Fantástico - Vai fazer o quê?

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pequenas Histórias



Cena do filme de Helvécio Ratton, com Alfredo Viana, Maurício Tizumba, Dan Dan Costa, Glicério Rosário, Gero Camilo, Paulo José, Leo Quintão, Patrícia Pilar e Marieta Severo, entre outros bravos do teatro. Em São João del-Rei, dividir a mesa com Rita Clemente e Constantin De Tugny foi um presente e tanto.

sábado, 29 de maio de 2010

A casa da mãe morta (5)

Naquele lar estranho, Larissa tomou café e experimentou o bolo com gosto de saudade. O sabor do fubá fez com que ela se lembrasse da avó, mãe de criação, morta em Divinópolis. Pensou que poderia não ser tão ruim passar uns tempos com Beatriz, a mãe biológica. No entanto, ao avesso, havia uma força quase incontrolável que não a deixava sentir-se à vontade na casa da mulher que a abandonou há 18 anos.

Quando Beatriz, menor de idade ainda, deixou a pequena Larissa com a mãe, no interior, pensava apenas em dar vida melhor à garota. Em Belo Horizonte, sozinha, comeu o pão que o diabo amassou para dar a volta por cima. Foi doméstica, balconista de lanchonete, arrumadeira de hotel e cozinheira. Também trabalhou como sacoleira. Nos últimos anos conseguiu abrir pequena loja de roupas no Barro Preto.

Dinheirinho contado no banco, Beatriz conseguiu dar entrada em apartamento no Bairro Aparecida. Sonhou muito em levar a mãe, dona Mercedes, e a filha, Larissa – que viviam de aluguel em Divinópolis – para morar com ela na capital. Por razões que até mesmo o céu desconhece, dona Mercedes não viveu para realizar o sonho da filha. Beatriz chegou a pensar que Larissa jamais viveria com ela, tamanho abismo havia entre as duas. Mas a moça cedeu e estava ali, na sala, de xícara na mão e broa entre os dentes.

Beatriz voltou do quarto trazendo presente guardado há muitos anos. “Tá comigo há muito tempo, mas queria dar a você num dia assim, como hoje. Abre. É seu”. Larissa fez cerimônia. Por fim, abriu o pequeno embrulho como quem tem curiosidade, simplesmente: uma gargantilha em ouro, de preço e bom gosto.

– Obrigada.
– Deixa eu colocar em você.
– Não precisa. Eu coloco depois.
– Só queria ver como ia ficar...
– É de ouro?
– É. Quando comprei, levei uma amiga que sabe tudo de ouro só para ter certeza de que era mesmo de ouro.
– Legal.
– Eu ajudo... depois você tira.

Beatriz tinha as mãos até trêmulas ao enganchar a gargantilha no pescoço da filha. A menina não conseguia disfarçar o desconforto. “Que linda... Vou buscar um espelho para você ver como ficou”, disse, seguindo em direção ao corredor. Larissa se levantou para tentar ver-se refletida na janela. Com os dedos na jóia, mexia-se em busca do melhor ângulo. “Tá aqui. Olhe só como foi feita pra você, Larissa”. A menina através do espelho não pareceu gostar do que viu. Respirou tão profundo que pôde ouvir encher-se de si mesma. Embargada, decidiu dizer tudo o que lhe assombrou os anos.

(Continua no próximo sábado)
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 29/5/10

Teste 2010-R



"Eu fiquei esperando você chegar"

Teste 2010-R (barba)
Jefferson da Fonseca Coutinho, ator (3.033/MG)
www.jeffersondafonseca.blogspot.com
jeffersondafonseca@gmail.com

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Francisco & Adriano

Violeiros de mão cheia, Adriano e Francisco

Depois de falar tanto em artistas anônimos nas últimas colunas – especialmente sobre o drama do advogado que sonhava em ser pianista –, hoje não dá para deixar de fazer uma homenagem a dois violeiros que, desde 2005, andam mambembando por Belo Horizonte e região metropolitana: Francisco & Adriano. Dois cidadãos de vida dupla, que batalham pelo pão em campos dos mais distintos. Durante o dia, Francisco, 58, é encarregado de obra, bombeiro hidráulico e motorista; já Adriano, 30, de Ribeirão das Neves, é vigilante. Em comum, talento e vocação para a música de raiz.

É uma peleja, amigo leitor. Da reza não sei um terço. É uma labuta a vida desses dois. No entanto, pela prosa sincera do Francisco dá para imaginar as dificuldades que eles enfrentam para manter acesas as chamas que alimentam os sonhos. Decidi dedicar a Bandeira Dois de hoje à dupla depois de ouvir o CD Francisco & Adriano, 14 faixas selecionadas e executadas com muito esmero. O repertório é de dar gosto: Delmir e Rancho Fundo; Praense e Compadre Lima; Tonico, Maninho e Priminho; Tupi e Tupã; Ataide e Alexandre; João Gonçalves; Gino e Geno e muito mais.

A terceira faixa, Moreninha linda, é uma beleza. Deixei o disco girar no carro a semana toda. Fez-me matar a saudade dos avós, grandes admiradores da boa música sertaneja. Fiquei pensando comigo: “Que luta é a vida do artista, que não consegue viver exclusivamente da sua arte”. O Francisco, por exemplo, vive de remendar obras mal-acabadas de tudo que é tipo. Bom moço, além de ter que dá jeito no serviço, ainda tem que ter uma habilidade incrível para lidar com o dono da casa insatisfeito. Foi assim que o conheci, tentando dar jeito numa obra cheia de problemas na casa de um amigo, em Nova Lima.

