Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Em 2010, tudo de bom!

O ano que finda pode não ter sido tão ruim. De mais a mais, para o cidadão honesto e trabalhador, as dificuldades já são regra. Exceção são os tempos de glória, fartura e alegria. A questão é que nem todo mundo aceita muito bem essa verdade. Entra ano, sai ano, é difícil haver novidade. Explodem novas quadrilhas de corruptos aqui e acolá. Em Brasília, então... Larápios e sanguessugas de tudo o que é lugar do Brasil acabam indo parar no Distrito Federal. Cegueira, miséria e corrupção. Dinheiro roubado na mala, na cueca, na meia e no calção. Haja ratoeira!

Argh! A política da falcatrua me dá nos nervos. Não vou nem render no papel que é pra não perder o humor. Vou é voltar à minha filosofia de fundo de quintal para dar seguimento ao raciocínio: 2009 poderia ter sido pior. Verdade. Aprendi com o Deus que há em mim que, quando algo está ruim, pode piorar. Portanto, entendo o que é ruim, assim, simplesmente ruim. Ruim e ponto. Já o que é bom, para mim, é sensacional, incrível... Fico feliz com pouco ou quase nada. Desde que passei a aceitar que (sobre)viver é matar um leão por dia, ganhei mais força para continuar lutando. Problemas todo mundo tem. Sabemos disso, amigo leitor. A diferença está em como cada um lida com eles. Vencedor ou perdedor? Depende de nós.

Vejo de tudo nessa praça. Posso garantir que quem não tem dificuldades reais, no fim das contas, acaba dando um jeito de inventar obstáculos imaginários. E como tem gente assim. Observando alguns conhecidos, cheguei a pensar que o homem não nasceu para viver em paz. Na época, assustou-me bastante essa conclusão. Cheguei a preencher meia dúzia de cadernetas com o assunto. Numa delas, amarela de capa dura, escrevi: “Incrível, quando estamos bem, em paz com nossas ações, damos um jeitinho de arrumar confusão”. Lembro-me bem da ocasião. Curiosamente, foi quando entrei num assunto para defender um amigo e perdi o sono com o aborrecimento.

Relendo as anotações reunidas, posso dizer: “Que bom que a gente amadurece”. No entanto, algumas histórias se repetem. Muito do que foi escrito há quase cinco anos está aí. Especialmente no que se refere à fantástica vocação do homem para ir atrás ou atrair problemas. Lembro-me de um tal Tony, conhecido do Adelson. Dizia-se bom de briga. Contava vantagem sobre os seus desentendimentos e adorava confusão. Começou a praticar uma dessas lutas de academia com gente desqualificada e, por fim, em 2004, foi esfaqueado numa briga de rua. Por pouco não morreu. “Tome juízo, Tony”, escrevi. Em 2009, pelo que tive notícia, não foram poucos os casos de violência assim.

Repassei os textos de fim de ano e um sentimento de gratidão se repete: viver é um privilégio. Cada instante a mais, em corpo emprestado, é presente do universo. Fácil? Quem disse que seria? Mas ter consciência do poder do Deus que há em nós ajuda a vencer. É o que precisamos acreditar para não desperdiçar a vida. As dificuldades tiramos de letra. Em 2010, amigo leitor, muito de bom nos espera!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 30/12/09

sábado, 26 de dezembro de 2009

Os amores de Alice

Encontro fatídico aquele entre o ex-marido e o novo amor de Alice, na ante-sala do bloco cirúrgico do hospital de pronto-socorro. E tudo muito rápido, coisa de hora, na madrugada do Natal. O caminhão perdeu o freio na Avenida Nossa Senhora do Carmo, avançou o sinal e acertou em cheio o uninho prateado da publicitária de 32 anos. Com o impacto, presa entre as ferragens, a mulher bêbada perdeu os sentidos. A bolsa de couro cru no banco de trás, espremida entre embrulho de presente e dúzia de flores, espalhou papéis pelo assoalho retorcido. Em evidência, fácil ao olhar do bom bombeiro, bilhete em cartão colorido: “Vou passar o final de semana com a família de um amigo. Não vivo sem você. Com amor, Diego”.

Logo abaixo da assinatura, número do telefone do sítio em Betim. O homem do resgate não teve a menor dúvida: a caminho do hospital de urgência, sob o som da sirene e dos efeitos das luzes agitadas, telefonou para dar a notícia do acidente ao tal Diego. “Ela não está bem. É melhor o senhor se apressar”, disse, objetivo, o agente de plantão. Diego saltou da cama emprestada com a cabeça num só giro. Havia exagerado no vinho durante a ceia na casa de madeira do colega músico. Jogou água fria no rosto e seguiu para Belo Horizonte. Estava a quase hora de distância do HPS. Tempo suficiente para repassar os oito anos de vida ao lado da acidentada, agora, entre a vida e a morte.

Rompidos há três semanas, Diego e Alice até que viveram dias felizes. Como tudo que começa um dia acaba, o casamento terminou no saco preto das idiossincrasias. O golpe duro veio dela: “Tenho novo amor. Adeus!”, disse assim, na lata, de bagagem arrumada. De romance há mais de mês com seu estagiário na agência, Alice não deu conta de viver na mentira. Já Diego vinha fazendo de tudo para resgatar a mulher. Em vão. O coração da moça já era do Luís Adriano, mais interessante e cheio de graça. Um sucesso o garotão de vinte e poucos anos: descolado, divertido e beberrão. “Nada disso importa agora”, pensou Diego, ao estacionar o carro em frente ao HPS.

