Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Palmas para o Uggie!


Tire um tempinho, amigo leitor, hora e meia apenas, e vá ao cinema ver O artista, principal vencedor do Oscar 2012. Impressionante! É de lavar a alma ver que motivações simples da vida ainda têm espaço no coração das pessoas. Poderia, aqui, falar páginas sobre o filme – mudo e em preto e branco – que me tocou sobremaneira. Mas o espaço é curto perto da vontade de compartilhar os sentimentos experimentados com a obra do diretor Michel Hazanavicius. Não foi à toa que os Estados Unidos se curvaram ao talento dos franceses com esse O artista. Não vou ficar viajando em resenha crítica das muitas qualidades técnicas do filme – roupagem de primeira, com roteiro, atuações, direção de arte e figurino impecáveis. Isso é coisa para os entendidos. Atrevo-me apenas a escrever sobre o bem que ele me fez.

Violeta e eu não abrimos mão de, ao menos uma vez por semana, ir ao cinema. No último sábado, lá fomos nós ver O artista. Foi de alimentar a alma ver o casal de atores Jean Dujardim e Bérénice Bejo, inspiradíssimos, encarnar carreira e futuro em clima de romance e gratidão. Embora francês, o filme é uma homenagem aos primórdios do cinema norte-americano. Conta a história de um ator de sucesso, George Valentim – interpretado por Dujardim –, e da aspirante a atriz Peppy Miller (Bérénice Bejo). Enquanto Valentim cai em desgraça com a chegada do som na indústria cinematográfica, Miller se torna estrela das granders produções de Hollywood. Daí, linha simples de argumento para uma série de situações dramáticas e cômicas muito bem resolvidas em imagem e ação, simplesmente. De quebra, ainda tem a atuação inesquecível de Uggie, o cão da raça Jack Russel Terrier, mascote de Valentim. O bichinho arrasa!

Quando deixamos a sala de cinema o assunto não poderia ser outro: O artista. Há valores na fita que merecem reflexão. Entre outros, orgulho, afeto e lealdade, além da dificuldade natural em lidar com o novo. Razão e força ao conteúdo do filme, pretexto para realização irretocável por parte dos franceses. O Artista, desde seu lançamento, vem colecionando estatuetas das principais academias e associações do mundo. Até o “Coleira de Ouro”, de melhor ator canino, Uggie levou. No domingo, cinco prêmios de melhor filme, direção, ator, figurino e trilha sonora. Os franceses fizeram a festa no Oscar 2012. Prêmios, para mim não dizem muito, mas tamanho reconhecimento e ineditismo não pode ser apenas lobby ou golpe de sorte. Nunca antes na principal premiação da sétima arte, em 84 edições, estrangeiros tinham feito tão bonito. O amigo leitor precisa conferir. Programão para levar a companhia amada. Por tanto, palmas para Hazanavicius e sua trupe. E viva o salva-vidas Uggie! O cão, por si, vale o ingresso.


Bandeira Dois - Josiel Botelho - 28/2/12

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O fim do sem fim


O velho Julião, viúvo, acordou cedo, antes do sol, como sempre. Banhou-se cantarolando o mesmo bolero antigo do Trio Irakitan, Aqueles olhos verdes, dos tempos de amor com a bela Lucimara. Vestiu-se como dia qualquer, de trabalho, em 57 anos de padaria. Passou café forte, retalhou o pão dormido e o colocou em tiras finas para torrar. Correu os olhos pelo jornal e sentiu-se feliz depois de ler Déa Januzzi no Estado de Minas de domingo. No corredor, antes de descer para o estabelecimento, parou diante do aparador com a fotografia da mulher companheira. “Impossível esquecer você, Luci…”, falou para si mesmo ao tocar o porta-retrato em madeira antiga.

Há exatos 10 anos, Lucimara não amanheceu. Dedicada, trouxe a água fresca para o criado mudo do marido, deu-lhe o remédio para o coração e beijou sua boca. “Amo você, Julião”, soprou em sorriso de menina. Nenhum som ou suspiro de morte. Foi-se, indo, assim, simplesmente. A última declaração de amor ouvida Julião jamais deu conta de esquecer. Não havia uma só manhã em que o comerciante não repensasse o amor. O relógio badala: 4h15. Fração para encarar o batente e subir a porta de aço que dá para a avenida. Do lado de fora, portões suspensos revelam Inês, de olhos e braços roxos, sentada na calçada. A funcionária da padaria, plantonista do dia, até tentou disfarçar o choro.

Notadamente sofrida, Inês passou por Julião sem dar conta de encará-lo, mais uma vez, e disse baixinho “bom dia”, tímida. “Ele de novo, minha filha?”, o patrão quis saber. “É, seu Julião. É”. A moça, de vinte e poucos anos, rumou ao fundo da padaria para vestir uniforme e prender os cabelos descuidados. Julião meneou a cabeça, sem ação ou noção do que fazer para ajudar a boa funcionária, volta e meia espancada pelo companheiro. Já havia se envolvido demais, levando-a à Delegacia de Mulheres na semana passada, por ocasião de mais abusos. Sentou-se junto ao caixa e recebeu seus outros três trabalhadores do dia.

