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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Os donos do jogo

É o elenco quem segura O jogo da velha – Dooutroladodecá, em cartaz no Teatro João Ceschiatti. Não fossem atores tão bem preparados, a peça teria duração além da conta. Com mais de duas horas, a trama emaranhada, que a escritora Adriana Falcão resolve bem no papel, mostra-se ainda mais confusa na adaptação do diretor Zé Walter Albinati. No palco, a história de amor entre Luna Clara e Apolo Onze (também de Doravante e Aventura) se perde mais do que é devido em tempo e espaço. Fácil ao espectador deixar escapar o fio da meada, onde parece não haver fio nem meada, cortinados por jogo extravagante de palavras.

Ainda assim, tamanha força poética da obra, o texto infanto-juvenil levado à cena é sedutor. Preservado, em diálogos ou solilóquios, é capaz de dar independência aos sentidos e fazer valer qualquer esforço por parte da plateia para o alinhamento das ideias contidas na história original, extraída do livro Luna Clara & Apolo Onze. Não só pela poesia O jogo da velha merece audiência: vê-se no espetáculo tabuleiro de criatividade e de boas interpretações, com 17 atores em entrega e ritmo de formatura.

Montagem de conclusão do curso profissionalizante do Centro de Formação Artística (Cefar) da Fundação Clóvis Salgado, O jogo da velha tem encenação que oferece suporte ao elenco. Nisso, mérito da direção de Zé Walter, que, adepto da criação compartilhada, não engessou o grupo e permitiu que seus intérpretes-criadores trabalhassem. João Filho, com seu papagaio de inteligência inestimável, merece registro. O ator tem carisma, verve e consciência corporal destacados. Luísa Bahia é outro nome de futuro. Fácil dobrar-se ao timing de sua composição. As envergaduras de Marina Ferraz e de Priscila Bortoli também não passam despercebidas. Inesquecíveis ainda os mantenedores de Madrugada, Erudito e Aventura.

Produção cuidadosa, O jogo da velha tem ficha técnica de primeira linha: Inês Linke (cenário), Raul Belém Machado (consultoria de figurino) e Lúcia Ferreira (preparação corporal) mostram porque, entra ano, sai ano, estudar teatro no Palácio das Artes é tão concorrido. É notável o acabamento do trio-professor na realização de seus pupilos. A trilha, executada ao vivo pelo Grupo de Percussão do Cefar, também enriquece o espetáculo. Embora, por vezes, tenha volume além do necessário para a sala pequena e de boa acústica. Enfim, O jogo da velha é bom espetáculo de atores. É o bastante.

O JOGO DA VELHA – DOOUTROLADODECÁ
Teatro João Ceschiatti – Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400). Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 17h e 19h30. Entrada franca. As senhas devem ser retiradas 1h antes do espetáculo.


Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 18/12/09
Foto: Paulo Lacerda

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