“O caso é grave, meu senhor. Ela está sendo operada”, foi o que ouviu da enfermeira apressada, sem nuance ou expressão. Na ante-sala vazia, um silêncio de morte. Ateu, Diego andou de um lado para o outro sem ter a quem recorrer. Pensou apenas na natureza e tentou buscar força em si mesmo. Estava com a cabeça no infinito, quando ouviu a voz do rival: “Toma aí. Vai te fazer bem”. Virou-se e viu Luís Adriano, com copo de café na mão. Visivelmente abatido, com olheiras profundas, o rapaz, novo companheiro de Alice, manteve o braço erguido em oferta durante a longa pausa do ex-marido. “Toma, vai”, insistiu. Diego aceitou sem agradecer palavra. Ficaram ali, mudos, apenas os dois. Os ponteiros do relógio na parede se arrastavam na falta de notícia.

No “sinto muito” da mulher de branco, os dois se abraçaram numa única dor.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26/12/09

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Sou mais o menino Jesus

Querem remoçar o bom velhinho. Domingo, dois amigos da praça trouxeram o assunto para a mesa do lanche. O Osmar disse que querem um Papai Noel mais jovem, sem barriga, atlético e esbanjando saúde. Também não querem o generoso senhor da barba branca com seu trenó puxado por animais. A conversa rendeu por mais de hora. Primeiro, em tom sério, a notícia despertou o interesse de todos. Depois, com as piadas do Rubinho, o tema ganhou graça. Mais tarde, respeitosamente, encerramos o assunto para retomar o batente.

Motivado pelo espírito do Natal, num passeio, subi a Avenida Afonso Pena até a Praça do Papa, no Bairro Mangabeiras. Ainda não havia passado por lá depois das luzes de Natal. Havia acabado uma apresentação de uma espécie de teatro produzido por uma marca famosa de refrigerante. Ainda havia algum movimento no lugar, além de exposição, trenzinho e coisa e tal. Era fim de festa, mas foi possível perceber que se tratava de evento de grande porte. Parei o carro em mirante limpo e pude ver a beleza de nossa Belo Horizonte iluminada.

Respirei fundo com aquela belíssima vista de cartão-postal e resolvi dar tempo para reflexão e escrita. Saquei a caderneta de papel pautado e deixei a caneta correr solta, no fluxo do pensamento. Escrevi muito. Agradeci aos astros do céu por tudo de bom que a vida tem me oferecido: a saúde de todos os que amo; o pai extraordinário e os filhos incríveis; a companhia da doce Violeta que, este ano, voltou dos Estados Unidos para se entender comigo; os estudos beneficiados por momento de paz interior; o trabalho e, por fim, os amigos e parceiros raros que venho somando desde que nasci.

Entendi que, apesar de alguns projetos parecerem não sair do lugar, só tenho motivos para agradecer e comemorar. Viver em harmonia com o que é essencial e sagrado, realmente, é tudo o que importa. O resto é necessidade e invenção do homem. Manter-se alinhado com todos os nossos eus é um privilégio. A loucura é uma porta miúda que abrimos de fora para dentro. Manter sua chave em lugar seguro é tarefa para poucos. Afinal, entre o certo e o errado há uma linha por demais fina, quase invisível. Libertar-se dos males alojados no entorno do próprio umbigo é uma bênção.

É Natal. Independentemente de credo ou religião, há mesmo nesta época um espírito de luz que ronda o coração da maioria dos homens. Vendo a cidade daqui, com tantas mansões, um pensamento: é triste tanta diferença. E elas estão aí, por todos os lados. Os shoppings lotados e os sinais também, com crianças e pedintes de caixinhas nas mãos. Impossível não pensar nisso. Com tanto a ser feito por quem tem fome, não entendo como ainda tem gente que se preocupa com o tamanho da barriga do Papai Noel. Sou mais o menino Jesus.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 23/12/09

domingo, 20 de dezembro de 2009

O outro lado é apenas um ponto de vista

Dos mais difíceis, também dos mais felizes, "Vila dos mortos" volta ao cartaz em 2010. Aos companheiros de criação compartilhada, veteranos e recém-formados, o meu carinho. Aos parceiros (e mistérios) do lado de lá, nosso muito obrigado.








Leia mais sobre "Vila dos mortos" em:
http://jeffersondafonseca.blogspot.com/2009/09/vila-dos-mortos-critica.html

sábado, 19 de dezembro de 2009

Incômodo necessário

Poema do concreto armado, da Trupe de Teatro e Pesquisa, é perturbador. O espetáculo, dirigido por Yuri Simon, consegue provocar pelo todo. Há na peça bom alinhamento de texto e encenação. O que se vê em palco-passarela é trabalho de vertigem. O texto de Rodrigo Robleño, palhaço profissional, fala, entre tantas outras coisas, sobre a desumanização do homem-consumido(r). Não é fácil receber seu desabafo. Talvez porque as verdades contidas nas entrelinhas incomodem. Ou, ainda, porque seja por demais provocador perceber-se em subtextos como: “Veja aonde você quer chegar, idiota”. Comumente, sabemos todos, o homem vira as costas para recados assim. Afinal, é mais fácil se afundar na ignorância do que se erguer no vazio.