O carro velho subiu o meio-fio e surpreendeu. Dele, sujeito saltou de arma em punho, trêmulo, aos berros: “Cadê aquela vadia? Eu sei que ela tá aqui! Cadê ela, velho filho da puta?”, partiu para cima de Julião, que manteve a calma e catou o fundo dos olhos do sujeito. “Ele vai me matar! Ele vai me matar, gente!”, gritou Inês, desesperada, escondendo-se atrás do balcão. O homem atirou na direção da mulher e estilhaçou os vidros do móvel. A bala não alcançou Inês, em choque. Tiro certeiro veio do caixa, no peito do agressor. Julião não perdoou o mau elemento, de longo histórico de violência contra a mulher.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 27/2/12

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Unidos de Belo Horizonte

Os 200 integrantes do Bloco caricato Os inocentes de Santa Tereza ainda não estavam reunidos, quando moradores e visitantes começaram a se juntar para ver a bateria comandada pelo presidente Angelo Lima, de 43 anos, no encontro da Rua Grafito com Rua Mármore. Sob sol escaldante, as pequenas passistas de saia em flor e asas de borboletas bailam entre as mulatas de pouca roupa e sapatos de saltos coloridos. Cerca de 50 músicos surram tambores e tamborins para a farra de quem chega para ver o aquecimento de A Santê, afilhada de Os inocentes. Na linha de frente, três ratos orelhudos, de rodinhas, representam o lixo e o luxo da agremiação. Adultos e crianças pulsam à espera do deslocamento do bloco rumo à Praça Duque de Caxias.

Nascido e criado em Santa Tereza, Angelo, de corte moicano postiço, colorido, tem fôlego de atleta à frente do grupo. “Isso é a coisa mais bonita do mundo. Fico o ano inteiro esperando pelo carnaval”, suspira. O professor comenta a alegria contagiante das 150 crianças que fazem parte do projeto de percussão do bloco, criado há 39 anos. Ora de fazer valer o apito e arrastar o povo que já não quer mais dançar na esquina. Ordem e água para a bateria porque o calor é de incendiar o vermelho e branco uniforme. Silvo longo para a galera ganhar o asfalto. Povo, Inocentes e Santê já são um só na Rua Mármore. As janelas dos casarões ficam pequenas para tantos camarotes.

Quarteto serelepe se junta à porta-bandeira. Jeniffer Gallo, Karina Saturnino, Débora Vilaça e Cláudia Rodrigues. Vindas dos bairros Funcionários e São Cristovão, em BH, e de Contagem e Nova Lima, na Região Metropolitana, elas reforçam Santa Tereza ponto de encontro da alegria na capital mineira. Criatividade e fantasias não faltam calçada afora. Na escadaria do sobrado, a Branca de Neve parou para ver o samba passar. A mamãe, vestida de noiva, carrega a filhinha, princesa, no colo. Uma graça a pequena Luiza, de 1, pular com a mãe, Débora Pimenta, de 29, estudante de geografia. “Carnaval é marchinha nas ruas. É isso. Se melhorar até estraga”, sorri. Já na praça, em frente ao bar de nome redondo, dezenas de outros foliões de várias gerações se juntam aos Inocentes para engrossar a pequena multidão.




O axé roots do Barro Preto

Começou tímido, com meia dúzia de gatos pingados a se despir de preto na Praça Raul Soares. Com o vento frio, veloz, os rapazes sem camisa se lamearam de xadrez e argila pela composição caricata do Bloco Unidos do Barro Preto, enquanto o sol sumia. O batidão, meio Olodum, meio Nação Zumbi, ecoou num chamado de estreia. O que teve início discreto, segunda-feira, na Avenida Augusto de Lima, só terminou na madrugada de ontem na Rua Juiz de Fora, na Casinha, centro cultural do grupo. “A Casinha foi acontecendo de maneira muito espontânea. Foi uma surpresa muito boa para todo mundo porque é resultado da vontade de cada um”, explica Fernando Murcego, de 34, músico e professor de capoeira.

Oficialmente, é a primeira vez do Unidos na avenida. São 10 ainda a se preparar para o cortejo. “Se a gente tiver com este grupo pequeno, ainda assim vai ter festa. Mas as pessoas estão falando em 200”, diz. Não demorou para o reforço chegar. Não veio de preto. Veio de azul. Gargamel e oito smurfetes, lindas, vieram animar ainda mais a linha de frente. O ambulante, Manuel Pedro, de 47, a caminho de Santa Tereza, decidiu apostar no movimento. Teve também a força baiana da artista plástica Júlia D’Almeida, de 26, dando a maior força na caracterização. Contagiante, não foi difícil superar 200 chegados para fazer voltar o sol.




Carnaval 2012 - Belo Horizonte - Jefferson da Fonseca Coutinho

Fotos: Marcos Vieira/EM/D. A Press

Flores para Violeta

Violeta vai florir. Nem é preciso dizer o quanto isso me alegra. Preocupa-me também, naturalmente. Afinal, junto dos filhos, como o leitor sabe bem, há uma série de transformações na vida. No entanto, pai de dois jovens, já bem crescidinhos, que me dão muita alegria, só posso dizer que me sinto imensamente prestigiado por Deus com a novidade. Honra-me a paternidade. De tudo vivido até aqui, nestes 40 anos, uma única certeza: de todo o bem que há em mim, o melhor vem do amor incondicional pelos filhos. É amor que não se acaba, aumenta. Olho para a Violeta dormindo, companheira de tanto tempo, e vejo um sorriso de mãe se preenchendo de luz. Ela ainda não sabe o tamanho da beleza que tudo isso significa. É cedo. Tudo ainda é muito novo. Não foi planejado. Tínhamos planos de viagens e estudo no estrangeiro. Com a gravidez, estamos revendo as prioridades de nossas economias e traçando novo cômodo para a casa, cheios de alegria pela graça do infinito.

