Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Falta de pediatra assombra o futuro

Aprendi desde muito cedo que as crianças são o futuro. Se há esperança de um mundo melhor, não tenho dúvida, o portal são os mocinhos e mocinhas de panos curtos. No entanto, há um fenômeno preocupante em Belo Horizonte e região metropolitana: a falta de pediatras. É de partir o coração ver que nossos pequenos estão cada vez mais desassistidos. Ouvi de vários companheiros, pais, as maiores tormentas na busca por um bom pediatra. Falo por experiência própria, pela peleja dos dois últimos meses para conseguir um bom especialista para o meu filho caçula.

A agrura começou em agosto, dois meses antes da data prevista para o nascimento do meu menino. Violeta e eu planejamos conseguir um pediatra antes, marcar consulta e tomar todos os cuidados com nosso rebento ainda durante a gravidez. Não foi possível. Pedimos aos amigos, bons pais, algumas indicações. Recebemos cinco nomes muito bem recomendados. Nada de horário. “Convênio ou particular? Convênio… Só para dezembro”, disse a secretária, curta, uníssona. E particular? Quanto é? “R$ 300”. Tem horário? “Posso ver se consigo um encaixe”. Está bem. Faça-me, então, o favor. “Deixe-me o telefone. Ligo pro senhor”. Obrigado! Não ligou. Nem particular, a dona fria, objetiva, conseguiu o tal “encaixe”.

Havia ainda outros quatro contatos. “Não é possível. Um, ao menos, vamos conseguir”, pensei. Liguei para o segundo da lista de boas indicações. Do outro lado da linha, nem esperança. Outra secretária, do mesmo tipo da primeira, uníssona, encurtou o assunto: “O doutor disse pra não marcar mais paciente porque ele não tá dando conta. Só ano que vem ele vai ver se abre vaga”. Obrigado.

Emendei o terceiro número. Dessa vez, nada de secretária, o celular direto do médico: doutor, quem me deu o seu telefone foi a Sueli… “Sueli…? Ah sim. Ligue para a minha secretária porque estou sem horário… ela vai ver o que pode fazer por você…”. Obrigado. A secretária, de outra linhagem, educada, anotou o meu número e prometeu ligar de volta. Isso, terça-feira, 14 de agosto. Até hoje, 77 dias depois, nem um alô.

Restavam outros dois números, guardados com carinho. Achei melhor deixar para o dia seguinte. Pausa no aborrecimento para curtir a farra do bebê na barriga da mãe: um acrobata. De um lado para o outro, o ventre da Violeta mais parecia uma tenda para os malabarismos de nosso mocinho. Logo pela manhã, tentei os outros dois pediatras. Nada também. Sem chance para nosso convênio – que nem é dos piores. Particular, talvez, dois novos “encaixes”. Eita palavrinha chata. Com três possibilidades de “encaixe”, esperamos pelo resto da gravidez. Nosso neném nasceu: lindo! Um espetáculo! Saudável, cheio de vida e futuro. Resolvemos então, marcar horário com a pediatra de plantão – muito competente no momento do parto. Gratidão nossa pelas boas mãos na boa hora.

Por fim, por R$ 250, uma doutora experiente. Primeira consulta: bem objetiva, sucinta. O velho Botelho já havia alertado, lá no passado, quando nasceu o meu primeiro filho: “Pediatra bom é aquele que dá todos os contatos para o caso de necessidade, meu filho”. A doutora despachou a gente sem demora. Nada de cartão ou telefone. Chance de convênio, doutora? “Não tenho interesse. Já posso me dar o luxo”. É justo. No retorno, semana depois, a doutora madura, bonita, perguntou: “E o umbigo? Caiu?”. Ah, sim – já havia caído antes da primeira consulta. Ela não reparou (?). Tantos pacientes. A boa doutora não podia mesmo se lembrar de seus pequeninhos clientes. Nem por R$ 250.

