Fantástico - Vai fazer o quê?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Corpo fechado

De fato, há muitas coisas entre o céu e a terra. Hoje não posso deixar de dividir com o amigo leitor pensamento que vem me pululando a cachola. Desde que tive como passageira, mulher triste, de nuvem escura na cabeça, não deixo de anotar o assunto. Em dois dias foram quatro cadernetas de bolso em riscos e rabiscos. Trata-se, numa linha simples, de inveja e olho gordo. Nunca fui de pensar muito nisso. Mas, depois da Conceição, fui obrigado a rever as ideias.

Foi uma aventura nosso encontro. Tomou-me o táxi sob forte chuva, no Bairro São Lucas, e seguimos até a região da Pampulha. Logo de início combinamos preço justo pela ida e pela volta. Disse-me que demoraria no máximo meia hora e pediu que esperasse por ela. Topei por várias razões. Menos pelo serviço e mais, talvez, por pressentir a história. Conceição, recém-separada do marido, seguia para consulta com uma velha, especialista em mau olhado.

Na ida, demorada pelo trânsito caótico da Avenida Pedro II, a bela mulher do vestido florido e de olho esverdeado me contou sobre a má fase. Sua história deixou-me arrepiado. Segundo ela, tudo começou há pouco mais de mês, com a chegada de uma prima nordestina. A parente passou uma semana em sua casa, para participar de curso na área de marketing. Feliz com o novo apartamento, comprado com o próprio suor no meio do ano, Conceição conta que fez de tudo para sua hóspede se sentir em casa.

Desde então, foi um festival de acontecimentos estranhos. A começar pelo jardim da área privativa: todas as flores mortas de um dia para o outro. O cachorrinho de estimação, um poodle branco “alegre e saltitante”, choroso e acuado por tudo que é canto, escondido sob os móveis. Problemas com trabalho, casamento e saúde: “Minha chefe quer a minha cabeça. Meu marido, sem mais nem por que, disse que precisava de um tempo e saiu de casa. E, como se tudo não bastasse, me aparece essa ferida. Olhe”, mostrou-me o machucado horrível no peito do pé direito.

Perguntei se ela havia procurado um médico. Ela disse que sim e que estava fazendo uma bateria de exames. Falou-me, porém, que estava certa de que tudo aquilo era fruto de energia ruim. Nisso, chegamos ao endereço combinado. Enquanto a aguardava, impressionado, desci a caneta no papel pautado e perdi a noção do tempo. A hora passou num raio e Conceição já estava de volta. Trazia uma sacola com ervas e pacote de cheiro bom. Pareceu-me aliviada. Não quis muita conversa. Abriu livro que comprou da benzedeira e não tirou os olhos dele.

De volta ao ponto de onde saímos, já sem chuva, sorriu pela primeira vez. No céu, uma estrela. Foi quando pude ler o título do tal livro: “Corpo fechado”. Anotei para adquiri-lo em seguida. É um romance editado pela Casa dos espíritos, “assinado por Robson Pinheiro, pelo espírito W. Voltz, orientado por Ângelo Inácio”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 16/12/09

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