Filhos. “Se não os temos, como sabê-los?”, escreveu o poeta Vinícius de Moraes. Quem acompanha nossa Bandeira Dois, desde 2006, sabe bem que, com relativa frequência, voltamos ao assunto. Uma obsessão – no bom sentido, é claro. Não há um só dia em que eu não pense na importância de nossos frutos. No amor, na presença e na educação daqueles que nos são caros. Antes de pai atento, cresci filho. Cheio de falhas, ausências, mas tomado de respeito pelo velho Botelho. Um homem de conduta exemplar, que já pagou caro demais pelas fraquezas do passado. Todos nós, humanos, erramos muito, é verdade. Entretanto, o que faz diferença está na postura de cada um diante da compreensão das próprias ações. O velho Botelho, da meia idade para frente, soube encarar suas sombras. Assim, enche-me de orgulho e me faz homem de bem, batalhador pelo bom relacionamento com os filhos.

Ao meu lado, a melhor companheira: Violeta. Mulher de bom coração, sofrida, de alma pura e de família encantadora. Enfrentamos muitos altos e baixos – quem não os têm? –, mas estivemos sempre próximos no amparo de nossos pedaços. A felicidade é uma porta que abrimos por dentro. Isso, aprendemos juntos. Descobrimos também que o amor de verdade, aquele que não se abala, é construído na soma do melhor e do pior que há em nós. E que o resultado desse encontro precisa ser positivo para os dois. Na companhia da moça dos cachos dourados e das sandálias rasteiras, artista, aprendo a dar conta de mim e tento ser melhor a cada dia. Mesmo sem dar conta de tudo, não desisto da recuperação ou do aprendizado. Violeta, estudiosa, aplicada, me fez reencontrar o eixo. Trouxe-me de volta ao centro da minha paz. No ventre da mulher amada, menino ou menina, bem-vindo! Também já é seu o meu coração.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 22/2/12

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Liberdade, liberdade!

Hoje, quando o Grêmio Recreativo Escola de Samba da Cidade Jardim ganhar a Praça da Estação noite adentro, entre seus 450 integrantes, vai ter na ala da harmonia sua velha guarda numa ode à liberdade. Nela, José Maria de Moura, o Zema, de 63 anos, bravo resistente do carnaval de Belo Horizonte. Nascido em Conceição do Mato Dentro, na Região Central de Minas Gerais, Zema veio moleque, aos 8 anos, para a capital, trazendo arte nas veias e ginga nos pés. O artista plástico, especializado em esculturas, formou grupo de samba no final dos anos 1960 e, em 1971, entrou para a Escola da Cidade Jardim. Na quadra do grêmio, no Bairro Luxemburgo, Zema acompanha os últimos preparativos que dão vida ao samba de enredo “Liberdade, o outro nome de Minas”, de Toninho do Cavaco, Marinho, Cantone, Paizinho do Cavaco, Seu Domingos, Tinim, Nico da Cuíca, Charlyson Farofa e Felipe Correria - a turma de compositores é grande, assim como o amor de Zema pelo trabalho na avenida.

Cervejinha ao lado da banqueta, cigarro entre os dedos, os olhos se enchem de cor para falar da agremiação que o acolhe. Zema exibe orgulho pela dedicação e resistência dos carnavalescos de BH, mas não poupa críticas ao conjunto das escolas locais, para ele, desmobilizado, enfraquecido pela “falta de vontade política de quem manda na cidade”. “Aqui, não é não tem carnaval porque o mineiro não vai… é o contrário: o mineiro não vai porque não tem carnaval. O folião de Minas vai pra onde tem festa. Nos anos 1980, nossa festa já foi boa demais. Já fomos o segundo carnaval do Brasil. A gente só perdia para o Rio de Janeiro”, afirma. Para o escultor, dono de ateliê na Av. Raja Gabaglia, falta envolvimento maior por parte do coletivo. “Veja só: este ano, apenas sete escolas vão desfilar. Seis no grupo A e uma no grupo B, sem concorrente. E com muita dificuldade. A realidade poderia ser outra”, lamenta.

Elegante e atencioso, Zema, bastante querido pela comunidade, não deixa de dar atenção aos voluntários que chegam à quadra. Volta ao assunto que o entristece: “Os empresários e as autoridades de BH não gostam de festa para o povo. Aqui, nem os bicheiros parecem gostar de carnaval. O que falta, principalmente, é estrutura para que um bom trabalho possa ser feito”, reclama. “Tome nota:” - faz questão de ressaltar - “Em 1980, em São Paulo, não havia a força que o carnaval tinha em BH. O que aconteceu: eles investiram. Criaram um sambódromo e deram infraestrutura para as escolas. Enquanto, aqui, expulsaram o carnaval para longe da Região Central”. Alegra-se ao observar o empenho dos mais jovens, voluntários, no retoque de figurinos, adereços e objetos de cena para o desfile. “A escola me deu muito mais do que pude oferecer para ela. Hoje, por exemplo, é uma alegria muito grande esta posição de poder contar histórias e não deixar morrer o nosso passado”, emociona-se.



