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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O circo e a cidade

Varekai fica em cartaz em BH até 12 de fevereiro

Até outubro do ano passado, o servente Alexandre dos Santos, de 23, a mulher, Anita Ribeiro, de 26, e o pequeno Alexander, de 3, viviam na companhia dos grilos em casinha miúda, em frente ao Córrego Sarandi, na Avenida Professor Clóvis Salgado, nº 1.400, no Bairro Bandeirantes, na Região da Pampulha. Vizinhos do campo do União Futebol Clube e de vários lotes vagos de lixo, mato e terra vermelha, o casal nem podia imaginar ver o entorno de sua posse, de pouco mais de 200 m2, se transformar no endereço mais badalado do verão em Belo Horizonte. “Falaram pra gente que ia chegar um circo. Aí, pensei que fosse um circo de palhaço”, conta Anita, grávida de oito meses. A dona de casa gostou da novidade e diz ter ficado encabulada com o grande movimento no preparo do terreno. Agora, o que a impressionou mesmo foi a chegada das 65 carretas, com mil toneladas de metal. Diante dos olhos estatelados da família Santos, em sete dias – como o mundo criado por Deus –, cerca de 200 operários, comandados por 22 técnicos estrangeiros ergueram as sete tendas do Cirque du Soleil. Uma cidade mambembe com 125 funcionários de 25 nacionalidades, vindos de quatro continentes. Nela, além da tenda principal, com capacidade para 2.612 espectadores, estacionamento, área vip, academia de ginástica, casa de máquinas e cozinha.


Alexandre e Anita estão curtindo a vizinhança internacional


O banheiro do papa

Um complexo circense de encantar, que mudou a paisagem do lugar, próximo a velha Toca da Raposa. Tudo ao redor da casinha de número 1.400, da família Santos, que tem no quintal o galo Fred, o gato Neném e os cães Tigresa, Magaiver e Vitória. “Agora, depois desse circo, o bairro vai crescer mais”, diz Alexandre, empolgado com os novos vizinhos saltadores, já que dos grilos ele não dá mais notícia. O canto ali agora é outro. É a trilha original de Montanaro Michael, que embala os saltos fantásticos e a mise-en-scène espetacular dos 58 performers do maior circo do planeta. Anita, convidada pela produção, foi ver Varekai e aprovou a performance da vizinhança. “É tudo bonito demais”, diz. A quilômetro dali, na Rua Policarpo Magalhães Viotti, tem outro cidadão bastante entusiasmado com as tendas. Logo que soube da atração internacional no bairro, Eduardo Rodrigues do Patrocínio, de 42, fez empréstimos para levantar R$ 17 mil e investir em seu botequim. Fez do seu micronegócio o que faz lembrar O banheiro do papa, filme uruguaio de 2007, baseado em fatos reais, que levou à tela a transformação que a notícia da passagem do Papa João Paulo II provocou numa comunidade. O comerciante, homem de hábitos simples, pai de família, repaginou o Área Verde Sport Bar e está se dando bem no atendimento de servidores do Soleil.

Eduardo, o filho Taymisson Edgar, de 19, e a mulher, Carmem Aparecida, de 41, até esticaram o horário de trabalho. Antes, davam expediente das 16h até às 23h. Com o Soleil, chegam a ficar das 6h até à 1h30. Ezequiel Souza, de 45, mora nos fundos do botequim. “É quem cuida do patrimônio”, brinca o patrão. O balconista elogia os novos vizinhos. “Tudo gente boa. Fiz até amizade com uns canadenses”, sorri. Eduardo prevê que, com o sucesso do lugar, a área deve ser transformada em espaço para grandes eventos. Espera, agora, que o poder público continue “dando moral” para o bairro. “A gente ainda carece de linha de ônibus e de mais segurança. Durante o evento, aqui é muito seguro. Só que, depois, falta policiamento”. O bar, com mesa de sinuca, é agradável, sortido, e tem salgado feito no capricho. “Estou neste endereço há 27 anos. Antes do circo, isso aqui era uma vergonha. Os lotes todos sujos. Agora, os vizinhos, para faturar com estacionamento, limparam tudo”, comenta.

Do outro lado do Córrego Sarandi, em frente à posse da família Santos, já é o Bairro Santa Terezinha. Pedro William Almeida Lima, de 15, auxiliar de jardinagem, pausa o trabalho para admirar o circo. “Olhe só que interessante aquele regador em cima da tenda maior. Deve ser para aliviar o calor, né!?”, imagina. O estudante, que sonha ser militar, se mostra grande fã da trupe internacional. Diz que a conhece bem pelo DVD de um tio, admirador do grupo canadense. “Eles são incríveis. No trapézio não há nada parecido. Eles saltam de alturas bem loucas. É radical”, entusiasma-se. Pedro William jamais pensou ter a oportunidade de trabalhar tão perto da companhia. Diz contentar-se com isso. Bom moço, estudante, até teria condições de pagar pelo ingresso mais barato (R$ 70, a meia-entrada), mas pensa na família. Especialmente nas irmãs menores de 12 e 6 anos. “Elas já assistiram ao DVD e endoidaram”, conta, já de volta ao serviço. Na calçada, duas mocinhas, tia e sobrinha. Letícia Oliveira, de 15, e Luana Silva Oliveira, de 14, também estão encantadas com o complexo de lonas. Luana, que mora no interior, não vai poder ver Varekai. Letícia, feliz, já tem ingresso.


