Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Dunga na prorrogação

Todo mundo está ligado na Copa. Uma festa. A repercussão de “Vamos deixar o Dunga em paz”, publicada na semana passada, vale até prorrogação. Amigos, leitores e leitores amigos compareceram para registrar apoio ou desabafo em relação ao técnico da Seleção Brasileira. Da minha parte, até o término da competição para o Brasil – uma grande final contra a Argentina, espero – cumpro a promessa de não redigir mais uma linha contra o treinador. Só que não posso deixar de contar aqui o que muita gente de bem, que acompanha nossa Bandeira Dois, pensa sobre o jeitão do filho do “seu” Edelceu.

A Maria Luiza, vizinha e parceira de carteado, disse que o Dunga devia aprender bons modos com o Maradona. “Fico encantada com o Maradona, Josiel. Aquele jeito de ele abraçar e beijar os jogadores parece coisa de pai. Nunca fui de gostar de argentino, mas nessa Copa, vou falar uma coisa, ganharam a minha admiração. Especialmente o Maradona, que, para mim, nunca foi flor que se cheire. Agora, pelo que a televisão tem mostrado, ele está completamente recuperado e bonitão”. Vamos combinar que “bonitão” é exagero por parte da Maria Luiza. Mas não dá para negar que o sujeito tem sido um espetáculo à parte na Copa.

O Paulo Lima, grande homem de negócios em Minas Gerais, passageiro das antigas, comentou numa corrida, ontem, em Contagem: “Vi que você tá aliviando a barra do Dunga no Aqui, Josiel. É melhor não ficar empolgado demais porque do Dunga a gente não pode esperar muito não. Na minha opinião, pode anotar isso aí, disputa pra valer vai ser contra a Holanda. Não vai me espantar nada se a gente conseguir uma classificação muito suada nos pênaltis. E com jogo feio, porque jogo bonito, dessa Seleção, ainda não vi. Sorte do Dunga foi ainda não ter encarado um time como esse da Alemanha”.

Claro que teve gente que também levantou a bola do Dunga. A Sueli, líder absoluta no bolão do Adelson, segunda-feira, depois do jogo contra o Chile, falou alto: “É muita pressão na cabeça dele, gente! Aí, ninguém dá conta. Por muito menos, com esse monte de barbeiro que tem em BH, a gente quase perde a cabeça. Imagine, então, com o Ricardo Teixeira e a imprensa na cola!? Ninguém merece. Tô com o Dunga!” Já o Diogo da padaria continua duro com a Seleção: “Timinho horroroso. Pode até chegar na final por sorte ou erro da arbitragem. Agora, campeão? Sem chance. Sou mais o Paraguai”. Tá certo. A mulher do Diogo é paraguaia, de Saldo del Guaira. Ontem, os dois comemoraram muito a classificação da seleção do Gerardo Martino em cima do Japão. Passei na padaria para tomar um café, à tardinha, e lá estavam os dois, de uniforme e tudo, felizes da vida.

Copa do Mundo tem dessas coisas: une muita gente. Violeta também entende o Mundial como grande oportunidade de integração. Na nossa rua, em Santa Efigênia, por exemplo, os vizinhos estão até mais amigos. Enfeitaram a rua com bandeirolas, fazem festa e assistem aos jogos juntos. Uma beleza. É. Avante, Brasil!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 30/6/10

sábado, 26 de junho de 2010

A casa da mãe morta (9)

Larissa, com caixinha de segredos da mãe nas mãos, fez despertar a companheira:

– Carol!
– Desculpa. É que tava longe, no dia em que conheci a Beatriz.
– Este lugar ainda tem o cheiro dela. Você veio cedo.
– Pensei que talvez precisasse de ajuda. Eu tava em casa… mas o pensamento tava aqui.
– Tô bem. É só a cabeça que fica viajando no tempo.
– Normal. Acabo de passar por isso e nem era a filha dela.
– Acho que não fui bem o que se pode chamar de filha.
– Queria ter tido tempo pra ter a amizade da sua mãe.
– Eu também, Carol.
– E isso? O baú de histórias da dona Beatriz?
– Ainda não tive coragem de abrir. Vó Mercedes sempre falou dessa malinha. Disse que, desde criança, Beatriz guardava todos os seus “tesouros” aqui dentro.

Aquela não era mesmo uma valise comum. Era o único objeto que Beatriz havia guardado desde a infância e da adolescência sofrida em Divinópolis. Dentro, um pequeno mundo em segredos. Recortes e retalhos, cartas, fotos e documentos acumulados ao longo de uma breve passagem em vida. Talvez, quem sabe, único lugar de respostas que, agora, pertencia a Larissa.

Certa vez, na ausência de Beatriz – não havia muito tempo que elas estavam morando juntas –, Larissa encontrou a malinha surrada da mãe e tentou abri-la ali mesmo, na sala. Beatriz chegou mais cedo do trabalho e deu o flagrante. Tomou a mala das mãos da filha e bronqueou.

