Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um piano para enfeitar a sala

Parece clichê, e até pode ser, mas é grande verdade: dinheiro não traz felicidade. Na praça vemos de tudo. E como vemos. Basta ser bom ouvinte para aprender muitas coisas. Volta e meia valores estão na roda. Não dá para negar que ter grana ajuda e até simplifica isso ou aquilo. Isso somente. Nada mais. Por tudo, sou levado a crer que, de maneira geral, nós homens somos chegados num problema. Quando tudo pode se ajeitar, mais cedo ou mais tarde complicamos os entrementes. Fácil assim: por pura vocação para caçar chifre em cabeça de cavalo.

Já vou explicar o porquê do parágrafo acima, que escrevi logo depois de corrida cinematográfica. Cinematográfica porque o casal que me tomou o táxi, de tão magro e elegante, mais parecia ter saído de um filme do Tim Burton. Busquei-os numa festa em casa chique à beira da Lagoa da Pampulha. Estavam sóbrios. Não pareciam ter bebido além da conta. Estavam à vontade, no máximo. Queria muito, aqui, reproduzir o diálogo que testemunhei. Mas, por melhor que seja minha memória, não consigo. Falaram à beça. Coisas sobre como a família lida com o patrimônio, com dinheiro, coisa e tal. Pelo que pude entender, a mulher, muito inteligente, veio de família que não dá muita importância a bens materiais. Valoriza apenas o estudo e a educação.

E isso nem foi ela quem disse. Foi o homem: “Você não sabe dessas coisas porque sua família não está nem aí pra dinheiro. Sua mãe vive dizendo que herança é educação. Seu pai gosta é de curtir a vida ao lado da sua mãe. Vive viajando, gastando todo o dinheiro que eles têm com eles mesmos”, foi o que, mais ou menos, consegui decorar. Pareceu-me que os pais da garota, de, no máximo, 30 anos, não estão nem um pouco preocupados com os bens que vão deixar para ela e os dois outros filhos. Querem apenas que eles tenham (e saibam) como avançar na vida com as próprias pernas. Já a família do homem – pouco mais velho que ela – só pensa em patrimônio. Em ter mais e mais. “Você sabe na minha casa como é. Meu pai, meu avô, todo mundo. Desde garoto, ouço que a gente tem a obrigação de multiplicar o que a gente tem. Isso é terrivel. Dinheiro tem, mas nunca vi tanta gente infeliz”, lamentou o sujeito.

Ipsis litteris, foi só o que dei conta de anotar depois que os deixei no Bairro Cidade Jardim. Mas durante toda a corrida, ouvi muito mais coisas interessantes. Mais do moço. A mulher não era de falar muito. A questão é que o homem, advogado, não estava muito feliz em trabalhar para o escritório do pai. Queria, profissionalmente, se dedicar à música. Sonhava viver da arte, sem contrariar a família. Lamentou não poder se dedicar ao piano, que para o pai só é tolerável como hobby, já que não dá dinheiro. Toda a conversa começou por causa do belo piano de cauda, enfeite apenas, na casa do tio, onde foi a festa. Ele achou um absurdo o tio, bastante endinheirado, ter comprado o instrumento apenas para deixar o casão ainda mais chique.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 12/5/10

4 comentários:

Cacá disse...

É, meu caro, ostentar é mais importante até mesmo do que ter de fato. Quanto a ser, basta parecer ser. Na nossa sociedade que privilegia a imagem acima de tudo, alidado ao bem material, isso é a glória, o melhor dos mundos. Eu me lembro que na época das enciclopédias, era chique toda casa ter na sala de visitas uma estante repleta de livros de capa dura, bonitos, apenas para enfeitar. RAramente alguém lia. É a mediocridade enfeitada essa que vivemos. Muito boa esta crônica. Paz e bem.

Julia Cristina disse...

Muita boa essa crônica... me identifiquei... eu era uma futura advogada que quero agora me dedicar à arte... o dinheiro não é a felicidade mesmo...

Julia Cristina disse...

Parabéns ao autor...

JFC disse...

Ei, Julia Cristina! Volte sempre! Cacá, meu abraço!