Não é de espantar que parte da plateia perceba Poema do concreto armado apenas trabalho alternativo, meio teatro, meio videoinstalação, defendido por boa trupe. De fato, é o que encontramos na superfície. No entanto, apesar do incômodo provocado por isso, vale dobrar-se em si mesmo, em busca do eu profundo, para enxergar de fora para dentro. Pensar já não se faz necessário no mundo pasteurizado em que vivemos. Quem questiona o sistema – se incorruptível – é silenciado com a morte. Yuri Simon consegue levar isso ao seu lugar qualquer sujo e caótico.

Tecnicamente, para êxito plural e absurdo da montagem, além do espaço apropriado em Santa Tereza, a direção reuniu estrutura multimídia eficiente, com monitores e projetor de vídeo. Achatados e fragmentados na parede, ou aprisionados em tubos (ao vivo ou gravados), as personagens de Poema do concreto armado se instalam e se expõem. A trilha, com sons, músicas, ruídos e offs, ajuda na construção de clima e atmosfera. Assim como o cenário, os objetos de cena e os figurinos são bastante adequados à poesia de Robleño. Se os excessos na roupagem são positivos em Poema do concreto armado, os de interpretação enfraquecem algumas criações.

Com tanta balbúrdia consistente na proposta, faz-se desnecessário, por exemplo, os olhos estatelados de Alice Corrêa, no papel de Male. Atriz de notável potencial e recurso, sua composição se apresenta por vezes externa. Simone Caldas, crível como Arthul, no papel de Fâny, erra a mão. Convincentes, ainda que em limite perigoso, estão os bons Jader Corrêa e Flávia Fernandes. Justos, por timing preciso e composição acertada, vê-se Alexandre Toledo e Edu Costa. Alexandre é ator visceral, que consegue dar cor ao silêncio. Já Edu, desdobrado, não força a barra numa vírgula. Representa com competência a sorte que ampara o herói morto.

Poema do concreto armado tinha tudo para ser apenas mais um furor criativo de trupe apaixonada por arte cênica e pesquisa. No entanto, oportuno e pertinente, coloca o dedo na ferida do que estamos fazendo de nós.

Poema do concreto armado
Hoje e amanhã, às 20h, no Ideal Clube, Rua Estrela do Sul, 169, Santa Tereza. Ingressos limitados (50 lugares): R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia-entrada). Informações: (31) 9123-1160.


Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19/12/09
Foto: João Silver

Um presente de Deus

Desde que foi vítima de derrame, no início deste ano, o pai da Júlia não soprou mais palavra. Aposentou-se por invalidez e pareceu ganhar novo mundo, imerso em si mesmo. Aos 58 anos, o silêncio foi a principal sequela do mal súbito que o deixou tempos acamado. Apesar das dificuldades motoras, Wilson conseguiu recuperar independência para as necessidades primárias. Voltou a andar e a cuidar da própria higiene. No entanto, não é mais de esboçar expressão. Os olhos têm brilho apenas na companhia da filha única, Júlia, médica de 29 anos. Perto da mulher, Carmelita, talvez por desgosto, "seu" Wilson se afundava no vazio de coisa nenhuma.

É verdade que não foi feliz no casamento. Laçado firmemente no passado, o advogado sempre penou nas mãos da dondoca. Da alta sociedade, Carmelita se casou por conveniência. Todo mundo sabia. Mas o coração - vai saber - tem lá as suas razões e o homem, apaixonado, pagou para ver. De cara, endividou-se até o pescoço para dar conta das extravagâncias e vontades da companheira. Sem vocação para fazer algo útil ou produtivo, Carmelita continuou a exigir mesada do pai. Wilson considerava aquilo um absurdo, já que todo o dinheiro era para roupas, perfumes, maquiagens e sapatos.

A vida se ia até que noite inesquecível mudaria o rumo dos acontecimentos. Isso, há quase 30 anos. Wilson chegou mais cedo do escritório e preparou prato predileto da mulher. Ela estava fora. Na ginástica, talvez. Ele, com resultado de exame no bolso, ensaiou a notícia ruim. Pensou em não dizer nada, mas não achou certo esconder verdade tão séria. Bem mais tarde do que de costume, Carmelita chegou descabelada. Nem olhou na cara do marido e mandou na lata: "Estou grávida! Você vai ser pai, Wilson!" E foi tomar banho, dizendo-se acabada. Seguiu sem esperar qualquer reação do sujeito. Aturdido, ele decidiu não revelar que, estéril, não podia ser pai. Os meses se somaram e a chegada da pequena Júlia acabou trazendo alegria ao infeliz.

Três décadas vividas, Carmelita não sossegava o quadril vagabundo. Depois do derrame do Wilson, passou a aprontar em casa mesmo. Com o marido no quarto ao lado, ela se acabava no colo de qualquer um. Dia desses, Júlia deu fim ao desrespeito da dona assanhada. Voltou do consultório e, ao encontrar o amante da mãe de calças arriadas no sofá, decidiu ir embora com o pai. Na porta, de malinha na mão, foi dura: "Vergonha. A senhora me enche de vergonha". Desceu a mão na cara plastificada da velha fogosa e foi parar em apart-hotel com o pai.