Enquanto isso, o Adriano, afinadíssimo, dono de bela voz, é bravo vigilante de carreira. Sua parceria com o Francisco ainda vai dar muito o que falar. Além de shows em barzinhos e pizzarias de Ribeirão das Neves, domingo sim, domingo não os dois marcam presença no Programa Alvorada na Serra, com apresentação do Custódio Pereira, das 6h às 8h. O olho do Francisco chega a brilhar quando fala na carreira. Também fala com muito respeito e carinho sobre o companheiro Adriano. Falei muito dos dois para os amigos. Marcamos, dia desses, de prestigiar a dupla num arrasta-pé.

Peço licença aos meus editores do Aqui para dar uma força aos violeiros da melhor qualidade. Publicar os contatos para shows também, já que sonhar com as contas pagas traz mais gosto e alegria. Tomem nota: (31) 3625-8052 e 9261-8799. Sorte na vida, companheiros. Deixo aqui o meu abraço.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 26/5/10

segunda-feira, 24 de maio de 2010

La traviata

Sempre libera




[Violetta:]

Sempre libera degg´io
folleggiare di gioia in gioia,
vo´che scorra il viver mio
pei sentieri del piacer.
Nasca il giorno, o il giorno muoia,
sempre lieta ne´ ritrovi,
a diletti sempre nuovi
dee volare il mio pensier

[Alfredo:]

Amor è palpito
dell´universo intero,
misterioso, altero,
croce e delizia al cor.

[Violetta:]

Oh!
Oh! Amore!
Follie!
Gioir!

Sempre libera degg´io, ecc...


Anna Netrebko & Rolando Villazón in Verdi's La Traviata at the Salzburg Festival, conducted by Carlo Rizzi and directed by Willy Decker

sábado, 22 de maio de 2010

A casa da mãe morta (4)

O cheiro bom do café sobre a mesa tomava conta da sala. Beatriz, sem pressa, mergulhada no tempo, aguardava a filha para cortar o bolo feito na noite passada, especialmente para a ocasião. Larissa esquadrinhava o quarto montado para ela, com tudo do bom e do melhor, no final do corredor. No entanto, sentia-se desconfortável naquele cenário de nenhuma intimidade. Afinal, por 18 anos fora filha apenas da avó, dona Mercedes, morta recentemente em Divinópolis. De Beatriz, mãe biológica, guardava apenas as interrogações que lhe assombravam a cabeça desde pequeninha. Larissa voltou do quarto ainda de mochila nas costas. Colocou-a no chão, simplesmente, junto da cadeira. Sentou-se e, mascando chicletes, não olhou nos olhos de Beatriz. Para dobrar o instante, começou a brincar com a xícara sobre o pires de louça jamais usado.

O silêncio sufocava ainda mais o coração de Beatriz, excitado com a possibilidade de ter a filha morando com ela, no modesto apartamento comprado com tanto suor. Talvez pela oportunidade de reconstruir o futuro, talvez porque pensava conseguir enterrar o passado. Não sabia ao certo. Tinha apenas a convicção de que aquele, para as duas, seria um novo dia para o resto de suas vidas. Embora, por vezes, tenha ensaiado tanto o que dizer, não conseguiu organizar o pensamento. Para romper a absoluta falta de assunto, no fluxo da respiração, apenas abriu a boca para aliviar palavra:

– Deixa eu colocar sua mochila no sofá. Tem gente que diz que bolsa no chão dá azar e espanta a felicidade. Nunca se sabe. Melhor a gente não facilitar. Posso?

– Humhum.

– O bolo é de fubá. Tá longe de ficar como o da mamãe, mas foi ela quem me ensinou. Eu era pequena... acho que nem sabia andar e ela já fazia esse bolo toda noite. Tem algumas coisas que a gente não esquece. A vovó, mãe da mamãe, morava com a gente... já tava muito doente, coitada... e ela levantava toda noite só pra comer o bolo. Depois, quando ela já não dava conta de andar mais, a gente dormia junto e ela me acordava todo dia no meio da madrugada pra buscar bolo pra ela. Isso durou muito tempo. Não esqueço. A última coisa que ela fez antes de morrer foi comer um pedaço de bolo de fubá. De manhã, não acordou mais. Você nem sonhava nascer. O mais estranho é que durante anos eu pensei que a culpa tinha sido minha. Bobagem. Assunto mais chato o meu. É que comecei a falar no bolo e me perdi, viajando no tempo. Melhor você tomar o café antes que fique frio. Vou lá dentro e já volto.

Beatriz deixou a mesa segurando as águas que a afogavam por dentro. Só, Larissa deixou de brincar com a xícara para pregar o chiclete no pires. Cortou pedaço do bolo e serviu-se de café. Olhou com profundidade no entorno do cômodo e disse baixinho para si mesma: "Pode não ser tão ruim assim. Até que pode não ser".

(Continua no próximo sábado)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 22 /5/10

sexta-feira, 21 de maio de 2010

7° Prêmio Usiminas Sinparc

"No Pirex" deu a Eid Ribeiro (indicado também por "John & Joe") o prêmio de melhor direção


A cerimônia, realizada pelo Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais, envolveu 68 obras em 34 categorias. Na ocasião, os homenageados foram o arquiteto, coreógrafo e figurinista mineiro Raul Belém Machado e os 40 anos da Fundação Clóvis Salgado.