Sambista engajada
Larissa Borges, de 30 anos, psicóloga, Bairro São Paulo

“Minha fantasia é segredo por causa do desfile do grupo A, na Praça da Estação. Estou ajudando a preparar as saias para a ala dos escravos, com palha da costa, vinda do bambu. Estou há três anos na escola, desde que a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) quis acabar com o grêmio. Aí, todo mundo veio e abraçou a escola. Com a mobilização, comecei a trabalhar pelo carnaval. Tenho trabalhado e sambado muito também (risos). É muito diferente de tudo o que a gente vê na televisão. Participar, estar aqui dentro, é outra coisa. É a resistência negra na rua”.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 20/2/12

Fotos: Marcos Vieira/EM/D. A Press

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Carnapaz

Fátima Tolentino é focalizadora do Instituto Renascer

Tudo pronto para o carnaval da paz: o bambuzal mestre-sala e a terra vermelha, porta-bandeira, abrem alas para a estradinha vicinal à margem da BR-381, em Ravena. A borboleta azul, solitária, desfila imponente diante do portão principal que dá acesso ao Instituto Renascer da Consciência, um santuário de 1,3 milhão de metros quadrados, em Sabará, Região Metropolitana de Belo Horizonte. O som da corredeira das águas e dos pássaros dita a cadência do samba-enredo no pulso e no peito.

No espaço majestoso, abrigo para corpo e espírito, sete portais miram unicamente o centro. Longe dali, entre arranha-céus do Bairro Buritis, onde trabalha, Luiza Haueisen, de 24, diferentemente de muitas moças de sua idade, chegadas à agitação, conta os planos de recolhimento. A jovem relações-públicas reconhece que depois que esteve na Tailândia, em 2010, tem dado mais atenção aos valores que fomentam a alma. “Quero me preparar para as etapas que estão para ocorrer na minha vida pessoal e profissional”, revela. Luiza, sem praticar “nenhuma religião específica”, ultimamente faz de si o próprio templo.

O local entre matas, de verde puro e borboletas, escolhido por Luiza para quatro dias de descanso, é a realização de ideal antigo de Gislaine Maria D’Assumpção, integrante do Colégio Internacional de Terapeutas (CIT). Há 20 anos a psicóloga transpessoal desenvolve programa alternativo para feriados com foco na “vivência do despertar da consciência”. Para o carnaval de paz de Luiza, quem comanda os trabalhos é Fátima Tolentino, de 53, focalizadora do santuário.

A placa no caminho de pedras anuncia: “Este local é um centro de emissão de paz, harmonia e amor”. Estradinha acima, rumo às montanhas anfitriãs, são muitas as placas com mensagens de equilíbrio. Fátima, de voz calma e macia, explica: “Trata-se de uma jornada de expansão da consciência. Hoje, há um mundo extremamente agitado, com muitos chamados para fora de nós que nos divide. O que é partido perde a força. Aqui, buscamos a reintegração do ser em todos os níveis”.

Descendente dos jenipapos-kanindés – tribo indígena brasileira, habitante do município de Aquiraz, no estado do Ceará –, Fátima Tolentino cresceu e foi educada por família católica. Ali, porém, nada de religião. Espalhados, harmônicos, são muitos os elementos, no chão e no ar, que sugerem todos os deuses e crenças. Mãe de Frederico, de 31, Daniel, de 30, e Camila, de 22, a psicóloga, que também atende em Belo Horizonte, comenta a energia dos “sete reinos” construídos no santuário: fogo, águas, gaia, geometria sagrada, vibrações, matas e pedras. Sete espaços especiais no nível transpessoal.

“Todo o instituto é trabalhado energeticamente todos os dias”, diz, enquanto a borboleta azul volta a chamar a atenção. Agora, parece brincar de se perder no “labirinto do cristal”, cercado por estrela de 16 pontas. A natureza rouba a cena de vento suave. No flamboyant, seis ninhos de guaxos se destacam entre as folhagens. Os cães, silenciosos, brincam, moleques, em meio aos patos na beira do lago.

Flávio Augusto D’Assumpção, de 46, administrador, mostra orgulhoso a estrutura do instituto, com capacidade para hospedar até 80 pessoas, com casinhas para casais e grupos de até nove pessoas. “Temos o cuidado de oferecer o espaço apenas para quem tem o espírito da nossa filosofia. Aqui não consumimos bebidas alcóolicas e temos um toque de recolher”, ressalta.

Fátima conta que duas médicas do Rio de Janeiro, em busca de paz, passaram um carnaval no instituto e gostaram tanto do programa que se mudaram para uma das comunidades que pertencem ao Renascer. Da cozinha, aroma bom de assado se mistura ao cheiro verde das matas. O pão caseiro, preparado para o fim de semana de mergulho e recolhimento, puxa o assunto da alimentação natural, em grande parte fruto daquelas terras.


DESPERTAR

O santuário do Instituto Renascer fica na BR-381, km 435, em Ravena, Sabará. O pacote para o carnaval, com atividades dirigidas (meditação, caminhadas, banhos com ervas) e alimentação especial, custa R$ 780. Para hospedagem fora do programa Despertar da Consciência, a diária custa R$ 100. Informações: (31) 3296-3864.


José Carlos e família, na Igreja Pai Misericordioso


‘Carnaval é fantasia’

Distantes quilômetros do santuário de Sabará, mas bem próximos em filosofia de vida, 40 voluntários ligados à Igreja Pai Misericordioso, do Bairro Paulo VI, na Região Nordeste de Belo Horizonte, também trabalham pela paz no feriadão. Unidos por movimento católico, promovem retiro de hoje a terça-feira para 800 pessoas. Nada contra a diversão, contra a festa, mas para José Carlos Dias Carreiro, de 34, “carnaval é fantasia”, satisfação fugaz. “Essa alegria não é ruim. É muito boa.”

O problema é que com ela, às vezes, ocorrem grandes frustrações em função dos abusos”. Para o empresário, o período, infelizmente, é bastante propício para que o indivíduo se distancie da realidade. Há 12 anos, José Carlos, pai dos pequenos Gabriel, de 5, e Gabriela, de 2, se empenha na organização de retiros de paz pela preservação da família e das boas relações com o mundo. Ao lado da mulher, Sílvia, ele trabalha todos os anos para arrebanhar cada vez mais famílias para seu carnaval de paz.