– O que você pensa que tá fazendo?
– Só tava tentando conhecer você melhor.
– Não vai ser dessa maneira, fuçando o que não é seu.
– Você deixou a porta do quarto aberta. Pensei que não fosse se importar.
– Eu me importo e não quero que você entre no meu quarto sem ser convidada.

O tom ríspido de Beatriz ficou por tempo na cabeça de Larissa. As duas ficaram semana sem trocar palavra. Morta, a lojista do Barro Preto não estava mais ali para reclamar a valise. Carolina entendeu o silêncio da namorada, que resolveu desvendar os guardados da mãe biológica.

No próximo sábado, o último capítulo.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26/6/10

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Falta Goethe no Fausto do João

Que o público não espere muito de Goethe (1749-1832) em Fausto (S!), em cartaz no espaço cultural CentoeQuatro. Poderia dizer-se inspirada, apenas, a montagem da promissora Preqaria Companhia de Teatro. Um pretexto poético de luxo para encenação popular. Do original, um homem em pacto com o diabo pelos prazeres do mundo. Ainda assim, menor e ligeira, a releitura de João Valadares, que assina dramaturgia e direção, é imperdível.

Se por um lado faltou ao adaptador coragem para encarar a imensidão trágica dos versos do clássico alemão, por outro sobrou ousadia para refazer autoral, desembaraçada e (até) divertida a difícil trajetória do personagem alquimista. Dramaturgicamente, um resumo quase irresponsável. Já, cenicamente, com méritos indiscutíveis. Mesmo raso, Fausto (S!) é espetáculo de relevância. A começar pelo bom desenho de cena e uso do espaço. O CentoeQuatro, com suas centenas de metros quadrados em níveis e ambientes diferenciados, é o mundo até para encenadores em início de carreira.

Fausto (S!) se faz necessário ainda por juntar ao frescor de jovens atores de duas companhias (Cia do Chá e Preqaria) à experiência de Alexandre Toledo (elenco), Amanda Prates (preparação vocal e trilha sonora), Joaquim Elias (preparação corporal) e Raul Belém Machado (cenário). Quarteto de notável contribuição ao longo alcance do conjunto. O figurino de William Rausch, de bom gosto e acabamento, também enriquece o coletivo. Destaca-se elementar no desdobramento homem/diabo. A iluminação, assinada por Felipe Cosse, Juliano Coelho e Vladmir Medeiros, também é bastante apropriada aos múltiplos espaços e atmosferas explorados pelo grupo. O trio valoriza janelas, passarelas, escadas e salões.

Com uma dezena de bons atores nas mãos, capitaneados pelo incansável Alexandre Toledo – dos mais atuantes de sua geração –, o diretor João Valadares soube bem explorar as capacidades de seu pessoal. Permitiu que a competente Gabriela Dominguez, por exemplo, transitasse com liberdade cômica e comedida em suas composições. Sara Pinheiro, que já demonstrava admirável vocação em exercícios de interpretação, chama a atenção por nuance e domínio. Precisa, faz por merecer a fé da plateia mais exigente. Jésus Lataliza deixa de lado tendência ao excesso e já se faz melhor intérprete longe dos muros da escola.

Fausto (S!), contemporâneo, contemplado com recursos do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, com bom elenco, espaço e equipe técnica de grandeza, bem que podia ter mais Goethe e menos João.

Fausto(s!)
Amanhã e domingo; dias 30 deste mês e de 1º a 4 de julho, às 20h, no Espaço cultural CentoeQuatro, Praça Rui Barbosa, 104, Centro. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia entrada). Informações: (31) 9345-1110 e http://www.preqaria.com.br/.


Foto: Igor Aires
Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 25/6/10

Humor na África

Pablo Peixoto só na azaração, com talento e bom humor. O sujeito soube fazer graça com o episódio ridículo da imprensa X Dunga na África do Sul. Vale conferir.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Vamos deixar o Dunga em paz

Estou decidido a deixar o Dunga em paz. Conversamos muito na segunda-feira sobre o técnico da Seleção Brasileira. A turma do bolão do Adelson – somos 10 – está fechada: paz ao comandante do Brasil de chuteiras. Por uma razão muito simples. Já está indo além da conta a campanha contra o treinador por parte arrogante e sabichona da imprensa. O episódio da coletiva logo depois do jogo contra a Costa do Marfim foi de amargar. Para quem não sabe, o Dunga balbuciou “besta”, “burro” e “cagão” para um repórter da Rede Globo e aí a emissora caiu matando contra o técnico. Francamente. Quem, sob pressão, no destempero, já não soltou uma dessas três palavras tolas?!

Depois, para piorar, fico sabendo pelo Osmar – um verdadeiro rato de notícias sobre a Copa do Mundo – que tem gente graúda furiosa com o Dunga porque ele cortou o privilégio das entrevistas exclusivas, muito comuns em outros tempos. Sendo assim, sinceramente, amigo leitor, sou levado a crer que o Dunga tem lá suas razões. Posso ter meus descontentamentos com a Seleção, assim como muita gente que conheço. Mas nessa briga com determinados jornalistas – que me perdoem os muitos amigos passageiros do ramo que tenho –, fico do lado do Dunga. Bem ou mal, o sujeito está lá fazendo o trabalho dele. Gostemos ou não, é ele quem, durante a Copa, comanda o time dentro e fora dos gramados.

