vidro tava só um pouco aberto e o pilantra ainda conseguiu achar brecha pra entrar com a mão e o caco de vidro. Passei pra ele uns trocados que estavam no bolso da calça, uns R$ 15, R$ 20. O sinal abriu e ele caiu no mundo, no sentido contrário, pela Timbiras. Sumiu em direção à Igreja da Boa Viagem. A Taninha desabou a chorar”.

Perguntei se ele tinha feito boletim de ocorrência. Não. Não fez. Casos assim ocorrem todos os dias em Belo Horizonte. Ninguém faz B.O. Por isso, não aparecem nas estatísticas estudadas pela polícia e pela BHTrans. Seria importante esse tipo de informação, assim, quem sabe, a partir de certo horário, com responsabilidade – é preciso dizer – alguns radares poderiam ser repensados. Agora, a orientação é a seguinte: para não ser assaltado você até pode avançar o sinal, mas vai ter que ter um B.O. para, depois de pagar a multa, tentar reaver o dinheiro. Não vai ser fácil. Nunca é. Todos sabem. A questão é outra. O Bartolomeu, que há 17 anos, dos 30 de praça, vira a noite no batente, está indignado: “Vão ter que rever isso na madrugada. Não dá para ficar à espera do ladrão. Isso é pedir para ser roubado. Escreve um apelo aí, Josiel. Pede pra esse povo usar o bom senso”. Tá publicado, Bartolomeu.

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P.S.: E lá se foi o Itamar. Quando candidato ao governo de Minas, no final dos anos 1990, numa produtora de vídeo, olhou-me nos olhos, apertou minha mão, sorriu e disse: “Todo bom trabalho tem lá a suas compensações, meu filho”. Jamais esqueci isso.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 6/7/11

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O segredo de Fátima


Não é bruxaria. É método. Está no sistema o segredo da verdade elaborada de Fátima Toledo. A preparadora de elenco que nos últimos 30 anos sofisticou as interpretações do cinema brasileiro, considerada “bruxa” por muitos atores e diretores, deu rosto às mais fortes emoções de obras como Central do Brasil, Cidade de Deus, Linha de passe e Tropa de Elite. Treinou gente da estatura de Sean Connery, em O curandeiro da selva (Medicine man), de 1992, rodado na Amazônia. Sem falar nas atuações arrebatadoras de Leandro Firmino e de Wagner Moura emergidas de suas provocações – quem não se lembra do traficante Zé Pequeno ou do capitão Nascimento? Fátima desembarca amanhã em Belo Horizonte para participar da terceira edição do Cine Aberto – Laboratório de Filmes. A partir das 19h, na Sala Humberto Mauro, no Palácio das Artes, a treinadora vai comandar aula aberta depois da exibição de outra fita que leva a sua marca: Mutum, de Sandra Kogut.

Não é novidade sistematizar métodos de interpretação. O russo Constantin Stanislavski – leitura obrigatória para qualquer um que sonha ser ator – fez isso muito bem no fim do século 19. Seus ensinamentos até hoje fazem escola em todo o mundo e não há intérprete, por mais medíocre que seja, que ainda não tenha ouvido falar seu nome. Depois dele, outros estudiosos e pensadores trouxeram novas ideias de sistema. Para citar apenas dois, Brecht e Grotowski conquistaram legião de seguidores. O alemão se opôs, já o segundo, o polonês, deu ainda mais profundidade aos estudos do russo. Fátima Toledo, brasileira de Maceió, parece conhecer os três muito bem, a ponto de subvertê-los. “A diferença fundamental está no conceito. Faço o uso de exercícios de Stanislavski, de Grotowski, mas não construo personagens. Não tem roteiro, mapeamento ou estudo de subtexto. O material principal é o ator em ação”, explica.

Fátima diz não se achar no teatro político de Brecht. Revela admiração, mas não acha necessário o distanciamento para a compreensão e a crítica. “Em Tropa de elite 1 e 2, por exemplo, há uma crítica terrível e os atores estão absolutamente integrados”. Ao responder se já foi procurada por algum político, num país de tantas mentiras, para treiná-lo a construir verdades, Fátima diz que já. “Não é fácil. Não preparo os empresários e os políticos que me procuram para suas funções. Isso é muito claro desde o primeiro contato. Trabalho a humanização. Em alguns eu consigo. Em outros não. Não é um caminho fácil”, revela.

Não atores são uma especialidade de Fátima Toledo. Mais fácil? Mais difícil? Ela diz que depende da entrega da pessoa. Seu método é voltado para os “eus” de cada um. A treinadora age como uma espécie de agente invisível, que provoca, que instiga. Só tem a intenção de ir até onde o outro permite. Não dá nada para ninguém. Tira. Desperta. Um mergulho na sombra, na alma do indivíduo. Daí o apelido “bruxa” para alguns. Há sempre um sopro com alguma orientação valiosa no ouvido do ator – profissional ou não. Observadora perspicaz, Fátima foca incômodos e até inconveniências para revelar o que há de mais sincero dentro de cada um. Foi assim com o capitão Nascimento e com Zé Pequeno. Dois rostos de emoção retirados a ferro e fogo em treinamento de suor e sangue – Wagner Moura fez sangrar capitão do Bope, durante as preparações do primeiro Tropa de elite.

Rejeição

De fato não é para qualquer um o sistema organizado de Fátima Toledo. Há muita rejeição. Em oficinas Brasil afora, ou nas salas de seu estúdio-escola no Bairro Vila Mariana, em São Paulo, é preciso entrar inteiro para não pedir para sair. Com ela ou com seus assistentes – fiéis discípulos –, é intensamente físico e profundamente emocional. Tudo começa com conversa franca, aberta, para eliminar frescuras e despertar limites. Os atores-alunos assistem aos vídeos com depoimentos, bastidores, estudo de cenas e seus desdobramentos levados à tela. Depois, por meio de técnicas de ioga e bioenergética, têm treinamento físico pesado, à exaustão. Explosões em gritos e solavancos. Tudo para despertar os sentidos. A segunda parte é composta por jogos específicos para a construção de situações. Não há personagem. Nunca há. É a pessoa, inteira, como ela é, nessa ou naquela circunstância. Cenas e textos são soprados na hora pelo treinador. Ninguém tem que decorar nada. Precisa apenas entender sensorialmente o conflito, a relação. O resultado é registrado em vídeo para avaliação e feedback.

Estreia

Sobre a verdade é o nome do filme de estreia da cineasta Fátima Toledo. Em fase de captação, o longa é baseado em fato real e conta a história de família arruinada por falsa acusação de pedofilia. Tem planos para rodá-lo em 2012 e espera ter no elenco Wagner Moura, Lázaro Ramos, Carla Ribas e Vinícius de Oliveira. Para este ano, pressionada pela Imprensa Oficial de São Paulo, revisa seu livro Interpretar a vida, viver o cinema, escrito por Maurício Cardoso, sobre o desenvolvimento do método ao longo de quase 30 anos – de Pixote (1981) a Linha de passe (2008).


POR ONDE ANDA

Leandro Firmino da Hora, carioca, acaba de completar 33 anos. Revelado em Cidade de Deus (2002), do cineasta Fernando Meirelles, o ator é cria de Fátima Toledo. Foi provocado pela preparadora de elenco que ele trouxe à luz sua melhor criação: o traficante Zé Pequeno (na foto, à direita). Desde então, tomou gosto pelos sets e abraçou a carreira de intérprete. Esteve em novela, seriados e especiais de emissoras da TV aberta. Nada com a repercussão do papel que o consagrou internacionalmente. Nos cinemas, arriscou-se na direção com o curta Um crime quase perfeito, ao lado de Luis Nascimento. Participou de Cafundó, Trair e coçar é só começar, O homem que desafiou o diabo e No olho da rua - seu mais recente trabalho, que teve estreia tímida este ano, com passagem pela 14ª Mostra de Tiradentes.


Estado de Minas - EM Cultura - Jefferson da Fonseca Coutinho