Naquela noite, no sofá-cama da sala de aluguel, Wilson quebrou o silêncio e sorriu com as palavras: "Você foi um presente de Deus, minha filha!".

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19/12/09

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Os donos do jogo

É o elenco quem segura O jogo da velha – Dooutroladodecá, em cartaz no Teatro João Ceschiatti. Não fossem atores tão bem preparados, a peça teria duração além da conta. Com mais de duas horas, a trama emaranhada, que a escritora Adriana Falcão resolve bem no papel, mostra-se ainda mais confusa na adaptação do diretor Zé Walter Albinati. No palco, a história de amor entre Luna Clara e Apolo Onze (também de Doravante e Aventura) se perde mais do que é devido em tempo e espaço. Fácil ao espectador deixar escapar o fio da meada, onde parece não haver fio nem meada, cortinados por jogo extravagante de palavras.

Ainda assim, tamanha força poética da obra, o texto infanto-juvenil levado à cena é sedutor. Preservado, em diálogos ou solilóquios, é capaz de dar independência aos sentidos e fazer valer qualquer esforço por parte da plateia para o alinhamento das ideias contidas na história original, extraída do livro Luna Clara & Apolo Onze. Não só pela poesia O jogo da velha merece audiência: vê-se no espetáculo tabuleiro de criatividade e de boas interpretações, com 17 atores em entrega e ritmo de formatura.

Montagem de conclusão do curso profissionalizante do Centro de Formação Artística (Cefar) da Fundação Clóvis Salgado, O jogo da velha tem encenação que oferece suporte ao elenco. Nisso, mérito da direção de Zé Walter, que, adepto da criação compartilhada, não engessou o grupo e permitiu que seus intérpretes-criadores trabalhassem. João Filho, com seu papagaio de inteligência inestimável, merece registro. O ator tem carisma, verve e consciência corporal destacados. Luísa Bahia é outro nome de futuro. Fácil dobrar-se ao timing de sua composição. As envergaduras de Marina Ferraz e de Priscila Bortoli também não passam despercebidas. Inesquecíveis ainda os mantenedores de Madrugada, Erudito e Aventura.

Produção cuidadosa, O jogo da velha tem ficha técnica de primeira linha: Inês Linke (cenário), Raul Belém Machado (consultoria de figurino) e Lúcia Ferreira (preparação corporal) mostram porque, entra ano, sai ano, estudar teatro no Palácio das Artes é tão concorrido. É notável o acabamento do trio-professor na realização de seus pupilos. A trilha, executada ao vivo pelo Grupo de Percussão do Cefar, também enriquece o espetáculo. Embora, por vezes, tenha volume além do necessário para a sala pequena e de boa acústica. Enfim, O jogo da velha é bom espetáculo de atores. É o bastante.

O JOGO DA VELHA – DOOUTROLADODECÁ
Teatro João Ceschiatti – Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400). Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 17h e 19h30. Entrada franca. As senhas devem ser retiradas 1h antes do espetáculo.


Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 18/12/09
Foto: Paulo Lacerda

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Corpo fechado

De fato, há muitas coisas entre o céu e a terra. Hoje não posso deixar de dividir com o amigo leitor pensamento que vem me pululando a cachola. Desde que tive como passageira, mulher triste, de nuvem escura na cabeça, não deixo de anotar o assunto. Em dois dias foram quatro cadernetas de bolso em riscos e rabiscos. Trata-se, numa linha simples, de inveja e olho gordo. Nunca fui de pensar muito nisso. Mas, depois da Conceição, fui obrigado a rever as ideias.

Foi uma aventura nosso encontro. Tomou-me o táxi sob forte chuva, no Bairro São Lucas, e seguimos até a região da Pampulha. Logo de início combinamos preço justo pela ida e pela volta. Disse-me que demoraria no máximo meia hora e pediu que esperasse por ela. Topei por várias razões. Menos pelo serviço e mais, talvez, por pressentir a história. Conceição, recém-separada do marido, seguia para consulta com uma velha, especialista em mau olhado.

Na ida, demorada pelo trânsito caótico da Avenida Pedro II, a bela mulher do vestido florido e de olho esverdeado me contou sobre a má fase. Sua história deixou-me arrepiado. Segundo ela, tudo começou há pouco mais de mês, com a chegada de uma prima nordestina. A parente passou uma semana em sua casa, para participar de curso na área de marketing. Feliz com o novo apartamento, comprado com o próprio suor no meio do ano, Conceição conta que fez de tudo para sua hóspede se sentir em casa.

Desde então, foi um festival de acontecimentos estranhos. A começar pelo jardim da área privativa: todas as flores mortas de um dia para o outro. O cachorrinho de estimação, um poodle branco “alegre e saltitante”, choroso e acuado por tudo que é canto, escondido sob os móveis. Problemas com trabalho, casamento e saúde: “Minha chefe quer a minha cabeça. Meu marido, sem mais nem por que, disse que precisava de um tempo e saiu de casa. E, como se tudo não bastasse, me aparece essa ferida. Olhe”, mostrou-me o machucado horrível no peito do pé direito.

