Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Procura-se um namorado

Pessoal, esta moça está procurando um namorado.
Algum candidato?

JackDaniels e Muleka42 (3)

Estradinha vazia para Macacos, a professora Maria Helena gastou pouco mais de meia hora para chegar. No local acordado para o salto da cerca já havia um jipe verde sujo de lama. Com o coração disparado, ela pensou: “Ai, meu Deus! É ele. E agora?”. Estacionou ao lado do off-road e não teve coragem de virar o rosto. De soslaio, apenas pôde ver o bigode do moço e o cigarrinho em brasa. No relógio do Honda Fit, luminoso, 16h42. “18 minutos. Tenho 18 minutos”, pensou, com as duas pernas numa bambeza só. Com as mãos no colo, num exercício de respiração profunda, daqueles que encorajam, ela percebeu a aliança reluzente no anelar esquerdo. Fingiu ignorá-la para deixar saltar a Muleka42 escondida dentro de si.

Suspirou indecências e foi tomada pela atmosfera de pecado daquela tarde de domingo. Livrou-se dos sapatos junto aos pedais de freio e acelerador. Passeou os pezinhos um no outro como quem gosta de carinho e liberou o cinto de segurança. No rádio, La vie em rose, de Edith Piaf. Sob o vestido azul em flores, a docente estava excitada como em outros tempos. O sexo pulsava, reacendido por JackDaniels, conhecido da sala de bate-papo. No jipe ao lado, noutro mundo, o bigodudo continuava a tragar o cigarro de seda. JackDaniels e Muleka42, soltinhos na internet, combinaram quase tudo. Menos a abordagem. Para ambos, comprometidos, seria a primeira vez fora do casamento.

Controversa, por insegurança e vontade, Maria Helena decidiu baixar o vidro escuro e mostrar-se ao desconhecido, que, às 16h52, sorria para ela. Quarentões, olharam-se com cumplicidade. Viram-se interessantes. Ele, fartos cabelos grisalhos na altura dos ombros largos e de olhos verdes. Ela, linda, estilo atriz internacional: cabelos bem tratados, rosto delicado, dentes perfeitos e nariz feito à mão. Ele matou a ponta da erva e ajeitou a cabeleira, enquanto ela retocava o batom. Foi ele quem desceu do carro, caminhou até a porta do Honda e, simpático, puxou assunto:

– Oi. É você?
– Acho que sim.
– É diferente.
– Como assim?
– É bem mais bonita.
– Obrigada.
– Na foto parecia morena.
– Que foto?

Nisso, chega um fuscão branco. Dentro dele, tatuada, a mulher da foto. Os três se olharam e começaram a esclarecer a confusão. Maria Helena quis ter certeza do engano:

- JackDaniels?
- Não... JohnnieWalker.


(Continua no próximo sábado)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 27/2/10

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O côncavo e o convexo

Don Juan no espelho é melhor texto que teatro. Se por um lado Márcio Miranda, autor, consegue amarrar argumento e poesia, por outro, Márcio Miranda, ator, compõe tipo pouco convincente. Seu Don Juan, posado e armado, tem postura demais e verdade de menos. Sua composição corporal carregada acaba por refletir falas cantadas, quase declamadas, sem o timing da interiorização que seduz. Caminho equivocado do intérprete, que, aplicado, parece ter se esquecido dos ensinamentos de Grotowski sobre o que difere gesto e ação física. Contudo, tamanha força de outros valores propostos por ele mesmo – dramaturgo – a montagem consegue sobreviver a isso. Por conjunto e amarração, em Don Juan no espelho fala-se com inteligência sobre o homem e suas fugas; de equilíbrio, inquietação e insensatez.

A produção é outro fator positivo. Requintada, reúne equipe técnica de suporte. O cenário de Ed Andrade, eficiente, além de dar bom desenho e agilidade à trama, tem função auxiliar indispensável ao amparo de quadro a quadro, com forma e distribuição diferenciadas. Nele projetadas as criações do escritor Victor, interpretado por Leri Faria, ganham vida e substância. A iluminação de Felipe Cosse dialoga com o todo. Paolo Mandatti, quem assina o figurino, dá caimento que acrescenta ao perfil das personagens – especialmente às mulheres. A seleção musical, de bom gosto, além de arrebatadores acordes flamencos, inclui Mozart, com fragmentos de Don Giovanni. Também o que é latino é bastante adequado ao proposto.

Alexandre Toledo e Luiz Otávio Carvalho, em fases distintas, comandaram Don Juan no espelho. Apesar da falha na condução do protagonista-autor, a direção conseguiu evitar que a peça descambasse. Há bom trabalho de edição no levantamento dos outros atores. Leri Faria – embora vez ou outra, solto demais, se coloque acima de sua criação – consegue sustentar fôlego e intenção. Apresenta-se à vontade até para sair do texto (aonde parece não haver espaço para isso). Está bem na função de ponto e contraponto, de elemento perturbado e perturbador na história. Transita com habilidade pelos sentidos controversos do escritor em culpa. Aproveita-se de sintonia com a boa partner Ana Luiza Amparado (destaque feminino do espetáculo). Paula Albuquerque e Flávia Fidellys se firmam com coerência e sabem somar. Isac Ribeiro é grata surpresa. O jovem ator, com a palavra ou sem ela, tem verve e habilidade de quem tem experiência.

No palco, Don Juan no espelho é bom livro. Daqueles que se guarda com carinho. Dramaturgicamente, sua duplicidade côncava e convexa levada à cena – ainda que bem menor que a escrita – prende o espectador por roteiro sem muitas sobras.


DON JUAN NO ESPELHO
Teatro Oi Futuro Klauss Vianna (Av. Afonso Pena, 4.001 – Mangabeiras, 3229-4316). De sexta a sábado, às 21h; domingo, às 19h. Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 10,00 (postos da campanha).

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26/2/10

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sobre Lourenço, o "office-velho"

Ilustre cidadão, bem-intencionado, enviou e-mail por ocasião da coluna “Lourenço, o “office-velho”. O leitor, que pede anonimato, entendeu que não é certo o aposentado fazer uso de sua condição especial para oferecer prestação de serviço junto aos bancos. Seus argumentos merecem reflexão. Nosso quintal, todos sabem, é espaço democrático de debate e ideias. Portanto, na íntegra, segue o texto recebido.

“Bom dia Sr. Josiel.

Não sou leitor assíduo do Aqui e hoje, pelo que me lembro, foi a primeira vez que li a sua coluna. Desculpe a franqueza, mas a minha intenção não é depreciar o vosso trabalho, muito pelo contrário, apenas ressaltar que nos últimos tempos tenho utilizado muito pouco a informação através da mídia impressa. Contudo, ao ler o título da sua coluna fiquei deveras interessado, visto que o tema é muito importante, contemporâneo, e penso que seria de bom proveito algumas considerações sobre a matéria.

Concordo em parte com sua opinião. É um absurdo o que os bancos fazem com os seus usuários, principalmente os que não são clientes ‘especiais’. Penso que deveriam ser tomadas algumas medidas no sentido de obrigar essas instituições financeiras a aumentar o número de funcionários que atuam no atendimento. Porém, entendo que o ‘Lourenço’ está no seu direito apenas quando usa da sua prerrogativa de ‘prioridade’ para atendimento dos seus próprios interesses ou de seus familiares. No momento em que o mesmo utiliza a sua condição especial a fim de angariar clientes, sendo este o principal atributo da sua propaganda, ele comete abuso do seu direito e obtém uma vantagem indevida para si e seus clientes.

Porém, a consequência que considero de maior gravidade com o surgimento dessa nova classe de trabalhadores é que eles acabam retirando, de muitos jovens a oportunidade do primeiro emprego. Os motivos são os mesmos utilizados pelos bancos, o lucro, pois é bem mais lucrativo você contar com os serviços de um ‘office-velho’ do que contratar um jovem, pois nesse caso, além de arcar com os encargos trabalhistas, terá que esperar por muito mais tempo pelo retorno do funcionário, visto que o mesmo terá que entrar na fila como os usuários comuns.

O trágico disso tudo é que, alguns desses jovens, no desespero pela falta de oportunidades, entram para o caminho do crime, sendo que as suas vítimas preferidas são, em sua maioria, os idosos aposentados.

Peço a gentileza de me manter no anonimato, assim como foi feito com o Amigo ‘Lourenço’.

Um grande abraço!”