Por indicação de uma desconhecida, que soube da nossa luta, um novo contato: Hugo Werneck. Enfim, um excelente médico conveniado, com horário. E o melhor: na primeira consulta, um cartão com todos os telefones. Encheu-nos de perguntas sobre o bebê e até sobre a relação da família. Olhou-nos nos olhos e tocou cheio de cuidados o nosso filho. É. O mundo não está de todo sem esperança. Aos queridos estudantes de medicina e aos experimentados senhores de branco, uma pergunta: “Seria mesmo a pediatria assim tão desinteressante?”

Bandeira Dois - Josiel Botelho

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Inscrições abertas!


www.casadoator.blogspot.com

Narzira, a mulher do malandro


Otaviano sempre foi homem de bem, trabalhador e cumpridor de todas as suas obrigações. Nunca, porém, tolerou desaforos envolvendo estereótipos ou generalizações. Destratar sexo feminino qualquer, por exemplo, perto dele, era caçar encrenca das grossas. Certa vez, num salão de sinuca, Otaviano quase fez um sujeito engolir uma bola preta só porque o camarada, bêbado, disse que mulher gosta de apanhar.

“Mulé, da boa, da ajeitada, que presta, gosta de levar um safanão de vez em quando. Tem que levar. Todo dia não porque senão apaixona. E mulé apaixonada é uma desgraça. Um tabefe de vez em quando já tá bão. Dá pro gasto”, vomitou o cretino. Não deu outra: Otaviano tomado de fúria monumental quebrou três tacos e bicudou os bagos do sujeito. Só não fez descer-lhe a bola 7 pela goela porque foi impedido pelos companheiros da repartição.

“Tolero tudo, Jeová. Tudo. Mas esse tipo de comentário não dou conta. Não dou conta”, desabafou, na delegacia, ao amigo policial. Ninguém sabia dizer ao certo daquele respeito voraz, violento até, de Otaviano sempre em defesa das mulheres. O contador chegou a quebrar televisão só porque viu marca de cerveja destratar uma loura num comercial. No reclame, padrão, a moça em pouca roupa fazia papel de bandeja. Otaviano até parou de beber desde então.

Tempo vai, tempo foi, o funcionário público foi morar em apartamento de conjunto habitacional no Bairro Nova Gameleira. Vizinho de porta de pedreiro truculento, o pesadelo estava para começar. A primeira noite de casa nova foi uma loucura. Parede fina, ouvia-se tudo na casa do operário, Edelson, e da mulher, Narzira, dona de casa.

Primeiro, os gemidos de prazer; depois, coisa de hora mais tarde, a mulher, aos berros, parecia levar a maior surra. Otaviano não deu conta e foi lá. Queria saber se a mulher precisava de ajuda. Tocou campainha e esperou. Nada. O silêncio, por fim, fez com que o contador voltasse para casa. Mas foi só fechar a porta para os gritos abafados recomeçarem. Otaviano achou melhor chamar o amigo polícia.

O camburão não demorou. O policial, bom sujeito, foi lá disposto a enquadrar o agressor. Otaviano viu quando Narzira abriu a porta com um roxo de todo tamanho no olho direito e restos de sangue no nariz. Vestida com gola alta e cheia de roupa até os punhos e tornozelos num calor de quase 40 graus. “Bati o rosto no fogão. Né nada não”, disse a mulher de olhar perdido.

Não teve conversa. O policial não engoliu a história e deu jeito de enquadrar o sujeito, cheio de antecedentes. Na volta da delegacia, sozinha, já no fim da madrugada, Narzira esmurrou a porta de Otaviano. Ao ver o novo vizinho, seu defensor, sentou-lhe a mão e soltou-lhe os pontapés: “Que você tem a ver com a minha vida, desgraçado! Eu quero meu homem! Eu quero!”

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Uma raça em desencanto


Não basta ser otimista. É preciso acreditar e acreditar. Fácil? Não é. Chega a ser desesperador. São muitos os casos de violência e falta de humanidade nos últimos tempos. Histórias capazes de entristecer os mais crédulos e otimistas. Essa última, da menina Kamyla Grazzyele, de 5 anos, é de fazer qualquer um desacreditar na raça humana. Um crime, um ato brutal estarrecedor. Venho de família avessa a violência de qualquer natureza. Diante de barbaridade assim, envolvendo inocência e incapacidade de defesa, chego a perder a fé. Desculpe-me, velho Botelho, pai e amigo. Mas, é exatamente o que estou sentindo diante dessa manchete de nosso Aqui: “Criança vítima de brutalidade”.

Impossível não trazer a notícia de volta às páginas tamanha crueldade. Depois de semana de desaparecimento, o corpo de Kamyla foi encontrado em pasto da Zona Rural de Bom Sucesso, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Sou pai. Insisto em repetir isso sempre porque considero a paternidade uma credencial especial. Ser pai, presente, não é para qualquer um. Para um bom pai de família é ainda mais doloroso saber de barbaridades assim. É um sentimento muito doído de tristeza e incapacidade. O que podemos fazer, de fato, para garantir a segurança daqueles que tanto amamos?

Os crimes contra as crianças são o fundo do poço, mas temos ainda o aumento da violência capaz de desfazer vidas na fração do segundo. Assaltantes armados, dando verdadeiro baile na polícia, tocando o terror em famílias de bem. Sem falar na irresponsabilidade dos beberrões ao volante, matando todos os dias desenfreadamente. E as autoridades, os políticos corruptos, formadores de quadrilhas? Vamos ver se o Supremo Tribunal Federal (STF) vai mesmo ser capaz de dar uma lição de moralidade no país e mandar essa quadrilha para a cadeia.

“O que alimenta a violência é a falta de educação”, diz o velho Botelho. Desde garoto, nos anos 1970, ouço o pai dizer isso. Nossos professores são os profissionais mais desvalorizados no Brasil. Conheço educadores, gente de bom coração, que, mesmo desmotivados, não deixam as salas de aula. Por amor, pela missão de ensinar. Quando sei de casos assim, como o da pequena Kamyla Grazzyele, pergunto-me se vai demorar muito ainda para o poder público entender que essas barbaridades são reflexo de um país perdido, de uma raça em desencanto. Ao povo de Bom Sucesso e aos familiares de Kamyla, meus mais profundos sentimentos. De pai, de homem de fé.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A ferro e fogo


Quem via a loura de 29 anos, sorriso de tirar o fôlego e fala macia não era capaz de imaginar a habilidade da bela com as armas. No início do ano, depois de várias ameaças do ex-marido, Badu, mecânico de automóveis, Manuela, dona de salão de beleza, decidiu aprender a atirar. No ônibus, viu a placa do clube do tiro num poste na MG-030, sentido Rio Acima, e ficou com aquilo na cabeça: “É isso!”, disse para si mesma.

Matriculou-se no curso de tiro defensivo e foi tocada por força incrível com uma pistola calibre 380 nas mãos. Não havia alvo de papelão ou lata que Manuela não desse conta de pipocar. “Impressionante!”, avaliava o instrutor boa gente.

O ex-marido, machão, violento, não sabia, mas Manuela, em dois meses de prática já era a melhor atiradora do pedaço. Seu aproveitamento era de chamar a atenção até dos policiais e magistrados, associados do clube. Silenciosa, ela não era de conversa e nem dava espaço para os colegas – sempre boquiabertos com tamanha mira e beleza. A bela se limitava aos cumprimentos nos limites da boa educação.

Havia gente graúda no clube – endinheirada e com poder – capaz de qualquer coisa para uma esticada na noite depois dos treinos de quarta-feira com a bela. Nada. Ela não dava mole, a menor pelota. Manuela vivia para o filho, Arthur, de 2 anos, e para os compromissos com o modesto salão de beleza da periferia.

A cabeleireira apenas praticava no clube, enquanto o ex-marido, ciumento e ignorante, vivia de fazer ameaças. “Mato você, vagabunda! Mato!”, berrava sempre em frente ao salão. Ainda assim, Manuela resistia em ter uma arma em casa. “Não acho certo... tem o Arthur...”, disse para Estela, a vizinha. A amiga mais próxima era a única que sabia da intimidade de Manuela com as armas de fogo – era a vizinha quem tomava conta da criança para a atiradora praticar toda quarta-feira.