Três espetáculos se destacaram por bilheteria e público em 2009: Comi uma galinha e tô pagando o pato, do ator, autor e produtor Carlos Nunes (adulto); 22 segredos, da Cia da Dança Palácio das Artes (dança) e Flicts, com direção de Wilson Oliveira (Infantil).


TEATRO ADULTO

Melhor espetáculo
Till – A saga de um herói torto

Direção
Eid Ribeiro (No Pirex)

Ator
Christiano Junqueira (O marido da minha mulher)

Atriz
Inês Peixoto (Till – A saga de um herói torto)

Ator coadjuvante
Carlos Henrique (John & Joe)

Atriz coadjuvante
Rejane Faria (É só uma formalidade)

Revelação
Pedro Cabizuca (Bom crioulo)

Iluminação
Bruno Magalhães e Bruno Cerezolli (No Pirex)

Figurino
Márcio Medina (Till – A saga de um herói torto)

Cenário
Criação coletiva (Sgroft, Herética ou ninguém)

Trilha sonora original
Maurício Tizumba (O negro, a flor e o rosário)

Texto original
Grupo Teatro Invertido (Proibido retornar)


INFANTIL

Texto Inédito
Aksan Lindenberg, André Ferraz, Clarisse Elias, Jéssica Azevedo, Luiz Gonzaga Oliveira e Michelle Braga (A Viagem de Clara - Em busca do eu perdido)

Revelação
Clarisse Elias (A Viagem de Clara - Em busca do eu perdido)

Trilha Original
Aksan Lindenberg, André Ferraz, Germán Milich e Marcílio Rosa (A Viagem de Clara - Em busca do eu perdido)

Luz
Juliano Coelho e Wladimir Medeiros (Camaleão e as Batatas Magicas)

Cenário
Gilson Moreira Neves (Camaleão e as Batatas Mágicas)

Figurino
Alexandre Colla (A Fantástica Fuloresta)

Atriz Coadjuvante
Cristiane Andrade (Flicts)

Ator Coadjuvante
Rafael Neves (A Princesa Encantada)

Atriz
Anna Campos (A Viagem de Clara - Em busca do eu perdido)

Ator
Leonardo Fernandes (Flicts)

Diretor
Wilson Oliveira (Flicts)

Espetáculo
A Viagem de Clara - Em busca do eu perdido (Confesso! Cia de Teatro)


DANÇA

Trilha Sonora
Daniel Maia e Sônia Mota - 22 Segredos, Cia. de Dança Palácio das Artes

Concepção Cenográfica
Ed Andrade - Por Um Fio, Mimulus Cia. de Dança

Criação de Luz
Rodrigo Marçal - Por Um Fio, Mimulus Cia. de Dança

Figurino
Ananda Sette, Botões - Continue Reto, Sempre em Linha Reta! E Vai com Deus..., Camaleão Grupo de Dança

Concepção Coreográfica
Jomar Mesquita e Mimulus Cia. de Dança - Por um Fio, Mimulus Cia. de Dança

Bailarina Revelação
Amanda Santana - Contracapa, Ballet Jovem Palácio das Artes

Bailarino Revelação
Bruno Rodrigues - Contracapa, Ballet Jovem Palácio das Artes

Bailarina
Tiça Pinheiro - Continue Reto, Sempre em Linha Reta! E Vai com Deus..., Camaleão Grupo de Dança

Bailarino
Rodrigo de Castro - Por um Fio, Mimulus Cia. de Dança

Melhor Espetáculo
Por Um Fio - Mimulus Cia. de Dança
Fonte: Sinparc

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sobre o Cruzeiro e outros valores

Hoje vai ser preciso dominar a síntese para aproveitar melhor o espaço. Há muito na cabeça e na ponta dos dedos para fazer correr as linhas na caderneta. Primeiramente, é preciso agradecer aos leitores que comentaram “Um piano para enfeitar a sala”, publicado em nossa última Bandeira dois. Foram muitos os que se identificaram com a história do advogado que queria ser pianista. Marina, do Bairro Silveira, escreveu: “Tem muita gente que, seduzida pelo dinheiro, deixa de lado seus verdadeiros dons, Josiel. Muito mais vale ser realizado profissionalmente, mesmo que no aperto, do que passar a vida na frustração, com o bolso cheio de dinheiro”.

O Rubinho, cinegrafista dos bons, leitor e amigo de infância, atualmente morando e trabalhando em Roraima, mandou recado: “Vivo na pindaíba, meu velho, mas sou feliz demais com a máquina no ombro, você sabe. E a gente segue na alegria porque, como você lembrou bem, dinheiro não traz felicidade. Muita paz, aí, aos amigos da terrinha. Daqui de Roraima acompanho Belo Horizonte pelo portal Uai”. Também marcaram presença Tião, Elísio, Bianca, Fernandinha e Alessandro. Mais uma vez, meu abraço.

