Fantástico - Vai fazer o quê?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O "teatro charada" (?)

Com a palavra, o Grupo Teatro Invertido:


Uma ode à charada

A produção artística e o posicionamento político de jovens grupos teatrais, criticadas por dois importantes nomes do teatro mineiro: Jota D’Ângelo e Pedro Paulo Cava, em recente matéria veiculada pelo Jornal Estado de Minas, realmente merece a discussão que vem provocando via internet. Talvez, porque o Grupo Teatro Invertido se considere um forte representante do novo gênero que chamam de “teatro charada”, ao ler a referida matéria, a resposta escrita por Gustavo Bones do Grupo Espanca! e a réplica de Cava, também nos sentimos motivados à contribuir com este debate.

Num momento em que as fórmulas prontas, os sucessos requentados e o “mais do mesmo” têm tanto espaço na grande mídia, a classificação “teatro charada” não diminui ou desmerece nosso trabalho. Pelo contrário, nos satisfaz reconhecer que o teatro feito pelos grupos da cidade consegue propor charadas a seus espectadores e, certamente, essa tem sido uma de nossas maiores preocupações. Parte do tempo que dedicamos às nossas criações é tomada pela formulação de perguntas – muitas delas que nem nós mesmos sabemos responder – e por isso as compartilhamos com nosso público. Acreditamos, assim, estabelecer um diálogo real com aquele que nos assiste, considerando-o co-autor da obra que apresentamos, sem subestimá-lo ou nivelar por baixo sua capacidade de reflexão.

Nosso maior compromisso é com a construção democrática de uma nação justa, sensível e que garanta ao cidadão seus direitos constitucionais, dentre eles, o acesso à cultura. Não podemos, portanto, nos furtar à dimensão política inerente ao nosso fazer e perceber que ela é muita mais profunda do que parece. Defender o incentivo fiscal como principal mecanismo de financiamento à cultura, é obrigar o artista brasileiro a se relacionar com seu público como consumidor, com seu trabalho como produto, com sua obra como mercadoria, seguindo única e exclusivamente o princípio da mais valia. O repasse da responsabilidade do Estado de fomento à produção cultural para a iniciativa privada tem causado tais distorções e feito predominar no país uma política privatizante, excludente e concentradora.

Trabalhamos na contramão da economia de mercado, reconhecemos o direito à cultura como exercício crítico da cidadania e por isso, não podemos nos sujeitar aos interesses do capital. Viver reféns de uma farta bilheteria ou dos humores do marketing empresarial para garantir nossa manutenção é o mesmo que decretar o fim de nosso ofício.

Reafirmamos o entendimento de que cabe ao Estado criar condições sociais, políticas e econômicas para a construção de uma sociedade na qual a arte e a cultura sejam compreendidas como um direito universal. A luta por mecanismos legais de fomento que proporcionem ao artista a criação livre das influências mercadológicas, financiada diretamente por fundos públicos, é uma causa baseada em princípios éticos e ideológicos, que extrapola questões estéticas e corporativistas.

Nossa crença em um Estado efetivamente democrático e que conte com a participação da sociedade civil organizada na formulação de suas políticas públicas, resiste com tamanha veemência por também acreditarmos que a luta contra a censura e o cerceamento à liberdade de expressão, travada durante o período da ditadura, não foi em vão.

Grupo Teatro Invertido*

Belo Horizonte, 04 de fevereiro de 2010.

* O Grupo Teatro Invertido foi criado em 2004, tem cinco espetáculos em seu repertório, e desde 2008 é sediado no bairro Sagrada Família - Belo Horizonte.

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