Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 12 de dezembro de 2009

A maldição de Nelson

Carminha sempre teve inclinação para artista. Desde cedo roubava a atenção em casa e nas festas de família. Era “Carminha, dança para o titio” pra cá, “Carminha, canta pra vovó” pra lá... “Carminha, diz aquele poema do André Di Bernardi pra mamãe”. Uma loucura. Tanto é que a menina cresceu cheia de mimo e segurança. O pai, delegado, temia: “Essa menina vai dar muito trabalho”, disse certa vez, limpando o trezoitão. E deu. Bastou ganhar peitinho e bundinha para enlouquecer os colegas de escola.

Por onde andava Carminha fazia torcer o pescoço da marmanjada. Não fazia de propósito. O jeito tentador estava na alma. Mas não gostava dos garotos da sua idade. Na verdade, tinha verdadeiro pavor de adolescente com cara, riso e ideia de retardado. Carminha era diferente. Gostava de arte. Muita arte. Especialmente de teatro. Desde que conheceu Nelson Rodrigues, então, não quis saber de outra leitura.

Aos 16 anos, enveredou-se pelo campo das artes dramáticas. Escolheu escola séria, de nome e respeito. Procurou saber, entre os professores, quem era o mais entendido no escritor e anjo pornográfico. “É o Artistides. Sabe tudo. Já fez todas as peças do Nelson”, recomendou o secretário afeminado. “Quero a turma dele”, matriculou-se. Voltou para casa excitadíssima com as aulas já em andamento, que, para ela, começariam no dia seguinte. Comprou malha preta discreta para conter brilho e sedução. Não saiu à noite e foi para cama mais cedo.

Na escola, conheceu o professor: um cinquentão de olhar ordinário e fala mansa, com longas madeixas prateadas. Tinha mesmo cara de entedido o cretino. Apresentou-se por hora lambendo o próprio umbigo. Carminha, aquietada no fundo da sala, ouvia tudo atentamente e ajuizava seu valor. Os olhos do cidadão perceberam fundo a novata. “É você, com o cabelo trançado, a Carmem?”, perguntou o Aristides. Ela apenas moveu a cabeça. Ele discursou: “Gosta de Nelson, não é!? Pois saiba que não se aprende Nelson, minha filha. Vive-se Nelson”.

E continuou com tamanha convicção e postura vocal, que toda a classe pareceu hipnotizada. Menos Carminha. No entanto, convenceu-se para ver onde aquilo ia dar. Duas semanas passadas de muita falação, era hora de começar os ensaios. Acordaram montar cenas curtas, com textos de Nelson. O professor se ofereceu para preparação fora da escola com quem pegou o curso já iniciado. Naquela turma, apenas Carminha. O canastrão sugeriu domingo, à tarde, no teatro em reforma que ele administrava.

Na segunda-feira, pela manhã, cena rodriguiana em palco inacabado. Foi o pedreiro Adão o primeiro a chegar à obra. Encontrou inanimado, nu, com um tiro nos bagos, o professor Aristides. Amarrado, sangrou até morrer o infeliz. Soube-se na delegacia que ele adorava importunar menininhas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 12/12/09

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