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 24/2/10

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Os sem vergonhas - sexta semana

Depois de pausa para o carnaval, Os sem vergonhas estão de volta. Hoje, amanhã e depois, às 21h, no Teatro Dom Silvério. Últimas semanas.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

JackDaniels e Muleka42 (2)

Maria Helena almoçou sozinha e preparou sua melhor roupa para o encontro com o tal JackDaniels, que, na internet, se dizia piloto de avião. Maquilou-se como dama elegante. Sentiu-se bem, viva e madura, diante do espelho de porta inteira, no quarto de casal. No criado-mudo, deitou o porta-retrato com a foto do marido, Leopoldo, sorridente em tempo de alegria a dois, em Porto de Galinhas. Lembrou-se de Lucas e Lucília – que estavam fora, curtindo a folia no Rio de Janeiro – ao ver painel com fotos e bilhetinhos de família. Na parede, pai, mãe e filhos felizes, aninhados em poses e letras de quem ama e é amado.

A professora não conseguiu evitar reler as mensagens de amor do marido apaixonado. No aniversário de casamento de 2005, Leopoldo escreveu: “A gente até briga e se desentende, mas, juntos, damos sempre a volta por cima. Obrigado pelo Lu e pela Lucy. Vocês dão sentido à vida. Obrigado também pelos 20 anos de respeito e amizade”. Aquilo fez Maria Helena tremer na base. “Cinco anos... Nem faz tanto tempo assim. Onde e quando foi que a gente se perdeu?”, perguntou baixinho. Não tinha resposta. Fechou o cartão fosco e o devolveu ao mural de felicidades. Suspirou e voltou ao espelho para retocar o rosto e recobrar a coragem. Com falso assanhamento, passou as mãos ao longo do corpo para ajeitar o indefectível vestido azul em flores.

Maria Helena dedicou horas daquela tarde de domingo buscando forças para chutar o pau da barraca e se entregar ao estranho, conhecido na sala de encontro virtual. Vestida para o pecado, por fim, a mulher estava decidida a topar o que viesse. O pulo da cerca estava marcado para 17h, em quebrada de Macacos, em São Sebastião das Águas Claras. Os dois entenderam que o lugarejo, charmoso e discreto, seria bastante apropriado para a ocasião. A mãe do Lucas e da Lucília – Muleka42 para os internautas – se sentiu segura com a sugestão do tal JackDaniels, já que os negócios imobiliários do marido, corretor, estavam concentrados longe dali, em Pará de Minas e Nova Serrana.

O relógio no painel do automóvel indicava 16h. “Coragem”, pensou alto ao dar a partida no Honda Fit prateado. Calculou 40 minutos até o mirante, ponto marcado. No rádio, balada antiga em programa de saudade. Maria Helena era só pensamento: “Coragem, coragem”. Não seria nada fácil trair o companheiro. Ainda mais assim, com um nome sem rosto: “JackDaniels, piloto de avião”. Apenas o que sabia. No dia anterior, em pouco mais de duas horas de teclado, alimentaram caso por afinidades escondidas. De verdade, ambos quarentões e casados. De resto, fantasia, promessa de vinho e poesia. Citaram Neruda, Drummond e Andre Di Bernardi. Enfeitiçaram-se para dar jeito, um pouco, nas dores da solidão a dois.

Estradinha vazia, Maria Helena gastou pouco mais de meia hora para chegar. No local combinado já havia um jipe sujo de lama. O coração da mulher bateu disparado.

(Continua no próximo sábado)


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 20/2/10

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Água não tem cabelo

Sou um homem do mar. Desde garoto. Sempre digo isso aqui. Entristece-me profundamente histórias de afogamento. Já salvei e já fui salvo. A manchete principal de nosso Aqui de ontem, “Tragédia nas águas”, abafou a alegria do meu feriadão. A reportagem do bom companheiro Pedro Ferreira, até à tarde de segunda-feira, apurou 21 mortos só em Minas Gerais. Entre as vítimas, Renê Horlando do Nascimento, de 9, morto na Represa de Furnas, em Alfenas, no Sul do estado. Muito triste.

Ontem foi um dia estranho. Depois de ler os jornais, nosso Aqui, especialmente, fui tomado por silêncio que perturbou a Violeta. Ela insistiu para que eu dissesse o que estava sentindo. Falei que era bobagem. Mas mulheres como a Violeta não se contentam com qualquer resposta. “Se não quiser dividir comigo, vou entender. Mas desabafar pode fazer bem”, disse. Resolvi respirar fundo e trazer o passado que me embargava a garganta. Falei do Dirceu, amigo do Bairro Santa Terezinha, que morreu muito moço, afogado nas águas do Espírito Santo.

O filho da dona Maria e do “seu” Pedro, irmão do Tonho e da Dadá, partiu muito cedo. Não havia em toda a Pampulha, tenho certeza, rapaz mais educado e gentil que o Dirceu. Jogamos muita bola na rua da casa da minha avó. Era sempre uma alegria brincar e conversar com o Tonho e com o Dirceu. Os dois irmãos foram os melhores amigos que tive na infância e na adolescência. Falei por mais de hora e a Violeta ali, ouvindo tudo, revivendo comigo a saudade dos amigos. Lembrei-me ainda do Jovelino, morto quando caçava caranguejo no mangue, às margens do Rio Itapemirim, também no Espírito Santo. Ele estava sozinho e se atolou no lamaçal. A maré subiu e o Jovelino foi encontrado sem vida com os braços para cima. Uma tragédia que marcou para sempre a família Batalha, na Barra do Itapemirim.

Contei para a Violeta que, no início dos anos 1980, por muito pouco as águas não me levaram. Passei anos repensando a vida depois daquele verão. Estava com alguns amigos pegando onda na praia de Marataízes, quando avistei um emaranhado de mato que parecia formar uma jangada. Subi naquela falsa plataforma, que acabou cedendo e me deixando preso sob o balcedo. Havia pouco espaço para respirar e vivi momentos de desespero até que a mão de um amigo conseguiu me trazer à superfície. Bom nadador, o Careca cortou o mar numa velocidade que impressionou a todos. Desde então fiz um pacto de respeito com as águas.

Violeta tinha razão. Falar do Dirceu e do Jovelino ajudou a desafogar o peito. Relembrar amigos tão caros, levados pelas marés, é uma maneira de mantê-los para sempre entre nós. Que Deus dê muita força às famílias dos que partiram neste carnaval. Que os mortos tenham vida eterna junto aos seus. E que fiquemos todos atentos, pois, como diziam os antigos: “água não tem cabelo”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 17 de fevereiro de 2010

sábado, 13 de fevereiro de 2010

JackDaniels e Muleka42 (1)

A professora Maria Helena estava cansada da vida enfadonha que levava ao lado do marido, Leopoldo, corretor de imóveis. Casou-se muito jovem e teve dois filhos antes de completar 20 anos: Lucas, 24, e Lucília, 23. Já empregados e encaminhados na vida. O rapaz, advogado de escritório importante em Belo Horizonte. A moça, engenheira, já estava contratada por multinacional antes mesmo de receber o diploma. Tudo parecia extraordinário na vida de Maria Helena. Quase tudo, é verdade. O casamento não ia nada bem. Sexo vez por outra, quando o parceiro se apresentava.

Num primeiro momento, a professora pensou que a falta de entusiasmo e interesse do companheiro fosse por causa dela. Sentia-se quarentona feia e sem sal. Chegou a desabafar com amiga psicóloga, colega docente:

– O Leopoldo não me procura mais. Nem encosta em mim na cama.
– Sei bem o que é isso, Lelena. Lá em casa com o Otacílio é a mesma coisa.

A colega não ajudou. Só contribuiu ainda mais com o desespero de Maria Helena, que não pensava em se separar, já que, tirando o sexo, vivia mais ou menos feliz ao lado do Leopoldo, para ela o melhor pai do mundo: “Não fosse ele, o Lucas e a Lucília não seriam tão bem-sucedidos”, pensava. Foi no computador, em pleno sábado de carnaval, que ela decidiu buscar solução para o problema: “E vai ser na internet”, disse para si mesma. Navegou, navegou e foi parar em sala de bate-papo para quarentões solitários. Os filhos estavam fora e o marido, como sempre, trabalhando no escritório que ficava no barracão dos fundos.