Em segundo lugar, não posso deixar de comentar o livro Os dez mais do Cruzeiro, escrito pelo jornalista Cláudio Arreguy, que já está à venda na cidade. Estou com o meu exemplar lido e posso dizer: é de dar gosto. O Arreguy sabe das coisas e reuniu uma turma especializada para ajudá-lo na difícil missão de eleger os melhores entre os melhores de todos os tempos da equipe celeste. O texto é leve, elegante, cheio de informação e curiosidades. Não tem nada daquela gastação de confete – tão comum em livros do gênero. O autor, por momento algum, quis aparecer mais do que os craques da bola. Manteve-se ali, no meio de campo, com domínio absoluto da palavra, garçom, servindo com generosidade o timão eleito. O resultado é gol de letra pra leitor nenhum botar defeito. Os nomes dos escolhidos não vou dizer aqui. Claro, gente. É para que o leitor fique curioso e prestigie o trabalho do escritor. Parabéns, Cláudio Arreguy.

Por fim, já beirando os limites de nosso quintal, não posso deixar de comentar o trabalho de alguns grupos musicais da cidade, desconhecidos, que andam batalhando pelo pão aos domingos. Na Avenida Abílio Machado, ali pelas bandas do Bairro Alípio de Melo, fiquei bastante impressionado com dupla sertaneja fera no gogó e na viola, que alegrava os consumidores de um pequeno grupo lojista. Grande audiência teve a performance do duo de violeiros. Mais adiante, a poucos quilômetros dali, na Avenida Santa Terezinha, era a vez de grupo de pagode dar show para a moçada do Bairro Santa Terezinha. Até a Violeta, que tem pavor de pagode, elogiou: “Isso tá tão bom que mais tá parecendo é samba”. Está certo. Retratos da Belo Horizonte viva, com sua legião de artistas anônimos, em busca de algo de bem mais valor que o tal dinheiro.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 19/5/10

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vincent e O comedor de batatas

As duas semanas em cartaz no Teatro Sesi Holcim, em comemoração pelos 15 anos de "Vincent", foram inesquecíveis. Marisa, Elisa, Gabriel e Aloisio foram fundamentais para o êxito da fusão dos dois espetáculos. Agora, "Vincent" e "O comedor de batatas" formam um terceiro trabalho, em nova etapa da Companhia Mínima de Arte Contemporânea. Aos amigos que compareceram, nosso muito obrigado.

A foto acima é de Antônio Mourão, da Éfra Foto e Vídeo, que também comandou as filmagens de uma das apresentações no Sesiminas. Toninho, Átila e Fabíola, valeu!

sábado, 15 de maio de 2010

A casa da mãe morta (3)

Ao vencer os degraus, Larissa deu de cara, no topo da escada, com a porta do 402 aberta. Beatriz quis sorrir, mas teve medo da reação da menina. Então, armou rosto neutro, quase sem expressão: “Entra. Acabei de passar um café”. A sós, mãe e filha frente a frente. Pelos desdobramentos do tempo, inexorável, havia uma atmosfera carregada de distância entre as duas mulheres. O instante falseou pausa interminável até que Larissa decidisse entrar. Beatriz quis quebrar o gelo:

– Não repare. As coisas ainda estão fora de ordem. Morar sozinha é bom, mas é ruim porque a gente sempre acaba deixando alguma coisa pra fazer depois. Sei lá, acho que é porque não tem ninguém além de você mesma pra cobrar ou pra ver que as coisas estão fora do lugar. O tempo passa rápido, aí, quando você vê, a casa tá desarrumada.

– Legal aqui.

– Ainda falta muito. O apartamento é velho, tava caindo aos pedaços. Ficou fechado por mais de ano. O dono morreu, aí os filhos ficaram brigando na Justiça. Tem pouco tempo que eu consegui acertar a documentação. Deu mais trabalho porque tinha ficado faltando uma certidão que tava perdida com alguém da família do proprietário, lá no interior da Bahia. Foi um problema. Mas agora já tá tudo resolvido e o apartamento é meu. Quer dizer... é nosso, se você quiser ficar morando aqui.

– É só por um tempo.

– Claro. O tempo que você quiser. O seu quarto, o quarto que eu preparei pra você, fica no final do corredor. Vai lá deixar suas coisas enquanto eu arrumo a mesa pra gente tomar o café que eu acabei de passar.

– Com licença.

Para Beatriz, o diálogo, quase monólogo, durou uma eternidade. Em 18 anos, ela jamais havia falado tanto na presença da filha, criada por dona Mercedes, morta recentemente. Dali em diante, na família – elas sabiam – eram só as duas. Enquanto Beatriz preparava a mesa para o café, Larissa conferia o quarto montado especialmente para ela. De fato, parecia o único cômodo planejado da casa. Com tudo novinho em folha, até com escrivaninha e computador. Roupas de cama perfumadas e bichinhos de pelúcia sobre aconchegantes almofadas coloridas. Criado, abajur, estante e sofazinho cor-de-rosa.

Na sala, a dona da casa, sentada à mesa, aguardava Larissa para o café. Era dia bastante especial para Beatriz, que sonhou muito ter a filha por perto. Lamentava, no entanto, que isso só se tornara possível agora, depois da morte da mãe, em Divinópolis. Durante anos, não houve dia em que viver ao lado das duas não tenha lhe passado pela cabeça.