Foi depois de levar surra na porta do salão, em frente à freguesia, que Manuela registrou queixa e batalhou para obter registro e autorização legal para uma pistola 380. Convenceu a Polícia Federal de que se tratava de “caso de vida ou morte” e, principalmente, de que estava qualificada para fazer valer o seu direito.

No dia em que chegou em casa armada pela primeira vez, o marido tocava o terror na casa de Estela, trancada com Arthur no banheiro. O infeliz urrava, tentando arrombar a porta reforçada: “Mato você vadia! Fica com o meu filho pra vagabunda da mãe abrir as pernas na rua!”.

Manuela já entrou com a arma em punho na casa da vizinha. Deu de cara com Badu fora de si, também armado, com um 38 nas mãos. Foi ele a atirar primeiro. Manuela sabia tudo sobre as armas. Só não sabia matar.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um risco na alma

A notícia quem soprou foi o Osmar, conhecido de gente próxima da vítima. Apuramos o assunto para dividir aqui com o amigo leitor. O fato, ocorrido lá nos anos 1990, chamou a atenção da turma. A madrugada de 7 de julho de 1995 era de comemoração no Buffet Catherine, na Avenida Raja Gabaglia. Baile de formatura de jovens universitários de conceituada instituição particular. Entre os convidados, dois sujeitos de 19 e 22 anos, com destinos cruzados: um, marcado no rosto por corte de 6 centímetros feito à taça de vidro.

O outro, autor da agressão, com pendenga nas costas e duas condenações – penal e cível. Depois de cumprir dois anos e três meses, em regime aberto, nos anos 2000, o réu recebe nova sentença por danos morais, estéticos e materiais. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio da 23ª Vara Cível de Belo Horizonte, condenou o estudante a pagar indenização de R$ 25 mil para a vítima, hoje, odontólogo, com 36 anos.

Desde a fatídica madrugada de julho, são 17 anos de tramites processuais e, naturalmente, muito dissabor. Segundo testemunhas, por volta das 5h do dia 7 de julho, o agressor começou a importunar duas moças, primas da vítima, que pediu para que ele não agisse daquela maneira. Há relatos na ação de que o réu, inconveniente, chegou a segurar uma delas pela cintura. Chamado a atenção pela segunda vez, o estudante partiu para cima da vítima golpeando-a com uma taça de vidro no rosto, causando um corte da altura dos olhos até próximo a boca.

O TJMG estabeleceu o valor de R$ 15 mil por danos morais e R$ 10 mil pelo dano estético, representado pela cicatriz. Ficou definido também que os gastos comprovados no processo deverão ser ressarcidos ao dentista, depois de apurada a atualização de todos os custos.

Para os companheiros de praça, certamente, o ocorrido é motivo de intranquilidade para ambas as partes – envolvidas no desentendimento quando jovens e imaturos. Para a Sueli: “Um marcado no rosto, o outro na alma”. É a história que o velho Botelho repete sempre: “Um minuto sem pensar, o resto da vida para pagar”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A dor que não se cala



Sábado de saudade, indignação e dor em capela miúda. A missa de sétimo dia em homenagem à atriz Cecília Bizzotto, a Ciça, assassinada há uma semana no Bairro Santa Lúcia, Região Centro-Sul da capital, movimentou o Condomínio Retiro das Pedras, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Apenas familiares e amigos mais próximos da artista tiveram autorização para participar da cerimônia religiosa. A família, em silêncio, busca forças para seguir em pedaços, depois do trágico fim da menina, filha e mãe, de 32 anos. Ciça foi morta dentro de casa durante assalto no início da madrugada do dia 7.

Na internet, em blogs e redes sociais, as manifestações de indignação pela morte da atriz se multiplicam em onda pela paz. Felipe Menhem, amigo de infância do irmão de Ciça, Marcelo Bizzotto, desabafou: “Com a Ciça, vai um pouco da gente também. No momento de tristeza e revolta, o que nos resta é dar apoio para quem fica, para o nosso amigo e para a família. É o que vamos fazer agora. Até pra mantermos a fé na vida”. Marcelo e a namorada também foram feitos reféns pelos assassinos de Ciça.