Portanto, que o Dunga lidere seus jogadores em paz e à sua maneira. Neste momento, ninguém mais do que ele, acredito, quer ser o melhor do mundo. Pensem bem, amigos, como perder poderia ser bom ao treinador? Basta acompanhar pelos noticiários a tristeza dos técnicos fracassados nessa primeira fase. Vejam que fim melancólico para o técnico da França, Raymond Domenech, depois da derrota para a África do Sul, ontem, no Estádio Royal Park. Um desastre futebolístico para a campeã do mundo do ex-jogador Zinedine Zidane, em 1998.

No mais, é isso. O Dunga pode não ser o melhor treinador do mundo, mas, da minha parte, escritor amador, não vai ter mais uma linha que o jogue para baixo. Em frente, Dunga! Ganhou a minha admiração com essa história de cortar os privilégios deste ou daquele grupo de jornalistas. Em outros tempos, você, Dunga, quando jogador, pode até ter pisado na bola com essa história de entrevista exclusiva. Tenho um passageiro, repórter fera, que já ficou muito aborrecido com você quando era capitão do time do Parreira. No entanto, agora, tanto tempo depois, parece ter aprendido novas lições. Vai aqui, pelos últimos acontecimentos na África, o meu voto de confiança.

Agora, por favor, quebre a retranca e parta para o ataque em campo. Só em campo, ok!?
Contra Portugal, jogo difícil, sou 2 x 2 no bolão.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 23/6/10

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Fausto (S!)


Adaptação quase irresponsável da obra de Goethe, Fausto (S!) tem produção caprichada e elenco de bom nível. Até sexta-feira, resenha sobre o novo trabalho da Preqaria Cia de Teatro.

Fausto(S!)
Espaço cultural CentoeQuatro (Praça Rui Barbosa, 104, Centro). Dias 23, 24, 26, 27 e 30 deste mês e de 1º a 4 de julho, às 20h. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia entrada). Informações: (31) 9345-1110 e www.preqaria.com.br.

domingo, 20 de junho de 2010

A vida é um espetáculo

Um diletante das letras. É assim Waldir de Luna Carneiro: amador no sentido mais belo da palavra. Um amante da dramaturgia, enamorado do teatro elaborado, que transforma e diverte. Às vésperas de completar 90 anos, dos quais mais de 60 dedicados à arte, com dezenas de peças escritas e outras tantas encenadas, o escritor e jornalista recebe nova homenagem. A Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Alfenas, no Sul de Minas, acaba de publicar o segundo volume do Teatro completo, com 480 páginas, de seu mais ilustre teatrólogo.

Não há espaço em jornal impresso que dê conta da vida desse contador de histórias. Nascido em 1921, em Santa Rita do Sapucaí, Waldir de Luna Carneiro se mudou para Alfenas em 1938. Pouco tempo depois, seguiu para o Rio de Janeiro para trabalhar com arquitetura e acabou servindo à Força Expedicionária Brasileira (FEB), durante a 2ª Guerra Mundial. Período em que registrou a vida militar por meio de desenhos e textos que satirizavam os maus momentos vividos sob a farda. Além de soldado dedicado, foi também quadrinista no quartel. De volta a Alfenas, aos 23 anos, casou-se com Zélia Amaral Carneiro. Juntos, viveram 57 anos – até 2005, ano em que ficou viúvo. Funcionário público concursado, leitor e escritor voraz, construiu carreira paralela na Caixa Econômica Federal. "O teatro não dá dinheiro. Só prazer. O pão eu ganho na Caixa", diz, por telefone, bancário aposentado, cheio de bom humor.

Não é preciso conversar muito com Waldir de Luna Carneiro para perceber o tanto que há dele em sua comédia de costumes – aparentemente simplória, no entanto riquíssima em entrelinhas. O dramaturgo – que apenas vez por outra se arrisca no drama – não perde o timing da graça nem a lucidez política na menor fala. "Escrevo para me manter vivo. Muita gente precisa do vício ou da mania. Melhor a boa mania para não se acabar na cachaça", diverte-se. Suas peças, em geral realistas e fantásticas, demonstram apurado olhar crítico sobre o cotidiano e a vida pública.
"Momento! Não tive a oportunidade de contestar a sua sólida argumentação. Quero apenas lembrar que na democracia todos têm direito à informação. Nada que seja humano nos deve ser indiferente. Você escrevia no muro porque almejava partilhar com o povo as suas opiniões. Aqueles nomes pichados eram mensagens que você enviava à comunidade. No jornal dirá coisas mais importantes e sutis", diz Juscelino Firmino, personagem jornalista de Verdades implacáveis, de 1997.


Censura e vizinhança

Em 1954, a pena crítica do perspicaz Waldir de Luna Carneiro foi censurada pela administração municipal. Sob a alegação de que sua obra fazia "referências desabonadoras" ao Executivo da cidade. O alvo de censura foi A polêmica, comédia de único ato, que tem lista de personagens encabeçada por "um prefeito honesto". Em determinada passagem, um tio jornalista traz na fala: "De toda esta pilha de fatos, você veria despontar o seu caráter. Ora, muito bem, cresceu, estudou, formou-se e hoje está casado. Honesto, íntegro, imaculado. Você parece capa de santo, mas não parece político brasileiro. Permite-me agora umas perguntas?".

Waldir de Luna Carneiro tem na boa prosa o orgulho de não ser homem de concessões. Responsável pela percepção crítica de várias gerações de grupos de teatro do Sul de Minas, o jornalista e dramaturgo é nome dos mais homenageados do teatro mineiro. Sua contribuição à cultura da região, lhe valeu, entre tantos outros prêmios, a Medalha da Inconfidência, em 2002. Para ele, sua vocação parece não ter segredos. "Sou um observador. Para escrever é preciso ficar atento ao que dizem. Escrever teatro é isso", ensina como quem gosta mesmo é de aprender. "Costumo chamar o que fazemos de ‘teatro de vizinhos’. Quem faz é vizinho e quem assiste também. Faço teatro especialmente para grupos amadores. É preciso muito amor para fazer teatro", revela.

As influências são muitas, variadas e de tirar o chapéu. Entre os mais facilmente reconhecidos em sua obra estão William Shakespeare (1564-1616); Gilbert Keith Chesterton (1874-1936); Giovanni Papini (1874-1936); Federico Garcia Lorca (1898-1936) e Millôr Fernandes. Combinação assim, por influência e paixão, não é de surpreender que religião, política e família sejam pratos prediletos da boa dramaturgia popular e interiorana de Waldir de Luna Carneiro. E é pelo amor ao palco, ligação com sua gente, sentido moral de suas comédias e vontade de participar nos dilemas de seu tempo que o dramaturgo mineiro merece o apelido de Shakespeare de Alfenas. Para gente como eles, a realidade é o palco do mundo e teatro é o outro nome da vida.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 20/6/10
Foto: Henrique Higino, de Alfenas


A boa idade

Por Waldir de Luna Carneiro

Há 113 nos, o médico italiano Paulo Mantegazza, era dos autores mais lidos de seu tempo e entre suas 21 obras destacava-se O elogio da velhice. Na época não se falava em "terceira idade" e quando ele anunciou um elogio à velhice acharam que era para satirizar, como fez Erasmo com a loucura. Não acreditaram que tal pudesse ser feito. Elogiar a idade da surdez, da debilidade, em que todo o dia aparece um desconforto? Ele se defendeu argumentando que a velhice não é mais que uma fase da vida normal, fisiológica, perfeita e tão necessária como todas as outras idades. Se não há dia sem o crepúsculo da tarde, não há vida perfeita sem a velhice. "Leiam a Bíblia – escreveu ele – e lá se encontram, em muitas páginas, a glorificação da velhice: no Eclesiastes, no Levítico em Jó e nos Provérbios.

Há quem pinte a velhice como uma grande desventura, um fardo molesto, uma verdadeira doença; outros a usam para gracejar, como faz o criador da Mafalda, Quino, que faz dos velhos os seus mais hilariantes desenhos e houve ainda quem comparasse a velhice com o casamento: todos desejam, mas quando alcançam se entristecem. Aristóteles, por sua vez, dizia que se há velhos incrédulos foi porque vivendo muito pecaram demais.

Felizmente já não se pinta mais a velhice como uma grande desventura, como antigamente escrevia Menandro, o comediógrafo grego, que a chamava de "fardo molesto", e Terêncio, o poeta satírico latino, considerando-a uma verdadeira doença. A velhice hoje chega a ser, "a boa idade," bastando lembrar Bernard Shaw escrevendo uma das mais importantes obras beirando os 90; o artista plástico Marc Chagall, que chegou ao auge aos 74: Bertrand Russel, aos 88 participando da cruzada pelo desarmamento nuclear, o mesmo fazendo Albert Schweitzer à causa da paz. Victor Hugo, aos 8l, defendia os republicanos. Franz Liszt começou a compor suas obras mais impressionantes beirando os 70, para não citar Verdi, que depois dos 80 deu-nos uma vibrante comédia, plena de vida: Falstaff. Claude Monet pintando aos 87; Nadia Boulanger lecionando música aos 88 e, mais recentemente, Bob Hope, que chegou aos l00. E entre nós, Oscar Niemeyer, trabalhando e vertendo talento aos mais de 100.

Num livro do cineasta Peter Bagdanovich encontramos uma frase de Orson Welles dirigida a John Ford: "O inimigo da vida é a meia idade. A juventude e a velhice é que são as grandes fases da vida. Nós precisamos dar valor à velhice, de atuar na velhice em vez de mandá-la passear."

E bem disse o nosso Ariano Suassuna: são muitas as boas idades e esse negócio de "terceira" não pega bem, só serve para fruta: verde, madura e podre.

sábado, 19 de junho de 2010

A casa da mãe morta (8)

No apartamento deixado pela mãe morta, no Bairro Aparecida, Carolina veio saber de Larissa. Porta aberta, a professora volta ao palco de conversa muita séria no dia em que conheceu Beatriz, há pouco mais de cinco anos. Foi numa noite de sexta-feira. Larissa havia acabado de entrar no banho. Carolina tomou coragem e, em vez de esperar no carro, como de costume, decidiu subir para conhecer a tão falada mãe biológica da namorada. Beatriz foi dura, implacável, diante da mulher.

– Sei quem você é. Entra.
– Com licença.

As duas mulheres, já beirando os 40, se olharam como quem procura ler pensamentos. Tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes, fizeram silêncio, interrompido apenas pelo barulho das águas do chuveiro, vindo do corredor. Carolina quis conversar.

– Larissa fala sempre em você.
– De você ela nunca diz nada.
– Ela pensa que você não vai entender.
– Posso não ter estudo, mas entendo muita coisa, dona. Minha filha tá achando que você pode ser uma boa mãe pra ela. A avó morreu, eu nunca existi, e ela precisava de alguém assim, com idade pra ser mãe dela. Você é professora dela, não é!?
– Sou a namorada dela, Beatriz.
– Mas ainda é ou foi professora também. Desconfiei quando ela andou aparecendo aqui em casa com um monte de CDs emprestados pela professora de filosofia. Canções de amor, quase sempre cantadas por lésbicas. O que falta à minha filha, senhora professora, é referência. Não me importa que ela goste de mulher. Não sou tão ignorante assim. O que me incomoda, sinceramente, é que ela não tenha a oportunidade de conhecer um homem que possa fazê-la feliz.
– Posso fazer a sua filha muito feliz.
– Não tenho dúvida disso, professora. Na minha família ninguém conseguiu ser feliz ao lado de macho nenhum. Mas a senhora já viveu um bom bocado. E a minha filha não pode conhecer o mundo apenas pelos olhos de outra.
– Bem vejo que você não conhece mesmo sua filha. À maneira dela, ela tem uma visão de mundo bem particular e melhor que nós duas juntas.
– Ela é uma criança.

Enrolada na toalha, Larissa pôs fim ao desabafo da mãe:

– Beatriz! Você não tem o direito! Carolina, você não devia ter subido.

Na cabeça de Carolina, o encontro com Beatriz foi revivido como filme. Larissa, com caixinha de segredos da mãe nas mãos, fez despertar a companheira: “Carol!”.

(Continua no próximo sábado)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19/6/10

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Poema de amor e morte

Cynthia Paulino (foto) é daquelas atrizes que todo mundo devia conhecer no tablado. Intérprete de recursos, faria bom texto falando até bula de remédio. A última canção de amor deste pequeno universo, em cartaz no Bairro Floresta, é boa oportunidade para quem ainda não conhece o trabalho da artista, que, vez por outra, desde Decameron, dirigida por Carlos Rocha, no início dos anos 1990, faz diferença nos palcos da cidade.

O novo trabalho da atriz com a Companhia de Teatro Adulto, inspirado em texto de Goethe (1749-1832), tem altos e baixos como tudo o que é experimental e apaixonado. Nele, acumulam créditos, especialmente, a dramaturgia, os figurinos (Paulo Mandatti e Cynthia Paulino) e as atuações de Cynthia, Rafael Neumayr e da revelação Alessandro Aued, que, comedido, sabe fazer brotar intenções. Salva-se até nos excessos coreográficos da direção. O que Pedro Piazzi – bisonho – e Paolo Mandatti, embora bom narrador, não conseguem superar. Com exceção de Creep, da banda Radiohead – já tão marcante em A inveja dos anjos, da Armazém Companhia de Teatro –, a trilha sonora é outro destaque da montagem.

Estão na encenação, também assinada por Cynthia Paulino, os maiores pecados de A última canção de amor deste pequeno universo. A diretora desliza ao desenhar quadrado frontal – à italiana – na semi-arena do Espaço Aberto Pierrot Lunar. Com isso, as plateias laterais, prejudicadas, assistem ao espetáculo de lado, com vários pontos cegos provocados pelo próprio elenco. Outra aposta desmedida é o gesto-palavra – físico e teatral – bem mais eficiente nas salas de estudo. Chega a ser chato ver um ator se debater sob a luz, na sobreposição do sentido.

Se por um lado, em A última canção..., a poesia de amor e morte de Goethe tem dramaturgia e roupagem eficientes, por outro, carece de olhar de fora apurador. Ainda assim, provocante, é bom programa para quem gosta do teatro essencial, que privilegia o ator e a palavra.


A ÚLTIMA CANÇÃO DE AMOR DESTE PEQUENO UNIVERSO
Hoje e amanhã, às 21h; domingo, às 19h, no Espaço Aberto Pierrot Lunar, Rua Ipiranga, 137, Floresta. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Última semana.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 18/6/10

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cala a boca Galvão!

Já é mega sucesso na internet. Enfim, "Cala a boca Galvão!" ecoa pelo globo. Virou graça para estrangeiro ver e até quem tinha a felicidade de nunca ter ouvido falar em Galvão Bueno, agora, já leu ou ouviu o nome da maior mala-matraca da história da televisão brasileira. Parece que tudo começou quando alguém escreveu "Cala a boca, Galvão" na rede mundial de computadores, num tal Twitter – espécie de mural com mensagens curtas –, durante a transmissão da festa de abertura da Copa do Mundo.

Claro que, pra variar, o falador sem noção, sabe-tudo da TV, estava lá, narrando e palpitando pelos cotovelos. Alguém, que não estava dando conta da chatice do sujeito, sentou o dedo: "Cala a boca Galvão!". Do outro lado do mundo, perguntaram algo do tipo "quem é Galvão?". Daí, a farra: muitos alguéns – dizem que até o escritor Paulo Coelho, sei lá – espalharam respostas avacalhadas, do tipo "um pássaro em extinção"; "novo sucesso da cantora Lady Gaga" e até "nome de remédio". Aí, a coisa se espalhou na velocidade da luz e virou até campanha de preservação da ave rapina. Resultado: a maior piada interna que o Brasil já promoveu na web.

Muito bom. Quem sabe, assim, o Galvão Bueno não toma jeito e baixa a bola daquele ar insuportável de comentarista sabe-tudo? Agora, vamos mudar de assunto porque a zuação já está armada e tem vida própria. Não gostei do futebol de estreia que o Brasil apresentou contra a Coreia do Norte. O placar de 2x1 não me agradou nem um pouco. Pra começar dancei no Bolão do Adelson (marquei 2x0). Quase. Aquele gol da Coreia, aos 44 minutos, estragou a minha festa. No mais, o que vi, em conjunto, foi um timinho muito burocrático e sem graça. Bem a cara do técnico Dunga. Não chego a ficar decepcionado porque não esperava muito mesmo. Mas, na hora, o coração fala mais alto e a gente até acredita que vai ver um bom futebol.

Gostei do Maicon. Não apenas pelo primeiro gol, mas porque o moço teve presença em importantes jogadas e demonstrou a habilidade que falta a mais da metade dessa seleção do Dunga. O Kaká, com o jogo de ontem, está bem longe de escrever seu nome entre os melhores da Copa. Já o Robinho, melhor, ainda fica devendo a boa performance que consegue jogando pelo Santos. Claro que sem os outros meninos da Vila é querer demais. Mas, todo mundo sabe, o moleque é muito bom de bola e tem tudo para fazer um belo mundial. Apesar do Dunga e do fraquíssimo desempenho do Brasil, continuo a acreditar na força do nosso futebol.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/6/10

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Amor e morte

Até sexta-feira, opinião assinada com pontos altos e baixos de A última canção de amor deste pequeno universo, com Cynthia Paulino (foto), no Espaço Aberto Pierrot Lunar, Rua Ipiranga, 137, Floresta. Última semana: sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h. R$ 20 e R$ 10 (meia).

sábado, 12 de junho de 2010

A casa da mãe morta (7)

Na sala do apartamento herdado no Bairro Aparecida, Larissa pausou a viagem no tempo para atender Carolina, ao interfone:

– Carolina.
– Sobe.

Carolina, 39 anos, havia sido professora de Larissa. Mulher bonita e inteligente. A idade – 14 anos de diferença – jamais foi problema entre as duas. Pelo contrário. Era justamente o que dava solidez ao namoro, que já durava sete anos. Conheceram-se na faculdade de publicidade, logo que Larissa deixou Divinópolis para morar com Beatriz, a mãe biológica, em Belo Horizonte.

No início das aulas, a moça de olhar tímido até passou despercebida pela professora de filosofia. Mas logo nas primeiras conversas em roda sobre “o mito da caverna”, de A república, de Platão, Carolina enxergou fundo o que havia em segredo no peito de Larissa. A menina criada até os 18 anos pela avó, sem pai, deixada ainda de colo pela mãe, Beatriz, guardava desejos na escuridão. Foi com Carolina, durante feriado prolongado, que Larissa teve sua primeira noite de amor. O que pareceu estranho e inexplicável, logo se fez libertador.

Foi também quando Larissa conheceu o mar. Na manhã, depois da madrugada de sexo, a estudante despertou com o sol a entrar pela janela e café da manhã na cama. Carolina sabia bem do que gostava uma mulher. Foi ela quem quebrou o silêncio:

– Você dorme bonito.
– Obrigada.
– O dia tá lindo. O mar tá azul como nunca vi.
– É tarde?
– Cedo. A praia ainda tá deserta.
– Você já foi à praia?
– Não. Vi da varandinha.
– Quero ver.
– Claro.

Larissa saltou da cama vestida apenas de camisa e calcinha. No parapeito da sacada, respirou o infinito do mar na linha do horizonte. Carolina, feliz, assistiu a Larissa como quem ama simplesmente.

Agora, no apartamento deixado pela mãe morta, Carolina veio saber de Larissa. Porta aberta, a professora volta à sala do Aparecida, palco de conversa muita séria no dia em que conheceu Beatriz.

