Van Gogh - Temporada 2017

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Estreia dia 17, no Teatro Marília

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A melhor herança é a educação


Clarice Lispector (foto), em “A hora da estrela”, escreveu que a melhor herança é a educação. Ontem, em sala de cinema, vi e ouvi algo parecido que chamou muito a minha atenção. O personagem Matt King, advogado, muito bem interpretado por George Clooney, diz ter aprendido que a gente deve deixar para os nossos filhos algo para que eles façam alguma coisa, não para que eles não façam nada. O diretor e roteirista Alexander Payne, certamente, pensa como a nossa Clarice Lispector. Aliás, seu filme “Os descendentes” é obra que ainda vai dar o que falar nas próximas semanas. Com cinco indicações ao Oscar 2012, incluindo melhor filme, ator (Clooney) e direção, o longa-metragem é um retrato cruel da família contemporânea, com pais perdidos, sem tempo para seus filhos, igualmente sem rumo.

Filhos. Volta e meia o assunto é pauta aqui, em nosso quintal. É que o amanhã pertence a eles, sabemos todos. E, além do mais, qual pai ou mãe, em estado de boa consciência, não quer ver seus filhotes grandes e livres? Na minha casa – sou neto, filho e pai –, as crianças estão sempre na moda. Patrimônio para herança não temos. Mas educação e presença sempre foram prioridades. E dá resultado, posso afirmar. E considere, amigo leitor, que venho de um tempo em que algumas lições eram ensinadas na chinela e na ponta da vara de goiaba. Pirraça e desobediência sempre foram tratadas no coro pelo velho Botelho e pelo pai do Velho Botelho, o vô Adão, homem de muitas regras e poucas concessões. São outros os tempos de agora. Jamais precisei levantar a mão para os meus filhos. Hoje, o rigor está no exemplo e na palavra, em broncas que, vez por outra, me fazem perder o sono. Contudo, dão resultado. Não posso me queixar do comportamento dos garotos. Aliás, orgulham-me. E muito.

Deixei o cinema, depois de “Os descendentes”, tarde da noite, e não consegui pregar o olho. Na cabeça, a família, como um filme. Vi parentes, amigos e conhecidos com histórias que também dariam bom roteiro. Casos de sucessos e insucessos, aos montes, de gente simples, como todos os que fazem parte da minha árvore. Tem um caso curioso de um sujeito raro, que conheci bem, que viveu e morreu para deixar fortuna para a família. Com sua morte – infarto no trabalho, bem moço, antes do 60 anos –, os filhos se engalfinharam pela herança. Teve até morte suspeita entre os de mesmo sangue. Duas décadas passadas, todo o patrimônio deixado pelo meu amigo se dissolveu e, hoje, seus herdeiros estão na rua da amargura. O caçula, inclusive, internado em clínica de recuperação de drogados. Fui visitá-lo outro dia e sai de lá com o coração partido. O filme também tem em seu eixo a questão da infidelidade, tão comum em dias de urgência e de pouca assistência aos companheiros de cama.

Fica a dica para o ilustre leitor de Bandeira Dois, que ainda não conhece bem as obras de Clarice Lispector e Alexander Payne. “A hora da estrela” – que também é filme primoroso, adaptado e dirigido por Suzana Amaral, com Marcelia Cartaxo e José Dumont – e “Os descendentes”, com George Clooney, são trabalhos raros, daqueles que fazem a gente repensar o presente para transformar o futuro.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 1/2/12

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