(Continua no próximo sábado)

Arte: Ann Wolff / Mother Daughter / Glass collage cased in steel

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 15/5/10

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Última semana

Hoje e amanhã, às 21h, e domingo, às 19h, tem "Vincent" e "O comedor de batatas" no Teatro Sesi Holcim (Rua Padre Marinho, 60 - Santa Efigênia). O programa duplo faz parte das comemorações pelos 15 anos do espetáculo inspirado em cartas de Van Gogh.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um piano para enfeitar a sala

Parece clichê, e até pode ser, mas é grande verdade: dinheiro não traz felicidade. Na praça vemos de tudo. E como vemos. Basta ser bom ouvinte para aprender muitas coisas. Volta e meia valores estão na roda. Não dá para negar que ter grana ajuda e até simplifica isso ou aquilo. Isso somente. Nada mais. Por tudo, sou levado a crer que, de maneira geral, nós homens somos chegados num problema. Quando tudo pode se ajeitar, mais cedo ou mais tarde complicamos os entrementes. Fácil assim: por pura vocação para caçar chifre em cabeça de cavalo.

Já vou explicar o porquê do parágrafo acima, que escrevi logo depois de corrida cinematográfica. Cinematográfica porque o casal que me tomou o táxi, de tão magro e elegante, mais parecia ter saído de um filme do Tim Burton. Busquei-os numa festa em casa chique à beira da Lagoa da Pampulha. Estavam sóbrios. Não pareciam ter bebido além da conta. Estavam à vontade, no máximo. Queria muito, aqui, reproduzir o diálogo que testemunhei. Mas, por melhor que seja minha memória, não consigo. Falaram à beça. Coisas sobre como a família lida com o patrimônio, com dinheiro, coisa e tal. Pelo que pude entender, a mulher, muito inteligente, veio de família que não dá muita importância a bens materiais. Valoriza apenas o estudo e a educação.

E isso nem foi ela quem disse. Foi o homem: “Você não sabe dessas coisas porque sua família não está nem aí pra dinheiro. Sua mãe vive dizendo que herança é educação. Seu pai gosta é de curtir a vida ao lado da sua mãe. Vive viajando, gastando todo o dinheiro que eles têm com eles mesmos”, foi o que, mais ou menos, consegui decorar. Pareceu-me que os pais da garota, de, no máximo, 30 anos, não estão nem um pouco preocupados com os bens que vão deixar para ela e os dois outros filhos. Querem apenas que eles tenham (e saibam) como avançar na vida com as próprias pernas. Já a família do homem – pouco mais velho que ela – só pensa em patrimônio. Em ter mais e mais. “Você sabe na minha casa como é. Meu pai, meu avô, todo mundo. Desde garoto, ouço que a gente tem a obrigação de multiplicar o que a gente tem. Isso é terrivel. Dinheiro tem, mas nunca vi tanta gente infeliz”, lamentou o sujeito.

Ipsis litteris, foi só o que dei conta de anotar depois que os deixei no Bairro Cidade Jardim. Mas durante toda a corrida, ouvi muito mais coisas interessantes. Mais do moço. A mulher não era de falar muito. A questão é que o homem, advogado, não estava muito feliz em trabalhar para o escritório do pai. Queria, profissionalmente, se dedicar à música. Sonhava viver da arte, sem contrariar a família. Lamentou não poder se dedicar ao piano, que para o pai só é tolerável como hobby, já que não dá dinheiro. Toda a conversa começou por causa do belo piano de cauda, enfeite apenas, na casa do tio, onde foi a festa. Ele achou um absurdo o tio, bastante endinheirado, ter comprado o instrumento apenas para deixar o casão ainda mais chique.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 12/5/10

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Vincent, 15 anos

"Tudo o que é verdadeiramente bom e belo, de beleza interior moral, espiritual e sublime nos homens e em suas obras, acredito que vem de Deus. E tudo o que há de mal e de ruim, nas obras dos homens e nos homens, não é de Deus e Deus também não o acha bom. Mas, involutariamente, sou levado a crer que a melhor maneira de conhecer Deus é amar muito: ame tal amigo, tal pessoa, tal coisa, o que quiser, e você estará no bom caminho para depois saber mais. Melhor e mais. Eis o que digo a mim mesmo. Mas é preciso amar com uma grande e séria simpatia íntima. Com inteligência. Com vontade. E é preciso sempre procurar saber mais. Melhor e mais. Isso conduz a Deus. Isso conduz à fé inabalável". Van Gogh

Lá se foi o primeiro fim de semana no Teatro Sesi Holcim. Flores na estreia; um belo girassol no domingo. Sem falar na presença da mãe de uma família que também é minha. Há 15 anos, na carne, "Vincent" me ensina o amor acima de todas as coisas. Ora doído, ora o paraíso. Dividir o palco com os companheiros Emílio e Ferdinando, de "O comedor de batatas", é mais um presente do meteoro holandês. Na próxima semana tem mais. Sexta e sábado, às 21h, e, domingo, às 19h. Marisa e Elisa, obrigado! Vocês trouxeram outro fôlego à produção.

sábado, 8 de maio de 2010

A casa da mãe morta (2)

Véspera de Dia das Mães, como hoje. Com a morte da avó, Larissa, de Divinópolis, foi parar na rua de Beatriz, em Belo Horizonte. Manhã de movimento nas lojinhas que cercavam o prédio reformado de quatro andares no Bairro Aparecida. Antes de tocar o interfone, a garota circulou repetidas vezes pelo quarteirão. Talvez para criar coragem, talvez para mudar de ideia. Não se pode saber. Mesmo sem opção que a desagradasse menos, morar com a mãe – que a deixou de colo nos braços de dona Mercedes – provocava algo que ela, aos 18 anos, ainda não dava conta de entender.

