Van Gogh - Temporada 2017

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Estreia dia 17, no Teatro Marília

sábado, 8 de maio de 2010

A casa da mãe morta (2)

Véspera de Dia das Mães, como hoje. Com a morte da avó, Larissa, de Divinópolis, foi parar na rua de Beatriz, em Belo Horizonte. Manhã de movimento nas lojinhas que cercavam o prédio reformado de quatro andares no Bairro Aparecida. Antes de tocar o interfone, a garota circulou repetidas vezes pelo quarteirão. Talvez para criar coragem, talvez para mudar de ideia. Não se pode saber. Mesmo sem opção que a desagradasse menos, morar com a mãe – que a deixou de colo nos braços de dona Mercedes – provocava algo que ela, aos 18 anos, ainda não dava conta de entender.

No apartamento, no 4º andar, Beatriz passou a noite em claro. Ainda triste pela mãe morta em Divinópolis. Toda a distância dos últimos tempos, agora, pesava-lhe uma tonelada. Contou nos dedos as vezes em que esteve com dona Mercedes e Larissa. Esforçou-se, mas não conseguiu se lembrar da voz da mãe. Na noite anterior, soube por telefone que Larissa estava para chegar.

– Beatriz?
– É ela.
– Você não me conhece, sou amiga da Larissa.
– Sim.
– É que ela pediu pra ligar e dizer que chega aí amanhã cedo.
– Obrigada.

A ficha não caiu imediatamente. Beatriz quase não acreditou que Larissa havia aceitado o convite feito no velório, dois meses antes, em conversa estranha, iniciada por ela.

– Tá aqui o meu endereço e telefone para o caso de você não ter e precisar de alguma coisa. Comprei um apartamento lá em Belo Horizonte. Mamãe não tinha casa e você vai precisar de um lugar pra ficar. O seu aluguel já está acertado por mais um tempo. Preciso do número da sua conta pra mandar o dinheiro que eu mandava pra ela.
– Não precisa mais.
– É só pra pagar a faculdade até você arrumar um trabalho.

Horas mais tarde, as duas – mais irmãs do que mãe e filha – enterraram dona Mercedes. Cada uma seguiu seu rumo. Larissa, no interior, e Beatriz, na capital.

De volta ao sábado, quando a garota decidiu deixar Divinópolis, o sol ganhava altura. Larissa tocou o interfone e fez saltar o coração de Beatriz: “Sim”. “Larissa”. Da portaria até a porta do apartamento foi uma eternidade. A menina dispensou o elevador por vontade de fazer melhor uso do tempo. Ao vencer os degraus, no topo da escada, deu de cara com a porta aberta do 402. Beatriz quis sorrir, mas teve medo da reação da menina. Então, armou rosto neutro, quase sem expressão: “Entra. Acabei de passar um café”.

(Continua no próximo sábado)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 8/5/10

2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns Jefferson!
Estou encantada pelo seu trabalho..
Rcassia
Fpolis/ SC

JFC disse...

Obrigado pelo carinho, Rcassia! Privilégio ter vc neste quintal. Dê notícias!