Em site de relacionamento, tocado pela morte de Cecília Bizzoto, o psicanalista Gilson Iannini recorre a Freud e a Heine:

“Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente de minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos – mas não antes de terem sido enforcados”.

O doutor em filosofia, autor de Estilo e verdade em Jacques Lacan, justifica a citação: “Fantasias de vingança dessa natureza excitaram, com maior ou menor intensidade, as mentes indignadas de muitos de nós nestes últimos dias”. Gilson Iannini, por fim, habilidoso em jogo de palavras e intenções, descarta a escuridão: “A felicidade possível, a felicidade que compartilhamos com Ciça, é de outro gênero. Ela requer apenas o teto de palha, o leite fresco e as flores na janela”. E pontua: “E que nosso silêncio dure apenas um minuto”.

Sentimentos de tristeza e indignação, na ponta dos dedos, como os de Iannini, se repetem no Facebook. Com 1,2 mil compartilhamentos, convite para ato público pela vida mobiliza artistas e cidadãos para encontro hoje, às 19h, na Praça Floriano Peixoto, em Santa Efigênia, Região Leste da capital. “A gente precisa é de amor e de paz, pra poder continuar, acreditar que algo pode ser feito e transformar nossa perplexidade e indignação em grito de paz e esperança!”, convida a cantora Vanessa Ferreira, de Paris, sua rede de amigos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A revolta dos homens bons



No último domingo, o Adelson provocou longa tarde de conversa sobre a violência. No almoço de aniversário do Vitão, vizinho de porta e companheiro de carteado, a turma do volante “ferveu” discussão sobre a insegurança que amedronta o cidadão de bem. O Adelson, inflamado, disse que vai entrar para um clube de tiro e que está cansado de esperar por “ações mais eficientes” por parte do poder público. Vez por outra, o Adelson desabafa soluções radicais contra o que a polícia não dá conta. Ano passado, juntou alguns amigos da academia de ginástica e montaram um “Clube da Luta”.

Ele e meia dúzia de indignados contrataram um professor de arte marcial. Decidiram se especializar em defesa pessoal. E, pelo que soube, o grupo do Adelson já está impossível. Inclusive, o Tobias, primo do Adelson e integrante do tal clube, no início do ano, foi parar na delegacia por ter quebrado dois ladrões pés-de-chinelo que tentaram roubar o celular dele. Dizem que quando os dois marginais se aproximaram, um pela frente e o outro por trás, e anunciaram o assalto, foi só braço e pernada para tudo o que é lado. Resultado: os dois infelizes foram parar no HPS. Caso isolado, sabemos todos. Na maioria dos casos o desfecho para quem reage é triste. Mas o Adelson, indignado, defende que todo cidadão tem o direito de agir em legítima defesa e precisa se preparar para isso.

Polêmica. Na casa do Vitão, o grupo que participou da conversa puxada pelo Adelson viu cair a noite dividido. Sueli, centrada, madura, acredita que a única saída é a educação. “Violência só atrai violência”, afirma. Em 2000, Sueli perdeu um tio muito querido durante um assalto no Bairro Floramar. O moço reagiu e conseguiu imobilizar um dos criminosos, mas, pelas costas, um comparsa fez dois disparos. “Nossa família até hoje não conseguiu aceitar a morte tão estúpida do tio Joaquim. Não adianta. O melhor a fazer é não reagir e aprender a votar para que alguma gente séria trabalhe para diminuir as diferenças sociais. Anote isso ai, Josiel”. Anotado e publicado, Sueli.

“Anote também, Josiel...” - pediu o Ismar, companheiro de batente – “O Adelson tem razão. Todo cidadão tem o direito de se defender. Vou até entrar para esse clube do tiro, porque só assim pra bandidada aprender a respeitar. Essses filhos da p... estão precisando de um corretivo. A coisa anda desse jeito porque a gente tá mais parecendo um bando de cordeiro... Comigo é olho por olho e dente por dente. Não existe legítima defesa? Então!? Há muito tempo não dou mole pra bandido. No Brasil, o povo aceita tudo fácil demais. Sempre fui contra o desarmamento. É preciso que haja um controle rigoroso das armas e pronto... de que adianta desarmar um pai de família se os noiados estão armados por aí?”. Taí, Ismar. Publicado também.