No apartamento, no 4º andar, Beatriz passou a noite em claro. Ainda triste pela mãe morta em Divinópolis. Toda a distância dos últimos tempos, agora, pesava-lhe uma tonelada. Contou nos dedos as vezes em que esteve com dona Mercedes e Larissa. Esforçou-se, mas não conseguiu se lembrar da voz da mãe. Na noite anterior, soube por telefone que Larissa estava para chegar.

– Beatriz?
– É ela.
– Você não me conhece, sou amiga da Larissa.
– Sim.
– É que ela pediu pra ligar e dizer que chega aí amanhã cedo.
– Obrigada.

A ficha não caiu imediatamente. Beatriz quase não acreditou que Larissa havia aceitado o convite feito no velório, dois meses antes, em conversa estranha, iniciada por ela.

– Tá aqui o meu endereço e telefone para o caso de você não ter e precisar de alguma coisa. Comprei um apartamento lá em Belo Horizonte. Mamãe não tinha casa e você vai precisar de um lugar pra ficar. O seu aluguel já está acertado por mais um tempo. Preciso do número da sua conta pra mandar o dinheiro que eu mandava pra ela.
– Não precisa mais.
– É só pra pagar a faculdade até você arrumar um trabalho.

Horas mais tarde, as duas – mais irmãs do que mãe e filha – enterraram dona Mercedes. Cada uma seguiu seu rumo. Larissa, no interior, e Beatriz, na capital.

De volta ao sábado, quando a garota decidiu deixar Divinópolis, o sol ganhava altura. Larissa tocou o interfone e fez saltar o coração de Beatriz: “Sim”. “Larissa”. Da portaria até a porta do apartamento foi uma eternidade. A menina dispensou o elevador por vontade de fazer melhor uso do tempo. Ao vencer os degraus, no topo da escada, deu de cara com a porta aberta do 402. Beatriz quis sorrir, mas teve medo da reação da menina. Então, armou rosto neutro, quase sem expressão: “Entra. Acabei de passar um café”.

(Continua no próximo sábado)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 8/5/10

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Estreia hoje no Sesi Holcim


Hoje, às 21h, tem "Vincent" e "O comedor de batatas", no Sesi Holcim. São 15 anos como Van Gogh. Espero vocês!


No jornal Estado de Minas, João Paulo, editor de Cultura, escreveu:

Luz e sombra

Programa duplo reúne as peças Vincent e O comedor de batatas, tendo como traço de união o destino Van Gogh e a busca do sentido da vida

Van Gogh é um personagem único da história da arte. Amado por milhões de pessoas em todo o mundo, suas principais obras são hoje referência na pintura ocidental. O artista holandês é também um dos casos mais marcantes no longo caminho do sofrimento humano: não obteve reconhecimento em vida, frustrou-se nos amores, na religião e na família. Além disso, o pintor de dos girassóis foi também autor de uma das correspondências mais profundas e intensas de seu tempo. Juntar todos esses aspectos é o objetivo do monólogo Vincent, do ator e diretor Jefferson Coutinho, que completa 15 anos de trajetória.

Para marcar a data, a peça ganha apresentação especial, em programa duplo, com a montagem O comedor de batatas, do mesmo diretor, com os atores Ferdinando Ribeiro e Emílio Zanotelli. O nome é uma referência a um dos mais conhecidos trabalhos de Vincent Van Gogh. Ao reunir as duas peças em espetáculo único, os artista pretende criar um diálogo entre os textos, as técnicas expressivas e, sobretudo, responder à pergunta que perseguiu Van Gogh durante toda sua vida: “Existe algo dentro de mim?”.

Vincent é composto de cartas que o pintor escreveu ao irmão Théo. Van Gogh vivia momento de grande incerteza, solidão e melancolia. Sua correspondência é um documento humano, mas de grande força literária. “Comecei a decorar as cartas e vi que era possível fazer teatro a partir delas. Algumas pessoas diziam que era chato, que nada acontecia. Não acontecer nada, na realidade, foi um ponto de partida”, conta Jefferson.

As cartas de Van Gogh se tornaram leitura de cabeceira do ator, que foi memorizando dezenas delas até perceber a necessidade de estruturar o espetáculo. Novos elementos foram chegando: o texto de Antonin Artaud (Van Gogh e o suicidado da sociedade); algumas ideias foram se tornando obsessivas, como a noção de fuga e de amor; e o espetáculo foi sendo desenhado de dentro para fora. “Tinha nas mãos um teatro de bolso, de 35 minutos. Fiquei um ano fazendo no bar do Paco Pigale ,muita vezes para uma única pessoa”, lembra.

Se engana quem acha que se trata de um teatro triste, para poucos. Van Gogh atrai interessados de todos os lugares e idades. “A peça tinha potencial para se tornar objeto de estudo. Fiz um trabalho com rede particular de ensino e depois com escolas públicas. Apresentava o espetáculo e debatia com os alunos. Foram mais de 100 mil alunos em Minas e no Espírito Santo. Em algumas ocasiões, apresentei para mais de 1,2 mil pessoas. De um a 1,2 mil, sempre com a mesma emoção”, garante o ator.


ABSURDO E REALIDADE

A outra montagem que compõe o programa nasceu de um personagem de um quadro de Van Gogh. Mas O comedor de batatas é trabalho de ficção, com toques de teatro de absurdo, com influências de Beckett e Ionesco. A estrutura é semelhante, o clima igualmente intimista e perpassa a mesma sensação de ausência de saída. A proposta de fusão dos dois espetáculos parte dessas identidades. Quando termina O comedor de batatas é hora de Vincent entrar em cena.

