Vincent - Um solo de amor

sábado, 19 de dezembro de 2009

Um presente de Deus

Desde que foi vítima de derrame, no início deste ano, o pai da Júlia não soprou mais palavra. Aposentou-se por invalidez e pareceu ganhar novo mundo, imerso em si mesmo. Aos 58 anos, o silêncio foi a principal sequela do mal súbito que o deixou tempos acamado. Apesar das dificuldades motoras, Wilson conseguiu recuperar independência para as necessidades primárias. Voltou a andar e a cuidar da própria higiene. No entanto, não é mais de esboçar expressão. Os olhos têm brilho apenas na companhia da filha única, Júlia, médica de 29 anos. Perto da mulher, Carmelita, talvez por desgosto, "seu" Wilson se afundava no vazio de coisa nenhuma.

É verdade que não foi feliz no casamento. Laçado firmemente no passado, o advogado sempre penou nas mãos da dondoca. Da alta sociedade, Carmelita se casou por conveniência. Todo mundo sabia. Mas o coração - vai saber - tem lá as suas razões e o homem, apaixonado, pagou para ver. De cara, endividou-se até o pescoço para dar conta das extravagâncias e vontades da companheira. Sem vocação para fazer algo útil ou produtivo, Carmelita continuou a exigir mesada do pai. Wilson considerava aquilo um absurdo, já que todo o dinheiro era para roupas, perfumes, maquiagens e sapatos.

A vida se ia até que noite inesquecível mudaria o rumo dos acontecimentos. Isso, há quase 30 anos. Wilson chegou mais cedo do escritório e preparou prato predileto da mulher. Ela estava fora. Na ginástica, talvez. Ele, com resultado de exame no bolso, ensaiou a notícia ruim. Pensou em não dizer nada, mas não achou certo esconder verdade tão séria. Bem mais tarde do que de costume, Carmelita chegou descabelada. Nem olhou na cara do marido e mandou na lata: "Estou grávida! Você vai ser pai, Wilson!" E foi tomar banho, dizendo-se acabada. Seguiu sem esperar qualquer reação do sujeito. Aturdido, ele decidiu não revelar que, estéril, não podia ser pai. Os meses se somaram e a chegada da pequena Júlia acabou trazendo alegria ao infeliz.

Três décadas vividas, Carmelita não sossegava o quadril vagabundo. Depois do derrame do Wilson, passou a aprontar em casa mesmo. Com o marido no quarto ao lado, ela se acabava no colo de qualquer um. Dia desses, Júlia deu fim ao desrespeito da dona assanhada. Voltou do consultório e, ao encontrar o amante da mãe de calças arriadas no sofá, decidiu ir embora com o pai. Na porta, de malinha na mão, foi dura: "Vergonha. A senhora me enche de vergonha". Desceu a mão na cara plastificada da velha fogosa e foi parar em apart-hotel com o pai.

Naquela noite, no sofá-cama da sala de aluguel, Wilson quebrou o silêncio e sorriu com as palavras: "Você foi um presente de Deus, minha filha!".

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 19/12/09

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