Violeta e eu fomos para casa com o nosso filho recém-nascido e não conseguimos deixar de pensar no assunto. Com tanta violência endurecendo o coração até dos sujeitos de bem, que futuro podemos esperar para as nossas crianças?

Bandeira Dois - Josiel Botelho

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Voe em paz, Ciça


Há um nó na garganta em meio ao turbilhão de sentidos e sentimentos dos últimos dias. Hegel – autor de cabeceira – escreveu: “O sentimento é o material originário, não ainda disfarçado nele mesmo, que a inteligência eleva ao nível da representação, suprimindo a forma de simplicidade que lhe pertence, e dividindo-o em um elemento objetivo e um elemento subjetivo, que dele se destaca e faz sentimento um sentido”.

Três vezes, em quatro décadas de caminhos, estive colado à luz do nascimento. A última, dia 3, ainda me mantém elétrico, excitado, varrido, besta... embevecido de amor. Ver o filho chegar ao mundo – ao mais estranho mundo de que já se teve notícias – embaralha o peito e faz dar nó no estômago. Toda essa felicidade dançada na alma... uma questão: seria a alegria ignorância bailarina a emaranhar sentimentos?

Talvez. Não posso, porém, ter vergonha da felicidade. Ainda que em palco movediço de luz e sombra. Tenho esperança. Vergonha, tristeza, tenho da estupidez e da violência. Da morte de Cecília Bizzotto, mãe, mulher e artista contra a truculência. Vergonha do triste fim da menina que se alimentava de sabão, cheia de sonhos de liberdade: sentimentos. Já o sentido, Hegel... qual é ele mesmo?

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O jeito Hebe de ser


Muito já foi escrito sobre a morte da tão querida Hebe Camargo, amiga de todos os brasileiros. Li homenagens em jornais, sites de notícias, vi e ouvi noticiários de TV e programas especiais de várias emissoras. A grande dama da televisão brasileira vai mesmo deixar saudades. Não apenas pela inigualável performance diante das câmeras e pelo jeito amigo, carinhoso, de lidar com cada um, mas, especialmente, pela alegria que ela compartilhava. O velho Botelho e eu conversamos muito sobre a artista. Em inúmeras ocasiões e por razões diversas. Bastava alguém falar em tristeza ou alegria para a Hebe Camargo fazer parte da conversa. Tudo na nossa casa, lembro-me bem, costumava ter a dama como referência. Volta e meia o velho Botelho dizia: “Penso como a Hebe que diz que tristeza atrai tristeza e alegria atrai alegria. Então, não vamos deixar espaço para nada que não presta, hein!? Se você entender isso, meu filho, já vai ser meio caminho andado para ser feliz”. Fiz disso lição. Na minha vida não há o menor espaço para infelicidades. Elas, existem, todo nós sabemos. Mas não retumbam na minha alma. Ontem, bastante sentido pela falta que a Hebe faz, o pai disse e eu tomei nota para publicar aqui, em nosso quintal:

“Há muito tempo, já há mais de dez anos, a única alegria que a televisão me dava era a Hebe Camargo. As novelas nunca foram tão ruins e os programas da TV aberta são de baixíssimo nível. Está difícil de aguentar. Dá para salvar parte do jornalismo e olhe lá. Agora, já a Hebe Camargo sempre foi uma grande alegria para todo mundo. Natural, acertiva, carinhosa, tipo de postura que todo mundo deveria tomar como exemplo. Fosse o jeito Hebe de ser modelo, meu filho, a gente não teria tanta gente sem noção espalhada pelo mundo. Acredito nisso. Sabe o que sempre me tocou na Hebe, Josiel? Aquele sorriso natural, sincero, que era a marca dela. Aquela simplicidade elegante, chique pela própria natureza. Aquele “gracinha” verdadeiro que ela dizia pra todo mundo que ela admirava. A Hebe nunca foi como esse bando de entrevistador que insiste em aparecer mais do que o entrevistado, do que o assunto. Ela sabia ouvir, sabia a hora de cortar, de entrar na conversa, com aquele carisma impressionante, de berço. A TV já andava pra lá de pobre com essas novelinhas que só falam em traição e vingança. Agora, sem a Hebe, só o controle remoto para dar jeito, Josiel. Só o controle remoto”.



