Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

sábado, 26 de dezembro de 2009

Os amores de Alice

Encontro fatídico aquele entre o ex-marido e o novo amor de Alice, na ante-sala do bloco cirúrgico do hospital de pronto-socorro. E tudo muito rápido, coisa de hora, na madrugada do Natal. O caminhão perdeu o freio na Avenida Nossa Senhora do Carmo, avançou o sinal e acertou em cheio o uninho prateado da publicitária de 32 anos. Com o impacto, presa entre as ferragens, a mulher bêbada perdeu os sentidos. A bolsa de couro cru no banco de trás, espremida entre embrulho de presente e dúzia de flores, espalhou papéis pelo assoalho retorcido. Em evidência, fácil ao olhar do bom bombeiro, bilhete em cartão colorido: “Vou passar o final de semana com a família de um amigo. Não vivo sem você. Com amor, Diego”.

Logo abaixo da assinatura, número do telefone do sítio em Betim. O homem do resgate não teve a menor dúvida: a caminho do hospital de urgência, sob o som da sirene e dos efeitos das luzes agitadas, telefonou para dar a notícia do acidente ao tal Diego. “Ela não está bem. É melhor o senhor se apressar”, disse, objetivo, o agente de plantão. Diego saltou da cama emprestada com a cabeça num só giro. Havia exagerado no vinho durante a ceia na casa de madeira do colega músico. Jogou água fria no rosto e seguiu para Belo Horizonte. Estava a quase hora de distância do HPS. Tempo suficiente para repassar os oito anos de vida ao lado da acidentada, agora, entre a vida e a morte.

Rompidos há três semanas, Diego e Alice até que viveram dias felizes. Como tudo que começa um dia acaba, o casamento terminou no saco preto das idiossincrasias. O golpe duro veio dela: “Tenho novo amor. Adeus!”, disse assim, na lata, de bagagem arrumada. De romance há mais de mês com seu estagiário na agência, Alice não deu conta de viver na mentira. Já Diego vinha fazendo de tudo para resgatar a mulher. Em vão. O coração da moça já era do Luís Adriano, mais interessante e cheio de graça. Um sucesso o garotão de vinte e poucos anos: descolado, divertido e beberrão. “Nada disso importa agora”, pensou Diego, ao estacionar o carro em frente ao HPS.

“O caso é grave, meu senhor. Ela está sendo operada”, foi o que ouviu da enfermeira apressada, sem nuance ou expressão. Na ante-sala vazia, um silêncio de morte. Ateu, Diego andou de um lado para o outro sem ter a quem recorrer. Pensou apenas na natureza e tentou buscar força em si mesmo. Estava com a cabeça no infinito, quando ouviu a voz do rival: “Toma aí. Vai te fazer bem”. Virou-se e viu Luís Adriano, com copo de café na mão. Visivelmente abatido, com olheiras profundas, o rapaz, novo companheiro de Alice, manteve o braço erguido em oferta durante a longa pausa do ex-marido. “Toma, vai”, insistiu. Diego aceitou sem agradecer palavra. Ficaram ali, mudos, apenas os dois. Os ponteiros do relógio na parede se arrastavam na falta de notícia.

No “sinto muito” da mulher de branco, os dois se abraçaram numa única dor.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26/12/09

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