O missionário conta que sua vida mudou depois do primeiro retiro: “Fui para Viçosa, onde mais de 8 mil pessoas buscavam paz de espírito. Isso promoveu uma mudança muito significativa na minha vida, uma relação maior e bem mais positiva com Deus. Trouxe-me mais consciência como cidadão, inclusive”. Outra família voluntária comprometida com o mesmo retiro é a do motorista Cleber Elói dos Santos, de 39.

Com casal de filhos adolescentes, de 14 e 17 anos, o instrutor de autoescola entende que quanto antes a pessoa acredita que pode ser melhor para si e para os outros, melhor é para toda a vida. Aplicado e atento, especialmente à formação dos filhos, fala em dar exemplo e agradece o resultado obtido até agora: “A gente não interfere, orienta”, diz. Para ele, grande parte dos pais estão mais preocupados em promover a curtição do que a espiritualidade de seus filhos.


ACAMPAMENTO

Alternativa à folia, o retiro da Igreja Pai Misericordioso é aberto ao público e vai acorrer na Escola Municipal Agenor Alves de Carvalho, na Rua Agenor Alves, s/nº, Bairro Nazaré. Como ingresso, 1k de alimento não perecível, que vai ser destinado às vítimas das chuvas. Informações: (31) 8661-1126.

Gerais - Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho

Fotos: Beto Novaes e Marcos Vieira/EM/D. A Press

O RH ao avesso


Já faz ao menos duas décadas que, em diversas partes do mundo, “Departamento de Pessoal” (DP) ganhou nova descrição, propósitos e nome de “Recursos Humanos” (RH). Inspirados nos norte-americanos – criadores da administração científica –, os chefes de seção, antes bons contadores, conhecedores das leis do trabalho, foram elevados ao posto de gestores, especialistas em clima e psicologia organizacional. Na teoria, consultores com relativa autonomia, encarregados, entre outras atribuições, de evitar que o patrimônio humano de seus patrões seja desperdiçado. Aparente estudioso do assunto, o cineasta israelense Eran Riklis vai além do que se pode aprender com a prática das empresas ou nas salas chiques de Master of Business Administration (MBA) para realizar filme de profundidade e provocação humana, advindas do tema. A missão do gerente de recursos humanos, lançado recentemente em DVD, em cópias minguadas nas locadoras sobreviventes da cidade, é um mergulho do homem em si mesmo por meio de sua percepção dos dramas do outro.

O filme, lançado ano passado no Brasil, é motivado pelo romance de Abraham B. Jehoshua, com base no qual Noah Stollman fez roteiro acertado, com diálogos curtos e rubricas de atormentar a alma. Riklis parte de um evento trágico, causado pelo conflito entre palestinos e israelenses, para desfiar a trajetória do personagem central, um gestor do administrativo, de vida particular e profissional medíocres, interpretado pelo ucraniano Mark Ivanir (foto), de A lista de Schindler (1993) e O terminal (2004). O diretor, conhecedor das agruras do Oriente Médio – são dele os tocantes A noiva síria (2004) e Lemon tree (2008) –, em A missão do gerente de recursos humanos, abre mão das divergências religiosas, velhas conhecidas, e recorre à imigração ilegal. Pano de fundo para descortinar a humanidade de sujeito comum, desses aos montes pagos para pensar pessoas. Trazer o longa às páginas não o esvazia nem tira o gosto de quem ainda não o viu. E são muitos, já que a obra de Riklis teve passagem relâmpago pelos cinemas, como vem ocorrendo em geral com os filmes de arte no Brasil.

A missão do gerente de recursos humanos, como todo bom filme fora dos padrões estadunidenses, não tem estrutura técnica de virada ou agrupamento de personagens esquematizados por mapas psicológicos. Embora sua narrativa seja linear e o “herói” deixe seu mundo em busca da solução, seus pontos de transformação – chamados “viradas” por Syd Field, pai dos manuais de roteiros – são sutis, internos, estão na excelente atuação de Ivanir e na fotografia de Rainer Klausmann. Ou ainda na subjetividade da morta de restos presentes, Yulia Petracke, vítima de atentado a bomba logo no início do filme. O corpo da mulher, cristã, ex-funcionária da maior panificadora de Jerusalém, vinda da Romênia, largado por dias em necrotério público, se torna assunto explorado por jornalista de tabloide sensacionalista. Preocupada com a imagem do negócio, a empregadora encarrega seu gerente (Ivanir) de dar toda a assistência à pequena família de Yulia. Incube-o, especialmente, de levar o corpo da jovem operária para ser sepultado em sua terra natal, no interior da Romênia, na presença do filho adolescente, problemático, e da mãe sofrida e severa.

O que se segue com o peso do caixão a reboque, em avião, em minivan e até em tanque de guerra, é autêntica cruzada de autoconhecimento de um homem de estrutura familiar falida, com dificuldades para administrar seus relacionamentos com a filha, com a ex-mulher e com a patroa. Novos atores, agentes do destino, se juntam ao chefe de RH ao longo de sua jornada para dar um enterro digno a Yulia. Não bastassem as dificuldades com os restos mortais da auxiliar de limpeza, o protagonista ainda precisa lidar com a presença quase insuportável de repórter caricato, obcecado por projeção. O jornalista, chamado apenas de Weasel, vivido por Guri Alfi, de Segredos íntimos (2007), protagoniza momentos tragicômicos bem dosados por Riklis, que carregou a mão no papel da imprensa em denunciar a culpa da panificadora industrial, testemunha de um “terrível engano”. Em A missão do gerente de recursos humanos, porém, a verdade é menos importante do que as transformações geradas pela falsa realidade que inflama interesses.

Outro apontamento que parece recorrer ao Teatro do Absurdo de Ionesco – autor, entre outros, de Rinoceronte –, além do tempo em círculo e desdobramento que nos devolve ao princípio, arrastado, estranho, quase crítico e paspalhão na obra de Riklis, está na composição do duo consulesa e seu marido, vice-cônsul, ex-motorista do consulado de Israel. Rosina Kambus se destaca no papel de mulher histriônica, atrapalhada com os trâmites burocráticos do traslado e na relação patética com o mundo e com suas funções diplomáticas. Como na peça de Ionesco, o casal figura entrelinha e subtexto para a movimentação de ser irreconhecível, bizarro, que levanta poeira e apateta a sociedade. Não é ir longe demais entender que no longa de Riklis, tanto quanto em grande parte das organizações empregadoras, são muitos os rinocerontes a esmagar seus diferentes menores.

Caderno Pensar - Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A casa da melhor idade

Há muito queria conhecer o trabalho realizado pela Sociedade São Vicente de Paulo na Casa do Ancião Francisco Azevedo, no Bairro Ipiranga, Região Nordeste de Belo Horizonte. Adelson, Osmar e Sueli já foram tocados profundamente pelas histórias dos 93 idosos que vivem no lugar. Estive lá. Mesmo no corredor limpo, o cheiro ao longo de quase 100 metros adentro, é marcante. “É que a urina de quem tem diabetes tem o cheiro mais forte”, explica Doralice de Almeida Araújo, a Dorinha, de 64, responsável pela casa. Estive em quartos, enfermarias, cozinha, copa, lavanderia, capela e área de lazer do asilo, fundado em 1959, na Rua Dom Barreto, na Cidade Ozanam. Destaca-se o carinho de Dorinha e da psicóloga Patrícia Ribeiro, de 33, com os internos da casa. As duas falam com gosto pela turma – que tem entre 59 e 105 anos. “Para entrar num trabalho desse, tem que ser pelo coração”, diz a coordenadora, nascida em Pará de Minas, desde os 17 anos em BH.

Diariamente, ao meio-dia, Dorinha, congregada Mariana do Santuário Nossa Senhora Aparecida, reza com alguns dos internos na Capela São Vicente de Paulo. Não falta fé na Casa do Ancião. Em muitos quartos e nas roupas dos idosos, podem ser percebidas imagens santas. Ondina Santana, de 85, solteira, está há sete anos no abrigo. Elegante, de sandalinha cor-de-rosa, saia xadrez e camisa azul floral, tem no peito medalha de Nossa Senhora das Graças. Sozinha, Ondina morava num barracão de fundos no Bairro Vista Alegre. “A dona da casa era muito minha amiga e todos lá me tratavam como se fosse da família. Aí, tive um problema na coluna e não quis dar trabalho. Então, vim pra cá”. No quarto de Ondina, a companheira Isaura Leal, de 81, há cinco anos no asilo. No armário de canto, três flores de papel dão cor ao cômodo arrumado.

Em outro quarto, enfeitado por 20 bonecas coloridas de plástico e pano, duas Marias: Simone e Guilhermina. Maria Simone exibe talento de artista e, afinadíssima, canta música sacra. Também é bordadeira e faz tapetes. “Não gosto de ficar à toa e fico bordando”. Dorinha conta que tem em casa uma obra de Simone. Chega a hora de visita – 14h. Mais adiante, nas enfermarias 3 e 4, Nilda Natalícia Alves, de 34, veio ver Maria Helena Silva, de 74. Ao menos uma vez por semana, a cabeleireira sai de Vespasiano, na Região Metropolitana para levar um pouco de alegria a ex-cliente de salão e não deixar morrer os 14 anos de amizade. Dia feliz. É hora do café. Nos muitos rostos desenhados pelo tempo, silenciosos e simpáticos, sorrisos tristes embargam a garganta de quem está ali de passagem. Impossível manter-se do mesmo tamanho depois de conhecer de perto tanta gente do bem.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/2/12

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Barraco no cartório


Leonor conseguiu o revólver 32 da mão do flanela de ocasião, flor que não se cheira, nas proximidades do Grande Teatro Minascentro, na Região Central de Belo Horizonte. Estava para ver espetáculo de sucesso na Campanha de Popularização e buscava vaga para seu fuscão laranja, ano 1974. O pilantra sanguinolento, abusado, saltou na frente da janela e mandou papo na lata, aproveitando-se da solidão da mulher:

– É nóis! Hoje é 10 real, adiantado, mas pra tia... é R$ 5.
– Quero um 32.
– Como?
– Um 32. O revólver, moço... você tem?
– A tia tá de cao pra cima de mim...
– Tem ou não tem? Você é do tipo que tem.
– Tenho... mas é pro meu uso.
– Quanto?
– 200 real.
– Deixa eu ver...

O sujeito de pouco mais de 20 anos, barba rala, olhos negros e sem dois dentes na frente, olhou para os lados na esquina vazia, tirou o revólver escondido na cintura e entregou para Leonor. Cúmplice, o bandido sorriu:

– Num masca nem nada. Fino. Fala que comprou lá na Praça Sete, tá!? Cuidado com isso que tá carregado, hein!? Que isso, tia? Vira essa p... pra lá! Ce tá doida...???

– Tô doida sim! Tô doidinha! Agora, racha fora! Some! Senão, queimo seu saco!
Assustadíssimo com a reação da bela mulher, o flanela cortou a Rua São Paulo sem olhar para trás. Leonor não soube explicar de onde veio tamanha coragem, mas, desde a manhã daquele dia, ao saber que o ex-noivo, o Julião, estava de casamento civil marcado no cartório de Nova Lima, algo muito forte invadiu suas entranhas. Ela desistiu de ir ao teatro. Com o revólver 32 no colo, na saia justa, rodou cidade e foi para casa, em frangalhos, passar a noite em claro e amanhecer cheia de intenção.

Foi a primeira a chegar no cartório e esperar pelos noivos para o casamento das 10h. Aguardou por mais de hora. Quando Julião chegou, abatido, ao lado da nova companheira, padrinhos e testemunhas, foi um escarcéu de novela. Leonor sacou o 32 da bolsa e colocou todo mundo deitado no chão. De pé, apenas ela e o ex. Os dois se olharam profundamente como quem pede desculpas. De lá, apaixonados, Leonor e Julião saíram abraçados para tentar a vida a dois novamente. Até amor no fusca fizeram, numa quebrada da MG-30.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 13/2/12

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Salve, Maria da Penha!

Sou grande fã da Maria da Penha Maia Fernandes (foto), nascida em 1945. A Lei Maria da Penha é uma homenagem à história de luta da farmacêutica, que sofreu horrores nas mãos do marido. O sujeito atentou contra a vida da boa companheira, mãe de suas três filhas, duas vezes. Por fim, acabou indo parar atrás das grades. Maria, vítima de um tiro disparado pelo mau elemento, ficou paraplégica e mudou a história da luta pelos direitos das mulheres no Brasil. Recorro ao nome dessa grande brasileira para compartilhar com o amigo leitor parte da minha revolta com a violência que abate o sexo que nos dá o mundo. Não há o que justifique em qualquer lugar do planeta – aqui ou na China – maus-tratos contra a mulher. É vergonhoso. No Brasil, li que 70% das mulheres assassinadas foram vítimas de seus companheiros. Sete em 10 mulheres, amigo leitor! É de perder o sono.

Tenho conversado com muitos amigos sobre o assunto. Não há em meu círculo de amizades um só companheiro que não pense como eu: toda mulher merece respeito. Mesmo porque, sinceramente, se houvesse entre meus amigos alguém que praticasse violência contra a mulher, este, certamente, não seria meu amigo. Já dispensei conhecidos nervosinhos demais com suas companheiras. Teve até um sujeito, do Bairro Nova Granada, que vivia ameaçando a namorada. Até que um dia, numa festa de fim de ano no sítio da família do Oswaldo, o camarada bateu na moça. Aí, não deu outra: Maria da Penha nele! O casal rompeu e a garota até mudou de cidade de tanto desgosto. Ano passado, soubemos que ela está bem. Está casada com um bom moço que conheceu em São Paulo, durante um curso de informática, e está feliz da vida. Já do agressor, punido justamente pela lei, nunca mais tivemos notícia.

É preciso denunciar. Essa história de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” é besteira. Quando há descaso, maus-tratos e violência de qualquer natureza, é preciso meter a colher sim. Tem que denunciar. Já ouvi demais, vindo dos cotovelos, que a mulher, quando é desrespeitada e, ainda assim, fica ao lado do seu algoz é porque gosta de sofrer. Conversa fiada. Não é preciso ser especialista no tema para saber que não é nada disso. Quem ama não maltrata. Não mata. Cuida. É preciso tocar a consciência das pessoas. Envolver ainda mais e organizar a sociedade para combater duramente, com todas as forças, o problema. Há uma mudança cultural em curso, é verdade. Mas ainda é muito lenta. São muitas as moças que seguem a dormir com o inimigo, vítimas silenciosas da estupidez, da ignorância. E para que ficar ao lado de alguém que não merece ser amado?

A Lei Maria da Penha não é apenas para punir. É para ensinar e cuidar, principalmente. Durante décadas, mulheres de todas as classes sociais sofreram com a falta de amparo legal direto, eficaz. Desde agosto de 2006, graças à luta da farmacêutica cearense, os nervosinhos e machões de plantão foram obrigados a avançar como gente, a crescer na vida. Infelizmente, ainda há muita estupidez humana espalhada por aí – basta ressaltar o alto índice de criminalidade contra a mulher. Mas muito pior seria sem as medidas protetivas dos dias atuais. A dor do relacionamento amoroso interrompido, por maior que seja, não pode ir além da razão e sufocar a boa conduta. Perto ou longe, junto ou separado, amar de verdade é querer bem. Simples assim.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 8/2/12

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A atitude que desfaz o paraíso


O empresário de sucesso não pregou o olho naquela noite de plantão da mulher. Por horas, Vacisley andou de um lado para o outro da casa amarela, de mangueira frondosa no quintal, no Bairro Castelo. O relógio vermelho, de parede, indicava 4h35 de domingo. Abriu a janela da sala de dois ambientes, suspirou fundo e ficou a observar o verde vivo em som e movimento com o sopro tímido do verão. Na rua, motocicleta de pneus largos, com casal, vence o quarteirão íngreme. Vacisley viu quando o bigodudo tirou o capacete para beijar a moça em frente ao portão. O carinho entre os dois, enamorados, com mãos suaves pelos cabelos e abraços apertados, foi de dar gosto. O motociclista esperou a garota entrar no casarão, segura, para tocar a máquina e sumir no asfalto. Vacisley respirou e pensou na companheira, profissional do Samu, salva-vidas por vocação. Foi até o quarto cor-de-rosa para conferir o sono das pequenas Marias: Alice e Inês. Gêmeas, de 6 anos.