Perguntei se ela havia procurado um médico. Ela disse que sim e que estava fazendo uma bateria de exames. Falou-me, porém, que estava certa de que tudo aquilo era fruto de energia ruim. Nisso, chegamos ao endereço combinado. Enquanto a aguardava, impressionado, desci a caneta no papel pautado e perdi a noção do tempo. A hora passou num raio e Conceição já estava de volta. Trazia uma sacola com ervas e pacote de cheiro bom. Pareceu-me aliviada. Não quis muita conversa. Abriu livro que comprou da benzedeira e não tirou os olhos dele.

De volta ao ponto de onde saímos, já sem chuva, sorriu pela primeira vez. No céu, uma estrela. Foi quando pude ler o título do tal livro: “Corpo fechado”. Anotei para adquiri-lo em seguida. É um romance editado pela Casa dos espíritos, “assinado por Robson Pinheiro, pelo espírito W. Voltz, orientado por Ângelo Inácio”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/12/09

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Yuri Simon e cia

Perturbador o "Poema do concreto armado", da Trupe de Teatro e Pesquisa. Esta semana escrevo sobre a montagem que fica em cartaz até domingo, dia 20.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O jogo da velha

Apesar de dramaturgia confusa, peça de formatura do Cefar tem festival de boas atuações. Esta semana, resenha em Vida Bandida.

O jogo da velha - dooutroladodecá
Formandos do Centro de Formação Artística (Cefar) da Fundação Clóvis Salgado - 2009. Sala João Ceschiatti - Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537 - 3236-7400). De quinta a sábado, às 21h e domingo (dia 20), às 17h e 19h30.

Dramaturgia e direção: Zé Walter Albinati


Entrada franca, com retirada dos ingressos 1h antes do espetáculo.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A maldição de Nelson

Carminha sempre teve inclinação para artista. Desde cedo roubava a atenção em casa e nas festas de família. Era “Carminha, dança para o titio” pra cá, “Carminha, canta pra vovó” pra lá... “Carminha, diz aquele poema do André Di Bernardi pra mamãe”. Uma loucura. Tanto é que a menina cresceu cheia de mimo e segurança. O pai, delegado, temia: “Essa menina vai dar muito trabalho”, disse certa vez, limpando o trezoitão. E deu. Bastou ganhar peitinho e bundinha para enlouquecer os colegas de escola.

Por onde andava Carminha fazia torcer o pescoço da marmanjada. Não fazia de propósito. O jeito tentador estava na alma. Mas não gostava dos garotos da sua idade. Na verdade, tinha verdadeiro pavor de adolescente com cara, riso e ideia de retardado. Carminha era diferente. Gostava de arte. Muita arte. Especialmente de teatro. Desde que conheceu Nelson Rodrigues, então, não quis saber de outra leitura.

Aos 16 anos, enveredou-se pelo campo das artes dramáticas. Escolheu escola séria, de nome e respeito. Procurou saber, entre os professores, quem era o mais entendido no escritor e anjo pornográfico. “É o Artistides. Sabe tudo. Já fez todas as peças do Nelson”, recomendou o secretário afeminado. “Quero a turma dele”, matriculou-se. Voltou para casa excitadíssima com as aulas já em andamento, que, para ela, começariam no dia seguinte. Comprou malha preta discreta para conter brilho e sedução. Não saiu à noite e foi para cama mais cedo.

Na escola, conheceu o professor: um cinquentão de olhar ordinário e fala mansa, com longas madeixas prateadas. Tinha mesmo cara de entedido o cretino. Apresentou-se por hora lambendo o próprio umbigo. Carminha, aquietada no fundo da sala, ouvia tudo atentamente e ajuizava seu valor. Os olhos do cidadão perceberam fundo a novata. “É você, com o cabelo trançado, a Carmem?”, perguntou o Aristides. Ela apenas moveu a cabeça. Ele discursou: “Gosta de Nelson, não é!? Pois saiba que não se aprende Nelson, minha filha. Vive-se Nelson”.

E continuou com tamanha convicção e postura vocal, que toda a classe pareceu hipnotizada. Menos Carminha. No entanto, convenceu-se para ver onde aquilo ia dar. Duas semanas passadas de muita falação, era hora de começar os ensaios. Acordaram montar cenas curtas, com textos de Nelson. O professor se ofereceu para preparação fora da escola com quem pegou o curso já iniciado. Naquela turma, apenas Carminha. O canastrão sugeriu domingo, à tarde, no teatro em reforma que ele administrava.

Na segunda-feira, pela manhã, cena rodriguiana em palco inacabado. Foi o pedreiro Adão o primeiro a chegar à obra. Encontrou inanimado, nu, com um tiro nos bagos, o professor Aristides. Amarrado, sangrou até morrer o infeliz. Soube-se na delegacia que ele adorava importunar menininhas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 12/12/09

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Poema do concreto armado


Bom diretor, bons atores... vamos ver o que Yuri Simon, Alexandre Toledo, Edu Costa e cia. aprontaram nessa proposta multimídia, que marca os 15 anos da Trupe de Teatro e Pesquisa.


Poema do concreto armado
De sexta-feira a domingo, às 20h, no Ideal Clube, Rua Estrela do Sul, 169, Santa Tereza. Ingressos limitados: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia-entrada). Até 20 de dezembro.
Informações: (31) 9123-1160.

Foto: João Silver

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Boa é a vontade


Não é querer demais esperar muito de uma montagem de formatura do Teatro Universitário da Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG. Fundada em 1952, o TU, como é conhecida, é uma das mais importantes escolas de arte do país. No entanto, Via Crucis do Corpo, da turma de 2009, dirigida por Alexander de Moraes, está longe de representar o conjunto das boas lições ensinadas por lá.