Jefferson da Fonseca credita ao monólogo os melhores momentos de sua vida de ator. “Em algumas ocasiões o personagem perdeu os limites do palco. Em Curitiba, depois de uma apresentação, fui convidado por um grupo de punks para ir com eles beber na noite da cidade. O convidado foi Vincent, que foi caracterizado e desafiado a improvisar sobre a realidade que enfrentava”, conta. Para o ator, foi mais uma das lições de Van Gogh. “Vincent é uma aula de humildade.”, sintetiza.

O ator defende atualidade da peça exatamente nessa busca de relativizar os valores. Assim como o pintor não sabia qual seria seu destino, os homens e mulheres de hoje estão perdidos na confusão de valores. “Existe algo dentro de mim?”: Vincent e O comedor de batatas são peças para quem faz perguntas.


VINCENT E O COMEDOR DE BATATAS
Com Jefferson da Fonseca Coutinho, Ferdinando Ribeiro e Emílio Zanotelli. Hoje e amanhã, às 21h; domingo, às 19h, no Teatro Sesi Holcim, Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, (31) 3241-7181). Ingressos: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia-entrada); R$ 10 (estudantes de teatro).

João Paulo - Estado de Minas - 7/5/10

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Ainda sobre os filhos dos descasados

“Sobre os filhos dos descasados” – Bandeira dois publicada na semana passada – daria uma série. Impressionante como o tema provoca quem conhece bem o assunto. E, infelizmente, ser pai ou mãe na condição de descasado tem se tornado cada vez mais comum. Foi o que lembrou bem o leitor Luciano, morador do Bairro Glória. Escreveu: “Gostei muito da coluna porque já passei por isso e foi o fim. Voltei das férias uma vez, depois de viajar três semanas com a mulher, e quis ficar uma semana com meu filho do primeiro casamento. A danada implicou e foi um inferno. Eu tava morrendo de saudades do meu filho. Ainda não tinha um ano que a gente tava casado. Tudo que eu mais queria era que os dois se dessem bem, mas não foi o que aconteceu. Ela começou a querer ficar na casa da mãe e fez muita cara feia pro meu filho. Aí, queimei no golpe e mandei ela catar coquinho. Não me arrependo de jeito nenhum. Antes só do que mal acompanhado. Se quiser, pode publicar isso aí, Josiel”. Está publicado, Luciano.

É. Não pode mesmo haver disputa nem ciúmes em relação a isso. Só amor de verdade é capaz de fazer brotar o discernimento que a questão exige. É verdade que às vezes a paixão se sobrepõe à razão e tem gente que acaba fazendo besteira. Conheço um cidadão que perdeu completamente o rumo ao se envolver com uma mulher fora do casamento. Deixou a família – mulher e cinco filhos – por causa de um rabo de saia que encontrou numa viagem de negócios. Manteve o caso por uns seis meses e resolveu chutar o pau da barraca para viver o novo amor. Mas o pior estava por vir. A nova mulher, por ciúmes doentio, fez de tudo para afastá-lo dos filhos. Tanto fez que o convenceu a se mudar para outra cidade. Para encurtar a história, que é bem longa, por fim, quase duas décadas passadas, dos cinco filhos apenas a caçula tem algum carinho pelo meu conhecido. Os outros não demonstram o menor afeto. Deram o maior gelo nele, que está descasado há mais de cinco anos.

Ultimamente – soube pelo Adelson, que é muito amigo dele –, tem feito de tudo para se reaproximar da família. Nada. Da última vez que nos encontramos, lá em Santa Mônica, no Espírito Santo, ele estava chateadíssimo com uma conversa que teve por telefone com o filho mais velho. Contou-me que o moço foi muito duro, dizendo que a escolha havia sido dele e que, agora, era tarde demais. O Adelson e eu, outro dia, conversamos sobre a situação dele. O Adelson, de tão amigo, certa vez, há muitos anos, até foi com ele na casa da ex-mulher e dos filhos. Ele veio escondido da nova mulher, porque tinha medo de que ela soubesse. Segundo o Adelson, queria se desculpar e ver como estavam. Foi recebido com a maior frieza e saiu de lá expulso por dois ex-cunhados que estavam na casa. “Um fiasco”, foi o que o Adelson contou, dizendo ainda que, no táxi, depois que eles saíram de lá, o homem, rumo à rodoviária, chorou de soluçar.

Não é fácil lidar ou tentar entender situações assim. Fato é que o tempo é inexorável e que não há ação sem reação. Penso nisso o tempo todo. Por mais difícil que seja agir com coerência e em paz com o coração.


Bandeira Dois - Josiel Botelho - 5/5/10

sábado, 1 de maio de 2010

A casa da mãe morta (1)

Dia de revirar o passado. Larissa, 26 anos, filha única, adiou o tanto que pôde assumir o apartamento deixado pela mãe. Criada em barracão de aluguel pela avó, filha de pai desconhecido, a moça precisava dar rumo no único bem deixado pela Beatriz. Nada de mais, não fosse o imóvel, em bairro de periferia, conquista de uma vida de dificuldades. Logo que o inventário saiu, Larissa pensou vendê-lo com o que nele havia: móveis, objetos, roupas, tudo. Depois, aconselhada pela namorada Carolina, decidiu tentar entender o passado por meio do que, agora, era seu por direito: o quarto da falecida, carregado de segredos ao longo de uma breve existência.