Bandeira Dois - Josiel Botelho

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O terrorista do Ressaca



Tel – assim como a abreviatura de telefone. O sujeito de bem deixou de lado o nome de presidente norte-americano para tornar-se conhecido no mundo do terror como Tel, simplesmente. Diferentemente dos amigos da rede, entocados no Afeganistão, no Paquistão, no Cazaquistão e no Uzbequistão, Tel levava vida de paz no Ressaca, em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Moço de boa criação, gênio da informática – não havia máquina que o fizesse perder os cabelos – Tel vivia para os estudos. Aluno de engenharia da computação, com amplo conhecimento técnico em eletrônica e mecatrônica, o filho da dona Nazaré e do seu Raimundo queria apenas sossego para estudar.

Deu que, nos últimos tempos, nas cercanias do bairro de Tel, surgiram muitos sujeitos sem noção, apreciadores daqueles funks de baixo calão, com letras inimagináveis. Bastou um fim de semana de lixo sonoro no sobe e desce da rua para que o universitário, mestre em números e circuitos integrados, decidisse inventar algo que desse cabo naquele tormento. Antes, tentou conversar com alguns dos ignorantes. Falou com um, com outro, com mais dois, três, quatro… Nada. Aí é que o bando aumentou o volume e a provocação. Chegaram a estacionar as furrecas tunadas na porta da casa do estudante. Só de pirraça.

Tel sofreu ao ver os pais, velhos, com problemas de saúde, estarrecidos com a porcariada dita pelo homem e pela mulher desafinados, com voz de telessexo. “Ui pra cá, ai pra lá…” E tome os palavrões mais baixos e impublicáveis da história. Daí a decisão do universitário de virar terrorista contra todo e qualquer som que não prestasse. Três noites sem dormir, imerso em redes internacionais pela internet e pronto: projeto em mãos, foram 24 horas para a criação do “detonador de tunados” – um aparelho muito parecido com um secador de cabelos, potente em micro-ondas e feito com PVC. Nele, um amplificador de magnetron capaz de estragos num raio de quilômetros.

Assim que terminou a invenção, Tel subiu até a laje do sobrado em que morava e instalou uma super câmera móvel, capaz de varrer o bairro em 360 graus noite e dia. No quarto, diante do monitor de 32 polegadas, era só esperar pelo primeiro sem noção. Não demorou. Um uninho vagabundo, caindo em pedaços, com alto-falantes que valiam 20 vezes o motor e a lata velha juntos. “Tum tum tum…eu vou…” E foi… foi só uma dedada no detonador: sem sujeira ou explosão… Tudo na base das ondas eletromagnéticas. É. Até as rebimbocas da furreca travaram. O sem noção não entendeu nada. Desceu do carro e bicudou as rodas, irado com a bagaça. “Desgraça fedapu…” E tome bicudo na geringonça.

Tel não achou graça. Queria paz apenas. Incansável, não se contentou em ter que dar plantão para sentar o dedo nos sem noção. Pensou, pensou… E passou a madrugada em claro para inventar um receptor capaz de disparar automaticamente. Regulou o detonador para atingir apenas os alto-falantes e preservar os veículos. No final daquele dia, 1.137 furrecas tunadas conheceram o silêncio. Sucesso tamanho se espalhou pela web e novas armas contra o mau gosto já começam a ser produzidas em série nos EUA. Em breve, o bom gosto pode voltar a reinar o mundo e… “Tel! Tel, menino!”. “Ah!?”… Tel acordou no susto: lá fora, no Ressaca, um sem noção com o som indecente na maior altura trouxe o estudante de volta à realidade. “Tel! Levanta, meu filho! Vai perder a hora!”, gritou Dona Nazaré, no preparo da marmita.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho