Fantástico - Vai fazer o quê?

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Quando os anjos morrem na praia



Muito vem sendo dito em todo o mundo sobre a imagem no garoto sírio encontrado morto na praia de Bodrum, na Turquia. Aylan não tinha três anos. Nilufer Demir, a fotógrafa, certamente, jamais vai esquecer aquela figura capturada na primeira hora de sol, na quarta-feira, dia 2. Eu também não.

Na tragédia das águas que afogam o futuro de milhares de imigrantes, pela lente de Nilufer, o retrato silencioso de Aylan fez estremecer os cinco continentes. Por meio das grandes redes de notícias e pelas mãos de vários artistas, a foto sensibilizou lideranças e fez chorar o Papa. O menino sem vida, de bruço, com parte do rosto mergulhado na areia e com as palmas das mãozinhas para cima, à beira-mar, não é de longe o pior que pode ser fotografado nas desgraças. 

O instante eternizado, ali, em calça e camisa curtas, tocou sobremaneira o meu coração. Não é preciso ser pai ou homem de bem para indignar-se com a violência e com a estupidez de tantas guerras. Não é a primeira e, infelizmente, não vai ser a última fotografia a enquadrar a realidade mais triste de crianças, vítimas da intolerância e da falta de amor.

O inferno da guerra na Síria tem lançado adultos e bebês ao mar em busca de alguma esperança. Caso da família de Aylan. O pai, Abdullah, havia pago o equivalente a R$ 17 mil reais pela “oportunidade” de fazer a travessia com a mulher e com os dois filhos pequenos. Iria até a Grécia para depois tentar chegar ao Canadá. Abdullah perdeu tudo. Restou-lhe a vida de desespero.

Os refugiados se aventuram em botes infláveis, com capacidade para 10 pessoas. No máximo 15. Organizados por traficantes, chegam a transportar 45. Famílias inteiras, como Abdullah, a mulher e os filhos. Chama a atenção a quantidade de crianças de colo. Segundo a Anistia Internacional, só no mês passado, 30 mil refugiados chegaram a Lesbos, uma pequena ilha grega com 86 mil habitantes.

Um pesadelo sem fim. Na minha caderneta de papel pautado, na companhia da mulher e dos filhos amados, no conforto da minha casa, a garganta embarga. O sono não é bom, tomado pela imagem do pequeno Aylan. Na estante, amontoado de recortes de jornais com matérias sobre o meu Brasil, país de futuro. 

Entre as reportagens, denúncias de desvio de dinheiro de merenda escolar e de creches. Hospitais infantis fechados e ocupações miseráveis, com a boa gente miúda dormindo entre cobras e escorpiões. Vacinas e doações perdidas pela burocracia; mentiras e corrupção à esquerda e à direita. Com o coração aos pulos, um pensamento ganha o papel: “Do lado de cá, no Atlântico, nossas crianças também morrem na praia”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho