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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Liberdade, liberdade!

Hoje, quando o Grêmio Recreativo Escola de Samba da Cidade Jardim ganhar a Praça da Estação noite adentro, entre seus 450 integrantes, vai ter na ala da harmonia sua velha guarda numa ode à liberdade. Nela, José Maria de Moura, o Zema, de 63 anos, bravo resistente do carnaval de Belo Horizonte. Nascido em Conceição do Mato Dentro, na Região Central de Minas Gerais, Zema veio moleque, aos 8 anos, para a capital, trazendo arte nas veias e ginga nos pés. O artista plástico, especializado em esculturas, formou grupo de samba no final dos anos 1960 e, em 1971, entrou para a Escola da Cidade Jardim. Na quadra do grêmio, no Bairro Luxemburgo, Zema acompanha os últimos preparativos que dão vida ao samba de enredo “Liberdade, o outro nome de Minas”, de Toninho do Cavaco, Marinho, Cantone, Paizinho do Cavaco, Seu Domingos, Tinim, Nico da Cuíca, Charlyson Farofa e Felipe Correria - a turma de compositores é grande, assim como o amor de Zema pelo trabalho na avenida.

Cervejinha ao lado da banqueta, cigarro entre os dedos, os olhos se enchem de cor para falar da agremiação que o acolhe. Zema exibe orgulho pela dedicação e resistência dos carnavalescos de BH, mas não poupa críticas ao conjunto das escolas locais, para ele, desmobilizado, enfraquecido pela “falta de vontade política de quem manda na cidade”. “Aqui, não é não tem carnaval porque o mineiro não vai… é o contrário: o mineiro não vai porque não tem carnaval. O folião de Minas vai pra onde tem festa. Nos anos 1980, nossa festa já foi boa demais. Já fomos o segundo carnaval do Brasil. A gente só perdia para o Rio de Janeiro”, afirma. Para o escultor, dono de ateliê na Av. Raja Gabaglia, falta envolvimento maior por parte do coletivo. “Veja só: este ano, apenas sete escolas vão desfilar. Seis no grupo A e uma no grupo B, sem concorrente. E com muita dificuldade. A realidade poderia ser outra”, lamenta.

Elegante e atencioso, Zema, bastante querido pela comunidade, não deixa de dar atenção aos voluntários que chegam à quadra. Volta ao assunto que o entristece: “Os empresários e as autoridades de BH não gostam de festa para o povo. Aqui, nem os bicheiros parecem gostar de carnaval. O que falta, principalmente, é estrutura para que um bom trabalho possa ser feito”, reclama. “Tome nota:” - faz questão de ressaltar - “Em 1980, em São Paulo, não havia a força que o carnaval tinha em BH. O que aconteceu: eles investiram. Criaram um sambódromo e deram infraestrutura para as escolas. Enquanto, aqui, expulsaram o carnaval para longe da Região Central”. Alegra-se ao observar o empenho dos mais jovens, voluntários, no retoque de figurinos, adereços e objetos de cena para o desfile. “A escola me deu muito mais do que pude oferecer para ela. Hoje, por exemplo, é uma alegria muito grande esta posição de poder contar histórias e não deixar morrer o nosso passado”, emociona-se.



Sambista engajada
Larissa Borges, de 30 anos, psicóloga, Bairro São Paulo

“Minha fantasia é segredo por causa do desfile do grupo A, na Praça da Estação. Estou ajudando a preparar as saias para a ala dos escravos, com palha da costa, vinda do bambu. Estou há três anos na escola, desde que a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) quis acabar com o grêmio. Aí, todo mundo veio e abraçou a escola. Com a mobilização, comecei a trabalhar pelo carnaval. Tenho trabalhado e sambado muito também (risos). É muito diferente de tudo o que a gente vê na televisão. Participar, estar aqui dentro, é outra coisa. É a resistência negra na rua”.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 20/2/12

Fotos: Marcos Vieira/EM/D. A Press

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