Sorriu verdade ao ver as meninas, lado a lado, nas caminhas perfumadas, tão bem arrumadas por Maria da Cruz antes de descer para o trabalho. Pela primeira vez, o homem de meia idade observou a delicadeza do cômodo, em pátina, com estrelinhas no teto azul rebaixado, e das prateleiras, enfeitadas por objetos felizes. Envergonhou-se ao descobrir atrás da porta, mural com duas dúzias de cenas lindas da família. Fotografias foscas, grudadas por imãs sorridentes. Suas três Marias em situações de afeto: o mar das últimas férias, seis aniversários, abraços, apresentações de fim de ano do teatro, da dança e a entrega de medalhas da escolinha de natação. Esmoreceu-se ao não se ver em nenhuma das 24 fotos do mural. Presente estava em apenas uma: a tirada por ele em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Das outras 23 ele não participou. Estava, como sempre, ocupado demais.

O painel foi a gota d’água para que o sujeito perdesse o chão. O marmanjo, pai de família e bom negociante, beijou as filhas e voltou para a suíte de casal. Sentou-se na cama king, branca paraíso, em nuvens, e, com a cabeça afundada entre as mãos, chorou como nunca em quase 40 anos de vida. Vindo de sábado tenso, sentiu o peso da noite em madrugada a esmagar-lhe o coração. O silêncio ali, amargura da alma, veio sombra na manhã do dia anterior: “O Zé, estéril, Vacisley, estéril, todo mundo sabia... ele matou a mulher, a Ariadne, grávida, grávida! Está me ouvindo? E se matou depois!”, contou, em pânico, o Fabinho. De Zé e Ariadne, casados, Fabinho e Vacisley foram os mais próximos da faculdade. A amizade ficou e, vez por outra, estavam reunidos, nas férias de janeiro, em Cabo Frio. As 7h37, quando Maria da Cruz chegou do plantão, encontrou Vacisley enforcado sob a mangueira. As meninas ainda dormiam. No bolso do pijama suspenso, bilhete com pedido de perdão. Era ele, há anos, o amante da grávida morta.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 6/2/12

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A melhor herança é a educação


Clarice Lispector (foto), em “A hora da estrela”, escreveu que a melhor herança é a educação. Ontem, em sala de cinema, vi e ouvi algo parecido que chamou muito a minha atenção. O personagem Matt King, advogado, muito bem interpretado por George Clooney, diz ter aprendido que a gente deve deixar para os nossos filhos algo para que eles façam alguma coisa, não para que eles não façam nada. O diretor e roteirista Alexander Payne, certamente, pensa como a nossa Clarice Lispector. Aliás, seu filme “Os descendentes” é obra que ainda vai dar o que falar nas próximas semanas. Com cinco indicações ao Oscar 2012, incluindo melhor filme, ator (Clooney) e direção, o longa-metragem é um retrato cruel da família contemporânea, com pais perdidos, sem tempo para seus filhos, igualmente sem rumo.

Filhos. Volta e meia o assunto é pauta aqui, em nosso quintal. É que o amanhã pertence a eles, sabemos todos. E, além do mais, qual pai ou mãe, em estado de boa consciência, não quer ver seus filhotes grandes e livres? Na minha casa – sou neto, filho e pai –, as crianças estão sempre na moda. Patrimônio para herança não temos. Mas educação e presença sempre foram prioridades. E dá resultado, posso afirmar. E considere, amigo leitor, que venho de um tempo em que algumas lições eram ensinadas na chinela e na ponta da vara de goiaba. Pirraça e desobediência sempre foram tratadas no coro pelo velho Botelho e pelo pai do Velho Botelho, o vô Adão, homem de muitas regras e poucas concessões. São outros os tempos de agora. Jamais precisei levantar a mão para os meus filhos. Hoje, o rigor está no exemplo e na palavra, em broncas que, vez por outra, me fazem perder o sono. Contudo, dão resultado. Não posso me queixar do comportamento dos garotos. Aliás, orgulham-me. E muito.

Deixei o cinema, depois de “Os descendentes”, tarde da noite, e não consegui pregar o olho. Na cabeça, a família, como um filme. Vi parentes, amigos e conhecidos com histórias que também dariam bom roteiro. Casos de sucessos e insucessos, aos montes, de gente simples, como todos os que fazem parte da minha árvore. Tem um caso curioso de um sujeito raro, que conheci bem, que viveu e morreu para deixar fortuna para a família. Com sua morte – infarto no trabalho, bem moço, antes do 60 anos –, os filhos se engalfinharam pela herança. Teve até morte suspeita entre os de mesmo sangue. Duas décadas passadas, todo o patrimônio deixado pelo meu amigo se dissolveu e, hoje, seus herdeiros estão na rua da amargura. O caçula, inclusive, internado em clínica de recuperação de drogados. Fui visitá-lo outro dia e sai de lá com o coração partido. O filme também tem em seu eixo a questão da infidelidade, tão comum em dias de urgência e de pouca assistência aos companheiros de cama.

Fica a dica para o ilustre leitor de Bandeira Dois, que ainda não conhece bem as obras de Clarice Lispector e Alexander Payne. “A hora da estrela” – que também é filme primoroso, adaptado e dirigido por Suzana Amaral, com Marcelia Cartaxo e José Dumont – e “Os descendentes”, com George Clooney, são trabalhos raros, daqueles que fazem a gente repensar o presente para transformar o futuro.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 1/2/12