Trancou a porta do quarto para ficar mais à vontade e pensou em apelido bem atrevido para apimentar o ambiente virtual: “Muleka. Isso. Muleka42 tá bom”. Só que, timidíssima, não conseguia puxar assunto ou dar trela para ninguém. Até que apareceu um tal JackDaniels, baranguérrimo: “Muleka42, você é o meu número”. Ela achou aquilo tão engraçado, que decidiu dar mole: “Ah... legal”. Foi o suficiente para deixar o moço com nome de uísque na dela. Em pouco mais de duas horas já pareciam velhos conhecidos. Por fim, decidiram encontro na tarde de domingo. Marcaram em quebrada lá pelas bandas de Macacos, em São Sebastião das Águas Claras. Confessaram-se comprometidos e não queriam dar bandeira: “Belo Horizonte é um ovo”, teclou JackDaniels e se despediu: “Fui”. Ela: “Eu também”, e desconectou-se. Não demorou para que o maridão chegasse: “Porta trancada? Eu hein...”, e foi se deitar. Não trocaram mais palavra e o dia amanheceu comum.

“Fiquei de mostrar uma fazenda para um cliente, lá em Pará de Minas”. Dizendo isso, depois do café, Leopoldo saiu cedo. Ela almoçou sozinha e preparou sua melhor roupa para o encontro com o tal JackDaniels, que se dizia piloto de avião.

(Continua no próximo sábado)


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 13/2/10

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Além das flores

Erva daninha é daqueles espetáculos que a gente não esquece. Seja pela dramaturgia esperta, seja pela atuação apaixonada. Em ambos os casos, mérito de Adélia Carvalho e Walmir José, que, na escrita ou em cena, realizam comédia de muito bom gosto. Soma-se à capacidade dos dois a experiência de Wilson Oliveira, que, diretor, soube valorizar o texto, aninhar personagens e dar mais inteligência à produção de Ana Jardim. O resultado poderia ser apenas mais uma peça de destempero conjugal. Não é.

A montagem se faz necessária por várias razões. Há mensagens à sombra do que é dito. A começar pelos buracos feitos no telhado por marido e mulher. Todo casal sabe bem o que é abrir brechas. Sabe do tempo que passa batido, esquecido – brilhante a sacada do despertador perdido no sótão, que, vez por outra, dispara perturbador. Há ainda – cada qual à sua maneira –, o cultivo do mato que nasce simplesmente, mantido no pequeno vaso de restos. Não é preciso ter sido casado para ser arrebatado por Erva daninha. Basta, alguma vez, ter sentido na pele as agruras da solidão a dois.

Não bastasse palavra de fôlego, Erva daninha tem Walmir José. Por entender o segredo do instante que antecede a ação, o professor se apresenta com verdade admirável. Tem a manha de ritmos e nuances. Walmir trata o silêncio como quem diz poesia e é capaz de, numa única frase – característica de sua dramaturgia –, cruzar assuntos distintos com as mais diversificadas intenções. Adélia Carvalho, sem carregar a mão, também consegue ganhar a plateia dentro e fora das quatro paredes. Mostra-se generosa no jogo da cena.

O cenário de Ed Andrade, em níveis, é limpo e funcional. O plástico-bolha de fundo reforça o conceito da criação. Richard Zaíra ilumina com eficiência e, assim como a trilha original de Kelly Ellaine, tem papel auxiliar importante na edição enxuta de cena a cena. Sem barrigas ou delírios criativos, com marcações limpas e longe dos gabinetes comuns, Erva daninha é programa para quem sabe que nem tudo que brota é flor.

ERVA DANINHA
Cia. Teatral As Medéias. Teatro João Ceschiatti (Palácio das artes), Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. Tel. 3236-7400. Hoje, às 21h. Ingressos: R$ 12 (postos do Sinparc).

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 12/2/10

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Lourenço, o "office-velho"

Vamos chamá-lo aqui de Lourenço (já que pediu para não ser identificado). A gente se conheceu na segunda-feira, em fila absurda num desses trilhardários bancos privados. Lá, passei 1 hora e 17 minutos - isso mesmo, uma hora e dezessete minutos, tempo calculado a partir do horário registrado na minha senha. Ele, Lourenço, tomou chá de cadeira de pouco menos de meia hora porque tem atendimento prioritário. Chegamos praticamente juntos e nos sentamos lado a lado. Muito simpático e conversado, foi ele quem puxou assunto. Ao observar o envelope pardo, cheio, na minha mão brincou: "Aposto que é tudo conta pra pagar", sorriu. Disse que ele tinha razão, mas que não eram minhas. "Prestação de serviço para um velho amigo, adoentado", expliquei.

O Lourenço quis saber do meu trabalho. Contei que vez por outra fazia alguns serviços de banco para passageiros das antigas, dos meus tempos de rapaz, quando entrei para a praça. Sentiu espaço para amizade e me falou da sua nova vida de aposentado: "Agora sou office-velho. É. Faço serviços de banco". Deu-me cartão feito por ele mesmo e impresso em jato de tinta, com os seguintes dizeres. "Seus problemas com filas acabaram. Lourenço, office-velho profissional", logo abaixo um número de celular. Contou-me que, no ócio e cheio de saúde, batalhou por nova ocupação por mais de ano e não obteve oportunidade. Com isso, resolveu fazer serviços de banco. Disse-me também que não foi pioneiro e que no Brasil são muitos os casos como o dele.

A senha dele, especial, apareceu primeiro no painel eletrônico. Ainda havia mais de 30 números na minha frente. Ali, com o banco lotado, resolvi descer a caneta no bloco de anotações. O Lourenço, com a pasta carregada de boletos e carnês, ficou por um bom tempo no caixa, atendido por bela morena de sorriso iluminado. Ao sair, ainda me disse: "Hoje o sistema tá lento demais. Um abraço, meu chapa". Alegre, bateu-me com a mão no ombro. Vi muita gente amarrar a cara para o Lourenço. Uma mulher, na cadeira de trás da minha, reclamou: "Sujeitinho mais folgado e sem-vergonha". Não entrei na questão e continuei escrevendo sobre os bancos.

"Vergonha é outra coisa", pensei comigo. Um absurdo um banco daqueles com dois caixas para atender uma centena de pessoas. Cadê a lei dos vinte minutos? Os banqueiros cada vez mais ricos e a gente simples sujeita a esses abusos e desrespeito. Não fiquei nem um pouco aborrecido com o Lourenço, como os dois ou três que reclamaram. Deixa o sujeito. Que mal pode haver em batalhar para ser útil e buscar o que fazer? Ele está no seu direito. Fico aborrecido é com os bancos, que só querem lucrar nas costas do povo. Onde houver um necessitado, lá vai estar um banco para deixá-lo ainda mais necessitado. Já disse isso. Não gosto de bancos. Se pudesse, sinceramente, manteria o pouco que tenho num colchão.

Amigo Lourenço, conforme o combinado, aqui vai a coluna. Seu cartão - fique sossegado - guardo a sete chaves. Seja feliz, meu velho!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 10/2/10

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Hoje tem espetáculo - 5ª semana

Com poucos ingressos de resto para a semana, a peça Os sem vergonhas segue temporada no Teatro Dom Silvério, ao lado do Pátio Savassi. Hoje, amanhã e depois, às 21h.

Vila dos mortos está de volta

Hoje tem aula inaugural na Escola de Teatro Puc Minas (Rua Sergipe, 790 - Praça da Liberdade), às 20h, com apresentação de Vila dos mortos. Trabalho de sucesso em 2009, a peça tem como tema o sobrenatural.

Leia crítica:
http://jeffersondafonseca.blogspot.com/2009/09/vila-dos-mortos-critica.html

Operário andante


Um dos realizadores mais criativos do teatro em Minas Gerais, Marcelo Bones fala do desafio de dirigir o setor de artes cênicas da Funarte e cobra a união do setor

No momento em que o governo federal busca o fim de privilégios e a descentralização dos recursos públicos destinados à cultura por meio da Lei Rouanet, um palhaço profissional, operário andante, vem fazendo diferença na Fundação Nacional de Artes (Funarte). Desde que assumiu a diretoria de artes cênicas da instituição, no início de 2009, o sociólogo, professor e diretor de teatro Marcelo Bones, de 49 anos, vem percorrendo o país de norte a sul em busca de diálogo com artistas da dança, do circo e do teatro. Avesso ao que chama “gestor de gabinete”, Bones, realizador de talento reconhecido em Minas Gerais, fala com orgulho e especial empolgação da nova empreitada. Reconhece que ainda há muito a ser feito, mas entende que o Brasil vive tempos de maturidade no que se refere às políticas públicas culturais.

“Ainda temos um Estado precário. E a própria sociedade também não entende muito bem o papel da cultura. Infelizmente, o Estado ainda não consegue tratar o artista como ele merece, não dá conta disso. Vivemos um momento de reconstrução das políticas culturais no Brasil”, argumenta. Por outro lado, mostra-se otimista com o empenho do governo em reverter esse quadro e assumir a cultura como prioridade. Articulado e cheio de fôlego e ideias, Bones cita o filósofo e cientista político italiano Antonio Gramsci (1891-1937) ao falar de sua atuação na diretoria de artes cênicas. Diz-se “gestor orgânico” ao discorrer sobre desafios e militância. Fundador e diretor do Grupo Teatro Andante (1978), Bones se faz valer de bom proveito dos conceitos de cidadania. Afirma ter buscado no teatro, desde o início da carreira, lá nos anos 1970, sua plataforma de diálogo.

Sobre ter se afastado das salas de ensaio para atuar como gestor público, o encenador e clown vê a atribuição como algo transitório e inevitável. “Escolhi o teatro para falar com o mundo. Na minha trajetória, mesmo sendo muito intenso na criação, ao mesmo tempo sempre estive envolvido com as questões políticas da cultura. Ainda mais nos últimos cinco anos, com o Redemoinho (Movimento Brasileiro de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral) e com a fundação da Rede Brasileira de Teatro de Rua. Sempre procurei cruzar estas duas vertentes como pessoa pública, querendo debater e aumentar o alcance do teatro que faço”, afirma.

A volta à cena Bones prevê para breve, já que sua atuação na Funarte deve se encerrar no fim do ano. Ele pretende levar adiante sua trilogia tebana (Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona), de Sófocles, com o Andante. A história trágica de Édipo Rei ganhou as ruas em 2008 e os outros dois textos ainda estão no papel. Se o Bones articulador político começa a ganhar projeção, o Bones criador já fez história. Com O beijo no asfalto (1997) e O homem da cabeça de papelão (2001), escreveu seu nome nos registros de alta conta. O primeiro, com a Cia. Reviu a Volta, teve a difícil missão de dividir espaço na mídia com o mesmo título levado ao palco por Wilson Oliveira. Quando se falava apenas em O beijo no asfalto, do Grupo Encena, surge Bones com seu Nelson Rodrigues para as ruas, absolutamente diferente, mas com igualdade de virtudes.

Já com O homem da cabeça de papelão, de João do Rio, adaptado por João das Neves, Marcelo Bones realizou seu trabalho mais bem-acabado, com encenação e direção de elenco impecáveis. Logo depois veio o convite para trabalhar com Chico Pelúcio na direção de Um trem chamado desejo (2002), com o Grupo Galpão. A parceria se firmou no Cine Horto e Bones ganhou impulso para alçar voos mais altos, como a coordenação do Festival Internacional de Teatro (FIT), em 2004, e, agora, com o papel de executivo na Funarte, comandada por Sérgio Mamberti.

Puxão de orelha

Atento à cena nacional, Marcelo Bones faz considerações bastante positivas sobre o teatro atual, seus fatores estéticos, pesquisa e linguagem. Fala, especialmente, do que ocorre em Minas Gerais, região que ele conhece bem. No entanto, chama a atenção para os ruídos que enfraquecem a arte. “O teatro vive hoje questões estéticas muito importantes. Só que nós já fomos mais unidos. Não sei quando, mas perdemos essa carroça do tempo. Não temos mais a visão de mobilização nacional do passado. Já tivemos um sentido de categoria e perdemos isso. Estamos agora sentindo a necessidade de reconstruir isso. Neste sentido, a dança avançou muito e tem se mostrado extremamente articulada. É invejável o que a dança vem fazendo. O circo e a dança. O teatro vive um momento de assistir a isso”, reflete.

“Belo Horizonte tem dado uma mostra impressionante do seu vigor. Minas Gerais vem sendo reconhecida como grande celeiro de criação. É assim com o Espanca!, com Aqueles dois, da Cia. Luna Lunera, em cartaz no Rio de Janeiro, e com outros grupos. Belo Horizonte tem tradição com o trabalho de teatro de grupo. O teatro tem que ser importante para quem faz. Vemos isso na reconstrução da linguagem, na busca por pesquisa. Existe um campo para o debate em BH que ainda não está amalgamado. É preciso transformar isso numa ferramenta que possa acrescentar ao teatro”, defende.

Mesmo em trânsito pelo país, Bones tem acompanhado o movimento intenso de e-mails gerado no setor teatral de Minas a partir de entrevista de Jota Dangelo e Pedro Paulo Cava ao Estado de Minas. Parte da categoria não gostou do que disseram os veteranos e, com isso, dois grupos armaram uma guerrilha de ideias na web, num debate que parece longe de acabar, devido à contundência das manifestações. De um lado, os que defendem o teatro experimental; de outro, os que apostam na comunicação com o público. No coração da polêmica, a utilização de verbas públicas por meio de leis de incentivo e outras formas de patrocínio.

Bones não se esquivou em comentar o movimento. “É preciso superar essa falsa dicotomia que leva à rivalidade”, diz. “É muito mais importante fazer com que o teatro seja necessário para a sociedade. Infelizmente, a gente ainda não conseguiu realizar isso. Essa polarização enganosa em que a gente se meteu não acrescenta. Temos que amadurecer cada vez mais a ideia de democracia. Saber conviver com a diversidade. As diferenças não são destrutivas umas às outras. Não tenho respostas ou fórmulas para essas questões. Tenho pistas. Nós, artistas, precisamos nos apresentar para a sociedade como algo importante, necessário. Há algo que gosto de dizer: ‘Ninguém vai se salvar sozinho’.”

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 8/2/10

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Boa-noite, Laura!

Chovia desde a tarde. Dona Augusta preparava a mesa para o jantar, enquanto Laura estudava para mais um vestibular. Dessa vez, medicina. A menina já havia passado para direito, três engenharias e letras. A mãe, vez por outra tocava no assunto: “Você estuda demais, minha filha. Só não entendo porque não consegue terminar nada do que começa”. Laura nem se abalava. Respondia qualquer coisa e voltava a esquadrinhar os livros. Havia um silêncio de morte na noite. O relógio na parede, parado, acentuava ainda mais o vazio na rua. No móvel de canto, o porta-retrato com a fotografia do pai morto parecia ganhar vida iluminado pela meia-lua que invadia a janela. Palmas em ritmo familiar chamam do lado de fora. Código desde a infância entre irmãos.

Dona Augusta respirou fundo ao ouvir as batidas do primogênito. Laura correu para receber Beto, irmão-amigo e confidente. “Vou colocar mais um prato na mesa”, disse a mãe. “Laurinha! Que saudades! Longe de casa a gente sente falta até das discussões”, suspirou Beto. A dona de casa não perdeu a deixa e deu seu recado: “Pois não me faz falta nenhuma você e seu irmão se pegando por qualquer bobagem”. Desde que Paulo, o caçula, entrou para a polícia e Beto assumiu sua opção sexual, a relação entre os dois ficou ainda mais difícil. “Vim em paz, mãe. Só queria dizer que sinto muita saudade da senhora, do Paulo e da Laurinha”, desabafou. “E o Paulo? Já chegou?”, quis saber. “Já deve estar chegando. Vem comigo, deixa eu te mostrar como ficou lindo o meu quarto”, disse Laura, tomando o irmão pela mão.

Havia três meses que Beto, publicitário e motociclista por paixão, deixou a casa em Santa Efigênia para ir morar com o namorado. Tempo que ele acabou distanciado da família. “O que você veio fazer aqui?”, bronqueou o polícia ao ver o visitante na sala. Beto, reagiu com doçura: “Só vim apertar sua mão e acertar nossas diferenças, meu irmão”. A mãe, viúva, intercedeu: “A gente tava esperando você para jantar, meu filho”. “Tô sem fome!”, resmungou o caçula, deixando a sala. Dona Augusta seguiu no encalço do moço briguento. Não demorou para que voltassem e se sentassem à mesa. “Seu marido sabe que você vai comer fora hoje?”, provocou o cricri. Beto, mais uma vez, apenas sorriu: “Não. Foi de repente”.

O rapaz só queria mesmo ficar de boa com a família. Puxou assunto e quis saber como ia a nova vida do “homem da lei”. Com a tempestade, acabou a energia. Mãe e filhos, felizes, terminaram o jantar à luz de velas. À meia-noite, já sem chuva, quando a força voltou, o relógio resolveu funcionar e badalou forte. “Tenho que ir. A comida estava uma delícia, dona Augusta”, elogiou Beto, depois de beijar a mãe e abraçar os irmãos, com amor jamais experimentado em vida. Beto cruzou o portão ao mesmo instante em que Lúcio, seu companheiro, visivelmente abalado, entrou dizendo: “O Beto... tô vindo do hospital... de tardinha, um caminhão avançou o sinal e pegou a moto dele... fizeram de tudo, mas ele não resistiu”. No outro lado da rua, na calçada, a menina estudante ainda pôde ver o irmão acenar, ao lado do pai, e dizer com ternura: “Boa-noite, Laura!”.

A mãe, amparada pelo caçula, gritou grito triste, de sufocar o coração.

(Homenagem ao elenco de Vila dos mortos)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 6/2/10

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Trem sugere união

A opinião de todos merece espaço. Abaixo, o que pensa Lívia Galdêncio:

Bom dia!

Meu nome é Lívia Gaudêncio e sou da companhia O Trem.

Não sei se você, assim como eu, anda recebendo vários emails decorrentes de uma entrevista publicada no Estado de Minas.

Pra quem está por fora do assunto, envio abaixo a entrevista e a primeira réplica a ela.

Acho importante os artistas discutirem sobre políticas públicas através de espaços virtuais, principalmente porque nas reuniões presenciais há falta de córum para tal.

Mas acho infantil a rivalidade que se torna e a generalização dos fatos.

Eu conheço diferentes pessoas no mercado artístico e acho que existem artistas com diferentes posturas, independente de qual “rótulo” lhe foi dado.

A questão principal pra mim é: como levar arte ao maior número de público possível.

Acho triste ver alguns grupos se acomodarem com o dinheiro recebido através de lei de incentivo. Um exemplo claro disto foi o dia em que marquei uma entrevista com um autor e ator de certa peça (contemplada pelo prêmio Myriam Muniz), e esta pessoa não apareceu e nem deu satisfação. Após ligar novamente e insistir no convite para divulgar seu espetáculo no espaço que tenho na rádio CDL, o ator confirmou presença e novamente não compareceu e não deu satisfação (mostrando também uma falta de gentileza e desrespeito com o trabalho do outro).

Comprei ingresso e fui ver a tal peça. Havia umas 30 pessoas das quais a grande maioria assistiam de cortesia.

Então eu me pergunto: se estas pessoas não precisam divulgar seu trabalho e não precisam do público, elas cumprem temporada apenas por que lhes é exigido em edital?

Por que entrar numa campanha de popularização se quer um público elitizado?

Também não me sinto no direito de cobrar nada de ninguém.

Cada um escolhe a sua estratégia profissional e financeira.

Não critico quem faz arte por dinheiro porque cada um sabe de suas necessidades.

Não critico quem ensaia anos antes de expor seu trabalho porque acredito no poder da arte para o crescimento do artista.

Teatro charada, teatro cabeça, teatro comercial ou qualquer outro nome que queiram dar, todos tem sua função e seu público.

Também acho que quem fica ultrapassado é máquina. O ser humano sempre tem o direito de pensar como quer, sem ser julgado pelo outro, a partir do momento em que não prejudica ninguém.

Eu critico, sim, pessoas que criticam pessoas a fim de serem notadas.

Quem consegue um patrocínio ou uma aprovação na lei de incentivo, não está tirando isso de outro artista. Sempre haverá oportunidade e espaço pra todo mundo que trabalha duro e corre atrás.

Respondendo a uma das perguntas feitas por Ailton Magioli: “Do que o teatro precisa neste momento?” Eu respondo: UNIÃO.

Seja através do teatro de grupo, através de sindicados, mas principalmente da união da classe belorizontina.

E cada um vista a carapuça que quiser.



Lívia Gaudêncio.
liviagrs@hotmail.com

Bloco no Baile dos Artistas

E os e-mails continuam a brotar em tudo o que é canto e lado.

> Assunto: Re: UMA ODE À CHARADA
>
> gente!
> amanhã tem baile dos artistas!
> mando, em anexo, uma proposta de fantasia pras meninas e outra pros meninos.
> todo mundo tem que ir pra entrar no nosso bloco: O TETRO É UMA CHARADA!
> tõ quase morrendo de rir, imaginando.
> Em 4 de fevereiro de 2010 13:05, Gustavo Bones
> escreveu.



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O doutor comparece

Jair Raso, do Grupo Cara de Palco, participa do debate:


Entre o Bom e o Mau

O bom teatro é aquele que agrada o público, mas às vezes bom mesmo é aquele teatro que desagrada, talvez por sacudir valores e certezas não tão certas assim;

O mau teatro é aquele que não agrada o público, mas às vezes mau mesmo é
aquele teatro que agrada, talvez por ser rasteiro como algumas plateias. O bom ator é aquele que nos faz rir ou chorar ou refletir ao incorporar um personagem, mas às vezes o bom ator entra e sai de cena sem que lembremos dele e cumpriu assim, brilhantemente seu papel.

O mau ator é aquele canastrão cheio de clichés, que não entende o texto que diz ou diz um texto que a gente não entende. Mas, às vezes, um mau ator é aplaudido de pé justamente por isso.

Um bom diretor é aquele que ergue seu espetáculo com uma estética apurada e um profundo respeito ao autor, embora um bom diretor, às vezes é simplesmente despojado.

Um bom produtor participa da campanha de popularizão do teatro, mas talvez participe do Verão arte contemporânea.

Um mau produtor participa da campanha de popularização do teatro, mas talvez participe do Verão arte contemporânea.

Teatro são muitos. Bons e maus. Para todo gosto e freguês. O gênero que agrada um artista não é melhor nem pior que aquele que o desagrada.

Assim também a estética.

Bom mesmo é o artista que não esquece que o norte de qualquer profissão deve ser a ética.

Jair Raso
Grupo Cara de Palco

O "teatro charada" (?)

Com a palavra, o Grupo Teatro Invertido:


Uma ode à charada

A produção artística e o posicionamento político de jovens grupos teatrais, criticadas por dois importantes nomes do teatro mineiro: Jota D’Ângelo e Pedro Paulo Cava, em recente matéria veiculada pelo Jornal Estado de Minas, realmente merece a discussão que vem provocando via internet. Talvez, porque o Grupo Teatro Invertido se considere um forte representante do novo gênero que chamam de “teatro charada”, ao ler a referida matéria, a resposta escrita por Gustavo Bones do Grupo Espanca! e a réplica de Cava, também nos sentimos motivados à contribuir com este debate.

Num momento em que as fórmulas prontas, os sucessos requentados e o “mais do mesmo” têm tanto espaço na grande mídia, a classificação “teatro charada” não diminui ou desmerece nosso trabalho. Pelo contrário, nos satisfaz reconhecer que o teatro feito pelos grupos da cidade consegue propor charadas a seus espectadores e, certamente, essa tem sido uma de nossas maiores preocupações. Parte do tempo que dedicamos às nossas criações é tomada pela formulação de perguntas – muitas delas que nem nós mesmos sabemos responder – e por isso as compartilhamos com nosso público. Acreditamos, assim, estabelecer um diálogo real com aquele que nos assiste, considerando-o co-autor da obra que apresentamos, sem subestimá-lo ou nivelar por baixo sua capacidade de reflexão.

Nosso maior compromisso é com a construção democrática de uma nação justa, sensível e que garanta ao cidadão seus direitos constitucionais, dentre eles, o acesso à cultura. Não podemos, portanto, nos furtar à dimensão política inerente ao nosso fazer e perceber que ela é muita mais profunda do que parece. Defender o incentivo fiscal como principal mecanismo de financiamento à cultura, é obrigar o artista brasileiro a se relacionar com seu público como consumidor, com seu trabalho como produto, com sua obra como mercadoria, seguindo única e exclusivamente o princípio da mais valia. O repasse da responsabilidade do Estado de fomento à produção cultural para a iniciativa privada tem causado tais distorções e feito predominar no país uma política privatizante, excludente e concentradora.

Trabalhamos na contramão da economia de mercado, reconhecemos o direito à cultura como exercício crítico da cidadania e por isso, não podemos nos sujeitar aos interesses do capital. Viver reféns de uma farta bilheteria ou dos humores do marketing empresarial para garantir nossa manutenção é o mesmo que decretar o fim de nosso ofício.

Reafirmamos o entendimento de que cabe ao Estado criar condições sociais, políticas e econômicas para a construção de uma sociedade na qual a arte e a cultura sejam compreendidas como um direito universal. A luta por mecanismos legais de fomento que proporcionem ao artista a criação livre das influências mercadológicas, financiada diretamente por fundos públicos, é uma causa baseada em princípios éticos e ideológicos, que extrapola questões estéticas e corporativistas.

Nossa crença em um Estado efetivamente democrático e que conte com a participação da sociedade civil organizada na formulação de suas políticas públicas, resiste com tamanha veemência por também acreditarmos que a luta contra a censura e o cerceamento à liberdade de expressão, travada durante o período da ditadura, não foi em vão.

Grupo Teatro Invertido*

Belo Horizonte, 04 de fevereiro de 2010.

* O Grupo Teatro Invertido foi criado em 2004, tem cinco espetáculos em seu repertório, e desde 2008 é sediado no bairro Sagrada Família - Belo Horizonte.

E a polêmica continua

Por e-mail, Paulo César Bicalho escreveu:


Em entrevista concedida por Pedro Paulo Cava e Jota Dangelo ao Jornal Estado de Minas no último dia 31, eles afirmaram o seguinte:

"JORNAL ESTADO DE MINAS: O teatro de grupo continua sendo uma alternativa?

Pedro Paulo Cava – O chamado teatro de grupo, hoje, vem para desunir a categoria. Ele foi um braço armado de determinados políticos, que chegaram ao poder com o objetivo de dividir a categoria, achando isso exatamente na chamada estética. Esses grupos de teatro de vanguarda, chamados de ‘teatro cabeça’, têm um tipo de patrocínio direto do Estado que mantém até o salário dos atores. Ao contrário dos produtores, obrigados a fazer o salário na bilheteria. Esses jovens grupos se tornaram massa de manobra de uma pseudopolítica cultural que se instalou em alguns estados. Em Belo Horizonte, isso foi de uma clareza absoluta. Manipulam-se os recursos para esse tipo de gente, porque o resto que está aí não presta. E é a coisa da falta de memória, também. Chega-se ao poder e apaga-se o que está para trás. É o mesmo que fazer a revolução de Mao Tsé-tung em um país capitalista.

Jota Dangelo – É preciso ter cuidado. Em alguns espetáculos que tenho visto, noto que o pessoal está mais preocupado em fazer charada que teatro. Você não sabe exatamente o que eles querem com o espetáculo.

Pedro Paulo Cava – O jovem artista de hoje quer falar mais do próprio umbigo que do coletivo. Eu e o Dangelo, que foi pai de todos nós, somos da geração do coletivo. Claro que, em determinado momento, fizemos espetáculo sobre a angústia do homem, a questão existencial. Mas teatro não pode ser só isso. E também não pode ser uma forma hermética, charada para determinado tipo de público. Algo que não precisa e, aliás, nem quer mais de 20 espectadores. Isso só reduz informação. Não é prestação de serviço, é para um grupo de iniciados.

Jota Dangelo – Tenho acompanhado a coisa no eixo Rio-São Paulo, está ocorrendo a mesma coisa lá. Dificilmente, os produtores cariocas e paulistas – com raras exceções – conseguem fazer temporada de três meses. É, no máximo, um mês, um mês e meio. O que acontece? O sujeito está pegando patrocínio, aquilo pagou a produção, ele não está mais interessado em bilheteria não. Aquilo acabou e ele já quer fazer outro espetáculo. O mais prejudicado é o ator, que perde o público."



Essas afirmações são absurdas. Tanto Pedro Paulo quanto Dângelo SEMPRE tiveram subsídios para seus empreendimentos. Não fossem os subsídios do governo à sua casa particular de teatro, Pedro teria falido como qualquer comerciante de um regime capitalista.

Mas, o que acho mais grave em se tratando de pessoas que possuem tantos anos de atividade teatral, essas afirmações revelam ignorância absurda a respeito da história recente do teatro. Stanislavski, o maior mestre de todos os tempos, responsável pelas pesquisas mais importantes que foram feitas a propósito do ator, reconhecido e adotado em todas as escolas de teatro de todos os países do mundo, afirmou que não conseguiria desenvolver seu Método de trabalho sem o grupo estável de teatro. O teatro comercial consegue produzir espetáculos importantes, mas pouco fez e fará pelo aprofundamento da linguagem e dos processos de trabalho dos artistas envolvidos, dizia ele. Grotowski, outro artista que revolucionou a linguagem teatral permitindo que ela expressasse de forma mais poderosa aquilo que ocorre no inconsciente coletivo e individual do ator, aproximando-se de Van Gogh, Picasso, dos surrealistas, sempre trabalhou em grupo estável de teatro. Seus espetáculos eram destinados a 30, 40 pessoas. Definia seu espectador ideal como aquele que se encontra inquieto e busca respostas em contraposição ao espectador burguês acomodado, comum no seu tempo. Seus espetáculos causavam tanto estupor que o espectador não conseguia aplaudir. Segundo Serge Ouaknine, que acompanhou seu processo, os insights eram a posteriori. A importância de Grotowski é respeitada por qualquer estudioso ou artista bem informado de teatro. Por isso não consigo entender a opinião dos dois. Se eles fossem artistas plásticos certamente condenariam Picasso, "você não sabe exatamente o que ele quer dizer com suas pinturas" diriam. Se fossem dramaturgos, condenariam Samuel Beckett e Kafka, "você não sabe exatamente o que eles querem dizer com suas obras". Eles propõem um retrocesso ao teatro que se fazia no século XIX. Desconsiderando "Ubu Rei" que é uma peça desse século "que você não sabe exatamente o que ela quer dizer".

Tanto Stanislavski quanto Grotowski são artistas de vanguarda e não teriam sobrevivido sem subsídios, mesmo quando Stanislavski vivia sob a égide do czarismo.

Todos os artistas de teatro do século XX que trouxeram uma contribuição significativa para a linguagem ou para os processos de construção do espetáculo criaram suas obras no interior do grupo estável. Além dos acima citados, Brecht, Tadeusz Kantor, José Celso, Gerald Thomas, Antônio Araújo (Teatro da Vertigem), Antunes Filho, Peter Brook, Julian Beck (Living Theatre), Joseph Chaikin, Eugenio Barba, etc. etc. São considerados artistas de vanguarda. E receberam subsídios. Não teriam sobrevivido sem eles, conforme depoimento de vários desses artistas.

Penso que pessoas da idade dos dois entrevistados, já tendo dirigido escolas de teatro, peças, organismos culturais, não podem desinformar a população com afirmações que somente um ignorante ousaria lançar nos veículos de comunicação de massa.

Paulo César Bicalho

Pedro Paulo Cava responde

O texto também veio por e-mail e não podia deixar de ser publicado.

Caros,

Muito boa e oportuna a resposta do Gustavo Bones, assim mesmo com as iniciais maiúsculas como ele merece.

Só reforça a minha observação crítica sobre a divisão, a partir da estética e do preconceito, da comunidade de artes cênicas, o que fez surgir os burocratas e gestores culturais encravados nos órgãos governamentais. Este preconceito está explícito no próprio texto dele, que afirma assistir apenas o que ele considera arte de boa qualidade. Portanto, excludente.

Esta parte está sempre defendendo os critérios de estado para que os grupos sobrevivam, porque é assim que vivem. Está claro que não precisam de público ou temporada para suas necessidades essenciais: leite das crianças, aluguel, impostos, água, luz, telefone.

Na outra ponta o que ele chama de “mercadológico”, que ele deve considerar um crime de lesa-majestade. Atores e produtores que escolheram viver da sua profissão numa sociedade de economia de mercado. Infelizmente estamos vivendo a forma de capitalismo mais selvagem: o de consumo apenas.

Todos nós, até nos profissionalizarmos, viemos dos grupos que conseguíamos formar sem nenhum apadrinhamento do estado, até porque vivíamos em uma ditadura e a última coisa que o estado gostaria de fazer seria incentivar a perigosa arma chamada teatro. E todos já fizemos “charadas” e usamos todas as metáforas possíveis para que nossos espetáculos fossem liberados pela censura da policia federal.

Outros tempos, outras estéticas, charadas diferentes.

Mas nunca nos deixamos virar massa de manobra de burocratas ou pseudo-artistas oportunistas que se aninham no poder e, através da aposta numa divisão estética (já que a divisão política é hoje mais complicada), de uma categoria sempre organizada e combativa, joga artistas contra artistas, grupos contra produtores, pessoas contra pessoas e em especial, geração contra geração.

Talvez um dia eles se perguntem a quem interessa ou interessou tudo isso. Seja como for, nem eu nem Dangelo citamos qualquer tipo de grupo ou estética em nossa entrevista. Mas parece que nossa provocação surtiu um bom efeito. Particularmente tenho uma profunda admiração pelo talento, esteja onde estiver. Também admiro os aguerridos que lutam o bom combate porque foi assim que minha geração e a geração do Dangelo, que me antecedeu, abriram os caminhos para a liberdade de expressão, para a consolidação das artes cênicas em BH e no Brasil, para que existissem mais casas de espetáculos, grupos de teatro, cias. Profissionais, entidades de classe e escolas de teatro e até mesmo para que surgissem os órgãos de cultura, as leis de incentivo, os conselhos, fundos de incentivo, concursos de dramaturgia e tanta coisa mais às quais todos tem acesso, mas sequer sabem como é que isso tudo foi parar ali.

Sobre isso, infelizmente o Gustavo não pode opinar porque ele desconhece, seja pela falta de acesso à informação, pela falta de diálogo ou por puro preconceito contra os velhos mamutes que teimaram em ficar por aqui. Mas certamente, se ele e seus companheiros desejarem, poderão ler, com olhos menos turvos e a mente mais aberta, uma boa parte desta história nas memórias que estamos escrevendo. Ai talvez entendam sua própria história, imaginem que a arte não nasce com a chegada deles ao palco e que no teatro, as estéticas se repetem de tempos em tempos, mudando apenas de nomenclatura. Talvez também fiquem sabendo que manter-se vivo como artista em uma cidade inóspita como BH é um pleno exercício de equilíbrio entre a lucidez e a
loucura.

Finalmente declaro que não sou “mestre” em nada. Sempre aprendiz a cada dia que passa. Na vida e na arte o fundamento é a dúvida, essa discreta senhora que nos persegue e nos faz inquietos e instigantes, loucos e apaixonados, curiosos e indignados. Declaro mais: considero o teatro a arte da generosidade por princípio e fundamento, já que não se faz sozinho e nem
para poucos. E isso faz dos artistas cênicos verdadeiros, animais teatrais que, a despeito de qualquer estética ou preconceito, estejam dispostos a doar suas entranhas para que o milagre teatral se opere todas as noites ao se abrirem as cortinas nos palcos do mundo inteiro.

Como não tenho certeza de nada, vou ainda repensar em tudo o que o Gustavo (com G maiúsculo) disse e quem sabe um dia possamos nos ver em um debate promovido pela classe teatral como um todo, coisa que só deve acontecer se houver alguma ameaça muito violenta à nossa sobrevivência.

Enquanto isso viva o debate!

Com meu abraço fraterno,

Pedro Paulo Cava

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Hoje tem espetáculo - 4ª semana

Os sem vergonhas segue com casa cheia no Teatro Dom Silvério. Ingressos esgotados para hoje. Os companheiros J. Bueno, Maurício, Leri, Ilvio e André também estão felizes da vida com o sucesso da peça dirigida por Guilherme Leme. Desde 2005, são muitos os motivos para comemorar. Semana que vem tem mais.

Por e-mail

Chegou por e-mail e vale publicação.



olás.
não sei se todos puderam ler a entrevista concedida por pedro paulo cava e jota dangelo ao estado de minas de domingo.
mando um texto que escrevi em resposta ao que disseram.
ao final, mando também a entrevista na íntegra.
quem quiser, pode repassar.
obrigado,
Gustavo Bones


RESPOSTA AOS MESTRES

Li, domingo último, uma entrevista concedida por dois ícones do teatro belorizontino ao jornalista Ailton Magioli, do jornal Estado de Minas. Pedro Paulo Cava e Jota Dangelo estão lançando livros sobre a história do teatro na cidade e isso muito me alegra. Nessa entrevista, os mestres falaram sobre a produção teatral de BH, sobre a Campanha de Popularização, o papel da crítica, as leis de incentivo e o teatro de grupo. Ao terminar de ler esta entrevista - com perguntas muito pertinentes, por sinal - tive certeza de que os leitores do jornal precisavam de outra visão sobre o panorama teatral da cidade. Espero, com esta "resposta", contribuir com a divulgação de uma idéia de cultura e principalmente, de sociedade, que o teatro de grupo (chamado por eles de “teatro charada”) pretende difundir. Para isso, após breve introdução, respondo às mesmas perguntas respondidas por Cava e Dangelo. Espero falar em nome de meu grupo, o espanca!, de grupos amigos e de artistas independentes que, como nós, lutam por políticas públicas de fomento à produção e investigação artísticas e pela garantia do direito constitucional de acesso à cultura.

Muito prazer, meu nome é Gustavo Bones, sou ator de teatro. Há quase 6 anos, fundei junto a artistas que admiro muito, o grupo espanca!. Eu, Grace Passô, Marcelo Castro e vários parceiros de diversas áreas das artes de Minas e do Brasil, criamos três espetáculos que, além de vencerem os principais prêmios de Belo Horizonte e do Brasil, participaram dos mais importantes festivais de teatro do país e foram vistos por mais de 55.000 pessoas, em aproximadamente 50 cidades de 12 estados brasileiros e em Berlim, na Alemanha. Mas estes números não são o mais importante para nós. O mais importante é que estes espetáculos são fruto de uma intensa reflexão coletiva sobre nossa condição de estar no mundo e sobre a arte teatral. Esperamos com eles suscitar nossos espectadores a também refletirem sobre si e sobre nossa vida em sociedade. E através deles, nos posicionamos ética e esteticamente num país em que, julgamos, constrói lentamente uma idéia de cidadania. E queremos contribuir com essa caminhada. Uma caminhada que devemos, todos os brasileiros, fazer em grupo.

Foi ainda adolescente, ao assistir trabalhos como "Romeu e Julieta", do Grupo Galpão, "O Homem da Cabeça de Papelão", do Grupo Trama, "A Hora da Estrela", da Cia. Acaso e “Lusco Fusco” da Cia. Acômica, que vi que o teatro pode ser uma obra de arte feita em conjunto, reflexo de ansiedades artísticas de atores, diretores e demais criadores e que assim, comunique um posicionamento crítico diante do mundo. Foi com Chico Pelúcio, do Grupo Galpão e Cida Falabella, da ZAP 18, que aprendi a me posicionar como artista, a dialogar para construir e que é preciso ter um compromisso com o que se diz no palco. Foram nos grupos de teatro de Belo Horizonte que eu e meus companheiros do espanca! nos formamos. E foi em nosso grupo de teatro que descobrimos, juntos, maneiras de criar espetáculos que vão além do simples divertimento.

O que melhorou e o que piorou no teatro feito em Minas Gerais?

Tivemos, ultimamente, pequenos, porém importantes avanços no teatro belorizontino. A consolidação de espaços de criação, formação de atores e cidadãos e divulgação do teatro (como a ZAP18 e o Galpão Cine Horto), e das sedes de grupos utilizados como espaços de apresentação e troca com a comunidade; a criação do edital “Cena Minas”, que visa a formação de público, a manutenção de companhias teatrais e a aquisição de equipamentos para circos do estado; a edificação do Verão Arte Contemporânea como evento coordenado por artistas, abrindo espaços para a divulgação de novos trabalhos, companhias e pensamentos; e a criação dos fundos estadual e municipal de cultura, que garantem verba para o fomento à arte no estado, independente das leis do mercado. Sabemos que estes fatos e programas ainda são pouco diante da realidade teatral da cidade e do estado (e em alguns casos, mal regulamentados) e que ainda temos uma grande luta pela garantia destes programas como políticas públicas que assegurem a todos os cidadãos o direito constitucional ao acesso à cultura. Bom exemplo disso foi a recente transformação do FIT (Festival Internacional de Teatro) em Lei do Município de Belo Horizonte, garantindo sua realização independentemente dos programas de governos que virão.

Fenômeno de público, a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança é alvo de crí­ticas, principalmente por causa do grande número de comédias na programação. O que vocês têm a dizer sobre isso?

Diante da Campanha de Popularização, duas formas de encarar a função social do teatro podem ser destacadas. Uma primeira que responde mais prontamente à demanda de parte expressiva da população, que procura o teatro como fonte exclusiva de diversão, de entretenimento. Em geral, ao responder tão prontamente a essa demanda, esse tipo de teatro acaba por reforçar uma visão mercadológica e a contribuir com a fornação de um público aliendado, acomodado. Uma outra forma de conceber a função do teatro pode ser considerada como sendo mais investigativa, mais comprometida com uma reflexão crítica sobre a realidade. Em geral, o teatro nesta perspectiva propõe uma forma sensível de encarar o mundo.

Este evento é realmente um sucesso de mercado. Vende, dá lucro, demanda um trabalho burocrático (não criativo) de seus organizadores e conta ainda com patrocinadores de peso, através das leis de incentivo. Queremos que as pessoas freqüentem o teatro. O fato de a população de BH ir ao teatro durante a Campanha é uma vitória dos produtores e da cidade. Mas, cabe aos artistas refletirem sobre o que apresentam a esses espectadores, enquanto visão de mundo. E lutar contra a imbecilização de nossa sociedade, fugindo dos padrões alienantes da TV, do formato sitcom, da perpetuação de preconceitos.

Além disso, cria-se um nó: a organização exige que as produções cobrem mais caro durante o ano para garantir a participação na Campanha, única época do ano em que estamos isentos de cobrar a meia entrada.

Sempre é possível encontrar espetáculos de qualidade na programação. Mas o que temos que entender é que a Campanha de Popularização é um evento organizado por produtores que encaram seus espetáculos como produtos a serem vendidos, visando exclusivamente o lucro. Mas existe um teatro que não cabe nesse formato. Um teatro feito por artistas, que querem formar um público consciente, inquieto, que não se interessa exclusivamente pelo divertimento. Este teatro, por não seguir as regras do mercado e por ser essencial na formação da identidade dos membros de uma sociedade, precisa do apoio das instituições públicas para existir. E deve contar com políticas púbicas, transparentes, garantidas por lei, que o viabilize.

Qual é o papel da crítica no fomento da cena teatral?

Cabe à crítica conhecer a realidade teatral brasileira, mineira e belorizontina e saber reconhecer a importância de uma obra teatral neste contexto. Vislumbramos a crítica como uma forma de abrir espaços para a discussão e a reflexão sobre o teatro e sua força no mundo. Claro que um crítico teatral deve conhecer os fundamentos da cena. Mas sentimos falta de uma crítica que saia da lógica competitiva do mercado, contestando os mecanismos de opressão e valorizando o pensamento crítico diante da realidade. Faz muita falta em Belo Horizonte uma crítica preocupada com os impactos sociais, estéticos e políticos de uma obra, menos envolvida com rankings e listas de mérito.

As leis de incentivo realmente estimulam a produção?

A produção mercadológica, talvez. As leis de incentivo estimulam a lei do mercado, que, em geral, não coincide com as “leis da arte”. Elas funcionam assim: um proponente apresenta uma proposta, solicitando uma verba para a realização de um projeto cultural. O poder público garante, para alguns, o direito de solicitar essa verba junto à iniciativa privada que tem como estímulo a dedução de impostos devidos ao governo. Diante dessa aprovação, os proponentes devem buscar, junto às empresas, verba para a realização do seu projeto. Para chegar até uma empresa, contratam captadores, que levam propostas culturais até os responsáveis dentro das empresas, apenas fechando negócios, embolsando dinheiro sem realizar nenhuma etapa do projeto. E, quando conseguem sensibilizar uma empresa, os projetos fazem propaganda institucional para essa patrocinadora. Portanto, uma idéia contemplada com uma lei de incentivo, deve atender de alguma maneira aos interesses lucrativos da iniciativa privada. As leis de incentivo utilizam recursos públicos para satisfazer os desejos dos departamentos de marketing das empresas. E para atender a um teatro que não responde à lógica mercantil, temos que repensar essa forma de viabilização. A classe teatral brasileira, quando se uniu e conseguiu dialogar com governantes dispostos a pensar a cultura como política de Estado criou alternativas importantes como as Leis de Fomento ao Teatro das cidades de São Paulo (referência nacional) e Porto Alegre e a proposta original do Prêmio Teatro Brasileiro (recentemente enviado ao Congresso pelo Presidente Lula, ainda sem lei regulamentar, através do chamado Programa Procultura).

De que o teatro precisa neste momento?

O teatro no Brasil ainda precisa ser reconhecido como bem simbólico, essencial para a vida em sociedade. O desejo de transformar experiências em símbolos é essencial à vida humana e sem ele, nos tornaremos egoístas e duros. E a cultura, como todo direito previsto na Constituição de nosso país, deve ser assegurada a todos pelo Estado brasileiro. Para isso, precisamos de políticas públicas, previstas em lei, que garantam a todos o direito de produzir e ter acesso aos bens simbólicos da sociedade. Precisamos urgentemente pensar em alternativas que garantam a realização de trabalhos que apostem na pesquisa de linguagem continuada e em relações estreitas com a comunidade.

O teatro de grupo continua sendo uma alternativa?

O teatro de grupo é, sem dúvida, uma alternativa para artistas que buscam desenvolver um trabalho continuado, de estreito diálogo com outros artistas e com a comunidade. É claro que ele não é a única alternativa para isso. Nem deve ser. Mas, como vem se destacando como uma atividade que questiona a lógica do mercado, deve contar com o apoio do poder público e da sociedade civil. O teatro de grupo é tido como uma característica do Estado de Minas Gerais, símbolo de reconhecimento e prestígio na cena nacional. É inegável que grupos como o Galpão, ZAP18, Trama, Giramundo, Acômica, Oficcina Mutimedia, Armatrux (apenas alguns exemplos) já produziram um bem imensurável para a sociedade e compõem um patrimônio de Minas e do Brasil. E, portanto, devem ser estimulados e protegidos como tal. Fomentar o surgimento de novos grupos e oferecer condições para seu pleno funcionamento é obrigação de um país que queira se desenvolver.

Gustavo Bones

(A entrevista com Jota Dangelo e Pedro Paulo Cava está no link abaixo:)
http://jeffersondafonseca.blogspot.com/2010/01/deu-no-estado-de-minas.html

Vá ao teatro, amigo!

A campanha pelo Haiti continua. Não vamos deixar cair no esquecimento o drama sem fim de nossos irmãos. O assunto tem que continuar em pauta. São muito os interessados que têm participado de nossa Bandeira Dois. Desde que publicamos "O Haiti é aqui. Em nós", leitores amigos de muitas paisagens escreveram. Eda, Jeová, Marcelão, Clarice, Norma, Miguel, Leandra, Beth, Julia, Ricardo, Nelsinho, Lineu, Henriqueta, Claudete, Francisco, Neuber, Luís Antônio, Marcão e Flavinha fizeram questão de deixar recado na internet. Diego, do Bairro Caiçara, e Lucimara, de Governador Valadares, telefonaram para dizer que também estão atentos à tragédia que encerrou milhares de vidas e arruinou outras tantas.

Mais um fim de férias. É sempre sofrível ter que deixar o pai e os meninos no Espírito Santo. Fizemos a farra em Guarapari. A vida é bem mais bela quando estamos ao lado dos que nos são caros. Gabriel, Tiago, Violeta e o velho Botelho são o maior tesouro que eu poderia ter na vida. Fazem-me feliz, assim, por inteiro. São tudo de bom e me dão força para continuar seguindo sempre em busca de maturidade e entendimento. Ao lado da família, perto do mar, sinto-me em paz com o Deus que há em mim. Tenho muito a agradecer por tempos de conquistas e alegrias. Procurar ajudar quem precisa, sinceramente, é o que tento fazer para retribuir a luz que me guia.

E haja proteção para sobreviver às estradas. É grande aventura o caminho até o Espírito Santo. É oração na ida e na volta, amigo leitor. E medidas preventivas também. Muitas. Depois de quase dez horas no volante – com quatro boas paradas –, ao chegar em casa, surpresa na caixa dos correios: dois livros editados pela Casa dos espíritos, assinados por Robson Pinheiro. Corpo fechado, da mesma editora, me ajudou muito de uns tempos para cá. Valei-me meu São Jorge! Quando terminar os novos livros dou notícias. O que posso dizer desde já é que os bons textos são a melhor escola.

E por falar em escola, já estou de volta aos estudos. É. Quem fica parado é carro estragado. A UFMG não deu. Tomei verdadeira surra de algumas questões abertas. Faz mal não. Não se pode dar conta de tudo, não é mesmo!? Além do mais, administração é osso! Não basta atrevimento. O bom é que já havia garantido a minha vaga num outro vestibular em dezembro. Aí, vou encarar o desafio numa outra grande universidade. Já até comprei material. Violeta está mais empolgada que eu. E olha que eu estou que é pura empolgação. Ela me deu uma calculadora financeira de presente. Obrigado, flor! Uma beleza! Agora só falta fazer um curso para aprender a usar a supermáquina.

E Belo Horizonte volta a ferver. Trânsito, vida corrida, uma loucura. Para dar mais graça a este 2010, que bom que ainda temos um mês de campanha de popularização do teatro e da dança. A cidade está que é pura cultura. Violeta e eu já garantimos nossos ingressos para bons espetáculos que estão em cartaz. Fica a sugestão: vá também ao teatro, amigo. E, claro, leve boa companhia.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 3/2/10