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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Altamir e a virada do ano



Altamir, de 38 anos, corretor de imóveis, acordou e não reconheceu a mulher comprida a dormir profundo, com ele, de conchinha. Cheirou as longas madeixas louras que lhe invadiam o nariz e não reconheceu o perfume cítrico da nuca. Afastou-se com cuidado para não acordar a parceira e acabou por esbarrar numa garrafa de vodka barata, vazia, a cutucar-lhe o quadril. Levantou o lençol e só aí se deu conta de que, assim como a boazuda, também estava nu. Empenhou-se fundo no resgate da memória e nada. Não fazia a menor ideia de como havia chegado naquela situação. Com o corpo doído, fechou os olhos numa nova tentativa de esquadrinhar o ocorrido: “Réveillon… Isso! Hoje é 1º de janeiro! Claro! Mas… e ela? Quem é ela? E que casa é essa?”, quis muito saber.

Não era casa. Era um quarto e sala do Edifício Maletta, na Região Central, bem decorado, com pintura especial, em pátina, em todas as paredes azuladas. Sentado na cama, não avistou nenhum de seus pertences. No criado-mudo, um celular cor-de-rosa. Não resistiu e catou o aparelho para ver se encontrava alguma pista. Abriu pasta de mensagens, de últimas ligações… nada. Entre as fotografias armazenadas, surpresa: a loura e ele, vestidos de branco, sorridentes até, de rostinhos colados, em brinde cheio de entusiasmo, tendo ao fundo o sol nascente na lagoa da Pampulha. Data e hora do retrato: sete horas antes, naquele mesmo 1º de janeiro. “Caracol sem casa! Que parada é essa?”, confundiu-se. Ainda mais com outras duas imagens, nas quais mandava ver narguilé de olhinhos virados.

O rádio relógio dispara: alarme com canto meloso de frangote: “Mas se mesmo assim, quiser me deixar, as lembranças vão na mala pra te atormentar”. Um tal Luan Santana. “Isso não! Até parece castigo”, estapeia o rádio que pisca meio-dia. A loura nada. Altamir toca o ombro da moçoila: “Ei! Ou! Psiu!”. Nada. O sono é profundo e a expressão da figura é a melhor possível. Tem carinha de quem está felicíssima. “Feia não é. Ao menos isso”, pensou alto. Não era a primeira experiência estranha do corretor. Lembrou-se de quando acordou ao lado de tribufu banguela e fedorenta, numa quarta-feira de cinzas, num casão de luxo de bairro chique da Zona Sul.

Reuniu forças, levantou-se, andou pelo apê e nada das roupas. “Putz! Minha cueca, minha carteira, as chaves da minha casa, do carro… cadê meu carro?” Nada. Nenhum fiapo de memória recente. Por último, na lembrança, a peleja para estacionar próximo ao Redondo. Repassou a recordação da noite até o momento em que saiu de casa, no Bairro Buritis, por volta das 22h30. Estava triste por ter levado fora da noiva depois de dois anos de idas e vindas. “Não fosse a Lu, não tava neste aperto”, considerou. A loura se espreguiça e ressona manhosa. Abre os olhos sem pressa e dá de cara com o Altair de pé, enrolado ao lençol, num canto do ambiente. Com a voz inconfundível de travesti, sorri com seus dentes de homem: “Bom-dia, bebê!”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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