Beatriz, lojista no Barro Preto, morreu vítima de aneurisma semana antes de completar 41 anos. “Tão cedo. Uma menina”, foi o que se ouviu no velório do Cemitério da Paz, em manhã de céu azul, com meia dúzia de presentes. Larissa estava lá, ao lado da companheira Carolina. Era a única parente no lugar. Beatriz nasceu de família pequena. Também foi filha única de mãe viúva. Quando deixou Divinópolis, sem colegas ou amigos, engravidada por sujeito qualquer, só voltou à terra natal para entregar Larissa, de colo, aos cuidados da mãe. Foi numa tarde chuvosa de domingo. Havia dois anos que a desaparecida não dava notícias. Voltou e bateu palmas, simplesmente.

Dona Mercedes custou a acreditar no que viu através da janela: sob a pequena sombrinha amarela, a filha e a neta em busca de abrigo. Beatriz não demorou ou disse palavra. Entregou a filha e uma sacola cor-de-rosa. Beijou a testa da criança, envolta em manto encardido, evitou encarar a mãe, e partiu sem olhar para trás. A viúva, salgadeira, dizia que aquele havia sido o dia mais marcante de toda a sua história. “Minha neta foi a filha que Deus me deu pela barriga da Beatriz”, falou certa vez, com a menina no colo, aos carinhos, numa fila para ser atendida no posto de saúde.

Dona Mercedes foi bem mais que mãe de Larissa. Por motivo que ninguém nunca soube – alguns comentavam vergonha –, Beatriz não frequentava Divinópolis. Vez por outra, em domingo de maio, apenas, aparecia para ver a mãe e a filha. Juntas, não eram de muita conversa. Nem costumavam se tocar. Larissa não fazia o menor esforço para gostar da mãe. Na verdade, jamais a perdoou por deixá-la com a avó. A menina só não sabia do passado difícil, de agruras, da jovem mãe. Beatriz, por ocasião da gravidez, ainda não havia completado 16. Mocinha, já empregada doméstica, foi engravidada pelo patrão casado e mulherengo. Encrencado na região, o homem se mudou da cidade com a família para nunca mais.

Os anos se somaram depressa e Larissa cresceu. Dona Mercedes, desde que teve Beatriz, passou a sofrer de graves problemas de circulação. Foi levando a doença como dava, até que precisou passar por complicada cirurgia. Quis Deus, por embolia, levar a salgadeira. Na época, Larissa, aos 18, aceitou morar com Beatriz no apartamento que viria a herdar agora, sete anos mais tarde.

(Continua no próximo sábado)


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 1/5/10

15 anos de "Vincent"


Vincent comemora 15 anos com programa duplo seguido por O comedor de batatas, no Teatro Sesi Holcim. O projeto, chamado 2x1, tem preço único para os dois trabalhos. Serão duas apresentações com uma entrada. Vincent, inspirado em cartas de Van Gogh, e O comedor de batatas, juntos, cumprem agenda de apenas duas semanas (de 7 a 16 de maio, sextas e sábados, às 21h; e, aos domingos, às 19h).

Vincent, por Jefferson da Fonseca Coutinho, foi levado à cena pela primeira vez em 1995, na sala João Ceschiatti, durante trabalho para o curso profissionalizante de teatro do Palácio das Artes. Desde então, além de temporadas regulares, o monólogo vem percorrendo diversas cidades do Brasil em parceria com professores, psicanalistas e estudiosos da obra de Van Gogh. Em 15 anos, a montagem foi vista por cerca de 100 mil alunos de escolas públicas de Minas Gerais e do Espírito Santo.

Concebido teatro de bolso, intimista e de fácil adaptação para espaços alternativos, Vincent tem supervisão geral do professor e crítico de arte, Marcello Castilho Avellar. A adaptação, baseada em cartas do pintor holandês ao irmão, Theo, reúne ainda textos de Antonin Artaud e William Shakespeare.


Do absurdo que há na realidade

O comedor de batatas, espetáculo-parceiro pelos 15 anos de Vincent, é inspirado em quadro de Van Gogh e no gênero Teatro do Absurdo. A peça é desdobramento de Chovia, mas os ladrões não usavam guarda-chuvas, do mesmo autor e diretor de Vincent, encenada em Belo Horizonte, em 2005 e 2006.

Também intimista, O Comedor de Batatas, com Emilio Zanotelli e Ferdinando Ribeiro, fala das escolhas que o homem faz diante das esquinas desenhadas por seus caminhos. O espaço, cômodo qualquer isolado do mundo exterior, propõe trazer o espectador, enclausurado, para dentro de si mesmo. “Estamos todos sem rumo. Não sabemos quem está para entrar ou para sair quando abrimos nossas portas”, diz trecho.

Os ingressos custam R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia-entrada); e
R$ 10 (estudantes de teatro).


Vincent e O comedor de batatas
Supervisão Geral: Marcello Castilho Avellar. Com Jefferson da Fonseca Coutinho, Ferdinando Ribeiro e Emílio Zanotelli. Teatro Sesi Holcim (Rua Padre Marinho, 60 – Santa Efigênia – 3241-7332). De 7 a 16 de maio. Sextas e sábados, às 21h; domingos, às 19h. Ingressos: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia-entrada); R$ 10 (estudantes de teatro).

Contato: Ferdinando (9774-3214) e Jefferson (9952-2901).