Cynthia Clemente, venezuelana, relações públicas do Soleil


Sob as tendas do Cirque

Por dentro das lonas, o esquema da segurança tem rigor de primeiro mundo. A portaria lateral, ao lado do Área Verde Sport Bar, tem movimentação intensa, de serviço, para a alegria do Eduardo. Sob as tendas menores, que dão acesso ao palco principal, o caminho é marcado pela presença de artistas em treinamento. Disciplinados, homens e mulheres de corpos torneados se aquecem, saltam e malham pesado. Há um russo na maca, com o joelho em tratamento. Cena comum entre os intrépidos acrobatas, capazes de realizar os saltos que encantam tanto o auxiliar de jardinagem Pedro William e suas irmãs. Quatro chefs – um holandês, um espanhol e dois canadenses – cuidam da cozinha. A venezuelana Cynthia Clemente, de 31, há seis anos faz parte da trupe criada e dirigida por Dominic Champagne. A bela relações públicas, que já esteve no Brasil em 2005, com o espetáculo Saltimbanco, deixa evidente o orgulho de fazer parte da cidade sobre rodas do Cirque du Soleil. Fora dos palcos, é uma das responsáveis pelo bom trânsito dos técnicos e performers estrangeiros com a cultura local.

Para a venezuelana, fazer parte do Soleil é estar pronta para uma nova vida a cada temporada. Além dos funcionários da companhia, participam da turnê alguns acompanhantes – cônjuges e filhos. Ao todo, 170 estrangeiros. Para os serviços de recepção, bilheteria, portaria e limpeza, entre outros, 150 profissionais foram contratados para a temporada em Belo Horizonte. Cynthia ressalta que quatro professores atuam em período integral. Em cada cidade, em cada país – só Varekai, em dez anos, já esteve em 60 localidades de 15 países –, uma nova experiência. “Quando os artistas conheceram o samba no Rio de Janeiro, eles disseram que não havia melhor aquecimento que sambar”. E aprenderam? “Daquele jeito gringo que vocês conhecem”, diverte-se. Em Belo Horizonte, estão encantados com o Mercado Central e com os bares da Região Centro-Sul. Eles tiram a segunda-feira, dia de folga, para conhecer um pouco da cidade e da Região Metropolitana. Hoje, no programa, a histórica Ouro Preto e as cachoeiras da Serra do Cipó.

A noite cai e, do lado de fora, o trânsito começa a ficar complicado. Paulo José, de 30, faz malabarismo sobre a mureta do Córrego Sarandi para indicar o estacionamento e controlar as filas de carros que começam a se formar na Avenida Professor Clóvis Salgado para pagar R$ 30. Não quer perder clientes para os estacionamentos clandestinos, que cobram R$ 10. Ainda é cedo, falta hora para Varekai. Robson de Oliveira, de 52, e o irmão Rogério de Oliveira, de 46, motoristas, vieram de Divinópolis, trazendo oito pessoas para ver o Soleil. Satisfeita, a família Santos assiste a tudo do número 1.400, enquanto Eduardo, a mulher e o filho colhem os frutos dos investimentos aplicados na reforma do Área Verde Sport Bar. A privada ajuda a aumentar o faturamento: R$ 0,80 pelo uso da casinha.


Cidadã do mundo

Canadense, com formação em teatro, dança e música, Isabelle Corradi é a típica artista completa que faz do Cirque du Soleil referência mundial. Há 18 anos na trupe, já foi professora, preparadora de elenco e, atualmente, canta em Varekai. Simpática, poliglota – arrisca-se sem fazer feio com bom vocabulário em português –, Isabelle é contagiante. Diz-se imensamente feliz com sua “missão humana”, especialmente pela alegria que seu trabalho oferece para as plateias de todo o mundo. De família de três gerações de músicos, “casada com o Varekai”, demonstra prazer em conversar e fazer novas amizades. Vegetariana, a cantora circula com gosto pelos pequenos cafés próximos ao hotel, na Região Centro-Sul, e diz gostar muito do pão de queijo mineiro. Antes do Soleil, Isabelle estrelou shows nos Estados Unidos e na Europa, com carreira também na televisão. Nas suas andanças pelo planeta, diz ter conhecido lugares inesquecíveis. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, cita o “Topo do Mundo”, na Serra da Moeda, com o entusiasmo de quem sabe apreciar a natureza. Despede-se com “Namastê” – o Deus que há em mim saúda o Deus que há em você – e segue rumo a grande tenda com seus passos leves de menina-bailarina.

Social

Para ajudar a diminuir o abismo social que existe entre o alto nível de sua estrutura e a vizinhança de poucos recursos, com ingressos a preços pouco populares – entre R$ 140 e R$ 395 – o Cique du Soleil tem projeto social para atender crianças e adolescentes carentes. Entre outras iniciativas da companhia, está a liberação da entrada em pré-estreias para convidados selecionados por parceiros locais da Fundação Cirque Du Monde, mantida pela trupe.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho
Fotos: (1) Divulgação/Soleil (2) e (3) Túlio Santos

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