(Continua no próximo sábado)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 12/6/10

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Bem disse Carpinejar

"O casamento deveria assinar a carteira. Não dispensaríamos quem amamos com facilidade. Não existiria separação pelo jogo de futebol com amigos ou por não descer o lixo ou por não lavar a louça ou pelas distrações involuntárias. Seríamos perdoados em nome de nossas virtudes, ainda que poucas, ainda que raras. No momento da briga, não pensaríamos no pior de nossa companhia, mas pescaríamos um motivo qualquer, um motivo remoto, para a insistência. Mesmo que o estômago seja obrigado a cumprir o papel do coração"

(Fabrício Carpinejar)

Eduardo, o samurai do Cruzeiro

Para quem faz do carro ferramenta de ganha-pão, um bom mecânico é como médico da família. Segunda-feira, pela manhã, fiquei na mão com o bravo de aço, companheiro de jornada. Pensei: “Eduardo nele”. Não deu outra: cedo ainda, com o sol a se levantar no horizonte, lá estava o bom amigo e mecânico. Com a simpatia que lhe é peculiar, identificou o mal do sujeito de lata, que, sem demora, funcionou perfeitamente. Pausa para um café, a máquina decidiu não mais pegar, sem mais nem porquê. “Vai ser melhor chamar o reboque”, disse o amigo depois de tentar reanimar o motor. Pelo celular, sem perder o sorriso e a calma luminosa, acionou outro bom parceiro de trabalho. Do outro lado da linha, o “amigão” do socorro pediu uma hora. Tempo para sentarmos embaixo de uma árvore e conversar sobre a vida. Daí, nossa Bandeira dois de hoje.

Impressiona-me as manobras de Deus com as peças no tabuleiro da vida. Somos as peças, não resta dúvida. E Deus (todo o bem que há em luz, energia e natureza) é o grande responsável pelo movimento que se dá aqui, nesse plano – tão inevitável quanto incompreensível. De resto, os sinais. Muitos sinais. Assim como a breve pausa naquela manhã de segunda-feira, com o problema mecânico que me tirou de circulação. Como diz o velho Botelho: “Em tudo temos lá as nossas compensações”. Em tempos de aperto, a feira do dia pode até fazer alguma diferença. Mas nem de longe é mais importante que a boa conversa com o admirável avô do Gabriel.

Desde que nos conhecemos – numa outra situação de aperto com o escudeiro de lata –, a amizade se fez com respeito e sinceridade. Troca justa e natural entre aqueles que valorizam a família e o compromisso acima de todas as coisas. No entanto, ainda não havíamos trocado histórias. Naquele tempo de espera pelo reboque, repassamos os momentos mais difíceis de nossas vidas. Relembramos com saudade, coração apertado e olhos em águas, da trágica perda de parentes amados, que partiram muito cedo. Falamos do Eduardo Júnior, da Gabriela, do Maurício, do Beto e da Maria Ângela, que, certamente, sorriem de onde estão agora.

Também, naquela prosa, não nos esquecemos de homenagear os que estão vivos e que nos são muito caros. Nossa razão maior de viver e de continuar na luta, entendendo que dinheiro e poder não compram saúde ou felicidade. Falamos da importância de valorizar o presente, com atitudes de amor, respeito e carinho em relação aos nossos familiares e amigos. Também esteve em pauta fé, lealdade, paciência e perseverança. O jeito pausado de dizer as palavras e a calma para lidar com os assuntos de importância me fizeram lembrar dos samurais que aprendi a admirar nos livros de artes marciais.

O reboque chegou já no fim da manhã. Junto do carrão, lá se foi o Eduardo, o mecânico-samurai do Bairro Cruzeiro. Aproveitei para tirar o dia de folga, telefonar para o pai, para os filhos e curtir a Violeta, mulher amada. Sem o carro, mas bem mais perto de Deus. Especialmente feliz com a vida e com o tudo que nela contém.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 9/6/10

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Coach



Oficina de atores para Vida Bandida, seriado de TV, com o ator, diretor, roteirista e professor de interpretação da Escola de Teatro Puc Minas, Jefferson da Fonseca Coutinho. Casting: Andréa Maia. Câmeras: Antônio Mourão e Manoel. No elenco, entre novatos, nomes dos mais expressivos da cena em Minas Gerais.
www.jeffersondafonseca.blogspot.com
jeffersondafonseca@gmail.com
Contato: (31) 9952-2901

sábado, 5 de junho de 2010

A casa da mãe morta (6)

Presente no pescoço, Larissa, aos 18 anos, não gostou do que viu no espelho e decidiu dizer à mãe biológica tudo o que lhe assombrava. Beatriz ainda era só elogio:

– Ficou linda...

– Tira.

– Como?

– Tira... porque tenho alergia. É claro que você não sabe que eu tenho alergia.

– Sinto muito.

– É melhor a gente parar com esse teatro todo... senão isso pode piorar as coisas.

– Não compreendo.

– Também não entendo bem. O que sei é que precisei de muita coragem pra vir até aqui. Lá fora, fiquei dando voltas no quarteirão, dizendo pra mim mesma que o melhor a fazer seria voltar pra Divinópolis e deixar tudo como estava. Só que a vida lá não é a mesma desde que vovó morreu. Foi como se eu perdesse a mãe duas vezes.

