Vincent - Um solo de amor

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Boa-noite, Laura!

Chovia desde a tarde. Dona Augusta preparava a mesa para o jantar, enquanto Laura estudava para mais um vestibular. Dessa vez, medicina. A menina já havia passado para direito, três engenharias e letras. A mãe, vez por outra tocava no assunto: “Você estuda demais, minha filha. Só não entendo porque não consegue terminar nada do que começa”. Laura nem se abalava. Respondia qualquer coisa e voltava a esquadrinhar os livros. Havia um silêncio de morte na noite. O relógio na parede, parado, acentuava ainda mais o vazio na rua. No móvel de canto, o porta-retrato com a fotografia do pai morto parecia ganhar vida iluminado pela meia-lua que invadia a janela. Palmas em ritmo familiar chamam do lado de fora. Código desde a infância entre irmãos.

Dona Augusta respirou fundo ao ouvir as batidas do primogênito. Laura correu para receber Beto, irmão-amigo e confidente. “Vou colocar mais um prato na mesa”, disse a mãe. “Laurinha! Que saudades! Longe de casa a gente sente falta até das discussões”, suspirou Beto. A dona de casa não perdeu a deixa e deu seu recado: “Pois não me faz falta nenhuma você e seu irmão se pegando por qualquer bobagem”. Desde que Paulo, o caçula, entrou para a polícia e Beto assumiu sua opção sexual, a relação entre os dois ficou ainda mais difícil. “Vim em paz, mãe. Só queria dizer que sinto muita saudade da senhora, do Paulo e da Laurinha”, desabafou. “E o Paulo? Já chegou?”, quis saber. “Já deve estar chegando. Vem comigo, deixa eu te mostrar como ficou lindo o meu quarto”, disse Laura, tomando o irmão pela mão.

Havia três meses que Beto, publicitário e motociclista por paixão, deixou a casa em Santa Efigênia para ir morar com o namorado. Tempo que ele acabou distanciado da família. “O que você veio fazer aqui?”, bronqueou o polícia ao ver o visitante na sala. Beto, reagiu com doçura: “Só vim apertar sua mão e acertar nossas diferenças, meu irmão”. A mãe, viúva, intercedeu: “A gente tava esperando você para jantar, meu filho”. “Tô sem fome!”, resmungou o caçula, deixando a sala. Dona Augusta seguiu no encalço do moço briguento. Não demorou para que voltassem e se sentassem à mesa. “Seu marido sabe que você vai comer fora hoje?”, provocou o cricri. Beto, mais uma vez, apenas sorriu: “Não. Foi de repente”.

O rapaz só queria mesmo ficar de boa com a família. Puxou assunto e quis saber como ia a nova vida do “homem da lei”. Com a tempestade, acabou a energia. Mãe e filhos, felizes, terminaram o jantar à luz de velas. À meia-noite, já sem chuva, quando a força voltou, o relógio resolveu funcionar e badalou forte. “Tenho que ir. A comida estava uma delícia, dona Augusta”, elogiou Beto, depois de beijar a mãe e abraçar os irmãos, com amor jamais experimentado em vida. Beto cruzou o portão ao mesmo instante em que Lúcio, seu companheiro, visivelmente abalado, entrou dizendo: “O Beto... tô vindo do hospital... de tardinha, um caminhão avançou o sinal e pegou a moto dele... fizeram de tudo, mas ele não resistiu”. No outro lado da rua, na calçada, a menina estudante ainda pôde ver o irmão acenar, ao lado do pai, e dizer com ternura: “Boa-noite, Laura!”.

A mãe, amparada pelo caçula, gritou grito triste, de sufocar o coração.

(Homenagem ao elenco de Vila dos mortos)

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 6/2/10

Um comentário:

Bárbara disse...

Belo texto! E uma cena de abalar os sentimentos. Vila dos Mortos está de volta, e eu me orgulho de fazer parte desse grupo.
Um bjo carinhoso sempre.
Bárbara