O pior do espetáculo está no desenho da cena, com marcações primárias e coreografias pobres, dessas comuns às escolas menores, livres e de pouco compromisso. A ideia do tango como ponto de partida se esgota e enfraquece a ação dramática. Mesmo o bom texto de Clarice Lispector perde força narrativa ao ser dissolvido por estrutura de jogral, usada apenas para justificar o número de atores no palco. O vermelho, presente ao longo de uma hora de duração, chapa e cansa.

Os três contos da escritora, “Miss Algrave”, “Praça Mauá” e “O corpo”, são narrados e encenados em três quadros cômicos de breve duração. Está em “O corpo” o resultado mais apurado: há boa química e trato da palavra entre o quarteto que sustenta a cena. Aliás, em Via Crucis do Corpo, pelo todo, se salva a boa vontade e entrega dos atores. Bem, precisamente, meia dúzia deles. Outros fazem número, engessados pela encenação.

Não há melhor ator que o estudante que busca a profissionalização numa escola séria. Em geral, intrépido e disposto a doar o corpo e a alma para aprender e mostrar serviço. Cabe à direção buscar o projeto que aproveite ao máximo o potencial de seu grupo. Nesse sentido, Alexander de Moraes erra ao privilegiar uma encenação ruim. Peca, também, ao desperdiçar a boa violoncelista Larissa Mattos com acordes já tão batidos ao universo pornográfico de Nelson Rodrigues.

O texto de Clarice Lispector, somado à boa trupe, merecia mais. Muito mais.

Via Crucis do Corpo
Espaço Trama Teatro Garagem (Rua Salinas, 642, Bairro Floresta). Até dia 20, de terça-feira a domingo, às 20h. Entrada franca. Ingressos limitados, controlados por senha. Reservas: (31) 3879-2475 e 9128-2475.


(Jefferson da Fonseca Coutinho - Estado de Minas - Foto Ilana Caiafa)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Via Crucis do Corpo

Uma pena. A direção não soube valorizar o elenco. Para espetáculo de formatura do TU, com texto de Clarice Lispector, o resultado decepciona. Amanhã, no blog, resenha sobre a montagem. Laura Picorelli e cia., bem-vindos ao mercado!

É hoje


O Comedor de Batatas
Hoje (quarta-feira), às 20h

Casa do Estudante (Avenida Getúlio Vargas, 85 - Funcionários)

Ingressos: R$ 2

Mineiros, cariocas e urubus


Parabéns aos flamenguistas de Juiz de Fora! Especialmente ao técnico Andrade, que fez bonito Brasil afora, levando o Flamengo ao hexacampeonato. Já pelas bandas de cá, verdade seja dita, não há muito o que comemorar. A Libertadores para o Cruzeiro não era mais do que obrigação. Para mim, sem oba-oba, o treinador Adilson Batista está é em falta. Vamos ver se vai saber aproveitar a nova oportunidade e o voto de confiança da torcida azul. E o Galo? Um fiasco. Definitivamente, não merece a torcida que tem.

Mas futebol é assunto para os entendidos (e são muitos). Resolvi abrir nossa Bandeira Dois com o Flamengo, do mineiro Andrade, porque estive no fim de semana em Juiz de Fora e fiquei bastante impressionado com a festa rubro-negra na cidade. Buzinaço e carnaval em vários pontos por onde passei. Parecia que Violeta e eu estávamos no estado do Rio de Janeiro. Nunca vi tanta gente bonita aglomerada vestida de preto e vermelho. Uma farra, com bares e ruas lotados.

Depois de sábado e domingo de muitas alegrias em terra de inclinações fluminenses, a semana começou bem na volta a Belo Horizonte. Praça movimentada, aquecida pelas chuvas e pelo Natal que se aproxima. Este mês promete ser muito bom. Ontem, o Adelson, otimista que só ele, disse que já faturou em uma semana mais do que durante todo o mês passado. Está rindo até, de carro novo e em paz com amor antigo. Grande, Adelson! Beijo na Rita, meu velho. É. Não tenho dúvidas: o bem atrai o bem. A cada dia acredito mais nisso.

Gosto muito de pensar que o pensamento é como ímã. Tenho provas reais, diariamente, da tal lei da atração. Tenho muitos amigos e colegas. Basta ser um pouquinho observador para ver de tudo: quem só pensa em mulher, tem muita mulher; em dívida, muita dívida; em trabalho, muito trabalho; em doença, muita doença... e por aí vai. Há até quem só pensa em dinheiro e tem muito dinheiro. O problema é que o dinheiro não é tudo. Daí a importância de equilíbrio na vida. Não é fácil, mas vale refletir sobre isso.

No momento, por exemplo, tenho pensado muito em paz. Especialmente, na paz do mar e de suas marés no Espírito Santo. É onde vou passar a segunda quinzena de janeiro com a família, logo depois da etapa final do vestibular da UFMG. Feliz, estou procurando não pensar muito nas provas da próxima fase. Não quero perder os cabelos. Em vez de continuar comendo os livros, optei por um treinamento zen: bioenergética e meditação. Comecei na segunda-feira mesmo, logo depois de saber o resultado.