– Ela faz muita falta... eu sei.

– Não. Não sabe. Pra você é diferente. Éramos só as duas. Sempre foi, desde que nasci. Você era como um fantasma que de vez em quando aparecia no Dia das Mães, levando presentes... Como se isso pudesse compensar a sua falta.

– Não era essa a intenção. São tantas as coisas que moram em mim...

– Sabe, essa sua casa... aquele quarto lá no corredor... não tem nada a ver comigo.

– Larissa... sei que minha vida pode parecer estranha pra você... mas você nunca foi estranha pra mim.

– O que você fez ou deixou de fazer não importa mais... Nem sei porque que tô aqui dizendo tudo isso... eu podia simplesmente pegar a minha mochila e ir embora... mas... é estranho... eu sinto a presença da vó Mercedes, aqui, nessa sala... como se ela quisesse dizer as coisas por mim...

– Então, gostaria de saber o que ela tem pra me dizer... Tenho certeza, minha filha, que, de onde está, ela pode ouvir a gente até quando a gente não diz nada.

Emudeceram-se. Beatriz e Larissa, mãe e filha, travaram diálogo silencioso, marcado apenas pelo barulho das engrenagens do relógio velho sobre o pequeno móvel de canto. Olharam-se profundamente como se pudessem ultrapassar os limites do tempo, que, no galope das horas, somou sete anos.

Era aquele o quadro pendurado na parede da memória de Larissa, agora, aos 25, na sala onde reencontrou a mãe biológica no passado, quando veio morar em Belo Horizonte. Chegada a hora de dar rumo às coisas deixadas por Beatriz, morta por aneurisma semana antes de completar 41 anos.

O interfone toca. É Carolina.

(Continua no próximo sábado)


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5/6/10

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Massachusetts. Parece até nome de comida

Massachusetts, EUA

E seguem rendendo as últimas homenagens prestadas pelo Aqui aos artistas anônimos da cidade. E como tem gente boa, de talento e vocação, se desdobrando para ganhar o pão em Belo Horizonte, amigo leitor! O caso do advogado que queria ser pianista, publicado em nosso quintal, foi apenas o início do assunto, que vem ganhando rodas da praça. O Pedro, marido da Maria Lúcia, teve lá em casa no domingo só para me mostrar que também é fera no violão. Recém-chegado à praça, está se enturmando aos poucos. Durante muito tempo foi empregado em Governador Valadares. Passou uma longa temporada nos Estados Unidos trabalhando como lavador de carros e agora tem andado feliz da vida no Bairro Paquetá. Bom moço demais o sujeito.

Pois é. O Pedro já teve um grupo de forró e manda muito bem no violão. Contou-me que chegou a tocar por uns trocados na noite, mas a situação foi ficando tão difícil, mas tão difícil, que ele, por vezes, tocou em troca do jantar ou do almoço. “Josiel, pra você ter uma ideia, quando conheci a Maria Lúcia eu tava tocando pela comida e pelo lugar pra dormir, lá na Serra do Cipó. Tinha um conhecido que tava trabalhando numa pousada nos fins de semana e conhecia o dono de um restaurante. Aí, ele deu uma força e me deixou acampar no quintal da casa dele. Foi uma luta. Foi logo quando voltei de Massachusetts. Vim batalhar em Belô, só que já tem muita gente que canta na noite aqui e, por isso, não deu certo”, lamentou, enquanto destrinchava o franguinho que a Violeta preparou. Eu, claro, tomei nota para poder contar aqui ao nobre leitor.

A visita do Pedro e da Maria Lúcia alegrou o domingo. Violeta e eu até soltamos a voz, relembrando Legião Urbana, Zé Ramalho, Belchior, Almir Sater, Sá e Guarabyra e, evidente que não podia faltar, o maluco beleza Raul Seixas, entre outros tantos sucessos na nossa época. A cantoria rendeu até a noite e foi muito bom. O Américo, a Leila e a Cristina também apareceram para fazer parte da roda. Com a farra tão boa, estendemos o dia ao máximo, com o devido cuidado e respeito para não incomodar os vizinhos. O Pedro é realmente muito talentoso. Assim como a dupla Francisco & Adriano – homenageada aqui na semana passada –, merecia melhor sorte com a arte. Lembrei-me de muitos outros conhecidos, grandes artistas de mão cheia, que pelejam em jornada dupla. Só conhecidos, Violeta e eu contamos vários.

Inclusive, Violeta tem uma prima que tem batalhado muito para ser atriz profissional no Rio de Janeiro. Linda e talentosa, a Rafaela é vendedora numa livraria de Ipanema. Todo o tempo que tem vago ela dedica à carreira. Faz aulas de canto, dança e muita ginástica. Também vive de fazer testes para a TV e o cinema. É isso aí, Rafaela! Uma hora você emplaca, moça!

Com a cabeça no travesseiro, sem sono pelos pensamentos cruzados em meio à arte e a sobrevivência, a coluna de hoje: “Massachusetts. Parece até nome de comida”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2/6/10