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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Operário andante


Um dos realizadores mais criativos do teatro em Minas Gerais, Marcelo Bones fala do desafio de dirigir o setor de artes cênicas da Funarte e cobra a união do setor

No momento em que o governo federal busca o fim de privilégios e a descentralização dos recursos públicos destinados à cultura por meio da Lei Rouanet, um palhaço profissional, operário andante, vem fazendo diferença na Fundação Nacional de Artes (Funarte). Desde que assumiu a diretoria de artes cênicas da instituição, no início de 2009, o sociólogo, professor e diretor de teatro Marcelo Bones, de 49 anos, vem percorrendo o país de norte a sul em busca de diálogo com artistas da dança, do circo e do teatro. Avesso ao que chama “gestor de gabinete”, Bones, realizador de talento reconhecido em Minas Gerais, fala com orgulho e especial empolgação da nova empreitada. Reconhece que ainda há muito a ser feito, mas entende que o Brasil vive tempos de maturidade no que se refere às políticas públicas culturais.

“Ainda temos um Estado precário. E a própria sociedade também não entende muito bem o papel da cultura. Infelizmente, o Estado ainda não consegue tratar o artista como ele merece, não dá conta disso. Vivemos um momento de reconstrução das políticas culturais no Brasil”, argumenta. Por outro lado, mostra-se otimista com o empenho do governo em reverter esse quadro e assumir a cultura como prioridade. Articulado e cheio de fôlego e ideias, Bones cita o filósofo e cientista político italiano Antonio Gramsci (1891-1937) ao falar de sua atuação na diretoria de artes cênicas. Diz-se “gestor orgânico” ao discorrer sobre desafios e militância. Fundador e diretor do Grupo Teatro Andante (1978), Bones se faz valer de bom proveito dos conceitos de cidadania. Afirma ter buscado no teatro, desde o início da carreira, lá nos anos 1970, sua plataforma de diálogo.

Sobre ter se afastado das salas de ensaio para atuar como gestor público, o encenador e clown vê a atribuição como algo transitório e inevitável. “Escolhi o teatro para falar com o mundo. Na minha trajetória, mesmo sendo muito intenso na criação, ao mesmo tempo sempre estive envolvido com as questões políticas da cultura. Ainda mais nos últimos cinco anos, com o Redemoinho (Movimento Brasileiro de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral) e com a fundação da Rede Brasileira de Teatro de Rua. Sempre procurei cruzar estas duas vertentes como pessoa pública, querendo debater e aumentar o alcance do teatro que faço”, afirma.

A volta à cena Bones prevê para breve, já que sua atuação na Funarte deve se encerrar no fim do ano. Ele pretende levar adiante sua trilogia tebana (Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona), de Sófocles, com o Andante. A história trágica de Édipo Rei ganhou as ruas em 2008 e os outros dois textos ainda estão no papel. Se o Bones articulador político começa a ganhar projeção, o Bones criador já fez história. Com O beijo no asfalto (1997) e O homem da cabeça de papelão (2001), escreveu seu nome nos registros de alta conta. O primeiro, com a Cia. Reviu a Volta, teve a difícil missão de dividir espaço na mídia com o mesmo título levado ao palco por Wilson Oliveira. Quando se falava apenas em O beijo no asfalto, do Grupo Encena, surge Bones com seu Nelson Rodrigues para as ruas, absolutamente diferente, mas com igualdade de virtudes.

Já com O homem da cabeça de papelão, de João do Rio, adaptado por João das Neves, Marcelo Bones realizou seu trabalho mais bem-acabado, com encenação e direção de elenco impecáveis. Logo depois veio o convite para trabalhar com Chico Pelúcio na direção de Um trem chamado desejo (2002), com o Grupo Galpão. A parceria se firmou no Cine Horto e Bones ganhou impulso para alçar voos mais altos, como a coordenação do Festival Internacional de Teatro (FIT), em 2004, e, agora, com o papel de executivo na Funarte, comandada por Sérgio Mamberti.

Puxão de orelha

Atento à cena nacional, Marcelo Bones faz considerações bastante positivas sobre o teatro atual, seus fatores estéticos, pesquisa e linguagem. Fala, especialmente, do que ocorre em Minas Gerais, região que ele conhece bem. No entanto, chama a atenção para os ruídos que enfraquecem a arte. “O teatro vive hoje questões estéticas muito importantes. Só que nós já fomos mais unidos. Não sei quando, mas perdemos essa carroça do tempo. Não temos mais a visão de mobilização nacional do passado. Já tivemos um sentido de categoria e perdemos isso. Estamos agora sentindo a necessidade de reconstruir isso. Neste sentido, a dança avançou muito e tem se mostrado extremamente articulada. É invejável o que a dança vem fazendo. O circo e a dança. O teatro vive um momento de assistir a isso”, reflete.

“Belo Horizonte tem dado uma mostra impressionante do seu vigor. Minas Gerais vem sendo reconhecida como grande celeiro de criação. É assim com o Espanca!, com Aqueles dois, da Cia. Luna Lunera, em cartaz no Rio de Janeiro, e com outros grupos. Belo Horizonte tem tradição com o trabalho de teatro de grupo. O teatro tem que ser importante para quem faz. Vemos isso na reconstrução da linguagem, na busca por pesquisa. Existe um campo para o debate em BH que ainda não está amalgamado. É preciso transformar isso numa ferramenta que possa acrescentar ao teatro”, defende.

Mesmo em trânsito pelo país, Bones tem acompanhado o movimento intenso de e-mails gerado no setor teatral de Minas a partir de entrevista de Jota Dangelo e Pedro Paulo Cava ao Estado de Minas. Parte da categoria não gostou do que disseram os veteranos e, com isso, dois grupos armaram uma guerrilha de ideias na web, num debate que parece longe de acabar, devido à contundência das manifestações. De um lado, os que defendem o teatro experimental; de outro, os que apostam na comunicação com o público. No coração da polêmica, a utilização de verbas públicas por meio de leis de incentivo e outras formas de patrocínio.

Bones não se esquivou em comentar o movimento. “É preciso superar essa falsa dicotomia que leva à rivalidade”, diz. “É muito mais importante fazer com que o teatro seja necessário para a sociedade. Infelizmente, a gente ainda não conseguiu realizar isso. Essa polarização enganosa em que a gente se meteu não acrescenta. Temos que amadurecer cada vez mais a ideia de democracia. Saber conviver com a diversidade. As diferenças não são destrutivas umas às outras. Não tenho respostas ou fórmulas para essas questões. Tenho pistas. Nós, artistas, precisamos nos apresentar para a sociedade como algo importante, necessário. Há algo que gosto de dizer: ‘Ninguém vai se salvar sozinho’.”

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 8/2/10

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