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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Narzira, a mulher do malandro


Otaviano sempre foi homem de bem, trabalhador e cumpridor de todas as suas obrigações. Nunca, porém, tolerou desaforos envolvendo estereótipos ou generalizações. Destratar sexo feminino qualquer, por exemplo, perto dele, era caçar encrenca das grossas. Certa vez, num salão de sinuca, Otaviano quase fez um sujeito engolir uma bola preta só porque o camarada, bêbado, disse que mulher gosta de apanhar.

“Mulé, da boa, da ajeitada, que presta, gosta de levar um safanão de vez em quando. Tem que levar. Todo dia não porque senão apaixona. E mulé apaixonada é uma desgraça. Um tabefe de vez em quando já tá bão. Dá pro gasto”, vomitou o cretino. Não deu outra: Otaviano tomado de fúria monumental quebrou três tacos e bicudou os bagos do sujeito. Só não fez descer-lhe a bola 7 pela goela porque foi impedido pelos companheiros da repartição.

“Tolero tudo, Jeová. Tudo. Mas esse tipo de comentário não dou conta. Não dou conta”, desabafou, na delegacia, ao amigo policial. Ninguém sabia dizer ao certo daquele respeito voraz, violento até, de Otaviano sempre em defesa das mulheres. O contador chegou a quebrar televisão só porque viu marca de cerveja destratar uma loura num comercial. No reclame, padrão, a moça em pouca roupa fazia papel de bandeja. Otaviano até parou de beber desde então.

Tempo vai, tempo foi, o funcionário público foi morar em apartamento de conjunto habitacional no Bairro Nova Gameleira. Vizinho de porta de pedreiro truculento, o pesadelo estava para começar. A primeira noite de casa nova foi uma loucura. Parede fina, ouvia-se tudo na casa do operário, Edelson, e da mulher, Narzira, dona de casa.

Primeiro, os gemidos de prazer; depois, coisa de hora mais tarde, a mulher, aos berros, parecia levar a maior surra. Otaviano não deu conta e foi lá. Queria saber se a mulher precisava de ajuda. Tocou campainha e esperou. Nada. O silêncio, por fim, fez com que o contador voltasse para casa. Mas foi só fechar a porta para os gritos abafados recomeçarem. Otaviano achou melhor chamar o amigo polícia.

O camburão não demorou. O policial, bom sujeito, foi lá disposto a enquadrar o agressor. Otaviano viu quando Narzira abriu a porta com um roxo de todo tamanho no olho direito e restos de sangue no nariz. Vestida com gola alta e cheia de roupa até os punhos e tornozelos num calor de quase 40 graus. “Bati o rosto no fogão. Né nada não”, disse a mulher de olhar perdido.

Não teve conversa. O policial não engoliu a história e deu jeito de enquadrar o sujeito, cheio de antecedentes. Na volta da delegacia, sozinha, já no fim da madrugada, Narzira esmurrou a porta de Otaviano. Ao ver o novo vizinho, seu defensor, sentou-lhe a mão e soltou-lhe os pontapés: “Que você tem a ver com a minha vida, desgraçado! Eu quero meu homem! Eu quero!”

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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