Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 13 de fevereiro de 2010

JackDaniels e Muleka42 (1)

A professora Maria Helena estava cansada da vida enfadonha que levava ao lado do marido, Leopoldo, corretor de imóveis. Casou-se muito jovem e teve dois filhos antes de completar 20 anos: Lucas, 24, e Lucília, 23. Já empregados e encaminhados na vida. O rapaz, advogado de escritório importante em Belo Horizonte. A moça, engenheira, já estava contratada por multinacional antes mesmo de receber o diploma. Tudo parecia extraordinário na vida de Maria Helena. Quase tudo, é verdade. O casamento não ia nada bem. Sexo vez por outra, quando o parceiro se apresentava.

Num primeiro momento, a professora pensou que a falta de entusiasmo e interesse do companheiro fosse por causa dela. Sentia-se quarentona feia e sem sal. Chegou a desabafar com amiga psicóloga, colega docente:

– O Leopoldo não me procura mais. Nem encosta em mim na cama.
– Sei bem o que é isso, Lelena. Lá em casa com o Otacílio é a mesma coisa.

A colega não ajudou. Só contribuiu ainda mais com o desespero de Maria Helena, que não pensava em se separar, já que, tirando o sexo, vivia mais ou menos feliz ao lado do Leopoldo, para ela o melhor pai do mundo: “Não fosse ele, o Lucas e a Lucília não seriam tão bem-sucedidos”, pensava. Foi no computador, em pleno sábado de carnaval, que ela decidiu buscar solução para o problema: “E vai ser na internet”, disse para si mesma. Navegou, navegou e foi parar em sala de bate-papo para quarentões solitários. Os filhos estavam fora e o marido, como sempre, trabalhando no escritório que ficava no barracão dos fundos.

Trancou a porta do quarto para ficar mais à vontade e pensou em apelido bem atrevido para apimentar o ambiente virtual: “Muleka. Isso. Muleka42 tá bom”. Só que, timidíssima, não conseguia puxar assunto ou dar trela para ninguém. Até que apareceu um tal JackDaniels, baranguérrimo: “Muleka42, você é o meu número”. Ela achou aquilo tão engraçado, que decidiu dar mole: “Ah... legal”. Foi o suficiente para deixar o moço com nome de uísque na dela. Em pouco mais de duas horas já pareciam velhos conhecidos. Por fim, decidiram encontro na tarde de domingo. Marcaram em quebrada lá pelas bandas de Macacos, em São Sebastião das Águas Claras. Confessaram-se comprometidos e não queriam dar bandeira: “Belo Horizonte é um ovo”, teclou JackDaniels e se despediu: “Fui”. Ela: “Eu também”, e desconectou-se. Não demorou para que o maridão chegasse: “Porta trancada? Eu hein...”, e foi se deitar. Não trocaram mais palavra e o dia amanheceu comum.

“Fiquei de mostrar uma fazenda para um cliente, lá em Pará de Minas”. Dizendo isso, depois do café, Leopoldo saiu cedo. Ela almoçou sozinha e preparou sua melhor roupa para o encontro com o tal JackDaniels, que se dizia piloto de avião.

(Continua no próximo sábado)


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 13/2/10

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