No mais, 12 horas de jornada. No tempinho vago, mão na caneta azul, que corre solta na caderneta de papel pautado. Depois de falar de Minas, do Rio e do Flamengo, um título: “Mineiros, cariocas e urubus”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 9 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Clarice Lispector

É sempre bom ver atores mergulhados no universo de Clarice. Vou hoje. Depois conto pra vocês.


Via Crucis do Corpo
Com os formandos do TU 2009
Adaptação dos contos de Clarice Lispector
Direção: Alexander de Moraes

Espaço Trama Teatro Garagem
Rua Salinas, 642 - Floresta

De 9 a 20 dezembro, às 20h

Reservas:
(31) 9128-2475
(31) 2515-1580

sábado, 5 de dezembro de 2009

O professor e a prostituta

"Mesmo sentados a meio estabelecimento de distância, Jonilson e Bela trocaram olhares fulminantes. Ele, por paixão, tipo amor à primeira vista. Ela, por esporte, pura diversão"




Tudo começou com uma permuta. A proposta partiu dele, que já havia desembolsado bom trocado pelos sussurros da mulher de aluguel. Desde que a conheceu, num restaurante da Rua da Bahia, tomou gosto pelas habilidades incríveis da profissional do sexo. Jonílson colocou as despesas na ponta do lápis e concluiu que, com o salário de professor, não daria para duas vezes por mês. "Com a outra eu queria todo dia!", pensou alto ao ver a esposa sem sal roncar numa madrugada fria, já mordido de amor.

Com a relação minguada em casa, vez ou outra, no sacrifício, ele estava decidido a se arranjar na rua. Daí, num rodízio de massas com o pessoal do trabalho, conheceu a beldade loura. Ela estava na mesa dos fundos, acompanhada de antigo chefe em casa de idiomas. Assim foram apresentados: "Esta é a Bela", disse o velho gentil. "Prazer...", suspirou Jonílson. "Este é o melhor professor de línguas que já passou pela minha escola", elogiou o ex-patrão. A garota de programa sorriu sedutora: "Gosto de línguas".

Mesmo sentados a meio estabelecimento de distância, Jonílson e Bela trocaram olhares fulminantes. Ele, por paixão, tipo amor à primeira vista. Ela, por esporte, pura diversão. O "seu" Messias, pagante da vez, nem pareceu se importar. Com o sorriso largo, demonstrava gosto pela situação. Até incentivou Bela a escrever bilhete no guardanapo. Prato na mesa, Jonílson mandou ver macarrão ao alho e óleo. "Muito bom ver você", despediu-se Messias, entusiasmado com dose de Viagra na cabeça. Já a Bela, maliciosa, apenas tomou a mão do Jonilson e soltou recado marcado com batom.

Papel perfumado entre os dedos, aquilo arrepiou o homem do calcanhar ao cocoruto. Despistou os colegas e foi ao banheiro para ler o guardanapo: "R$ 500 a hora". Abaixo do preço, o número do celular. Aquilo incendiou ainda mais o varão adormecido. Pensou no dinheirinho das economias e não teve dúvidas. Esperou tempo para a farra do ex-patrão e, já no entrar da madrugada, ligou para a indecência. Do outro lado, doce: "Pensei que não fosse mais ligar". Jonílson tomou nota do endereço e suou R$ 1 mil na cama king size, em suíte da cobertura de Bela, no Bairro de Lourdes.

Lá pelo terceiro encontro, Bela, que já dominava inglês e espanhol, por graça ou simpatia, resolveu aceitar a proposta de Jonílson: para cada hora de francês, uma hora de sexo. Não precisou completar um caderno de exercícios para reviravolta na vida dos dois. Ele saiu de casa e deixou a escola para abrir o próprio negócio. Ela jogou fora caderneta de contatos e montou confecção de lingeries.

Grávidos, acabaram de voltar de lua de mel em Paris.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Estreia prestigiada

Vila dos mortos tem estreia marcada pela presença de artistas, escritores, produtores de TV e jornalistas de Minas Gerais. Apesar da forte chuva, muita gente de bem foi prestigiar o grupo que, hoje e amanhã, às 20h, faz mais duas apresentações.

Peça de inspiração em técnicas de cinema (roteiro e montagem), Vila dos mortos conta com sete histórias cruzadas, editadas quadro a quadro, em pouco mais de uma hora de duração. São 30 personagens defendidos por 25 atores, numa rua de bairro qualquer em Belo Horizonte.

É programa imperdível para quem gosta de novas propostas de encenação.



Fica o convite:

Hoje e amanhã (dias 3 e 4/12), às 20h, no Espaço Cultural Puc Minas, Rua Sergipe, 790 (Praça da Liberdade). Senhas 30 minutos antes da apresentação. Informações: 3269-3260.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Vila dos mortos - Chamada

Hoje tem espetáculo!

Hoje tem Vila dos mortos, às 20h, no Espaço Cultural Puc Minas (Praça da Liberdade). Senhas 30 minutos antes da apresentação. Entrada pela Rua Sergipe, 790, Bairro Funcionários. Espero vocês!



Sete histórias de amor e morte, encenadas simultaneamente, compõem Vila dos mortos. Peça tem estrutura cinematográfica e conta com 25 atores no elenco. Abaixo, leia crítica escrita pela jornalista Janaina Cunha Melo, publicada no jornal Estado de Minas:


Nova proposta

Amanhã tem mais uma sessão de Vila dos mortos, no Teatro da PUC (Rua Sergipe, 790, Funcionários), às 20h. A montagem da Escola de Teatro da PUC/MG tem méritos que a tornam uma experiência curiosa para a plateia. Situação rara no teatro mineiro e nacional, o argumento leva para cena elementos do realismo fantástico, com ótimos resultados. A partir de seis histórias, que em algum momento se encontram, a trama revela as muitas maneiras como as pessoas se relacionam com seus mortos. A bem da verdade, trata das perdas. Algumas inesperadas, outras nem tanto. E da maneira como é possível lidar com elas, com mais ou menos habilidade.

O cenário é outro ponto importante da montagem. Bem resolvido e com inspiração em linguagem cinematográfica, ajuda na dramaturgia. Cada uma das histórias é apresentada de forma clara e favorece o entendimento do texto. Pela complexidade do que é proposto, facilmente a trama poderia se embaralhar, mas, com ajuda dos objetos e da estrutura da montagem, a narrativa ganha força em cada núcleo em movimento crescente, até encontrar nexo como espetáculo. Como experimentação, Vila dos mortos depende de pequenos ajustes e amadurecimento de atuação, mas merece destaque, sobretudo pela coragem de propor algo novo para o público e os próprios estudantes. Aventura corajosa, que pode render bons frutos para a companhia, com 25 integrantes. Eles demonstram que nem sempre o caminho mais curto, óbvio e fácil, é o melhor.

Janaina Cunha Melo

(EM Cultura - Jornal Estado de Minas - 2 de setembro de 2009)

Em cartaz: dias 2, 3 e 4 de dezembro, às 20h

Espaço Cultural Puc Minas - Rua Sergipe, 790 (Praça da Liberdade)

O vestibular da UFMG é osso!

Mais um vestibular da UFMG deixado pelo caminho. Lá se foi! Eita que é preciso estar em muita paz interior para encarar a peleja. A começar pelo desafio de chegar ao local das provas. Mandaram-me para campus no Bairro São Gabriel. O lado oposto de onde moro. E olha que havia a opção de uma escola bem ao lado da minha casa. Não entendo a geografia desse povo. Não seria muito mais fácil encaminhar o vestibulando para um ponto próximo ao seu endereço?

Com isso, certamente, não ocorreria a confusão no trânsito rumo ao São Gabriel e aos outros pontos espalhados pela cidade. O engarrafamento que encarei já estava armado na Avenida Cristiano Machado. Uma loucura! Tempo chuvoso para complicar a situação. Não fosse a Violeta ao volante, mesmo tendo saído de casa com duas horas de antecedência, teria encontrado os portões fechados. Desci do carro e segui a pé para a universidade. Foi longa a caminhada, sob chuva fina, desde a Linha Verde. Misturei-me na multidão de adolescentes na mesma situação.

Segui longa caminhada, a passos largos, na companhia de rapazes e moças que podiam ser meus filhos. Devo confessar que curti a aventura. Achei aquilo um barato. Imaginei-me feliz, nos bancos da escola, aprendendo com todos aqueles garotos. E eles sabem muito. Eu sei que sabem. Era possível perceber os bons candidatos pelo sufoco no andar. Toda aquela correria para chegar 30 minutos antes das provas é só para gente muito interessada. Eu, quarentão, não faço mais do que a minha obrigação. Agora, aquela meninada de 17, 18 anos... só por comprometimento. Fiquei bastante admirado.

Conheço jovens aos montes que não estão nem aí para os estudos. Tenho amigos que estão cortando um dobrado com os filhos, que só querem saber de farra e de vida mansa. Se a vida anda dura até para quem tem estudo e qualificação, imaginem para o sujeito sem formação ou conhecimento. Violeta sempre diz: "O caminho é a universidade". Nisso também concordo plenamente com ela. E ela sabe bem o que diz. Tem estudo para mais de metro e está concluindo mestrado. Tenho muito orgulho da Violeta. É minha principal apoiadora nessa empreitada com os estudos. Mulher exemplar está ali: jamais fala pelos cotovelos e é incapaz de qualquer indelicadeza.

Mais tarde, conferiu o gabarito comigo como se fosse ela a candidata. Deu-me abraço carinhoso pela pontuação e sorriu com doçura. Fiz o melhor que pude para travar o bode pelo chifre. Busquei todo o equilíbrio possível para não fazer feio. Estudei o ano inteiro como não havia estudado em toda a vida. Li até o que não dei conta e apanhei de muita informação. Vestibular na federal é isso: osso. Agora é aguardar o resultado.

Boa sorte, garotada!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 2 de dezembro de 2009

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Vila dos mortos

A vida ao avesso está de volta em espetáculo de formatura dos alunos da Escola de Teatro da Puc Minas. Imperdível!



Vila dos mortos, redesenhada, ganha nova cena de investigação sensorial. O elenco, em busca de desafios, assume novos conflitos na trama de plataforma fantástica. No palco, 25 atores contam a história de pessoas comuns em bairro qualquer de Belo Horizonte.


Dias 2, 3 e 4 de dezembro, às 20h
Ingressos: 1 quilo de alimento não-perecível

Senhas 30 minutos antes do espetáculo.